26 agosto 2014

Pessoas idosas em risco de queda

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Um dos mantras da medicina diz “Primeiro, não causar dano”. Também dizem que devemos “consolar sempre, aliviar quando possível, curar às vezes”. Infelizmente, o empenho em fazer valer esses dogmas pode resultar em iatrogenias, e as consequências do tratamento podem sair tão caras quanto a doença em si.

Um bom exemplo disso foi uma pesquisa European Journal of Public Health em julho/2014: Metade dos 20 medicamentos mais comumente receitados para pessoas idosas aumentam o risco de quedas. Analgésicos, antidepressivos e sedativos são os mais preocupantes.

Tudo bem que as doenças de base para as quais esses medicamentos são receitados já trazem em si a possibilidade de quedas, mas os pesquisadores salientaram que, com relação às quedas em específico, essas drogas só pioram o cenário. E foram analisados dados de 7 milhões de suecos com mais de 65 anos de idade, tendo sido identificados mais de 60 mil casos de quedas que resultaram em hospitalização.

Após os devidos ajustes para o número de medicações em uso, algumas tendências curiosas surgiram: homens e mulheres em uso de analgésicos opioides e homens em uso de antidepressivos apresentam duas vezes mais possibilidade de sofrerem quedas quando comparados a pessoas da mesma idade que não estavam utilizando estes medicamentos. Mulheres em uso de antidepressivos apresentam um risco de queda 75%  maior.

Os estrogênios e a maioria dos remédios anti-hipertensivos não afetaram o risco de quedas – na verdade, estas medicações até apresentaram um efeito protetor. A única exceção coube aos diuréticos quando empregados em altas doses.

O estudo não foi capaz de provar que as medicações eram a causa direta das quedas. Entretanto, atentar para a existência deste risco deve fazer parte da prescrição, e sintomas como vertigem, tontura, comprometimento psicomotor, fraqueza muscular e alterações cognitivas devem levantar bandeiras de alarme.

Em alguns casos, os riscos não compensam os benefícios, e as medicações deveriam ser modificadas ou suspensas.

25 agosto 2014

Obesidade e câncer: cara ou coroa?

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Um trabalho publicado dia desses na Lancet (Agosto/2014) jogou mais lenha na fogueira da obesidade.

Há muito se sabe, a partir de pequenos levantamentos estatísticos, que o peso corporal está relacionado ao desenvolvimento de certos tipos de cânceres. Mas os ingleses levaram isso um (graaande) passo adiante: utilizando registros clínicos do Clinical Practice Research Datalink, eles identificaram mais de 5 milhões de pessoas com idade igual ou superior a 16 anos e que não apresentavam diagnóstico de câncer no momento da avaliação. O IMC médio calculado para o grupo foi 25,5 kg/m².

Durante 7 anos e meio, esse coorte foi acompanhado e aproximadamente 170 mil indivíduos desenvolveram pelo menos uma das 22 neoplasias de interesse do estudo. Os 22 tipos escolhidos respondiam por 90% de todos os tipos de tumores malignos diagnosticados na Grã-Bretanha, e o aumento no IMC mostrou estar associado a nada menos que 17 deles.

O aumento no peso foi determinante para aumentar o risco de câncer na mama (em mulheres na pós-menopausa), na vesicular biliar, nos rins, no fígado, no intestino grosso, na tireóide, nos ovários, na região cervical e para leucemia. Por outro lado, algumas evidências sugeriram que o IMC aumentado exercia um certo efeito protetor para câncer de mama na pré-menopausa e para câncer na próstata.

Cada aumento de 5 kg/m² no IMC (equivalente a 15,5 kg) associou-se a um aumento de 62% no risco de câncer no útero, 25% para câncer renal e 10% para câncer no intestino grosso.

A temporada de caça à obesidade está aberta há muito tempo, graças à sua associação com hipertensão arterial e diabetes – e todas as consequências e custos daí decorrentes. Mas agora este estudo confirma, sem a menor sombra de dúvida, que o papel desempenhado pela obesidade representa um fator de risco de verdade, sólido, progressivo e definitivo.

O excesso de peso é certamente uma causa evitável de câncer. Ponto.

Agora resta saber se a moeda vai cair.

Antipsicóticos e problemas renais

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Médico – CRMSP 142.346
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Um estudo populacional avaliando os registros de mais de 2000 pacientes acima de 64 anos de idade mostrou que aqueles em uso de quetiapina, risperidona ou olanzapina apresentam um risco duas vezes maior de insuficiência renal aguda que pessoas da mesma idade que não tomam esses remédios.

Milhões de pessoas fazem uso de antipsicóticos a cada ano. Estas drogas específicas são bastante utilizadas para controlar sintomas comportamentais em pacientes com demência – ainda que esta recomendação não tenha aprovação da maioria dos especialistas no assunto.

A pesquisa, publicada em agosto/2014 no Annals of Internal Medicine, é válida por lançar mais luz sobre o uso de antipsicóticos. Esses medicamentos não devem ser execrados, mas seu emprego merece cautela, especialmente em idosos, e o ideal é monitorizar a função renal e a pressão arterial periodicamente.

22 agosto 2014

Ftalatos e Testosterona: você já ouviu falar?

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Segundo a Mãe Wikipedia, “os ftalatos são um grupo de compostos químicos derivados do ácido ftálico, tal como o cloro ftalato, utilizado como aditivo para deixar o plástico mais maleável. Dentre os ftalatos existentes, o DEHP (ftalato de di-2-etilhexila) é um dos mais difíceis de serem biodegradados”.

Ótimo, mas... e você com isso?

“Você com isso” é o seguinte: um novo estudo publicado online no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (agosto/2014) mostrou que a exposição a ftalatos está associada a uma redução significativa dos níveis de testosterona em homens, mulheres e crianças.

A pesquisa envolveu 2208 participantes arrolados no National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) entre 2011 e 2012. Apesar de muitos ftalatos terem sido associados a reduções significativas nos níveis de testosterona em ambos sexos e em faixas etárias diferentes, as associações mais fortes foram encontradas em mulheres entre 40 e 60 anos de idade: nestas, os níveis de testosterona caíram até 24%, especialmente quando expostas ao mono-benzil ftalato.  

A exposição à DEHP também associou-se a uma redução de 20,1% nos níveis de testosterona em geral, chegando a 29% nos meninos entre 6 e 12 anos de idade.

Curiosamente, a maior exposição a ftalatos não pareceu afetar os níveis de testosterona em homens adultos.

A testosterona é um hormônio importante, mesmo nas mulheres: a deficiência deste hormônio prejudica o desempenho sexual, a libido, as funções cognitivas, a densidade óssea, o sistema cardiovascular e a sensação geral de bem-estar. 

Ainda que as implicações clínicas ainda não estejam bem claras, parece seguro afirmar que estes achados adicionam evidências importantes quanto ao risco reprodutivo associado a exposição a estes produtos químicos. 

Como a maioria dos produtos que contém ftalatos não informa isso em seu rótulo, a Sociedade Americana de Endocrinologia e a OMS emitiram recomendações para que sejam realizadas maiores pesquisas sobre o tópico e emitidos alertas sobre o potencial de risco.

Não sou a OMS e isso é só mais um blog. Mas o alerta tá aí.

A Arte da Comunicação Eficaz

© Alessandro Loiola



A arte da comunicação eficaz merecia por si só uma biblioteca inteira. De quase nada adianta seu conhecimento enciclopédico se ele não pode ser compreendido pelas pessoas ao seu redor. A comunicação correta aumenta consideravelmente as chances de suas propostas se transformarem em mudanças ao invés de resistências. Sua capacidade de dialogar claramente é tão ou mais importante quanto onde você cursou a faculdade ou quantas pós-graduações traz no currículo.

A maioria dos cursos de medicina peca de modo imperdoável ao não ensinar quesitos específicos de liderança e comunicação aos seus alunos. Formam-se médicos cheios de verdades científicas, mas poucos comunicadores. E, na hora de conversar com o paciente, sua intransigência em fazer valer a ciência sobre todas as coisas de nada ajuda. Para melhorar substancialmente sua interação com a equipe, os pacientes e a comunidade, atente para 7 equívocos comuns da comunicação:

1• VOCÊ ACHA QUE SABE FALAR. Uma porção substancial dos desentendimentos reside no fato de você achar que está passando uma determinada mensagem quando, em contrapartida, o outro está fazendo uma interpretação completamente invertida da conversa.

Aprender a comunicar-se de modo efetivo é como aprender a utilizar um programa de computador: os comandos devem ser bem claros, cada tecla deve ser apertada com um objetivo bem determinado. Nada de meias palavras, segundas intenções ou agendas secretas: apenas apresente sua mensagem de modo simples, limpo e não agressivo.


2• VOCÊ ACHA QUE É CAPAZ DE MUDAR INTIMAMENTE OUTRA PESSOA. Aceite isso desde o princípio. Você pode criar um contexto que favoreça a mudança do outro, mas sua força de vontade ou seu ímpeto jamais mudarão a natureza de outrem. A pessoa pode curvar-se à sua vontade para conseguir um ganho secundário, terminar uma discussão, sair de uma situação constrangedora, mas apenas o fato dela ter concordado com seus argumentos quer dizer muito pouco.

Você não pode mudar outra pessoa: a mudança é um processo de forças internas, nunca externas. Por isso, “não diga aos outros como fazer as coisas: diga o que tem que ser feito e deixe que lhe surpreendam com os resultados” (George S. Patton).


3• VOCÊ NÃO RELAXA. Se quiser realmente resolver uma situação, relaxe. Qualquer diálogo produz melhores resultados em um ambiente mais sereno. “Um capitão assustado assusta a tripulação inteira” (Lister Sinclair).


4• VOCÊ DISCUTE CULPADOS AO INVÉS DE DISCUTIR SOLUÇÕES. Fazer consultas cheias de observações criticando o(s) outro(s) é uma excelente maneira de desperdiçar seu tempo. Primeiro, porque não existe essa história de “crítica construtiva”. Toda crítica dói e destrói. Mesmo que pouco. Ademais, as críticas que você lança no calor da discussão irão apenas lhe distanciar da pessoa criticada.

Reclamar indiscriminadamente, gritando e xingando aos quatro ventos, pode ser uma tentação enorme, mas acredite: ao final da tempestade, você terá perdido terreno que já havia sido conquistado. Talvez você faça isso para assumir o papel de vítima indefesa ou agressor invencível e balançar a autoconfiança do outro, mas o que você está fazendo de fato é diminuindo o nível de confiança do outro em relação a você.


5• VOCÊ NÃO ADICIONA PESSOAS À SUA PROPOSTA. Durante qualquer discussão para definir metas (de tratamento, de atendimento, de cobertura vacinal ou pré-natal, etc), a palavra “você” frequentemente é utilizada para solidificar o isolamento e o papel de vítima de quem se está reclamando: “você tem que seguir a receita”, “você tem que mudar”, “você podia muito bem ter feito isso ou aquilo”, etc.

Um profissional verdadeiramente adulto e comprometido tem a coragem de representar o seu papel, ao invés de eximir-se dele. Esse profissional utiliza a palavra “nós”. “Nós temos que encontrar um caminho para melhorar o tratamento”, “Nós vamos nos entender”, “Nós poderíamos ter agido de outra forma”. “Nós” não é uma palavra que fecha portas. Muito pelo contrário: um único “Nós” pode abrir várias delas.


6• VOCÊ SEMPRE COMEÇA PELOS PONTOS FRACOS. Existe um pré-requisito estratégico se você pretende obter sucesso com suas propostas: além de saber comunicar-se, conhecer as limitações da argumentação, estar relaxado(a), adicionado e focado nas soluções, você deve iniciar sua investida utilizando as ferramentas fortes de que dispõe.

Conheça os pontos fortes de sua equipe, de seu local de atendimento, de seus pacientes e da comunidade a que você está assistindo: é muito mais fácil e eficaz construir sobre pontos fortes que desperdiçar seus esforços escrutinando os pontos fracos. Muitos colegas perdem um tempo enorme tentando resolver absolutamente tudo que está errado, e nunca conseguem resultado algum.

Um exemplo que ilustra bem a construção de propostas sobre pontos fortes versus pontos fracos pode está ilustrado na seguinte história: há muitos anos, as companhias aéreas pediam ao final do vôo que os passageiros não esquecessem seus pertences de mão, mas esqueciam de um detalhe simples: estamos habituados a prestar atenção ao verbo da frase, não na sua negativa. Então, enquanto as portas eram colocadas em manual, tudo que ficava martelando na cabeça dos passageiros era para que “esquecessem seus pertences de mão”. O não da frase passava batido, e incontáveis bolsas, casacos, guarda-chuvas, óculos, livros, mamadeiras, frasqueiras, fones de ouvido, travesseiros de viagem, agendas e telefones celulares iam fazer sua escala no setor de achados e perdidos do aeroporto.

Uma pequena mudança na recomendação fez uma enorme diferença, reduzindo drasticamente a quantidade de objetos deixados para trás. Hoje, após o pouso, a mensagem diz ...”e lembrem-se de pegar seus pertences de mão”.

Pode parecer bobagem, mas funciona. Eu lhe digo: “Não pense na cor vermelha!” e você automaticamente pensa em azul, transparente, música, borboleta ou... na cor vermelha?

O mesmo enredo vale para reuniões com grupos maiores. Ao invés de iniciar o encontro com a atmosfera de que “Não adianta porque nada nunca muda”, tente inspirar-se com o lema “Gosto do nosso trabalho porque existe sempre uma abertura para conversar e melhorar as coisas”. Ainda que isso seja uma mentira temporária - sim, adultos mentem, lamento lhe informar -, o fato é que este tom de diálogo provoca um tipo de profecia auto-realizável, evocando no outro o desejo de corresponder àquela observação.

Esqueça as fraquezas, esqueça o que você não gosta e o que não está dando certo – porque colocar isso como ponto de partida provavelmente é o que você tem feito e não tem funcionado. Comece o diálogo salientando os pontos fortes que você conhece tão bem (no outro ou na sua equipe) ou as forças que você gostaria que fossem demonstradas com maior constância. Não tente consertar coisa alguma de imediato. Concentre-se em administrar uma injeção de entusiasmo e deixe esse novo estado de ânimo vicejar por um dia ou dois.

Podemos não ser perfeitos naquilo que fazemos com entusiasmo, mas certamente somos uma porcaria naquilo que fazemos sem entusiasmo algum.


7• VOCÊ ACHA QUE SABE OUVIR. O desejo de aliviar o sofrimento é uma das melhores ferramentas motivacionais entre profissionais de saúde. E não existe melhor maneira de expressar esse desejo que ouvir com todo o seu coração, sem intenção de julgar, condenar ou criticar. Permita que seu interlocutor perceba que está bem no coração dos acontecimentos naquele momento e que as decisões que ele/ela toma fazem toda a diferença para o sucesso do que está sendo proposto.

Ajude o outro a manifestar o que ele/ela deseja, preste atenção até você descobrir, em silêncio, qual é o problema. E então, transforme o problema em uma meta que esteja no interesse de ambos. Mostre o caminho com serenidade e justiça, e veja o que acontece. Quando este processo de escutar é feito de modo consciente, construímos uma estrada de valorização, estabilidade e progresso.

21 agosto 2014

Para os colegas que atendem em ambulatório: o que é preciso saber sobre as leis de Ética e Confidencialidade?

© Dr. Alessandro Loiola
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A legislação a respeito dos parâmetros do que o médico PODE e DEVE fazer – e também do que NÃO pode e NÃO deve -, deve ser do seu pleno domínio. PLENO domínio. Por isso, copie estas páginas a seguir e deixe-as à mão na sua gaveta mais próxima. Estas dicas já me foram úteis antes e certamente lhe serão preciosas de alguma maneira em um momento futuro.

O paciente deve ser recebido com respeito e diligência. No momento do atendimento, apresente-se dizendo seu nome e posto e, caso ele esteja acompanhado, diga-lhe que ele tem o direito de solicitar que o acompanhante aguarde do lado de fora do consultório. Esta primeira conduta estabelece o tom do seu relacionamento: a prioridade é DO PACIENTE.

Por isso, caso a presença do acompanhante cause qualquer constrangimento, ele pode ser polidamente orientado a aguardar na sala de espera em obediência ao Código de Ética Médica (CEM):

• II Princípio Fundamental: O médico guardará sigilo a respeito das informações de que detenha conhecimento no desempenho de suas funções, com exceção dos casos previstos em lei.

• Artigo 73: é vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente.


Esta recomendação vale para crianças e adolescentes? Sim, vale. E muito. Para efeitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), considera-se criança a pessoa com até 12 anos de idade e adolescente aquela entre 12 e 18 anos de idade. O Código Civil estabelece como 18 anos de idade o marco para maioridade civil, podendo esta ser alcançada em maiores de 16 anos em face de alguns atos (emancipação, casamento, exercício de emprego público efetivo, etc).

O atendimento de menores de idade sem o acompanhante também se encaixa nos preceitos do CEM:

• Artigo 74º: é vedado ao médico revelar sigilo profissional relacionado a paciente menor de idade, inclusive a seus pais ou representantes legais, desde que o menor tenha capacidade de discernimento, salvo quando a não revelação possa acarretar dano ao paciente.

No âmbito da saúde pública, crianças e adolescentes podem até mesmo agendar suas próprias consultas e DEVEM ser atendidos na falta de um responsável ou familiar maior de idade. Lembre-se que a interpretação da legislação deve se dar sempre a favor da criança e do adolescente, e as ações e serviços de saúde são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no Artigo 198 da Constituição Federal, obedecendo ainda aos seguintes princípios:

• ... III - preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral;

• IV - igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie;

• V - direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde;


Ademais, o Artigo 3º do ECA estabelece que criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral, sendo-lhes assegurado por lei todas as oportunidades e facilidades a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

Caso a criança ou adolescente compareça à Unidade de Saúde da Família (USF) para atendimento, este deverá ser realizado também em respeito aos Artigos 11, 15, 16 e 17 do ECA:

• Artigo 11: É assegurado atendimento médico à criança e ao adolescente, através do Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo o acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde.

• Artigo 15: A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.

• Artigo 16: O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: I – ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais; (...) VII – buscar refúgio, auxílio e orientação.

• Artigo 17: O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.


A Lei ressalta o direito de defesa da criança e do adolescente quando seus interesses venham a colidir com os de seus pais ou responsável. Uma adolescente que procure orientações e assistência para contracepção tem o direito de receber este atendimento de modo sigiloso, seguindo os preceitos do CEM...

• Artigo 42: (é vedado ao médico) Desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre método contraceptivo, devendo sempre esclarecê-lo sobre indicação, segurança, reversibilidade e risco de cada método.

...E a Lei n.º 9.263/1996, que regula um conjunto de ações para o planejamento familiar, saúde sexual e saúde reprodutiva. Esta Lei estabelece diretrizes ou restrições específicas para adolescentes, devendo ser interpretada conjuntamente com a Lei orgânica do SUS e o ECA, que garantem o direito do adolescente o atendimento integral e incondicional (restrição apenas para cirurgia de esterilização).

Os adolescentes de ambos os sexos tem direito à educação sexual, ao sigilo sobre sua atividade sexual, ao acesso e disponibilidade gratuita do teste HIV e aos demais insumos de prevenção. A consciência desse direito implica em reconhecer a individualidade (e ao mesmo tempo a vulnerabilidade) do adolescente, estimulando a responsabilidade com sua própria saúde. O respeito a sua autonomia faz com que eles passem de objeto a sujeito de direito.

No atendimento de menores de 18 anos de idade, faça prevalecer o bom-senso contido nas recomendações do MS:

• Qualquer exigência que possa afastar ou impedir o exercício pleno do adolescente de seu direito fundamental à saúde e à liberdade (p.ex.: a obrigatoriedade da presença de um responsável para acompanhamento no serviço de saúde), constitui lesão ao direito maior de uma vida saudável.

• Caso a equipe de saúde entenda que o usuário não possui condições de decidir sozinho sobre alguma intervenção em razão de sua complexidade, deve, primeiramente, realizar as intervenções urgentes que se façam necessárias, e, em seguida, abordar o adolescente de forma clara expondo a necessidade de que um responsável o assista e o auxilie no acompanhamento.

• Busque sempre encorajar o adolescente a envolver a família no acompanhamento dos seus problemas, já que os pais ou responsáveis têm a obrigação legal de proteção e orientação de seus filhos ou tutelados.

• Havendo resistência fundada e receio de que a comunicação ao responsável legal implique em afastamento do usuário ou dano à sua saúde, solicite uma pessoa maior e capaz indicada pelo adolescente para acompanhá-lo e auxiliar a equipe de saúde na condução do caso.

• A quebra do sigilo, sempre que possível, deve ser decidida pela equipe de saúde juntamente com o adolescente e fundamentada no benefício real para a pessoa assistida, e não como uma forma de “livrar-se do problema”.


Três outras situações frequentes de risco de violação da ética e da confidencialidade são bastante comuns no dia a dia da USF: empregadores que desejam informações sobre atestados, seguradoras que desejam informações adicionais sobre o falecimento de um segurado e pessoas que desejam acesso ao registro clínico do paciente. Nestes cenários, respeite e cite em sua resposta os seguintes artigos do CEM, respectivamente:

• Artigo 76: (é vedado ao médico) Revelar informações confidenciais obtidas quando do exame médico de trabalhadores, inclusive por exigência dos dirigentes de empresas ou de instituições, salvo se o silêncio puser em risco a saúde dos empregados ou da comunidade.

• Artigo 77: (é vedado ao médico) Prestar informações a empresas seguradoras sobre as circunstâncias da morte do paciente sob seus cuidados, além das contidas na declaração de óbito,

• Artigo 85: (é vedado ao médico) Permitir o manuseio e o conhecimento dos prontuários por pessoas não  obrigadas ao sigilo profissional quando sob sua responsabilidade.


Finalmente, o contrato de confidencialidade deve ser equilibrado com a Lei nas situações em que sua  observância inflexível pode lhe colocar em risco de processos por negligência, omissão ou postergação de determinada conduta. Mantenha-se atento para:

• Artigo 243 (ECA): (configura crime) Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente.

• Artigo 66 (Código Penal): (configura crime) Deixar de comunicar à autoridade competente: I - crime de ação pública, de que teve conhecimento no exercício de função pública, desde que a ação penal não dependa de representação; II - crime de ação pública, de que teve conhecimento no exercício da medicina ou de outra profissão sanitária, desde que a ação penal não dependa de representação e a comunicação não exponha o cliente a procedimento criminal.

20 agosto 2014

... e por falar em Saúde Pública: como vai sua equipe de ESF?

© Dr. Alessandro Loiola

 
Se você tem menos de 40 anos de idade, quase certamente nunca ouviu falar de INAMPS ou tem pouca ideia sobre como era estruturada a saúde em nosso país antes de 1988. O Sistema Único de Saúde, por mais que detonem tudo relacionado a ele, foi uma CONQUISTA. O SUS foi um enorme passo adiante na elaboração de uma saúde verdadeiramente coletiva, funcional e eficaz.

Mas nada se constrói do dia para a noite em um país de dimensões planetárias como o nosso. É preciso esforço, paciência, perseverança, profissionalismo, planejamento, raciocínio, comprometimento pessoal e – acima de tudo – tempo. Um navio não faz curvas bruscas, e uma nação do tamanho do Brasil não é dirigida de modo diferente. Nossas mudanças ocorrem, mas são lentas: temos uma população de 20 “Portugais” distribuída em uma área maior que 200 Holandas. A massa a ser redirecionada é simplesmente gigantesca demais.

Seguindo o planejamento estratégico do SUS, em 1994 o Governo Federal implantou mais um tijolo à sua empreitada da saúde pública: em um movimento de acordo com o bom senso médico nos países com as melhores práticas de saúde do mundo, foi criado o Programa de Saúde da Família, logo rebatizado de Estratégia de Saúde da Família (ESF).

A medicina ocidental tornou-se um pequeno monstro sádico. A prioridade de criar doenças, máquinas para descobri-las e procedimentos para curá-las passou a gerar dinheiro demais, e desvirtuou o conceito de saúde. Saúde deixou de ser uma sensação de bem estar e plenitude e passou a ser a ausência de doenças. Mas ninguém NUNCA está sem doença alguma. Vivemos todos em um rodízio sem fim de alergias, urticárias, rinites, angústias, resfriados, tristezas, cefaleia, sobrepeso, palpitações, cólicas menstruais, torções, insônia, dores musculares e uma infinidade de outros sintomas e transtornos - que passaram a ser escrutinados com exames cada vez mais caros e tratamentos ainda mais dispendiosos.

Será tudo isso realmente necessário?

O esforço para implantar a ESF veio para mostrar uma via alternativa de assistência à saúde. Mais humanizada, prática, mais racional, porém mais próxima do próximo. A bem da verdade, e a despeito do que os apóstolos da medicina baseada em procedimentos possam ter profetizado em seu infinito catecismo junto às legiões que exigem cuidados especializados desnecessários, são precisos poucos recursos para aliviar o sofrimento da maioria das pessoas que buscam assistência: cerca de 85% dos problemas podem ser resolvidos no nível das Unidades Básicas de Saúde.

Mesmo as consultas especializadas deveriam fazer parte de um armário de recursos à disposição do Generalista, que acompanharia seu paciente nas idas e vindas nos diferentes especialistas, ao invés de se tornarem um refúgio para onde encaminhamos o que não sabemos (ou não queremos) tratar.

Para alguém profundamente apaixonado por Medicina, a Estratégia de Saúde da Família é um sopro bem-vindo, com seus conceitos de Integralidade e Resolutividade, ideias e metas razoáveis, boas ferramentas e uso judicioso de recursos.

Nada é perfeito, e temos um sistema de saúde à semelhança do povo que o faz e usa. Entretanto, como bem disse Gandhi: devemos nos tornar o mundo que queremos. Cabe a cada um de nós fazer sua parte mais que o melhor possível. Bora lá!

Celulares podem colocar a saúde da criança em risco?

© Dr. Alessandro Loiola
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O risco da radiação de micro-ondas (RDM) emitida por equipamentos eletrônicos, especialmente com relação às crianças e bebês em gestação, tem sido objeto de especulação há várias décadas. Apesar dos dados até o momento serem bastante conflitantes, existem de fato evidências científicas associando RDM e câncer.

Partindo desta premissa, recentemente foi publicada uma excelente revisão do assunto no Journal of Microscopy and Ultrastructure. Os pesquisadores fizeram um garimpo na literatura médica e avaliaram dados epidemiológicos de exposição a aparelhos de telefone celular entre 2009 e 2014. O que descobriram? Que crianças e bebês em gestação apresentam um risco considerável de danos neurológicos e biológicos decorrente da RDM emitida por estes equipamentos.

A velocidade de absorção da RDM é maior em crianças que em adultos pois seus cérebros absorvem mais, seus crânios são mais finos, e seu tamanho relativo é menor. O feto é particularmente vulnerável: a exposição à RDM pode resultar em degeneração da bainha de mielina que protege os neurônios.

É irrealista (e quase psicótico) achar que por causa disso os telefones celulares (e outros aparelhos emissores de RDM) serão banidos. Aparelhos que emitem RDM não podem ser considerados 100% seguros – mas automóveis também não.

O que os dados desta revisão sugerem é que deveria haver uma preocupação maior dos organismos governamentais com relação a este tópico, promovendo debates e estudos para assegurar os limites reais de segurança.

Até que estas pesquisas sejam realizadas, os autores do estudo fizeram algumas recomendações práticas:
  • A distância é sua amiga: manter o telefone celular a uma distância de 15 cm do seu ouvido reduz em 10.000 vezes o risco de exposição à RDM.
  • A menos que esteja completamente desligado, seu celular está sempre emitindo radiação. Se não o estiver utilizando, mantenha-o distante do seu corpo (p.ex.: em uma bolsa, sacola, mochila ou gaveta).
  • Mulheres gestantes devem manter distante da barriga todo e qualquer equipamento eletrônico.
  • Não coloque aparelhos eletrônicos dentro do berço do bebê.
  • Crianças e adolescentes devem ser ensinados a utilizar equipamentos emissores de RDM de um modo seguro. Por exemplo: um estudo do Pew Research Center mostrou que 75% dos adolescentes e pré-adolescentes americanos dormem a noite inteira com o celular debaixo do travesseiro. Fala sério...
  • Uma vez que o risco é cumulativa, as crianças deveriam minimizar o tempo que passam utilizando telefones celulares e sem fio. Por outro lado, serviços de telefonia que utilizam o computador (quando a conexão com a Internet é feita por meio de cabo) não emitem radiação e seu uso deveria ser encorajado.
  • Finalmente, em casa, os aparelhos roteadores Wi-Fi devem ser colocados longe dos lugares onde as crianças passam a maior parte do dia.
É isso aí. O recado tá dado.

Problemas mentais em crianças estão aumentando

© Dr. Alessandro Loiola
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Apesar da quantidade de crianças com limitações físicas ter diminuído 12% nos EUA na última década, o número de crianças como limitações relacionadas a problemas de desenvolvimento neurológico ou mental aumentou em 21% no mesmo período. Este dado foi apresentado na nova edição da revista Pediatrics (2014;134:530-538).

Crianças vivendo na linha da pobreza apresentam os maiores índices de limitação (102 casos para cada 1000 pessoas), mas – curiosamente – aquelas vivendo em lares com renda acima de 4 vezes o salário mínimo apresentaram o maior aumento no número de casos notificados (acréscimo de 28% em 10 anos contra 10% em 10 anos para os lares mais pobres).

Ainda que a pesquisa não tenha sido feita para determinar as causas do aumento, os autores do estudo especularam que talvez a diminuição do estigma tenha contribuído para o aumento: os pais agora estão deixando de esconder as crianças com transtornos mentais e passaram a procurar ajuda ativamente.

Os profissionais de saúde também parecem estar mais atentos para o problema, e os diagnósticos de Autismo (em seus vários espectros) e TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade) estão se tornando mais comuns.

Se você convive com crianças, sabe como perceber se o desenvolvimento psico-motor dela está indo de acordo com o esperado? Se não sabe, tá esperando o quê? Google it !

19 agosto 2014

Altos níveis de IL-6 em crianças = risco de transtornos psiquiátricos na idade adulta

© Dr. Alessandro Loiola
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Pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, descobriram que crianças com níveis elevados de Interleucina-6 (IL-6) aos 9 anos de idade apresentam uma probabilidade 55% maior de apresentarem depressão e 81% maior para surtos psicóticos a partir dos 18 anos.

Aos 18 anos, 20,5% dos adolescentes que se encontravam no terço maior dos níveis de IL-6 na infância haviam sido diagnosticados com depressão, contra 18% daqueles no terço médio e 13,6% daqueles no terço inferior. O estudo foi publicado online na edição de agosto/2014 da revista JAMA Psychiatry.

Estes números possuem implicações práticas (e epidemiológicas): a depressão que surge na adolescência pode estar sendo biologicamente preparada na infância. E como a IL-6 é um mediador inflamatório, medidas simples para reduzir seus níveis no organismo como, por exemplo, melhorar a estabilidade do nível familiar (o estresse do relacionamento interfamiliar desequilibrado aumenta os níveis de Il-6), seguir dieta saudável e praticar atividades físicas regularmente, podem e certamente irão repercutir na saúde mental do indivíduo lá na frente.

A associação entre IL-6 e transtornos psiquiátricos pode abrir uma nova frente de recursos farmacológicos para tratar e prevenir estes problemas. Por conta deste pequeno detalhe, pode ter certeza, muitos laboratórios farmacêuticos estão sorrindo neste exato momento.

Gestantes em trabalho de parto prematuro não estão recebendo os remédios que deveriam

© Dr. Alessandro Loiola
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Um estudo realizado pela OMS e publicado na respeitada revista Lancet em agosto/2014 mostrou que metade das mulheres com sintomas de trabalho de parto prematuro (TPP) não recebem as medicações necessárias para o problema.

A pesquisa avaliou mais de 300.000 partos com mais de 22 semanas de gestação  ocorridos entre maio de 2010 e dezembro de 2011, englobando 359 hospitais em 29 países distribuídos na África, Ásia, America Latina e Oriente Médio. Dos partos contabilizados, 6% eram de pré-termos.

Os cientistas procuraram determinar como os médicos assistentes estavam utilizando corticoides e tocolíticos nas gestantes em TPP – estas drogas de baixíssimo custo estimulam a maturação pulmonar dos fetos e inibem as contrações e a progressão do trabalho de parto.

Das mulheres em TPP entre 26-34 semanas, apenas 52% receberam tratamento com corticoides; entre 22-25 semanas, 19%; e entre 35-36 semanas, 24%. Das mulheres que apresentaram parto pré-termo espontâneo e não-complicado, apenas 48% receberam o tratamento. No geral, das mulheres que apresentavam indicação formal de tratamento para evitar o TPP, apenas 18% receberam corticoides E tocolíticos.

Estes dados são assustadores: o não-emprego correto destes medicamentos expõe mães e bebês a riscos tão absurdos quanto desnecessários. Entenda: apesar das mulheres em trabalho de parto prematuro entre 26 e 34 semanas terem indicação formal de tratamento com corticoides, apenas metade recebeu a medicação. Daquelas com indicação de tocolíticos, apenas cerca de duas em cada 10 receberam. E daquelas com indicação de ambos tratamentos, apenas 4 em cada 10 foram tratadas.

Medicina não é um jogo. Ao lidar com pacientes, sempre achei que mais grave do que não ter um determinado recurso terapêutico é tê-lo e ser incapaz de utilizá-lo - ou ignorante demais para tanto, o que dá quase sempre no mesmo.

Medicamento contra insônia dobra o número de atendimentos em unidades de emergência


Um relatório emitido recentemente (2014) nos EUA pela SAMHSA (Substance Abuse and Mental Health Services Administration) mostrou que o número de atendimentos nas unidades de emergência devido uso excessivo de zolpidem, uma droga aprovada pelo FDA para o combate da insônia, praticamente dobrou durante os períodos de 2005-2006 e 2009-2010.

Em 2010, foram atendidas mais de 20.000 pessoas com efeitos colaterais potencialmente graves relacionado a este remédio - 68% eram mulheres. A associação de zolpidem com outras substâncias (como diazepam, analgésicos narcóticos e mesmo bebidas alcoólicas) potencializa absurdamente o efeito sedativo da medicação. Cerca de 26% dos pacientes atendidos terminaram necessitando internação em uma unidade de tratamento intensivo.

Graças à alta incidência de reações adversas, o órgão solicitou aos fabricantes que diminuíssem em 50% a dose recomendada para mulheres. Penso que seria prudente também usar o mesmo parâmetro para os homens.

Vários estudos mostram que 96% dos atendimentos de urgência envolvendo tentativa de suicídio em pacientes entre 45 e 64 anos de idade estão relacionados ao abuso de medicamentos (de venda livre ou controlados). Destes casos, 48% envolvem remédios para ansiedade e/ou para insônia.

Medicações contra insônia, ansiedade e depressão podem ser benéficos, mas devem ser empregados com bastante critério e de forma monitorada. Tanto médicos quanto pacientes devem discutir abertamente sobre os riscos e as reações adversas de qualquer medicação, procurando uma alternativa viável sempre que possível. A resposta para os problemas da vida NUNCA estarão em um comprimido escondido em um blíster ou uma pequena caixa de papel.

18 agosto 2014

O Uso de cocaína pode aumentar o risco de uma pessoa sofrer um derrame?

© Dr. Alessandro Loiola
https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/saudeparatodos/


Um estudo recente do Centro Nacional de Epidemiologia & Instituto de Saúde Carlos III, da Espanha, mostrou que usuários de cocaína possuem um risco até 20 vezes maior de sofrer um derrame (AVC) em comparação a não-usuários.

Esta foi a primeira revisão sistemática que avaliou e sumarizou as evidências científicas de outros estudos epidemiológicos abordando o uso de cocaína e a incidência de AVC. A pesquisa foi publicada na edição de setembro/2014 da prestigiada revista Drug and Alcohol Dependence.

A cocaína atua aumentando a pressão arterial, a frequência cardíaca e resistência vascular no sistema nervoso central. Estes eventos reduzem o fluxo sanguíneo e o aporte de oxigênio cerebral por várias horas, podendo resultar em AVC isquêmico ou hemorrágico. Além disso, a cocaína intensifica a coagulação sanguínea e pode produzir arritmias cardíacas – ingredientes perfeitos para a formação de êmbolos no coração que são em seguida disparados em direção ao cérebro.

Certamente, a cocaína não é uma escolha segura para “fazer a cabeça”.

PÍLULA SEM MISTÉRIOS

Toda a revolução sexual dos anos 60 e 70 baseou-se na tríade “emancipação feminina + carros mais confortáveis + pílulas anticoncepcionais”. Para extrair o melhor da modernidade, nunca é demais entender exatamente o funcionamento de cada um desses fatores. Como acredito que você encontrará boas informações sobre os 2 primeiros assuntos em alguma outra parte, vou me resignar com o terceiro fator.

A pílula convencional é composta por uma dose pequena de Estrógeno e uma dose moderada de Progestógeno, dois hormônios femininos. O estrógeno mais utilizado é o Etinil-estradiol. O risco de efeitos colaterais está relacionado diretamente ao conteúdo de estrógenos da sua pílula, e não à duração do uso. A maioria das mulheres pode utilizar a pílula até os 50 anos de idade, tranqüilamente.

Todos os progestógenos são derivados da testosterona e, por isso, possuem alguns efeitos masculinizantes. Os progestógenos mais novos, como levonorgestrel (o mais utilizado), gestodeno e acetato de ciproterona, apresentam menos efeitos colaterais neste sentido.

Estudos mostram que a combinação de hormônios na pílula reduz a incidência de vários distúrbios, incluindo problemas menstruais, câncer e cistos ovarianos, doença inflamatória pélvica, tumores no endométrio, doenças benignas da mama e alterações na glândula tireóide. Em contrapartida, a pílula pode aumentar seu risco de trombose venosa, embolia pulmonar e ataque do coração. Mulheres que fumam e tomam pílula são consideradas um grupo de altíssimo risco para morte súbita cardíaca, especialmente a partir dos 35 anos.

Toda mulher anseia pelo controle de sua vida, mas muitas andam por aí tomando pílula sem saber que estes hormônios adicionais podem dar um nó nas rédeas do seu destino. Por isso, anote aí algumas pegadinhas que podem ser úteis na sua próxima visita ao médico:

- Se você nunca tomou pílula, uma boa primeira escolha são os anticoncepcionais monofásicos, aqueles em que você toma um mesmo comprimido ao longo de toda a cartela. Inicie com uma dose diária de 20 a 30 microgramas de etinilestradiol.

- Prefira pílulas com altas doses de estrógeno (p.ex.: 50 microgramas) se você sofre de epilepsia ou apresenta problemas menstruais perturbadores. Se já lhe recomendaram exorcismo durante alguma menstruação, você pode estar neste grupo.

- O seu problema tem a ver com acne, ganho persistente de peso, dores nas mamas, depressão ou crescimento de pelos indesejáveis? Em alguns casos, basta escolher pílulas com baixas doses de progestógenos ou aumentar a dose de etinilestradiol para facilitar o controle destes problemas.

- Muita atenção com remédios que podem diminuir a eficácia da sua pílula, tais como suplementos de vitamina C, antibióticos, antifúngicos (p.ex.: griseofulvina), rifampicina e anticonvulsivantes (com exceção do ácido valpróico).

- Diminuição do desejo sexual e sangramentos no começo ou no meio do ciclo também podem ser contornados com aumentos na dose de estrógeno. Mas cuidado: náuseas, vômitos, ganho periódico de peso, manchas no rosto (chamadas cloasma), e sensação de “engurgitamento” ou “hipersensibilidade” nos seios podem ser sinais de excesso de estrógenos. Daí a importância de garantir o emprego do seu gincolecologista.

- Se você sofre de enxaqueca, procure imediatamente seu médico de confiança para interromper a pílula.

- As pílulas anticoncepcionais contendo apenas progestógenos são uma boa alternativa para mulheres com mais de 45 anos de idade, fumantes, diabéticas, hipertensas, com enxaqueca ou em fase de aleitamento. Apesar de não serem tão eficazes quanto as pílulas combinadas contendo progestógenos + estrógenos, elas podem ser melhor que praticar abstinência sexual ou encher a casa de bocas famintas.

15 agosto 2014

OS MANDAMENTOS DA PESSOA

© Alessandro Loiola



Em 2015, a Assembléia Geral da ONU responsável pela famosa Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 70 anos.

Sete décadas!, e o país mais rico do mundo não possui um sistema de saúde público. Pode falar mal o quanto quiser do nosso SUS, mas pelo menos nós temos um SUS. Pobre, maltrapilho, míope-quase-cego e trôpego das pernas, mas ele está aí, de portas abertas para sua sorte ou azar.

Nos EUA, a sempre-candidata à presidência Hillary Clinton, esposa daquele outro envolvido no teste do bafômetro com uma estagiária, foi eleita senadora de Nova Iorque prometendo nada mais, nada menos, que um SUS para a Grande Maçã.

Promessas de políticos à parte, o SUS americano nunca aconteceu. Apesar do governo de lá investir muito mais que o daqui - o gasto per capta com saúde nos EUA é 10 vezes maior que o brasileiro -, a população americana recebe do Estado bem menos assistência em saúde.

A cada ano a desnutrição ceifa a vida de mais de 300.000 crianças com menos de 5 anos de idade e o continente considerado berço da humanidade ainda é assolado pelas mesmas tragédias de quando descemos das árvores. Epidemias, fome e violência sufocam a África há milênios, e não existem sinais de que estas mazelas irão diminuir tão cedo.

Por todos estes motivos e inspiradas pela ONU, diversas organizações elaboraram longas listas de direitos que deveriam ser democraticamente agraciados a todo e qualquer ser humano vivo.

Pensei oferecer minha modesta colaboração elaborando uma nova proposta dos deveres primordiais de todos nós. Chega de “direitos” e “liberdades” do ser humano, pensei. Precisamos de “obrigações” saudáveis.

Fiz questão de enumerar apenas 7 mandamentos, pois já existe uma outra excelente lista bíblica com 10 itens que pouca gente presta atenção. Quem sabe, reduzindo um pouco o número, alguém finalmente pare para refletir de verdade.

Então vamos lá: toda pessoa deve...

1.... Enfrentar as mudanças e as incertezas da vida sem medo, e enfrentar o medo com espírito prático e alegre. É preciso manter o senso de humor afiado para aceitar o inevitável maior: sua própria transitoriedade e de tudo que lhe cerca. Ou você acha que seu time do coração irá liderar o campeonato brasileiro para sempre? Tudo passa.

2.... Ser capaz de metabolizar os sentimentos negativos, como raiva, angústia e tristeza, transformado-os em motivação, harmonia, esperança e outros antídotos naturais para o negativismo estúpido.

3.... Ter um contato apenas suficiente com a realidade. Nem pouco demais, nem muito demais. Não estamos preparados para lidar com a realidade como ela é, nua e crua. A fantasia é essencial para garantir sua sobrevivência e a da espécie. Mantenha os pés no chão; a cabeça, nas nuvens - e sonhe bastante!

4.... Conhecer-se ao máximo. Só assim seremos capazes de reparar os danos em nós mesmos e nos nossos semelhantes. E você acha que se conhece? Pois então saiba que seu corpo pesa 40 vezes mais que seu cérebro; temos cerca de 3 sonhos por noite; uma criança faz em média mais de 300 perguntas por dia; as unhas das mãos crescem 4 vezes mais rápido que as dos pés; e seus olhos permanecem mais ou menos do mesmo tamanho desde o nascimento. O nariz e as orelhas, por outro lado, nunca param de crescer. Responda novamente: será que você se conhece mesmo ou anda apenas arranhando a superfície?

5.... Ser capaz e livre para compreender e corresponder às necessidades do grupo em que vive. A esta resposta atenciosa ao sofrimento do próximo chamamos de Bondade. Importante: a bondade que não nasce espontânea e desprendida de outros interesses pessoais não é bondade, é escambo.

6.... Ter a coragem de dizer “eu errei” e aprender com a experiência. Afinal, errar é humano. Colocar a culpa nos outros é sábio.

7.... Ser capaz de amar e ser amada. Sem este dever primordial, nós, reles mamíferos medíocres, jamais teríamos prosperado até aqui. Sem esta obrigação de laços, em um futuro cada vez mais próximo, nos tornaremos menos que uma lembrança na poeira deste planeta. Mas lembre-se: o amor mais verdadeiro nasce a partir do deslumbramento com sua própria vida. Encante-se!

14 agosto 2014

OS ADOÇANTES E O FINAL DOS TEMPOS

© Dr. Alessandro Loiola

Existe uma fábula onde um menino muito travesso e entediado, colocado para vigiar algumas ovelhas, divertia-se gritando “Lobo ! Lobo !”. Quando os adultos da aldeia acudiam, armados até os dentes, o menino ria do trote. Assim que todos retornavam para suas casas, ele gritava “lobo !” novamente, e a cena se repetia.

Um belo dia, o socorro parou de vir. As pessoas estavam cansadas de cair sempre na mesma pegadinha. Nesse dia, o lobo apareceu de verdade. E o pobre menino gritou, chamou, cuspiu seus pulmões, “Lobo ! Lobo ! Lobo !!”, mas ninguém acudiu.

Vira e mexe, os especialistas gritam “Lobo !”. Anos atrás, o lobo era a guerra atômica que dizimaria a humanidade em frações de segundo, literalmente entregando o planeta às baratas. E então o lobo se transformou na inflação, no FMI e na dívida externa. E então, no desmatamento do pulmão do planeta e na perda da biodiversidade. Pois agora temos o lobo metamorfoseado em aquecimento global. Com promessa de falta d’água, crise na energia elétrica e catástrofes climáticas.

A cada década, as previsões do Apocalipse ganham um novo fôlego, se atualizando segundo o gosto da moda na última estação. Entretanto, para quem já usou kichute e aprendeu a ler em cartilhas, ouvir alguém gritando “lobo!” perdeu a graça. Banalizado, o anúncio do final do mundo está virando arroz de festa.

Por isso me surpreendi quando deparei com uma das manchetes mais comentadas nas últimas semanas, sobre um estudo publicado no jornal Behavioral Neuroscience concluindo que adoçantes a base de sacarina, ao invés de emagrecerem, engordam. Como pouca gente parou para ler exatamente do que se tratava, sobrou apenas o grito de lobo no ar: adoçante engorda!

Os adoçantes vivem ocupando manchetes estapafúrdias. Era de se esperar que ninguém mais prestasse atenção, mas não foi bem o que aconteceu. E haja saliva para explicar isso no consultório.
Para você ficar por dentro: a bendita pesquisa analisou dois grupos de ratos durante um certo período de tempo. Inicialmente, o primeiro grupo recebia uma dieta com adoçante e outro, com açúcar. Mais tarde, os dois grupos recebiam ração comum à vontade. Observou-se que o grupo do adoçante comia a ração em maior quantidade, tentando compensar a restrição de calorias, e terminou engordando mais que o grupo do açúcar.

A conclusão deveria ser que dietas muito restritivas desequilibram os centros reguladores da fome no cérebro. Estas dietas podem funcionar em um primeiro momento, mas não funcionam para sempre, e o peso perdido termina voltando com juros e correção monetária.

Infelizmente, não foi bem esta manchete que desembarcou na mídia. Chegou uma outra, esdrúxula, dizendo “Cientistas comprovam: adoçante engorda!”, ou alguma coisa do tipo. Foi a gota. A opinião pública começou a apontar seus dedos acusadores com a velha legenda “Tá vendo? Eu disse que essa porcaria fazia mal !”. Segurando suas tochas e bradando palavras de ordem - Queime no inferno, ciclamato, queime! -, algumas pessoas ameaçam ir até o centro da cidade linchar um caminhão de aspartame.

Ah, o que seria da vida sem esses camponeses...

Você quer ter medo da extinção em massa? Tenha medo do cigarro, que está envolvido em 18 dos 20 novos casos de câncer de pulmão diagnosticados no Brasil diariamente. E não precisa ser tabagista ativo não, viu? Fumante passivo também serve. Destes 18 felizes sorteados, 17 irão virar fumaça nos próximos 5 anos, a despeito do tratamento. O câncer pulmonar não é considerado um dos mais letais à toa.

Quer mesmo ter medo? Tenha medo do alcoolismo. O consumo de bebidas alcoólicas está envolvido em 20% dos acidentes automobilísticos, 24% dos assassinatos e 11% dos suicídios. Tudo que você precisa fazer é abrir a próxima latinha.

Quer ter medo? Deixe o vidro de adoçante de lado e preste mais atenção no saleiro e no sofá da sala. O consumo excessivo de sal e o sedentarismo podem resultar em pressão alta e doenças cardiovasculares, responsáveis pela morte de 32 pessoas por hora.

Antes que você me acuse de ser um fiel representante dos profetas do final dos tempos, fique sabendo que, mesmo com os tímpanos fadigados de tanto gritarem “lobo !” por aí, eu não desanimo. No próximo levante dos dândis da histeria coletiva, estou programando pegar minha mochila e sair para um passeio. Vou visitar o buraco na camada de ozônio e algumas ogivas nucleares. Os pobrezinhos andam tão esquecidos...

13 agosto 2014

A RAÇÃO DE EINSTEIN


O plantão não estava corrido quando a pediatra do andar de cima veio para uma visita-desabafo. Ofereci a cadeira, um sorriso e dois ouvidos.

- Você não vai acreditar. Olha só.

E desfiou o causo da menina atendida há pouco com uma senhora crise alérgica. Apesar dos 8 cachorros criados dentro de casa, a mãe fez questão de frisar: “já rodamos todos os testes possíveis e ela não tem alergia aos cachorrinhos, não. Inclusive, todos eles são muito bem tratados, vacinados e alimentados sempre com ração de primeira qualidade”.

O quase-atrito teve início quando a colega preencheu a receita, com uma coletânea de remédios nada em conta:
- Doutora, mas isso vai ficar caro! E eu ando tão apertada de dinheiro...

A pediatra não se conteve e soltou a pérola óbvia:
- Mas... e o dinheiro para comprar a ração de primeira qualidade para todos aqueles cachorrinhos? Esse dinheiro não falta, né?

Hum, golpe baixo não vale. Além do quê, sei muito bem onde essa conversa leva: a lugar algum. Justamente porque este tipo de esclarecimento vai contra a famosa frase de Einstein, proferida lá pelos idos de 1940 e qualquer coisa: “existem apenas duas coisas infinitas - o Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo”.

Naquele dia, a frase do velho Albert foi representada por uma ração para cachorros – ou para crianças, melhor dizendo. Triste, muito triste. Há várias décadas, seguimos alimentando o grosso das gerações futuras com este prato, a ração da estupidez de Einstein. O consumo antes do desenvolvimento, o poder no lugar do afeto, a aparência em prol do conteúdo.

Os ingredientes desta ração estão recheando o futuro com problemas de um gosto bem amargo: 1/3 das crianças e 1 em cada 8 adolescentes sofrem de depressão, tornando o suicídio uma das 10 causas mais comuns de mortes na população abaixo dos 15 anos de idade.

Cerca de 5% das crianças entre 7-11 anos de idade apresentam distúrbios da ansiedade e mais de 10% estão acima do peso. Aproximadamente 15% dos adolescentes fazem uso sistemático de alguma droga (lícita ou ilícita), e os sintomas da síndrome do pânico afetam 1 de cada 20 destes projetos de adultos. Bom, pelo menos para os psiquiatras, as próximas décadas prometem ser divertidíssimas.

Fora das estatísticas, as conseqüências da Ração de Einstein podem ser percebidas em outros sintomas. Por exemplo: o sujeito tem um quintal cheio de lama e limo. Os anos se passam e ele nem para enterrar uma semente de mamão, tomate, abacate, goiaba, cebolinha ou qualquer coisa que valha. Vivemos em um país excepcional, com frutas da época brotando aos montes em todas as épocas do ano. Mas quem tem tempo de plantar uma sementinha? Quase ninguém. Afinal, o pouco tempo que sobra é invariavelmente gasto com latinhas de cerveja, programas de auditório e bordões de incentivo para o futebol nas quartas-feiras. E tome um prato cheio da ração de Einstein.

O mesmo amigo, esse da casa sem frutas ou rede de esgoto, tem 5 filhos e 3 cachorros. Por que não 3 galinhas no lugar dos caninos? Primeiro: cachorro não bota ovo. Segundo: tirando alguns coreanos, não creio que alguém mais curta um delicioso ensopado de Rex com Totó aos domingos. Terceiro: se o bendito não tem tempo de acompanhar sequer o dever de casa das crianças, que diabos está fazendo criando 3 vira-latas? Olha aí, outra tigela da ração.

Felizmente, para os bons gourmets, é possível contornar a indigestão e optar por um prato mais saboroso. Podemos tomar outro caminho, um caminho mais de acordo com nossa capacidade de pensar. Um caminho onde a hipocrisia não é um condimento salpicado no arroz com feijão, e nossas crianças não recebem diariamente uma ração insossa de vícios e idéias empoeiradas.

A cada novo dia, a cada novo encontro com um ser humano, somos presenteados com a incrível oportunidade de criar um universo inédito, muito aquém da panela de estupidez profetizada por Einstein. Para preparar a refeição do futuro, repleta de cordialidade, ternura e altruísmo, só precisamos fazer uma única coisa extraordinária: escolher os ingredientes com inteligência.

Como você anda temperando sua vida?

12 agosto 2014

Fumar durante a gravidez pode afetar o comportamento da criança mais tarde?

© Dr. Alessandro Loiola

O fato do cigarro poder causar má-formações no bebê é um dado bastante conhecido, mas será que a exposição gestacional ao tabagismo poderia afetar também o comportamento da criança mais tarde?

Utilizando imagens de Ressonância Nuclear Magnética (RNM), pesquisadores do Central Institute of Mental Health (Universidade de Heidelberg, Alemanha) descobriram que adultos jovens cujas mães fumavam durante a gestação apresentavam baixa atividade em regiões do cérebro envolvidas com o controle da impulsividade. Estas alterações são semelhantes àquelas observadas em indivíduos com Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

O estudo envolveu 178 mulheres e seus respectivos bebês, que foram acompanhados desde o nascimento. Catorze mulheres gestantes (7,9% do total) relataram fumar 1 a 5 cigarros por dia; 24 (13,5%) fumaram mais que 5 cigarros por dia, e o restante não era tabagista (78,7%). As crianças cresceram e aos 25 anos foram submetidas a uma série de RNM. Em todas elas, a presença de sintomas de TDAH foi avaliada dos 2 aos 15 anos de idade.

Adultos com história de exposição ao tabaco durante a gestação apresentaram mais sintomas de TDAH entre os 2 e 15 anos de idade em comparação às crianças cujas mães não fumaram.
As alterações cerebrais que o cigarro provoca no bebê comprometem o bom funcionamento neural em regiões estratégicas, dificultando o aprendizado e favorecendo o desenvolvimento de comportamentos impulsivos na idade adulta – como o consumo de drogas, por exemplo.

Vale a reflexão.

CEFALEIA TENSIONAL

© Dr. Alessandro Loiola

Se existe uma coisa admirável nos cientistas médicos é a capacidade que eles têm de contabilizar tudo, quase como se cultivassem um fetiche por porcentagens e estatísticas. Por exemplo: estudos recentes calcularam que, dos 6 bilhões de seres humanos neste planeta, 25% apresentam algum transtorno psiquiátrico, 3% são levemente retardados e 1% sofre de esquizofrenia franca. Uma conta dessas só pode ser coisa de doido.

Algumas vezes, as estatísticas se referem a dados que, em última análise, parecem completamente inúteis: uma pesquisa da American Academy of Emergency Medicine calculou que o cidadão médio possui um risco de 30% de morte por infarto fulminante. E daí? Segundo minha modesta matemática, o risco de uma pessoa morrer por qualquer outra causa ao longo da vida é de 100%. No final, o motivo derradeiro não passará de pura burocracia para preencher papéis.

O resultado de uma outra pesquisa que recebi por email revelava que, depois de fazer sexo selvagem, 10% dos homens se viram para o lado direito, 10% se viram para o lado esquerdo e os 80% restantes se viram para chegar em casa antes que a patroa perceba. Esse sim, um dado sociológico chauvinista de extrema relevância.

Mapa da mina

Mas muitas dessas estatísticas possuem aplicações verdadeiramente úteis, como auxiliar na definição de políticas de saúde pública, elaborar orientações para facilitar o diagnóstico e tratamento de certos distúrbios, e – principalmente e acima de tudo – servir de mapa para que a indústria farmacêutica desenvolva novos medicamentos.

Um bom exemplo deste último emprego da ciência: sabendo que, anualmente, cerca de 90% dos homens e 95% das mulheres sofrem de pelo menos um episódio de dor de cabeça (38% dos adultos do mundo apresentarão uma crise ainda nas próximas duas semanas), os laboratórios lançam periodicamente campanhas milionárias para apresentação do analgésico definitivo ou do antiinflamatório mais eficaz de todos os tempos.

Atalhos

Algumas vezes, apertam um pouco o passo e começam a vender um medicamento cujos testes de segurança não foram completamente concluídos, mas qual o problema? Algumas centenas de pessoas cujos rins pararam de funcionar em razão daquela droga mal-sucedida não comprometerão toda a margem de lucro. E ano que vem a gente apresenta uma nova droga e tudo se esquece.

O triste é perceber que as pessoas anseiam por este tipo de atalho para saúde. Não querem compromissos, apenas um atalho. Esse é bem o caso da própria dor de cabeça – chamada de cefaléia no jargão médico. Todo mundo parece adorar um remédio para dor de cabeça, mas o problema pode representar a manifestação de distúrbios graves como sinusite, crise hipertensiva ou disfunção da coluna vertebral, que devem ser tratados com uma seriedade maior que uma simples aspirina.

Tensão excessiva

A cefaléia tensional, o tipo mais comum de dor de cabeça, costuma estar relacionada ao estresse, fadiga, depressão e personalidade perfeccionista. A causa está na tensão excessiva da musculatura da região cervical. Tipicamente, a dor é diária e mais intensa na região frontal ou occipital, podendo durar de algumas horas a vários dias. A dor se inicia logo pela manhã, ao sair da cama, e vai piorando ao longo do dia. O diagnóstico é feito por meio do exame médico.

Se você sofre de crises recorrentes de cefaléia tensional, existem algumas medidas práticas que você pode empregar antes de rechear seu estômago com pílulas de ultima geração: faça compressas mornas nos pontos dolorosos localizados no pescoço e na cabeça.

Exercícios físicos de alongamento para as costas e massagens realizadas por profissionais treinados também ajudam a resolver o problema, assim como não pular refeições, manter um padrão satisfatório de sono, aprender a lidar melhor com o estresse e utilizar antiinflamatórios naturais de eficácia comprovada, como o chá de folhas de algodão.

Efeito colateral

Atenção para o fato de que alguns remédios e substâncias podem causar dores de cabeça como efeito colateral. A lista inclui álcool, codeína, metildopa, beta-bloqueadores (p.ex.: atenolol), hidralazina, reserpina, bloqueadores de canais de cálcio (p.ex.: nifedipina), corticóides, ranitidina, indometacina, anticoncepcionais orais e nitratos sublinguais (muito utilizados para tratamento de crises de angina).

Apesar de mais de 95% dos casos de cefaléia não possuírem uma causa básica grave, alguns sintomas podem indicar a necessidade de uma ida mais rápida ao médico, tais como uma dor muito intensa ou severa (com ou sem rigidez de nuca), dor iniciada após uma pancada forte na cabeça, ou dor associada à febre, convulsão, confusão mental, perda da consciência ou desconforto nos olhos ou ouvidos, e dor capaz de interferir nas atividades do dia a dia.

08 agosto 2014

AS LEIS DA PERSUASÃO

© Dr. Alessandro Loiola

Um dos desafios mais difíceis no dia a dia do consultório se chama “adesão ao tratamento”. Apesar de tudo o que se ensina na faculdade, ninguém informa aos ilustres estudantes que suas receitas não são placas de pedra cravadas com mandamentos divinos. A receita é um simples pedaço de papel rabiscado com uma caligrafia sofrível – ou, nos casos de mais sorte, impressa em fonte arial tamanho 14.

A despeito da formação do doutor ou do tom solene da consulta, calcula-se que somente 1 de cada 5 pacientes siga todas as orientações passadas por escrito. Alguns guardam a receita como um trunfo na manga (“se piorar, eu compro”), outros fazem um copydesk (“vou tomar esses dois aqui e, se piorar, compro o restante”), e muitos partem em busca de uma segunda opinião – que pode ser tanto outro médico, o balconista da farmácia ou um vizinho que sofreu de um mal semelhante, não importa.

Para vencer a maldição da não-adesão ao tratamento é preciso dominar o uso de uma ferramenta capaz de transmutar conhecimento em benefícios palpáveis. Esta ferramenta versátil se chama Persuasão e pode ser dividida em 3 Leis que compartilho agora com você:

Primeira Lei da Persuasão: Lógica

Os objetivos devem expostos de modo racional e articulado. A comunicação deve ser clara. Esse papo do gênio incompreendido é uma balela. Se o sujeito é um gênio, o mínimo que ele precisa fazer é ser compreendido.

Por exemplo: uma abordagem para diminuição do peso ou da pressão arterial deve ter metas bem definidas. “Vamos baixar 2 Kg nas próximas duas semanas” ou “vamos tirar essa pressão de 170/120 e colocá-la em torno de 140/80 até sexta-feira”.

Não adianta entregar a receita e disparar o sujeito pelo mundo afora armado de um papel carimbado. Ele deve compreender profundamente o significado daquilo.

Segunda Lei da Persuasão: Paixão

As pessoas subestimam o valor da paixão. Hoje, mais do que nunca, ela se tornou um elemento estratégico para a persuasão. À medida que avançamos pelo que os sociólogos chamam de Era Pós-Moderna, as pessoas tendem a ser persuadidas cada vez mais pela paixão em detrimento da lógica e da razão. Vide os anúncios publicitários com frases cada vez mais curtas e imagens cada vez mais impactantes. Paixão vende.

Então você deveria jogar a lógica na lata de lixo? Lógico que não. Mas deve, sem sombra de dúvida, compreender a importância de ser apaixonado(a) pelo ponto de vista que você defende. Este estado provavelmente tem mais peso que a razão.

Exemplo: “a senhora vai fazer este regime para reduzir seus riscos cardiovasculares em níveis aceitáveis dentro das diretrizes clínicas mais atuais”. Tem lógica? Tem. Mas que tal: “a senhora vai seguir estas orientações para ficar ainda mais bonita e atraente, e começar extrair da vida tudo aquilo que pode e merece!”.

A paixão faz a diferença.

Terceira Lei da Persuasão: Ética

Sem dúvida alguma a Lei mais importante. Não importa o que você esteja dizendo ou fazendo, as pessoas estarão sempre lhe julgando. Suas habilidades podem ser fenomenais, mas se seus pacientes, colegas, parentes, amigos e conhecidos perceberem indícios suspeitos em sua integridade, eles permanecerão sempre com dois pés e meio atrás. É fácil fazer vista grossa para um equívoco, mas é quase impossível perdoar o mau caráter.

Você pode perguntar: e os políticos? Como eles podem persuadir alguém? Se a visão geral que temos deles é de um bando de corruptos sem escrúpulos, como eles conseguem se eleger?

Bom, a resposta para isso incomoda: isoladamente, as pessoas pensam de uma maneira, mas coletivamente agem de modo completamente diferente. Não somos a portas fechadas as mesmas pessoas que somos em público (grande surpresa...). Este fato singelo, quando elevado à média de uma nação, mostra que acreditamos que as coisas são como são e de repente aquele sujeito nem é tão mau assim. Será que este tipo de falha em seu caráter seria aceitável se fosse percebida?

A solução para a Terceira Lei consiste em ser honesto em seu íntimo, para só então projetar essa imagem para os outros. Nada de exageros ou tentativas infantis de tentar parecer mais do que vale. A sofisticação da ética está na completa ausência de exageros. É assim que funciona.

Se você é um profissional da área de saúde, reflita a respeito - uma vez obedecidas as Leis da Persuasão, as pessoas tenderão a responder melhor a você e às suas idéias. Por outro lado, se você é um paciente, passe a mensagem adiante - quem sabe, um dia, todos os receituários finalmente se tornem bilhetes premiados e não apenas folhas de papel soltas por aí.