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15 dezembro 2014

TOMAR PÍLULA ENGORDA?

A pílula anticoncepcional foi um sucesso estrondoso quando surgiu no começo da década de 1960. Meio século depois, continua sendo um dos métodos contraceptivos reversíveis mais populares do mundo. Apesar disso, meias verdades e ideias equivocadas insistem em contaminar essa conquista. E um dos mitos mais recorrentes é o fatídico “pílula engorda”.

Os efeitos colaterais mais comuns da pílula incluem sangramento fora hora, mamas doloridas, náuseas e dores de cabeça. EM ALGUMAS POUCAS MULHERES – leia essas palavras maiúsculas novamente -, a pílula pode resultar em um PEQUENO ganho de peso devido retenção hídrica. A bem da verdade, uma revisão de 44 estudos científicos não encontrou qualquer evidência de que a pílula cause ganhe ponderal na maioria das usuárias. Naqueles raros casos, o ganho de peso foi irrisório, mínimo e temporário, desaparecendo em 2 a 3 meses.

Se você foi uma das sorteadas por este fenômeno da natureza e ganhou alguns gramas a mais depois da pílula, converse com seu médico. Ele(a) poderá sugerir uma pílula de um tipo diferente. Isso porque nem todas as pílulas são a mesma coisa, você sabia?

Existem dois tipos de pílula: as de hormônios combinados (contendo estrogênio e um progestágeno) e as de progestágeno isolado. Apesar do estrogênio ser quase sempre o mesmo (estradiol), o progestágeno varia bastante. Marcas diferentes possuem doses diferentes de tipos diferentes de progestágenos, e os efeitos colaterais podem ser maiores ou menores dependendo disso. Independente do tipo de pílula, é importante usar pelo menos durante 3 meses para que os efeitos colaterais iniciais desapareçam.

Quando foi que o mito de que pílula engorda começou?

Quando a pílula surgiu, ela continha uma quantidade de estrogênio muito muito muito maior que aquela encontrada nas formulações mais modernas. Coisa de 1000 vezes mais hormônios que o necessário. Altas doses de estrogênio podem causar ganho de peso devido ao aumento do apetite e da retenção hídrica. Ou seja: nos dias da sua avó, a pílula de fato engordava.

Hum... Tinha smartphone naquela época? Pois é, algumas coisas mudaram.

As pílulas atuais possuem uma quantidade bem menor de hormônios, e não engordam mais.

Correlação não significa causa

Existem várias explicações para o fato das mulheres associarem o uso da pílula ao ganho de peso.
A principal e mais importante: o início do anticoncepcional em geral marca um período de transição de etapa e estilo de vida.

A taxa de metabolismo basal começa a desacelerar a partir dos 12 anos de idade, a auto-percepção corporal se intensifica na adolescência (qualquer gordurinha fora do lugar é o prenúncio de um terrível apocalipse inclemente de auto-crítica), o nível de atividade física diminui (você não vai exatamente brincar de pique esconde ou amarelinha com seu namorado aos 19 anos de idade...) e a autonomia na escolha dos próprios alimentos aumenta.

Mas é mais fácil culpar a coitada da pílula. Toda a ideia de estar colocando hormônios para dentro do seu organismo... puxa, isso deve causar alguma coisa, certo? Vai ver que é o ganho de peso. Bingo!

Do meu ponto de vista, a noção (equivocada) de que a pílula engorda atingiu um ponto que está além do alcance da ciência. As mulheres QUEREM acreditar nisso e nenhuma evidência científica neste planeta irá tirar essa pré-concepção da sua cabeça. Não interessa quantos estudos sejam feitos, quantas entrevistas de especialistas sejam lidas, a imensa maioria das senhoras e senhoritas DESEJA ARDENTEMENTE apontar a pílula como a responsável pelo excesso de peso.

Aceitar que as frustrações, a falta de planejamento e a ansiedade desmedida estejam sendo descontadas em calorias e transformadas em obesidade é simplesmente duro demais. Comprimidos não reclamam – nem acusam.

Eu acredito em você quando você diz que ganhou peso quando começou a tomar a pílula. Mas não acredito que você tenha percebido que a culpa nem de perto foi do contraceptivo.

Se você ainda duvida, seguem abaixo 10 referências científicas para justificar meu ponto de vista. Se ainda discorda, é bem simples: basta fazer SUA pesquisa e enviar SUAS referências científicas, ok? Aguardo ansiosamente.

  1. Uras R et al (2009). Evidence that in healthy young women, a six-cycle treatment with oral contraceptive containing 30 mcg of ethinylestradiol plus 2 mg of chlormadinone acetate reduces fat mass. Contraception, 79 (2), 117-21 PMID: 19135568
  2. Berenson AB, Rahman M (2009). Changes in weight, total fat, percent body fat, and central-to-peripheral fat ratio associated with injectable and oral contraceptive use. American journal of obstetrics and gynecology, 200 (3), 3290-8 PMID: 19254592 
  3. Beksinska ME et al. (2010). Prospective study of weight change in new adolescent users of DMPA, NET-EN, COCs, nonusers and discontinuers of hormonal contraception. Contraception, 81 (1), 30-4 PMID: 20004270 
  4. Edelman A et al (2010). Combined oral contraceptives and body weight: do oral contraceptives cause weight gain? A primate model. Human Reproduction, 26 (2), 330-336. 
  5. Adeghate E (2000). Effect of oral contraceptive steroid hormones on metabolic parameters of streptozotocin-induced diabetic rat. Contraception, 62 (6), 327-9 PMID: 11239621 
  6. Göretzlehner G et al (2011). Extended Cycles with the Combined Oral Contraceptive Chlormadinone Acetate 2 mg/Ethinylestradiol 0.03 mg: Pooled Analysis of Data from Three Large-Scale, Non-Interventional, Observational Studies. Clinical drug investigation PMID: 21250761 
  7. Teepker M et al. (2011). The effects of oral contraceptives on detection and pain thresholds as well as headache intensity during menstrual cycle in migraine. Headache, 51 (1), 92-104 PMID: 20946429 
  8. Breech LL, Braverman PK (2010). Safety, efficacy, actions, and patient acceptability of drospirenone/ethinyl estradiol contraceptive pills in the treatment of premenstrual dysphoric disorder. International journal of women's health, 1, 85-95 PMID: 21072278
  9. Procter-Gray E et al. (2008). Effect of Oral Contraceptives on Weight and Body Composition in Young Female Runners Medicine. Science in Sports & Exercise, 40 (7), 1205-1212.
  10. Gallo MF et al FM (2008). Combination contraceptives: effects on weight. Cochrane database of systematic reviews (Online) (4) PMID: 18843652

12 dezembro 2014

Novas recomendações para tratar o colesterol

© Dr. Alessandro Loiola

Em novembro de 2013, o American College of Cardiology (ACC) e a American Heart Association (AHA) publicaram novas diretrizes para a abordagem do colesterol. Apesar de novas, essas diretrizes não saíram menos confusas que as versões anteriores, sendo - em alguns aspectos - até mesmo conflitantes com guidelines respeitados como os da European Society of Cardiology/European Atherosclerosis Society, da Canadian Cardiovascular Society e da International Atherosclerosis Society. 
 
Algumas alterações foram meio que surpreendentes: as metas restritas de colesterol LDL foram abandonadas e em seu lugar foram especificados 4 grupos de pacientes que poderiam beneficiar-se do uso doses moderadas ou altas de estatinas. Estes 4 grupos incluem: 
  • Pessoas com doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) clinicamente evidente.
  • Pessoas com níveis de LDL iguais ou acima de 190 mg/dL. 
  • Pessoas com diabetes, idade entre 40 e 75 anos, LDL entre 70 e 189 mg/dL e sem evidencias de DCVA. 
  • Pessoas sem evidências de DCVA ou diabetes, porém com LDL entre 70 e 189 mg/dL e risco de DCVA em 10 anos igual ou superior a 7,5%.
Nestes casos, o tratamento deveria ser iniciado com altas doses de estatinas potentes (p.ex.: 80 mg de atorvastatina ou 40 mg de rosuvastatina por dia), tendo como objetivo uma redução média de 50% nos níveis de LDL. 
 
Tudo bem, a LDL continua sendo a lipoproteína em foco, mas agora não existem mais recomendações específicas sobre valores absolutos de redução. Fica a pergunta: até que ponto esta mudança de estratégia não foi uma jogada patrocinada pela indústria farmacêutica para tratar ainda mais pacientes com suas estatinas (incluindo até mesmo pessoas sem sinais ou sintomas de DCVA)? 
 
Vale lembrar que os algoritmos utilizados para avaliar o risco de DCVA em 10 anos podem apresentar resultados superestimados em até 75-150%, mostrando riscos onde nada existe. 
 
Ah, o que seria da vida sem uma teoria da conspiração de vez em quando... 
 
A parte sensata do guideline de 2013 da ACC/AHA está na simplificação: eles focaram principalmente no risco de DCVA relacionado ao colesterol LDL. Este é o ponto onde existe maior concordância entre os especialistas. (As evidências são bastante limitadas quando tentamos defender o aumento dos níveis de HDL ou a redução isolada dos níveis de triglicerídios como medidas eficazes para diminuir o risco de complicações cardiovasculares). 
 
A American Association of Clinical Endocrinologists e a National Lipid Association não concordaram com as diretrizes da ACC/AHA e, obviamente, recomendaram aos seus pares que seguissem seus próprios protocolos. Quem está mais certo? Apenas o tempo dirá... Quer dizer, o tempo e algumas dúzias de meta-análises de estudos clínicos populacionais randomizados multicêntricos duplo-cegos, certamente.

09 setembro 2014

SOJA PARA SUA SAÚDE

© Dr. Alessandro Loiola


Quando a primeira filha nasceu, minha esposa não teve leite suficiente para alimentá-la e fui encaminhado pelo pediatra à farmácia mais próxima para comprar uma lata de leite de vaca em pó. Voltei praguejando aos sete ventos pelo preço da lata – que, depois de aberta, mostrou ser ainda mais cara, pois metade era cheia de vento. Apenas a outra metade continha o famigerado pó.

Para provar que nada está tão ruim que não possa piorar um pouquinho, a pequena cria que colocamos no mundo teve alergia também ao leite de vaca em pó. Mais uma vez, o pediatra me encaminhou à farmácia mais próxima, mas dessa vez pelo menos ele foi camarada e avisou:
- Você vai comprar esse aqui, de soja. É muito bom, praticamente não dá alergia, mas é um pouco mais caro que o leite que você estava comprando antes.

Um pouco mais caro? Pura modéstia dele. Cada lata do leite de soja para bebês valia umas 5 latas do leite em pó comum. Naqueles tempos de inflação galopante, investir em latas de leite de soja quase superava a especulação com dólares, aproximando-se com vantagens do overnight.

Apesar de todo meu investimento nas latas terminar se transformando em fraldas e mais fraldas contendo subprodutos do metabolismo do bebê, o gasto valeu à pena. A soja mostrou-se uma excelente opção de suplemento alimentar e a pequena criança indefesa cresceu para se tornar uma típica adolescente inteligente, emburrada e com crises de TPM assustadoras.

O contato mais aprofundado com a soja naqueles anos despertou em mim um sincero respeito por este alimento excepcional. Leguminosa pertencente à mesma família do feijão, da lentilha e da ervilha, a soja é altamente nutritiva e riquíssima em proteínas.

Originário da China, o grão adaptou-se bem ao clima brasileiro. Atualmente, sua área de plantio no país é quase duas vezes maior que o tamanho da Inglaterra. Para você ter uma idéia melhor do que é isso: uma fila de caminhões, contendo a produção brasileira de soja de todo um ano, seria suficiente para dar mais de uma volta e meia em torno do planeta.

Nas últimas décadas, as pesquisas vêm mostrando que a soja pode fazer pequenas maravilhas à sua saúde. Quer exemplos?

Uma pesquisa publicada em 1995 na prestigiada revista cientifica New England Journal of Medicine mostrou que o consumo de produtos derivados da soja é capaz de reduzir os níveis sangüíneos de gorduras. Estudos subseqüentes realizados na Itália e no Canadá comprovaram este efeito protetor da soja: pessoas com concentrações muito elevadas de colesterol LDL (o colesterol “ruim”) podem reduzir estes níveis em até 24% apenas diminuindo o consumo de carnes vermelhas e consumindo pelo menos 50 gramas proteínas de soja por dia.

Os cientistas descobriram ainda que fitoquímicos presentes na soja, especialmente um chamado Genisteína, parecem ser capazes de reduzir o risco para osteoporose e doenças cardiovasculares.
Um modo bem simples de incorporar a soja à sua dieta habitual consiste em tomar um ou mais copos de leite de soja por dia: cada copo contém cerca de 4-10 gramas de proteína de soja. Cem gramas de Tofu, um queijo elaborado a partir do leite de soja, possuem cerca de 12 gramas de proteína de soja, e representa outro modo saboroso de consumir o grão.

A soja pode ser consumida ainda na forma de farinhas, pasta (Missô), molho (Shoyu), torrada (como amendoim) ou em cápsulas contendo extratos padronizados.

Mas lembre-se: o equilíbrio é fundamental. O consumo excessivo de soja (p.ex.: mais de 500 mL de leite de soja, ou 200 gramas de Tofu ou 50 gramas do grão torrado) pode resultar em problemas na glândula tireóide (Hipotireoidismo) e dificuldade de absorção de alguns sais minerais importantes para sua saúde. Ao introduzir a soja na sua dieta, faça-o de modo sensato e balanceado, de preferência após aconselhamento de um médico ou nutricionista.

04 setembro 2014

POR UM CONGRESSO BRASILEIRO DE TAUTOLOGIA MÉDICA

© Alessandro Loiola


"Tautologia" é o termo empregado para definir vícios de linguagem caracterizados pela repetição de uma idéia, porém com palavras diferentes. Se quiser, também pode chamar de pleonasmo ou redundância.

“Subir para cima” e “descer para baixo” são exemplos bem conhecidos de tautologia, mas existem outros que, de tão comuns, podem passar despercebidos: elo de ligação, acabamento final, certeza absoluta, quantia exata, livre escolha, multidão de pessoas, surpresa inesperada, outra alternativa, retornar de novo, planejar antecipadamente, empréstimo temporário, seu critério pessoal, gritar bem alto, encarar de frente, dividir em duas metades iguais... e por aí vai.

Em medicina, a detecção da tautologia se transformou em uma arte, especialmente nos pronto-socorros. Por exemplo: obeso sedentário, diabético teimoso, hipertenso ansioso... Nenhuma dessas figurinhas estaria ali se não fosse pela repetição da mesma idéia, com palavras diferentes.

O obeso não malha porque está gordo e está gordo porque não malha. O diabético insiste em não seguir a dieta porque a glicose está sempre descontrolada – e adivinhe por que ela vive assim? O hipertenso se preocupa tanto com medo de morrer de pressão alta que termina enfartando de qualquer forma. E a fila anda.

De todos os seres tautólogos que freqüentam as salas de espera e pronto-atendimentos da cidade, os Poliqueixosos Carentes são certamente os mais numerosos. Os representantes do gênero chegam cheios de dores, palpitações que não aparecem nos eletrocardiogramas, cansaço com insônia, falta de ar com bolo na garganta, coceira nos dentes, cãibras nas unhas, formigamento nos cabelos e toda espécie de queixa surrealista capaz de virar uma consulta.

Não que não estejam sofrendo de algum mal – a bem da verdade, não existe sofrimento mais honesto que aquele que aflige a alma. Mas os pelotões de poliqueixosos que se aglutinam querendo vários tratamentos para o mesmo diagnóstico fazem pensar: que diabos está acontecendo com o mundo de hoje? Parte da resposta pode estar do outro lado do mundo, na China.

Uma pesquisa realizada há alguns meses mostrou que o número de divórcios nunca foi tão grande entre os chineses. Mais surpreendente que a quantidade de separações foi a constatação do motivo: durante muitas décadas, os chineses foram estimulados a terem apenas 1 filho. Isso criou legiões acostumadas desde a infância a terem toda a atenção somente para si, sem necessidade de estabelecer e dividir vínculos com irmãos, tios, tias ou primos – simplesmente porque eles não existem.

A falta de um amadurecimento emocional na tenra infância, compartilhando as agruras e alegrias do núcleo familiar, resultou em levas de chineses-únicos com um lastro emocional muito volátil. Ao menor sinal de problema com amigos, colegas de trabalho, maridos ou esposas, eles simplesmente tendem a abandonar o barco - e bau-bau casamento.

Diferentemente das gerações de filhos únicos chineses, a maioria de nós não é tão órfã de famílias. A amputação de valores, contudo, é a mesma. Estamos perdendo a noção do que realmente importa nesta vida.

Os poliqueixosos carentes e suas sacolas de antidepressivos, ansiolíticos, sedativos, lamentações e perturbações do sistema nervoso, são como pelotões de cegos, surdos e mudos incapazes de cultivar um olhar de contemplação e agradecimento pela oportunidade de estar neste mundo, errar, aprender, ensinar e ajudar seus semelhantes.

Os poliqueixosos são fissurados por pequenos fungos de angústia que crescem em seus próprios umbigos. Estes seres pleonásticos vagam não à procura de tratamento ou cura, mas de uma platéia disponível para ter pena do seu sofrimento. Eles chegam conversando, andando com as próprias pernas, respirando pelos próprios pulmões, fazendo todas as necessidades fisiológicas pelos orifícios apropriados, e ainda assim se sentem capazes de colocar uma sacola de autopiedade sobre a mesa.

Lamentavelmente, não existe uma matéria chamada Tautologia no curso médico. Mas bem que poderiam organizar um congresso sobre o tema. Seria um bom lugar para discutir melhor sobre como diagnosticar e tratar os sintomas do egoísmo generalizado. Minha inscrição está garantida.

25 agosto 2014

Obesidade e câncer: cara ou coroa?

© Dr. Alessandro Loiola
https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/saudeparatodos


Um trabalho publicado dia desses na Lancet (Agosto/2014) jogou mais lenha na fogueira da obesidade.

Há muito se sabe, a partir de pequenos levantamentos estatísticos, que o peso corporal está relacionado ao desenvolvimento de certos tipos de cânceres. Mas os ingleses levaram isso um (graaande) passo adiante: utilizando registros clínicos do Clinical Practice Research Datalink, eles identificaram mais de 5 milhões de pessoas com idade igual ou superior a 16 anos e que não apresentavam diagnóstico de câncer no momento da avaliação. O IMC médio calculado para o grupo foi 25,5 kg/m².

Durante 7 anos e meio, esse coorte foi acompanhado e aproximadamente 170 mil indivíduos desenvolveram pelo menos uma das 22 neoplasias de interesse do estudo. Os 22 tipos escolhidos respondiam por 90% de todos os tipos de tumores malignos diagnosticados na Grã-Bretanha, e o aumento no IMC mostrou estar associado a nada menos que 17 deles.

O aumento no peso foi determinante para aumentar o risco de câncer na mama (em mulheres na pós-menopausa), na vesicular biliar, nos rins, no fígado, no intestino grosso, na tireóide, nos ovários, na região cervical e para leucemia. Por outro lado, algumas evidências sugeriram que o IMC aumentado exercia um certo efeito protetor para câncer de mama na pré-menopausa e para câncer na próstata.

Cada aumento de 5 kg/m² no IMC (equivalente a 15,5 kg) associou-se a um aumento de 62% no risco de câncer no útero, 25% para câncer renal e 10% para câncer no intestino grosso.

A temporada de caça à obesidade está aberta há muito tempo, graças à sua associação com hipertensão arterial e diabetes – e todas as consequências e custos daí decorrentes. Mas agora este estudo confirma, sem a menor sombra de dúvida, que o papel desempenhado pela obesidade representa um fator de risco de verdade, sólido, progressivo e definitivo.

O excesso de peso é certamente uma causa evitável de câncer. Ponto.

Agora resta saber se a moeda vai cair.

18 agosto 2014

PÍLULA SEM MISTÉRIOS

Toda a revolução sexual dos anos 60 e 70 baseou-se na tríade “emancipação feminina + carros mais confortáveis + pílulas anticoncepcionais”. Para extrair o melhor da modernidade, nunca é demais entender exatamente o funcionamento de cada um desses fatores. Como acredito que você encontrará boas informações sobre os 2 primeiros assuntos em alguma outra parte, vou me resignar com o terceiro fator.

A pílula convencional é composta por uma dose pequena de Estrógeno e uma dose moderada de Progestógeno, dois hormônios femininos. O estrógeno mais utilizado é o Etinil-estradiol. O risco de efeitos colaterais está relacionado diretamente ao conteúdo de estrógenos da sua pílula, e não à duração do uso. A maioria das mulheres pode utilizar a pílula até os 50 anos de idade, tranqüilamente.

Todos os progestógenos são derivados da testosterona e, por isso, possuem alguns efeitos masculinizantes. Os progestógenos mais novos, como levonorgestrel (o mais utilizado), gestodeno e acetato de ciproterona, apresentam menos efeitos colaterais neste sentido.

Estudos mostram que a combinação de hormônios na pílula reduz a incidência de vários distúrbios, incluindo problemas menstruais, câncer e cistos ovarianos, doença inflamatória pélvica, tumores no endométrio, doenças benignas da mama e alterações na glândula tireóide. Em contrapartida, a pílula pode aumentar seu risco de trombose venosa, embolia pulmonar e ataque do coração. Mulheres que fumam e tomam pílula são consideradas um grupo de altíssimo risco para morte súbita cardíaca, especialmente a partir dos 35 anos.

Toda mulher anseia pelo controle de sua vida, mas muitas andam por aí tomando pílula sem saber que estes hormônios adicionais podem dar um nó nas rédeas do seu destino. Por isso, anote aí algumas pegadinhas que podem ser úteis na sua próxima visita ao médico:

- Se você nunca tomou pílula, uma boa primeira escolha são os anticoncepcionais monofásicos, aqueles em que você toma um mesmo comprimido ao longo de toda a cartela. Inicie com uma dose diária de 20 a 30 microgramas de etinilestradiol.

- Prefira pílulas com altas doses de estrógeno (p.ex.: 50 microgramas) se você sofre de epilepsia ou apresenta problemas menstruais perturbadores. Se já lhe recomendaram exorcismo durante alguma menstruação, você pode estar neste grupo.

- O seu problema tem a ver com acne, ganho persistente de peso, dores nas mamas, depressão ou crescimento de pelos indesejáveis? Em alguns casos, basta escolher pílulas com baixas doses de progestógenos ou aumentar a dose de etinilestradiol para facilitar o controle destes problemas.

- Muita atenção com remédios que podem diminuir a eficácia da sua pílula, tais como suplementos de vitamina C, antibióticos, antifúngicos (p.ex.: griseofulvina), rifampicina e anticonvulsivantes (com exceção do ácido valpróico).

- Diminuição do desejo sexual e sangramentos no começo ou no meio do ciclo também podem ser contornados com aumentos na dose de estrógeno. Mas cuidado: náuseas, vômitos, ganho periódico de peso, manchas no rosto (chamadas cloasma), e sensação de “engurgitamento” ou “hipersensibilidade” nos seios podem ser sinais de excesso de estrógenos. Daí a importância de garantir o emprego do seu gincolecologista.

- Se você sofre de enxaqueca, procure imediatamente seu médico de confiança para interromper a pílula.

- As pílulas anticoncepcionais contendo apenas progestógenos são uma boa alternativa para mulheres com mais de 45 anos de idade, fumantes, diabéticas, hipertensas, com enxaqueca ou em fase de aleitamento. Apesar de não serem tão eficazes quanto as pílulas combinadas contendo progestógenos + estrógenos, elas podem ser melhor que praticar abstinência sexual ou encher a casa de bocas famintas.

15 agosto 2014

OS MANDAMENTOS DA PESSOA

© Alessandro Loiola



Em 2015, a Assembléia Geral da ONU responsável pela famosa Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 70 anos.

Sete décadas!, e o país mais rico do mundo não possui um sistema de saúde público. Pode falar mal o quanto quiser do nosso SUS, mas pelo menos nós temos um SUS. Pobre, maltrapilho, míope-quase-cego e trôpego das pernas, mas ele está aí, de portas abertas para sua sorte ou azar.

Nos EUA, a sempre-candidata à presidência Hillary Clinton, esposa daquele outro envolvido no teste do bafômetro com uma estagiária, foi eleita senadora de Nova Iorque prometendo nada mais, nada menos, que um SUS para a Grande Maçã.

Promessas de políticos à parte, o SUS americano nunca aconteceu. Apesar do governo de lá investir muito mais que o daqui - o gasto per capta com saúde nos EUA é 10 vezes maior que o brasileiro -, a população americana recebe do Estado bem menos assistência em saúde.

A cada ano a desnutrição ceifa a vida de mais de 300.000 crianças com menos de 5 anos de idade e o continente considerado berço da humanidade ainda é assolado pelas mesmas tragédias de quando descemos das árvores. Epidemias, fome e violência sufocam a África há milênios, e não existem sinais de que estas mazelas irão diminuir tão cedo.

Por todos estes motivos e inspiradas pela ONU, diversas organizações elaboraram longas listas de direitos que deveriam ser democraticamente agraciados a todo e qualquer ser humano vivo.

Pensei oferecer minha modesta colaboração elaborando uma nova proposta dos deveres primordiais de todos nós. Chega de “direitos” e “liberdades” do ser humano, pensei. Precisamos de “obrigações” saudáveis.

Fiz questão de enumerar apenas 7 mandamentos, pois já existe uma outra excelente lista bíblica com 10 itens que pouca gente presta atenção. Quem sabe, reduzindo um pouco o número, alguém finalmente pare para refletir de verdade.

Então vamos lá: toda pessoa deve...

1.... Enfrentar as mudanças e as incertezas da vida sem medo, e enfrentar o medo com espírito prático e alegre. É preciso manter o senso de humor afiado para aceitar o inevitável maior: sua própria transitoriedade e de tudo que lhe cerca. Ou você acha que seu time do coração irá liderar o campeonato brasileiro para sempre? Tudo passa.

2.... Ser capaz de metabolizar os sentimentos negativos, como raiva, angústia e tristeza, transformado-os em motivação, harmonia, esperança e outros antídotos naturais para o negativismo estúpido.

3.... Ter um contato apenas suficiente com a realidade. Nem pouco demais, nem muito demais. Não estamos preparados para lidar com a realidade como ela é, nua e crua. A fantasia é essencial para garantir sua sobrevivência e a da espécie. Mantenha os pés no chão; a cabeça, nas nuvens - e sonhe bastante!

4.... Conhecer-se ao máximo. Só assim seremos capazes de reparar os danos em nós mesmos e nos nossos semelhantes. E você acha que se conhece? Pois então saiba que seu corpo pesa 40 vezes mais que seu cérebro; temos cerca de 3 sonhos por noite; uma criança faz em média mais de 300 perguntas por dia; as unhas das mãos crescem 4 vezes mais rápido que as dos pés; e seus olhos permanecem mais ou menos do mesmo tamanho desde o nascimento. O nariz e as orelhas, por outro lado, nunca param de crescer. Responda novamente: será que você se conhece mesmo ou anda apenas arranhando a superfície?

5.... Ser capaz e livre para compreender e corresponder às necessidades do grupo em que vive. A esta resposta atenciosa ao sofrimento do próximo chamamos de Bondade. Importante: a bondade que não nasce espontânea e desprendida de outros interesses pessoais não é bondade, é escambo.

6.... Ter a coragem de dizer “eu errei” e aprender com a experiência. Afinal, errar é humano. Colocar a culpa nos outros é sábio.

7.... Ser capaz de amar e ser amada. Sem este dever primordial, nós, reles mamíferos medíocres, jamais teríamos prosperado até aqui. Sem esta obrigação de laços, em um futuro cada vez mais próximo, nos tornaremos menos que uma lembrança na poeira deste planeta. Mas lembre-se: o amor mais verdadeiro nasce a partir do deslumbramento com sua própria vida. Encante-se!

14 agosto 2014

OS ADOÇANTES E O FINAL DOS TEMPOS

© Dr. Alessandro Loiola

Existe uma fábula onde um menino muito travesso e entediado, colocado para vigiar algumas ovelhas, divertia-se gritando “Lobo ! Lobo !”. Quando os adultos da aldeia acudiam, armados até os dentes, o menino ria do trote. Assim que todos retornavam para suas casas, ele gritava “lobo !” novamente, e a cena se repetia.

Um belo dia, o socorro parou de vir. As pessoas estavam cansadas de cair sempre na mesma pegadinha. Nesse dia, o lobo apareceu de verdade. E o pobre menino gritou, chamou, cuspiu seus pulmões, “Lobo ! Lobo ! Lobo !!”, mas ninguém acudiu.

Vira e mexe, os especialistas gritam “Lobo !”. Anos atrás, o lobo era a guerra atômica que dizimaria a humanidade em frações de segundo, literalmente entregando o planeta às baratas. E então o lobo se transformou na inflação, no FMI e na dívida externa. E então, no desmatamento do pulmão do planeta e na perda da biodiversidade. Pois agora temos o lobo metamorfoseado em aquecimento global. Com promessa de falta d’água, crise na energia elétrica e catástrofes climáticas.

A cada década, as previsões do Apocalipse ganham um novo fôlego, se atualizando segundo o gosto da moda na última estação. Entretanto, para quem já usou kichute e aprendeu a ler em cartilhas, ouvir alguém gritando “lobo!” perdeu a graça. Banalizado, o anúncio do final do mundo está virando arroz de festa.

Por isso me surpreendi quando deparei com uma das manchetes mais comentadas nas últimas semanas, sobre um estudo publicado no jornal Behavioral Neuroscience concluindo que adoçantes a base de sacarina, ao invés de emagrecerem, engordam. Como pouca gente parou para ler exatamente do que se tratava, sobrou apenas o grito de lobo no ar: adoçante engorda!

Os adoçantes vivem ocupando manchetes estapafúrdias. Era de se esperar que ninguém mais prestasse atenção, mas não foi bem o que aconteceu. E haja saliva para explicar isso no consultório.
Para você ficar por dentro: a bendita pesquisa analisou dois grupos de ratos durante um certo período de tempo. Inicialmente, o primeiro grupo recebia uma dieta com adoçante e outro, com açúcar. Mais tarde, os dois grupos recebiam ração comum à vontade. Observou-se que o grupo do adoçante comia a ração em maior quantidade, tentando compensar a restrição de calorias, e terminou engordando mais que o grupo do açúcar.

A conclusão deveria ser que dietas muito restritivas desequilibram os centros reguladores da fome no cérebro. Estas dietas podem funcionar em um primeiro momento, mas não funcionam para sempre, e o peso perdido termina voltando com juros e correção monetária.

Infelizmente, não foi bem esta manchete que desembarcou na mídia. Chegou uma outra, esdrúxula, dizendo “Cientistas comprovam: adoçante engorda!”, ou alguma coisa do tipo. Foi a gota. A opinião pública começou a apontar seus dedos acusadores com a velha legenda “Tá vendo? Eu disse que essa porcaria fazia mal !”. Segurando suas tochas e bradando palavras de ordem - Queime no inferno, ciclamato, queime! -, algumas pessoas ameaçam ir até o centro da cidade linchar um caminhão de aspartame.

Ah, o que seria da vida sem esses camponeses...

Você quer ter medo da extinção em massa? Tenha medo do cigarro, que está envolvido em 18 dos 20 novos casos de câncer de pulmão diagnosticados no Brasil diariamente. E não precisa ser tabagista ativo não, viu? Fumante passivo também serve. Destes 18 felizes sorteados, 17 irão virar fumaça nos próximos 5 anos, a despeito do tratamento. O câncer pulmonar não é considerado um dos mais letais à toa.

Quer mesmo ter medo? Tenha medo do alcoolismo. O consumo de bebidas alcoólicas está envolvido em 20% dos acidentes automobilísticos, 24% dos assassinatos e 11% dos suicídios. Tudo que você precisa fazer é abrir a próxima latinha.

Quer ter medo? Deixe o vidro de adoçante de lado e preste mais atenção no saleiro e no sofá da sala. O consumo excessivo de sal e o sedentarismo podem resultar em pressão alta e doenças cardiovasculares, responsáveis pela morte de 32 pessoas por hora.

Antes que você me acuse de ser um fiel representante dos profetas do final dos tempos, fique sabendo que, mesmo com os tímpanos fadigados de tanto gritarem “lobo !” por aí, eu não desanimo. No próximo levante dos dândis da histeria coletiva, estou programando pegar minha mochila e sair para um passeio. Vou visitar o buraco na camada de ozônio e algumas ogivas nucleares. Os pobrezinhos andam tão esquecidos...

13 agosto 2014

A RAÇÃO DE EINSTEIN


O plantão não estava corrido quando a pediatra do andar de cima veio para uma visita-desabafo. Ofereci a cadeira, um sorriso e dois ouvidos.

- Você não vai acreditar. Olha só.

E desfiou o causo da menina atendida há pouco com uma senhora crise alérgica. Apesar dos 8 cachorros criados dentro de casa, a mãe fez questão de frisar: “já rodamos todos os testes possíveis e ela não tem alergia aos cachorrinhos, não. Inclusive, todos eles são muito bem tratados, vacinados e alimentados sempre com ração de primeira qualidade”.

O quase-atrito teve início quando a colega preencheu a receita, com uma coletânea de remédios nada em conta:
- Doutora, mas isso vai ficar caro! E eu ando tão apertada de dinheiro...

A pediatra não se conteve e soltou a pérola óbvia:
- Mas... e o dinheiro para comprar a ração de primeira qualidade para todos aqueles cachorrinhos? Esse dinheiro não falta, né?

Hum, golpe baixo não vale. Além do quê, sei muito bem onde essa conversa leva: a lugar algum. Justamente porque este tipo de esclarecimento vai contra a famosa frase de Einstein, proferida lá pelos idos de 1940 e qualquer coisa: “existem apenas duas coisas infinitas - o Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo”.

Naquele dia, a frase do velho Albert foi representada por uma ração para cachorros – ou para crianças, melhor dizendo. Triste, muito triste. Há várias décadas, seguimos alimentando o grosso das gerações futuras com este prato, a ração da estupidez de Einstein. O consumo antes do desenvolvimento, o poder no lugar do afeto, a aparência em prol do conteúdo.

Os ingredientes desta ração estão recheando o futuro com problemas de um gosto bem amargo: 1/3 das crianças e 1 em cada 8 adolescentes sofrem de depressão, tornando o suicídio uma das 10 causas mais comuns de mortes na população abaixo dos 15 anos de idade.

Cerca de 5% das crianças entre 7-11 anos de idade apresentam distúrbios da ansiedade e mais de 10% estão acima do peso. Aproximadamente 15% dos adolescentes fazem uso sistemático de alguma droga (lícita ou ilícita), e os sintomas da síndrome do pânico afetam 1 de cada 20 destes projetos de adultos. Bom, pelo menos para os psiquiatras, as próximas décadas prometem ser divertidíssimas.

Fora das estatísticas, as conseqüências da Ração de Einstein podem ser percebidas em outros sintomas. Por exemplo: o sujeito tem um quintal cheio de lama e limo. Os anos se passam e ele nem para enterrar uma semente de mamão, tomate, abacate, goiaba, cebolinha ou qualquer coisa que valha. Vivemos em um país excepcional, com frutas da época brotando aos montes em todas as épocas do ano. Mas quem tem tempo de plantar uma sementinha? Quase ninguém. Afinal, o pouco tempo que sobra é invariavelmente gasto com latinhas de cerveja, programas de auditório e bordões de incentivo para o futebol nas quartas-feiras. E tome um prato cheio da ração de Einstein.

O mesmo amigo, esse da casa sem frutas ou rede de esgoto, tem 5 filhos e 3 cachorros. Por que não 3 galinhas no lugar dos caninos? Primeiro: cachorro não bota ovo. Segundo: tirando alguns coreanos, não creio que alguém mais curta um delicioso ensopado de Rex com Totó aos domingos. Terceiro: se o bendito não tem tempo de acompanhar sequer o dever de casa das crianças, que diabos está fazendo criando 3 vira-latas? Olha aí, outra tigela da ração.

Felizmente, para os bons gourmets, é possível contornar a indigestão e optar por um prato mais saboroso. Podemos tomar outro caminho, um caminho mais de acordo com nossa capacidade de pensar. Um caminho onde a hipocrisia não é um condimento salpicado no arroz com feijão, e nossas crianças não recebem diariamente uma ração insossa de vícios e idéias empoeiradas.

A cada novo dia, a cada novo encontro com um ser humano, somos presenteados com a incrível oportunidade de criar um universo inédito, muito aquém da panela de estupidez profetizada por Einstein. Para preparar a refeição do futuro, repleta de cordialidade, ternura e altruísmo, só precisamos fazer uma única coisa extraordinária: escolher os ingredientes com inteligência.

Como você anda temperando sua vida?

12 agosto 2014

Fumar durante a gravidez pode afetar o comportamento da criança mais tarde?

© Dr. Alessandro Loiola

O fato do cigarro poder causar má-formações no bebê é um dado bastante conhecido, mas será que a exposição gestacional ao tabagismo poderia afetar também o comportamento da criança mais tarde?

Utilizando imagens de Ressonância Nuclear Magnética (RNM), pesquisadores do Central Institute of Mental Health (Universidade de Heidelberg, Alemanha) descobriram que adultos jovens cujas mães fumavam durante a gestação apresentavam baixa atividade em regiões do cérebro envolvidas com o controle da impulsividade. Estas alterações são semelhantes àquelas observadas em indivíduos com Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

O estudo envolveu 178 mulheres e seus respectivos bebês, que foram acompanhados desde o nascimento. Catorze mulheres gestantes (7,9% do total) relataram fumar 1 a 5 cigarros por dia; 24 (13,5%) fumaram mais que 5 cigarros por dia, e o restante não era tabagista (78,7%). As crianças cresceram e aos 25 anos foram submetidas a uma série de RNM. Em todas elas, a presença de sintomas de TDAH foi avaliada dos 2 aos 15 anos de idade.

Adultos com história de exposição ao tabaco durante a gestação apresentaram mais sintomas de TDAH entre os 2 e 15 anos de idade em comparação às crianças cujas mães não fumaram.
As alterações cerebrais que o cigarro provoca no bebê comprometem o bom funcionamento neural em regiões estratégicas, dificultando o aprendizado e favorecendo o desenvolvimento de comportamentos impulsivos na idade adulta – como o consumo de drogas, por exemplo.

Vale a reflexão.

CEFALEIA TENSIONAL

© Dr. Alessandro Loiola

Se existe uma coisa admirável nos cientistas médicos é a capacidade que eles têm de contabilizar tudo, quase como se cultivassem um fetiche por porcentagens e estatísticas. Por exemplo: estudos recentes calcularam que, dos 6 bilhões de seres humanos neste planeta, 25% apresentam algum transtorno psiquiátrico, 3% são levemente retardados e 1% sofre de esquizofrenia franca. Uma conta dessas só pode ser coisa de doido.

Algumas vezes, as estatísticas se referem a dados que, em última análise, parecem completamente inúteis: uma pesquisa da American Academy of Emergency Medicine calculou que o cidadão médio possui um risco de 30% de morte por infarto fulminante. E daí? Segundo minha modesta matemática, o risco de uma pessoa morrer por qualquer outra causa ao longo da vida é de 100%. No final, o motivo derradeiro não passará de pura burocracia para preencher papéis.

O resultado de uma outra pesquisa que recebi por email revelava que, depois de fazer sexo selvagem, 10% dos homens se viram para o lado direito, 10% se viram para o lado esquerdo e os 80% restantes se viram para chegar em casa antes que a patroa perceba. Esse sim, um dado sociológico chauvinista de extrema relevância.

Mapa da mina

Mas muitas dessas estatísticas possuem aplicações verdadeiramente úteis, como auxiliar na definição de políticas de saúde pública, elaborar orientações para facilitar o diagnóstico e tratamento de certos distúrbios, e – principalmente e acima de tudo – servir de mapa para que a indústria farmacêutica desenvolva novos medicamentos.

Um bom exemplo deste último emprego da ciência: sabendo que, anualmente, cerca de 90% dos homens e 95% das mulheres sofrem de pelo menos um episódio de dor de cabeça (38% dos adultos do mundo apresentarão uma crise ainda nas próximas duas semanas), os laboratórios lançam periodicamente campanhas milionárias para apresentação do analgésico definitivo ou do antiinflamatório mais eficaz de todos os tempos.

Atalhos

Algumas vezes, apertam um pouco o passo e começam a vender um medicamento cujos testes de segurança não foram completamente concluídos, mas qual o problema? Algumas centenas de pessoas cujos rins pararam de funcionar em razão daquela droga mal-sucedida não comprometerão toda a margem de lucro. E ano que vem a gente apresenta uma nova droga e tudo se esquece.

O triste é perceber que as pessoas anseiam por este tipo de atalho para saúde. Não querem compromissos, apenas um atalho. Esse é bem o caso da própria dor de cabeça – chamada de cefaléia no jargão médico. Todo mundo parece adorar um remédio para dor de cabeça, mas o problema pode representar a manifestação de distúrbios graves como sinusite, crise hipertensiva ou disfunção da coluna vertebral, que devem ser tratados com uma seriedade maior que uma simples aspirina.

Tensão excessiva

A cefaléia tensional, o tipo mais comum de dor de cabeça, costuma estar relacionada ao estresse, fadiga, depressão e personalidade perfeccionista. A causa está na tensão excessiva da musculatura da região cervical. Tipicamente, a dor é diária e mais intensa na região frontal ou occipital, podendo durar de algumas horas a vários dias. A dor se inicia logo pela manhã, ao sair da cama, e vai piorando ao longo do dia. O diagnóstico é feito por meio do exame médico.

Se você sofre de crises recorrentes de cefaléia tensional, existem algumas medidas práticas que você pode empregar antes de rechear seu estômago com pílulas de ultima geração: faça compressas mornas nos pontos dolorosos localizados no pescoço e na cabeça.

Exercícios físicos de alongamento para as costas e massagens realizadas por profissionais treinados também ajudam a resolver o problema, assim como não pular refeições, manter um padrão satisfatório de sono, aprender a lidar melhor com o estresse e utilizar antiinflamatórios naturais de eficácia comprovada, como o chá de folhas de algodão.

Efeito colateral

Atenção para o fato de que alguns remédios e substâncias podem causar dores de cabeça como efeito colateral. A lista inclui álcool, codeína, metildopa, beta-bloqueadores (p.ex.: atenolol), hidralazina, reserpina, bloqueadores de canais de cálcio (p.ex.: nifedipina), corticóides, ranitidina, indometacina, anticoncepcionais orais e nitratos sublinguais (muito utilizados para tratamento de crises de angina).

Apesar de mais de 95% dos casos de cefaléia não possuírem uma causa básica grave, alguns sintomas podem indicar a necessidade de uma ida mais rápida ao médico, tais como uma dor muito intensa ou severa (com ou sem rigidez de nuca), dor iniciada após uma pancada forte na cabeça, ou dor associada à febre, convulsão, confusão mental, perda da consciência ou desconforto nos olhos ou ouvidos, e dor capaz de interferir nas atividades do dia a dia.

08 agosto 2014

AS LEIS DA PERSUASÃO

© Dr. Alessandro Loiola

Um dos desafios mais difíceis no dia a dia do consultório se chama “adesão ao tratamento”. Apesar de tudo o que se ensina na faculdade, ninguém informa aos ilustres estudantes que suas receitas não são placas de pedra cravadas com mandamentos divinos. A receita é um simples pedaço de papel rabiscado com uma caligrafia sofrível – ou, nos casos de mais sorte, impressa em fonte arial tamanho 14.

A despeito da formação do doutor ou do tom solene da consulta, calcula-se que somente 1 de cada 5 pacientes siga todas as orientações passadas por escrito. Alguns guardam a receita como um trunfo na manga (“se piorar, eu compro”), outros fazem um copydesk (“vou tomar esses dois aqui e, se piorar, compro o restante”), e muitos partem em busca de uma segunda opinião – que pode ser tanto outro médico, o balconista da farmácia ou um vizinho que sofreu de um mal semelhante, não importa.

Para vencer a maldição da não-adesão ao tratamento é preciso dominar o uso de uma ferramenta capaz de transmutar conhecimento em benefícios palpáveis. Esta ferramenta versátil se chama Persuasão e pode ser dividida em 3 Leis que compartilho agora com você:

Primeira Lei da Persuasão: Lógica

Os objetivos devem expostos de modo racional e articulado. A comunicação deve ser clara. Esse papo do gênio incompreendido é uma balela. Se o sujeito é um gênio, o mínimo que ele precisa fazer é ser compreendido.

Por exemplo: uma abordagem para diminuição do peso ou da pressão arterial deve ter metas bem definidas. “Vamos baixar 2 Kg nas próximas duas semanas” ou “vamos tirar essa pressão de 170/120 e colocá-la em torno de 140/80 até sexta-feira”.

Não adianta entregar a receita e disparar o sujeito pelo mundo afora armado de um papel carimbado. Ele deve compreender profundamente o significado daquilo.

Segunda Lei da Persuasão: Paixão

As pessoas subestimam o valor da paixão. Hoje, mais do que nunca, ela se tornou um elemento estratégico para a persuasão. À medida que avançamos pelo que os sociólogos chamam de Era Pós-Moderna, as pessoas tendem a ser persuadidas cada vez mais pela paixão em detrimento da lógica e da razão. Vide os anúncios publicitários com frases cada vez mais curtas e imagens cada vez mais impactantes. Paixão vende.

Então você deveria jogar a lógica na lata de lixo? Lógico que não. Mas deve, sem sombra de dúvida, compreender a importância de ser apaixonado(a) pelo ponto de vista que você defende. Este estado provavelmente tem mais peso que a razão.

Exemplo: “a senhora vai fazer este regime para reduzir seus riscos cardiovasculares em níveis aceitáveis dentro das diretrizes clínicas mais atuais”. Tem lógica? Tem. Mas que tal: “a senhora vai seguir estas orientações para ficar ainda mais bonita e atraente, e começar extrair da vida tudo aquilo que pode e merece!”.

A paixão faz a diferença.

Terceira Lei da Persuasão: Ética

Sem dúvida alguma a Lei mais importante. Não importa o que você esteja dizendo ou fazendo, as pessoas estarão sempre lhe julgando. Suas habilidades podem ser fenomenais, mas se seus pacientes, colegas, parentes, amigos e conhecidos perceberem indícios suspeitos em sua integridade, eles permanecerão sempre com dois pés e meio atrás. É fácil fazer vista grossa para um equívoco, mas é quase impossível perdoar o mau caráter.

Você pode perguntar: e os políticos? Como eles podem persuadir alguém? Se a visão geral que temos deles é de um bando de corruptos sem escrúpulos, como eles conseguem se eleger?

Bom, a resposta para isso incomoda: isoladamente, as pessoas pensam de uma maneira, mas coletivamente agem de modo completamente diferente. Não somos a portas fechadas as mesmas pessoas que somos em público (grande surpresa...). Este fato singelo, quando elevado à média de uma nação, mostra que acreditamos que as coisas são como são e de repente aquele sujeito nem é tão mau assim. Será que este tipo de falha em seu caráter seria aceitável se fosse percebida?

A solução para a Terceira Lei consiste em ser honesto em seu íntimo, para só então projetar essa imagem para os outros. Nada de exageros ou tentativas infantis de tentar parecer mais do que vale. A sofisticação da ética está na completa ausência de exageros. É assim que funciona.

Se você é um profissional da área de saúde, reflita a respeito - uma vez obedecidas as Leis da Persuasão, as pessoas tenderão a responder melhor a você e às suas idéias. Por outro lado, se você é um paciente, passe a mensagem adiante - quem sabe, um dia, todos os receituários finalmente se tornem bilhetes premiados e não apenas folhas de papel soltas por aí.

07 agosto 2014

Anaximandro e a Fórmula da Pessoa Melhor

© Dr. Alessandro Loiola

Nascido no longínquo ano de 610 a.C., tendo um cérebro sofisticado e aberto a novas idéias como ferramenta de trabalho, o grego Anaximandro foi capaz de conceber teorias que para muitos de sua época soavam como alucinação.

Anaximandro dizia que uma partícula primordial – o ápeiron - havia se expandido para formar tudo que conhecemos (teoria do Big-Bang), que o mundo sustentava-se por um equilíbrio de forças (teoria da Gravidade) e que a vida havia surgido em criaturas simples nos mares, adquirido complexidade e então migrado para a terra (teoria da evolução das espécies). Espetacular.

Imagine você 2.500 anos atrás. Lençol branco enrolado no corpo e botas do filme 300 de Esparta. Um perfeito temente a Zeus levando célere sua oferenda na multidão que se dirige ao oráculo.
 - Ihh... – você diz.
 - O que foi? – pergunta o sujeito ao seu lado na fila do oráculo.
 - Olha aí, lá vem ele de novo. – você vira o rosto como quem procura um conhecido do outro lado da Acrópole, mas o velhinho encurvado que se aproxima rápido não se acanha.
 - Ei! Ei!
 - Ele tá lhe chamando – diz o vizinho da fila, cutucando seu braço. Você ainda tenta fazer cara de paisagem, mas não adianta. O velhinho já grudou na manga da sua túnica.
 - Ei! Ei!
 - Oi, seu Anaximandro. Tudo bem com o senhor?
 - Você sabia... – grita ele, com a vivacidade de um adolescente e os tímpanos de um granito. – Você sabia que existem corpos minúsculos de cargas opostas que atuam trocando energia e anulando-se uns aos outros?
 - Sei, sei. Certo.
 - Você entende?
 - Humrum, humrum.
 - Observe! - ele solta sua manga para desenhar um amplo arco com as mãos espalmadas, cobrindo o horizonte à frente com um olhar perdido. - Toda a matéria que se vê aparece e desaparece continuamente!!


Você aproveita a deixa, segura firme a carijó aninhada no seu colo e segue a fila para dentro da segurança do templo, longe das idéias malucas do velhinho surdo. Mas ainda consegue ouvir alguma coisa sobre o ilimitado, o infinito, o indefinido e o eterno. “Que monte de besteira!”, pensa, fitando a galinha nos olhos.

Anaximandro deve ter sido um cara bem estranho - assim como boa parte das descobertas de hoje. Dezenas de séculos se passaram, e o conhecimento ainda assombra e confunde.

Caminhamos por esta Era da Informação trazendo no colo o ranço de tradições antiqüíssimas. E uma dessas tradições é exatamente o apego à crença íntima de que você, lá no fundo, já nasce sabendo tudo que é preciso para gerenciar sua própria saúde e sua vida. Escolas, faculdades, professores, livros, bibliotecas, orientadores, oráculos e gurus são, no grosso modo, temperos quase dispensáveis. O importante é a SUA interpretação do que é melhor para você e do que não é tanto. Não é isso?

Ledo engano.

Fazendo algumas contas outro dia, percebi que já atendi umas 500.000 pessoas desde que coloquei as mãos no danado do diploma. 500.000 pessoas. Quase Ribeirão Preto inteira ou quatro Itu, ou duas São Carlos, ou meia Campinas. 500.000 viventes.

Imagine que cada pessoa vem ao consultório com cerca de 3 queixas diferentes. Dor no peito, na cabeça e tosse. Ansiedade, insônia e palpitações. Enjôo, febre e urina ardendo. Etc. Pois bem. Depois de levantar e sentar da cadeira, medir pressão, auscultar pulmões, e ouvir mais de 1 milhão e meio queixas, cheguei à conclusão de que ser capaz de aceitar os próprios erros e limitações, pedindo e aceitando ajuda, é talvez a tarefa mais árdua pela qual um ser humano pode passar.

E não digo ajuda no termo paternal. Digo ajuda no sentido “tapa na orelha”.

Nem todo mundo que lhe agrada quer o seu bem. Nem todos que lhe agridem querem o seu mal. Algumas coisas estarão escritas em letras douradas, e estarão completamente erradas. Outras serão deduzidas com a lógica mais tosca do mundo, e estarão profundamente corretas. A solução para o seu problema pode estar escondida em um outro problema, como alguém segurando a sua manga e lhe falando sobre coisas que você não entende - ainda.

Felizmente, para ter discernimento e entender a fórmula de como tornar-se uma pessoa melhor não é preciso uma sabedoria de Anaximandro. Basta um pouco de humildade e uma pitadinha de inteligência. Será que você consegue?

06 agosto 2014

A Velha Senhora

© Dr. Alessandro Loiola

Por volta do terceiro ano de faculdade, quando ainda ensaiava meus passos na direção desta nobre escravidão científica que é fazer plantões para pagar contas, fui surpreendido pela incrível fauna que pode habitar um hospital-escola:

Durante a disciplina de Infectologia, fomos convidados a recolher swabs de locais diversos. Swab é um termo elegante para dizer “cotonete comprido especial”. Os médicos têm essa mania de inventar nomes complicados para coisas simples, talvez um modo elegante de diferenciar a casta dos reles mortais. Arroto vira eructação, excesso de pum vira “meteorismo significativo” e um olho vermelho se transforma em “possível blefaroconjuntivite aguda infecciosa”. Mas no final é tudo a mesma coisa.

Pois bem. De volta ao cotonete no terceiro ano. O trabalho daquele mês consistia em recolher e cultivar alguns swabs para determinar quais bactérias e fungos estavam convivendo conosco nas enfermarias. Alguns passaram o swab no próprio sapato, outros em rodapés, outros no jaleco guardado no armário em casa, etc. No dia da leitura dos resultados, a sala se encheu de “ooohs!” como se fosse uma final de reality show.
- Dr. Fulano, seu sapato está cheio de Escherichia coli! – “Oohs!” e o sujeito era congratulado com tapinhas nas costas e votos de “Parabéns, viu? Escherichia coli! Uma beleza!”.
- Dr. Cicrano, onde diabos o senhor foi descobrir essa Neisseria gonorrhoeae??
- Colhemos o swab passando na orofaringe de uma colaboradora do hospital, professor. Por sinal, uma boa colaborador.
- Olhe o respeito, rapaz! – tentou disfarçar um certo olhar de terror folheando a pasta com os laudos e completou -... Foi na enfermaria de Cirurgia, foi? Bem, hum, não importa... *pigarro*... mas preciso saber o nome dela depois, ok? Hããã... e vamos ao próximo laudo que é o do doutor... Beltrano. Dr. Beltrano, é alguma brincadeira isso?
- Hein?
- Poderia nos dizer onde o senhor foi buscar o seu material? Em algum laboratório de biossegurança?
- Não, professor, peguei com o Placenta.
Havia um sujeito que trabalhava no pátio de estacionamento do hospital. Ele não era só feio. Ele era do avesso. Nada contra ser do avesso, mas no caso dele até o próprio fazia graça e falava:
- Quando eu nasci, minha mãe jogou fora a criança e batizou a placenta.
E ninguém o conhecia pelo nome. Mas o hospital inteiro sabia quem era o Placenta.
- Com o Placenta?
- Isso.

E imediatamente o professor enviou um de seus assistentes para ir buscar o Placenta e providenciar sua internação. O motivo? No swab do Placenta tinha crescido um Mycobacterium tuberculosis tão multirresistente que dava até para ser usado em uma guerra química.

Esse foi meu primeiro contato com um caso grave de Tuberculose - conhecida pelos mais íntimos como "Velha Senhora". O Placenta foi internado e tratado, mas até hoje me pergunto como um sujeito que convivia tão perto de tantos médicos só foi diagnosticado em um trabalho de rotina, e não pelos seus sintomas.

Anos depois, compreendi que justamente este é o grande trunfo da tuberculose: ela pode ser uma doença extremamente dissimulada, ardilosa, sutil. O bacilo que a causa conseguiu se embrenhar em nosso meio e vem convivendo conosco há mais de 4.000 anos: indícios de infecção por tuberculose foram encontrados em múmias egípcias datadas de 2.400 a.C. O bacilo pode ser passado de uma pessoa para outra através de pequenas gotículas liberadas no ar (p.ex.: quando a pessoa infectada tosse, fala, espirra, ri ou canta).

Apesar da TB ser contagiosa, ela não é uma infecção fácil pegar. Em boa parte dos casos, a fonte é alguém da família ou um colega de trabalho – raramente um estranho -, mas alguns fatores podem aumentar seu risco para adquirir a doença, como baixa imunidade (p.ex.: pessoas com HIV, diabetes, insuficiência renal avançada, sob quimioterapia ou em uso de medicamentos que diminuem a atividade do sistema imune), idade avançada, uso excessivo de bebidas alcoólicas e desnutrição.

Os sintomas mais comuns incluem perda de peso inexplicável, fadiga, febre, suores noturnos, calafrios e perda de apetite. Quando localizada nos pulmões, a tuberculose produz tosse persistente (em geral com duração acima de 20 dias ou mais), escarro com raias de sangue e dor no tórax. A infecção também pode afetar outras partes do corpo, incluindo os rins, a coluna vertebral e o cérebro.

O diagnóstico de TB pode ser difícil, necessitando o auxílio de vários exames diferentes. Para felicidade sua e do Placenta, atualmente existem tratamentos eficazes contra a doença. Em todos os casos, a prevenção é a melhor terapia, e algumas medidas simples podem ajudar a proteger você e outras pessoas da tuberculose:

• Cuide de seu sistema imunológico: prefira alimentos naturais e saudáveis como frutas e vegetais, mantenha um padrão de sono regular, e exercite-se pelo menos por 30 minutos na maioria dos dias da semana.

• Mantenha os ambientes que você freqüente bem ventilados e arejados

• No caso de pessoas diagnosticadas com TB: siga o tratamento corretamente e tome todos os medicamentos até o fim; permaneça em casa durante os primeiros 10-14 dias de tratamento; e cubra a boca com um lenço (de preferência, descartável) sempre que for rir, tossir ou espirrar. No começo do tratamento, utilizar uma máscara quando estiver na companhia de outras pessoas também é uma boa dica para reduzir o risco de transmissão.

E lembre-se: a tuberculose é uma infecção grave, mas pode ser curada com o tratamento adequado. Em caso de dúvidas, procure sempre seu médico de confiança! Ou a turma de estudantes de Infectologia mais próxima.

05 agosto 2014

ALIMENTOS ORGÂNICOS

© Dr. Alessandro Loiola

No auge do verão e das epidemias de diarréia que entopem os pronto-atendimentos, não faltam reportagens sobre alimentos saudáveis e orientações sobre cuidados com a alimentação.

Em meio a essa avalanche de comida, vem uma onda de produtos com rótulos animados e coloridos trazendo o emblema “natural” e “orgânico”. Cereais e frutas naturais, carnes e laticínios orgânicos... Valha-me santa revolução agrícola, mas como um alimento pode não ser natural ou orgânico? 

Pode me chamar de pirracento (muito provavelmente eu sou mesmo), mas tudo que você ingere vem da natureza. Até coisas tão artificiais como o alumínio, o papel celofane e os seios de silicone podem ser consideradas consequências da natureza. A bem da verdade, não sei se lhe informaram, mas você veio da natureza e continuará vivendo imerso nela até o dia em que seus dias terminarem e você virar um tipo de vertebrado gasoso. Pelo menos é o que dizem algumas religiões.

O termo “orgânico” foi utilizado pela primeira vez em 1939 pelo Barão de Northbourne, agricultor inglês famoso por uma abordagem mais ecologicamente correta para a produção de alimentos. Desde então, os critérios utilizados para classificar um alimento como “orgânico” vem variando de um país para outro.

Os ortodoxos consideram alimentos orgânicos aqueles cultivados sem qualquer contato com pesticidas, inseticidas, herbicidas ou outros tipos de venenos artificiais. Um tomate colhido por sua sogra poderia perder a classificação de orgânico, por exemplo. Mas os alimentos orgânicos podem ser cultivados utilizando-se fertilizantes não-orgânicos - o capitalismo sempre encontra um jeito de enfiar o dedo na pureza dos conceitos.

No caso de aves, a criação deve ser feita sem o uso rotineiro de antibióticos ou hormônios. Animais produzidos de modo “orgânico” devem ser acomodados em condições que lembrem seus habitats naturais: vacas, ovelhas e outros ruminantes devem ter livre acesso ao pasto.

Vacinas são permitidas e os parasitas devem ser controlados através de medidas preventivas, incluindo dietas balanceadas e boas condições sanitárias. Arrancar diariamente os carrapatos da mimosa utilizando os próprios dentes também vale como modo orgânico natural, mas cuidadores com rotes e próteses odontológicas devem ser mantidos distantes dos fiscais. Só por garantia.

A forma como os alimentos orgânicos (fala sério, não vou dizer “alimento natural” nem que me paguem o dobro) são produzidos resultam em vários benefícios. As fazendas orgânicas não consomem ou liberam pesticidas sintéticos no meio-ambiente, além de serem mais eficientes na sustentação de ecossistemas diversos. Fazendo-se um cálculo de produtividade por unidade plantada, estas fazendas de fato utilizam menos energia e produzem menos lixo.

Alguns estudos mostram que vegetais e frutas produzidos de modo orgânico são mais ricos em nutrientes que alimentos produzidos de modo não-orgânico, chegando a apresentar uma concentração 40% de antioxidantes naturais quando comparados aos seus equivalentes convencionais.

Em contrapartida, uma pesquisa realizado na Austrália em 2004 descobriu que os alimentos orgânicos vendidos em supermercados chegavam a custar 65% mais que seus equivalentes não-orgânicos. Os preços podem ser maiores uma vez que os produtos orgânicos são produzidos em menor escala e, em muitos casos, de modo semi-artesanal.

Orgânico ou não-orgânico, natural ou não-natural, o essencial é escolher seus alimentos de modo equilibrado. Eles constituirão seu corpo futuro, então vá com calma com o que você anda colocando para dentro. Sempre que possível, prefira frutas, legumes e verduras de origem minimamente confiável. Lave bem as mãos e os alimentos antes de consumi-los.

Até onde estudei, higiene e ponderação raramente foram responsáveis por grandes desconfortos digestivos. Tempere seus lanches de verão com doses generosas de ambos.

04 agosto 2014

O Dia da Água

© Dr. Alessandro Loiola

Sessenta por cento do seu corpo e 80% do seu cérebro. É isso que a água corresponde. Dentro do nosso medíocre conhecimento, não somos capazes de conceber a existência de vida onde não há (ou houve) água.

Não é à toa que os repórteres do apocalipse adoram notícias sobre a água. Quando a Globo não tem o que mostrar na sexta-feira à noite, manda algum jornalista se embrenhar no mato para o Sérgio Chapelin anunciar mais tarde: “incríveis árvores verdes, pássaros que voam de verdade e peixes que conseguem respirar até debaixo d´água! Você não pode perder, esta noite, no bobo repórter”. O mesmo vale para a água. Quando faltam novos dados convincentes sobre o fim do mundo, apelam para a água: O fim da água! No futuro, a guerra pela água! E blá blá blá.

Sim, a água vai acabar. Assim como nossa espécie, o Sol e todo este lado da Via Láctea.

Com relação à nossa hospitaleira Terra, digamos que ela passa por fases. Como em uma versão realista de um The Sims planetário, não estamos terminados: estamos sempre evoluindo. O jogo segue. E se um dia fomos uma crosta vulcânica desprovida de vertebrados, muito provavelmente no futuro seremos alguma coisa bastante diferente deste aquário invertido infestado por Homo sapiens.

A despeito desta crua realidade, é extremamente válido dar o devido valor a tudo que nos sustenta. Se você trata seu chefe com respeito (pelo menos na frente dele) e venera aquele aumento no salário, por que faria diferente com a água?

Sem a água, não desapareciam apenas as atividades econômicas: nosso organismo não duraria uma semana sem ingerir o precioso líquido. Durante o curso de medicina, aprendemos que a sobrevivência humana é delimitada por algo chamado Regra dos Três: 3 minutos sem respirar, 3 dias sem beber água, 3 semanas sem comer. Qualquer passo fora disso, vuuussh!, você já era, vai freqüentar uma palestra para vegetais no Ceasa ou virar adubo de samambaia.

A água participa da digestão dos alimentos, da regulação da temperatura corporal e do transporte de oxigênio. Ela lubrifica articulações, promove o bom funcionamento intestinal e serve de meio para milhares de reações químicas essenciais para a manutenção da vida.

Apesar de valiosa, nosso organismo faz questão de perder água: através da respiração, eliminamos quase 2 copos de água diariamente. Através do suor, outros 2 copos ou mais. Os rins eliminam outros 5-6 copos. Para repor estas perdas, é essencial ingerir boas quantidades de líquido por dia – no mínimo 6-8 copos.

Para que você tenha sempre água à sua disposição, respeitando os limites do bom senso e evitando desperdícios, seguem 5 orientações que podem ser tão práticas quanto inúteis:

• Confira periodicamente vazamentos em pias, chuveiros e vasos sanitários. E conserte-os. Porque “verificação” e “nada” significam quase a mesma coisa se você não tomar uma atitude.

• Feche a torneira enquanto estiver se ensaboando, escovando os dentes ou fazendo a barba. Cada minuto a menos de banho equivale a uma economia de 3 a 6 litros de água! Explique isso para sua mãe ou esposa quando ela começar a reclamar do seu cheiro.

• Ao limpar as louças, deixe-as de molho em uma bacia ou na própria pia, para amolecer os resíduos. Então raspe e jogue os resíduos no lixo – ou guarde-os em um recipiente para oferecer ao seu cunhado no almoço de sábado (“você não pode deixar de provar esse risoto!”). Aquela água imunda em que os vasilhames permaneceram de molho pode ser utilizada para preparar uma deliciosa sopa de legumes à noite. Chame seu cunhado de volta.

• Otimize o uso da máquina de lavar louças e da máquina de lavar roupas: coloque-as para rodar apenas quando estiverem cheias. E não ponha a roupa para lavar a todo momento: recicle sua cueca usando dos dois lados. Lamber bem os talheres do almoço ajuda a mantê-los limpos até a janta. E etc. 

• Não lave a calçada: limpe-a com uma vassoura ou lave-a com a água já usada na lavagem das roupas. Se você acha divertido ficar ali feito um debilóide de bermudas, assoviando Tony Bennet enquanto empurra folha por folha até a sarjeta com a mangueira aberta, procure fazer o mesmo utilizando apenas sua saliva. Depois de uma hora, você entenderá mais ou menos como o planeta se sente. Boa sorte!


Gestante Mutante

© Dr. Alessandro Loiola

Quando estávamos na escola, lá naqueles idos quando chamávamos a professora de “tia”, aprendemos que os seres vivos possuem um conjunto bastante peculiar de características. Eles são formados por células, necessitam de alimento, nascem, crescem, morrem, etc. De todas estas estranhezas que nos cercam, o fato de sermos capazes de produzir descendentes é um requinte miraculoso. 

A metamorfose envolvida na geração de nossas pequenas fotocópias devoradoras de fraldas descartáveis seria um bom tema de ficção-científica. A gestante é um mutante e não é preciso ser um cientista para perceber as alterações que ocorrem no organismo feminino durante este período. Entretanto, existe muito mais ocorrendo entre o céu e a placenta do que julga nossa vã filosofia. 

Alguns dias após a fecundação do óvulo, o organismo materno – faminto por energia - inicia uma série de saques nas reservas de gordura, podendo ocorrer uma discreta perda de peso no início da gravidez. A atividade enzimática e a síntese de proteínas aumentam, agregando valores à construção do pequeno novo ser humano. 

Com toda essa movimentação molecular, os níveis de glicose no sangue diminuem e o corpo retém líquido. Alterações renais promovidas por hormônios como a Aldosterona farão com que até o final da gravidez sejam acumulados mais de 7 litros de água! O acúmulo de líquido responde por boa parte das alterações sensoriais, como a diminuição da audição, as alterações do paladar e do tato.

Nos primeiros 3 meses de gravidez, o trabalho do coração aumenta 40%. Para manter níveis adequados de oxigenação para a mãe e o feto, incrementam a necessidade de ferro e a freqüência respiratória materna.  

As adaptações anatômicas também repercutem sobre sistema digestivo: náuseas no período da manhã são comuns. A produção de saliva é maior. O intestino passa a funcionar com mais lentidão e a constipação é freqüente. À medida que o útero ocupa boa parte do espaço na cavidade abdominal, o estômago se torna menos capaz de distender, provocando o refluxo e azia. 

As mudanças hormonais são sentidas literalmente na pele: estrias gravídicas podem surgir nos seios, nos flancos, na parte anterior do abdome, nas nádegas e na raiz dos membros inferiores. É comum o escurecimento da linha que vai do umbigo ao púbis (Linha Nigra) e o rosto pode apresentar áreas de hiperpigmentação (cloasma). O balanço dos hormônios também pode provocar balanços no humor, com extremos de irritabilidade e melancolia. 

Por todos estes motivos, o acompanhamento pré-natal é fundamental. É essencial que a grávida compreenda as modificações e adaptações do seu corpo à presença do parasita, digo, do bebê, pois isso ajudará a diminuir a ansiedade e a insegurança associadas à gestação.  

Para facilitar um pouco sua vida, reuni 7 macetes que podem lhe ajudar a contornar os problemas mais comuns: 

ENJÔOS MATINAIS: as náuseas começam 3-4 semanas após o atraso da menstruação, durando até o final da 12ª semana de gravidez. Prefira alimentos de digestão mais fácil, como batatas amassadas, torradas, arroz e frutas, ingerindo as refeições em porções menores, porém mais freqüentes. 

CÃIBRAS: mais comuns durante a noite. O remédio mais fácil e rápido consiste em ficar de pé e alongar os músculos que estão doendo. Aproveite para chorar uma promoção e conseguir uma massagem alentadora nos pés. 

DORES NAS COSTAS: quanto mais peso, mais trabalho para a coluna vertebral. Procure utilizar sapatos baixos e manter as costas bem apoiadas quando estiver sentada. Cuidado ao curvar-se, levantar pesos ou fazer exercícios. 

AZIA: a barriga está toda ocupada pelo bebê e ele não sabe que você come. Para reduzir o desconforto, evite alimentos muito temperados ou ácidos, frituras e refeições muito volumosas. Para descansar depois de uma refeição, recoste sobre uma pilha de travesseiros ou almofadas ao invés de deitar.  

FALTA DE AR: a pressão progressiva do útero sobre os pulmões pode causar falta de ar. Repouse e aceite os novos limites do seu corpo. Estes limites podem ser temporários, mas existem. 

DORES NOS QUADRIS: nas últimas semanas da gravidez, as cartilagens que unem os ossos da pelve começam a se afastar, preparando para a passagem do alien. Isso faz com que os quadris doam e pareçam “soltos” durante a caminhada. Repouso e compressas mornas ajudam a aliviar o desconforto.  

INCHAÇO NOS PÉS E TORNOZELOS: sempre que possível, mantenha os pés levantados ou apoiados na altura do corpo, evitando permanecer de pé por longos períodos de tempo. Essas mesmas dicas se aplicam para evitar as famigeradas varizes. Mas atenção: se os inchaços começarem a parecer fora de proporção, conte sempre com a ajuda de seu médico de confiança!