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18 agosto 2014

PÍLULA SEM MISTÉRIOS

Toda a revolução sexual dos anos 60 e 70 baseou-se na tríade “emancipação feminina + carros mais confortáveis + pílulas anticoncepcionais”. Para extrair o melhor da modernidade, nunca é demais entender exatamente o funcionamento de cada um desses fatores. Como acredito que você encontrará boas informações sobre os 2 primeiros assuntos em alguma outra parte, vou me resignar com o terceiro fator.

A pílula convencional é composta por uma dose pequena de Estrógeno e uma dose moderada de Progestógeno, dois hormônios femininos. O estrógeno mais utilizado é o Etinil-estradiol. O risco de efeitos colaterais está relacionado diretamente ao conteúdo de estrógenos da sua pílula, e não à duração do uso. A maioria das mulheres pode utilizar a pílula até os 50 anos de idade, tranqüilamente.

Todos os progestógenos são derivados da testosterona e, por isso, possuem alguns efeitos masculinizantes. Os progestógenos mais novos, como levonorgestrel (o mais utilizado), gestodeno e acetato de ciproterona, apresentam menos efeitos colaterais neste sentido.

Estudos mostram que a combinação de hormônios na pílula reduz a incidência de vários distúrbios, incluindo problemas menstruais, câncer e cistos ovarianos, doença inflamatória pélvica, tumores no endométrio, doenças benignas da mama e alterações na glândula tireóide. Em contrapartida, a pílula pode aumentar seu risco de trombose venosa, embolia pulmonar e ataque do coração. Mulheres que fumam e tomam pílula são consideradas um grupo de altíssimo risco para morte súbita cardíaca, especialmente a partir dos 35 anos.

Toda mulher anseia pelo controle de sua vida, mas muitas andam por aí tomando pílula sem saber que estes hormônios adicionais podem dar um nó nas rédeas do seu destino. Por isso, anote aí algumas pegadinhas que podem ser úteis na sua próxima visita ao médico:

- Se você nunca tomou pílula, uma boa primeira escolha são os anticoncepcionais monofásicos, aqueles em que você toma um mesmo comprimido ao longo de toda a cartela. Inicie com uma dose diária de 20 a 30 microgramas de etinilestradiol.

- Prefira pílulas com altas doses de estrógeno (p.ex.: 50 microgramas) se você sofre de epilepsia ou apresenta problemas menstruais perturbadores. Se já lhe recomendaram exorcismo durante alguma menstruação, você pode estar neste grupo.

- O seu problema tem a ver com acne, ganho persistente de peso, dores nas mamas, depressão ou crescimento de pelos indesejáveis? Em alguns casos, basta escolher pílulas com baixas doses de progestógenos ou aumentar a dose de etinilestradiol para facilitar o controle destes problemas.

- Muita atenção com remédios que podem diminuir a eficácia da sua pílula, tais como suplementos de vitamina C, antibióticos, antifúngicos (p.ex.: griseofulvina), rifampicina e anticonvulsivantes (com exceção do ácido valpróico).

- Diminuição do desejo sexual e sangramentos no começo ou no meio do ciclo também podem ser contornados com aumentos na dose de estrógeno. Mas cuidado: náuseas, vômitos, ganho periódico de peso, manchas no rosto (chamadas cloasma), e sensação de “engurgitamento” ou “hipersensibilidade” nos seios podem ser sinais de excesso de estrógenos. Daí a importância de garantir o emprego do seu gincolecologista.

- Se você sofre de enxaqueca, procure imediatamente seu médico de confiança para interromper a pílula.

- As pílulas anticoncepcionais contendo apenas progestógenos são uma boa alternativa para mulheres com mais de 45 anos de idade, fumantes, diabéticas, hipertensas, com enxaqueca ou em fase de aleitamento. Apesar de não serem tão eficazes quanto as pílulas combinadas contendo progestógenos + estrógenos, elas podem ser melhor que praticar abstinência sexual ou encher a casa de bocas famintas.

15 agosto 2014

OS MANDAMENTOS DA PESSOA

© Alessandro Loiola



Em 2015, a Assembléia Geral da ONU responsável pela famosa Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 70 anos.

Sete décadas!, e o país mais rico do mundo não possui um sistema de saúde público. Pode falar mal o quanto quiser do nosso SUS, mas pelo menos nós temos um SUS. Pobre, maltrapilho, míope-quase-cego e trôpego das pernas, mas ele está aí, de portas abertas para sua sorte ou azar.

Nos EUA, a sempre-candidata à presidência Hillary Clinton, esposa daquele outro envolvido no teste do bafômetro com uma estagiária, foi eleita senadora de Nova Iorque prometendo nada mais, nada menos, que um SUS para a Grande Maçã.

Promessas de políticos à parte, o SUS americano nunca aconteceu. Apesar do governo de lá investir muito mais que o daqui - o gasto per capta com saúde nos EUA é 10 vezes maior que o brasileiro -, a população americana recebe do Estado bem menos assistência em saúde.

A cada ano a desnutrição ceifa a vida de mais de 300.000 crianças com menos de 5 anos de idade e o continente considerado berço da humanidade ainda é assolado pelas mesmas tragédias de quando descemos das árvores. Epidemias, fome e violência sufocam a África há milênios, e não existem sinais de que estas mazelas irão diminuir tão cedo.

Por todos estes motivos e inspiradas pela ONU, diversas organizações elaboraram longas listas de direitos que deveriam ser democraticamente agraciados a todo e qualquer ser humano vivo.

Pensei oferecer minha modesta colaboração elaborando uma nova proposta dos deveres primordiais de todos nós. Chega de “direitos” e “liberdades” do ser humano, pensei. Precisamos de “obrigações” saudáveis.

Fiz questão de enumerar apenas 7 mandamentos, pois já existe uma outra excelente lista bíblica com 10 itens que pouca gente presta atenção. Quem sabe, reduzindo um pouco o número, alguém finalmente pare para refletir de verdade.

Então vamos lá: toda pessoa deve...

1.... Enfrentar as mudanças e as incertezas da vida sem medo, e enfrentar o medo com espírito prático e alegre. É preciso manter o senso de humor afiado para aceitar o inevitável maior: sua própria transitoriedade e de tudo que lhe cerca. Ou você acha que seu time do coração irá liderar o campeonato brasileiro para sempre? Tudo passa.

2.... Ser capaz de metabolizar os sentimentos negativos, como raiva, angústia e tristeza, transformado-os em motivação, harmonia, esperança e outros antídotos naturais para o negativismo estúpido.

3.... Ter um contato apenas suficiente com a realidade. Nem pouco demais, nem muito demais. Não estamos preparados para lidar com a realidade como ela é, nua e crua. A fantasia é essencial para garantir sua sobrevivência e a da espécie. Mantenha os pés no chão; a cabeça, nas nuvens - e sonhe bastante!

4.... Conhecer-se ao máximo. Só assim seremos capazes de reparar os danos em nós mesmos e nos nossos semelhantes. E você acha que se conhece? Pois então saiba que seu corpo pesa 40 vezes mais que seu cérebro; temos cerca de 3 sonhos por noite; uma criança faz em média mais de 300 perguntas por dia; as unhas das mãos crescem 4 vezes mais rápido que as dos pés; e seus olhos permanecem mais ou menos do mesmo tamanho desde o nascimento. O nariz e as orelhas, por outro lado, nunca param de crescer. Responda novamente: será que você se conhece mesmo ou anda apenas arranhando a superfície?

5.... Ser capaz e livre para compreender e corresponder às necessidades do grupo em que vive. A esta resposta atenciosa ao sofrimento do próximo chamamos de Bondade. Importante: a bondade que não nasce espontânea e desprendida de outros interesses pessoais não é bondade, é escambo.

6.... Ter a coragem de dizer “eu errei” e aprender com a experiência. Afinal, errar é humano. Colocar a culpa nos outros é sábio.

7.... Ser capaz de amar e ser amada. Sem este dever primordial, nós, reles mamíferos medíocres, jamais teríamos prosperado até aqui. Sem esta obrigação de laços, em um futuro cada vez mais próximo, nos tornaremos menos que uma lembrança na poeira deste planeta. Mas lembre-se: o amor mais verdadeiro nasce a partir do deslumbramento com sua própria vida. Encante-se!

14 agosto 2014

OS ADOÇANTES E O FINAL DOS TEMPOS

© Dr. Alessandro Loiola

Existe uma fábula onde um menino muito travesso e entediado, colocado para vigiar algumas ovelhas, divertia-se gritando “Lobo ! Lobo !”. Quando os adultos da aldeia acudiam, armados até os dentes, o menino ria do trote. Assim que todos retornavam para suas casas, ele gritava “lobo !” novamente, e a cena se repetia.

Um belo dia, o socorro parou de vir. As pessoas estavam cansadas de cair sempre na mesma pegadinha. Nesse dia, o lobo apareceu de verdade. E o pobre menino gritou, chamou, cuspiu seus pulmões, “Lobo ! Lobo ! Lobo !!”, mas ninguém acudiu.

Vira e mexe, os especialistas gritam “Lobo !”. Anos atrás, o lobo era a guerra atômica que dizimaria a humanidade em frações de segundo, literalmente entregando o planeta às baratas. E então o lobo se transformou na inflação, no FMI e na dívida externa. E então, no desmatamento do pulmão do planeta e na perda da biodiversidade. Pois agora temos o lobo metamorfoseado em aquecimento global. Com promessa de falta d’água, crise na energia elétrica e catástrofes climáticas.

A cada década, as previsões do Apocalipse ganham um novo fôlego, se atualizando segundo o gosto da moda na última estação. Entretanto, para quem já usou kichute e aprendeu a ler em cartilhas, ouvir alguém gritando “lobo!” perdeu a graça. Banalizado, o anúncio do final do mundo está virando arroz de festa.

Por isso me surpreendi quando deparei com uma das manchetes mais comentadas nas últimas semanas, sobre um estudo publicado no jornal Behavioral Neuroscience concluindo que adoçantes a base de sacarina, ao invés de emagrecerem, engordam. Como pouca gente parou para ler exatamente do que se tratava, sobrou apenas o grito de lobo no ar: adoçante engorda!

Os adoçantes vivem ocupando manchetes estapafúrdias. Era de se esperar que ninguém mais prestasse atenção, mas não foi bem o que aconteceu. E haja saliva para explicar isso no consultório.
Para você ficar por dentro: a bendita pesquisa analisou dois grupos de ratos durante um certo período de tempo. Inicialmente, o primeiro grupo recebia uma dieta com adoçante e outro, com açúcar. Mais tarde, os dois grupos recebiam ração comum à vontade. Observou-se que o grupo do adoçante comia a ração em maior quantidade, tentando compensar a restrição de calorias, e terminou engordando mais que o grupo do açúcar.

A conclusão deveria ser que dietas muito restritivas desequilibram os centros reguladores da fome no cérebro. Estas dietas podem funcionar em um primeiro momento, mas não funcionam para sempre, e o peso perdido termina voltando com juros e correção monetária.

Infelizmente, não foi bem esta manchete que desembarcou na mídia. Chegou uma outra, esdrúxula, dizendo “Cientistas comprovam: adoçante engorda!”, ou alguma coisa do tipo. Foi a gota. A opinião pública começou a apontar seus dedos acusadores com a velha legenda “Tá vendo? Eu disse que essa porcaria fazia mal !”. Segurando suas tochas e bradando palavras de ordem - Queime no inferno, ciclamato, queime! -, algumas pessoas ameaçam ir até o centro da cidade linchar um caminhão de aspartame.

Ah, o que seria da vida sem esses camponeses...

Você quer ter medo da extinção em massa? Tenha medo do cigarro, que está envolvido em 18 dos 20 novos casos de câncer de pulmão diagnosticados no Brasil diariamente. E não precisa ser tabagista ativo não, viu? Fumante passivo também serve. Destes 18 felizes sorteados, 17 irão virar fumaça nos próximos 5 anos, a despeito do tratamento. O câncer pulmonar não é considerado um dos mais letais à toa.

Quer mesmo ter medo? Tenha medo do alcoolismo. O consumo de bebidas alcoólicas está envolvido em 20% dos acidentes automobilísticos, 24% dos assassinatos e 11% dos suicídios. Tudo que você precisa fazer é abrir a próxima latinha.

Quer ter medo? Deixe o vidro de adoçante de lado e preste mais atenção no saleiro e no sofá da sala. O consumo excessivo de sal e o sedentarismo podem resultar em pressão alta e doenças cardiovasculares, responsáveis pela morte de 32 pessoas por hora.

Antes que você me acuse de ser um fiel representante dos profetas do final dos tempos, fique sabendo que, mesmo com os tímpanos fadigados de tanto gritarem “lobo !” por aí, eu não desanimo. No próximo levante dos dândis da histeria coletiva, estou programando pegar minha mochila e sair para um passeio. Vou visitar o buraco na camada de ozônio e algumas ogivas nucleares. Os pobrezinhos andam tão esquecidos...

13 agosto 2014

A RAÇÃO DE EINSTEIN


O plantão não estava corrido quando a pediatra do andar de cima veio para uma visita-desabafo. Ofereci a cadeira, um sorriso e dois ouvidos.

- Você não vai acreditar. Olha só.

E desfiou o causo da menina atendida há pouco com uma senhora crise alérgica. Apesar dos 8 cachorros criados dentro de casa, a mãe fez questão de frisar: “já rodamos todos os testes possíveis e ela não tem alergia aos cachorrinhos, não. Inclusive, todos eles são muito bem tratados, vacinados e alimentados sempre com ração de primeira qualidade”.

O quase-atrito teve início quando a colega preencheu a receita, com uma coletânea de remédios nada em conta:
- Doutora, mas isso vai ficar caro! E eu ando tão apertada de dinheiro...

A pediatra não se conteve e soltou a pérola óbvia:
- Mas... e o dinheiro para comprar a ração de primeira qualidade para todos aqueles cachorrinhos? Esse dinheiro não falta, né?

Hum, golpe baixo não vale. Além do quê, sei muito bem onde essa conversa leva: a lugar algum. Justamente porque este tipo de esclarecimento vai contra a famosa frase de Einstein, proferida lá pelos idos de 1940 e qualquer coisa: “existem apenas duas coisas infinitas - o Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo”.

Naquele dia, a frase do velho Albert foi representada por uma ração para cachorros – ou para crianças, melhor dizendo. Triste, muito triste. Há várias décadas, seguimos alimentando o grosso das gerações futuras com este prato, a ração da estupidez de Einstein. O consumo antes do desenvolvimento, o poder no lugar do afeto, a aparência em prol do conteúdo.

Os ingredientes desta ração estão recheando o futuro com problemas de um gosto bem amargo: 1/3 das crianças e 1 em cada 8 adolescentes sofrem de depressão, tornando o suicídio uma das 10 causas mais comuns de mortes na população abaixo dos 15 anos de idade.

Cerca de 5% das crianças entre 7-11 anos de idade apresentam distúrbios da ansiedade e mais de 10% estão acima do peso. Aproximadamente 15% dos adolescentes fazem uso sistemático de alguma droga (lícita ou ilícita), e os sintomas da síndrome do pânico afetam 1 de cada 20 destes projetos de adultos. Bom, pelo menos para os psiquiatras, as próximas décadas prometem ser divertidíssimas.

Fora das estatísticas, as conseqüências da Ração de Einstein podem ser percebidas em outros sintomas. Por exemplo: o sujeito tem um quintal cheio de lama e limo. Os anos se passam e ele nem para enterrar uma semente de mamão, tomate, abacate, goiaba, cebolinha ou qualquer coisa que valha. Vivemos em um país excepcional, com frutas da época brotando aos montes em todas as épocas do ano. Mas quem tem tempo de plantar uma sementinha? Quase ninguém. Afinal, o pouco tempo que sobra é invariavelmente gasto com latinhas de cerveja, programas de auditório e bordões de incentivo para o futebol nas quartas-feiras. E tome um prato cheio da ração de Einstein.

O mesmo amigo, esse da casa sem frutas ou rede de esgoto, tem 5 filhos e 3 cachorros. Por que não 3 galinhas no lugar dos caninos? Primeiro: cachorro não bota ovo. Segundo: tirando alguns coreanos, não creio que alguém mais curta um delicioso ensopado de Rex com Totó aos domingos. Terceiro: se o bendito não tem tempo de acompanhar sequer o dever de casa das crianças, que diabos está fazendo criando 3 vira-latas? Olha aí, outra tigela da ração.

Felizmente, para os bons gourmets, é possível contornar a indigestão e optar por um prato mais saboroso. Podemos tomar outro caminho, um caminho mais de acordo com nossa capacidade de pensar. Um caminho onde a hipocrisia não é um condimento salpicado no arroz com feijão, e nossas crianças não recebem diariamente uma ração insossa de vícios e idéias empoeiradas.

A cada novo dia, a cada novo encontro com um ser humano, somos presenteados com a incrível oportunidade de criar um universo inédito, muito aquém da panela de estupidez profetizada por Einstein. Para preparar a refeição do futuro, repleta de cordialidade, ternura e altruísmo, só precisamos fazer uma única coisa extraordinária: escolher os ingredientes com inteligência.

Como você anda temperando sua vida?

12 agosto 2014

Fumar durante a gravidez pode afetar o comportamento da criança mais tarde?

© Dr. Alessandro Loiola

O fato do cigarro poder causar má-formações no bebê é um dado bastante conhecido, mas será que a exposição gestacional ao tabagismo poderia afetar também o comportamento da criança mais tarde?

Utilizando imagens de Ressonância Nuclear Magnética (RNM), pesquisadores do Central Institute of Mental Health (Universidade de Heidelberg, Alemanha) descobriram que adultos jovens cujas mães fumavam durante a gestação apresentavam baixa atividade em regiões do cérebro envolvidas com o controle da impulsividade. Estas alterações são semelhantes àquelas observadas em indivíduos com Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

O estudo envolveu 178 mulheres e seus respectivos bebês, que foram acompanhados desde o nascimento. Catorze mulheres gestantes (7,9% do total) relataram fumar 1 a 5 cigarros por dia; 24 (13,5%) fumaram mais que 5 cigarros por dia, e o restante não era tabagista (78,7%). As crianças cresceram e aos 25 anos foram submetidas a uma série de RNM. Em todas elas, a presença de sintomas de TDAH foi avaliada dos 2 aos 15 anos de idade.

Adultos com história de exposição ao tabaco durante a gestação apresentaram mais sintomas de TDAH entre os 2 e 15 anos de idade em comparação às crianças cujas mães não fumaram.
As alterações cerebrais que o cigarro provoca no bebê comprometem o bom funcionamento neural em regiões estratégicas, dificultando o aprendizado e favorecendo o desenvolvimento de comportamentos impulsivos na idade adulta – como o consumo de drogas, por exemplo.

Vale a reflexão.

CEFALEIA TENSIONAL

© Dr. Alessandro Loiola

Se existe uma coisa admirável nos cientistas médicos é a capacidade que eles têm de contabilizar tudo, quase como se cultivassem um fetiche por porcentagens e estatísticas. Por exemplo: estudos recentes calcularam que, dos 6 bilhões de seres humanos neste planeta, 25% apresentam algum transtorno psiquiátrico, 3% são levemente retardados e 1% sofre de esquizofrenia franca. Uma conta dessas só pode ser coisa de doido.

Algumas vezes, as estatísticas se referem a dados que, em última análise, parecem completamente inúteis: uma pesquisa da American Academy of Emergency Medicine calculou que o cidadão médio possui um risco de 30% de morte por infarto fulminante. E daí? Segundo minha modesta matemática, o risco de uma pessoa morrer por qualquer outra causa ao longo da vida é de 100%. No final, o motivo derradeiro não passará de pura burocracia para preencher papéis.

O resultado de uma outra pesquisa que recebi por email revelava que, depois de fazer sexo selvagem, 10% dos homens se viram para o lado direito, 10% se viram para o lado esquerdo e os 80% restantes se viram para chegar em casa antes que a patroa perceba. Esse sim, um dado sociológico chauvinista de extrema relevância.

Mapa da mina

Mas muitas dessas estatísticas possuem aplicações verdadeiramente úteis, como auxiliar na definição de políticas de saúde pública, elaborar orientações para facilitar o diagnóstico e tratamento de certos distúrbios, e – principalmente e acima de tudo – servir de mapa para que a indústria farmacêutica desenvolva novos medicamentos.

Um bom exemplo deste último emprego da ciência: sabendo que, anualmente, cerca de 90% dos homens e 95% das mulheres sofrem de pelo menos um episódio de dor de cabeça (38% dos adultos do mundo apresentarão uma crise ainda nas próximas duas semanas), os laboratórios lançam periodicamente campanhas milionárias para apresentação do analgésico definitivo ou do antiinflamatório mais eficaz de todos os tempos.

Atalhos

Algumas vezes, apertam um pouco o passo e começam a vender um medicamento cujos testes de segurança não foram completamente concluídos, mas qual o problema? Algumas centenas de pessoas cujos rins pararam de funcionar em razão daquela droga mal-sucedida não comprometerão toda a margem de lucro. E ano que vem a gente apresenta uma nova droga e tudo se esquece.

O triste é perceber que as pessoas anseiam por este tipo de atalho para saúde. Não querem compromissos, apenas um atalho. Esse é bem o caso da própria dor de cabeça – chamada de cefaléia no jargão médico. Todo mundo parece adorar um remédio para dor de cabeça, mas o problema pode representar a manifestação de distúrbios graves como sinusite, crise hipertensiva ou disfunção da coluna vertebral, que devem ser tratados com uma seriedade maior que uma simples aspirina.

Tensão excessiva

A cefaléia tensional, o tipo mais comum de dor de cabeça, costuma estar relacionada ao estresse, fadiga, depressão e personalidade perfeccionista. A causa está na tensão excessiva da musculatura da região cervical. Tipicamente, a dor é diária e mais intensa na região frontal ou occipital, podendo durar de algumas horas a vários dias. A dor se inicia logo pela manhã, ao sair da cama, e vai piorando ao longo do dia. O diagnóstico é feito por meio do exame médico.

Se você sofre de crises recorrentes de cefaléia tensional, existem algumas medidas práticas que você pode empregar antes de rechear seu estômago com pílulas de ultima geração: faça compressas mornas nos pontos dolorosos localizados no pescoço e na cabeça.

Exercícios físicos de alongamento para as costas e massagens realizadas por profissionais treinados também ajudam a resolver o problema, assim como não pular refeições, manter um padrão satisfatório de sono, aprender a lidar melhor com o estresse e utilizar antiinflamatórios naturais de eficácia comprovada, como o chá de folhas de algodão.

Efeito colateral

Atenção para o fato de que alguns remédios e substâncias podem causar dores de cabeça como efeito colateral. A lista inclui álcool, codeína, metildopa, beta-bloqueadores (p.ex.: atenolol), hidralazina, reserpina, bloqueadores de canais de cálcio (p.ex.: nifedipina), corticóides, ranitidina, indometacina, anticoncepcionais orais e nitratos sublinguais (muito utilizados para tratamento de crises de angina).

Apesar de mais de 95% dos casos de cefaléia não possuírem uma causa básica grave, alguns sintomas podem indicar a necessidade de uma ida mais rápida ao médico, tais como uma dor muito intensa ou severa (com ou sem rigidez de nuca), dor iniciada após uma pancada forte na cabeça, ou dor associada à febre, convulsão, confusão mental, perda da consciência ou desconforto nos olhos ou ouvidos, e dor capaz de interferir nas atividades do dia a dia.

18 janeiro 2009

AS LEIS DO COMBATE

© Dr. Alessandro Loiola



Esta semana, atendi uma paciente típica. Jovem, sem filhos, veio queixando palpitações, insônia, dores musculares e um profundo desânimo. A fonte de tudo, segundo a querelante, era o bendito casamento. O namoro e o noivado haviam sido 99% e ela esperava que o 1% restante viesse com a troca de alianças. O que aconteceu foi exatamente o inverso, e ambos entraram em uma rotina de troca de tiros sem fim.

O que ela foi fazer no consultório? Queria alguns remédios para acabar com o estresse. Pensei em dizer “cicuta, para seu marido, um copo cheio à noite”, mas me segurei. Tratar o marido seria manter o foco nos sintomas, não na causa. E a causa não era o casamento. Eram as expectativas que tinha da vida.

Como toda mulher com menos de 30 anos e relativo sucesso no começo de sua carreira profissional, ela trazia um roteiro detalhadamente resolvido do seu futuro. Neste roteiro, o marido constava como um personagem, não como uma pessoa. Poderia-se dizer que a diferença entre ele e o boneco sobre o bolo era de apenas alguns quilos de cera. A instituição do casamento em si tinha menos importância que a geladeira frost free de última geração vazia decorando a cozinha.

Terminei liberando-a com a receita de sedativos e antidepressivos que tanto queria - ela estava a caminho de uma reunião urgente e não podia se atrasar nem mais um minuto. Uma pena. Se tivesse mais tempo, teria apresentado algumas diretrizes que todo jovem cônjuge deveria conhecer, e que eu chamo de As Sete Leis do Combate:

1. “O quartel general só vem em dois tamanhos: grande demais e pequeno demais”. Acostume-se. Ninguém chegará perfeito e acabado para suas necessidades. O príncipe encantando precisará sempre de alguma reforma. Ele deverá ser medido, esticado, cortado, remendado, adubado, podado, etc. Boa parte das pessoas que sofrem com seus relacionamentos – e com a própria vida - sofre porque não querem fazer o que sabem que têm que fazer. Ponha mãos à obra.

2. “Se tudo está bem, atenção! O inimigo invariavelmente ataca em duas situações: quando você está preparado e quando você não está preparado”. Assim também ocorrem as crises. Elas virão quando você estiver em pé de guerra, de TPM ou após uma noite inteira de choro do bebê, mas também e surpreendentemente quando o casamento estiver em um mar de rosas. Manter as antenas ligadas para o menor sinal de crise significa metade da solução do problema.

3. “Se você estiver em dúvida, atire. Se continuar em dúvida, atire até ficar sem balas. Qualquer coisa que você fizer - inclusive nada - poderá tornar você mais uma vítima do fogo inimigo”. Calma, isso não quer dizer que você terá razão absoluta todas as vezes que o bicho estiver pegando. Significa que, se você perceber que o relacionamento não está sendo uma fonte de alegria para ambos, algo deve ser feito ainda hoje. Uma boa conversa costuma ser um bom começo.

4. “Se as ordens puderem ser confundidas, elas serão”. A sensibilidade masculina estagnou logo após o Pleistoceno superior, tornando nosso córtex cerebral pouco especializado para a compreensão de indiretas. Por isso, seja clara e específica ao expor o que está lhe incomodando. Lembre-se: quando existe afeto, lágrimas femininas são a maior força hidromotriz deste mundo. O mesmo vale para algumas lingeries.

5. “O alcance de uma granada é sempre maior que a distância que você é capaz de pular”. Muito cuidado ao jogar ultimatos sobre a mesa. Pessoas são como navios: elas podem até mudar de curso, mas costumam fazer isso bem devagar. Assim, se você estiver sem paciência e pensando em explodir o relacionamento, pense duas vezes: será que você estará longe o suficiente para escapar ilesa dos estilhaços? Algumas cicatrizes emocionais podem durar tempo demais.

6. “Se o inimigo tiver muita dificuldade para entrar, provavelmente você também terá dificuldade para fugir”. Construir seu casamento apenas para sustentar um padrão de comportamento para seus pais ou para a sociedade, é como viver em uma prisão de tijolos de ouro. Faça com que sua felicidade – e a de quem você ama - seja como uma porta aberta para o mundo. Nada de falsas amarras ou grilhões de chantagens.

7. “Existe sempre um caminho, mas lembre-se: o caminho mais fácil quase sempre está minado”. Cuidado extra com as soluções práticas. Em alguns casos, elas podem estar apenas escondendo sua própria imaturidade disfarçada de conveniência, não levando a crescimento pessoal algum. Vocês não nasceram juntos e não precisam morrer juntos, mas não permita que algumas pequenas diferenças no princípio inviabilizem as infinitas possibilidades do futuro.

30 outubro 2008

CORAÇÃO DE MULHER

© Dr. Alessandro Loiola


- O negócio é o seguinte: mulher é um bicho complicado. Um bicho muito complicado!... - estava começando meu almoço e o amigo/conhecido, recentemente moído por uma experiência sentimental mal-sucedida, sentou-se descascando sua laranja:
- ... Pra você ter uma idéia, concluí que mulher não gosta de homem. Mulher gosta de dinheiro, sapatos de salto alto, cartão de crédito sem limite... nem de falar de homem, mulher gosta. Elas gostam mesmo é de falar de outras mulheres.
- Hum... ?
- É isso aí. Vá até uma banca, procure revistas para homens. O que você espera ver? Fotos de mulheres. Mulheres com roupa, mulheres sem roupa, mulheres com carros, mulheres na praia, mulheres em todo canto... e uma ou outra foto de um sujeito com cara de Zé fazendo alguma coisa pouco interessante. Agora, procure por revistas voltadas para mulheres. O que você verá?
- Nem imagino... – respondi lacônico, enquanto tentava decifrar porque o arroz tinha gosto idêntico ao da batata cozida. Esse sabor unânime da comida de hospital sempre foi um mistério para mim.
- Pois eu lhe digo: você verá a mesmíssima coisa ! Algumas vezes a revista traz “dez técnicas para acabar com a celulite”, “20 maneiras para vencer suas rugas”, ou “30 dicas quentes para estar na moda neste inverno”, mas no bojo, é tudo igual. Só tem mulher em revista de mulher.
- Olha, de repente se você trocar de revistas...
- Não adianta. Nós só pensamos em mulheres. Elas, idem. Mulheres... ô bicho complicado !

Realmente, entender as mulheres é tarefa para poucos profissionais. No meu caso, me considero no máximo um amador genuinamente interessado. Ainda assim, fui pesquisar para ver se o amigo de cotovelo quebrado possuía alguma razão. Terminei deparando com um outro fato interessante: a absoluta escassez de textos sobre problemas cardiovasculares nas publicações que se dizem voltadas para o ex-sexo frágil.

Páginas, entrevistas e testemunhos sobre AIDS, câncer, menopausa e infidelidade sobram para todo lado, mas pouco se fala sobre a saúde do coração feminino. Saúde orgânica, entenda-se. Apenas nos EUA, mais de 260.000 mulheres morrem anualmente vítimas de ataques cardíacos, um número 5 vezes maior que as mortes causadas pelo câncer de mama.

As mulheres possuem um risco de complicações mais de duas vezes maior que os homens quando se trata de doenças do coração. O motivo? Os sintomas raramente são típicos, provocando atrasos graves na detecção e tratamento do problema.

Dormências no pescoço, dores no meio das costas ou na região do queixo, fôlego
curto, vertigens, náuseas e vômitos podem sinalizar distúrbios cardíacos nas mulheres. Entretanto, como estas manifestações não costumam ser associadas imediatamente a problemas no coração, o diagnóstico correto demora a ser feito, aumentando a incidência de fatalidades.

Para cuidar melhor do seu coração, toda mulher deveria ter na ponta da língua 3 recomendações simples:

1. CONHEÇA SEUS RISCOS. O uso simultâneo de cigarro e pílulas anticoncepcionais aumenta consideravelmente o risco de ataques cardíacos e derrame. A terapia de reposição hormonal, indicada em alguns casos de menopausa, também pode aumentar suas chances de infarto. Converse com seu médico.

2. ATENÇÃO PARA SINTOMAS POUCO SUSPEITOS. Ao invés da clássica dor tipo aperto no lado esquerdo do peito, mulheres que sofrem de doenças do coração tendem a se queixar de dores nos braços, pescoço, costas ou boca do estômago, associadas a palpitações, suores e vertigens. É lógico que estes sintomas podem ocorrer em inúmeras outras situações, mas não deixe de pensar que eles também podem significar problemas no coração. Aja rápido.

3. FAÇA SEU DEVER DE CASA. pratique regularmente uma atividade física para manter a pressão arterial em 120/70. Trinta minutos de caminhada rápida pelo menos 3-4 vezes por semana, se possível temperados com exercícios de alongamento, meditação e controle da respiração, são uma boa ajuda neste sentido.

Siga uma dieta saudável capaz de elevar o colesterol bom (HDL) acima de 50 mg/dL e segurar os níveis de triglicerídios abaixo de 150 mg/dL.

E, finalmente, se quiser voltar ao seu peso ideal perdendo de uma só vez 80 Kg de gordura inútil, despache seu marido ou namorado para tirar uma foto de um iaque no Tibet. Porque, olha: homem é um bicho complicado. Um bicho muito complicado.

22 setembro 2008

MURPHY, OS METAIS E O ELEFANTE: FAÇA SUA ESCOLHA

© Dr. Alessandro Loiola


Diariamente, entram no consultório mais e mais exemplares de uma raça cuja reprodução parece ir de vento em popa: a dos Reclamadores Crônicos. É o tal sujeito que reclama da falta de chuva no dia ensolarado e da falta de um solzinho no dia chuvoso. Que a comida estava muito quente ou muito fria. Que a esposa ou o marido ou o emprego lhes causa tédio demais ou lhes dá nos nervos demais.

É difícil concordar com o raciocínio destes seres que reclamam sem parar. Vivemos as conseqüências de nossas próprias opções. Alguém está obrigando você a viver nesta cidade, neste país, naquele emprego, com aquela pessoa ou com este exato estado de humor? Não. Tudo é fruto de suas escolhas. Podem não ser escolhas fáceis, mas ainda assim são escolhas. E acredite: é você quem decide.

Apesar dos dissabores, os Reclamadores Crônicos parecem seguir uma marcha inexorável em direção ao domínio do mundo. Como estão conseguindo esta proeza? Três teorias do comportamento podem ajudar a responder este mistério:


TEORIA UM: A LEI DE MURPHY

“Se alguma coisa pode dar errado, dará”. Quase sempre, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. Este raciocínio típico possui muitos adeptos e é como um batismo para os novos candidatos a Reclamadores Crônicos.

Alguns exemplos práticos da Lei de Murphy: as peças que exigem maior manutenção quase sempre estão no local mais inacessível do aparelho. Ao vasculhar uma gaveta, você só encontra aquilo que não está procurando. Quando o telefone toca, se você tem caneta, não tem papel. Se tem papel, não tem caneta. Quando finalmente pega ambos, o telefone se cala. E se você jogar fora alguma coisa que tem guardada há muito, muito tempo, vai precisar dela logo, logo.
Um Reclamador Crônico que se preze traz em seus genes uma mensagem clara da Lei de Murphy: a Natureza opera a favor da falha. E ele mesmo, o Reclamador Crônico, sente-se uma prova viva disso.


TEORIA DOIS: O CÓDIGO DOS METAIS

Este nobre código de comportamento é constituído por 4 regras consecutivas, encabeçadas pela Regra de Ouro: “faz aos outros o mesmo que desejas que te façam”.

O risco de falências judiciais associadas à prática da Regra de Ouro resultou em uma adaptação do código mais fácil de ser seguida, chamada Regra de Prata: “não faça aos outros o que não desejas que te façam”.

Como tudo que foi mudado pode ser melhorado para pior, à Regra de Prata seguiu-se a Regra de Bronze: “faz aos outros o que te fazem”.

Porém, a versão mais atual do Código de Conduta dos Metais, editada pelos Reclamadores Crônicos, recebeu nome de Regra de Ferro. Este exemplo de puro altruísmo humano prega o seguinte: “faz aos outros o que quiseres, antes que te façam o mesmo!”. Simplesmente magnânimo.


TEORIA TRÊS: O PRINCÍPIO DOS CEGOS E O ELEFANTE

A Lei de Murphy explica como os Reclamadores Crônicos nascem (negativismo), e o Código dos Metais elucida como eles se multiplicam (por vingança). Mas por que eles não melhoram com o tempo? A explicação pode estar no Princípio dos Cegos e o Elefante, derivado da fábula indiana de mesmo nome.

Na fábula, alguns cegos decidiram aprender o que era um elefante tocando partes diferentes do animal. Um tocou o lado do corpo do elefante e o descreveu como uma parede. Outro tocou a tromba, e ficou convencido de que o animal era como uma serpente. O que tocou o joelho disse tratar-se de uma árvore. O que tocou as nádegas disse que aquilo tudo não passava de uma grande mmm... bem, você captou a idéia.

Mais tarde, ao se reunirem, os cegos se envolveram em uma discussão acalorada. Cada um tinha sua própria versão do bicho, mas nenhuma delas parecia se encaixar com a do outro. Embora estivessem individualmente certos, a intolerância em compreender a verdade do próximo impedia a todos de entender o que era realmente o paquiderme.

Assim como os cegos e o elefante, os Reclamadores Crônicos palpam um fio do cabelo do nariz da vida e aquilo lhes basta para conceber uma seqüência infinita de dificuldades e tristezas. Apegados às suas meias-verdades, eles não entendem que nossas opiniões mais fervorosas são apenas construções frágeis que criam a ilusão de que sabemos alguma coisa – quando não sabemos de coisa alguma.

Juntamente com a existência, você recebeu de presente duas possibilidades: desperdiçar primaveras reclamando de qualquer novo detalhe que a vida lhe oferecer, ou maravilhar-se continuamente com a imprevisibilidade de cada minuto. A escolha é simples – e sua apenas. Faça-a da melhor maneira possível. Só não venha reclamar depois no meu ouvido.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

25 agosto 2008

MULHERES PESO PESADO

© Dr. Alessandro Loiola


Com toda a movimentação em torno das Olimpíadas, é praticamente impossível escapar das manchetes. Acredito que vai ser assim mesmo até o dia 24 de agosto, quando a festa termina. Não sou grande fã de esportes, mas um outro flash termina atraindo a atenção da gente.

Por exemplo: não tem como não parar na frente da TV durante um nado sincronizado ou uma partida feminina de vôlei de praia. Fala sério. Duplas femininas de vôlei de praia. Aquilo é que é boa forma, meu camarada. Paro até para ver enquanto estão enxugando a quadra. Não me chame de machista: culpe o par Y do meu cromossomo X. Eu sou apenas um fenótipo. Ele é que manda.

E os esportes de hoje em dia? É um tal de mountain bike cross-country, vela yngling, skiff duplo peso leve, fossa olímpica dublê, badminton, softbol, misto finn... Nesses, eu nem me arrisco. Espero um pouco mais e volto no canal da praia para ver se terminaram de arrumar a areia. Melhor não forçar tanto as coronárias.

Dias atrás, levei um susto com uma moça chinesa, Chen Yanging, medalha de ouro em levantamento de pesos: a criança levantou 244 Kg ! Cá entre nós: no total, são quase 6 Sandy, da ex-dupla Sandy e Júnior! Tem que respeitar.

Com a conquista da Srta. Yanging, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Nós, médicos, sempre recomendamos aos nossos pacientes que pratiquem esportes aeróbicos, como correr ou caminhar. Mas será que mulheres deveriam levantar pesos?

A resposta é sim, por vários motivos:

- A musculação aumentará sua força física, lhe deixando menos dependente dos outros no dia a dia. Desde dar um puxão de orelha no seu filho adolescente, que agora tem 1.90 m de altura e pesa mais que a mesa de granito da sala, até fazer compras e levar seu notebook para o trabalho, aumentar sua força é sempre uma boa idéia. Estudos recentes mostram que rotinas moderadas de musculação podem aumentar sua força física em 30-50% em poucas semanas.

- Você irá perder peso! Fazer musculação duas a três vezes por semana por 2 meses fará você ganhar pelo menos 1 Kg de músculos puros e perder 2 Kg de gordura. À medida que sua massa muscular aumenta, o mesmo ocorre com sua taxa de metabolismo basal, facilitando o emagrecimento e a manutenção do peso ideal. Para cada 500 gramas de músculos, você queimará 35-50 calorias a mais diariamente.

- Você ganhará forma sem parecer disforme. A musculação habitual não irá lhe deixar parecendo uma versão feminina do Arnold Schwarzenegger. Em comparação aos homens, as mulheres têm 10 a 30 vezes menos hormônios que causam hipertrofia muscular. O levantamento de pesos lhe dará tônus e definição muscular.

- A musculação é capaz de aumentar a densidade mineral óssea em 13% em apenas 6 meses, reduzindo a possibilidade de osteoporose.

- A musculação reduz o risco de dores nas costas, estiramentos, entorses e atrite. Os exercícios de musculação direcionados para o fortalecimento da região lombar são capazes de aliviar 80% dos casos de crises dolorosas neste local.

- Levantar pesos diminui o risco de doenças cardíacas. O efeito ocorre através da redução do colesterol LDL (“colesterol ruim”), aumento do colesterol HDL (“colesterol bom”) e redução da pressão arterial.

- A musculação diminui o risco de diabetes. Os estudos mostram que exercícios regulares envolvendo levantamento de pesos são capazes de melhorar o metabolismo da glicose em 23% em apenas 4 meses.

- Levantar pesos ajuda a combater o desânimo e a depressão. Pesquisas realizadas em Harvard descobriram que 10 semanas de musculação possuem quase o mesmo efeito que a psicoterapia no tratamento dos sintomas da depressão leve a moderada. Mulheres que malham regularmente em geral se sentem mais auto-confiantes e capazes – ambos fatores essenciais para combater a depressão.

O ganho de massa muscular e o aumento da força física são possíveis em qualquer idade, até mesmo em mulheres com mais de 70 ou 80 anos. Sua independência está intimamente associada à saúde da sua mente e à força dos seus músculos. Quanto mais tempo você mantiver ambos, mais poderá curtir e fazer as coisas que gosta.

Para extrair o melhor dos exercícios, lembre-se sempre de começar passando pela avaliação de um profissional de Educação Física capacitado e, de preferência, obtenha uma liberação do seu médico de confiança para a prática do esporte que você escolheu.

Daí em diante, nem o céu – tampouco a China - é o limite!

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

19 agosto 2008

A 180 CAVALOS PARA A ETERNIDADE

Curiosamente, ainda tem gente reclamando da Lei Seca, que vem provocando uma revolução silenciosa em nossas estradas. Dada minha profunda admiração pela inteligência (inteligência?) humana, só posso concluir que os reclamantes são:

(1) Vendedores de bebidas alcoólicas preocupados que a Lei possa atingir o Nervo Bolsoriano, ramo do Plexo Carteiral e um dos mais dolorosos do corpo; ou

(2) Alcoólatras convictos, ofendidos pela idéia preconceituosa de que pessoas embriagadas podem não saber dirigir direito; ou

(3) Completos ignorantes de carteira assinada. Iria dizer burros mesmo, mas talvez essa palavra seja um tanto forte e provoque indignação entre nossos parentes ungulados. Vamos ficar apenas com “ignorantes”. Assim eles ganham tempo para se informar sobre o que estão defendendo.

Minha contribuição para o terceiro grupo segue na crônica de hoje. Se não for suficiente, saia da teoria para a prática: procure um pronto-socorro e passe um fim de semana inteiro por lá, se deliciando com a construtiva mistura entre álcool e veículos motorizados – e depois a gente conversa.

Boa leitura,

Dr. Alessandro Loiola.

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A 180 CAVALOS PARA A ETERNIDADE

© Dr. Alessandro Loiola


Tendo uma ótima xícara de capuccino por testemunha, abro uma revista local e sou avisado de que a montadora X está disputando com a montadora Y o título de “carro mais veloz fabricado do Brasil”. Ambas estão produzindo máquinas com mais de 180 cavalos de potência capazes de acelerar a 220 Km/h e além.

Na página ao lado, uma imensa propaganda de festa de axé e abadás patrocinados por uma cervejaria. Palmas para o diagramador: carros lado a lado com bebidas alcoólicas. Excelente associação.

Na época das primeiras locomotivas, algumas pessoas temiam embarcar nos trens e morrer por falta de oxigênio: um punhado dos cientistas de então chegou a afirmar categoricamente que a velocidade do trem seria suficiente para sugar todo o ar de dentro dos vagões quando alcançasse os espantosos 90 Km/h de velocidade! Os bólidos atuais de fórmula 1 alcançam velocidade mais de 3 vezes superiores a esta, e não tenho notícia de mortes de pilotos por sufocação a vácuo.

O desejo por automóveis cada vez mais rápidos é um paradoxo quando observamos as ruas das cidades cada vez mais cheias de gente e as estradas, de buracos. Não por acaso, os pretensos ases do volante e seus motores de última geração respondem por cerca de 100 mortes no trânsito por dia na nação tupiniquim.

Apenas como comparação, em cinco anos de guerra no Iraque morreram algo como 4.000 soldados americanos em combate. Nossa guerra de automóveis é 50 vezes mais letal que vestir um uniforme do Tio Sam e enfrentar terroristas nos desertos do Oriente Médio.

No fundo, como a própria página de revista sugeriu, o que torna um carro brasileiro mais mortífero que um muçulmano injustiçado é a dobradinha volante x bebida alcoólicas. Mais de 60% dos acidentes automobilísticos com mortes foram antecedidos por goles “inofensivos” de louríssimas geladas e outros compostos etílicos.

Este corpo que você carregará consigo para a balada à noite ou para o churrasco no final de semana é composto basicamente por água, algumas pitadas de sais minerais e uns outros temperos exóticos. O álcool tumultua o equilíbrio dessas substâncias. Após a ingestão de pequenas quantidades, ele se distribui rapidamente por todos os tecidos, com uma preferência especial pelo cérebro.

Os sintomas iniciais de embriaguez incluem excesso de autoconfiança (“deixa que eu dirijo, não tô tão ruim assim não, pô, coalé... !”), redução do campo de visão (“... fala sério: só me diz cadê a praga da chave do carro?“, “aqui, na sua frente, ó..”), alteração da audição (“Heeiin?!?”) e do senso de equilíbrio (“péra que agora eu acerto o buraquinho da *ic* ignição...”).

A animação inicial não é nada mais do que a anestesia dos centros cerebrais responsáveis pelo controle do comportamento. Esta anestesia leva um certo tempo para passar. A eliminação do álcool não pode ser acelerada por exercícios físicos, banhos gelados ou remédios. Um bom café forte irá apenas transformar um bêbado sonolento em um bêbado acordado. A mudança dos fatores não irá alterar o produto.

Tudo que você pode fazer para se livrar da intoxicação alcoólica é esperar o tempo necessário para que o fígado metabolize e neutralize o álcool. Na maioria das pessoas, este processo leva 6 a 8 horas. Tenha paciência.

Se você consumiu duas latas de cerveja ou dois copos de vinho, você provavelmente conseguiu ultrapassar o limite considerado seguro e, de acordo com a Lei (não ria: dizem que ela, a Lei, existe mesmo), já pode ser considerado embriagado. Meus parabéns. Agora mire no pedestre mais próximo e ganhe bônus para a fase seguinte do jogo: enquanto você diz se arrepender, o infeliz inocente desencarnado pela sua ignorância apodrece debaixo da terra.

É uma troca justa ou engraçada? Antes de rir, feche os olhos e responda: se o tal inocente fosse seu pai, mãe, filho ou filha, qual a cor da coroa de flores que ficaria mais bonita no velório?

Para os alcoólatras motorizados deixo duas perguntas finais: todo mundo morre um dia, mas para que a pressa? E por que tanta questão de levar outros com você?

Diabos, não parece uma mensagem difícil de entender: se dirigir, não beba! Se beber, não dirija - ou certifique-se de ter um bom plano funerário. Assim você poderá pegar seu carro-arma-de-destruição-em-massa e passar tranqüilamente a mais de 180 cavalos por hora para a eternidade. Tenha uma boa viagem.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

11 agosto 2008

A DESCONSTRUÇÃO DA CIÊNCIA

© Dr. Alessandro Loiola


Um saudoso professor costumava nos dizer, enquanto fazia sua corrida matinal de leitos:

- Vocês um dia estarão lá fora, clinicando e tratando seus pacientes, e devem saber o quanto antes que a medicina não é, nem nunca pretendeu ser, uma ciência exata, isenta de falhas. Assim que receberem seus carimbos, vocês verão que nossa vida profissional é uma eterna alternância entre 3 grandes categorias de médicos.

Ele fazia uma pausa, segurando um prontuário qualquer como o bom ator que espera sua deixa, e então alguém perguntava:

- Quais categorias, professor?

Levantando as sobrancelhas e olhando por cima dos óculos, sem largar o prontuário, ele concluía solenemente:

- Os que erram muito, os que erram pouco e os que só erram.

Essa história me veio à cabeça quando, durante um intervalo no hospital, uma auxiliar de enfermagem veio me perguntar assim, na surdina, como quem conta um segredo terrível ou uma infidelidade digna da Santa Inquisição:

- Doutor, o que o senhor acha da auto-hemoterapia?

E eu que achei que este assunto estava morto e enterrado. Mas não está. Graças a um posicionamento absolutamente precipitado das sociedades de especialistas, a auto-hemoterapia foi banida da prática médica.

Sob o pretexto de que “não existem evidências científicas favoráveis comprovando sua eficácia”, a auto-hemoterapia foi execrada ao limbo da charlatanice. De quebra, ao fazer propaganda da técnica, o médico carioca Dr. Luiz Moura terminou tendo seu registro cassado no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 2007. Mas isso não fez a auto-hemoterapia desaparecer – ela ainda acontece, na penumbra.

Não sou defensor da auto-hemoterapia. Concordo com seus acusadores: realmente faltam evidências sólidas. Mas, pensando cá com meus botões, então não seria o caso de ir atrás destas evidências, sejam elas boas ou desfavoráveis? Bastaria seguir os mesmos protocolos de pesquisas clínicas utilizados há décadas para avaliar novos antiinflamatórios, novos antibióticos, novas próteses, novas tecnologias - vide desde a cirurgia videolaparoscópica até os recentes avanços nas pesquisas com células-tronco.

Mas não, não houve racionalidade ao lidar com a auto-hemoterapia. Houve, sim, uma deterioração da ciência em prol de uma agenda obscura de intolerância com o novo. Curiosamente, uma agenda brandida com ares de indignação pelos mesmos bispos que deveriam defender o pensamento científico livre, leve e solto.

Como seremos capazes de enxergar o novo se continuamos saindo de casa doutrinados para ver somente as mesmas coisas de sempre?

Se você já estudou termodinâmica, certamente conhece a escala de Kelvin de temperaturas absolutas, batizada em nome do gênio William Thomson, brilhante matemático e físico irlandês também conhecido como Lorde Kelvin. Dentre as inegáveis contribuições deste homem à ciência, constam algumas bem embaraçosas.

Apesar de ser um profundo conhecedor da engenharia e da eletricidade, em 1895 Lord Kelvin profetizou: “máquinas voadoras mais pesadas que o ar não são possíveis”. Em 1897, outra pérola: “o rádio não tem futuro e os raios-X são um embuste!”. E, na aurora do Século XX, encenou sua derradeira e mais célebre escorregadela ao dizer que “a física já descobriu praticamente tudo que havia para descobrir no Universo”. Um certo Albert Einstein mostraria alguns anos depois que o buraco era um pouco mais embaixo.

A ciência biomédica está repleta de equívocos semelhantes, opiniões jogadas ao ar antes de serem submetidas ao escrutínio do método científico. Frases de efeito que mais parecem frases de defeito.

"A teoria dos germes de Louis Pasteur é uma ficção ridícula", escreveu Pierre Pachet, Professor de Fisiologia em Toulouse, 1872.”O abdome, o tórax e o cérebro permanecerão para sempre além do alcance de qualquer cirurgião humano”, disse, em 1873, Sir John Eric Ericksen, cirurgião da coroa britânica. "Não teremos artrite no ano 2000”, vaticinou o famoso reumatologista Dr. William S. Clark, em 1966.

Ah, nada como o tempo para mostrar que o futuro não é mais aquilo que costumava ser...

Enquanto a orgulhosa ciência médica torna-se ela própria uma forma religião, escravizada no apego irrestrito às normas e preceitos em detrimento da lógica, me pergunto: estamos construindo faculdades de medicina ou igrejas, templos e seitas que pregam não o amor à ciência e à curiosidade altruísta, mas uma louvação cega a dogmas empoeirados?

Nesta fogueira tão antiga, onde o preconceito ainda reina como cultura, a auto-hemoterapia e o ex-Dr. Luiz Moura foram apenas os gravetos mais recentes. Outros virão. É preciso alimentar a chama. Valha-me Santo Prometeu, filho de Jápeto! Amém.

08 julho 2008

FALANDO SÉRIO: VISTA ESTA CAMISA !

© Dr. Alessandro Loiola


Há cerca de 50 anos, gonorréia, sífilis e gravidez eram as doenças sexualmente transmissíveis (DST) mais comuns. Foram tempos afrodisíacos, em que a maioria dos problemas sexuais podia ser resolvida com uma dose de penicilina ou um ótimo bolo de casamento. Mas as décadas voaram e surgiram novos vilões, como hepatite B, HPV, HIV, clamídia, vaginite, uretrite e pensões alimentícias com execução judicial.

Estas e outras DST afetam milhões de pessoas a cada ano, e vários milhares ficam gravemente enfermos ou morrem. No meio do tiroteio entre fungos, vírus, bactérias, homens mulherengos (perdão pela redundância....) e ex-esposas furiosas, como se proteger ?

Abster-se de sexo é a única proteção absoluta contra as DST e qualquer um que mantenha relações sexuais está sob risco de adquirir uma dessas moléstias. Talvez a abstinência não esteja no topo da sua lista de opções viáveis. Neste caso, para alívio seu e dos demais seres humanos sexualmente ativos na Via Láctea, existe uma saída: a camisinha. A camisinha é um meio barato e eficaz de reduzir as possibilidades de contágio e gestações indesejadas.

Pesquisas mostraram que se a camisinha for utilizada corretamente a cada ato sexual durante um ano, é esperado que apenas 3 em cada 100 mulheres fiquem grávidas. O uso incorreto – e não a má-qualidade da camisinha – é o que leva à maioria dos insucessos.

Os preservativos de látex, ao evitar contato com secreções corporais, agem como uma barreira contra uma grande variedade de agentes infecciosos. O espermicida nonoxinol-9, utilizado em alguns preservativos, é eficaz como contraceptivo e pode reduzir o risco de transmissão de algumas DST (com exceção do HIV).

E anote aí outras dicas valiosas para tirar o máximo proveito dos preservativos:

Para Eles

· Alguns homens possuem alergia ao látex, mas nem por isso não podem usar camisinhas: existem preservativos de poliuretano, que não produzem alergia.
· Guarde as camisinhas em um lugar fresco e seco, longe da luz do sol. Não cometa o erro comum de guardá-las desprotegidas no porta-luva, na carteira ou na bolsa. Isso pode danificar o látex e inutilizar o preservativo.
· Uma camisinha é várias vezes mais barata que uma caixa de antibióticos ou um pacote de fraldas descartáveis. Por isso, verifique a embalagem e a qualidade do látex. Se algum dos dois não lhe parecer seguro, jogue o preservativo fora e compre um novo.
· Observe sempre o prazo de validade e não utilize camisinhas com mais de 5 anos de fabricação. E nunca, nunca mesmo, reutilize uma camisinha. Principalmente se não for a sua!
· Na empolgação, cuidado para não danificar o preservativo com unhas, dentes ou outros objetos pontiagudos ou cortantes, como chicotes de couro, chaves de fenda e furadeiras de impacto Black & Decker.
· Uma boa lubrificação durante a relação torna tudo mais fácil. Apenas evite lubrificantes à base de óleos (p.ex.: vaselina e óleo de cozinha) pois eles podem enfraquecer o látex.

Para Elas

· Pílulas protegem contra gravidez mas não evitam DST. Você pode contrair HIV, HPV, gonorréia ou hepatite B mesmo tomando a pílula anticoncepcional. O mesmo vale para os diafragmas.
· A camisinha feminina existe, é confiável e oferece um bom nível de proteção contra gravidez e DST. Mas não a utilize junto com o preservativo masculino. Elas simplesmente não permanecerão no lugar.
· No período de um ano, espera-se que 5% a 21% das mulheres que utilizam a camisinha feminina fiquem grávidas. Da mesma forma como ocorre entre os homens, boa parte dos insucessos se deve ao uso incorreto do preservativo.

Para Eles e Elas

Tenha consciência de que camisinhas não são métodos 100% confiáveis e que o comportamento sexual de baixo risco é um dos meios mais seguros para manter-se longe das DST. Contenha seu entusiasmo, permita que seu cérebro faça a parte dele e visite regularmente seu médico.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

16 junho 2008

HULK RUGA

© Dr. Alessandro Loiola
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Família toda no cinema. Fomos reencontrar o Incrível Hulk e uma boa desculpa para aquela rodada de pipocas no domingo à tarde. Passados uns poucos minutos de filme, comecei a deixar o roteiro em segundo plano e passei a ficar entretido com a Computação Gráfica (CG). É absurdo o que a CG pode fazer atualmente!

Se colocarmos lado a lado a capacidade de expressão do novo Hulk-digital e os 60 Kg de botox do Sr. Al “Histrionismo Absoluto” Pacino, o Sr. Pacino corre o risco de ganhar o Oscar por uma margem estreita, muito estreita.

Na guerra cinematográfica da digitalização versus sindicato dos artistas, as marcas de expressão (popularmente conhecidas como rugas) são como um denominador comum, um verdadeiro termômetro: em busca de realismo, os especialistas em informática lutam para colocar rugas em seus personagens de bits. Os artistas do mundo real, lutam para tirá-las de si próprios.

O Hulk franze a testa e a cara enfurecida, e fico imaginando porque temos tanto medo das rugas. Elas sempre foram uma parte natural do processo de envelhecimento. Ou alguém lhe prometeu chegar aos 90 anos com um rosto de pêssego?

O tempo torna a pele menos elástica e mais frágil. A diminuição na produção de óleos faz com a pele torna mais ressecada e pregueada. A gordura presente nas camadas mais profundas, e que conferem uma aparência mais macia, também diminui com o tempo, acentuando os sulcos na superfície.

Os anos de cigarro e exposição desprotegida à radiação ultravioleta do Sol resultarão em danos às fibras de colágeno e elastina, responsáveis pela força e flexibilidade da pele, acelerando o processo de envelhecimento.

Entretanto, se as rugas estão lhe causando constrangimento, existem opções para diminuir ou mesmo eliminar o problema. Retinóides tópicos, cremes, enchimentos com gordura, silicone e cirurgias a Laser estão entre os recursos mais utilizados para restaurar a aparência da pele.

Por exemplo: o dermoabrasão, uma técnica bastante popular de “lixamento cirúrgico da pele”, costumava ser empregada para melhorar cicatrizes decorrentes de acne, catapora e acidentes. Atualmente, ela pode ser usada para tratar lesões pré-cancerosas, tatuagens, manchas da idade e rugas mais profundas.

O peeling químico consiste na aplicação de uma solução capaz de provocar a descamação e surgimento de uma nova pele, mais lisa e menos enrugada que a pele antiga. A vermelhidão resultante do peeling químico pode durar um bom tempo, deixando você com aquele perfil super natural de tomate San Marzano. Uma beleza. Evite aparecer na frente das visitas neste meio tempo.

A Toxina Botulínica tipo A, ou Botox, atua eliminando a contratura muscular e reduzindo certas rugas. Os resultados costumam durar pouco, coisa de 3-4 meses, mas recomendo que você fuja de batizados e festas infantis durante o período: seu sorriso botulínico pode traumatizar algumas crianças pelo resto de suas vidas.

Finalmente, temos o lift facial, um procedimento cirúrgico anti-rugas um pouco mais agressivo que os demais, onde o excesso de pele no rosto e o excesso de gordura na região do pescoço são removidos, e a musculatura da região é reforçada, dando ao rosto uma aparência mais firme e jovem. Quer dizer, isso quando dá certo. Porque quando o lifting não é feito com critério, o sujeito pode terminar com aquela expressão de motoqueiro sem capacete, os olhos e a boca esticados pelo vento até a altura das orelhas, quase engasgando com os brincos.

A parte boa da historia: os resultados do lift duram cerca de 10 anos, mais ou menos o tempo necessário para você pagar o lifting anterior e juntar aquela grana para o próximo.

Neste mundo moderno de valores invertidos, onde o exterior é ricamente decorado com plásticas e roupas da moda, enquanto o interior é abandonado como um latifúndio de futilidades em câmeras em tempo real, prefiro ficar com o escritor Mark Twain que certa vez disse que “as rugas devem indicar apenas o lugar onde os sorrisos estiveram”. Por que alguém em sã consciência cismaria em perseguir e apagar cada uma destas lembranças?

Talvez o Hulk Ruga traga a resposta no final do filme. Veremos.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

05 junho 2008

MENOPAUSA MASCULINA

© Dr. Alessandro Loiola


As mulheres, estas felizardas, possuem vários trunfos em suas mangas: sempre que querem ser elas mesmas, podem apelar para a velha tática de culpar a TPM. Quando a TPM há muito se foi, têm a opção da menopausa.

Por muitos anos, nós, homens, estivemos à mercê da sorte e do humor feminino. Não mais: pesquisas recentes mostram que talvez exista uma saída, afinal.

Todos vocês, caros colegas de gênero, lembram bem da época em que éramos como urubus planando alto e faturando qualquer carniça. Desde pacas, tatus, cotia-não até o radiador do velho jipe Willis, era só apontar e estávamos dentro. Décadas e mais décadas depois, alguns começam a se sentir como uma sombra dentro da sombra. “Eu já fui notícia, meu filho, hoje não passo de um boato” entristece-se o velho guerreiro, representante típico desta nova legião, a dos Andropausados.

A Andropausa, ou Menopausa Masculina, pode ser definida como aquela época da vida em que o trabalho não dá prazer, e o prazer começa a dar um trabalho danado.

O motivo para a decadência é simples. Os níveis de testosterona, o principal hormônio masculino, começam a cair até 1% a cada ano a partir dos 30 anos de idade. A redução é gradual, mas permanente. Por volta dos 50 anos, cerca de 10% dos homens apresentam níveis baixos de testosterona. Aos 70 anos, mais da metade sofre com deficiência franca do hormônio. Aos 80 anos, a maioria dos homens tem níveis de testosterona (e comportamentos) semelhantes ao de meninos antes da puberdade.

Muitos médicos ainda relutam em reconhecer a Andropausa e seu verdadeiro significado do dia a dia masculino, mas a Andropausa é um fenômeno real. Ela não tem coisa alguma a ver com a famosa crise da meia idade. Trata-se de uma alteração orgânica mensurável - e absolutamente tratável.

Os sintomas da Andropausa são bastante semelhantes às manifestações da menopausa em mulheres. Um estudo realizado nos EUA envolvendo mais de 2.000 homens entre os 40 e 60 anos de idade, mostrou que 80% deles se queixavam de fadiga intensa, 70% sofriam de algum nível de depressão, e mais de 60% se queixavam de irritabilidade e distúrbios da ansiedade.

Outras manifestações relacionadas a Andropausa incluem alterações inexplicáveis de humor, insônia, diminuição da libido, fraqueza, perda de massa muscular, dificuldade para obter ereções e uma certa tendência para lágrimas na parte dramática dos filmes da Disney.

Uma vez reconhecidos os sintomas, o passo seguinte consiste na realização de alguns exames para eliminar a presença de doenças com manifestações semelhantes a Andropausa, como certas doenças do fígado e da tireóide, anemia, alcoolismo, diabetes, depressão essencial, etc.

A dosagem de Testosterona Livre no plasma é o principal teste, devendo ser feita em uma amostra de sangue colhida pela manhã, em jejum. Se os níveis estiverem abaixo de 200 nanogramas/dL e você não possuir fatores de risco significativos, a Terapia de Reposição de Testosterona (ou TRT) pode ser iniciada.

A TRT só deve ser realizada sob supervisão médica criteriosa, estando contra-indicada em homens com problemas na próstata, doenças no fígado, altos níveis de gordura no sangue ou passado recente de tromboses. A TRT não é um tônico capaz de resolver todos o problemas da sua vida, mas uma terapia específica com vários efeitos colaterais importantes. Para utilizá-la, é necessário realizar exames de acompanhamento a cada 3-6 meses. Entretanto, desde que indicada e realizada de modo responsável, a TRT produz resultados quase milagrosos.

A testosterona pode ser administrada de várias formas: oral, injetável, transdérmica (adesivos) ou por implantes. As formas orais não são mais recomendadas devido ao risco de efeitos tóxicos sobre o fígado. As formas injetáveis não oferecem níveis estáveis e podem terminar piorando os sintomas da Andropausa. As apresentações transdérmicas têm sido as mais utilizadas nos últimos tempos.

Além de buscar tratamento especializado, existem algumas medidas simples que você pode adotar a partir de agora para lidar melhor com os sintomas da Andropausa:

- Aprenda técnicas eficazes para lidar melhor com o estresse.
- Siga uma alimentação nutritiva, com pouca gordura e rica em fibras vegetais.
- Tome pelo menos 8 copos de água por dia.
- Diminua o consumo de bebidas alcoólicas e cafeína.
- Mantenha um padrão de sono saudável.
- Pratique alguma forma de atividade física regularmente.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

26 maio 2008

A TRIBO DOS RONCADORES

© Dr. Alessandro Loiola


Volte seu relógio alguns milhares de anos até a pré-história. Até aquela época em que habitávamos um mundo selvagem, bestializado e extremamente violento. Eu sei, não é preciso voltar no tempo para viver em um lugar assim. Basta ir até a esquina. Mas seja paciente.

Pegue seu tacape. Você está de guarda numa daquelas noites frias e chuvosas, com uivos ao fundo. O resto da tribo dorme na caverna enquanto corre a madrugada. Você pisca. A roda ainda não foi inventada, mas o plantão noturno sim. Chuva, frio, aquele pernil de preguiça gigante feito na brasa ameaçando avançar para o duodeno, e você ali. O protótipo neandertal do vigia sonâmbulo.

Fatalmente, você cai no sono. Aproveitando a deixa, os uivos se esgueiram pela sombra, aproximando-se da caverna. São lobos. E estão famintos. Mas antes que o treinador arme o ataque 4x4x2 lançando um coiote por sobre a barreira, um som gutural assustador, como o urro de bestas terríveis e possessas, irrompe pela caverna. E logo outro. E ao ressoar o terceiro, a matilha se dispersa, rabos entre as pernas, desaparecendo apressada na floresta.

Sem que soubessem, você e sua tribo foram salvos por uma adaptação maravilhosa da natureza: o ronco.

Não somos os animais mais rápidos ou os mais fortes ou aqueles com a mordida mais devastadora. Apesar de predadores, somos mamíferos terrestres relativamente frágeis. Então como poderíamos nos manter protegidos durante o descanso? Fácil: o som de dezenas de homens da caverna roncando juntos seria suficiente para manter qualquer ameaça a uma distância segura.

Levando o raciocínio adiante, seria possível deduzir que tribos de não-roncadores permaneceriam mais expostas durante as horas de sono, complicando suas chances de perpetuação, resultando em uma conclusão bastante simples: seguindo a linha nua e crua da seleção natural, somos todos descendentes de roncadores instintivos. Pois apenas os roncadores sobreviviam às noites de sono.

O ronco é o ruído que a respiração produz ao passar pelas vias aéreas parcialmente obstruídas durante o sono. Estima-se que mais de 1/3 dos adultos ronquem pelo menos algumas noites por semana. De cada 10 roncadores crônicos, 9 são homens – a maioria com 40 anos de idade ou mais.

Apesar da teoria da tribo dos roncadores explicar porque seu marido imita um urso com cólica intestinal durante o sono, os especialistas defendem que o ronco está intimamente relacionado a distúrbios tais como obesidade, aumento das amídalas e das adenóides, e deformidades no nariz. Fumar, consumir bebidas alcoólicas em excesso, fazer alimentações pesadas antes de ir para cama, dormir de barriga para cima e sofrer de alergias nasais facilitam a ocorrência de roncos.

Você talvez não ligue para o seu ronco, mas tenha certeza que qualquer pessoa que esteja por perto tem uma opinião um pouco diferente. Em todos os casos, procurar seu médico de confiança é uma boa recomendação. O ronco pode sinalizar a presença ou o início de outros problemas mais sérios, como apnéia do sono, obstrução nasal e separações litigiosas. Além disso, o ronco pode resultar em sonolência excessiva durante o dia e aumentar o risco para hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e derrame.

Para resolver a situação, o primeiro passo é cortar os fatores de risco. Elimine o excesso de peso; evite refeições pesadas, bebidas alcoólicas ou cafeína no horário de dormir (o ideal é manter o jejum nas duas horas anteriores ao seu horário habitual de ir para a cama); mude a posição em que você dorme (p.ex.: levante um pouco a cabeceira da cama, coloque um travesseiro para ficar de lado, etc), e mantenha o quarto limpo e arejado para evitar rinite e congestão nasal.

Outros recursos para controlar o ronco incluem o uso de próteses orais que evitam a queda da língua, e máscaras especiais que mantém uma pressão contínua sobre as vias aéreas, evitando a obstrução (este tratamento com máscaras de pressão, conhecido como CPAP, é eficaz e razoavelmente desconfortável).

Casos mais graves podem necessitar tratamento cirúrgico. O procedimento mais comumente realizado é uma espécie de cirurgia plástica da garganta que aumenta o diâmetro das vias aéreas e reduz a vibração. Vale lembrar que a intervenção cirúrgica não está indicada nos casos de ronco ocasional ou leve.

No final das contas, se o seu ronco estiver incomodando as pessoas da sua vizinhança e nenhuma das medidas descritas anteriormente resolver o problema, eu recomendo que você junte suas trouxas e mude para uma caverna. De preferência, longe da minha.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

20 maio 2008

COMO LIDAR COM UMA CRIANÇA PIRRACENTA?

© Dr. Alessandro Loiola


Dia desses foi comemorado o Dia Mundial Sem Carro. Quando vi a propaganda, achei que todos os automóveis seriam enviados para Netuno e só voltariam ao planeta no dia seguinte. Uma maravilha. Mas, para minha decepção, não foi nada disso. Enfim, por causa das celebrações, fui zapear na Internet e descobri que existem cerca de 500 milhões de automóveis no mundo. Para cada um destes automóveis, existe um adulto responsável, devidamente treinado e habilitado para sua condução. E então veio o estalo.

Existem 1,82 bilhões de crianças no mundo. Quase 4 crianças para cada automóvel. Responda rápido: qual você acredita ser a proporção de adultos responsáveis, devidamente treinados e habilitados para conduzir estas crianças?

Não conheço escolas ou faculdades que formem pais responsáveis. Também não existem cursos rápidos sobre como criar filhos. Isto continua sendo uma experiência individual na maioria dos casos, baseada na velhíssima fórmula de tentativa e erro.

Uma das queixas mais freqüentes dos pais despreparados é que “a criança que faz pirraça demais”. Ora, no começo da infância, tudo que o bebê quer é chamar sua atenção. Para isso, ele irá falar, chorar, bater, jogar coisas no chão e perturbar todo mundo. Ele não se importa muito se está sendo agradável ou chato, desde que você olhe para ele. Isso não tem coisa alguma a ver com pirraça.

Além disso, a pirraça ou birra não deve ser confundida com desobediência. O conceito de pirraça começa no momento em que a criança sabe a diferença entre certo e errado, mas ainda não tem maturidade suficiente para se controlar e fazer a coisa certa. Esta fase começa por volta dos 2 anos de idade. Raramente, a criança pirracenta quer um confronto. Ela quer apenas atenção e descobrir seus limites.

Por outro lado, a desobediência significa que a criança faz questão de se impor firmemente contra a sua autoridade. Nestes casos, ela quer de toda forma um confronto.

Para enfrentar uma crise de pirraça com garbo e estilo, recomendo que você faça o seguinte:

- Inicialmente, mantenha um comportamento sereno. Tente ignorar a birra, falando com a criança de modo calmo e pausado, porém firme. Procure entender e explicar a situação. Se isto não funcionar, a criança deve ser castigada.

- Quando digo “castigada” não estou falando “surrada até a morte exsanguinante”. Punir a criança com tapas e beliscões pode ser uma solução rápida, mas certamente é pouco duradoura. Além disso, você estabelece um ciclo de agressões e truculências que não leva a nada. Um excelente exemplo de castigo é proibir a criança de brincar com os coleguinhas ou de assistir ao programa preferido de TV durante uma semana.

- Se a criança não ceder, ela deve ser subordinada. Novamente, isso pode ser feito sem violência. Como? Mostre-se fora de controle, faça a criança perceber que, se é para perder a cabeça, você pode ser mais perigosa que ela. Mas nunca subordine fazendo ameaças ou gritando em público: a audiência só faz a criança aumentar o teatro. No final da subordinação, aplique um castigo.

- Se a pirraça estiver relacionada a uma situação onde não existe possibilidade de negociação (p.ex.: a criança não quer tomar banho, ou se joga no chão para não atravessar a rua, etc), pegue a criança com firmeza pelos braços, sempre dizendo o que você está fazendo e porquê. Não bata nem discuta. Quando terminar de fazer o que precisava ser feito, avalie se é ainda necessário aplicar alguma forma de castigo.

- É óbvio que para tudo existe um limite. Desde a quantidade de carros em circulação até o número de crises de pirraça que uma criança pode ter em um dia. Se a criança começar a machucar a si própria ou a outras, tiver mais de 5 crises de pirraça por dia, ou se as birras estiverem associadas a outros problemas de comportamento (p.ex.: dificuldade para se expressar, para fazer amigos, para aprender na escola, etc), é recomendável visitar o médico para uma avaliação mais específica.

E lembre-se sempre: a obediência da criança depende da sua capacidade de mostrar autoridade com inteligência. Ouça e converse com seu filho. Explique o que você acredita que ele fez de errado, escute os motivos dele e deixe-o de castigo se for preciso, mas jamais apele para surras. A violência é o argumento da ignorância. E a ignorância é o caminho mais curto para o fracasso.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

01 setembro 2007

CONDILOMATOSE

© Dr. Alessandro Loiola


Eu já estava queimando os últimos neurônios tentando entender porque aquele sujeito havia marcado uma consulta - afinal, ele negava tudo quanto era sintoma e parecia desfrutar do mais perfeito estado de saúde. Passaram-se vários e vários minutos até que ele criasse coragem, soltando o verbo: estava com “verrugas genitais”. Ah, agora a enrolação fazia sentido.

Um exame rápido e percebi que ele não estava com uma verruga qualquer, mas com uma condilomatose tipo figura de livro, pra estudante de medicina nenhum deixar de fazer o diagnóstico.

A condilomatose é uma doença causada pelo Papiloma Vírus Humano, ou HPV, e se caracteriza por pequenas verrugas indolores na região genital e perianal. Coceira ou irritação local raramente ocorrem, mas em pessoas com alterações no sistema de defesa, a condilomatose pode crescer rapidamente e envolver áreas extensas.

O HPV é altamente contagioso. Aproximadamente 2/3 das pessoas com relato de contato íntimo com alguém infectado pelo HPV desenvolvem condilomatose nos 3 meses seguintes, resultando em milhões de novos casos a cada ano.

As mulheres sexualmente ativas com idade inferior a 25 anos apresentam os maiores índices de infecção pelo HPV, mas o problema também pode acometer crianças e até bebês, devido à exposição durante o parto. Entretanto, a presença de verrugas genitais em uma criança deve levantar sempre a possibilidade de abuso sexual infantil.

Existem vários tratamentos para a Condilomatose e nenhum é considerado superior ao outro. A estratégia é eliminar o máximo de lesões visíveis, até que o sistema imune seja capaz de eliminar definitivamente o vírus (a maioria dos casos de Condilomatose regride espontaneamente após um certo tempo).

A escolha por um ou outro tratamento dependerá da experiência pessoal do médico, do estágio da doença, do comportamento sexual da pessoa e do estado do seu sistema de defesa, entre outros fatores. Em todos os casos, é recomendável fazer uma reavaliação após 3 e 6 meses de tratamento para detectar e tratar precocemente possíveis recidivas.

A principal medida para evitar o HPV continua sendo a prática sexual segura, utilizando corretamente preservativos e evitando a promiscuidade. Em 2006, foi disponibilizada uma vacina que protege contra os principais tipos de HPV, mas o esquema não oferece proteção para quem já se encontra infectado pelo vírus.

Felizmente, apesar de extensa, a doença do nosso amigo do começo da crônica respondeu bem ao tratamento e ele escapou por pouco de repetir a história de um outro que, também acometido por uma baita condilomatose, recebeu a sentença do velho médico generalista em sua cidade natal:

- Infelizmente, nesse estágio não tem mais cura. Vamos ter que cortar!
Sem acreditar, o homem foi em busca de um profissional mais jovem na cidade vizinha, mas o diagnóstico foi o mesmo. Deprimido, decidiu consultar um renomado (e caríssimo) especialista na cidade grande. Depois da consulta paga e algumas horas na sala de espera, o figurão recebe o paciente e olha bem pro rapaz, e olha pro equipamento, e diz tirando as luvas:
- A boa notícia é que você não vai precisar cortar coisa alguma fora.
O sujeito nem acredita: seu pesadelo acabou!- Então existe um tratamento para isso, doutor?
- Não, não. Mas não precisa cortar. Vai cair sozinho.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

25 agosto 2007

DOUTOR CONSULFONE

© Dr. Alessandro Loiola


É possível que um dos casamentos mais antigos entre a Medicina e a tecnologia de comunicação tenha sido o Consulfone, aquela consultinha rápida que algumas pessoas adoram fazer pelo telefone.

- Desculpa te importunar com isso, mas fiquei preocupado e... – segue um imbróglio de sinais e sintomas que cobre desde a primeira lembrança da tenra infância do sujeito até sua lista de compras na feira do dia.

Em alguns casos, o Consulfone resulta em orientações úteis, mas nem sempre é assim. Algumas edições são verdadeiros testes mediúnicos:

- É minha avó, doutor, ela tá com uma queimação atrás da orelha, o que acha que pode ser?

Como assim, o que eu acho que pode ser ? Uma queimação atrás da orelha??

– Olha, tantos anos depois da faculdade, nem lembro mais onde deixei meu jogo de búzios baianos legítimos... Pode aguardar um minutinho?

Outros ligam para dar um nó no cérebro da gente. Entre o caminho de um hospital a outro, toca o celular. Encosto o carro, atendo e paro para ouvir:

- Ontem assisti uma reportagem sobre câncer e, como tenho sentido um comichão no dedo médio do pé esquerdo, pensei em ligar e perguntar: o que você acha da fitoterapia para queda de cabelos?

Pronto. Vou levar uns 10 minutos até lembrar como engato a primeira marcha. E mais uns 20 até descobrir que rua é essa mesmo...?

O Consulfone mais recente foi de alguém da família querendo tirar dúvidas sobre Cistite. Mulher, meia idade, com mais uma crise de inflamação na bexiga.

- Quero saber porque vivo tendo isso, você pode me explicar?

Como senti que ela estava a um passo de retornar ao médico que a havia consultado para parti-lo ao meio com a caixa de antibióticos, enveredei pela ciência.

As infecções urinárias baixas, particularmente as Cistites, são bastante comuns em mulheres. Cerca de 20% delas sofrerão pelo menos 1 episódio ao longo da vida. Ainda não se sabe ao certo o porquê da preferência das Cistites pelo sexo feminino, mas existem fortes suspeitos. Por exemplo, o canal de saída da urina (a uretra) é duas vezes mais longo nos homens e seu orifício de abertura, mais amplo nas mulheres, facilitando a contaminação da urina por bactérias - e o maior número de Cistites - entre Elas.

As características da uretra feminina também facilitam a contaminação da urina após o intercurso sexual. Este tipo de infecção é tão comum que possui até um apelido: Cistite da Lua de Mel.

Dor ao urinar, mudança na cor e no odor típico da urina são as principais manifestações da Cistite. O diagnóstico pode ser feito através de um exame de urina de rotina. Contudo, qualquer pessoa com relato de mais de duas infecções urinárias em 6 meses ou mais de 3 infecções em 1 ano deve realizar exames especializados para avaliar fatores predisponentes, tais como doenças sexualmente transmissíveis, pedras nos rins ou má-formação nas vias urinárias.

Em homens, a cistite pode significar ainda a presença de obstrução na via de saída da urina, sendo necessário avaliar a possibilidade de alterações na próstata.

A Cistite deve ser tratada com analgésicos, antibióticos específicos e orientações sobre higiene: urinar imediatamente após o ato sexual ajuda a eliminar bactérias que possam ter alcançado a bexiga, diminuindo o risco de cistite. O suco de Cranberry, um tipo de uva muito comum na América do Norte, também provou ser um recurso natural eficaz para reduzir a incidência de Cistite.

- Enfim, converse calmamente com seu médico – disse, terminando o Consulfone familiar convencido de que este recurso pode ser reconfortante para alguns, mas jamais irá substituir o bom e velho exame clínico realizado ao vivo e em cores.

O paciente de um colega médico, que parecia compreender a importância disso e do quão desconfortável é ficar realizando Consulfones à distância, ligou para ele bem no meio da madrugada:
- Alô...
- Doutor, quanto o senhor cobra por uma consulta aqui em casa?
- Hein? Hum... Duzentos reais.
- E por uma consulta no seu consultório?
- Cem reais.
- Tá bem. – o sujeito fez uma rápida pausa e completou, muito solícito – A gente se encontra daqui a 15 minutos lá no seu consultório.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

14 agosto 2007

NADA MENOS QUE MAIS UMA GOTA

© Dr. Alessandro Loiola


Ele entrou no consultório andando torto como deve andar um Curupira. Os pés não estavam para trás, mas precisei dar uma boa olhada para confirmar isso.
- É doutor, dessa vez a pelada me pegou de jeito. O pé direito tá me matando – foi tirando o sapato com aquela cara de sofrimento digna de um Oscar.
- Pisaram em cima? Caiu, torceu...?
- Nada, nada. Joguei bola ontem, tudo certo. Beliscamos uns petiscos, tomamos umas depois, fui para casa em paz e acordei com esse despertador aí latejando – apontou para o dedão vermelho e inchado.

Nenhum sinal de deslocamento, radiografia sem fratura. Passei os remédios de praxe e pedi alguns exames. No dia seguinte ele voltou, menos Curupira que no dia anterior. Entregou os resultados e sentou feito um menino enquanto o pai checa o boletim do semestre.
- Rapaz, sabe aquele bife suculento do almoço?
- Sim.
- Pois ele estava cheio de Purinas.
- Purinoquê?
- Purinas. São substâncias presentes nos alimentos, especialmente carnes. A digestão das purinas resulta na produção de ácido úrico. Normalmente, o corpo é capaz de eliminar o excesso de ácido úrico, mantendo a concentração sangüínea abaixo de 7 miligramas por decilitro.
- Certo.
- Em algumas circunstâncias, o organismo produz uma quantidade muito grande ou perde a capacidade de eliminar o ácido úrico produzido em excesso. Como quando a gente como carnes em excesso, desidrata ou toma umas cervejas além da conta.
- Humm... – ele murmurou. Nada como um bom sentimento de culpa para despertar o compromisso com a própria saúde.
- Na temperatura corporal e em concentrações acima de 7, o ácido úrico se transforma em cristais que se depositam nas articulações, causando dor e inflamação intensa. Essa situação é conhecida como Gota. Você está com Gota.
- Afmaria, meu avô morreu disso!
- É, mas hoje em dia ninguém morre por causa de Gota. Apenas você terá que tomar alguns remédios e cuidados. Na verdade, mais cuidados que remédios.

Ainda assim, o medo dele até que procedia. Nos idos de 1900 e antigamente, toda pessoa portadora de Gota evoluía com dores articulares crônicas e incapacitantes. Após décadas de pesquisa, a Gota deixou de representar uma grande ameaça à saúde, mas continua sendo uma doença com risco de complicações sérias, podendo levar à deformidades, hipertensão arterial, diabetes e problemas renais graves.

Os principais fatores de risco para Gota incluem cigarro, obesidade e consumo excessivo de bebidas alcoólicas. No caso do nosso paciente, ele preenchia todos os critérios de risco, com louvor.

A dor em uma articulação é a manifestação mais comum: cerca de 90% dos pacientes apresentam inflamação aguda em uma única articulação, em geral nos membros inferiores. O dedão é o local mais comum da primeira crise. O diagnóstico é feito através do exame médico e de alguns testes complementares.

Toda pessoa que já sofreu um ataque de Gota deve fazer um tratamento específico para reduzir os níveis de ácido úrico no sangue. Além de prevenir novas crises, o tratamento também diminui o risco de destruição das articulações. A alimentação correta é essencial nesse sentido: uma dieta adequada é capaz de reduzir 1-2 pontos totais nos níveis sangüíneos de ácido úrico. Apesar de parecer insignificante, essa redução pode ser a diferença entre uma vida normal ou dores permanentes.

Quem tem Gota deve evitar carnes, miúdos, peixes, frutos do mar, aves e bebidas alcoólicas de todos os tipos. Os líquidos devem ser ingeridos à vontade, para que a urina esteja sempre clara. Entretanto, o álcool – especialmente a cerveja - deve ser evitado, pois pode precipitar ataques dolorosos.

Leite, chá, café, chocolate, queijos magros, ovos cozidos, manteiga e margarina, pão, macarrão, fubá, mandioca, arroz branco, milho, vegetais, doces e frutas não causam crises.

Finalmente, alguns alimentos naturais, como Abacaxi, Alho, Arnica, Arruda, Camomila, Couve, Inhame, Limão, Mirtilo, Tomilho e Zedoária, podem auxiliar a reduzir os sintomas, mas não devem ser utilizados indiscriminadamente sem recomendação profissional especializada.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.