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01 setembro 2014

DEZ DICAS PARA EVITAR O CÂNCER

© Dr. Alessandro Loiola
Médico – CRMSP 142.346
dralessandroloiola.blogspot.com/
https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/saudeparatodos


Dia desses recebi um boletim do National Cancer Institute dizendo que, apesar de todos os avanços para detecção e tratamento, os tumores malignos ainda ceifam mais de 01 vida por minuto em todo o Mundo. Imediatamente lembrei de um outro e-mail bem mais antigo, recebido há uns 15, 20... minutos (em Internet, minutos são anos!).

Como quem fuça uma gaveta de brinquedos, esvaziei o disco rígido do computador na mesa e ahá! lá estava ele: o encarte anual da American Cancer Society, ou Sociedade Americana do “Deus-que-me-livre-não-quero-fazer-parte-disso-não”. O encarte dizia que metade das mortes causadas por tumores malignos poderiam ter sido evitadas através dos métodos preventivos que nós JÁ conhecemos.

Muito bonito. Somando as duas notícias, significa que as pessoas continuam morrendo por minuto mesmo quando o conhecimento atual já torna possível evitar mais de 50% dessas mortes.

O problema, do meu ponto de vista, é que as recomendações sobre como proceder para evitar o câncer nem sempre são passadas de um modo prático e compreensível. Os cientistas dizem coisas como “diminuir o consumo de aminas heterocíclicas”, “orientações profiláticas para reduzir a exposição a carcinógenos ambientais” e “estimular a atividade das células NK através de abordagens dietoterápicas”, entre outros xingamentos que nem mesmo a ferramenta de tradução do Google é capaz de desdobrar.

Uma vez que ajudar alguém não é fazer o que você quer, mas o que o outro precisa, decidi sair para um passeio na base de dados científicos Entrez-PUBMED (www.pubmed.com), para fazer a lista que você verá na crônica de hoje. Com ela, espero ser claro e objetivo o suficiente para conseguir que você implemente pelo menos uma meia dúzia de 3 ou 4 mudanças importantes nos seus hábitos de vida.

Então borá lá conferir as famigeradas...

... DEZ DICAS PARA EVITAR O CÂNCER:

Quem nunca teve medo do Bicho-Papão ou da Cuca quando era criança? Crescemos e passamos a acreditar que estas criaturas assustadoras eram frutos da imaginação... mas estávamos errados. O Bicho-Papão da idade adulta é bem palpável e atende pelo nome de... Câncer.

Você pensou ‘Imposto de Renda’? Não, não, é Câncer mesmo.

Estimativas feitas na década de 1980 pelos respeitados epidemiologistas ingleses, os Drs. Richard Doll e Richard Peto, mostraram que o fumo e a dieta respondem cada um por 30 a 35% do risco de uma pessoa ter câncer. Isso significa que simplesmente escolher hábitos de vida mais saudáveis pode reduzir em até 70% suas chances de desenvolver um tumor maligno. Partindo desta premissa e com base nas evidências científicas mais recentes, relacionei as 10 dicas mais comprovadamente eficazes para evitar o Câncer:


1. FAÇA EXAMES MÉDICOS PERIÓDICOS

O Câncer no testículo é mais comum em homens entre os 15-35 anos de idade. Após os 40 anos, o problema pode ir para a próstata, os pulmões e o intestino grosso. Mulheres em idade fértil devem fazer o preventivo ginecológico a cada 12 meses, e, a partir dos 50 anos de idade, devem incluir mamografias também e...

Em resumo: facilite sua vida e não fique tentando descobrir sozinho(a) o que pode dar errado. Conte com seu médico para saber os tipos de exames preventivos que devem ser feitos. Estes exames podem variar de acordo com a presença de alguns fatores de risco específicos da sua família.

A avaliação médica periódica também é importante para checar a presença de infecção pelo HPV, ou Papilomavírus Humano. Este micróbio, transmitido pelo contato sexual, pode levar ao desenvolvimento de câncer no útero ou no pênis.


2. CUIDADO COM SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS POTENCIALMENTE DANOSAS

Produtos químicos contidos em alguns pesticidas e sprays podem aumentar o risco para câncer. Alimentos industrializados ou muito processados também podem ser perigosos.

O próprio ambiente de trabalho pode oferecer risco: a exposição repetida e prolongada a gasolina, diesel, arsênico, berílio, cloreto de vinil, cromados, gás mostarda e certos éteres pode resultar em vários tipos de câncer.


3. NÃO FUME

E por falar em substâncias químicas perigosas... Fumar é a causa número 1 de várias doenças evitáveis, tais como câncer nos pulmões, infecções das vias respiratórias, problemas cardíacos, desentendimentos na praça de alimentação do shopping, e 342.112 outros distúrbios.

Eu sei que você não vai fumar para sempre, porém, quanto mais fumar, mais vai estar perto do “para sempre”. Faça todo esforço possível para largar o cigarro – e passe esta iniciativa adiante.


4. NÃO CONSUMA BEBIDAS ALCOÓLICAS EM EXCESSO

O consumo regular de bebidas alcoólicas (mais de duas doses por dia, todos os dias) aumenta o risco para cânceres na cavidade oral, na garganta e no esôfago. Acredita-se isto esteja relacionado à deficiência de vários nutrientes.


5. MANTENHA-SE NA FAIXA DE PESO IDEAL

A Obesidade aumenta o risco para câncer nas mamas, no intestino grosso e na próstata – isso se a pessoa não sofrer um infarto ou derrame antes. A Obesidade é uma doença e deve ser tratada não com descaso ou preguiça, mas com força de vontade e amor próprio. Você foi o espermatozóide mais rápido e esperto daquela noite! Faça valer a diferença!


6. LEVE UMA ALIMENTAÇAO RICA EM NUTRIENTES E POBRE EM CALORIAS

Vários estudos indicam que dietas pobres em fibras e ricas em gorduras aumentam o risco para câncer no intestino grosso, na próstata, nas mamas, nos ovários e no útero. Defumados e picles também aumentam seu risco. Dê preferência para frutas, legumes, cereais integrais e peixes.

Eu adoro um churrasco e confesso que fiquei um pouco (‘um pouco’ é mentira, mas me dê algum crédito, ok?) assustado quando pesquisas realizadas pelo National Cancer Institute mostraram que o cozimento de carne vermelha é capaz de produzir mais de 17 tipos diferentes de Aminas Heterocíclicas – todas elas potencialmente causadoras de câncer. Pessoas que comem carne vermelha bem-passada mais de 4 vezes por semana possuem um risco até 3 vezes maior para câncer no estômago.

Para meu alívio, os cientistas também descobriram que pré-cozinhar as carnes no forno microondas por 2 minutos, antes de levá-las ao fogo, é capaz de reduzir em 90% o conteúdo de Aminas Heterocíclicas. Esta é uma boa maneira de manter as carnes na sua dieta (pois elas são uma fonte importante de nutrientes), ao mesmo tempo em que você reduz a concentração de substâncias nocivas.


7. USE SUPLEMENTOS NUTRICIONAIS

Frutas, vegetais e cereais integrais ricos em carotenóides, vitamina A e vitamina C ajudam a proteger contra cânceres nos pulmões, no intestino grosso, nas mamas, na cavidade oral, no esôfago, no estômago, no pâncreas, no colo do útero e nos ovários.

Os Carotenóides são encontrados em vegetais e frutas de cor amarela ou alaranjada (p.ex.: cenouras e batata doce) e vegetais folhosos de cor verde escura (p.ex.: brócolis e espinafre). Os cientistas descobriram que os Carotenóides são capazes de reduzir a incidência de câncer no pulmão até mesmo em pessoas fumantes.

É óbvio que parar de fumar é a principal medida para evitar o câncer no pulmão, mas mesmo entre os fumantes, aqueles que apresentam baixas concentrações de carotenóides no organismo possuem um risco maior.


8. PRATIQUE EXERCÍCIOS REGULARMENTE

Os exercícios melhoram a oxigenação dos órgãos e tecidos, removem radicais livres e ajudam a manter o peso ideal, além de promoverem um bem estar tremendo, graças à liberação de endorfinas e outros neurotransmissores ‘do bem’.


9. APRENDA A LIDAR COM O ESTRESSE

“Será que não tem nada fácil nessa lista?”, você deve estar pensando. Passar pelo médico periodicamente, não comer, não fumar, não beber, fazer exercícios e ainda aprender a lidar com o estresse!!?? Como !!!!!!!?????? @@$%)E*&/#]+!

Calma, calma. A fúria e a ansiedade diminuem a eficácia do Sistema Imune, o guarda-costas do seu organismo. Entre outras coisas, ele gerencia uma célula chamada Natural Killer, responsável pela eliminação de qualquer foco potencialmente canceroso. O Estresse contínuo diminui o nível dessa proteção e abre caminho para uma série de doenças, inclusive o câncer.

Para reduzir o estresse, não tenha vergonha de experimentar uma massagem de verdade, uma sessão revigorante de ioga, meditação, tai-chi, etc. E faça sexo pelo menos algumas vezes por semana.


10. TENHA UMA ATITUDE POSITIVA

Ei, diga a verdade: com essa dica do sexo, você já começou a ter uma atitude positiva! Tente mantê-la pelo resto do dia – mas guarde o sorrisinho quando estiver naquela reunião com seu chefe.

“Uma atitude positiva” significa amar a vida que existe em você. Ela é um tesouro ÚNICO e lhe pertence acima de todas as coisas. Assim que você tomar consciência disso, verá como é simples seguir o que foi dito até aqui.

30 agosto 2014

COMO EVITAR OS VENDEDORES DE FUMAÇA?

© Alessandro Loiola






Quando um certo alguém disse que “existe um limite para tudo, menos para a estupidez humana”, acertou na mosca. Pode ter sido Einstein, Sartre, Schoppenhauer, Tiririca, sei lá. Certamente vou receber um email dizendo de quem é esta máxima, mas que a mosca levou um peteleco no meio da testa, ah levou.

Como não é possível deixar a estupidez humana de lado (teríamos que alugar um planeta inteiro só para isso), vamos esquecê-la por alguns instantes e nos concentrar na primeira parte da frase. “Existe um limite para tudo”.

Existe um limite para o seu esforço, um limite para seus amigos, amores, vitórias e derrotas basicamente porque existe um limite para sua quantidade de dias. Apesar disso não ser novidade, conheço poucas pessoas que aprenderam a dimensionar esta verdade no tira-colo do cotidiano.

Quer um exemplo cinematográfico da nossa falta de visão? No filme Homem de Ferro, o personagem Tony Stark se vê preso em uma caverna nas montanhas nos confins do Afeganistão (hum... “confins do Afeganistão” não é uma redundância?), coagido a construir um míssil para os rebeldes com a promessa de ser libertado em seguida.

- Haja o que houver – ele diz para si mesmo -, de qualquer forma, fazendo ou não o míssil, estarei morto em uma semana.
- Então – diz seu companheiro de cela -, ESTA é uma semana muito importante para você, não?

A tragédia e a beleza de tudo se esconde no limite.

Transformando a teoria em prática, suponhamos que você seja capaz de ler um livro a cada 2 meses. Da alfabetização até estar com Alzheimer e não conseguir lembrar onde diabos colocou o livro (“hein, eu estava lendo um??”), vamos dizer que tenham se passado cerca de 80 anos. Isso daria um total de 480 obras. Sua capacidade de leitura ao longo da vida se restringirá a uma pilha de 480 títulos. Beeem menos do que o mercado editorial brasileiro lança em 1 ano.

Daí a importância do que você lê. CADA obra é importante, porque seu número de livros será limitado pelos seus dias. Em A Filosofia Da Ciência, Rubem Alves comenta muito apropriadamente que o refinamento do pensamento depende da riqueza de vocabulário. Quem lê mais ganha mais palavras para ter mais idéias e raciocinar melhor. A inteligência é mais um produto de hábitos que uma benção divina.

Talvez nenhum outro livro tenha mudado tanto minha visão da medicina quanto O Físico, de Noah Gordon. O título original, The Physician, teria sido melhor traduzido para O Médico, mas tudo bem. Não é por causa de uma ervilha amassada que vou jogar todo o risoto fora.

No Físico, o vendedor ambulante Barber se desloca de uma cidade a outra comercializando seu Tônico Universal, uma bebida doce, com leve teor alcoólico, específico para o tratamento de todas as doenças – como o próprio nome sugere.

Em um de seus acessos de sinceridade, Barber comenta com seu aprendiz, o jovem Rob Cole:
- Quando eu morrer e estiver na fila na frente do portão, São Pedro vai perguntar, "Como você ganhou a vida?" "Eu era fazendeiro", dirá um homem, ou, "Eu fazia sapatos de couro." Mas eu responderei: "Fumum vendit".

Eu vendia fumaça.

O Físico se passa na Idade Média. É triste perceber que não mudamos muito desde então. O que chamamos de desenvolvimento ou progresso não passa de mais do de sempre. A despeito do maior acesso ao conhecimento, as pessoas ainda insistem em basear suas decisões em mitos, dogmas e desinformação. Ninguém quer pensar. Todo mundo está inebriado em um torpor de fumaça ignorante com cheiro de pão e circo.

Inserida neste cenário, a medicina está se tornando uma neblina que mais confunde que ilumina. Acompanhando o restante da sociedade, nós médicos vamos perdendo (ou já perdemos?) o rumo e, ao invés de acumular sabedoria para oferecer ao próximo bússulas para dias melhores, estamos nos tornando especialistas na arte de vender fumaça. Exames caros, procedimentos sofisticados, nenhuma empatia.

Também, de que adianta? Quantas vezes seu médico tentou lhe convencer de exercícios físicos, largar o cigarro, diminuir a bebida, combater o sobrepeso, manter a pressão e o diabetes sob controle, melhorar o sono, reduzir o estresse...? E quantas vezes você REALMENTE ouviu, refletiu e mudou?
Vendedores de fumaça existirão enquanto existirem compradores de fumaça.

A única saída que vejo para esse problema está na LEITURA. Assim como você planeja sua carreira, seu salário, seu guarda-roupa e o menu da semana, seria maravilhoso programar sua leitura para este mês e ano. Quais obras deseja ler? Uma rápida pesquisa na Internet pode lhe fornecer um cardápio saboroso de idéias.

Você é o que come. Mas se tornará aquilo que LÊ. Se você consegue ler apenas um livro por ano, então, como diria Tony Stark, esse será um livro muito importante, não? Escolha-o com cuidado. Leia-o com atenção. Ou continue cego para o mundo à sua volta, sorvendo goles generosos de tônico universal enquanto espera pelo próximo vendedor de fumaça.

27 agosto 2014

O Médico, o Monstro e a World Wide Web

© Dr. Alessandro Loiola
dralessandroloiola.blogspot.com/
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Que a Internet é um meio de expressão sem precedentes, não é novidade alguma. Mas o que tem assombrado até aos internautas mais experientes é a epidemia de websites voltados para a saúde: estima-se que existam hoje mais de 40 mil deles e dezenas surgem a cada dia, manifestando a intensa demanda por este tipo de informação.

Por um lado, a proliferação de páginas sobre saúde marca o processo de democratização do conhecimento médico, mas isto também se traduz em conseqüências menos encantadoras. O médico e o monstro podem estar apenas a um clique de distância, e os websites de saúde podem facilmente transformar o amável Dr. Jekill em um terrível Mr. Hide. Isto porque uma parte considerável da informação disponível está errada ou é enganosa, expondo você a danos perigosos e potencialmente irreparáveis.

Entendendo as regras

Existe um princípio de ouro na Web: qualquer um pode publicar qualquer coisa, bastando para tanto um computador pessoal e acesso à rede. Porém, enquanto que as mídias convencionais (jornais, revistas, programas de rádio ou televisão, etc) deixam um registro físico, o conteúdo da Internet é volátil: ele está aqui hoje e pode simplesmente desaparecer no éter amanhã. O grande problema deixou de ser “encontrar a informação desejada”, e passou a ser como avaliar a credibilidade de um documento obtido via Internet.

Não existe uma legislação específica para as informações disponíveis na rede. A própria dinâmica sem fronteiras da Internet torna as medidas legais sem sentido ou lentas demais. A solução mais eficaz até o momento tem sido a auto-regulamentação: desde os anos 90 existem vários códigos de honra para informação em saúde na Internet. O mais famoso deles foi criado pela Health On Net Fundation em 1996 e se chama HON Code.

Apesar de ser uma iniciativa louvável, o HON Code possui um grande problema: ele não verifica a qualidade da informação. O HON Code determina o nível de confiabilidade através de padrões éticos, tentando garantir um certo rigor científico na elaboração do material publicado. Isso significa que nem todo site com o selo do HON Code possui informações necessariamente corretas ou verídicas. Em contrapartida, nem todo site honesto possui o selo do HON Code.

Então como sobreviver em meio a este caos? Como saber o que é informação confiável ou não? Bom, para evitar enganos, eu recomendo que você aplique por conta própria 04 critérios bem simples para avaliar a qualidade do que está lendo: Autoridade, Transparência, Atualidade e Desconfiança. Cole estes critérios ao lado do seu computador, consultando-os sempre que tiver alguma dúvida sobre se o que está lendo possui alguma validade ou não.

CRITÉRIO 1: AUTORIDADE.
A orientação médica ou de saúde contida no site é dada por um profissional da área ou você está lendo sobre Hipertensão Arterial na visão de um Ufologista de Rondônia? É possível identificar o autor do texto e checar suas credenciais? A informação possui referências claras às fontes consultadas (p.ex.: links para textos científicos, documentos do Ministério da Saúde ou páginas de centros universitários na Internet)?

Quando der de cara com alguma informação de importância para você, procure sempre a fonte daquela informação. Sites criados por grandes centros médicos, organizações científicas, universidades e agências governamentais são os mais seguros. Muito cuidado com sites estritamente comerciais ou baseados em testemunhos de pessoas que procuram empurrar um único ponto de vista ou vendem curas milagrosas. O maior milagre do Universo está entre as suas orelhas e se chama Inteligência, lembre-se sempre disso.

CRITÉRIO 2: TRANSPARÊNCIA.
A informação deve estar publicada de modo claro, oferecendo endereços de contato para quem desejar orientação ou ajuda adicional. O site também deve ser bastante claro quanto à presença de patrocínio: qualquer apoio financeiro, comercial ou não, deve ser identificado.

Por exemplo: se você está lendo sobre Constipação Intestinal em um site patrocinado por um fabricante de laxantes, as informações ali contidas certamente tenderão a favorecer o patrocinador – o que nem sempre corresponderá a toda verdade em si.

CRITÉRIO 3: ATUALIDADE.
O conhecimento científico é extremamente dinâmico: calcula-se que metade do que os médicos defendem agora estará errado daqui a 10 anos – e para desespero geral ninguém ainda é capaz de identificar qual metade é esta. O mais confiável é procurar sempre pela informação mais recente. Veja se o site exibe claramente a data em que determinada informação foi publicada ou revisada.

CRITÉRIO 4: DESCONFIANÇA.
Você encontrou algo que lhe diz respeito e o site parece ter autoridade, transparência e atualidade? Ótimo. Desconfie dele mesmo assim. Desconfie muito, desconfie sempre. Visite outros sites e compare informações. Até mesmo sites que exibem o selo do HON Code não estão isentos de informações imprecisas. Mantenha o espírito aberto, porém crítico em qualquer situação – ou você conhece alguém tenha caído morto, fulminado após tomar uma pequena dose de prudência?

Nem eu.

Boa parte do caminho de descobrir o que se quer é saber exatamente o que se procura.  A Internet pode ser uma grande fonte de informação em saúde, mas não é a única: ela deve representar apenas mais um item em seu cardápio de escolhas.

22 agosto 2014

A Arte da Comunicação Eficaz

© Alessandro Loiola



A arte da comunicação eficaz merecia por si só uma biblioteca inteira. De quase nada adianta seu conhecimento enciclopédico se ele não pode ser compreendido pelas pessoas ao seu redor. A comunicação correta aumenta consideravelmente as chances de suas propostas se transformarem em mudanças ao invés de resistências. Sua capacidade de dialogar claramente é tão ou mais importante quanto onde você cursou a faculdade ou quantas pós-graduações traz no currículo.

A maioria dos cursos de medicina peca de modo imperdoável ao não ensinar quesitos específicos de liderança e comunicação aos seus alunos. Formam-se médicos cheios de verdades científicas, mas poucos comunicadores. E, na hora de conversar com o paciente, sua intransigência em fazer valer a ciência sobre todas as coisas de nada ajuda. Para melhorar substancialmente sua interação com a equipe, os pacientes e a comunidade, atente para 7 equívocos comuns da comunicação:

1• VOCÊ ACHA QUE SABE FALAR. Uma porção substancial dos desentendimentos reside no fato de você achar que está passando uma determinada mensagem quando, em contrapartida, o outro está fazendo uma interpretação completamente invertida da conversa.

Aprender a comunicar-se de modo efetivo é como aprender a utilizar um programa de computador: os comandos devem ser bem claros, cada tecla deve ser apertada com um objetivo bem determinado. Nada de meias palavras, segundas intenções ou agendas secretas: apenas apresente sua mensagem de modo simples, limpo e não agressivo.


2• VOCÊ ACHA QUE É CAPAZ DE MUDAR INTIMAMENTE OUTRA PESSOA. Aceite isso desde o princípio. Você pode criar um contexto que favoreça a mudança do outro, mas sua força de vontade ou seu ímpeto jamais mudarão a natureza de outrem. A pessoa pode curvar-se à sua vontade para conseguir um ganho secundário, terminar uma discussão, sair de uma situação constrangedora, mas apenas o fato dela ter concordado com seus argumentos quer dizer muito pouco.

Você não pode mudar outra pessoa: a mudança é um processo de forças internas, nunca externas. Por isso, “não diga aos outros como fazer as coisas: diga o que tem que ser feito e deixe que lhe surpreendam com os resultados” (George S. Patton).


3• VOCÊ NÃO RELAXA. Se quiser realmente resolver uma situação, relaxe. Qualquer diálogo produz melhores resultados em um ambiente mais sereno. “Um capitão assustado assusta a tripulação inteira” (Lister Sinclair).


4• VOCÊ DISCUTE CULPADOS AO INVÉS DE DISCUTIR SOLUÇÕES. Fazer consultas cheias de observações criticando o(s) outro(s) é uma excelente maneira de desperdiçar seu tempo. Primeiro, porque não existe essa história de “crítica construtiva”. Toda crítica dói e destrói. Mesmo que pouco. Ademais, as críticas que você lança no calor da discussão irão apenas lhe distanciar da pessoa criticada.

Reclamar indiscriminadamente, gritando e xingando aos quatro ventos, pode ser uma tentação enorme, mas acredite: ao final da tempestade, você terá perdido terreno que já havia sido conquistado. Talvez você faça isso para assumir o papel de vítima indefesa ou agressor invencível e balançar a autoconfiança do outro, mas o que você está fazendo de fato é diminuindo o nível de confiança do outro em relação a você.


5• VOCÊ NÃO ADICIONA PESSOAS À SUA PROPOSTA. Durante qualquer discussão para definir metas (de tratamento, de atendimento, de cobertura vacinal ou pré-natal, etc), a palavra “você” frequentemente é utilizada para solidificar o isolamento e o papel de vítima de quem se está reclamando: “você tem que seguir a receita”, “você tem que mudar”, “você podia muito bem ter feito isso ou aquilo”, etc.

Um profissional verdadeiramente adulto e comprometido tem a coragem de representar o seu papel, ao invés de eximir-se dele. Esse profissional utiliza a palavra “nós”. “Nós temos que encontrar um caminho para melhorar o tratamento”, “Nós vamos nos entender”, “Nós poderíamos ter agido de outra forma”. “Nós” não é uma palavra que fecha portas. Muito pelo contrário: um único “Nós” pode abrir várias delas.


6• VOCÊ SEMPRE COMEÇA PELOS PONTOS FRACOS. Existe um pré-requisito estratégico se você pretende obter sucesso com suas propostas: além de saber comunicar-se, conhecer as limitações da argumentação, estar relaxado(a), adicionado e focado nas soluções, você deve iniciar sua investida utilizando as ferramentas fortes de que dispõe.

Conheça os pontos fortes de sua equipe, de seu local de atendimento, de seus pacientes e da comunidade a que você está assistindo: é muito mais fácil e eficaz construir sobre pontos fortes que desperdiçar seus esforços escrutinando os pontos fracos. Muitos colegas perdem um tempo enorme tentando resolver absolutamente tudo que está errado, e nunca conseguem resultado algum.

Um exemplo que ilustra bem a construção de propostas sobre pontos fortes versus pontos fracos pode está ilustrado na seguinte história: há muitos anos, as companhias aéreas pediam ao final do vôo que os passageiros não esquecessem seus pertences de mão, mas esqueciam de um detalhe simples: estamos habituados a prestar atenção ao verbo da frase, não na sua negativa. Então, enquanto as portas eram colocadas em manual, tudo que ficava martelando na cabeça dos passageiros era para que “esquecessem seus pertences de mão”. O não da frase passava batido, e incontáveis bolsas, casacos, guarda-chuvas, óculos, livros, mamadeiras, frasqueiras, fones de ouvido, travesseiros de viagem, agendas e telefones celulares iam fazer sua escala no setor de achados e perdidos do aeroporto.

Uma pequena mudança na recomendação fez uma enorme diferença, reduzindo drasticamente a quantidade de objetos deixados para trás. Hoje, após o pouso, a mensagem diz ...”e lembrem-se de pegar seus pertences de mão”.

Pode parecer bobagem, mas funciona. Eu lhe digo: “Não pense na cor vermelha!” e você automaticamente pensa em azul, transparente, música, borboleta ou... na cor vermelha?

O mesmo enredo vale para reuniões com grupos maiores. Ao invés de iniciar o encontro com a atmosfera de que “Não adianta porque nada nunca muda”, tente inspirar-se com o lema “Gosto do nosso trabalho porque existe sempre uma abertura para conversar e melhorar as coisas”. Ainda que isso seja uma mentira temporária - sim, adultos mentem, lamento lhe informar -, o fato é que este tom de diálogo provoca um tipo de profecia auto-realizável, evocando no outro o desejo de corresponder àquela observação.

Esqueça as fraquezas, esqueça o que você não gosta e o que não está dando certo – porque colocar isso como ponto de partida provavelmente é o que você tem feito e não tem funcionado. Comece o diálogo salientando os pontos fortes que você conhece tão bem (no outro ou na sua equipe) ou as forças que você gostaria que fossem demonstradas com maior constância. Não tente consertar coisa alguma de imediato. Concentre-se em administrar uma injeção de entusiasmo e deixe esse novo estado de ânimo vicejar por um dia ou dois.

Podemos não ser perfeitos naquilo que fazemos com entusiasmo, mas certamente somos uma porcaria naquilo que fazemos sem entusiasmo algum.


7• VOCÊ ACHA QUE SABE OUVIR. O desejo de aliviar o sofrimento é uma das melhores ferramentas motivacionais entre profissionais de saúde. E não existe melhor maneira de expressar esse desejo que ouvir com todo o seu coração, sem intenção de julgar, condenar ou criticar. Permita que seu interlocutor perceba que está bem no coração dos acontecimentos naquele momento e que as decisões que ele/ela toma fazem toda a diferença para o sucesso do que está sendo proposto.

Ajude o outro a manifestar o que ele/ela deseja, preste atenção até você descobrir, em silêncio, qual é o problema. E então, transforme o problema em uma meta que esteja no interesse de ambos. Mostre o caminho com serenidade e justiça, e veja o que acontece. Quando este processo de escutar é feito de modo consciente, construímos uma estrada de valorização, estabilidade e progresso.

21 agosto 2014

Para os colegas que atendem em ambulatório: o que é preciso saber sobre as leis de Ética e Confidencialidade?

© Dr. Alessandro Loiola
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A legislação a respeito dos parâmetros do que o médico PODE e DEVE fazer – e também do que NÃO pode e NÃO deve -, deve ser do seu pleno domínio. PLENO domínio. Por isso, copie estas páginas a seguir e deixe-as à mão na sua gaveta mais próxima. Estas dicas já me foram úteis antes e certamente lhe serão preciosas de alguma maneira em um momento futuro.

O paciente deve ser recebido com respeito e diligência. No momento do atendimento, apresente-se dizendo seu nome e posto e, caso ele esteja acompanhado, diga-lhe que ele tem o direito de solicitar que o acompanhante aguarde do lado de fora do consultório. Esta primeira conduta estabelece o tom do seu relacionamento: a prioridade é DO PACIENTE.

Por isso, caso a presença do acompanhante cause qualquer constrangimento, ele pode ser polidamente orientado a aguardar na sala de espera em obediência ao Código de Ética Médica (CEM):

• II Princípio Fundamental: O médico guardará sigilo a respeito das informações de que detenha conhecimento no desempenho de suas funções, com exceção dos casos previstos em lei.

• Artigo 73: é vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente.


Esta recomendação vale para crianças e adolescentes? Sim, vale. E muito. Para efeitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), considera-se criança a pessoa com até 12 anos de idade e adolescente aquela entre 12 e 18 anos de idade. O Código Civil estabelece como 18 anos de idade o marco para maioridade civil, podendo esta ser alcançada em maiores de 16 anos em face de alguns atos (emancipação, casamento, exercício de emprego público efetivo, etc).

O atendimento de menores de idade sem o acompanhante também se encaixa nos preceitos do CEM:

• Artigo 74º: é vedado ao médico revelar sigilo profissional relacionado a paciente menor de idade, inclusive a seus pais ou representantes legais, desde que o menor tenha capacidade de discernimento, salvo quando a não revelação possa acarretar dano ao paciente.

No âmbito da saúde pública, crianças e adolescentes podem até mesmo agendar suas próprias consultas e DEVEM ser atendidos na falta de um responsável ou familiar maior de idade. Lembre-se que a interpretação da legislação deve se dar sempre a favor da criança e do adolescente, e as ações e serviços de saúde são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no Artigo 198 da Constituição Federal, obedecendo ainda aos seguintes princípios:

• ... III - preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral;

• IV - igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie;

• V - direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde;


Ademais, o Artigo 3º do ECA estabelece que criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral, sendo-lhes assegurado por lei todas as oportunidades e facilidades a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

Caso a criança ou adolescente compareça à Unidade de Saúde da Família (USF) para atendimento, este deverá ser realizado também em respeito aos Artigos 11, 15, 16 e 17 do ECA:

• Artigo 11: É assegurado atendimento médico à criança e ao adolescente, através do Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo o acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde.

• Artigo 15: A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.

• Artigo 16: O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: I – ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais; (...) VII – buscar refúgio, auxílio e orientação.

• Artigo 17: O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.


A Lei ressalta o direito de defesa da criança e do adolescente quando seus interesses venham a colidir com os de seus pais ou responsável. Uma adolescente que procure orientações e assistência para contracepção tem o direito de receber este atendimento de modo sigiloso, seguindo os preceitos do CEM...

• Artigo 42: (é vedado ao médico) Desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre método contraceptivo, devendo sempre esclarecê-lo sobre indicação, segurança, reversibilidade e risco de cada método.

...E a Lei n.º 9.263/1996, que regula um conjunto de ações para o planejamento familiar, saúde sexual e saúde reprodutiva. Esta Lei estabelece diretrizes ou restrições específicas para adolescentes, devendo ser interpretada conjuntamente com a Lei orgânica do SUS e o ECA, que garantem o direito do adolescente o atendimento integral e incondicional (restrição apenas para cirurgia de esterilização).

Os adolescentes de ambos os sexos tem direito à educação sexual, ao sigilo sobre sua atividade sexual, ao acesso e disponibilidade gratuita do teste HIV e aos demais insumos de prevenção. A consciência desse direito implica em reconhecer a individualidade (e ao mesmo tempo a vulnerabilidade) do adolescente, estimulando a responsabilidade com sua própria saúde. O respeito a sua autonomia faz com que eles passem de objeto a sujeito de direito.

No atendimento de menores de 18 anos de idade, faça prevalecer o bom-senso contido nas recomendações do MS:

• Qualquer exigência que possa afastar ou impedir o exercício pleno do adolescente de seu direito fundamental à saúde e à liberdade (p.ex.: a obrigatoriedade da presença de um responsável para acompanhamento no serviço de saúde), constitui lesão ao direito maior de uma vida saudável.

• Caso a equipe de saúde entenda que o usuário não possui condições de decidir sozinho sobre alguma intervenção em razão de sua complexidade, deve, primeiramente, realizar as intervenções urgentes que se façam necessárias, e, em seguida, abordar o adolescente de forma clara expondo a necessidade de que um responsável o assista e o auxilie no acompanhamento.

• Busque sempre encorajar o adolescente a envolver a família no acompanhamento dos seus problemas, já que os pais ou responsáveis têm a obrigação legal de proteção e orientação de seus filhos ou tutelados.

• Havendo resistência fundada e receio de que a comunicação ao responsável legal implique em afastamento do usuário ou dano à sua saúde, solicite uma pessoa maior e capaz indicada pelo adolescente para acompanhá-lo e auxiliar a equipe de saúde na condução do caso.

• A quebra do sigilo, sempre que possível, deve ser decidida pela equipe de saúde juntamente com o adolescente e fundamentada no benefício real para a pessoa assistida, e não como uma forma de “livrar-se do problema”.


Três outras situações frequentes de risco de violação da ética e da confidencialidade são bastante comuns no dia a dia da USF: empregadores que desejam informações sobre atestados, seguradoras que desejam informações adicionais sobre o falecimento de um segurado e pessoas que desejam acesso ao registro clínico do paciente. Nestes cenários, respeite e cite em sua resposta os seguintes artigos do CEM, respectivamente:

• Artigo 76: (é vedado ao médico) Revelar informações confidenciais obtidas quando do exame médico de trabalhadores, inclusive por exigência dos dirigentes de empresas ou de instituições, salvo se o silêncio puser em risco a saúde dos empregados ou da comunidade.

• Artigo 77: (é vedado ao médico) Prestar informações a empresas seguradoras sobre as circunstâncias da morte do paciente sob seus cuidados, além das contidas na declaração de óbito,

• Artigo 85: (é vedado ao médico) Permitir o manuseio e o conhecimento dos prontuários por pessoas não  obrigadas ao sigilo profissional quando sob sua responsabilidade.


Finalmente, o contrato de confidencialidade deve ser equilibrado com a Lei nas situações em que sua  observância inflexível pode lhe colocar em risco de processos por negligência, omissão ou postergação de determinada conduta. Mantenha-se atento para:

• Artigo 243 (ECA): (configura crime) Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente.

• Artigo 66 (Código Penal): (configura crime) Deixar de comunicar à autoridade competente: I - crime de ação pública, de que teve conhecimento no exercício de função pública, desde que a ação penal não dependa de representação; II - crime de ação pública, de que teve conhecimento no exercício da medicina ou de outra profissão sanitária, desde que a ação penal não dependa de representação e a comunicação não exponha o cliente a procedimento criminal.