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03 outubro 2014

A alimentação e o cérebro do bebê

© Dr. Alessandro Loiola


Será que a saúde mental de um bebê pode ser afetada pela qualidade da alimentação materna durante a gravidez e sua própria alimentação nos primeiros anos de vida?

Para responder a essa pergunta, mais de 20 mil gestantes norueguesas foram acompanhadas entre 1999 e 2008. Os resultados foram surpreendentes.

As causas dos transtornos comportamentais e emocionais em adultos jovens são muitas e variadas. Identificar os fatores de risco para essas anormalidades tem ocupado a cabeça dos cientistas há um bom tempo. Quase sempre, as pesquisas enfatizavam fatores psicossociais, tais como a qualidade da atenção dos pais, o nível de estresse no núcleo familiar e a presença de transtornos mentais na família. Finalmente, alguém fez uma pergunta diferente e partiu em busca de novas respostas.

O estudo norueguês mostrou, sem muita sombra para dúvidas, que uma dieta não-saudável durante a gravidez e na tenra infância aumenta o risco de produzir crianças com problemas de conduta oposicional e desatenção. Os resultados poderiam ser explicados pelo impacto da falta de nutrientes estratégicos durante a fase de crescimento e maturação do cérebro, mas para provar quais nutrientes e de que modo isto ocorre ainda serão necessárias mais pesquisas.

Atualmente, existe um movimento para explicar os transtornos mentais e somáticos utilizando os mesmos mecanismos que determinam a boa saúde de um modo geral. Ao sugerir que a alimentação tem um papel tão crucial no desenvolvimento do cérebro, este estudo reforçou esta tendência, abrindo uma enorme janela para intervenções profiláticas e a própria compreensão de bem-estar.

25 setembro 2014

Peixe na cabeça

© Dr. Alessandro Loiola


Confirmado: o consumo regular de peixe cozido ou assado ajuda a evitar o envelhecimento cerebral. Frito não vale.

Mais de 250 adultos idosos e cognitivamente saudáveis foram acompanhados por 2 anos, e o consumo semanal de peixe associou-se a um aumento no volume de massa cinzenta no hipocampo e no córtex frontal, entre outras regiões do cérebro.

No estudo, publicado online em julho no American Journal of Preventive Medicine, os cientistas observaram que pessoas que comiam peixe cozido ou assado pelo menos uma vez por semana apresentavam um volume de massa cinzenta respectivamente 4% e 14% maior em áreas do cérebro associadas à memória e cognição.

A alimentação rica em peixe aumenta os níveis sanguíneos dos ácidos docosahexaenoico (DHA) e eicosapentaenoico (EPA), duas substâncias que atuam aumentando a fluidez da membrana plasmática no nível sináptico, otimizando sua permeabilidade, potencializando a ação de fatores neurotróficos e promovendo o metabolismo e o crescimento neuronal. Em resumo: fazem um bem danado para sua cabeça.

Então que tal aproveitar e pesquisar agora mesmo uma receita de peixe para sua próxima refeição ?

O cérebro - SEU cérebro - agradece.

18 agosto 2014

PÍLULA SEM MISTÉRIOS

Toda a revolução sexual dos anos 60 e 70 baseou-se na tríade “emancipação feminina + carros mais confortáveis + pílulas anticoncepcionais”. Para extrair o melhor da modernidade, nunca é demais entender exatamente o funcionamento de cada um desses fatores. Como acredito que você encontrará boas informações sobre os 2 primeiros assuntos em alguma outra parte, vou me resignar com o terceiro fator.

A pílula convencional é composta por uma dose pequena de Estrógeno e uma dose moderada de Progestógeno, dois hormônios femininos. O estrógeno mais utilizado é o Etinil-estradiol. O risco de efeitos colaterais está relacionado diretamente ao conteúdo de estrógenos da sua pílula, e não à duração do uso. A maioria das mulheres pode utilizar a pílula até os 50 anos de idade, tranqüilamente.

Todos os progestógenos são derivados da testosterona e, por isso, possuem alguns efeitos masculinizantes. Os progestógenos mais novos, como levonorgestrel (o mais utilizado), gestodeno e acetato de ciproterona, apresentam menos efeitos colaterais neste sentido.

Estudos mostram que a combinação de hormônios na pílula reduz a incidência de vários distúrbios, incluindo problemas menstruais, câncer e cistos ovarianos, doença inflamatória pélvica, tumores no endométrio, doenças benignas da mama e alterações na glândula tireóide. Em contrapartida, a pílula pode aumentar seu risco de trombose venosa, embolia pulmonar e ataque do coração. Mulheres que fumam e tomam pílula são consideradas um grupo de altíssimo risco para morte súbita cardíaca, especialmente a partir dos 35 anos.

Toda mulher anseia pelo controle de sua vida, mas muitas andam por aí tomando pílula sem saber que estes hormônios adicionais podem dar um nó nas rédeas do seu destino. Por isso, anote aí algumas pegadinhas que podem ser úteis na sua próxima visita ao médico:

- Se você nunca tomou pílula, uma boa primeira escolha são os anticoncepcionais monofásicos, aqueles em que você toma um mesmo comprimido ao longo de toda a cartela. Inicie com uma dose diária de 20 a 30 microgramas de etinilestradiol.

- Prefira pílulas com altas doses de estrógeno (p.ex.: 50 microgramas) se você sofre de epilepsia ou apresenta problemas menstruais perturbadores. Se já lhe recomendaram exorcismo durante alguma menstruação, você pode estar neste grupo.

- O seu problema tem a ver com acne, ganho persistente de peso, dores nas mamas, depressão ou crescimento de pelos indesejáveis? Em alguns casos, basta escolher pílulas com baixas doses de progestógenos ou aumentar a dose de etinilestradiol para facilitar o controle destes problemas.

- Muita atenção com remédios que podem diminuir a eficácia da sua pílula, tais como suplementos de vitamina C, antibióticos, antifúngicos (p.ex.: griseofulvina), rifampicina e anticonvulsivantes (com exceção do ácido valpróico).

- Diminuição do desejo sexual e sangramentos no começo ou no meio do ciclo também podem ser contornados com aumentos na dose de estrógeno. Mas cuidado: náuseas, vômitos, ganho periódico de peso, manchas no rosto (chamadas cloasma), e sensação de “engurgitamento” ou “hipersensibilidade” nos seios podem ser sinais de excesso de estrógenos. Daí a importância de garantir o emprego do seu gincolecologista.

- Se você sofre de enxaqueca, procure imediatamente seu médico de confiança para interromper a pílula.

- As pílulas anticoncepcionais contendo apenas progestógenos são uma boa alternativa para mulheres com mais de 45 anos de idade, fumantes, diabéticas, hipertensas, com enxaqueca ou em fase de aleitamento. Apesar de não serem tão eficazes quanto as pílulas combinadas contendo progestógenos + estrógenos, elas podem ser melhor que praticar abstinência sexual ou encher a casa de bocas famintas.

15 agosto 2014

OS MANDAMENTOS DA PESSOA

© Alessandro Loiola



Em 2015, a Assembléia Geral da ONU responsável pela famosa Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 70 anos.

Sete décadas!, e o país mais rico do mundo não possui um sistema de saúde público. Pode falar mal o quanto quiser do nosso SUS, mas pelo menos nós temos um SUS. Pobre, maltrapilho, míope-quase-cego e trôpego das pernas, mas ele está aí, de portas abertas para sua sorte ou azar.

Nos EUA, a sempre-candidata à presidência Hillary Clinton, esposa daquele outro envolvido no teste do bafômetro com uma estagiária, foi eleita senadora de Nova Iorque prometendo nada mais, nada menos, que um SUS para a Grande Maçã.

Promessas de políticos à parte, o SUS americano nunca aconteceu. Apesar do governo de lá investir muito mais que o daqui - o gasto per capta com saúde nos EUA é 10 vezes maior que o brasileiro -, a população americana recebe do Estado bem menos assistência em saúde.

A cada ano a desnutrição ceifa a vida de mais de 300.000 crianças com menos de 5 anos de idade e o continente considerado berço da humanidade ainda é assolado pelas mesmas tragédias de quando descemos das árvores. Epidemias, fome e violência sufocam a África há milênios, e não existem sinais de que estas mazelas irão diminuir tão cedo.

Por todos estes motivos e inspiradas pela ONU, diversas organizações elaboraram longas listas de direitos que deveriam ser democraticamente agraciados a todo e qualquer ser humano vivo.

Pensei oferecer minha modesta colaboração elaborando uma nova proposta dos deveres primordiais de todos nós. Chega de “direitos” e “liberdades” do ser humano, pensei. Precisamos de “obrigações” saudáveis.

Fiz questão de enumerar apenas 7 mandamentos, pois já existe uma outra excelente lista bíblica com 10 itens que pouca gente presta atenção. Quem sabe, reduzindo um pouco o número, alguém finalmente pare para refletir de verdade.

Então vamos lá: toda pessoa deve...

1.... Enfrentar as mudanças e as incertezas da vida sem medo, e enfrentar o medo com espírito prático e alegre. É preciso manter o senso de humor afiado para aceitar o inevitável maior: sua própria transitoriedade e de tudo que lhe cerca. Ou você acha que seu time do coração irá liderar o campeonato brasileiro para sempre? Tudo passa.

2.... Ser capaz de metabolizar os sentimentos negativos, como raiva, angústia e tristeza, transformado-os em motivação, harmonia, esperança e outros antídotos naturais para o negativismo estúpido.

3.... Ter um contato apenas suficiente com a realidade. Nem pouco demais, nem muito demais. Não estamos preparados para lidar com a realidade como ela é, nua e crua. A fantasia é essencial para garantir sua sobrevivência e a da espécie. Mantenha os pés no chão; a cabeça, nas nuvens - e sonhe bastante!

4.... Conhecer-se ao máximo. Só assim seremos capazes de reparar os danos em nós mesmos e nos nossos semelhantes. E você acha que se conhece? Pois então saiba que seu corpo pesa 40 vezes mais que seu cérebro; temos cerca de 3 sonhos por noite; uma criança faz em média mais de 300 perguntas por dia; as unhas das mãos crescem 4 vezes mais rápido que as dos pés; e seus olhos permanecem mais ou menos do mesmo tamanho desde o nascimento. O nariz e as orelhas, por outro lado, nunca param de crescer. Responda novamente: será que você se conhece mesmo ou anda apenas arranhando a superfície?

5.... Ser capaz e livre para compreender e corresponder às necessidades do grupo em que vive. A esta resposta atenciosa ao sofrimento do próximo chamamos de Bondade. Importante: a bondade que não nasce espontânea e desprendida de outros interesses pessoais não é bondade, é escambo.

6.... Ter a coragem de dizer “eu errei” e aprender com a experiência. Afinal, errar é humano. Colocar a culpa nos outros é sábio.

7.... Ser capaz de amar e ser amada. Sem este dever primordial, nós, reles mamíferos medíocres, jamais teríamos prosperado até aqui. Sem esta obrigação de laços, em um futuro cada vez mais próximo, nos tornaremos menos que uma lembrança na poeira deste planeta. Mas lembre-se: o amor mais verdadeiro nasce a partir do deslumbramento com sua própria vida. Encante-se!

14 agosto 2014

OS ADOÇANTES E O FINAL DOS TEMPOS

© Dr. Alessandro Loiola

Existe uma fábula onde um menino muito travesso e entediado, colocado para vigiar algumas ovelhas, divertia-se gritando “Lobo ! Lobo !”. Quando os adultos da aldeia acudiam, armados até os dentes, o menino ria do trote. Assim que todos retornavam para suas casas, ele gritava “lobo !” novamente, e a cena se repetia.

Um belo dia, o socorro parou de vir. As pessoas estavam cansadas de cair sempre na mesma pegadinha. Nesse dia, o lobo apareceu de verdade. E o pobre menino gritou, chamou, cuspiu seus pulmões, “Lobo ! Lobo ! Lobo !!”, mas ninguém acudiu.

Vira e mexe, os especialistas gritam “Lobo !”. Anos atrás, o lobo era a guerra atômica que dizimaria a humanidade em frações de segundo, literalmente entregando o planeta às baratas. E então o lobo se transformou na inflação, no FMI e na dívida externa. E então, no desmatamento do pulmão do planeta e na perda da biodiversidade. Pois agora temos o lobo metamorfoseado em aquecimento global. Com promessa de falta d’água, crise na energia elétrica e catástrofes climáticas.

A cada década, as previsões do Apocalipse ganham um novo fôlego, se atualizando segundo o gosto da moda na última estação. Entretanto, para quem já usou kichute e aprendeu a ler em cartilhas, ouvir alguém gritando “lobo!” perdeu a graça. Banalizado, o anúncio do final do mundo está virando arroz de festa.

Por isso me surpreendi quando deparei com uma das manchetes mais comentadas nas últimas semanas, sobre um estudo publicado no jornal Behavioral Neuroscience concluindo que adoçantes a base de sacarina, ao invés de emagrecerem, engordam. Como pouca gente parou para ler exatamente do que se tratava, sobrou apenas o grito de lobo no ar: adoçante engorda!

Os adoçantes vivem ocupando manchetes estapafúrdias. Era de se esperar que ninguém mais prestasse atenção, mas não foi bem o que aconteceu. E haja saliva para explicar isso no consultório.
Para você ficar por dentro: a bendita pesquisa analisou dois grupos de ratos durante um certo período de tempo. Inicialmente, o primeiro grupo recebia uma dieta com adoçante e outro, com açúcar. Mais tarde, os dois grupos recebiam ração comum à vontade. Observou-se que o grupo do adoçante comia a ração em maior quantidade, tentando compensar a restrição de calorias, e terminou engordando mais que o grupo do açúcar.

A conclusão deveria ser que dietas muito restritivas desequilibram os centros reguladores da fome no cérebro. Estas dietas podem funcionar em um primeiro momento, mas não funcionam para sempre, e o peso perdido termina voltando com juros e correção monetária.

Infelizmente, não foi bem esta manchete que desembarcou na mídia. Chegou uma outra, esdrúxula, dizendo “Cientistas comprovam: adoçante engorda!”, ou alguma coisa do tipo. Foi a gota. A opinião pública começou a apontar seus dedos acusadores com a velha legenda “Tá vendo? Eu disse que essa porcaria fazia mal !”. Segurando suas tochas e bradando palavras de ordem - Queime no inferno, ciclamato, queime! -, algumas pessoas ameaçam ir até o centro da cidade linchar um caminhão de aspartame.

Ah, o que seria da vida sem esses camponeses...

Você quer ter medo da extinção em massa? Tenha medo do cigarro, que está envolvido em 18 dos 20 novos casos de câncer de pulmão diagnosticados no Brasil diariamente. E não precisa ser tabagista ativo não, viu? Fumante passivo também serve. Destes 18 felizes sorteados, 17 irão virar fumaça nos próximos 5 anos, a despeito do tratamento. O câncer pulmonar não é considerado um dos mais letais à toa.

Quer mesmo ter medo? Tenha medo do alcoolismo. O consumo de bebidas alcoólicas está envolvido em 20% dos acidentes automobilísticos, 24% dos assassinatos e 11% dos suicídios. Tudo que você precisa fazer é abrir a próxima latinha.

Quer ter medo? Deixe o vidro de adoçante de lado e preste mais atenção no saleiro e no sofá da sala. O consumo excessivo de sal e o sedentarismo podem resultar em pressão alta e doenças cardiovasculares, responsáveis pela morte de 32 pessoas por hora.

Antes que você me acuse de ser um fiel representante dos profetas do final dos tempos, fique sabendo que, mesmo com os tímpanos fadigados de tanto gritarem “lobo !” por aí, eu não desanimo. No próximo levante dos dândis da histeria coletiva, estou programando pegar minha mochila e sair para um passeio. Vou visitar o buraco na camada de ozônio e algumas ogivas nucleares. Os pobrezinhos andam tão esquecidos...

13 agosto 2014

A RAÇÃO DE EINSTEIN


O plantão não estava corrido quando a pediatra do andar de cima veio para uma visita-desabafo. Ofereci a cadeira, um sorriso e dois ouvidos.

- Você não vai acreditar. Olha só.

E desfiou o causo da menina atendida há pouco com uma senhora crise alérgica. Apesar dos 8 cachorros criados dentro de casa, a mãe fez questão de frisar: “já rodamos todos os testes possíveis e ela não tem alergia aos cachorrinhos, não. Inclusive, todos eles são muito bem tratados, vacinados e alimentados sempre com ração de primeira qualidade”.

O quase-atrito teve início quando a colega preencheu a receita, com uma coletânea de remédios nada em conta:
- Doutora, mas isso vai ficar caro! E eu ando tão apertada de dinheiro...

A pediatra não se conteve e soltou a pérola óbvia:
- Mas... e o dinheiro para comprar a ração de primeira qualidade para todos aqueles cachorrinhos? Esse dinheiro não falta, né?

Hum, golpe baixo não vale. Além do quê, sei muito bem onde essa conversa leva: a lugar algum. Justamente porque este tipo de esclarecimento vai contra a famosa frase de Einstein, proferida lá pelos idos de 1940 e qualquer coisa: “existem apenas duas coisas infinitas - o Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo”.

Naquele dia, a frase do velho Albert foi representada por uma ração para cachorros – ou para crianças, melhor dizendo. Triste, muito triste. Há várias décadas, seguimos alimentando o grosso das gerações futuras com este prato, a ração da estupidez de Einstein. O consumo antes do desenvolvimento, o poder no lugar do afeto, a aparência em prol do conteúdo.

Os ingredientes desta ração estão recheando o futuro com problemas de um gosto bem amargo: 1/3 das crianças e 1 em cada 8 adolescentes sofrem de depressão, tornando o suicídio uma das 10 causas mais comuns de mortes na população abaixo dos 15 anos de idade.

Cerca de 5% das crianças entre 7-11 anos de idade apresentam distúrbios da ansiedade e mais de 10% estão acima do peso. Aproximadamente 15% dos adolescentes fazem uso sistemático de alguma droga (lícita ou ilícita), e os sintomas da síndrome do pânico afetam 1 de cada 20 destes projetos de adultos. Bom, pelo menos para os psiquiatras, as próximas décadas prometem ser divertidíssimas.

Fora das estatísticas, as conseqüências da Ração de Einstein podem ser percebidas em outros sintomas. Por exemplo: o sujeito tem um quintal cheio de lama e limo. Os anos se passam e ele nem para enterrar uma semente de mamão, tomate, abacate, goiaba, cebolinha ou qualquer coisa que valha. Vivemos em um país excepcional, com frutas da época brotando aos montes em todas as épocas do ano. Mas quem tem tempo de plantar uma sementinha? Quase ninguém. Afinal, o pouco tempo que sobra é invariavelmente gasto com latinhas de cerveja, programas de auditório e bordões de incentivo para o futebol nas quartas-feiras. E tome um prato cheio da ração de Einstein.

O mesmo amigo, esse da casa sem frutas ou rede de esgoto, tem 5 filhos e 3 cachorros. Por que não 3 galinhas no lugar dos caninos? Primeiro: cachorro não bota ovo. Segundo: tirando alguns coreanos, não creio que alguém mais curta um delicioso ensopado de Rex com Totó aos domingos. Terceiro: se o bendito não tem tempo de acompanhar sequer o dever de casa das crianças, que diabos está fazendo criando 3 vira-latas? Olha aí, outra tigela da ração.

Felizmente, para os bons gourmets, é possível contornar a indigestão e optar por um prato mais saboroso. Podemos tomar outro caminho, um caminho mais de acordo com nossa capacidade de pensar. Um caminho onde a hipocrisia não é um condimento salpicado no arroz com feijão, e nossas crianças não recebem diariamente uma ração insossa de vícios e idéias empoeiradas.

A cada novo dia, a cada novo encontro com um ser humano, somos presenteados com a incrível oportunidade de criar um universo inédito, muito aquém da panela de estupidez profetizada por Einstein. Para preparar a refeição do futuro, repleta de cordialidade, ternura e altruísmo, só precisamos fazer uma única coisa extraordinária: escolher os ingredientes com inteligência.

Como você anda temperando sua vida?

12 agosto 2014

Fumar durante a gravidez pode afetar o comportamento da criança mais tarde?

© Dr. Alessandro Loiola

O fato do cigarro poder causar má-formações no bebê é um dado bastante conhecido, mas será que a exposição gestacional ao tabagismo poderia afetar também o comportamento da criança mais tarde?

Utilizando imagens de Ressonância Nuclear Magnética (RNM), pesquisadores do Central Institute of Mental Health (Universidade de Heidelberg, Alemanha) descobriram que adultos jovens cujas mães fumavam durante a gestação apresentavam baixa atividade em regiões do cérebro envolvidas com o controle da impulsividade. Estas alterações são semelhantes àquelas observadas em indivíduos com Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

O estudo envolveu 178 mulheres e seus respectivos bebês, que foram acompanhados desde o nascimento. Catorze mulheres gestantes (7,9% do total) relataram fumar 1 a 5 cigarros por dia; 24 (13,5%) fumaram mais que 5 cigarros por dia, e o restante não era tabagista (78,7%). As crianças cresceram e aos 25 anos foram submetidas a uma série de RNM. Em todas elas, a presença de sintomas de TDAH foi avaliada dos 2 aos 15 anos de idade.

Adultos com história de exposição ao tabaco durante a gestação apresentaram mais sintomas de TDAH entre os 2 e 15 anos de idade em comparação às crianças cujas mães não fumaram.
As alterações cerebrais que o cigarro provoca no bebê comprometem o bom funcionamento neural em regiões estratégicas, dificultando o aprendizado e favorecendo o desenvolvimento de comportamentos impulsivos na idade adulta – como o consumo de drogas, por exemplo.

Vale a reflexão.

CEFALEIA TENSIONAL

© Dr. Alessandro Loiola

Se existe uma coisa admirável nos cientistas médicos é a capacidade que eles têm de contabilizar tudo, quase como se cultivassem um fetiche por porcentagens e estatísticas. Por exemplo: estudos recentes calcularam que, dos 6 bilhões de seres humanos neste planeta, 25% apresentam algum transtorno psiquiátrico, 3% são levemente retardados e 1% sofre de esquizofrenia franca. Uma conta dessas só pode ser coisa de doido.

Algumas vezes, as estatísticas se referem a dados que, em última análise, parecem completamente inúteis: uma pesquisa da American Academy of Emergency Medicine calculou que o cidadão médio possui um risco de 30% de morte por infarto fulminante. E daí? Segundo minha modesta matemática, o risco de uma pessoa morrer por qualquer outra causa ao longo da vida é de 100%. No final, o motivo derradeiro não passará de pura burocracia para preencher papéis.

O resultado de uma outra pesquisa que recebi por email revelava que, depois de fazer sexo selvagem, 10% dos homens se viram para o lado direito, 10% se viram para o lado esquerdo e os 80% restantes se viram para chegar em casa antes que a patroa perceba. Esse sim, um dado sociológico chauvinista de extrema relevância.

Mapa da mina

Mas muitas dessas estatísticas possuem aplicações verdadeiramente úteis, como auxiliar na definição de políticas de saúde pública, elaborar orientações para facilitar o diagnóstico e tratamento de certos distúrbios, e – principalmente e acima de tudo – servir de mapa para que a indústria farmacêutica desenvolva novos medicamentos.

Um bom exemplo deste último emprego da ciência: sabendo que, anualmente, cerca de 90% dos homens e 95% das mulheres sofrem de pelo menos um episódio de dor de cabeça (38% dos adultos do mundo apresentarão uma crise ainda nas próximas duas semanas), os laboratórios lançam periodicamente campanhas milionárias para apresentação do analgésico definitivo ou do antiinflamatório mais eficaz de todos os tempos.

Atalhos

Algumas vezes, apertam um pouco o passo e começam a vender um medicamento cujos testes de segurança não foram completamente concluídos, mas qual o problema? Algumas centenas de pessoas cujos rins pararam de funcionar em razão daquela droga mal-sucedida não comprometerão toda a margem de lucro. E ano que vem a gente apresenta uma nova droga e tudo se esquece.

O triste é perceber que as pessoas anseiam por este tipo de atalho para saúde. Não querem compromissos, apenas um atalho. Esse é bem o caso da própria dor de cabeça – chamada de cefaléia no jargão médico. Todo mundo parece adorar um remédio para dor de cabeça, mas o problema pode representar a manifestação de distúrbios graves como sinusite, crise hipertensiva ou disfunção da coluna vertebral, que devem ser tratados com uma seriedade maior que uma simples aspirina.

Tensão excessiva

A cefaléia tensional, o tipo mais comum de dor de cabeça, costuma estar relacionada ao estresse, fadiga, depressão e personalidade perfeccionista. A causa está na tensão excessiva da musculatura da região cervical. Tipicamente, a dor é diária e mais intensa na região frontal ou occipital, podendo durar de algumas horas a vários dias. A dor se inicia logo pela manhã, ao sair da cama, e vai piorando ao longo do dia. O diagnóstico é feito por meio do exame médico.

Se você sofre de crises recorrentes de cefaléia tensional, existem algumas medidas práticas que você pode empregar antes de rechear seu estômago com pílulas de ultima geração: faça compressas mornas nos pontos dolorosos localizados no pescoço e na cabeça.

Exercícios físicos de alongamento para as costas e massagens realizadas por profissionais treinados também ajudam a resolver o problema, assim como não pular refeições, manter um padrão satisfatório de sono, aprender a lidar melhor com o estresse e utilizar antiinflamatórios naturais de eficácia comprovada, como o chá de folhas de algodão.

Efeito colateral

Atenção para o fato de que alguns remédios e substâncias podem causar dores de cabeça como efeito colateral. A lista inclui álcool, codeína, metildopa, beta-bloqueadores (p.ex.: atenolol), hidralazina, reserpina, bloqueadores de canais de cálcio (p.ex.: nifedipina), corticóides, ranitidina, indometacina, anticoncepcionais orais e nitratos sublinguais (muito utilizados para tratamento de crises de angina).

Apesar de mais de 95% dos casos de cefaléia não possuírem uma causa básica grave, alguns sintomas podem indicar a necessidade de uma ida mais rápida ao médico, tais como uma dor muito intensa ou severa (com ou sem rigidez de nuca), dor iniciada após uma pancada forte na cabeça, ou dor associada à febre, convulsão, confusão mental, perda da consciência ou desconforto nos olhos ou ouvidos, e dor capaz de interferir nas atividades do dia a dia.

05 agosto 2014

ALIMENTOS ORGÂNICOS

© Dr. Alessandro Loiola

No auge do verão e das epidemias de diarréia que entopem os pronto-atendimentos, não faltam reportagens sobre alimentos saudáveis e orientações sobre cuidados com a alimentação.

Em meio a essa avalanche de comida, vem uma onda de produtos com rótulos animados e coloridos trazendo o emblema “natural” e “orgânico”. Cereais e frutas naturais, carnes e laticínios orgânicos... Valha-me santa revolução agrícola, mas como um alimento pode não ser natural ou orgânico? 

Pode me chamar de pirracento (muito provavelmente eu sou mesmo), mas tudo que você ingere vem da natureza. Até coisas tão artificiais como o alumínio, o papel celofane e os seios de silicone podem ser consideradas consequências da natureza. A bem da verdade, não sei se lhe informaram, mas você veio da natureza e continuará vivendo imerso nela até o dia em que seus dias terminarem e você virar um tipo de vertebrado gasoso. Pelo menos é o que dizem algumas religiões.

O termo “orgânico” foi utilizado pela primeira vez em 1939 pelo Barão de Northbourne, agricultor inglês famoso por uma abordagem mais ecologicamente correta para a produção de alimentos. Desde então, os critérios utilizados para classificar um alimento como “orgânico” vem variando de um país para outro.

Os ortodoxos consideram alimentos orgânicos aqueles cultivados sem qualquer contato com pesticidas, inseticidas, herbicidas ou outros tipos de venenos artificiais. Um tomate colhido por sua sogra poderia perder a classificação de orgânico, por exemplo. Mas os alimentos orgânicos podem ser cultivados utilizando-se fertilizantes não-orgânicos - o capitalismo sempre encontra um jeito de enfiar o dedo na pureza dos conceitos.

No caso de aves, a criação deve ser feita sem o uso rotineiro de antibióticos ou hormônios. Animais produzidos de modo “orgânico” devem ser acomodados em condições que lembrem seus habitats naturais: vacas, ovelhas e outros ruminantes devem ter livre acesso ao pasto.

Vacinas são permitidas e os parasitas devem ser controlados através de medidas preventivas, incluindo dietas balanceadas e boas condições sanitárias. Arrancar diariamente os carrapatos da mimosa utilizando os próprios dentes também vale como modo orgânico natural, mas cuidadores com rotes e próteses odontológicas devem ser mantidos distantes dos fiscais. Só por garantia.

A forma como os alimentos orgânicos (fala sério, não vou dizer “alimento natural” nem que me paguem o dobro) são produzidos resultam em vários benefícios. As fazendas orgânicas não consomem ou liberam pesticidas sintéticos no meio-ambiente, além de serem mais eficientes na sustentação de ecossistemas diversos. Fazendo-se um cálculo de produtividade por unidade plantada, estas fazendas de fato utilizam menos energia e produzem menos lixo.

Alguns estudos mostram que vegetais e frutas produzidos de modo orgânico são mais ricos em nutrientes que alimentos produzidos de modo não-orgânico, chegando a apresentar uma concentração 40% de antioxidantes naturais quando comparados aos seus equivalentes convencionais.

Em contrapartida, uma pesquisa realizado na Austrália em 2004 descobriu que os alimentos orgânicos vendidos em supermercados chegavam a custar 65% mais que seus equivalentes não-orgânicos. Os preços podem ser maiores uma vez que os produtos orgânicos são produzidos em menor escala e, em muitos casos, de modo semi-artesanal.

Orgânico ou não-orgânico, natural ou não-natural, o essencial é escolher seus alimentos de modo equilibrado. Eles constituirão seu corpo futuro, então vá com calma com o que você anda colocando para dentro. Sempre que possível, prefira frutas, legumes e verduras de origem minimamente confiável. Lave bem as mãos e os alimentos antes de consumi-los.

Até onde estudei, higiene e ponderação raramente foram responsáveis por grandes desconfortos digestivos. Tempere seus lanches de verão com doses generosas de ambos.

04 agosto 2014

O Dia da Água

© Dr. Alessandro Loiola

Sessenta por cento do seu corpo e 80% do seu cérebro. É isso que a água corresponde. Dentro do nosso medíocre conhecimento, não somos capazes de conceber a existência de vida onde não há (ou houve) água.

Não é à toa que os repórteres do apocalipse adoram notícias sobre a água. Quando a Globo não tem o que mostrar na sexta-feira à noite, manda algum jornalista se embrenhar no mato para o Sérgio Chapelin anunciar mais tarde: “incríveis árvores verdes, pássaros que voam de verdade e peixes que conseguem respirar até debaixo d´água! Você não pode perder, esta noite, no bobo repórter”. O mesmo vale para a água. Quando faltam novos dados convincentes sobre o fim do mundo, apelam para a água: O fim da água! No futuro, a guerra pela água! E blá blá blá.

Sim, a água vai acabar. Assim como nossa espécie, o Sol e todo este lado da Via Láctea.

Com relação à nossa hospitaleira Terra, digamos que ela passa por fases. Como em uma versão realista de um The Sims planetário, não estamos terminados: estamos sempre evoluindo. O jogo segue. E se um dia fomos uma crosta vulcânica desprovida de vertebrados, muito provavelmente no futuro seremos alguma coisa bastante diferente deste aquário invertido infestado por Homo sapiens.

A despeito desta crua realidade, é extremamente válido dar o devido valor a tudo que nos sustenta. Se você trata seu chefe com respeito (pelo menos na frente dele) e venera aquele aumento no salário, por que faria diferente com a água?

Sem a água, não desapareciam apenas as atividades econômicas: nosso organismo não duraria uma semana sem ingerir o precioso líquido. Durante o curso de medicina, aprendemos que a sobrevivência humana é delimitada por algo chamado Regra dos Três: 3 minutos sem respirar, 3 dias sem beber água, 3 semanas sem comer. Qualquer passo fora disso, vuuussh!, você já era, vai freqüentar uma palestra para vegetais no Ceasa ou virar adubo de samambaia.

A água participa da digestão dos alimentos, da regulação da temperatura corporal e do transporte de oxigênio. Ela lubrifica articulações, promove o bom funcionamento intestinal e serve de meio para milhares de reações químicas essenciais para a manutenção da vida.

Apesar de valiosa, nosso organismo faz questão de perder água: através da respiração, eliminamos quase 2 copos de água diariamente. Através do suor, outros 2 copos ou mais. Os rins eliminam outros 5-6 copos. Para repor estas perdas, é essencial ingerir boas quantidades de líquido por dia – no mínimo 6-8 copos.

Para que você tenha sempre água à sua disposição, respeitando os limites do bom senso e evitando desperdícios, seguem 5 orientações que podem ser tão práticas quanto inúteis:

• Confira periodicamente vazamentos em pias, chuveiros e vasos sanitários. E conserte-os. Porque “verificação” e “nada” significam quase a mesma coisa se você não tomar uma atitude.

• Feche a torneira enquanto estiver se ensaboando, escovando os dentes ou fazendo a barba. Cada minuto a menos de banho equivale a uma economia de 3 a 6 litros de água! Explique isso para sua mãe ou esposa quando ela começar a reclamar do seu cheiro.

• Ao limpar as louças, deixe-as de molho em uma bacia ou na própria pia, para amolecer os resíduos. Então raspe e jogue os resíduos no lixo – ou guarde-os em um recipiente para oferecer ao seu cunhado no almoço de sábado (“você não pode deixar de provar esse risoto!”). Aquela água imunda em que os vasilhames permaneceram de molho pode ser utilizada para preparar uma deliciosa sopa de legumes à noite. Chame seu cunhado de volta.

• Otimize o uso da máquina de lavar louças e da máquina de lavar roupas: coloque-as para rodar apenas quando estiverem cheias. E não ponha a roupa para lavar a todo momento: recicle sua cueca usando dos dois lados. Lamber bem os talheres do almoço ajuda a mantê-los limpos até a janta. E etc. 

• Não lave a calçada: limpe-a com uma vassoura ou lave-a com a água já usada na lavagem das roupas. Se você acha divertido ficar ali feito um debilóide de bermudas, assoviando Tony Bennet enquanto empurra folha por folha até a sarjeta com a mangueira aberta, procure fazer o mesmo utilizando apenas sua saliva. Depois de uma hora, você entenderá mais ou menos como o planeta se sente. Boa sorte!


Gestante Mutante

© Dr. Alessandro Loiola

Quando estávamos na escola, lá naqueles idos quando chamávamos a professora de “tia”, aprendemos que os seres vivos possuem um conjunto bastante peculiar de características. Eles são formados por células, necessitam de alimento, nascem, crescem, morrem, etc. De todas estas estranhezas que nos cercam, o fato de sermos capazes de produzir descendentes é um requinte miraculoso. 

A metamorfose envolvida na geração de nossas pequenas fotocópias devoradoras de fraldas descartáveis seria um bom tema de ficção-científica. A gestante é um mutante e não é preciso ser um cientista para perceber as alterações que ocorrem no organismo feminino durante este período. Entretanto, existe muito mais ocorrendo entre o céu e a placenta do que julga nossa vã filosofia. 

Alguns dias após a fecundação do óvulo, o organismo materno – faminto por energia - inicia uma série de saques nas reservas de gordura, podendo ocorrer uma discreta perda de peso no início da gravidez. A atividade enzimática e a síntese de proteínas aumentam, agregando valores à construção do pequeno novo ser humano. 

Com toda essa movimentação molecular, os níveis de glicose no sangue diminuem e o corpo retém líquido. Alterações renais promovidas por hormônios como a Aldosterona farão com que até o final da gravidez sejam acumulados mais de 7 litros de água! O acúmulo de líquido responde por boa parte das alterações sensoriais, como a diminuição da audição, as alterações do paladar e do tato.

Nos primeiros 3 meses de gravidez, o trabalho do coração aumenta 40%. Para manter níveis adequados de oxigenação para a mãe e o feto, incrementam a necessidade de ferro e a freqüência respiratória materna.  

As adaptações anatômicas também repercutem sobre sistema digestivo: náuseas no período da manhã são comuns. A produção de saliva é maior. O intestino passa a funcionar com mais lentidão e a constipação é freqüente. À medida que o útero ocupa boa parte do espaço na cavidade abdominal, o estômago se torna menos capaz de distender, provocando o refluxo e azia. 

As mudanças hormonais são sentidas literalmente na pele: estrias gravídicas podem surgir nos seios, nos flancos, na parte anterior do abdome, nas nádegas e na raiz dos membros inferiores. É comum o escurecimento da linha que vai do umbigo ao púbis (Linha Nigra) e o rosto pode apresentar áreas de hiperpigmentação (cloasma). O balanço dos hormônios também pode provocar balanços no humor, com extremos de irritabilidade e melancolia. 

Por todos estes motivos, o acompanhamento pré-natal é fundamental. É essencial que a grávida compreenda as modificações e adaptações do seu corpo à presença do parasita, digo, do bebê, pois isso ajudará a diminuir a ansiedade e a insegurança associadas à gestação.  

Para facilitar um pouco sua vida, reuni 7 macetes que podem lhe ajudar a contornar os problemas mais comuns: 

ENJÔOS MATINAIS: as náuseas começam 3-4 semanas após o atraso da menstruação, durando até o final da 12ª semana de gravidez. Prefira alimentos de digestão mais fácil, como batatas amassadas, torradas, arroz e frutas, ingerindo as refeições em porções menores, porém mais freqüentes. 

CÃIBRAS: mais comuns durante a noite. O remédio mais fácil e rápido consiste em ficar de pé e alongar os músculos que estão doendo. Aproveite para chorar uma promoção e conseguir uma massagem alentadora nos pés. 

DORES NAS COSTAS: quanto mais peso, mais trabalho para a coluna vertebral. Procure utilizar sapatos baixos e manter as costas bem apoiadas quando estiver sentada. Cuidado ao curvar-se, levantar pesos ou fazer exercícios. 

AZIA: a barriga está toda ocupada pelo bebê e ele não sabe que você come. Para reduzir o desconforto, evite alimentos muito temperados ou ácidos, frituras e refeições muito volumosas. Para descansar depois de uma refeição, recoste sobre uma pilha de travesseiros ou almofadas ao invés de deitar.  

FALTA DE AR: a pressão progressiva do útero sobre os pulmões pode causar falta de ar. Repouse e aceite os novos limites do seu corpo. Estes limites podem ser temporários, mas existem. 

DORES NOS QUADRIS: nas últimas semanas da gravidez, as cartilagens que unem os ossos da pelve começam a se afastar, preparando para a passagem do alien. Isso faz com que os quadris doam e pareçam “soltos” durante a caminhada. Repouso e compressas mornas ajudam a aliviar o desconforto.  

INCHAÇO NOS PÉS E TORNOZELOS: sempre que possível, mantenha os pés levantados ou apoiados na altura do corpo, evitando permanecer de pé por longos períodos de tempo. Essas mesmas dicas se aplicam para evitar as famigeradas varizes. Mas atenção: se os inchaços começarem a parecer fora de proporção, conte sempre com a ajuda de seu médico de confiança!


30 julho 2014

Correr 10 minutos duas vezes por semana ajuda alguma coisa?

Apenas 5 a 10 minutos de corrida diariamente, ainda que em baixa velocidade, pode reduzir significativamente seu risco de morte por todas as causas e de morte por doenças cardiovasculares.

Em comparação às pessoas que não praticam corrida, os pesquisadores observaram uma redução importante no risco de mortalidade em pessoas que corriam (1) menos de 10 km por semana, (2) a uma velocidade inferior a 10 km/h e (4) apenas uma a duas vezes por semana.

Esta notícia é extremamente relevante porque o TEMPO é uma das principais justificativas utilizadas para não praticar exercícios físicos. Esta descoberta diz que você não precisa fazer corridas extenuantes de 30 a 40 minutos todo santo dia: o benefício para reduzir seu risco de morte por qualquer causa pode ser obtido com corridas diárias de 5 a 15 minutos apenas.

O coordenador do estudo, Dr. Duck-chul Lee, da Universidade Estadual de Iowa, assim como muitos de nós médicos, acreditava que quanto mais você praticasse corrida, maiores seriam os benefícios. Vários manuais e diretrizes de cardiologia e fitness pregam que você deve praticar pelo menos 75 minutos de atividade física vigorosa por semana para reduzir o risco de morte por doenças cardiovasculares. O que os cientistas descobriram foi que menos do que isso (75 minutos) TAMBÉM é útil para diminuir o risco. 

O estudo, publicado em 28/07/14 no Journal of the American College of Cardiology, incluiu 55.137 participantes, que foram acompanhados durante 15 anos. Destes indivíduos, aproximadamente 1 de cada 4 praticava corrida. Mesmo após ajuste das variáveis com potencial de bias, a prática de corrida associava-se a um risco significativamente menor de mortalidade. Não correr, os pesquisadores observaram, era um fator de risco quase tão importante quanto hipertensão arterial, respondendo por 16% da mortalidade global e 25% da mortalidade cardiovascular. 

Os investigadores então separaram os corredores em 5 grupos com base no tempo semanal dedicado à atividade. Os indivíduos que corriam menos de 51 minutos por semana apresentava um risco de mortalidade significativamente menor quando comparados a indivíduos que não praticavam corrida. E mais: entre aqueles que corriam com mais frequência, não pareceu haver qualquer benefício adicional em termos de redução da mortalidade global ou da mortalidade cardiovascular. Quando os não-corredores eram excluídos da análise, praticamente não havia mais qualquer diferença estatisticamente significativa na redução da mortalidade entre os grupos de indivíduos corredores. 

Em termos de distância, o maior benefício em termos de redução da mortalidade global ocorre entre os indivíduos que perfazem menos de 10 km por semana. Para reduzir especificamente a mortalidade cardiovascular, são necessários 8 a 16 km por semana. 

Concluindo: quem pratica corrida regularmente (mesmo uma corridinha básica de 10 minutos, 3 vezes na semana) adiciona 3 anos a mais de vida em relação às pessoas que não praticam, além de possuíram um risco 30% menor de morte por qualquer causa e 45% menor de mortalidade cardiovascular. 

Tá esperando o quê? Bora pra pista ! J

29 julho 2014

Pensamento do Dia

Na longa estrada para a Sabedoria existem inúmeras pousadas de Ignorância com amplos jardins perfumados de meias verdades, e atalhos que levam todos ao mesmo Distrito – o da Plena Estupidez. Porque a estrada para a Sabedoria possui loucura e lucidez e disciplina e um tanto de atrevimento, mas nenhuma parada ou atalho. E só os tolos e seus semelhantes se atrevem a acreditar em contrário.
 

04 outubro 2013

TESTE DE PERSONALIDADE

BRINCADEIRA DO DIA - faça o teste e entenda-se um pouco mais

A escritora Gail Sheehy disse que “só há duas ou três histórias humanas, que se repetem furiosamente, como se nunca tivessem acontecido antes”. Apesar disso parecer um tanto restrito – todo mundo se acha tão especial e diferente -, as colunas de horóscopos que dividem a humanidade em um leque diário de 12 destinos apenas podem dar uma pista. Somos realmente MUITO parecidos.

Existem padrões gerais de comportamento que subdividem-se em padrões gerais de personalidade. A energia elétrica (comportamento) chega à sua casa, e você a utiliza para desenvolver certas atividades (conservar alimentos, iluminar e refrescar ambientes, aquecer a água do banho, etc), mas esse número de atividades é limitado e, até certo ponto, previsível.

Na década de 50, utilizarando os estudos de Carl Jung para auxiliar no esforço de reconstrução dos EUA ndo pós-guerra, as pioneiras Katherine e Isabel Briggs Myers (respectivamente mãe e filha) desenvolveram um indicador capaz de captar os tipos psicológicos das pessoas (Taylorismo para principiantes). Aplicando esse indicador na seleção da mão de obra, elas acreditavam que seria possível aprimorar a compreensão de suas expectativas, comportamentos, anseios e qualidades, aumentando a eficácia, a satisfação e a produtividade no trabalho.

Na prática, o Myers Briggs Type Indicator (ou MBTI), divide a personalidade em 16 tipos, organizados segundo os critérios Extroversão/Introversão, Sensação/Intuição, Pensamento/Sentimento e Julgamento/Percepção.
 
Para ter uma ideia simples de como aplicar isso, faça o seguinte: em cada uma das perguntas abaixo, assinale a letra correspondente à esquerda que mais se encaixa à sua resposta. Lembre-se de escolher APENAS UMA LETRA para cada pergunta. Anote estas letras e memorize a sequência (p.ex.: ESTJ, INFP, ENFJ, etc).

1.         De um modo geral, você:
(E) se acha extrovertido(a) e prefere interagir com pessoas / animais / coisas

OU
(I) se acha introvertido(a) prefere o mundo das ideias e passar seu tempo mais sozinha?


2.         Ao lidar com os desafios do dia a dia, você:

(S) Normalmente se acha uma pessoa mais realista e prática, prestando mais atenção a fatos e detalhes

OU

(N) se acha imaginativo(a) e criativo(a), sempre tentando entender conexões, significados e implicações das coisas?

 
3.         Em uma situação de conflito onde seu posicionamento será crucial para determinar o caminho da solução:

(T) você valoriza a lógica e a justiça (um peso, uma medida) e toma suas decisões mais objetivamente, pesando os prós e contras

OU

(F) procura se basear em como as outras pessoas se sentem acerca do assunto e como os outros serão afetados, valorizando a empatia e a harmonia?

4.         Durante a solução daquele conflito:

(J) você tende a tomar suas decisões rápida e facilmente, se sentindo mais feliz depois que as decisões foram tomadas

OU

(P) prefere deixar as suas opções mais em aberto?

 
Conseguiu sua sequência? Lembre-se de responder as questões o mais sinceramente possível. Ninguém está vendo o resultado mesmo, só você.

Agora abra este link em uma outra janela do seu navegador

http://www.erudito.fea.usp.br/PortalFEA/repositorio/201/documentos/RH1_T2/DescricaoTiposHTML.htm

e clique sobre a sequência que corresponde à sua. O que bate e o que não bate?


Compartilhe a brincadeira com seus colegas e tenha um bom assunto para o happy-hour de hoje :)


Abraço,

 
Alessandro Loiola.

06 novembro 2011

UM BRINDE AO DIA DEPOIS DO OUTRO

© Dr. Alessandro Loiola



Por gerações a perder de vista, os incontáveis povos que já passaram pela superfície no nosso planeta-grão-de-poeira adoravam eleger datas festivas para comemorar o que quer que fosse. Isso é uma coisa tão prevalente que me atrevo a dizer que somos o produto de milênios de seleção natural de ancestrais baladeiros e festeiras.

Por exemplo: os hindus têm um tal de Festival das Cores, para celebrar a germinação das sementes e a nova colheita que virá com a primavera. Tudo muito bonito, sincronizado com as fases da Lua, os primeiros dois dias todo mundo comportado, rezas, ladainhas, adorações, coisetal. E então, no terceiro dia… “loucura, loucura, loucura!”, como diria o Sr. Luciano “o Incrível” Huck. O festival vira festival mesmo e o bicho pega.

Um pouco pra cima da Índia, os chineses não fazem por menos. A partir da metade de setembro e até por volta da primeira semana de outubro, eles comemoram o Festival do Bolo Lunar, uma tradição com mais de 3.000 anos que celebra a derrota dos invasores mongóis. E segue-se um troca-troca sem fim de pequenos bolinhos adocicados em formato de Lua cheia. Quer dizer, eles dizem que tem formado de Lua cheia. Pra mim, é formato de bolo mesmo.

Os chineses são mestres em celebrações. Quem manda? Com 1,3 bilhões de pessoas, eles têm o próprio planeta deles por lá. Tanto é que o Ano Novo Chinês é comemorado entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro. Ouvi falar que a tradição é soltar fogos de artifício, limpar a casa, sujar a rua com pequenos pedaços de papel vermelho e fazer muita comida, especialmente os Yau Gowk, bolinhos que simbolizam prosperidade.

Bolinhos chineses novamente. Fico imaginando o que esse povo tem com bolinhos. Deve ser algum fetiche. Sei lá.

Os muçulmanos comemoram o ano novo no meio do nosso ano. O ano novo judaico, chamado Rosh Hasanah ou a “festa das trombetas” (imagine a alegria dos vizinhos...), acontece um pouco mais tarde, em setembro. Os coreanos, mais animados, comemoram 2 anos novos: um baseado no calendário ocidental e o Seol Lal, baseado no calendário lunar chinês.

A primeira notícia que se tem de comemoração do Ano Novo no dia 1º de janeiro vem dos idos do imperador Julio Cesar, em 46 a.C, mas a data seria adotada pela cristandade apenas em 1582, com a oficialização do calendário gregoriano – que nos rege até hoje.

A celebração do Ano Novo marca um evento bastante simples e pouco altruísta: como nas demais festividades de todos os povos em todos os tempos, estamos celebrando nada mais, nada menos, que nossa própria sobrevivência.

Sobrevivemos a mais um giro, você completou mais uma volta. Ainda estamos aqui. Bata no peito, grite bem alto, levante sua taça – afinal, o ano se foi e você ficou! Agora, graças ao renascimento do calendário grudado na porta da geladeira, você poderá fazer novamente todas suas velhas promessas.

Celebrar a sobrevivência, apesar de previsível, não deixa de ser louvável. Nossos ancestrais miúdos, as amebas, vivem apenas dois dias. Uma miséria. Um glóbulo vermelho do seu sangue vive no máximo 120 dias: uma hemácia nascida no verão, provavelmente irá desaparecer antes do cair da primeira folha de outono. Pouquíssimas terão a oportunidade de conhecer o barulho de uma rolha de espumante.

Mesmo quando comparados a outros mamíferos, somos uma espécie longeva: um coelho vive apenas 10 anos. Gatos e cachorros, no máximo uns 18 anos.
Gorilas e chimpanzés, cerca de duas reles décadas. Nós? Vivemos uma média de 75-80 anos. Faz sentido comemorarmos coletivamente cada um deles.

Mas eu iria além. Se estas festas de todos os dezembros marcam nossa sobrevivência ao longo do velório do ano velho e o trabalho de parto do próximo, porque não celebrar mais frequentemente a sobrevivência? Celebrar a imensa felicidade de acordar e desfrutar mais uma vez o mundo e as pessoas. Quer dizer, nem todas as pessoas, apenas algumas pessoas. Bem poucas, pra falar a verdade. Mas elas estão por aí e merecem um alô.

Será que temos essa inteligência suficiente para comemorar o cotidiano? Festejar a beleza elegante da evolução, a serenidade da sabedoria e o milagre absurdo que se esconde no simples fato de estarmos aqui, prestes a declarar o imposto de renda outra vez?

Considerando que o ano novo é a simples realização de que estamos vivos, porque não exaltar cada novo dia? Sim! Cada raiar do sol esconde um novo ano particular, uma oportunidade única para você refazer os cacos e juntar o todo. Que feliz ano novo que nada! Apesar da paganice, da receita federal e dos argentinos, desejo mesmo a você e toda sua família um Feliz Dia Depois do Outro! E outro. E outro. E outro. E sempre. Saúde!

20 setembro 2011

EM BUSCA DA BÚSSOLA PERDIDA


Uma amiga desabafa: “sabe, ando passando uma fase estranha, um sentimento de como se estivesse perdida, como em um daqueles pesadelos que você não sabe onde está. Anda, anda e não sabe pra onde ir, entende? Travei. Passei a fazer tudo mecanicamente e precisei dar um tempo em um monte de coisas pra tentar voltar ao normal. Ainda não consegui. Existe algum caminho mais fácil para sair daqui?”

Me identifiquei imediatamente com o bairro dela, ali perto de Perdidos No Espaço. Na última contagem, o rapaz responsável pelo censo da região também se extraviou e não temos estatísticas confiáveis até o momento sobre a população que habita o local. Mas ela parece grande. Muito grande.

No começo dos anos 2000, quando mudei de uma pequena localidade chamada Santa Maria de Jetibá (menos de 50.000 habitantes) para a enorme região metropolitana de BH (mais de 5 milhões de viventes), nos perdemos em um passeio para conhecer a capital. Estávamos nos informando sobre o caminho de volta para casa quando meu filho - então com 6 anos de idade - perguntou:
- Pai, qual o significado dos nomes nessas placas?
- São os nomes dos bairros e as saídas que você tem que pegar para ir a cada um deles.
- Ahhhnn... Então aqui é o bairro da Savassi e ali é a saída para o Belvedere?
- Isso.

Andamos mais um pouco.
- E aqui é Lourdes e por ali a gente vai para o Barro Preto?
- É isso aí.

Andamos mais um pouco.
- Pai, olha só, tem um bairro enooorme! Na cidade inteira tem entrada para ele!
- Filho, cada bairro fica em um lugar só. Não tem como um bairro estar para todo lado. – E fiz um “tsc tsc” de desdém.
- Então porque tem tantas placas apontando para esse bairro chamado Retorno?

Crianças. O poço mais profundo da filosofia mais magnânima pelo preço de um picolé.

Todo lugar tem um Retorno. Todo lugar tem uma volta. Sempre é possível recomeçar, reconquistar, refazer, reconstruir, reviver. E foi a partir da vivência de uma criança de 6 anos que desenvolvi uma teoria bem simples, a teoria da Bússola do Crescimento Pessoal, composta por 5 diretrizes gerais de navegação que gostaria de compartilhar com você agora:

1 - Quando você acordou hoje, foram depositados 86.400 segundos em sua conta de vida. Eles são todos seus e, apesar de auto-renováveis a cada meia noite, não podem ser transferidos, doados ou vendidos. Contudo, o fato de não poder negociar com o relógio não significa que você não possa se aproveitar dele. Leve o tempo que for necessário para iniciar seu recomeço – só não leve tempo demais.

2 - Rasgue imediatamente seu bilhete de entrada para o metrô dos zumbis: dentro do possível e do impossível, desfrute e participe da paisagem que passa pela sua janela. Aprendizado sem mudança é desilusão. Mudança sem crescimento é frustração. Contemple a vista, aprenda, mude e se aprimore a cada dia.

3 - No final das contas, tudo isso de ruim e de bom é viver, e a viagem só acaba quando termina. Nunca desanime antes do fim. A única rua que leva ao seu fracasso é a Desistência e, enquanto estiver persistindo, você estará no caminho para o sucesso. Peça carona, empurre seu carro, vá a pé. Siga em frente, siga para os lados, siga para trás. Mas siga.

4 - Agir de modo independente não significa negligenciar as informações a cada esquina. Pergunte, peça ajuda. Alguns bons (e insuspeitos) amigos podem conhecer bons atalhos, bons restaurantes, boas atrações, boas oportunidades, e você tem 2 ouvidos, 2 olhos e apenas uma boca. Observe e ouça o dobro do que fala.

5 - Não tente fazer todas as coisas perfeitas. O caminho de volta pode não ser exatamente aquele que você fez na ida, mas ele existe e irá lhe proporcionar uma série de novas experiências e conhecimentos antes de lhe colocar confortavelmente em casa. Tentar percorrer sempre o mesmo caminho perfeito pode tornar o passeio monótono e paralisante. Então destrave. Pegue o primeiro ônibus que passa pelo bairro Perdidos No Espaço, vá viver a sua aventura da vida e tenha mais um dia extraordinário!

EM BUSCA DA BÚSSOLA PERDIDA

© Dr. Alessandro Loiola


Uma amiga desabafa em seu email: “sabe, ando passando uma fase estranha, um sentimento de como se estivesse perdida, como em um daqueles pesadelos que você não sabe onde está. Anda, anda e não sabe pra onde ir, entende? Travei. Passei a fazer tudo mecanicamente e precisei dar um tempo em um monte de coisas pra tentar voltar ao normal. Ainda não consegui. Existe algum caminho mais fácil para sair daqui?”

Me identifiquei imediatamente com o bairro dela, ali perto de Perdidos No Espaço. Na última contagem, o rapaz responsável pelo censo da região também se extraviou e não temos estatísticas confiáveis até o momento sobre a população que habita o local. Mas ela parece grande. Muito grande.

No começo dos anos 2000, quando mudei com esposa e casal de filhos de uma pequena localidade (33.000 habitantes) para uma enorme região metropolitana (mais de 5 milhões de viventes), nos perdemos em um passeio para conhecer a capital. Estávamos nos informando sobre o caminho de volta para casa quando o de 6 anos perguntou:
- Papai, qual o significado dos nomes nessas placas?
- São os nomes dos bairros, filho, e as saídas que você tem que pegar para ir a cada um deles.
- Ahhhnn... Então aqui é o bairro da Savassi e ali é a saída para o Belvedere?
- Isso.
Andamos mais um pouco.
- E aqui é Lourdes e por ali a gente vai para o Barro Preto?
- É isso aí.
Andamos mais um pouco.
- Pai, olha só, tem um bairro enooorme! Na cidade inteira tem entrada para ele!
- Filho, cada bairro fica em um lugar só. Não tem como um bairro estar para todo lado. – E fiz um “tsc tsc” de desdém.
- Então porque tem tantas placas apontando para esse bairro chamado Retorno?

Crianças. O poço mais profundo da filosofia mais magnânima pelo preço de um picolé.

Todo lugar tem um Retorno. Todo lugar tem uma volta. Sempre é possível recomeçar, reconquistar, refazer, reconstruir, reviver. E foi a partir da vivência de uma criança de 6 anos que desenvolvi uma teoria bem simples, a teoria da Bússola do Crescimento Pessoal, composta por 5 diretrizes gerais de navegação que gostaria de compartilhar com você agora:

- Quando você acordou hoje, foram depositados 86.400 segundos em sua conta de vida. Eles são todos seus e, apesar de auto-renováveis a cada meia noite, não podem ser transferidos, doados ou vendidos. Contudo, o fato de não poder negociar com o relógio não significa que você não possa se aproveitar dele. Leve o tempo que for necessário para iniciar seu recomeço – só não leve tempo demais.

- Rasgue imediatamente seu bilhete de entrada para o metrô dos zumbis: dentro do possível e do impossível, desfrute e participe da paisagem que passa pela sua janela. Aprendizado sem mudança é desilusão. Mudança sem crescimento é frustração. Contemple a vista, aprenda, mude e se aprimore a cada dia.

- No final das contas, tudo isso de ruim e de bom é viver, e a viagem só acaba quando termina. Nunca desanime antes do fim. A única rua que leva ao seu fracasso é a Desistência e, enquanto estiver persistindo, você estará no caminho para o sucesso. Peça carona, empurre seu carro, vá a pé. Siga em frente, siga para os lados, siga para trás. Mas siga.

- Agir de modo independente não significa negligenciar as informações a cada esquina. Pergunte, peça ajuda. Alguns bons (e insuspeitos) amigos podem conhecer bons atalhos, bons restaurantes, boas atrações, boas oportunidades, e você tem 2 ouvidos, 2 olhos e apenas uma boca. Observe e ouça o dobro do que fala.

- Não tente fazer todas as coisas perfeitas. O caminho de volta pode não ser exatamente aquele que você fez na ida, mas ele existe e irá lhe proporcionar uma série de novas experiências e conhecimentos antes de lhe colocar confortavelmente em casa. Tentar percorrer sempre o mesmo caminho perfeito pode tornar o passeio monótono e paralisante. Então destrave. Pegue o primeiro ônibus que passa pelo bairro Perdidos No Espaço, vá viver a sua aventura da vida e tenha mais um dia extraordinário!

10 setembro 2011

Reflexão para o sábado

Este trecho de um livro foi bastante útil para mim recentemente, e espero q passando a frente possa ser útil para mais alguém.

Uma ocasião estava Buda a contar uma história a um aprendiz:
- Um homem viajando chega à margem assustadora de um grande rio. Então vê que a outra margem é segura. Pensa: "Esta extensão de água é vasta e esta margem é perigosa, aquela é livre de perigo. Não há embarcação nem ponte com que eu possa atravessar. Acho que seria hom juntar troncos, ramos e folhas e fazer uma jangada com a qual, impulsionada por minhas mãos e meus pés, passe com segurança a outra margem." Então esse homem executa o que imagina e passa para a margem oposta sem perigo, onde pensa: "Esta jangada me foi muito útil e me permitiu chegar a esta margem. Seria bom carregá-la à cabeça ou às costas onde quer que eu vá".
- Que pensais, monge? Procedendo dessa forma, esse homem agiria adequadamente em relação à jangada?
- Não, Senhor!
- Qual seria o melhor a se fazer?
- Tendo atravessado para a outra margem – respondeu o aprendiz-, esse homem deveria pensar: "Esta jangada me foi de grande auxílio e graças a ela cheguei com segurança; agora seria bom que eu a abandonasse à sua sorte e seguisse o meu caminho livremente."
Pois exatamente assim são as verdades e certezas que carregamos. Elas devem ser consideradas não como um fim, mas como um meio; da mesma forma com a jangada é um meio para atravessar, mas não para se apegar.

31 agosto 2011

AUTOMEDICAÇÃO PLACEBOTERÁPICA

© Dr. Alessandro Loiola


Em uma folga durante o plantão, peguei emprestada uma revista médica de um colega. A sensação que tenho ao folhear ciência de qualidade é quase idêntica a de uma criança à solta em uma loja de brinquedos. Com a diferença de que, ao sair da revista, não tenho que pagar uma pequena fortuna por alguns pedaços de plástico pintados com tinta não-tóxica.

Pois bem. Na revista havia uma curiosa pesquisa sobre automedicação que avaliava o potencial do efeito placebo. Para quem não sabe, os estudos clínicos sobre um determinado tratamento ou remédio são feitos comparando-se 3 grupos distintos de pacientes: 1 grupo tratado com o remédio novo, 1 grupo tratado com um remédio antigo consagrado para aquele problema, e 1 grupo tratado com remédio falso, de mentirinha, a que chamam placebo. Este remédio de mentirinha pode ser uma cápsula contendo apenas excipiente, uma injeção de soro fisiológico, o que for.

O fato é que o placebo não tem propriedade terapêutica alguma. Mas os participantes do estudo nunca sabem o que estão tomando – placebo ou remédio de fato. O placebo serve para mostrar as consequências da ausência de tratamento, permitindo comparar com maior clareza os efeitos da droga nova em relação à droga antiga. Obviamente, a utilização de placebos deve obedecer a elevados critérios éticos, como não colocar a vida do sujeito em risco (isto poderia diminuir perigosamente a população de cobaias).

O dado curioso das pesquisas que avaliam a eficácia de novos remédios é que, em não raros casos, o efeito do placebo costuma ser igual ou superior ao efeito dos remédios propriamente ditos. Por exemplo: cerca de 30% das pessoas que participam de estudos sobre analgésicos relatam melhora da dor após tomar uma única e inocente pílula de açúcar...

No estudo publicado na British Medical Journal, os cientistas modificaram o conceito de placebo da seguinte maneira: os mesmos pacientes recebiam exatamente o mesmo medicamento para controlar a dor, para ser tomado à vontade. Em um dia, dizia-se ser o medicamento “A”, um potente analgésico comprado por R$0,70; no dia seguinte, dizia-se ser o medicamento “B”, um potente e novo analgésico comprado por R$7,00.

Na verdade, os dois medicamentos eram exatamente a mesma droga, sem tirar nem por. A mesma dose, a mesma caixa, todos os dias. O efeito placebo estava na ilusão de que o comprimido B custava 10 vezes mais que o comprimido A. Como na cabeça de qualquer cidadão razoavelmente sensato um tratamento 10 vezes mais caro certamente deve surtir 10 vezes mais efeito que o outro, este foi o efeito observado no estudo. O poder de sugestão respondia pela diferença na eficácia.

Tenho muitos pacientes que se deixam levar pelos números, preços, dosagens, cores, tamanhos:
- Mas é só isso aqui? Esse comprimidinho de nada vai melhorar minha memória??
- Sim, é isso aí.
- Mas doutor, sinceramente, não vai fazer efeito... eu tomo diariamente aquele outro bem maior, amarelo, da caixa branca, sabe?
- Amarelo da caixa branca... ?
- É... hum... – estala os dedos - humm... tá na ponta da língua...
- Então cospe.
- Não, não, o nome do remédio... é... bah, esqueci o nome. Mas o fato é que ele, sim, funciona de verdade. Um comprimidão deste tamanho! – e mostra com as mãos espalmadas o que provavelmente corresponderia a uma truta adulta ou uma pequena frigideira.

Como dizem as boas revistas de outro ramo, não é o tamanho da varinha que conta, mas o efeito da mágica que ela proporciona. Afinal de contas, se tamanho fosse documento, sua carteira de identidade deveria ter pelo menos 1 metro de altura e o elefante – não o leão – seria o rei da selva. O mesmo princípio parece valer para os comprimidos.

Quanto ao placebo, ele não precisa nem mesmo ser uma pílula. O placebo pode ser uma dieta especial, um exercício, uma meta, um novo relacionamento ou um modo diferente de enxergar a vida. Qualquer coisa que mexa com seu poder de auto-sugestão, influenciando o estado de ânimo em direção à cura.

Remédios para dormir, perder peso, antibióticos, analgésicos, antiinflamatórios... a consequência não está no preço, na aparência ou nas miligramas, mas no modo como aquela droga irá reagir com seu corpo.

Para ter uma idéia mais precisa de como será essa reação e não ingerir gato por lebre, é preciso ter cuidado e estudar um pouco mais além da bula que acompanha a caixa. Para sua felicidade, existe uma raça de gente biruta que adora folhear revistas científicas nas horas de folga. Esse povo parece realmente entender alguma coisa sobre remédios. Procure sempre conversar com um deles antes de tomar o seu.

06 agosto 2011

OS 9 TIPOS PRINCIPAIS DE RELACIONAMENTOS

© Dr. Alessandro Loiola


Sou um cara nascido e criado no século passado. Então, quando retornei ao mercado de carnes da Selva de Pedra, levei algum tempo para enteder como os relacionamentos estavam funcionando.

Felizmente, depois de alguns meses revendo os parâmetros mais modernos de psicologia comportamental, percebi um certo padrão que tornou possível elaborar uma lista com os 9 Tipos Principais de Affairs - que lhe passo a seguir:

(ATENÇÃO: as categorias são intercambiáveis e, em algumas rodas, mais de um participante pode ser necessário para q vc avance até o nível seguinte)


1 – TAMO AÍ: vc não está só, nem faz questão de estar com uma companhia. Sacomekieh, Claudia? O que acontecer, tá valendo. Vc tá aí. Na selva.

2 – PEGUETE: pois justamente quando vc tava aí, vcs se encontraram numa árvore qualquer e rolou um clima. Vcs deram um pega e cada um seguiu sua trilha.

3 – FICANTE: vc gostou do pega e marcou de novo. “Onde vc vai com sua manada? Então vou passar lá com a minha e a gente tipo se encontra e tals”. Importante: nesta etapa, a emissão de sinais de fumaça que lembrem compromisso pode dar urticária.

4 – ENROLADOS: não bastou a segunda vez e vcs estão marcando sem os amigos em comum por perto. Apesar do risco de urticária, vcs dois acham q de repente uma coçadinha assim de leve não mata ninguém.

5 – ALGUÉM FIXO: tudo bem, os amigos (certamente) e os pais (talvez) do seu enrolo já sabem que você existe. Vá até a clareira mais próxima, respire sem desespero e veja se saiu alguma bolha pruriginosa nas axilas.

6 – NAMORADOS: os pais não só sabem como te mandam recado ("mamãe pediu pra dizer q mandou um abraço pra vc"). Ainda lembra o caminho até a clareira? Òtimo.

7 – NOIVOS: talvez vc esteja se perdendo na mata e isso pode ser bom – ou não. Poucas plantas irão causar alguma reação alérgica a partir de agora.

8 – CONJUGE: vc voluntariamente queimou a bússola e comeu o mapa. Nem as estrelas vão ajudar. Clareira, q clareira? Urticária? Vc precisaria de pele pra ter isso, mas ela já foi arrancada na etapa anterior.

9 – SEPARADO(A): após algum (ou muito tempo) sem se coçar e comendo apenas a farinha da tribo, vc decidiu que era hora de voltar a seguir qualquer caminho no meio da selva. Afinal, quem quer saber de mapas ou clareiras? Mas então, enquanto vc confortavelmente tava por aí depois de ter completado seu script ecológico, alguém apareceu e rolou um pega.

E segue o ciclo.