16 outubro 2017

SOBRE A FALÊNCIA DA REDEMOCRATIZAÇÃO


Leio e ouço pessoas falando das dificuldades de nosso processo de redemocratização... me surpreendo com elas: e desde quando nosso comunismo tupiniquim foi uma democracia? 

O governo gigantesco cuidando de tudo, normatizando tudo, sufocando o empreendedorismo, vilipendiando a meritocracia, amaldiçoando o capital, desdenhando a prosperidade econômica, violando o princípio de propriedade, superfaturando impostos cumulativos, soterrando a inovação com burocracias infinitas, estimulando a dependência do Estado, louvando terroristas como heróis, apoiando regimes totalitários, menosprezando o valor da vida de seus cidadãos com políticas de segurança pública inexistentes, tornando a educação uma ferramenta de doutrinação idiotizante e medíocre...

Onde essas pessoas delirantes conseguiram ver "redemocratização"? Somos um pais socialista/comunista há séculos! E não adianta virar o rosto e chamar pimenta de pudim: ela não irá arder menos por isso. 

Só quando assumirmos a realidade com todas as letras e dores do ego será possível fazer algo a respeito. Até lá, seguimos em surto esquizofrênico

SOBRE O USO DE PLACEBOS EM PESQUISAS

Há alguns anos, o anacrônico Conselho Federal de Medicina (CFM) vem discutindo o uso de placebos em pesquisa clínica. Como é de praxe, o CFM posicionou-se em sintonia ao fisiologismo corporativista tão em moda nesse século de retrocessos e, em suas oficinas de debates, alinhou-se messiânica e unilateralmente ao proposto na versão de 2008 da Declaração de Helsinque -  que condena veementemente o emprego de placebos.

Em um excelente artigo, lúcido e realista, pesquisadores do Laboratório de Endocrinologia Molecular e Translacional da USP ergueram uma voz quase solitária em defesa do método científico, propondo uma customização no emprego de placebos. O texto é extremamente recomendada para profissionais de saúde.

Realmente desanimador ver como o CFM, a Associação Médica Brasileira e a Associação Médica Mundial se destacam como os arautos da nova ciência humanista do Século XXI – que mais se assemelha a uma religiosidade romântica e ingênua do Século XVI. Estamos regredindo rapidamente para antes do Iluminismo.


10 outubro 2017

SOBRE FEMINISMO E A LUTA CONTRA O PATRIARCADO


Dia sim, dia também, aparece no timeline do Facebook alguma coisa sobre a "luta" feminina contra o patriarcado... É um discurso cheio de incongruências delirantes e ameaças de indignação a partir de provas testemunhais, mas nunca argumentações efetivamente baseadas em dados estatísticos. Vejamos:

De acordo com dados da pesquisa Estatísticas de Eleitorado, publicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 76.534.83 mulheres votaram na última eleição, quase 53% do total de 146.470.880 eleitores no País.

Apesar do sufrágio feminino no Brasil datar de 1932, e o direito constitucional ao voto universal após os 16 anos de idade ter quase 30 anos de existência, atualmente apenas 10% das cadeiras legislativas são ocupadas por mulheres.

Nesse meio tempo, os homens continuam sendo maioria absoluta entre os trabalhadores de limpeza pública, construção civil, segurança, transporte de cargas e operação de maquinários pesados, entre outros setores que exigem desgaste físico e riscos. Talvez por isso os representantes do "patriarcado opressor maldito" respondam por 75% dos óbitos em acidentes de trabalho - além de serem 91% das vítimas de homicídio no Brasil (4 de cada 5 mortes por violência doméstica são do sexo masculino).

Grande "luta contra o patriarcado", hã?

Nossa nação, essa coleção de milhões de pessoas mentalmente doentes (dados da OMS), não tem problemas de patriarcado: tem um problema de falta de inteligência e leitura.

Essa gente desconectada da realidade não sabe do que reclama...

MEDICINA ALTERNATIVA NÃO EXISTE


Sou obrigado a confessar: tenho restrições profundas quanto ao termo “medicina alternativa”.

Primeiro, porque Medicina é uma ciência. Pode não ser um primor de exatidão, mas, como toda ciência, busca insistentemente basear-se em evidências comprováveis e reproduzíveis. Em segundo lugar, porque o vocábulo alternativo virou um sinônimo obsequioso para embuste.

A identificação e análise dos fatos reais como padrão de valor definitivo para a construção do conhecimento atende pelo nome de Método Científico - uma abordagem formalizada por Francis Bacon em seu fascinante Novo Organum, publicado há quase 400 anos. Desde então, o Método exposto por Bacon produziu uma revolução no gnosticismo sincrético, empurrando definitivamente o pensamento para além da zona de conforto dos “achismos pessoais”, das “provas testemunhais anedóticas” e do “meu jeito de ver ou fazer as coisas”.

Em 1972, Archie Cochrane, um epidemiologista escocês, elevou o Método proposto por Bacon a uma nova categoria ao publicar um dos grandes marcos na história da medicina. Em seu livro Effectiveness and Efficiency: Random Reflections on Health Services, Archie defendeu o emprego de evidências estatisticamente fundamentadas como ferramenta avaliadora das condutas médicas. Com o tempo, esta prática foi sendo cada vez mais adotada e disseminada, levando à criação de centros de pesquisa de Medicina Baseada em Evidências (MBE) e de uma organização internacional chamada Cochrane Collaboration.

Por tudo isso, é uma afronta afirmar que existe algo como medicina alternativa, do mesmo modo que é enxovalhar a lógica dizer que existe algo como uma Geografia Alternativa ou uma Engenharia Alternativa ou uma Magistratura Alternativa. Medicina requer padrões de aplicabilidade assentados em comprovações sólidas. Adicionar o sobrenome “alternativo” a este descalabro sugere logo de cara: “não temos provas suficientes para isso”.

Sem evidências escrupulosas que lhe dê suporte, a argumentação a favor de um determinado artifício não se justifica apenas porque ele é alternativo. Que o chamem pelo nome devido: picaretagem, trapaça, vigarice, misticismo, religiosidade - ou um procedimento experimental, na melhor das hipóteses. Mas, em nenhum desses casos, um expediente alternativo deveria – ou poderia - ser rotulado de Medicina.

Chamar um tratamento qualquer de “medicina alternativa” lhe confere um significado que traz embutido em si todo um viés de probidade, de aplicação de métodos axiomáticos, de meta-análises e revisões sistemáticas da literatura, e de considerações éticas e morais, além da áurea de um escrutínio pormenorizado dos índices de eficácia, efetividade e segurança daquela abordagem.

Se algo considerado “medicina alternativa” possuísse evidências consistentes e honestas de sua irrefutabilidade, este algo poderia simplesmente abandonar o termo “alternativo” e passar a denominar-se Medicina. Mas, em não sendo este o caso, deveríamos ter a honradez de batizar os tratamentos alternativos pelo que eles de fato são: condutas de validade duvidosa baseadas em efeitos placebos questionáveis.

Eu sei, esperar por este nível de integridade é querer muito do mundo real e suas alucinações alternativas... Mas a ciência é uma dádiva tão maravilhosa para a humanidade! Quem sabe, um dia, nos tornemos decentes o suficiente para não distorcê-la mais com as torturas de nossas inseguranças infantis. Até lá, os bons apreciadores do Novo Organum continuarão assistindo de camarote o relativismo alternativo investindo sua carnificina visceral sobre os notáveis conceitos propostos por Chochrane, Galileu, Newton, Jenner, Fleming... e na mesma fogueira da doutrina pseudocientífica continuarão sendo arremessados qualquer um e qualquer coisa que ouse ameaçar as crenças vigentes preferidas do momento com doses terapêuticas de Razão.


TIBOLONA PARA MENOPAUSA: É EFICAZ DE VERDADE?


Sim, é.

Revisões sistemáticas da literatura mostraram que a Tibolona é mais eficaz que placebos no alívio ondas de calor, suores noturnos e outros sintomas vasomotores.

Quando comparada à Terapia de Reposição Hormonal (TRH) convencional (estrogênios conjugados, p.ex.), a Tibolona  apresentou uma menor ocorrência de sangramentos vaginais como efeito colateral, ainda que tenha sido menos eficaz que a TRH no alívio dos sintomas vasomotores.

Em um excelente estudo randomizado, duplo-cego e placebo-controlado envolvendo 65 mulheres saudáveis entre 40-55 anos de idade, tratadas durante 12 semanas com 2,5 mg de Tibolona por dia, foram observadas melhoras significativas na bioquímica sanguínea e na atrofia endometrial, sem alterações ponderais ou efeitos colaterais importantes.

Apesar da dose diária habitualmente receitada ser de 5,0 mg, vários estudos realizados nos últimos  25 anos documentaram que doses de até mesmo 1,25 mg / dia são eficazes para melhorar a densidade mineral óssea e reduzir o risco de fraturas por osteopenia e osteoporose.

Em termos de segurança, a Tibolona não afeta o risco de câncer endometrial, mas existem preocupações quanto ao aumento do risco para câncer na mama em mulheres que já sofreram do problema no passado.

22 setembro 2017

CONDROITINA E GLUCOSAMINA SÃO EFICAZES PARA TRATAR OSTEOARTRITE?

Não, não são.

A eficácia do uso de Glucosamia + Condroitina (GC) no tratamento de casos de osteoartrite (OA) há muito é motivo de grandes controvérsias.

O American College of Rheumatology não defende o uso de GC para casos de osteoartrite, e o mesmo ocorre com os protocolos clínicos do American Academy of Orthopaedic Surgeons e do Osteoarthritis Research Society International. Contudo, a despeito destes guidelines, os suplementos de GC têm alcançado recordes de vendas – um absoluto desperdício de dinheiro.

Já em 2005, alguns autores apontavam para a falta de efetividade comprovada de GC em pacientes com OA.  Uma metanálise publicada em 2010 concluiu que glucosamina, condroitina ou uma combinação de ambos não era eficaz para aliviar dores articulares, tampouco produziam qualquer impacto na recuperação da cartilagem articular quando comparados a placebos.

Finalmente, em 2017, uma ampla revisão da literatura investigou novamente os dados sobre a eficácia clínica e a segurança da GC em pacientes com OA. Mais uma vez, tanto a glucosamina quanto a condroitina se mostraram seguras, com poucos efeitos colaterais sérios, mas não foram encontradas evidências suficientes que apoiassem cientificamente sua validade em pacientes com osteoartrite.

19 setembro 2017

Doenças Mentais versus Países

Países com a maior incidência de doença mental e transtornos patológicos de comportamento, segundo a OMS:

10 setembro 2017

VOCÊ SABE O QUE SIGNIFICA KISS?

Há alguns anos, em um curso de vela oceânica, tive contato pela primeira vez com uma filosofia de marinhagem que achei absolutamente fantástica. Algum tempo depois, envolvido no aprendizado de técnicas de sobrevivência na selva, esbarrei com exatamente o mesmo acrônimo. Pelo visto, era um princípio universal de eficiência para ambientes inóspitos.

Esse lema, desenvolvido na década de 1960 pela marinha americana, recebeu o apelido de KISS:

Keep
It
Simple,
Stupid

TUDO em um barco - e TODAS as sua ações no meio da mata - devem se basear nisso. Para que você otimize suas chances de sobrevivência, cada peça de equipamento, cada movimento e cada decisão devem ser selecionados a partir desta moldura.

O que não te ajuda, te atrapalha.
O que não te faz melhor, te piora.
O que não serve para o seu progresso, bloqueia inutilmente o seu caminho.

Eu recomendaria expandir o conceito KISS para a vida como um todo.

A simplicidade é a derradeira sofisticação. Mantenha tudo simples.

SOBRE A EPIDEMIA DOS NOVOS TEMPOS

Ao longo do Século XX, a ideia de que a vida indolor é um direito fundamental se impôs como um ideal. O amplo acesso aos analgésicos produziu uma multidão de órfãos da dor como ferramenta de autopurificação e autopromoção.

Mas não demorou muito para que este rebanho adotasse um outro sintoma como forma de se diferenciar das outras manadas: logo eles descobriram o Sofrimento, esta versátil emoção voluntária. Sofrer, lamento informar, NÃO é um fenômeno orgânico compulsório.

Segundo Karnal, "todo sofrimento traz em si um tempero do mais puro narcisismo: ser visto sofrendo dá alimento simbólico a um eu faminto por atenção". E agora, no lugar dos estigmas sangrantes na carne e dos santos anoréticos perambulando pelo deserto, vemos proliferar legiões de ansiosos e depressivos disputando o altar-mor da melancolia redentora, desfilando lúgrubes de um consultório ao outro enquanto arrastam consigo suas lamúrias de comiseração e receitas de uso contínuo.

Ninguém mais quer assumir a responsabilidade pelas consequências de suas próprias escolhas. A Maturidade - aquela dama de sabedoria elegante e serena resiliência - se tornou um conceito tão antigo quanto desconhecido.

30 agosto 2017

CRIANÇAS E ADOLESCENTES PODEM SER ATENDIDOS SEM ACOMPANHANTE NO POSTO DE SAÚDE?

Sim, podem.

E é impressionante ver como muitos médicos, gestores, gerentes, enfermeiros e outros profissionais envolvidos na assistência à saúde têm um completo e absoluto desconhecimento disso, fazendo exigências sobre a presença de um “de maior” ou recusando atender o menor devido à falta de um responsável com mais de 18 anos idade.

Do ponto de vista legal e ético, os seguintes parâmetros justificam o atendimento de qualquer pessoa – independente da idade – em uma unidade de saúde:

Lei Orgânica da Saúde 8.080/90

As ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados contratados ou conveniados que integram o Sistema Único de Saúde (SUS), são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no art. 198 da Constituição Federal, obedecendo ainda aos seguintes princípios: 
  • III - preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral;  
  • IV - igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie;
  • V - direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde;

Constituição Federal - Título VIII - Da Ordem Social - Capítulo VII - Da Família, da Criança, do Adolescente, do Jovem e do Idoso
  • Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) - Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990
  • Artigo 3 - A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.
  • Art. 11 - É assegurado atendimento médico à criança e ao adolescente, através do Sistema Único de Saúde, garantindo o acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde.
  • Art. 15 - A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
  • Art. 16 - O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: I – ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais; (...) VII – buscar refúgio, auxílio e orientação.
  • Art. 17 - O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais Direitos Fundamentais: a privacidade, a preservação do sigilo e o consentimento informado. O “Poder familiar” (antigo Pátrio poder) dos pais ou responsáveis legais não é um direito absoluto.
  • Art. 243 -  Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente:
Recomendações do Ministério da Saúde:
  • Qualquer exigência, como a obrigatoriedade da presença de um responsável para acompanhamento no serviço de saúde, que possa afastar ou impedir o exercício pleno do adolescente de seu direito fundamental à saúde e à liberdade, constitui lesão ao direito maior de uma vida saudável. Caso a equipe de saúde entenda que o usuário não possui condições de decidir sozinho sobre alguma intervenção em razão de sua complexidade, deve, primeiramente, realizar as intervenções urgentes que se façam necessárias, e, em seguida, abordar o adolescente de forma clara a necessidade de que um responsável o assista e o auxilie no acompanhamento. Havendo resistência fundada e receio que a comunicação ao responsável legal, implique em afastamento do usuário ou dano à sua saúde, se aceite pessoa maior e capaz indicada pelo adolescente para acompanhá-lo e auxiliar a equipe de saúde na condução do caso (MS, 2005:41). 
  • Garantir direitos ao adolescente (menores de 18 anos), nos serviços de saúde, independente da anuência de seus responsáveis, vem se revelando como elemento indispensável para a melhoria da qualidade da prevenção, assistência e promoção de sua saúde (MS, 2005).
  • Situações em que os exames anti-HIV estão indicados para adolescentes: No caso de adolescente, este pode decidir sozinho pela realização do exame, desde que o profissional de saúde avalie que ele é capaz de entender o seu ato e conduzir-se por seus próprios meios (art. 103 do Código de Ética Médica). Ainda assim, nesse caso, o adolescente deverá ser estimulado a compartilhar o que lhe acontece com os seus responsáveis ou com adulto(s) em quem confie e que possa servir-lhe de suporte. Na prática diária dos serviços ambulatoriais, os profissionais de saúde costumam orientar os adolescentes para virem acompanhados de um adulto de sua confiança no dia do resultado do exame. Caso ele deseje, após receber o seu resultado, o profissional de saúde também poderá conversar com esse adulto. Contudo, em face das diversidades de condições de vida às quais estão submetidos muitos jovens, importa destacar que nem sempre os apoios partem de seus responsáveis Legais (MS, 2004:39).
  • Para adolescentes portadores de DST e/ou usuários de drogas injetáveis, ou que tenham práticas de risco para o HIV – com as mesmas recomendações do item anterior. No caso de DST devidas à violência sexual, o registro da violência é obrigatório em alguns estados brasileiros, exigindo uma ação conjunta com o Conselho Tutelar (MS, 2004:39-40). Da mesma forma, o artigo 13 do ECA determina que os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças ou adolescente sejam obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar, sem prejuízo de outras providências legais.
Ofício do Conselho Federal de Medicina (CFM) n° 1.865/96 – Sobre a testagem anti-HIV para menores de 18 anos.
  • .... deverá ser voluntária e consentida pelo menor, sem necessidade de autorização de responsável, desde que aquele tenha capacidade de avaliar seu problema e atuar a respeito. CFM 1665/2003 (adicionalmente). É vedada a realização compulsória de sorologia para HIV.
Código de Ética Médica (CEM):
  • Art. 103 – (É vedado ao médico) Revelar segredo profissional referente a paciente menor de idade, inclusive a seus pais ou responsáveis legais, desde que o menor tenha capacidade de avaliar seu problema e de conduzir-se por seus próprios meios para solucioná-los, salvo quando a não revelação possa acarretar danos ao paciente.  
  • Art. 107 – (É vedado ao médico)Deixar de orientar seus auxiliares e de zelar para que respeitem o segredo profissional a que estão obrigados.
Código de Ética do Profissional de Enfermagem:
  • Art. 27 - Respeitar e reconhecer o direito do cliente de decidir sobre sua pessoa, seu tratamento e seu bem-estar.
  • Art. 28 - Respeitar o natural pudor, a privacidade e a intimidade do cliente.
  • Art. 29 - Manter segredo sobre fato sigiloso de que tenha conhecimento em razão de sua atividade profissional, exceto nos casos previstos em Lei.
Códigos de Ética do Assistente Social
  • Art. 18 - A quebra do sigilo só é admissível, quando se tratar de situações cuja gravidade possa, envolvendo ou não fato delituoso, trazer prejuízo aos interesses do usuário, de terceiros e da coletividade. Parágrafo Único - A revelação será feita dentro do estritamente necessário, quer em relação ao assunto revelado, quer ao grau e número de pessoas que dele devam tomar conhecimento.
Código de Ética do Psicólogo
  • Art. 21 O sigilo protegerá o atendimento em tudo aquilo que o Psicólogo ouve, vê ou de que tem conhecimento como decorrência do exercício da atividade profissional.


Fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/saude/arquivos/mulher/aspectos_legais.pdf

21 agosto 2017

O QUE É LIBERDADE?



“Tempos estranhos são esses em que vivemos, quando velhos e jovens são ensinados na escola da falsidade, e o único homem que se atreve a dizer a verdade é chamado de uma só vez um louco e insensato.” 
(Platão)



A Liberdade é uma abstração ambígua e pode significar quase qualquer coisa. Ela é algo que achamos possuir na mesma proporção que nos domina, uma substância escravizadora louvada em livros e nos meios de comunicação, ou um mártir abolicionista impreciso por quem tantos já se sacrificaram – e continuam sacrificando-se.

De acordo com o Aurélio, Liberdade é “o direito de proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito de outrem”. Os filósofos, entretanto, abordam o tema por um enfoque mais complexo que o encontrado nos dicionários.

Segundo Kant, enquanto seres humanos, somos tanto parte do mundo Natural quanto do mundo da Razão. Com relação aos nossos impulsos e desejos, estes pertencem à nossa natureza animal; são compreendidos nos termos das necessidades geradas por circunstâncias físicas e nenhum padrão moral se aplica a eles: pouco importa se alguém aprova o fato de você estar com sono ou fome. Grandes frases éticas de efeito não são capazes de alterar esses estados de modo notável. Estamos submetidos às mesmas leis naturais que governam o mundo e não podemos suprimi-las apenas por que as rejeitamos.

Por outro lado, o homem é uma criatura capaz de pensamentos morais e, por meios deles, criamos estatutos arbitrários para nossas vidas. Seja na esfera das leis naturais ou nas leis criadas pelos homens, a Liberdade aparece sempre ornamentada com cerceamentos.

Considerados alguns limites do razoável, existe Liberdade de idéias expressão na maioria dos países do mundo – desde que não sejam expressamente radicais e danosas. Podemos ir aonde queremos – desde que atentos para algumas restrições. Podemos agir como desejamos – mas não de modo completamente impune, especialmente quando nos posicionamos fora da lei. Em outras palavras: a Liberdade é um devaneio fortuito em todos os cantos desse planeta.

POUCO MAIS QUE UMA NOÇÃO INTANGÍVEL

A noção de Liberdade, como vista e vendida pela sociedade pós-moderna capitalista atual, é mais uma emoção vaga que um aspecto real da vida. Por mais que você esperneie dentro de seus conceitos de autonomia e independência, não existe uma Liberdade geral, mas apenas liberdades específicas.

Por exemplo: se o senhor de escravos tem o direito de ter escravos, então os escravos não têm direito de ser livres. Se eles têm o direito de ser livres, então o senhorio não tem o direito de possuí-los.

Se uma mãe tem direito de fazer um aborto, então seu bebê não tem direito à vida. Se ele tem direito à vida, então sua mãe não tem direito de fazer um aborto.

Muito – ou praticamente tudo – que você fala e faz e sente na verdade são manifestações de hábitos socialmente adquiridos. Pare e reflita por um segundo: em que parte da sua vida você age realmente de modo independente e livre?

A atividade humana resulta de impulsos que emergem espontaneamente de dentro de nós como resposta às mudanças nas circunstâncias, que então iniciam um processo de atividade física (na forma de ações) ou mental (na forma de pensamentos).

Se as circunstâncias que encontramos são familiares o suficiente, os impulsos produzem respostas automáticas. Contudo, quando as circunstâncias não são familiares, os impulsos levam à atividade mental; o hábito de pensar tem início, passamos a deliberar sobre qual caminho seguir e, então, agimos. A pergunta é: em ambos os casos, a ação física derradeira é fruto de uma escolha livre ou, no final das contas, ocorre como resultado de condicionamentos prévios?

A emoção da Liberdade jamais é plena, mas uma noção relativa – e aparentemente sempre pré-condicionada. Por isso, todo aquele que tenta proteger-se e justificar suas ações apelando em nome da Liberdade está apoiando-se em um discurso de limites vazios – e é terrivelmente simples estabelecer uma tirania a partir destes conceitos. Os heróis da independência de um povo nunca lutaram pela Liberdade desse povo, mas apenas pela troca de Controladores.

LIBERDADE INDIVIDUAL E LIBERDADE SOCIAL

Individualmente, a Liberdade possui um sentido diferente de seu significado social. No nível pessoal, Liberdade tem a ver com fazer o que você gostaria de fazer. Socialmente, Liberdade tem a ver com autorizar que as pessoas façam o que gostariam de fazer.

Poderíamos nos referir à Liberdade Individual como a capacidade de uma pessoa em tomar todas as decisões sobre sua vida, propriedades e propósitos sem qualquer interferência de terceiros. “Faço o que eu quero e não obedeço a ninguém”. Este tipo de Liberdade é concebível, mas inalcançável: você tem Liberdade para viajar, para expressar suas opiniões e viver sua vida da maneira como preferir, desde que se mantenha dentro da legislação local. Fora desse cercado, a sociedade irá cobrar o preço.

Também poderíamos conceituar Liberdade Individual como estar livre dos corolários de suas escolhas. “Faço como eu quero e não presto contas a ninguém”. Mas suas escolhas produzem consequências, sejam elas desejáveis ou não, o que torna esta convicção uma falácia ingênua – e, novamente, passível de sanções pela comunidade.

A maioria dos libertários acredita que a Liberdade individual requer a ausência completa de restrições, mas todas as sociedades, por mais livres que sejam, possuem leis, normas e preceitos para assegurar que a liberdade de um ser humano não implique na coibição da liberdade de outro ser humano.

Uma sociedade sem qualquer limite resultaria em nenhuma Liberdade para todos dentro dela. Sem leis e certas expectativas de adequação social, e sem lideranças firmes (Controladores) para impô-las, a sociedade não existiria. Seríamos uma massa caótica de predadores carnívoros devorando-nos uns aos outros. Ou pelo menos assim me disseram.

Mas é fato que sua Liberdade – Individual e Social - é ditada por aqueles que lhe controlam, sejam “eles” seus pais, o Governo, o Estado, a bateria do seu celular, sua conta de energia elétrica ou o banheiro mais próximo. Qualquer pessoa trabalhando em uma empresa ou morando em um prédio deve ater-se a um conjunto de regras e procedimentos. Pessoas em relacionamentos – sejam eles românticos ou de amizades, ou apenas interações familiares – devem se comportar de uma determinada maneira, ou sofrerão isolamento social.

Os Controladores de sua Liberdade podem ser questionados, debatidos ou repudiados, mas jamais poderão ser evitados. Lutar para furtar-se deles é inútil. Quanto mais cedo você compreender e aceitar esta conjuntura, mais proveitosa será a serventia de seu Tempo.

AUMENTANDO SUA LIBERDADE

O problema com a Liberdade está no fato dela não ser algo de evolução natural: ela é uma noção artificial patrocinada pelas vontades e ações daqueles que controlam o poder. Mesmo nas sociedades e nos relacionamentos “democráticos”, os mecanismos Controladores encontram uma maneira para impor suas vontades e seus pontos de vista, em geral sob o discurso de estarem agindo “em nome de um bem maior”.

Você pode ter crescido em um lar ou nação que outras pessoas considerariam um ambiente opressor, mas como você nunca conheceu outro estilo de vida, aquele estilo pode lhe parecer livre o suficiente. Todos vivemos em “sistemas” que influenciam o que fazemos e o que não fazemos, e existimos sob a égide de escolhas permitidas.

Ninguém é Livre no conceito puro e irrestrito de Liberdade: a Liberdade, derradeiramente, deriva de percepções subjetivas. E justamente por ser um desenvolvimento íntimo no caráter de cada um de nós, a consciência de Liberdade pode ser ampliada. Como? Com Educação.

Apenas a Educação, por meio do estudo da Razão e do emprego corajoso da Filosofia, é capaz de aumentar suas possibilidades de escolhas lúcidas e criar algum sopro de Liberdade verdadeira fora da prisão de seus condicionamentos precedentes. 

Se quiser investir em Liberdade, invista em seus aprendizados. Estude, leia muito e reflita bastante. Qualquer outro caminho além desse é puro delírio com grades douradas.

17 agosto 2017

SOBRE SAÚDE E CONTAS QUE JAMAIS IRÃO FECHAR

Temos no Brasil um sistema de saúde com pretensões de oferecer um serviço de nível Canadense ou Australiano, com cobertura universal e amplo acesso.

A OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico -, criada em 1960, possui um banco de dados abrangente, confiável e atualizado reunindo informações de 34 nações. Caso pertencesse à OCDE, o Brasil seria o antepenúltimo nos investimentos públicos em saúde, superando apenas Chile e México. Nos gastos per capita, só ficaria acima da Turquia.

Os investimentos públicos em saúde em nosso país representam 3,6% do PIB, contra 5,9% na Austrália, 7,2% no Canadá, 8,6% da França e incríveis 9,7% na Holanda. Até os EUA, que nem possuem um sistema propriamente público, gastam mais: o Estado americano dedica 7,9% do PIB em investimentos em saúde.

Junte-se a isso o fato de que Austrália,Canadá, França e Holanda possuem todos taxas de analfabetismo iguais ou inferiores a 1%, enquanto que a taxa de brasileiros considerados analfabetos funcionais é de 17,1%, chegando a 26,6% na região Nordeste e alcançando 20% de analfabetismo pleno entre as pessoas com 60 anos de idade ou mais.

Em resumo: em comparação aos países nos quais nos inspiramos para construir nosso sistema de saúde, investimos MENOS dinheiro para um público MAIS incapaz - mais incapaz de ler, mais incapaz de processar criticamente informações, mais incapaz de agregar conhecimento científico e, consequentemente, mais incapaz de compreender suas próprias responsabilidades.

Agora me diz: você acha mesmo que nossas políticas públicas de saúde - confortavelmente assentadas em eternas práticas numéricas de assistencialismo burocrático, populista, contraproducente e ineficaz - algum dia irão produzir avanço, prosperidade, ordem ou progresso nessa república tupiniquim?

13 agosto 2017

LEVE SUA VIDA COMO UM ARTESÃO

No excelente livro The Carpenter, o autor John Gordon escreve: "Enquanto a maioria das pessoas aborda seu trabalho com a intenção de terminá-lo, um Artesão age mais preocupado com O QUÊ está criando do que com a velocidade com que irá finalizar a tarefa".
"Um Artesão", Gordon prossegue, "preenche sua mente com o empenho para mostrar o melhor de si. Quando se tem esse nível de atenção, você se destaca, pois este é um mundo de desatentos. É a Atenção, e não a rapidez, que derradeiramente leva ao sucesso".
Alguém que cuida diligentemente do que vê, diz e faz é alguém destinado a expressar características de qualidade. Pode-se dizer então que Atenção e Qualidade sâo, respectivamente, aspectos internos e externos da mesma "coisa", do mesmo segredo por trás do sucesso de um Artesão.
Mas o que seria esse segredo, essa "coisa"? A resposta é facil: Amor.
O Artesão trabalha com Amor. Existe paixão em sua atividade, um cuidado silencioso e concentrado, um deslumbramento quase místico no modo como ele trabalha. O Artesão encontra-se tão completamente presente quando atua que ele e sua arte tornam-se um só.
O valor de agir em sua vida como um Artesão vai bem além de fazer um bom trabalho. Uma vez que a intenção final de cada um de nós é levar uma vida incrível, a melhor maneira para atingir este objetivo consiste em postar-se plena e intimamente envolvido com cada etapa do processo de Viver.
O que quer que você esteja fazendo agora e vá fazer daqui em diante, certifique-se de fazê-lo como um Artesão. Comprometa-se com a Atenção e a Qualidade. E viva com Amor. Sempre.


11 agosto 2017

RELAÇÕES INTERPESSOAIS E LONGEVIDADE


Você sabia que o modo como você se relaciona com outras pessoas pode incrementar sua longevidade?

No livro Safe People (Relacionamentos Saudáveis, título brasileiro), os psicólogos Henry Cloud e John Townsend comentam sobre os resultados da investigação de uma cidade americana que possuía um dos maiores índices de longevidade dos EUA: nos anos 1960, a cidade de Roseto (Pensilvânia) apresentava uma incidência de mortes por eventos cardíacos METADE abaixo a incidência média do restante dos EUA.

Por mais de cinquenta anos, este fenômeno, conhecido como “Efeito Roseto”, foi investigado de todas as formas possíveis, com conclusões sempre similares. Excluídas as variáveis pertinentes e realizadas as análises estatísticas devidas, o motivo pelo qual a população da cidade de Roseto exibia uma saúde tão incrível mostrou ser bem simples: elas viviam relacionamentos profundos e duradouros.

Nós nascemos para nos relacionarmos uns com os outros. Fomos criados para isso. Quando alguém está em seu leito de morte, raramente pede que coloquem dinheiro ou prêmios ou títulos à sua volta. Alguém que está morrendo deseja nada disso, mas apenas seus entes queridos por perto.

Infelizmente, nos dias atuais, a noção de “entes queridos” está turva. A tecnologia e as mídias sociais nos enganam com a percepção de que estamos vivendo relacionamentos interpessoais profundos com dezenas – às vezes centenas ou milhares – de pessoas, quando na verdade não estamos.

De repente você chega em casa e navega no seu Facebook ou Whastapp ou Instagram por 20, 30 ou 40 minutos, e quando coloca o celular de lado (quando coloca...) fica com aquela sensação de que passou algum tempo com algumas pessoas. Mas não passou. Talvez, para aquela meia dúzia minguada de pessoas cujos posts você comentou – e que lhe responderam -, você tenha participado de uma forma de interação. Para o restante delas, e para o restante esmagador do seu tempo, tudo que você fez foi abraçar uma frágil e falsa noção de amizade.

Uma vez que as amizades são tão importantes para o seu bem estar, é essencial saber como cultivá-las e aprofundá-las.

Se você deseja fazer amigos ou levar suas amizades atuais para um próximo nível, sugiro que analise os passos a seguir:

1. VÁ EM BUSCA. Quanto mais você buscar amigos, mais encontrará. Porque a imensa maioria das pessoas está querendo o mesmo que você. Nascemos para fazermos amizades, lembra-se? A procura por relacionamentos interpessoais significativos está embutida no seu código genético após dezenas de milhares de anos de seleção natural. Então comente posts, envie mensagens de texto ou voz, faça uma ligação pelo celular. Isso não substitui a interação ao vivo e em cores, mas é um primeiro passo. Seja a pessoa que toma a iniciativa de fazer o contato e agende um encontro, um programa, um cinema, um chope, uma caminhada, um por do sol na praia. Se a sua atitude for rejeitada, tudo bem. Você não pode forçar quem não quer a deixar o casulo. Sacuda a poeira e vá em busca da próxima amizade.

2. SEJA UM ESPECIALISTA EM CONVERSAÇÃO. Os americanos, que amam um protocolo, desenvolveram um método para iniciar um bate papo amigável com qualquer pessoa. O método, que atende pelo acrônimo FORD, recomenda que você comece a conversa abordando qualquer um destes tópicos: Família, Ocupação, Recreação ou Desejos. Por exemplo:
·         Família: você tem filhos? Eles moram com você? Você tem familiares na cidade?
·         Ocupação: com que você trabalha? Se você não gosta do seu trabalho, o que gostaria de fazer para ganhar a vida?
·         Recreação: o que gosta de fazer nas suas horas vagas? Você tem algum hobbie?
·         Desejos: qual a sua viagem dos sonhos? O que você espera da sua vida?

À medida que for obtendo as respostas, repita a informação que recebeu para certificar-se de que entendeu direito, e então aprofunde-se no tema, adicionando perguntas pertinentes ao contexto que está sendo conversado. Esse jogo de “toma lá / dá cá”, rápido e fácil, mostrará que você está realmente ouvindo e se interessa pelo que está sendo dito.

3. APAREÇA. Quando algum amigo lhe convidar para algum evento, festa, reunião, chope, pizza, café ou bate papo, não responda “talvez” ou “quem sabe” ou “vou ver”. Apenas vá. Apareça. Não seja a pessoa que os outros sempre convidam e que nunca aparece – porque assim, mais cedo do que tarde, você terminará sendo a pessoa que quer aparecer, mas que ninguém nunca convida. Obviamente, você não precisa dizer “sim” para todo e qualquer convite: se não puder ir por falta de interesse, simplesmente diga que não pode, desde o princípio. Se não puder ir por algum aperto na sua agenda, diga que não poderá comparecer, mas ofereça na mesma hora uma contrapartida – “nessa quinta feira não vou poder ir, já estou preso em um compromisso, mas que tal então um chope no bar XYZ na sexta, às 20h?”.

4. EXPONHA-SE. Expor suas vulnerabilidades pode levar a amizades bastante profundas, mas também pode assustar caso seja algo feito cedo ou rápido demais. Quando o momento for oportuno, e se você decidir dar um passo além na construção daquele vínculo, compartilhe um perrengue seu. Comente sobre suas feridas, seus medos, suas lágrimas e seus risos. Compartilhe conversando sobre algo que lhe fez profundamente feliz, ou um sonho ou uma conquista importante para você. Se a amizade estiver no ponto, e se a pessoa for de valor, ela também irá expor-se para você. Se isto não acontecer, então aquele laço de confiança não estava pronto como você julgou – ou talvez seja hora de ir buscar novas amizades.

5. DIGA A VERDADE. Na maioria das vezes, as pessoas preferem ser educadas a ser verdadeiras. Se a sua intenção é fazer amizades de qualidade, você precisa largar suas máscaras e agir e falar de modo honesto. As máscaras (ou “personas”) são ferramentas eficientes e produtivas na sociedade; são elas que permitem que freqüentemos ambientes públicos, áreas de trabalho e instituições de ensino. Sem máscaras, a vida em sociedade seria impossível. Todavia, você pode ser você mesmo, falar a verdade e ser educado ao mesmo tempo. Ser educado não significa agradar a todos ao seu redor, mas ser respeitoso ao manifestar suas verdades. É melhor ter alguns poucos amigos verdadeiros que aceitam quem você é do que viver cercado de uma multidão interessada em interagir apenas com uma máscara de alguém que você nunca foi.


30 julho 2017

SOBRE CIÊNCIA E PSEUDOCIÊNCIA


Não raramente, deparo com afirmações espantosas sobre alguma descoberta “científica” que irá mudar minha vida: os poderes da água ionizada, os benefícios do sal do Himalaia, palmilhas magnetizadas, dimensões ocultas, graviolas anti-cancerígenas, fluxos mentais capazes de alterar a matéria e por aí vai.

A maldição que acompanha a Ciência atende pelo nome de Ignorância, e a ignorância pode assumir várias formas, sendo a Pseudociência sua versão mais moderna e danosa.

Diferentemente da fé religiosa – que admite seu viés sobrenatural -, a pseudociência se traveste de ciência para tentar convencer que suas afirmações não são falácias e charlatanices, mas grandes sacadas genuínas da Realidade.

Mas a pseudociência é exatamente o que o nome diz: FALSA ciência. É apenas um modo sofisticado e bacana para justificar as velhas crenças absurdas de sempre.

Para se salvar dessa confusão, é preciso manter uma mente crítica. Quando se deparar com algo que pode ser pseudociência, aplique 5 raciocínios rápidos:

1) A afirmação se qualifica como uma teoria? Uma teoria se origina de e é apoiada por um conjunto evidências específicas que podem ser testadas por diferentes instituições em diferentes locais do mundo.

2) A afirmação baseia-se em conhecimentos ancestrais? Esse tipo de conhecimento por si só não se qualifica como evidência científica. Sem testes que validem sua eficácia, consistência e reproducibilidade, um “conhecimento ancestral” é apenas um mito, não Ciência.

3) A afirmação baseia-se na existência de um tipo desconhecido de “energia” ou algum outro fenômeno paranormal? O emprego descontextualizado de termos como “campos de energia”, “forças eletromagnéticas”, “orgânico”, “mecânica quântica” e “múltiplas dimensões” são ferramentas típicas da pseudociência. Utilizar amplamente conceitos popularizados pela ciência é uma artimanha bastante comum – e desonesta - através da qual a pseudociência tentar jogar um véu de confiança sobre si mesma.

4) Os defensores de afirmações pseudocientíficas amam dizer que suas descobertas estão sendo mantidas ocultas pelas autoridades, pelo governo, pela grande mídia, pelas universidades, pelos médicos, pela indústria farmacêutica, pelos templários, pelos iluminati, pelos alienígenas de Júpiter e tal. Deveriam procurar atendimento psiquiátrico e tratar suas paranoias alarmistas de conspiração – ou publicar seus achados extraordinários em periódicos científicos sérios.

5) Existe alguma explicação mais simples e razoável para aquela afirmação? Por exemplo: a afirmação poderia ser melhor explicada apenas considerando-se a possibilidade de um efeito placebo, a capacidade de cura do próprio organismo, um truque de ilusionismo, má fé ou uma ocorrência estatisticamente possível?

A Pseudociência falha miseravelmente ao tentar passar pelos crivos descritos acima, pois suas afirmações em geral fazem parte de algum contexto político, ideológico ou cultural. Elas não são Ciência.

A Ciência verdadeira é feita com método, pesquisa e evidências, e não com marchas de protesto, blogs, reuniões de chá, seitas, templos ou igrejas.

Não encorajo você a abrir mão de suas convicções, mas sim a fazer uma análise bem honesta delas. Seja honesto CONSIGO mesmo. Tenha coragem para tanto. Questione-se com lucidez.

Ou continue a viver em seu mundo de relativismos místicos, tudo bem. Todavia, neste caso, não denomine suas fantasias de fé de “ciência”. Chame-as pelo apelido correto: chame-as de Crenças Populares. Tenha pelo menos essa dignidade.

05 junho 2017

A CIÊNCIA E O CETICISMO DRENAM O SIGNIFICADO DA VIDA?

Não, não drenam.

Se a Realidade palpável é tudo o que exis­te, nos­sa vida, nos­sa fa­mí­lia e nos­sos ami­gos – e a ma­nei­ra como tra­ta­mos uns aos ou­tros – se tor­nam mais sig­ni­fi­ca­­tivos e únicos. Sob luz da Ciência e do Ceticismo, cada dia, cada mo­men­to, cada re­la­ci­o­na­men­to e cada pes­soa im­por­tam enormemente.

Fora dos delírios e alucinações da crença religiosa (qualquer que seja ela), a Realidade deixa de ser uma peça de te­a­tro en­ce­na­da tem­po­ra­ri­a­men­te an­tes de um eter­no ama­nhã (quan­do o "pro­pó­si­to mai­or" nos será re­ve­la­do), e se torna uma es­sên­ci­a va­li­o­sa, repleta de aquis e ago­ras onde cri­a­mos nossos desígnios pro­vi­só­rios.

A conexão com a Re­a­li­da­de nos le­va a um pla­no mais alto, mais honesto, corajoso e genuíno, de onde podemos contemplar a existência com um grau extraordinário de lucidez, encantados de uma vez por todas com o fantástico de tudo.

A religião e a fé serão sempre e apenas um conforto, uma almofada, uma indulgência ou uma fuga do fardo de suas escolhas. Eu não me queixo do fardo: minha opção é pelo progresso e pelo aprendizado, sem alívios. E a sua?

VITAMINA C FUNCIONA PARA TRATAR RESFRIADOS?

Sim, funciona. Mas com ressalvas.

O Resfriado Comum pode ser causado por mais de 200 vírus diferentes. A Gripe, por outro lado, é causada por apenas 1 vírus – o Influenza -, e produz um quadro BEM mais severo que o do resfriado. Infelizmente, as pessoas com frequência confundem um episódio de Resfriado com Gripe. Seria como confundir um cisco no olho com ser atropelado por um trator. Em pleno século XXI, ainda não sei como isso ocorre. Enfim...

Uma vez que o Resfriado Comum é causado por um VÍRUS, antibióticos são ineficazes no seu tratamento. A Vitamina C vem sendo utilizada desde 1930 com o propósito de aliviar os sintomas do resfriado e diminuir o tempo de evolução da doença, e se tornou particularmente popular na década de 1970 a partir dos estudos de Linus Pauling.

Em 2013, após avaliar 29 estudos clínicos placebo-controlados envolvendo um total de 11.306 pacientes, os pesquisadores da Colaboração Cochrane concluíram que a ingestão regular de vitamina C (200 mg ou mais por dia) não afeta a incidência de resfriado na população em geral.

Entretanto, a suplementação regular exerceu um efeito modesto – porém consistente – na redução da duração dos sintomas (31 estudos clínicos avaliados). Em 5 estudos, um total de 598 pacientes foram expostos a períodos curtos de exercícios físicos extenuantes e a vitamina C mostrou-se capaz de reduzir a incidência de episódios de resfriados comuns entre eles, sem efeitos colaterais adversos.

Conclusão: 

1. Do ponto de vista da revisão da Colaboração Cochrane, a incapacidade da suplementação com vitamina C em reduzir a incidência de resfriados na população em geral indica que o USO ROTINEIRO dessa vitamina por toda e qualquer pessoa, apesar de seguro, não se justifica.  
2. A suplementação com vitamina C pode ser útil para reduzir a incidência de resfriado em pessoas expostas a curtos períodos de atividade física intensa e, neste cenário, ela é bem indicada como profilático.

3. O uso de vitamina C é capaz de reduzir os sintomas e a duração da doença em pacientes com quadros agudos e resfriado, com poucos efeitos colaterais, e é recomendado. 



23 maio 2017

QUAL A VERACIDADE DA REALIDADE?


Seu padrão habitual de crenças forma um ciclo que derradeiramente formata toda sua experiência de vida. Entenda: suas convicções se tornam pensamentos e emoções, que então influenciam o comportamento, que por sua vez define o caráter – e seu caráter determinará seu destino.
  
O que você admite sobre o mundo e sobre si mesmo, as coisas positivas e negativas que sua família e seus amigos lhe contaram sobre você, todo seu condicionamento ativo e passivo frente à realidade, essas ideias não são abstratas: elas tangem a realidade por meio de suas ações. E tudo começa lá no fundo, nos dogmas que você carrega.


REAL, MAS NÃO VERDADEIRO

Você dá uma topada no pé da mesa e seu pé dói; você martela seu polegar sem querer, e ele dói; você toma uma canelada na pelada do final de semana, e sua perna dói. A dor é um fenômeno orgânico e objetivo.

O sofrimento, por outro lado, baseia-se numa crença. O sofrimento não é real, ele existe apenas dentro da sua convicção. Sentir dor é compulsório; sofrer é opcional.

O sofrimento atua como uma lente turva, separando você da realidade. Comece a observar suas crenças – e o sofrimento derivado delas - como pré-julgamentos que limitam sua capacidade de experimentar o mundo.

Apesar dos seus pensamentos serem resultado de uma bioquímica real que está acontecendo neste exato momento no seu cérebro, todas essas ideias são apenas representações na sua mente. Elas não são a experiência do aqui, agora – assim como um mapa não é o território que ele representa. Os pensamentos, por mais reais que sejam, não são verdadeiros.

Em O Mundo como Vontade e Representação, o filósofo ateu & pessimista Arthur Schopenhauer (1788-1860) abordou este assunto com amplitude, introduzindo alguns conceitos indianos e budistas na metafísica ocidental. Schopenhauer basicamente afirmava que “não conhecemos a realidade como ela é, pois toda a realidade que percebemos traz em si as marcas indeléveis das garras de nossa subjetividade”.

Nossa convicção na certeza da interpretação da realidade que vivemos é exatamente o que nos separa da realidade em si. Quando estes territórios não são investigados, eles nos impedem de alcançar a verdade. Contudo, quando aprofundamos nossa atenção e ultrapassamos o limite das crenças, somos presenteados com as luzes de bilhões de estrelas do que é Real.

Existem duas maneiras de prestar atenção e eliminar do seu horizonte a poluição das ilusões e das crenças. O primeiro método consiste em perguntar: pergunte a si mesmo, pergunte aos seus amigos, pergunte às palavras, aos livros, atravesse todas as camadas de suas certezas, questionando uma a uma. Pergunte, pergunte. E não se ofenda - tampouco se assuste - com as respostas.

O segundo método consiste em uma técnica de meditação de exercícios afins que atende pelo nome de Atenção Plena.

EM QUE VOCÊ ESTÁ ACREDITANDO AGORA?

Que tal começar a perceber a realidade por meio de uma atividade bem simples? Pergunte-se: “Em quê eu estou acreditando agora?”.

Responda a isso. Na sequência, pergunte-se: “Isto é real? Será possível que isso é real, mas não verdadeiro?”.

Ainda que sua resposta seja “sim”, apenas o fato de questionar expande o espaço que você e sua mente ocupam, e abre a possibilidade para que você entenda que aquilo que está acreditando é somente uma representação – e não a realidade em si. Suas convicções são reais, mas não são verdadeiras.

Indo mais fundo na toca do coelho, pergunte-se: “Como é viver com essa crença? Como esta crença afeta minha vida?”. Sustentar um sistema de crenças que lhe causa sofrimento e nenhuma evolução ou excelência em termos de sabedoria é um investimento tolo.

Questione-se: “Como seria minha vida se eu não estivesse vivendo dentro desse sistema de convicções?”. 

À medida que praticar a atenção plena e retirar o poder de suas percepções distorcidas, os pensamentos e as emoções continuarão vindo, mas você se sentirá menos inclinado a acreditar piamente neles. 

Confortavelmente estabelecido em um lugar bem maior que suas ideias e suas doutrinas, você perceberá como o mundo é vasto e como a realidade é extraordinária – e nunca mais desejará retornar ao sono de ingenuidade onde as ilusões haviam lhe convencido de que elas eram tudo que existia. 

17 maio 2017

DIÁLOGOS - PARTE II


-  Oi, linda!

- Ei, lindo :)

- Comecei a leitura de Chesterton (O Que Há de Errado) e esbarrei nisso: “O sufragismo foi a Primeira Onda do feminismo – para citar a classificação utilizada por alguns estudiosos contemporâneos –, início de um movimento maior, provocador da Segunda Onda, anti-família e anti-maternidade, cuja tarefa foi levar as primeiras reivindicações, de igualdade perante a lei, para o âmbito da vida íntima, chegando, então, à Terceira Onda, experimentada hoje, com a ideologia de gênero e a tentativa de ignorar a ordem biológica, de maneira a transformar masculinidade e feminilidade em meras construções culturais”.

- Assemelha-se a um reducionismo.

- Em parte, sim. Mas o parágrafo segue dizendo: “nas palavras de Francisco José Contreras, as mulheres são as grandes vítimas da revolução sexual. Na sociedade hipersexualizada, a mulher se converte com frequência em objeto de usar e jogar fora. As feministas conseguiram impor à mulher o modelo sexual masculino - e envileceram todas". Gostei demais dessa visão.

- A questão é que isto parece levar em conta apenas um ponto de vista.

- Hum.

- Como mulher, penso que definições assim tendem a diminuir as dimensões da pessoa feminina. Concordo que houve excesso no pêndulo do feminismo e é preciso trazê-lo para o centro. Mas será possível?

- O pêndulo voltará ao centro por si só.

- Será? O movimento todo se tornou um excesso de ideologias e inocências. Se continuar nesse balanço, pode representar a extinção de nossa espécie, com homens e mulheres se recusando a reproduzir... :)

- Ideologias? Eu diria Deslumbramento. A onda feminista do século passado produziu uma multidão de crianças que nunca comeram mel, e que agora estão fazendo uma lambança enorme na liberdade que conquistaram. Quanto à extinção da espécie... Eu não chegaria a este extremo. Não menospreze a pressão dos genes. :)

- Crianças... rsrsrs... Sim, parece um mundo de crianças revoltadas, pessoas que querem cachorros como filhinhos.

- Por isso tenho achado o mundo das pessoas tedioso. Queria adultos para trocar ideias, mas onde encontrá-los? Um brinde aos livros! Livros e Natureza. Foi o que nos sobrou.

- Até nessa questão as pessoas estão cegas. Percebe como elas querem subverter a Natureza?

- Sim - e estão quebrando a cara, o que é bem fácil de perceber. É só contabilizar a enormidade de consumo de antidepressivos e benzodiazepínicos.

- Apoiado. Mas não culpo as mulheres pelo cenário completo.

- Hum.

- Esse problema é do Ser Humano. O Desequilíbrio vem de todos os lados.

- Argumento aceito. Mas não há de se aliviar o papel do feminismo no cenário das últimas décadas. Isso seria uma condescendência excessivamente benevolente e ingênua.

- Você nega que o exagero do patriarcado provocou esse movimento?

- De modo algum. Ação e reação. O patriarcado belicista e controlador povoou o Século XX com guerras, consumindo a mão de obra masculina em conflitos inúteis. A saída para preservação da máquina civilizatória foi a aceitação da força produtora feminina que, uma vez organizada, se voltou contra quem lhe abriu espaço. A modernidade se tornou uma Era Frankenstein Social-Sexista. Mary Shelley adoraria ver isso...

- rsrsrs

- Mas concordo que culpar um não exime o outro. As responsabilidades devem ser divididas.

- Perfeito, e isso nos leva de volta à questão: como recuperar o equilíbrio? É possível? Quem sabe com tempo, estudos e discussões...

- Eu resumiria em Tempo. É um ciclo repetitivo este, mas que funciona sempre: as gerações futuras se ressentem daquilo que as gerações passadas demoliram, e então constroem uma versão mais ponderada do passado - não necessariamente melhor, mas certamente mais adaptada à satisfação dos desejos. Foi assim com a escravatura e a liberdade sexual. Será assim com a balança patriarcado-feminismo.

- Que venha o Tempo então.

- :)