26 fevereiro 2018

UMA VISÃO MAIS REALISTA SOBRE ARMAS

Em uma de suas várias teorias, Freud propôs que os seres humanos são governados por dois instintos fundamentais: a vida (ou Eros, que poderia ser representado tanto pela sedução física quanto pela persuasão através de argumentos razoáveis) e a morte (ou Thanatos, que, neste caso, se estenderia desde a força física e agressividade até a violência e a morte propriamente dita).

O escritor alemão Marko Kloos, em seu famoso ensaio “Why the gun is civilization” (2007), fez uma releitura dos instintos freudianos, afirmando que os seres humanos têm apenas duas maneiras de lidar uns com os outros: por meio da razão e por meio da força – ou Eros e Thanatos. Em uma sociedade genuinamente Moral e civilizada, Eros prevalece.

“Por mais paradoxal que isso possa parecer para alguns”, escreveu Kloos, “a única ferramenta que pode remover o uso da força da lista de opções de interação é uma arma de fogo pessoal: quando estou portando uma arma de fogo, você não pode lidar comigo por meio da força. Você terá de utilizar apenas a sua razão e a sua inteligência para tentar me persuadir. Portando uma arma de fogo, eu tenho uma maneira de neutralizar a sua ameaça ou o seu uso da força. A arma de fogo é o único objeto físico que pode anular a disparidade de força, de tamanho e de quantidade entre um potencial agressor e sua potencial vítima”.

Nas palavras de Marko, “o fato de que uma arma de fogo facilita o uso de força letal é algo que funciona unicamente em prol da vítima mais fraca, e não em prol do agressor mais forte. O agressor mais forte não precisa de uma arma de fogo para aniquilar sua vítima mais fraca. Já a vítima mais fraca precisa de uma arma de fogo para sobrepujar seu agressor mais forte. Se ambos estiverem armados, então estão em pé de igualdade.

A arma de fogo é o único objeto que é tão letal nas mãos de um octogenário em uma cadeira de rodas quanto nas mãos de um halterofilista. Se ela não fosse nem letal e nem de fácil manipulação, então ela simplesmente não funcionaria como instrumento equalizador de forças, que é a sua principal função.

Quando estou portando uma arma, eu não o faço porque estou procurando confusão, mas sim porque quero ser deixado em paz.  A arma em minha cintura significa que não posso ser coagido e nem violentado: posso apenas ser persuadido por meio de argumentos racionais.  Eu não porto uma arma porque tenho medo, mas sim porque ela me permite não ter medo. A arma não limita em nada as ações daqueles que querem interagir comigo por meio de argumentos. Ela limita apenas as ações daqueles que querem interagir comigo por meio da força. A arma remove a força da equação. E é por isso que portar uma arma é um ato civilizado: uma grande civilização é aquela em que todos os cidadãos estão igualmente armados e só podem ser persuadidos - jamais coagidos”.

Em apoio à opinião de Kloos, o estudo “Would Banning Firearms Reduce Murder and Suicide? A Review of International and Some Domestic Evidence”, realizado pelos criminologistas Don B. Kates e Gary Mauser, mostrou de fato que MENOS ARMAS estão associadas a MAIS CRIMES.

A pesquisa de Kates e Mauser descobriu que as 9 nações européias com os menores índices de posse de arma (5.000 ou menos armas de fogo / 100.0000 habitantes) apresentam taxas combinadas de homicídio três vezes maiores que as 9 nações européias com os maiores índices de posse de arma (pelo menos 15.000 armas de fogo/100.000 habitantes).

Por exemplo: na Europa Ocidental, a Noruega possui o maior número de armas de fogo por habitante, mas apresenta as menores taxas de homicídios. Em contrapartida, a Holanda possui as piores taxas de homicídio, a despeito de ter o menor número de armas de fogo por habitante.

Para efeito de comparação, vale dizer que, no Brasil, há 8 armas a cada cem habitantes e a taxa de homicídios é de 20 por 100 mil. Honduras, o país mais violento do mundo (taxa de homicídios de 92 por 100 mil), tem 6 a cada cem habitantes. Em contrapartida, no Japão, onde as armas para uso pessoal foram banidas e existem 0,6 armas para cada 100 pessoas, a taxa de homicídios é de 0,3 por 100 mil habitantes. Em 2014, os japoneses registraram 6 mortes por armas de fogo, contra mais de 30 mil nos EUA (88 armas para cada 100 pessoas) durante o mesmo período.

Com 56.337 homicídios ocorridos em 2012, o Brasil registrou 29 mortes violentas a cada 100 mil habitantes, número quase cinco vezes maior do que o índice mundial (6,2). O Estatuto do Desarmamento se encontra valendo desde 2005 e as taxas de homicídios seguem crescendo: as armas de fogo estavam envolvidas em 58% dos homicídios em 1996 e passaram para 71% em 2012 – após 7 anos de vigência do Estatuto.

Conforme Don B. Kates e Gary Mauser argumentaram, se o mantra de “mais armas = menos mortes” e “menos armas = menos mortes” fosse correto, as amplas comparações entre nações europeias deveriam mostrar que países com maior número de armas per capta apresentam mais mortes. Contudo, nações com maior número de armas per capta não apresentam taxas de suicídio ou homicídio maiores que aquelas observadas em nações com menor número de armas. Na verdade, as nações com os maiores números de armas per capta apresentaram as menores taxas de homicídio”.

Realmente, Marko Kloos tem argumentos sólidos a seu favor. Vivendo em um país com dezenas de milhares de assassinatos por ano, não refletirmos sobre suas palavras é, no mínimo, uma hipocrisia Moral e uma desonestidade de raciocínio.

22 fevereiro 2018

SOBRE UTAH VERSUS ALAGOAS

De vez em sempre, algo assim aparece nas redes sociais: comparações estapafúrdias pretensamente defendendo o “direito às armas” no Brasil. Neste caso específico, a comparação foi entre o estado americano de Utah e nosso nordestino Alagoas.

Ao observar o mérito da questão, seria lúcido adicionar algumas outras perguntas entre Utah e Alagoas:

- Qual seria a diferença em analfabetismo?
- Qual seria a diferença em liberdade econômica?
- Qual seria a diferença em renda per capta?
- Qual seria a diferença na taxa de resolução investigativa de crimes?
- Qual seria a diferença em IDH?

Curiosamente, mesmo sem considerar qualquer um destes apontamentos, os neuróticos “pró-revólveres e afins” são rápidos em sacar a conclusão que o segredo de 1,9 homicídios/100 mil habitantes está no porte de armas.

Eles acreditam de fato que armar um povo com QI médio de 100, IDH de 0.85, taxa de analfabetismo funcional de 21% e Instituições que garantem punição PRODUZ O MESMO RESULTADO que armar um povo de QI 87 (um índice que nos coloca na categoria de embotamento mental nível transtorno psiquiátrico), IDH de 0.75, analfabetismo funcional na casa dos 68% e com Instituições que premiam a impunidade. Armas não irão resolver a segurança pública e diminuir a criminalidade por aqui, lamento.

A saída sólida e verdadeira passa pelo estímulo e capacitação tecnológica da polícia (temos um índice trágico de 5% de resolução dos homicídios, uma piada de mal gosto), pelo endurecimento do Código Penal e pela garantia inegociável de punição (não é o tamanho da pena que inibe a criminalidade, mas a certeza de que todo crime será punido).

Apostar na generalização de armas é o mesmo raciocínio de solução instantânea que sempre colocou um brasileiro na lama: ao invés de reforçar as Instituições, queremos um salvador da pátria que nos proteja de nossa própria incompetência - ainda que ele venha na forma de um "berro" na sua mão.

Ademais, armas não são proibidas - assim como médicos, por exemplo, não são proibidos.

Para exercer Medicina, o que há é um longo e cansativo protocolo de pelo menos 6 anos de estudos, provas, treinamentos, desenvolvimento de habilidades e testes de competência, e então você recebe seu registro - que pode ser caçado legalmente em caso de má-prática.

Para tirar posse e porte de arma, acontece mais ou menos o mesmo: tudo que você tem que fazer é se dispor a caminhar pelos trâmites burocráticos devidos. Preenchidos os requisitos, você recebe o direito de ter uma arma. Apesar das dificuldades, não leva 6 anos.

As armas legais não são "proibidas": elas são NORMATIZADAS. E há uma grande, enorme, monumental diferença neste conceito.

Sou a favor de manter a legislação como está, e discutir honestamente o reforço e a capacitação das INSTITUIÇÕES que resolverão de fato o problema da criminalidade - seja ela praticada com fuzis, semi-automáticas, facas ou pedaços de pau.

18 fevereiro 2018

RELIGIOSIDADE E ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO


Cerca de 87% da população brasileira considera os dogmas religiosos importantes em sua vida diária, influenciando seu processo de decisão e a emissão de julgamentos Morais. Somos acompanhados de perto por nações como Moçambique (86% de importância, com IDH de 0,418), Malta (85%, 0,85), República Dominicana (87%, 0,72), Líbano (87%, 0,76), Zimbábue (88%, 0,516) e Costa do Marfim (88%, 0,474).

As 20 nações mais religiosas do mundo apresentam um IDH médio de 0,521, ao passo que as 20 nações menos religiosas do mundo apresentam um IDH médio de 0,870. Se a religião é causa ou consequência da miséria é algo para ser elucidado, mas a associação é inquestionável: onde há muita miséria, há alta religiosidade - e onde se observa baixíssima religiosidade, tende a haver alto desenvolvimento humano.

A correlação entre religiosidade e bem estar humano não é apenas uma questão científica, mas também filosófica: muitas pesquisas mostram que pessoas religiosas sentem-se mais felizes e satisfeitas com suas vidas que pessoas ateístas. Mas esta satisfação corresponde a um bem-estar real ou é simplesmente uma racionalização do meio em que vivem? Ou será que a religião nos impede de desenvolver os mecanismos necessários para incremento social e intelectual, retardando o amadurecimento emocional ao autorizar e validar a transferência de responsabilidades e esperanças para a Fé? 

Quem sabe, a ignorância seja mesmo uma benção, afinal.





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Fontes consultadas para verificação do índice de religiosidade das nações: 
- http://gallup-international.bg/en/Publications/2017/373-Religion-prevails-in-the-world
- http://www.telegraph.co.uk/travel/maps-and-graphics/most-religious-countries-in-the-world/

Fiontes consultadas para verificação do IDH:
- http://www.nationsonline.org/oneworld/human_development.htm
- http://hdr.undp.org/en/countries



15 fevereiro 2018

O EMBOTAMENTO E O DESTINO DE UM PAÍS

Você sabe o que é Embotamento?

Em termos médicos: "um tipo de comportamento em que o indivíduo apresenta-se com dificuldades em expressar emoções e sentimentos. É comum ocorrer na esquizofrenia e em outras doenças psiquiátricas".

A faixa de QI de pessoas com Embotamento vai de 80 a 89.

Registre-se que o QI médio do brasileiro é 87 e ele lê (voluntariamente e talvez por isso mesmo) menos de 2 livros não-acadêmicos por ano.

Deixo as conclusões sobre o futuro de nossa nação por sua conta.

11 fevereiro 2018

REFUTANDO A APOSTA DE BLAISE PASCAL

"Não se pode provar a existência de deus. Mas, se deus existe, aquele que acredita GANHA tudo (inclusive o paraíso), e aquele que não acredita PERDE tudo (exceto pelo inferno). Se deus não existe, aquele que acredita perde nada, e aquele que não acredita não ganha coisa alguma. Portando, acreditar em deus é uma aposta que permite ganhar tudo e perder nada”.

Este argumento, formulado pelo francês Blaise Pascal (um filósofo católico), demonstra bem a pura intimidação (ou negociata) subliminar nos discursos de fé. Não se trata de comprovar ou não a existência de deus, mas de uma jogada para trapacear nossos medos irracionais produzindo um resultado esperado.

Não é exatamente verdadeiro que aquele que acredita perde nada. Ele perde, sim: perde ao diminuir sua vida preferindo o mito de uma vida após a morte, sacrificando a honestidade para sustentar uma mentira. A religião custa tempo, energia e dinheiro, drenando recursos humanos valiosos que poderiam ser utilizados para melhorar o mundo real. A conformidade religiosa é a ferramenta predileta dos tiranos e uma ameaça à liberdade em toda parte.

Igualmente, não é verdadeiro que aquele que não acredita ganha nada. Rejeitar a religião pode ser uma experiência libertadora, oferecendo prêmios como ampliação de suas perspectivas e liberdade para questionar – e os Livres Pensadores, não os seguidores de doutrinas, sempre estiveram na vanguarda do progresso social e Moral.

REFUTANDO A FÉ

"A crença em deus não pertence apenas ao campo intelectual, pois a Razão é limitada. A verdade de deus só pode ser conhecida como um ato de fé que transcende a Razão”.

Admitir que algo não é “intelectual” remove este algo do reino do debate. Sim, a Razão é limitada: ela é limitada pelos FATOS. Se você se dispõe a ignorar os fatos, então tudo que lhe restam são hipóteses sem fundamento e pensamentos ilusórios.

A fé traduz-se na aceitação de um argumento como “verdadeiro” a despeito das evidências serem insuficientes ou contraditórias – e isso NUNCA foi algo compatível com a Razão. A fé, em sua própria definição, consiste em aquiescer que os dogmas religiosos não se sustentam por si: eles precisam de um voto extra de confiança.

“Ah, mas existem muitos cientistas que acreditam em deus. Se muitas das mentes mais brilhantes do mundo são teístas, então a crença em deus é coerente”.

Apelar para o peso da autoridade – e não dos fatos ou das evidências – é uma maneira bem pobre de tentar fazer valer argumentações implausíveis. De um modo geral, as pessoas do mundo acadêmico são bem menos religiosas que a média da população. Apesar de ser fácil encontrar cientistas teístas, nenhum deles é capaz de demonstrar cientificamente sua fé. A crença pertence à esfera cultural ou pessoal e ninguém - nem mesmo os cientistas - está livre da sedução irracional da religião.

“Os campos mais avançados da ciência, como a Física Quântica, mostram que a realidade é feita de incertezas e que milagres podem existir. Uma visão teísta do mundo não é incompatível com a ciência”.

Por definição, um milagre exige a suspensão das leis naturais até o ponto em que apenas um fenômeno transcendente poderia explicar o ocorrido. Se a “nova ciência quântica” torna os milagres naturalmente possíveis (um conceito paradoxal em si...), então não existe um reino do “sobrenatural”. Tudo é natural - e deus, desnecessário.

Na física quântica, o termo “incerteza” não se aplica à realidade, mas ao nosso conhecimento da realidade. O teísmo implica na crença em dimensões para além da realidade, é uma fé no sobrenatural, uma acepção que impede que a religião seja minimamente compatível com a Ciência.

REFUTANDO AS REVELAÇÕES

"A bíblia é um livro historicamente confiável. Não existem motivos para desconfiar dos testemunhos registrados nela. A prova da existência de deus está revelada nas escrituras”.

A bíblia reflete a cultura de seu tempo. Apesar dos cenários serem históricos, boa parte do enredo não é. Por exemplo: excetuando-se os evangelhos (que foram escritos entre 30 e 90 anos após a crucificação, dependendo de qual fonte acadêmica você consultar), não existem outras provas contemporâneas da existência de Jesus. Incontáveis eventos relatados conflitam abertamente com princípios científicos bem estabelecidos. As histórias na bíblia são basicamente isso: histórias.

Em A Era da Razão (1945), Thomas Paine argumenta que as escrituras não podem ser uma “revelação”: uma revelação – se tal coisa existe... – é uma mensagem divina comunicada diretamente a uma pessoa. Assim que esta pessoa a relata, ela se torna um “ouvi dizer”. Ninguém é obrigado a acreditar em algo assim, especialmente quando o “ouvi dizer” é recheado de eventos fantásticos que desafiam qualquer Lógica. O mais provável é que os relatos de milagres sejam decorrentes de erros, mentiras ou interpretações zelosamente teológicas de eventos perfeitamente naturais.

Como bem assinalou Carl Sagan, “Alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias”.

REFUTANDO A SUPOSTA DIVINDADE DA MORALIDADE


"Todos nós temos uma percepção sobre o que é certo ou errado, uma consciência que nos coloca sob o comando de uma ordem maior, superior a nós. Esta Moralidade Universal possui normas que transcendem a humanidade: ela é uma prova que deus plantou em nós sua luz na forma de Razão e nos ofereceu as escrituras como prova de sua palavra”.

Este é outro tipo de argumento baseado em ignorância. Os sistemas Morais baseiam-se em conceitos humanos de bom e ruim e de certo e errado. Batizamos de “bom” tudo que pode prolongar nossa sobrevivência, e de “mau” tudo que pode ameaçá-la. Não precisamos de uma deidade para compreender que assassinar, estuprar, torturar, mentir e roubar são traços ruins de caráter. Os humanos, assim como outros primatas e muitos outros animais, possuem a capacidade inata para determinar o que é ser gentil e razoável.

“Não se pode dizer quem é bom utilizando definições humanas, a sociedade humana não tem capacidade para julgar o interior de uma pessoa, e o padrão de Deus é diferente das convenções humanas”.

A poligamia, os sacrifícios humanos, o canibalismo (alguém citou “Eucaristia”?), o espancamento de mulheres, a mutilação genital de meninas, a guerra, a circuncisão, a castração masculina e o incesto são ações Morais perfeitamente aceitáveis em algumas culturas – e consideradas completamente execráveis por outras. Será que deus se confundiu ao distribuir suas ordens? Seus padrões são “diferentes” ou apenas incoerentes?

Considerar alguns textos “sagrados” é um argumento em favor da “crença em”, não da “existência de” um deus. A necessidade de possuir um padrão Moral normativo absoluto validado por uma “entidade superior” vem da insegurança de algumas pessoas sobre a capacidade de manterem uma retidão de caráter por si mesmas. Pessoas emocionalmente maduras estão cientes do relativismo e pluralismo da humanidade, e confiam em sua capacidade de Reflexão e Raciocínio para determinar o que é Bom e Correto.

Se você não é consegue definir por si o que é Moralmente adequado, e precisa basear suas ações buscando referências em algum texto sagrado, não lhe falta religião, mas Empatia. Ademais, diversos estudos multicêntricos e randomizados mostram que Ateus possuem raciocínios mais analíticos que Teístas, produzindo julgamentos Morais mais acurados e menos tendenciosos.

REFUTANDO O TEÍSMO DA EXPERIÊNCIA PESSOAL

“Milhões de pessoas sentem a presença de deus dentro de si”. 

Boa parte dos teístas se diz capaz de “alcançar” deus através da meditação e das preces, mas estas experiências não podem ser substanciadas por eventos fora de sua mente.

O misticismo pode ser explicado psicologicamente, sem necessidade de complicar nosso entendimento do universo criando vertebrados gasosos oniscientes, onipresentes e onipotentes. Sabemos muito bem da capacidade dos humanos em inventar mitos, ouvir vozes, delirar, alucinar e conversar com amigos imaginários.

O fato de existirem bilhões de teístas aponta para uma característica da humanidade, não para uma prova cabal da existência de uma “entidade superior”. A Verdade não é algo que se obtém por meio de votos da maioria.

As religiões nasceram como mecanismos de defesa para lidarmos com nosso medo da morte, nossas fraquezas, nossos sonhos e o temor do desconhecido. Elas são ferramentas poderosas para conferir um sentido extra à vida e um senso de identidade para o indivíduo. Mas as religiões diferem radicalmente, e apelações para “experiências interiores” só pioram essas divergências.

“Os ateus deveriam se abster de criticar a experiência teística de se perceber de deus: é como um cego negar a existência de cores”. 

Em primeiro lugar, pessoas cegas não negam o senso da visão ou a existência de cores: o caminho dos impulsos luminosos entre a retina e a região occipital do cérebro pode ser identificado e demonstrado fisiologicamente, assim como os espectros da luz visível podem ser validados por equipamentos, independentemente da visão humana ou de suas crenças. A existência das cores, portanto, não precisa ser tomada como um ato de fé.

Em segundo lugar, isso tornaria a fé uma espécie de “sexto sentido” que só os teístas – os “escolhidos” – teriam. Todavia, eles não oferecem recursos extras para testar seus insights espirituais: temos simplesmente que “acreditar” na sua palavra de que eles são verdadeiros e de que suas “revelações” são provas suficiente da existência de um “ser superior”.

Os céticos não negam a “realidade” subjetiva das experiências religiosas, mas reconhecem essas experiências apenas como ocorrências psicológicas que não necessitam um reino transcendental para ocorrer. Para explicar o fenômeno da “experiência religiosa pessoal”, o princípio da Navalha de Occam é simples, eficaz, imparcial e contundente.

REFUTANDO O DESIGN INTELIGENTE

Se uma pessoa afirma ter inventado um dispositivo anti-gravidade, não cabe aos outros a incumbência de provar que tal coisa NÃO existe: a defesa da tese cabe ao pretendido inventor. É tarefa DELE apresentar as provas irrefutáveis de seu invento – e qualquer pessoa deve sentir-se livre para recusar a crença no referido dispositivo até que ele tenha sido demonstrado inquestionavelmente real e eficaz.

Ainda assim, os teístas procuram defender sua crença segundo seus próprios termos, criando triangulações entre sua fé e evidências científicas comprovadas. Vamos ver como refutar isso:

“De onde você acha que tudo surgiu? Como explicar a complexidade do universo? Eu não posso aceitar que toda a beleza e ordem da natureza sejam fruto de mero acaso... Todo relógio precisa de um relojoeiro!”.

Este tipo de argumento, apelando para um suposto “design inteligente”, pressupõe em si a existência de um “relojoeiro”. Pedir uma explicação superior para o universo é simplesmente solicitar a aceitação de uma “entidade superior”. Mas o universo não é uma coisa - ele é tudo que há . Assim, se deus existisse, ele seria parte de tudo que há e teríamos que procurar uma explicação para quem criou deus, e o deus seguinte, e o deus seguinte, em uma regressão infinita de relógios e relojoeiros.

Se deus pode ser considerado eterno, prescindindo de um criador, por que não simplificar a equação e assumir que o “universo” é, por si somente, eterno e prescinde de um criador?

“Ah, mas TUDO tem uma causa, e toda causa é efeito de uma ação prévia. Algo deve ter dado início à Criação. Deus é esse início, essa causa, o Criador”.

Novamente, este tipo de argumento se embola em um paradoxo ao afirmar que TUDO tem uma causa, mas “deus” não tem. Se é possível pensar que deus prescinde de uma causa, então por que não admitir que o universo pode prescindir de uma causa e ser ele mesmo seu próprio princípio – e a criação de deuses imaginários apenas uma consequência disso?

Existe um design “no” universo, mas argumentar acerca de um design “do” universo é mera semântica teísta. O design que percebemos na natureza não é necessariamente inteligente. A vida é o resultado do design “inconsciente” da seleção natural. A ordem do cosmos deriva do design da gravidade e de regularidades naturais e não necessita de explicações “superiores” a esta para existir e continuar funcionando.

Uma “lei natural” é uma descrição, não uma prescrição. O universo não é “governado” por leis, e as leis que lhe atribuímos são meramente concepções humanas sobre a maneira como as coisas normalmente reagem.

Nenhum biólogo sério jamais disse que os micro-organismos surgiram “do nada”, em uma mutação acidental, única e isolada. A evolução é o acúmulo gradual de várias pequenas alterações ao longo de milhões de anos em um ambiente adequado. Os humanos são apenas uma das infinitas possibilidades que poderiam ter sobrevivido à impiedosa seleção natural. Se há algo de milagroso em nossa existência, credite o milagre simplesmente às probabilidades, não a um “relojoeiro”.

A alegação de um design se baseia em ignorância, não em fatos. A incapacidade de resolver uma dúvida não significa que não existe uma resposta. Por milênios os seres humanos criaram respostas místicas para “mistérios” como o trovão, as tempestades, a fertilidade, a febre, as crises convulsivas, as enchentes, os maremotos, o terremotos, os meteoros e uma infinidade eventos naturais. Mas, quanto mais avançamos em conhecimento científico, menos deuses precisamos. Acreditar em um deus como explicação derradeira para tudo aquilo que ainda não entendemos é responder um mistério com outro mistério – e, se acaso nos satisfizéssemos com essa teologia dos hiatos, nenhuma lacuna de nosso conhecimento teria avançado muito além daquela dos primeiros símios que surgiram nesse planeta.

CUIDADO COM QUEM FALA “EM NOME DA FAMÍLIA”

Quando um líder – político ou religioso –, dizendo falar em “defesa da família”, prega simultaneamente a importância da fidelidade indiscutível à ideologia que ele representa, mesmo quando esta entra em conflito com a Moralidade nuclear da família, ele não está preocupado com a valorização da instituição “família”, mas com o adestramento de indivíduos - agora mansos, domesticados e isolados do Caráter de suas raízes - capazes de sustentar um projeto de domínio ao longo das gerações por vir.

O poder do Clã Familiar é anterior à agricultura, às cidades, às estradas, às leis, à religião, à força militar, ao emprego, ao dinheiro, ao comércio e até mesmo ao Estado – e por isso minar sua credibilidade é tão importante para todo e qualquer aspirante a dirigente de qualquer coisa.

07 fevereiro 2018

A MEDICINA PÓS-MODERNA


Seguramente, 85% dos pacientes que atendo não estão doentes: eles SE ACHAM doentes. Não tenho saída para eles. (Se você acredita que “achar-se doente” é uma forma de doença, recomendo que leia O Mito da Doença Mental, de Thomas Szasz).

Outros 10% estão de fato doentes, mas querem ter 0% de responsabilidade sobre o curso de suas moléstias, transferindo todo ônus de sua melhora para remédios, consultas de especialistas, exames, fé, sorte ou destino, migrando de um consultório para outro, de um pronto atendimento para outro ou de um templo para o templo seguinte. Não tenho solução para esses casos idem.

Finalmente, 5% dos atendidos necessitam de fato de cuidados - mas muitos terminam não tendo o correto acesso a estes recursos devido às filas e confusões que o representantes dos dois grupos anteriores causam no sistema.

Se algum dia a Medicina foi uma arte, isto se perdeu miseravelmente por pressão de tecnicismos (qualquer dor de cabeça chega ao consultório trazendo uma pesquisa no Google que recomenda três ressonâncias para tirar a dúvida), legalidades (medicina anti-processo) e ideologias imorais de transferência de responsabilidade (recentemente, tive que chamar a polícia para ajudar a conter os ânimos dos familiares de uma paciente que se sentiu ofendida por eu ter informado que seu peso, com IMC de 39, era a causa de suas dores articulares). A Arte, hoje, é terminar o dia de trabalho sem atritos diagnósticos e ir para casa para começar o dia de Vida sem o risco deles.

O paciente anseia pela "medicina de antigamente" ao mesmo tempo em que insiste em ser "o paciente de hoje em dia". Nessa incongruência, todos perdem: o médico, o paciente e, principalmente, o emprego racional dos recursos limitados disponíveis.

E alguém vem me perguntar se escolhi fazer medicina como um modo de ajudar os outros...

Sinceramente, depois de 20 anos atuando e com um rastro de dezenas de milhares de pacientes atendidos, descarto por absoluto a possibilidade de realmente ajudar alguém. Nos atrapalhamos ou nos ajudamos sozinhos na mesma proporção. NADA, absolutamente NADA, vem de fora. TUDO - toda mudança, todo progresso, toda evolução pessoal - vem de dentro.

Você recebe os estímulos bons e ruins do meio e é você, apenas VOCÊ - e não sua mãe, pai, cônjuge, médico, psicólogo, pastor, horóscopo, cartomante ou o unicórnio de sua preferência -, quem irá decidir o que fazer com eles. Se irá perseverar com força e honra e evoluir, ou se irá se desfazer em lamúrias de autopiedade e vitimização.

No final, a Medicina é só uma de várias maneiras interessantes de ir descobrindo a Verdade do mundo - como se fosse apenas uma versão de muitas da pílula vermelha de Morpheus. Acordar para a vida sempre foi e sempre será uma decisão individual, jamais médica.