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18 agosto 2014

PÍLULA SEM MISTÉRIOS

Toda a revolução sexual dos anos 60 e 70 baseou-se na tríade “emancipação feminina + carros mais confortáveis + pílulas anticoncepcionais”. Para extrair o melhor da modernidade, nunca é demais entender exatamente o funcionamento de cada um desses fatores. Como acredito que você encontrará boas informações sobre os 2 primeiros assuntos em alguma outra parte, vou me resignar com o terceiro fator.

A pílula convencional é composta por uma dose pequena de Estrógeno e uma dose moderada de Progestógeno, dois hormônios femininos. O estrógeno mais utilizado é o Etinil-estradiol. O risco de efeitos colaterais está relacionado diretamente ao conteúdo de estrógenos da sua pílula, e não à duração do uso. A maioria das mulheres pode utilizar a pílula até os 50 anos de idade, tranqüilamente.

Todos os progestógenos são derivados da testosterona e, por isso, possuem alguns efeitos masculinizantes. Os progestógenos mais novos, como levonorgestrel (o mais utilizado), gestodeno e acetato de ciproterona, apresentam menos efeitos colaterais neste sentido.

Estudos mostram que a combinação de hormônios na pílula reduz a incidência de vários distúrbios, incluindo problemas menstruais, câncer e cistos ovarianos, doença inflamatória pélvica, tumores no endométrio, doenças benignas da mama e alterações na glândula tireóide. Em contrapartida, a pílula pode aumentar seu risco de trombose venosa, embolia pulmonar e ataque do coração. Mulheres que fumam e tomam pílula são consideradas um grupo de altíssimo risco para morte súbita cardíaca, especialmente a partir dos 35 anos.

Toda mulher anseia pelo controle de sua vida, mas muitas andam por aí tomando pílula sem saber que estes hormônios adicionais podem dar um nó nas rédeas do seu destino. Por isso, anote aí algumas pegadinhas que podem ser úteis na sua próxima visita ao médico:

- Se você nunca tomou pílula, uma boa primeira escolha são os anticoncepcionais monofásicos, aqueles em que você toma um mesmo comprimido ao longo de toda a cartela. Inicie com uma dose diária de 20 a 30 microgramas de etinilestradiol.

- Prefira pílulas com altas doses de estrógeno (p.ex.: 50 microgramas) se você sofre de epilepsia ou apresenta problemas menstruais perturbadores. Se já lhe recomendaram exorcismo durante alguma menstruação, você pode estar neste grupo.

- O seu problema tem a ver com acne, ganho persistente de peso, dores nas mamas, depressão ou crescimento de pelos indesejáveis? Em alguns casos, basta escolher pílulas com baixas doses de progestógenos ou aumentar a dose de etinilestradiol para facilitar o controle destes problemas.

- Muita atenção com remédios que podem diminuir a eficácia da sua pílula, tais como suplementos de vitamina C, antibióticos, antifúngicos (p.ex.: griseofulvina), rifampicina e anticonvulsivantes (com exceção do ácido valpróico).

- Diminuição do desejo sexual e sangramentos no começo ou no meio do ciclo também podem ser contornados com aumentos na dose de estrógeno. Mas cuidado: náuseas, vômitos, ganho periódico de peso, manchas no rosto (chamadas cloasma), e sensação de “engurgitamento” ou “hipersensibilidade” nos seios podem ser sinais de excesso de estrógenos. Daí a importância de garantir o emprego do seu gincolecologista.

- Se você sofre de enxaqueca, procure imediatamente seu médico de confiança para interromper a pílula.

- As pílulas anticoncepcionais contendo apenas progestógenos são uma boa alternativa para mulheres com mais de 45 anos de idade, fumantes, diabéticas, hipertensas, com enxaqueca ou em fase de aleitamento. Apesar de não serem tão eficazes quanto as pílulas combinadas contendo progestógenos + estrógenos, elas podem ser melhor que praticar abstinência sexual ou encher a casa de bocas famintas.

15 agosto 2014

OS MANDAMENTOS DA PESSOA

© Alessandro Loiola



Em 2015, a Assembléia Geral da ONU responsável pela famosa Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 70 anos.

Sete décadas!, e o país mais rico do mundo não possui um sistema de saúde público. Pode falar mal o quanto quiser do nosso SUS, mas pelo menos nós temos um SUS. Pobre, maltrapilho, míope-quase-cego e trôpego das pernas, mas ele está aí, de portas abertas para sua sorte ou azar.

Nos EUA, a sempre-candidata à presidência Hillary Clinton, esposa daquele outro envolvido no teste do bafômetro com uma estagiária, foi eleita senadora de Nova Iorque prometendo nada mais, nada menos, que um SUS para a Grande Maçã.

Promessas de políticos à parte, o SUS americano nunca aconteceu. Apesar do governo de lá investir muito mais que o daqui - o gasto per capta com saúde nos EUA é 10 vezes maior que o brasileiro -, a população americana recebe do Estado bem menos assistência em saúde.

A cada ano a desnutrição ceifa a vida de mais de 300.000 crianças com menos de 5 anos de idade e o continente considerado berço da humanidade ainda é assolado pelas mesmas tragédias de quando descemos das árvores. Epidemias, fome e violência sufocam a África há milênios, e não existem sinais de que estas mazelas irão diminuir tão cedo.

Por todos estes motivos e inspiradas pela ONU, diversas organizações elaboraram longas listas de direitos que deveriam ser democraticamente agraciados a todo e qualquer ser humano vivo.

Pensei oferecer minha modesta colaboração elaborando uma nova proposta dos deveres primordiais de todos nós. Chega de “direitos” e “liberdades” do ser humano, pensei. Precisamos de “obrigações” saudáveis.

Fiz questão de enumerar apenas 7 mandamentos, pois já existe uma outra excelente lista bíblica com 10 itens que pouca gente presta atenção. Quem sabe, reduzindo um pouco o número, alguém finalmente pare para refletir de verdade.

Então vamos lá: toda pessoa deve...

1.... Enfrentar as mudanças e as incertezas da vida sem medo, e enfrentar o medo com espírito prático e alegre. É preciso manter o senso de humor afiado para aceitar o inevitável maior: sua própria transitoriedade e de tudo que lhe cerca. Ou você acha que seu time do coração irá liderar o campeonato brasileiro para sempre? Tudo passa.

2.... Ser capaz de metabolizar os sentimentos negativos, como raiva, angústia e tristeza, transformado-os em motivação, harmonia, esperança e outros antídotos naturais para o negativismo estúpido.

3.... Ter um contato apenas suficiente com a realidade. Nem pouco demais, nem muito demais. Não estamos preparados para lidar com a realidade como ela é, nua e crua. A fantasia é essencial para garantir sua sobrevivência e a da espécie. Mantenha os pés no chão; a cabeça, nas nuvens - e sonhe bastante!

4.... Conhecer-se ao máximo. Só assim seremos capazes de reparar os danos em nós mesmos e nos nossos semelhantes. E você acha que se conhece? Pois então saiba que seu corpo pesa 40 vezes mais que seu cérebro; temos cerca de 3 sonhos por noite; uma criança faz em média mais de 300 perguntas por dia; as unhas das mãos crescem 4 vezes mais rápido que as dos pés; e seus olhos permanecem mais ou menos do mesmo tamanho desde o nascimento. O nariz e as orelhas, por outro lado, nunca param de crescer. Responda novamente: será que você se conhece mesmo ou anda apenas arranhando a superfície?

5.... Ser capaz e livre para compreender e corresponder às necessidades do grupo em que vive. A esta resposta atenciosa ao sofrimento do próximo chamamos de Bondade. Importante: a bondade que não nasce espontânea e desprendida de outros interesses pessoais não é bondade, é escambo.

6.... Ter a coragem de dizer “eu errei” e aprender com a experiência. Afinal, errar é humano. Colocar a culpa nos outros é sábio.

7.... Ser capaz de amar e ser amada. Sem este dever primordial, nós, reles mamíferos medíocres, jamais teríamos prosperado até aqui. Sem esta obrigação de laços, em um futuro cada vez mais próximo, nos tornaremos menos que uma lembrança na poeira deste planeta. Mas lembre-se: o amor mais verdadeiro nasce a partir do deslumbramento com sua própria vida. Encante-se!

14 agosto 2014

OS ADOÇANTES E O FINAL DOS TEMPOS

© Dr. Alessandro Loiola

Existe uma fábula onde um menino muito travesso e entediado, colocado para vigiar algumas ovelhas, divertia-se gritando “Lobo ! Lobo !”. Quando os adultos da aldeia acudiam, armados até os dentes, o menino ria do trote. Assim que todos retornavam para suas casas, ele gritava “lobo !” novamente, e a cena se repetia.

Um belo dia, o socorro parou de vir. As pessoas estavam cansadas de cair sempre na mesma pegadinha. Nesse dia, o lobo apareceu de verdade. E o pobre menino gritou, chamou, cuspiu seus pulmões, “Lobo ! Lobo ! Lobo !!”, mas ninguém acudiu.

Vira e mexe, os especialistas gritam “Lobo !”. Anos atrás, o lobo era a guerra atômica que dizimaria a humanidade em frações de segundo, literalmente entregando o planeta às baratas. E então o lobo se transformou na inflação, no FMI e na dívida externa. E então, no desmatamento do pulmão do planeta e na perda da biodiversidade. Pois agora temos o lobo metamorfoseado em aquecimento global. Com promessa de falta d’água, crise na energia elétrica e catástrofes climáticas.

A cada década, as previsões do Apocalipse ganham um novo fôlego, se atualizando segundo o gosto da moda na última estação. Entretanto, para quem já usou kichute e aprendeu a ler em cartilhas, ouvir alguém gritando “lobo!” perdeu a graça. Banalizado, o anúncio do final do mundo está virando arroz de festa.

Por isso me surpreendi quando deparei com uma das manchetes mais comentadas nas últimas semanas, sobre um estudo publicado no jornal Behavioral Neuroscience concluindo que adoçantes a base de sacarina, ao invés de emagrecerem, engordam. Como pouca gente parou para ler exatamente do que se tratava, sobrou apenas o grito de lobo no ar: adoçante engorda!

Os adoçantes vivem ocupando manchetes estapafúrdias. Era de se esperar que ninguém mais prestasse atenção, mas não foi bem o que aconteceu. E haja saliva para explicar isso no consultório.
Para você ficar por dentro: a bendita pesquisa analisou dois grupos de ratos durante um certo período de tempo. Inicialmente, o primeiro grupo recebia uma dieta com adoçante e outro, com açúcar. Mais tarde, os dois grupos recebiam ração comum à vontade. Observou-se que o grupo do adoçante comia a ração em maior quantidade, tentando compensar a restrição de calorias, e terminou engordando mais que o grupo do açúcar.

A conclusão deveria ser que dietas muito restritivas desequilibram os centros reguladores da fome no cérebro. Estas dietas podem funcionar em um primeiro momento, mas não funcionam para sempre, e o peso perdido termina voltando com juros e correção monetária.

Infelizmente, não foi bem esta manchete que desembarcou na mídia. Chegou uma outra, esdrúxula, dizendo “Cientistas comprovam: adoçante engorda!”, ou alguma coisa do tipo. Foi a gota. A opinião pública começou a apontar seus dedos acusadores com a velha legenda “Tá vendo? Eu disse que essa porcaria fazia mal !”. Segurando suas tochas e bradando palavras de ordem - Queime no inferno, ciclamato, queime! -, algumas pessoas ameaçam ir até o centro da cidade linchar um caminhão de aspartame.

Ah, o que seria da vida sem esses camponeses...

Você quer ter medo da extinção em massa? Tenha medo do cigarro, que está envolvido em 18 dos 20 novos casos de câncer de pulmão diagnosticados no Brasil diariamente. E não precisa ser tabagista ativo não, viu? Fumante passivo também serve. Destes 18 felizes sorteados, 17 irão virar fumaça nos próximos 5 anos, a despeito do tratamento. O câncer pulmonar não é considerado um dos mais letais à toa.

Quer mesmo ter medo? Tenha medo do alcoolismo. O consumo de bebidas alcoólicas está envolvido em 20% dos acidentes automobilísticos, 24% dos assassinatos e 11% dos suicídios. Tudo que você precisa fazer é abrir a próxima latinha.

Quer ter medo? Deixe o vidro de adoçante de lado e preste mais atenção no saleiro e no sofá da sala. O consumo excessivo de sal e o sedentarismo podem resultar em pressão alta e doenças cardiovasculares, responsáveis pela morte de 32 pessoas por hora.

Antes que você me acuse de ser um fiel representante dos profetas do final dos tempos, fique sabendo que, mesmo com os tímpanos fadigados de tanto gritarem “lobo !” por aí, eu não desanimo. No próximo levante dos dândis da histeria coletiva, estou programando pegar minha mochila e sair para um passeio. Vou visitar o buraco na camada de ozônio e algumas ogivas nucleares. Os pobrezinhos andam tão esquecidos...