17 agosto 2017

SOBRE SAÚDE E CONTAS QUE JAMAIS IRÃO FECHAR

Temos no Brasil um sistema de saúde com pretensões de oferecer um serviço de nível Canadense ou Australiano, com cobertura universal e amplo acesso.

A OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico -, criada em 1960, possui um banco de dados abrangente, confiável e atualizado reunindo informações de 34 nações. Caso pertencesse à OCDE, o Brasil seria o antepenúltimo nos investimentos públicos em saúde, superando apenas Chile e México. Nos gastos per capita, só ficaria acima da Turquia.

Os investimentos públicos em saúde em nosso país representam 3,6% do PIB, contra 5,9% na Austrália, 7,2% no Canadá, 8,6% da França e incríveis 9,7% na Holanda. Até os EUA, que nem possuem um sistema propriamente público, gastam mais: o Estado americano dedica 7,9% do PIB em investimentos em saúde.

Junte-se a isso o fato de que Austrália,Canadá, França e Holanda possuem todos taxas de analfabetismo iguais ou inferiores a 1%, enquanto que a taxa de brasileiros considerados analfabetos funcionais é de 17,1%, chegando a 26,6% na região Nordeste e alcançando 20% de analfabetismo pleno entre as pessoas com 60 anos de idade ou mais.

Em resumo: em comparação aos países nos quais nos inspiramos para construir nosso sistema de saúde, investimos MENOS dinheiro para um público MAIS incapaz - mais incapaz de ler, mais incapaz de processar criticamente informações, mais incapaz de agregar conhecimento científico e, consequentemente, mais incapaz de compreender suas próprias responsabilidades.

Agora me diz: você acha mesmo que nossas políticas públicas de saúde - confortavelmente assentadas em eternas práticas numéricas de assistencialismo burocrático, populista, contraproducente e ineficaz - algum dia irão produzir avanço, prosperidade, ordem ou progresso nessa república tupiniquim?

13 agosto 2017

LEVE SUA VIDA COMO UM ARTESÃO

No excelente livro The Carpenter, o autor John Gordon escreve: "Enquanto a maioria das pessoas aborda seu trabalho com a intenção de terminá-lo, um Artesão age mais preocupado com O QUÊ está criando do que com a velocidade com que irá finalizar a tarefa".
"Um Artesão", Gordon prossegue, "preenche sua mente com o empenho para mostrar o melhor de si. Quando se tem esse nível de atenção, você se destaca, pois este é um mundo de desatentos. É a Atenção, e não a rapidez, que derradeiramente leva ao sucesso".
Alguém que cuida diligentemente do que vê, diz e faz é alguém destinado a expressar características de qualidade. Pode-se dizer então que Atenção e Qualidade sâo, respectivamente, aspectos internos e externos da mesma "coisa", do mesmo segredo por trás do sucesso de um Artesão.
Mas o que seria esse segredo, essa "coisa"? A resposta é facil: Amor.
O Artesão trabalha com Amor. Existe paixão em sua atividade, um cuidado silencioso e concentrado, um deslumbramento quase místico no modo como ele trabalha. O Artesão encontra-se tão completamente presente quando atua que ele e sua arte tornam-se um só.
O valor de agir em sua vida como um Artesão vai bem além de fazer um bom trabalho. Uma vez que a intenção final de cada um de nós é levar uma vida incrível, a melhor maneira para atingir este objetivo consiste em postar-se plena e intimamente envolvido com cada etapa do processo de Viver.
O que quer que você esteja fazendo agora e vá fazer daqui em diante, certifique-se de fazê-lo como um Artesão. Comprometa-se com a Atenção e a Qualidade. E viva com Amor. Sempre.


11 agosto 2017

RELAÇÕES INTERPESSOAIS E LONGEVIDADE


Você sabia que o modo como você se relaciona com outras pessoas pode incrementar sua longevidade?

No livro Safe People (Relacionamentos Saudáveis, título brasileiro), os psicólogos Henry Cloud e John Townsend comentam sobre os resultados da investigação de uma cidade americana que possuía um dos maiores índices de longevidade dos EUA: nos anos 1960, a cidade de Roseto (Pensilvânia) apresentava uma incidência de mortes por eventos cardíacos METADE abaixo a incidência média do restante dos EUA.

Por mais de cinquenta anos, este fenômeno, conhecido como “Efeito Roseto”, foi investigado de todas as formas possíveis, com conclusões sempre similares. Excluídas as variáveis pertinentes e realizadas as análises estatísticas devidas, o motivo pelo qual a população da cidade de Roseto exibia uma saúde tão incrível mostrou ser bem simples: elas viviam relacionamentos profundos e duradouros.

Nós nascemos para nos relacionarmos uns com os outros. Fomos criados para isso. Quando alguém está em seu leito de morte, raramente pede que coloquem dinheiro ou prêmios ou títulos à sua volta. Alguém que está morrendo deseja nada disso, mas apenas seus entes queridos por perto.

Infelizmente, nos dias atuais, a noção de “entes queridos” está turva. A tecnologia e as mídias sociais nos enganam com a percepção de que estamos vivendo relacionamentos interpessoais profundos com dezenas – às vezes centenas ou milhares – de pessoas, quando na verdade não estamos.

De repente você chega em casa e navega no seu Facebook ou Whastapp ou Instagram por 20, 30 ou 40 minutos, e quando coloca o celular de lado (quando coloca...) fica com aquela sensação de que passou algum tempo com algumas pessoas. Mas não passou. Talvez, para aquela meia dúzia minguada de pessoas cujos posts você comentou – e que lhe responderam -, você tenha participado de uma forma de interação. Para o restante delas, e para o restante esmagador do seu tempo, tudo que você fez foi abraçar uma frágil e falsa noção de amizade.

Uma vez que as amizades são tão importantes para o seu bem estar, é essencial saber como cultivá-las e aprofundá-las.

Se você deseja fazer amigos ou levar suas amizades atuais para um próximo nível, sugiro que analise os passos a seguir:

1. VÁ EM BUSCA. Quanto mais você buscar amigos, mais encontrará. Porque a imensa maioria das pessoas está querendo o mesmo que você. Nascemos para fazermos amizades, lembra-se? A procura por relacionamentos interpessoais significativos está embutida no seu código genético após dezenas de milhares de anos de seleção natural. Então comente posts, envie mensagens de texto ou voz, faça uma ligação pelo celular. Isso não substitui a interação ao vivo e em cores, mas é um primeiro passo. Seja a pessoa que toma a iniciativa de fazer o contato e agende um encontro, um programa, um cinema, um chope, uma caminhada, um por do sol na praia. Se a sua atitude for rejeitada, tudo bem. Você não pode forçar quem não quer a deixar o casulo. Sacuda a poeira e vá em busca da próxima amizade.

2. SEJA UM ESPECIALISTA EM CONVERSAÇÃO. Os americanos, que amam um protocolo, desenvolveram um método para iniciar um bate papo amigável com qualquer pessoa. O método, que atende pelo acrônimo FORD, recomenda que você comece a conversa abordando qualquer um destes tópicos: Família, Ocupação, Recreação ou Desejos. Por exemplo:
·         Família: você tem filhos? Eles moram com você? Você tem familiares na cidade?
·         Ocupação: com que você trabalha? Se você não gosta do seu trabalho, o que gostaria de fazer para ganhar a vida?
·         Recreação: o que gosta de fazer nas suas horas vagas? Você tem algum hobbie?
·         Desejos: qual a sua viagem dos sonhos? O que você espera da sua vida?

À medida que for obtendo as respostas, repita a informação que recebeu para certificar-se de que entendeu direito, e então aprofunde-se no tema, adicionando perguntas pertinentes ao contexto que está sendo conversado. Esse jogo de “toma lá / dá cá”, rápido e fácil, mostrará que você está realmente ouvindo e se interessa pelo que está sendo dito.

3. APAREÇA. Quando algum amigo lhe convidar para algum evento, festa, reunião, chope, pizza, café ou bate papo, não responda “talvez” ou “quem sabe” ou “vou ver”. Apenas vá. Apareça. Não seja a pessoa que os outros sempre convidam e que nunca aparece – porque assim, mais cedo do que tarde, você terminará sendo a pessoa que quer aparecer, mas que ninguém nunca convida. Obviamente, você não precisa dizer “sim” para todo e qualquer convite: se não puder ir por falta de interesse, simplesmente diga que não pode, desde o princípio. Se não puder ir por algum aperto na sua agenda, diga que não poderá comparecer, mas ofereça na mesma hora uma contrapartida – “nessa quinta feira não vou poder ir, já estou preso em um compromisso, mas que tal então um chope no bar XYZ na sexta, às 20h?”.

4. EXPONHA-SE. Expor suas vulnerabilidades pode levar a amizades bastante profundas, mas também pode assustar caso seja algo feito cedo ou rápido demais. Quando o momento for oportuno, e se você decidir dar um passo além na construção daquele vínculo, compartilhe um perrengue seu. Comente sobre suas feridas, seus medos, suas lágrimas e seus risos. Compartilhe conversando sobre algo que lhe fez profundamente feliz, ou um sonho ou uma conquista importante para você. Se a amizade estiver no ponto, e se a pessoa for de valor, ela também irá expor-se para você. Se isto não acontecer, então aquele laço de confiança não estava pronto como você julgou – ou talvez seja hora de ir buscar novas amizades.

5. DIGA A VERDADE. Na maioria das vezes, as pessoas preferem ser educadas a ser verdadeiras. Se a sua intenção é fazer amizades de qualidade, você precisa largar suas máscaras e agir e falar de modo honesto. As máscaras (ou “personas”) são ferramentas eficientes e produtivas na sociedade; são elas que permitem que freqüentemos ambientes públicos, áreas de trabalho e instituições de ensino. Sem máscaras, a vida em sociedade seria impossível. Todavia, você pode ser você mesmo, falar a verdade e ser educado ao mesmo tempo. Ser educado não significa agradar a todos ao seu redor, mas ser respeitoso ao manifestar suas verdades. É melhor ter alguns poucos amigos verdadeiros que aceitam quem você é do que viver cercado de uma multidão interessada em interagir apenas com uma máscara de alguém que você nunca foi.


30 julho 2017

SOBRE CIÊNCIA E PSEUDOCIÊNCIA


Não raramente, deparo com afirmações espantosas sobre alguma descoberta “científica” que irá mudar minha vida: os poderes da água ionizada, os benefícios do sal do Himalaia, palmilhas magnetizadas, dimensões ocultas, graviolas anti-cancerígenas, fluxos mentais capazes de alterar a matéria e por aí vai.

A maldição que acompanha a Ciência atende pelo nome de Ignorância, e a ignorância pode assumir várias formas, sendo a Pseudociência sua versão mais moderna e danosa.

Diferentemente da fé religiosa – que admite seu viés sobrenatural -, a pseudociência se traveste de ciência para tentar convencer que suas afirmações não são falácias e charlatanices, mas grandes sacadas genuínas da Realidade.

Mas a pseudociência é exatamente o que o nome diz: FALSA ciência. É apenas um modo sofisticado e bacana para justificar as velhas crenças absurdas de sempre.

Para se salvar dessa confusão, é preciso manter uma mente crítica. Quando se deparar com algo que pode ser pseudociência, aplique 5 raciocínios rápidos:

1) A afirmação se qualifica como uma teoria? Uma teoria se origina de e é apoiada por um conjunto evidências específicas que podem ser testadas por diferentes instituições em diferentes locais do mundo.

2) A afirmação baseia-se em conhecimentos ancestrais? Esse tipo de conhecimento por si só não se qualifica como evidência científica. Sem testes que validem sua eficácia, consistência e reproducibilidade, um “conhecimento ancestral” é apenas um mito, não Ciência.

3) A afirmação baseia-se na existência de um tipo desconhecido de “energia” ou algum outro fenômeno paranormal? O emprego descontextualizado de termos como “campos de energia”, “forças eletromagnéticas”, “orgânico”, “mecânica quântica” e “múltiplas dimensões” são ferramentas típicas da pseudociência. Utilizar amplamente conceitos popularizados pela ciência é uma artimanha bastante comum – e desonesta - através da qual a pseudociência tentar jogar um véu de confiança sobre si mesma.

4) Os defensores de afirmações pseudocientíficas amam dizer que suas descobertas estão sendo mantidas ocultas pelas autoridades, pelo governo, pela grande mídia, pelas universidades, pelos médicos, pela indústria farmacêutica, pelos templários, pelos iluminati, pelos alienígenas de Júpiter e tal. Deveriam procurar atendimento psiquiátrico e tratar suas paranoias alarmistas de conspiração – ou publicar seus achados extraordinários em periódicos científicos sérios.

5) Existe alguma explicação mais simples e razoável para aquela afirmação? Por exemplo: a afirmação poderia ser melhor explicada apenas considerando-se a possibilidade de um efeito placebo, a capacidade de cura do próprio organismo, um truque de ilusionismo, má fé ou uma ocorrência estatisticamente possível?

A Pseudociência falha miseravelmente ao tentar passar pelos crivos descritos acima, pois suas afirmações em geral fazem parte de algum contexto político, ideológico ou cultural. Elas não são Ciência.

A Ciência verdadeira é feita com método, pesquisa e evidências, e não com marchas de protesto, blogs, reuniões de chá, seitas, templos ou igrejas.

Não encorajo você a abrir mão de suas convicções, mas sim a fazer uma análise bem honesta delas. Seja honesto CONSIGO mesmo. Tenha coragem para tanto. Questione-se com lucidez.

Ou continue a viver em seu mundo de relativismos místicos, tudo bem. Todavia, neste caso, não denomine suas fantasias de fé de “ciência”. Chame-as pelo apelido correto: chame-as de Crenças Populares. Tenha pelo menos essa dignidade.

05 junho 2017

A CIÊNCIA E O CETICISMO DRENAM O SIGNIFICADO DA VIDA?

Não, não drenam.

Se a Realidade palpável é tudo o que exis­te, nos­sa vida, nos­sa fa­mí­lia e nos­sos ami­gos – e a ma­nei­ra como tra­ta­mos uns aos ou­tros – se tor­nam mais sig­ni­fi­ca­­tivos e únicos. Sob luz da Ciência e do Ceticismo, cada dia, cada mo­men­to, cada re­la­ci­o­na­men­to e cada pes­soa im­por­tam enormemente.

Fora dos delírios e alucinações da crença religiosa (qualquer que seja ela), a Realidade deixa de ser uma peça de te­a­tro en­ce­na­da tem­po­ra­ri­a­men­te an­tes de um eter­no ama­nhã (quan­do o "pro­pó­si­to mai­or" nos será re­ve­la­do), e se torna uma es­sên­ci­a va­li­o­sa, repleta de aquis e ago­ras onde cri­a­mos nossos desígnios pro­vi­só­rios.

A conexão com a Re­a­li­da­de nos le­va a um pla­no mais alto, mais honesto, corajoso e genuíno, de onde podemos contemplar a existência com um grau extraordinário de lucidez, encantados de uma vez por todas com o fantástico de tudo.

A religião e a fé serão sempre e apenas um conforto, uma almofada, uma indulgência ou uma fuga do fardo de suas escolhas. Eu não me queixo do fardo: minha opção é pelo progresso e pelo aprendizado, sem alívios. E a sua?

VITAMINA C FUNCIONA PARA TRATAR RESFRIADOS?

Sim, funciona. Mas com ressalvas.

O Resfriado Comum pode ser causado por mais de 200 vírus diferentes. A Gripe, por outro lado, é causada por apenas 1 vírus – o Influenza -, e produz um quadro BEM mais severo que o do resfriado. Infelizmente, as pessoas com frequência confundem um episódio de Resfriado com Gripe. Seria como confundir um cisco no olho com ser atropelado por um trator. Em pleno século XXI, ainda não sei como isso ocorre. Enfim...

Uma vez que o Resfriado Comum é causado por um VÍRUS, antibióticos são ineficazes no seu tratamento. A Vitamina C vem sendo utilizada desde 1930 com o propósito de aliviar os sintomas do resfriado e diminuir o tempo de evolução da doença, e se tornou particularmente popular na década de 1970 a partir dos estudos de Linus Pauling.

Em 2013, após avaliar 29 estudos clínicos placebo-controlados envolvendo um total de 11.306 pacientes, os pesquisadores da Colaboração Cochrane concluíram que a ingestão regular de vitamina C (200 mg ou mais por dia) não afeta a incidência de resfriado na população em geral.

Entretanto, a suplementação regular exerceu um efeito modesto – porém consistente – na redução da duração dos sintomas (31 estudos clínicos avaliados). Em 5 estudos, um total de 598 pacientes foram expostos a períodos curtos de exercícios físicos extenuantes e a vitamina C mostrou-se capaz de reduzir a incidência de episódios de resfriados comuns entre eles, sem efeitos colaterais adversos.

Conclusão: 

1. Do ponto de vista da revisão da Colaboração Cochrane, a incapacidade da suplementação com vitamina C em reduzir a incidência de resfriados na população em geral indica que o USO ROTINEIRO dessa vitamina por toda e qualquer pessoa, apesar de seguro, não se justifica.  
2. A suplementação com vitamina C pode ser útil para reduzir a incidência de resfriado em pessoas expostas a curtos períodos de atividade física intensa e, neste cenário, ela é bem indicada como profilático.

3. O uso de vitamina C é capaz de reduzir os sintomas e a duração da doença em pacientes com quadros agudos e resfriado, com poucos efeitos colaterais, e é recomendado. 



23 maio 2017

QUAL A VERACIDADE DA REALIDADE?


Seu padrão habitual de crenças forma um ciclo que derradeiramente formata toda sua experiência de vida. Entenda: suas convicções se tornam pensamentos e emoções, que então influenciam o comportamento, que por sua vez define o caráter – e seu caráter determinará seu destino.
  
O que você admite sobre o mundo e sobre si mesmo, as coisas positivas e negativas que sua família e seus amigos lhe contaram sobre você, todo seu condicionamento ativo e passivo frente à realidade, essas ideias não são abstratas: elas tangem a realidade por meio de suas ações. E tudo começa lá no fundo, nos dogmas que você carrega.


REAL, MAS NÃO VERDADEIRO

Você dá uma topada no pé da mesa e seu pé dói; você martela seu polegar sem querer, e ele dói; você toma uma canelada na pelada do final de semana, e sua perna dói. A dor é um fenômeno orgânico e objetivo.

O sofrimento, por outro lado, baseia-se numa crença. O sofrimento não é real, ele existe apenas dentro da sua convicção. Sentir dor é compulsório; sofrer é opcional.

O sofrimento atua como uma lente turva, separando você da realidade. Comece a observar suas crenças – e o sofrimento derivado delas - como pré-julgamentos que limitam sua capacidade de experimentar o mundo.

Apesar dos seus pensamentos serem resultado de uma bioquímica real que está acontecendo neste exato momento no seu cérebro, todas essas ideias são apenas representações na sua mente. Elas não são a experiência do aqui, agora – assim como um mapa não é o território que ele representa. Os pensamentos, por mais reais que sejam, não são verdadeiros.

Em O Mundo como Vontade e Representação, o filósofo ateu & pessimista Arthur Schopenhauer (1788-1860) abordou este assunto com amplitude, introduzindo alguns conceitos indianos e budistas na metafísica ocidental. Schopenhauer basicamente afirmava que “não conhecemos a realidade como ela é, pois toda a realidade que percebemos traz em si as marcas indeléveis das garras de nossa subjetividade”.

Nossa convicção na certeza da interpretação da realidade que vivemos é exatamente o que nos separa da realidade em si. Quando estes territórios não são investigados, eles nos impedem de alcançar a verdade. Contudo, quando aprofundamos nossa atenção e ultrapassamos o limite das crenças, somos presenteados com as luzes de bilhões de estrelas do que é Real.

Existem duas maneiras de prestar atenção e eliminar do seu horizonte a poluição das ilusões e das crenças. O primeiro método consiste em perguntar: pergunte a si mesmo, pergunte aos seus amigos, pergunte às palavras, aos livros, atravesse todas as camadas de suas certezas, questionando uma a uma. Pergunte, pergunte. E não se ofenda - tampouco se assuste - com as respostas.

O segundo método consiste em uma técnica de meditação de exercícios afins que atende pelo nome de Atenção Plena.

EM QUE VOCÊ ESTÁ ACREDITANDO AGORA?

Que tal começar a perceber a realidade por meio de uma atividade bem simples? Pergunte-se: “Em quê eu estou acreditando agora?”.

Responda a isso. Na sequência, pergunte-se: “Isto é real? Será possível que isso é real, mas não verdadeiro?”.

Ainda que sua resposta seja “sim”, apenas o fato de questionar expande o espaço que você e sua mente ocupam, e abre a possibilidade para que você entenda que aquilo que está acreditando é somente uma representação – e não a realidade em si. Suas convicções são reais, mas não são verdadeiras.

Indo mais fundo na toca do coelho, pergunte-se: “Como é viver com essa crença? Como esta crença afeta minha vida?”. Sustentar um sistema de crenças que lhe causa sofrimento e nenhuma evolução ou excelência em termos de sabedoria é um investimento tolo.

Questione-se: “Como seria minha vida se eu não estivesse vivendo dentro desse sistema de convicções?”. 

À medida que praticar a atenção plena e retirar o poder de suas percepções distorcidas, os pensamentos e as emoções continuarão vindo, mas você se sentirá menos inclinado a acreditar piamente neles. 

Confortavelmente estabelecido em um lugar bem maior que suas ideias e suas doutrinas, você perceberá como o mundo é vasto e como a realidade é extraordinária – e nunca mais desejará retornar ao sono de ingenuidade onde as ilusões haviam lhe convencido de que elas eram tudo que existia. 

17 maio 2017

DIÁLOGOS - PARTE II


-  Oi, linda!

- Ei, lindo :)

- Comecei a leitura de Chesterton (O Que Há de Errado) e esbarrei nisso: “O sufragismo foi a Primeira Onda do feminismo – para citar a classificação utilizada por alguns estudiosos contemporâneos –, início de um movimento maior, provocador da Segunda Onda, anti-família e anti-maternidade, cuja tarefa foi levar as primeiras reivindicações, de igualdade perante a lei, para o âmbito da vida íntima, chegando, então, à Terceira Onda, experimentada hoje, com a ideologia de gênero e a tentativa de ignorar a ordem biológica, de maneira a transformar masculinidade e feminilidade em meras construções culturais”.

- Assemelha-se a um reducionismo.

- Em parte, sim. Mas o parágrafo segue dizendo: “nas palavras de Francisco José Contreras, as mulheres são as grandes vítimas da revolução sexual. Na sociedade hipersexualizada, a mulher se converte com frequência em objeto de usar e jogar fora. As feministas conseguiram impor à mulher o modelo sexual masculino - e envileceram todas". Gostei demais dessa visão.

- A questão é que isto parece levar em conta apenas um ponto de vista.

- Hum.

- Como mulher, penso que definições assim tendem a diminuir as dimensões da pessoa feminina. Concordo que houve excesso no pêndulo do feminismo e é preciso trazê-lo para o centro. Mas será possível?

- O pêndulo voltará ao centro por si só.

- Será? O movimento todo se tornou um excesso de ideologias e inocências. Se continuar nesse balanço, pode representar a extinção de nossa espécie, com homens e mulheres se recusando a reproduzir... :)

- Ideologias? Eu diria Deslumbramento. A onda feminista do século passado produziu uma multidão de crianças que nunca comeram mel, e que agora estão fazendo uma lambança enorme na liberdade que conquistaram. Quanto à extinção da espécie... Eu não chegaria a este extremo. Não menospreze a pressão dos genes. :)

- Crianças... rsrsrs... Sim, parece um mundo de crianças revoltadas, pessoas que querem cachorros como filhinhos.

- Por isso tenho achado o mundo das pessoas tedioso. Queria adultos para trocar ideias, mas onde encontrá-los? Um brinde aos livros! Livros e Natureza. Foi o que nos sobrou.

- Até nessa questão as pessoas estão cegas. Percebe como elas querem subverter a Natureza?

- Sim - e estão quebrando a cara, o que é bem fácil de perceber. É só contabilizar a enormidade de consumo de antidepressivos e benzodiazepínicos.

- Apoiado. Mas não culpo as mulheres pelo cenário completo.

- Hum.

- Esse problema é do Ser Humano. O Desequilíbrio vem de todos os lados.

- Argumento aceito. Mas não há de se aliviar o papel do feminismo no cenário das últimas décadas. Isso seria uma condescendência excessivamente benevolente e ingênua.

- Você nega que o exagero do patriarcado provocou esse movimento?

- De modo algum. Ação e reação. O patriarcado belicista e controlador povoou o Século XX com guerras, consumindo a mão de obra masculina em conflitos inúteis. A saída para preservação da máquina civilizatória foi a aceitação da força produtora feminina que, uma vez organizada, se voltou contra quem lhe abriu espaço. A modernidade se tornou uma Era Frankenstein Social-Sexista. Mary Shelley adoraria ver isso...

- rsrsrs

- Mas concordo que culpar um não exime o outro. As responsabilidades devem ser divididas.

- Perfeito, e isso nos leva de volta à questão: como recuperar o equilíbrio? É possível? Quem sabe com tempo, estudos e discussões...

- Eu resumiria em Tempo. É um ciclo repetitivo este, mas que funciona sempre: as gerações futuras se ressentem daquilo que as gerações passadas demoliram, e então constroem uma versão mais ponderada do passado - não necessariamente melhor, mas certamente mais adaptada à satisfação dos desejos. Foi assim com a escravatura e a liberdade sexual. Será assim com a balança patriarcado-feminismo.

- Que venha o Tempo então.

- :)

DIÁLOGOS - PARTE I

- As pessoas se preocupam com o que não precisam e esquecem de se preocupar com o que deveriam.
- E com o que elas deveriam se preocupar?
- Você também não sabe?
- Hum... família? Saúde? Dinheiro? Sucesso?
- Não exatamente... Não é um monte de coisas, mas uma coisa só.
- Então "o quê" exatamente?
- As pessoas deveriam ter uma única preocupação: colocar a cabeça no travesseiro à noite com um PUTA orgulho do dia que viveram. Deveriam deitar a cabeça no travesseiro e pensar: "hoje ajudei, aprendi, amei, senti, ri, refleti, demonstrei força, honra e coragem, e pratiquei disciplina, sabedoria e gentileza... hoje eu arrebentei!". E o resto seria consequência. Só consequência.