03 agosto 2018

O CÉREBRO, O SELF E A ALMA*

A neurociência continua tentando determinar em que parte do cérebro a Identidade Pessoal se esconde. O Córtex Pré-Frontal lidera as apostas, mas a corrida está longe de terminar (14).  Não obstante, ao sediar anatomicamente a Identidade Pessoal no cérebro, a ciência introduziu alguns dilemas interessantes: como nos demais mamíferos, o cérebro humano é dividido em dois hemisférios - esquerdo e direito -, unidos principalmente por uma estrutura chamada Corpo Caloso. Ao longo da vida, 3% das pessoas serão afetadas por um transtorno onde um foco de neurônios “decide” disparar descargas anômalas que atravessam as centenas de milhões de projeções axônicas do corpo caloso, atingindo os hemisférios cerebrais como uma tempestade elétrica (15). Estas tempestades generalizadas manifestam-se como crises convulsivas e são conhecidas como Epilepsia.

Cerca de 30% dos portadores de Epilepsia sofrem com convulsões severas que não respondem a qualquer tratamento medicamentoso, levando uma vida miserável (15). Na década de 1940, neurocirurgiões americanos elaboraram uma alternativa para resolver este martírio: um procedimento cirúrgico paliativo denominado Calosotomia (1). Na Calosotomia, o corpo caloso é parcial ou totalmente seccionado, diminuindo ou eliminando o tráfego de impulsos cerebrais por esta via. Quando bem indicada e realizada de maneira precisa, a operação obtém um bom índice de sucesso no controle das convulsões (2,3). Entretanto, se a Identidade Pessoal depende do funcionamento do cérebro e o cérebro possui “duas partes”, quando separamos estas partes, a Identidade muda? Será que um cérebro dividido ao meio divide também a Identidade ao meio, ocasionando um corpo habitado por uma mente com duas Identidades diferentes?

Alguns pacientes submetidos à Calosotomia desenvolvem transtornos na fala, na visão, na orientação espaço-temporal, na memória de curto prazo e na coordenação motora (em um caso, uma paciente relatou que suas mãos pareciam discordar e competir entre si, tornando atividades tão banais quanto comer um sanduíche uma dança angustiante) (4). Felizmente, na maioria das vezes, estes desarranjos desaparecem com o tempo. Quanto à Identidade Pessoal, nenhuma alteração significativa jamais foi percebida (5,8).

A manutenção da Identidade Pessoal nestes indivíduos pode ser explicada por dois fatores. Primeiro: o corpo caloso certamente é a autoestrada inter-hemisférica mais movimentada, mas não é a única – muitos outros feixes de neurônios cruzam de um lado para o outro nas comissuras anterior, hipocampal, habenular, posterior e supra-óptica. Portanto, quando o corpo caloso é seccionado, o cérebro não é exatamente “dividido ao meio”. Segundo: pesquisas mostraram que, apesar de algumas funções específicas serem privilégio de um ou outro hemisfério, tudo indica que as operações cerebrais funcionem em um esquema de mutirão – por meio da neuroplasticidade, os comandos podem ser processados acionando-se qualquer área capaz de atender às necessidades do momento (13). A função do corpo caloso não é unificar a experiência da consciência entre os hemisférios, mas duplicá-la: a Identidade Pessoal não existe de um ou outro lado, mas em ambos os lados do cérebro, simultaneamente (6).

A história de “essa função ocorre do lado esquerdo; aquela função, do lado direito” é um mito famoso sobre a especialização cerebral, mas 99,9% desta concepção lendária não vai muito além disso – de uma lenda. Como mencionado, a secção do corpo caloso não redunda em duas Identidades Pessoais, mas na continuidade de uma consciência unitária que passa a perceber o mundo utilizando vias de informação mal-integradas (7). Além disso, mesmo removendo-se integralmente um hemisfério cerebral, a Identidade Pessoal não se altera (9,10). Mas aqui surge outra interrogação: se fosse possível pegar o hemisfério cerebral retirado de uma pessoa e transplantá-lo em um Receptor de corpo inteiro (por exemplo: alguém que sofreu morte cerebral, mas, fora isso, apresenta um corpo em boas condições de funcionamento), teríamos dois corpos com a mesma a Identidade Pessoal?

Para os partidários do discernimento científico, a resposta é simples: em um primeiro momento, antes que o paciente Receptor realizasse qualquer input de informação, ele e o Doador compartilhariam uma mesma e exata Identidade Pessoal. Assim que começassem as interações com o ambiente, essas Identidades iniciariam seu processo de divergência.

As experiências jamais são absolutamente idênticas para duas pessoas: ainda que se sentem bem próximas na hora do almoço, cada uma percebe o ambiente a partir de sua própria cadeira. Basta ver o que ocorre com gêmeos univitelinos: até onde os genes demandam, eles se parecem. A partir das fronteiras onde o mundo os influencia, eles destoam progressivamente, desenvolvendo suas próprias Identidades a despeito de serem 100% equivalentes em termos genéticos. Em nível anátomo-fisiológico, continuarão gêmeos; em nível sócio-econômico-cultural, formarão Identidades específicas. Um fenômeno análogo sucederia com nossos pacientes Meio-Cérebro Doador e Meio-Cérebro Receptor: eles começariam como Identidades iguais, mas logo se tornariam Identidades Ímpares, ainda que fundadas a partir de uma mesma base orgânica cerebral.

Todavia, para os adeptos da Identidade Pessoal Permanente – que acreditam que uma alma ou um self místico que ultrapassa a matéria é essencial para o funcionamento do corpo –, a situação se torna um pouco mais complicada.

Após o procedimento, o corpo do Receptor recupera a consciência. Ele acorda, abre os olhos, levanta-se e conversa – mas como isso seria possível, uma vez que a “alma” havia abandonado aquele corpo? Ou será que a “parte imaterial do Ser” ainda habitava o corpo do Receptor mesmo quando seu cérebro foi completamente removido, tendo sido reativada no instante que o meio-cérebro do Doador foi plugado ao sistema? Neste caso, um corpo decapitado ainda possui uma alma? Se positivo, até que ponto podemos ir desmembrando um corpo antes que a alma o abandone de vez? Como demonstrado pelas evidências da neurocirurgia (11,12), cada hemisfério cerebral possui uma cópia inteira de nossas Identidades. De que maneira o Receptor, ao despertar da anestesia, poderia recuperar sua Identidade anterior – jogada fora quando seu cérebro foi integralmente removido?

É óbvio afirmar que um corpo sem cérebro não pode ter atividade cerebral. Até onde vai o entendimento médico e legal, a ausência de atividade cerebral significa “morte”. Se “morte” também equivale à separação da alma do corpo, a partir do momento em que o cérebro do Receptor foi extraído (ou declarado “sem atividade”), seu corpo passou a ser um envelope sem Identidade, uma embalagem vazia, sem self e sem alma. Com o transplante de hemisfério, o “espírito vital” que agora o anima veio na bagagem do meio-cérebro do Doador? Neste caso, a transferência foi de 100% da alma do Doador, 50%, 30%, 10%?

Em um exercício de contemporização, vamos aceitar a suposição de que a “alma imortal” não reside exatamente no cérebro, mas apenas utiliza um corpo viável para se manifestar neste mundo. Considerando que a Identidade Pessoal está sempre mudando de desejos, métodos e valores, sofrendo progressos e decrepitudes Morais ao longo da vida, quais partes desta construção deveriam ser mantidas para que a Identidade do espírito original do paciente Receptor, doravante despido do corpo, corresponda a alguém que ele reconheça como a pessoa que se tornou antes de partir para o além-túmulo? (16)

Finalmente, ao ver o paciente Doador e o paciente Receptor disparando um para cada lado, como reagiria um devoto do sobrenatural se recebesse a ordem: “Pegue aquele que tem a alma inteira!” – atrás de quem ele diria?

Deixo a solução destas dúvidas a cargo dos pensadores que consideram a Metafísica um assunto “válido”. Eu não sou um deles.

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*(Parte integrante do livro "Sobre a Natureza e a Crise da Moralidade', em edição).

Referências Bibliográficas:

1. Van Wagenen WP, Herren RY. Surgical division of commissural pathways in the corpus callosum – Relation to spread of an epileptic attack. Archives of Neurology and Psychiatry. 1940; 44:740-9.
2. Wilson DH, Reeves A, Gazzaniga M, Culver C. Cerebral commissurotomy for control of intractable seizures. Neurology. 1977 Aug;27(8):708-15.
3. Asadi-Pooya AA1, Sharan A, Nei M, Sperling MR. Corpus callosotomy. Epilepsy Behav. 2008 Aug;13(2):271-8.
4. Cendes F, Ragazzo PC, Da Costa V, Martins LF. Síndrome de Desconexão Inter-hemisférica após calosotomia total associada à comissurotomia anterior para tratamento de epilepsia resistente - relato de um caso. Arq Neuro-Psiquiat. 1990; 48(3):385-388.
5. Puccetti R. Brain Bisection and Personal Identity. Br J Philos Sci 1973 Dec; 24(4):339-355.
6. Puccetti R. The case for mental duality: Evidence from split-brain data and other considerations. Behavioral and Brain Sciences. 1981 Mar; 4(1):93-99.
7. Pinto Y, de Haan EHF, Lamme VAF. The Split-Brain Phenomenon Revisited: A Single Conscious Agent with Split Perception. Opinion. 2017 Nov; 21(11):835-851.
8. Yun-Jeong Lee et al. Long-Term Outcomes of Hemispheric Disconnection in Pediatric Patients with Intractable Epilepsy. Clin Neurol. 2014 Apr;10(2):101-107.
9. Sean M. Hemispherectomy in the treatment of seizures: a review. Transl Pediatr. 2014 Jul; 3(3): 208–217.
10. Schusse CM, Smith K, Drees C. Outcomes after hemispherectomy in adult patients with intractable epilepsy: institutional experience and systematic review of the literature. J Neurosurg. 2018 Mar;128(3):853-861.
11. van Empelen R et al. Functional consequences of hemispherectomy. Brain. 2004 Sep;127(Pt 9):2071-9.
12. Moosa AN et al. Long-term functional outcomes and their predictors after hemispherectomy in 115 children. Epilepsia. 2013 Oct;54(10):1771-9.
13. Krishnan SS et al. Neuroplasticity in hemispheric syndrome: an interesting case report. Neurol India. 2011 Jul-Aug;59(4):601-4.
14. Mark R. Leary, June Price Tangney. Handbook of Self and Identity. The Guilford Press (2012).
15. Protocolo de Diretrizes Terapêuticas. Epilepsia. Ministério da Saúde (2015). Acessado em http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2016/fevereiro/04/Epilepsia---PCDT-Formatado--.pdf
16. Eric T. Olson. Self: Personal Identity. In Wiliam P. Banks, Encyclopedia of Counsciousness, Vol. 2. Elsevier Academic Press (2009).

13 julho 2018

O QUE É PRECISO FAZER PARA O BRASIL IR PARA FRENTE?

Em A Riqueza e a Pobreza das Nações, David Landes argumenta que, embora os recursos naturais e a geografia sejam importantes para explicar por que alguns países são capazes de dar um salto para a industrialização e outros não, o fator-chave na verdade é a base cultural do país, especialmente o grau de internalização de valores como trabalho árduo, prosperidade, honestidade, paciência e tenacidade, assim como até que ponto o país está aberto à mudança, às novas tecnologias e à igualdade para as mulheres. A boa notícia é que a cultura não é apenas importante, mas pode mudar.

As culturas não fazem parte de nosso DNA: são produto do contexto de qualquer sociedade, incluindo fatores como geografia, nível de educação, liderança e experiência histórica. Quando esses fatores mudam, a cultura também pode mudar.

Em pouco mais de meio século, o Japão e a Alemanha passaram de sociedades altamente militarizadas a sociedades altamente pacifistas e democráticas. Durante a Revolução Cultural, a China parecia estar dominada por uma loucura ideológica; hoje a China é sinônimo de pragmatismo, competitividade e meritocracia. A cidade-estado árabe de Dubai usou seus petrodólares para construir o maior centro cultural, turísticos, de serviços e de computação do Golfo da Arábia. Ao mesmo tempo, tornou-se um dos lugares mais tolerantes e cosmopolitas do mundo – e os turistas nem sequer precisam de visto. Portanto, é claro que a cultura é importante, mas a cultura se assenta em contextos, não em genes.

Uma nação consegue organizar-se para este salto a partir de duas qualidades primordiais:

1) a disposição e a capacidade de unir-se e sacrificar-se em prol do desenvolvimento econômico, e

2) a presença de líderes com suficiente visão para perceber o que precisa ser feito e disposição para usar o poder na promoção das mudanças necessárias, em vez de enriquecer e preservar o status quo ou se deixar distrair pela ideologia e pelas rivalidades locais.

Todos querem desenvolvimento econômico, mas, para isso, é preciso desejar mudanças.


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*Adaptado de Thomas L. Friedman. O Mundo é Plano – uma breve história do século XXI. Ed. Objetiva (2005).


11 julho 2018

SUA MÃE E A RELIGIÃO*

Considerada a média de nossa espécie, existe apenas um indivíduo fisicamente saudável mais vulnerável que um exemplar do sexo feminino: este indivíduo é um bebê. Por isso, quando éramos bebês, o mundo inteiro representava um risco para nossa existência: escadas, tomadas elétricas, ventos frios, panelas de água quente, ruas movimentadas, andar de pés descalços, ofertas de pessoas estranhas, objetos estranhos levados à boca... bastaria uma queda de mau jeito ou um resfriado e estaríamos fritos!

Felizmente, para nos salvar de todas essas “potenciais catástrofes”, a maioria de nós contou com a presença sempre atenta de um anjo da guarda chamado de Mãe. Era dela a tarefa hercúlea de proteger a frágil cria do planeta que queria devorá-lo - ou pelo menos era assim que a Mãe enxergava o ambiente ao seu redor. Toda Mãe é assustada, apavorada e protetora. O medo está na raiz da sobrevivência humana e, quanto mais frágil o espécime, maior o medo. De um modo geral, mães com bebês novos são a dupla no topo dessa pirâmide de “terrores por acontecer”.

E de que maneira uma mãe protege seu bebê? Simples: dizendo “Não!”. E são muitos “Nãos!”. Estima-se que um bebê ouça sua mãe dizer “Não!” oito vezes mais que a ouve dizer “Sim!”: dados dos EUA calculam que um bebê terá ouvido sua mãe dizer “Não!” cerca de 40.000 vezes antes de completar 5 anos de idade, mas a maratona está longe de terminar no final dessa fase.

Qualquer que seja a estatística real, o fato é que ao longo de toda a infância vamos ouvindo: Não encoste aí, não ponha isso na boca, não toque, não corra, não suba na estante, não vá na parte funda da piscina, não mexa nisso, não chore, não ande descalço, não fique acordado até tarde, não atravesse a rua sem olhar para os lados, não converse com estranhos, não me desobedeça, não me responda, não me ignore, não solte minha mão, não suma, não faça pirraça, não seja mal educado, não entre aqui com os pés sujos desse jeito, não largue as coisas pela casa, não deixe seu quarto tão desarrumado, não saia sem colocar o casaco, não quero mais ver você andando com tal pessoa, não vê que eu só quero o seu bem?

A quantidade de negativas de uma mãe tende ao infinito, mas elas não estão de todo equivocadas: asfixias, acidentes de trânsito, aspiração de corpo estranho, afogamentos, queimaduras e homicídios figuram entre as principais causas de morte entre crianças. Dizer “Não!” pode salvar uma vida. E as mães sabem disso. Então elas dizem “Não!. Bastante.

Crescemos e ficamos com esta tradição em nossas mentes: Mães dizem “Não!”. E Mães nos amam, incondicionalmente – ou pelo menos este era o plano que a natureza tinha para a maternidade. Em geral, o plano funciona, e o amor de uma mãe é tão incontestável quando inabalável. Passamos a associar quem diz “Não!” a alguém que nos ama profundamente, que nos quer bem da maneira mais irrestrita possível, e nossa mente grava a ferro e fogo esta convicção: dizer “Não!” é uma manifestação de cuidado e afeto. Apesar de a adolescência representar um período de crise temporária nesta crença, a tatuagem mental do “Só alguém que lhe ama muito lhe diz Não!” sobrevive bem a esta fase. Nos tornamos jovens adultos e adultos maduros, e a tatuagem nos acompanha.

Por isso, as religiões AMAM tolher, coibir, obstar, opor-se. Elas buscam este imprint estigmatizado em nosso inconsciente desde a tenra infância: quanto mais impedimentos forem exigidos, tão mais aquela doutrina puxará de sua memória a impressão de alguém que lhe ama acima de todas as coisas. Um dogma religioso proibitório é nada além disso: a recuperação de ecos maternos para obter sua subserviência voluntária até mesmo – e, principalmente, inclusive - ao absurdo.

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*extraído de “Sobre a Natureza e a Crise da Moralidade”, em edição

02 julho 2018

A ETERNA REVOLUÇÃO BRASILEIRA

No livro Homo Deus (2015), o autor Yuval Noah Harari afirma que revoluções comumente são feitas por pequenas redes de agitadores e não pelas massas. Segundo Harari, se você quiser desencadear uma revolução, não se pergunte “Quantas pessoas apoiam minha ideia?”. A pergunta correta a fazer é: “Entre os que me apoiam, quantos são capazes de prestar uma colaboração eficaz?”.

A Revolução Romena de 1989 foi sequestrada pela autoproclamada Frente de Salvação Nacional, que era na verdade uma cortina de fumaça para a ala moderada do Partido Comunista. A Frente não tinha laços verdadeiros com as multidões em suas demonstrações. Integrada por funcionários de hierarquia média do partido, era chefiada por Ion Iliescu, ex-membro do comitê central do Partido Comunista e ex-chefe do departamento de propaganda.

Iliescu e seus camaradas na Frente de Salvação Nacional se reinventaram como políticos democratas: em todo microfone que estivesse disponível, proclamavam que eles eram os líderes da revolução, e depois usaram toda a sua experiência e sua rede de asseclas para assumir o controle do país e embolsar seus recursos.

Destino semelhante teve a Revolução Egípcia de 2011. O que a televisão fez na Romênia em 1989, o Facebook e o Twitter fizeram em 2011. As novas mídias ajudaram as massas a coordenar suas atividades, de modo que milhares de pessoas inundaram as ruas e as praças no momento certo para derrubar o regime de Hosni Mubarak. Contudo, uma coisa é levar 100 mil pessoas à praça Tahrir, e outra, muito diferente, é ter o controle da máquina política, apertar as mãos certas nos bastidores certos e tocar um país com eficácia.

Consequentemente, quando Mubarak foi deposto, os manifestantes não conseguiram preencher a lacuna. O Egito contava somente com duas instituições suficientemente organizadas para governar o país: o Exército e a Irmandade Muçulmana – que se apropriaram, sequencial e indevidamente, da revolução das massas.

O fim da Ditadura Militar no Brasil seguiu um roteiro parecido: não podemos creditar exclusivamente a Dante de Oliveira a proposta de restauração da eleição direta para Presidente da República, mas sua iniciativa ganhou repercussão por ter sido a primeira a não ficar restrita às paredes do Congresso Nacional, ganhando as ruas em um momento em que as manifestações pedindo a volta das eleições diretas se multiplicavam pelo país.

Receoso quanto aos acontecimentos, o presidente militar João Figueiredo exerceu uma forte pressão sobre os parlamentares do PDS (partido do governo) para que a emenda não fosse aprovada, mas o primeiro “comício oficial” pró-diretas reuniu 30 mil pessoas em Curitiba, em 12 de janeiro de 1984. No segundo evento, realizado na Praça da Sé no dia do aniversário de 430 anos da capital paulista, compareceram duzentas mil pessoas. Em abril do mesmo ano, o movimento de apoio às Diretas Já levou nada menos de 1 milhão de pessoas ao Vale do Anhangabaú.

Apesar do apoio de 84% da população, a emenda Dante de Oliveira terminou sendo rejeitada na Câmara, porém com consequências: vendo a oportunidade, a oposição articulou com parte da base governista que havia se mostrado insatisfeita com a rejeição da proposta e lançou Tancredo Neves (PMDB) como candidato às eleições indiretas. Tancredo ganhou o pleito, mas faleceu por problemas de saúde antes de tomar posse, e a Presidência da República foi assumida por seu vice, José Sarney – que fora presidente do PDS e apoiador do regime militar por 20 anos. No início de 1980, Sarney havia deixado o PDS, ingressando no PMDB. Em 2002, apoiaria a candidatura de Luís Inácio da Silva, vitorioso no pleito.

No intervalo entre o fisiológico Sarney e o socialista Lula, surgiria a figura do sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Em 1974, a convite de Ulysses Guimarães, FHC coordenou a elaboração da plataforma eleitoral do PMDB aos moldes da imagem do Partido Democrata americano. Com um discurso de esquerda, FHC se elegeria senador pelo PMDB, assumindo seu mandato em 1983. FHC atuou como líder do governo Sarney no senado até 1988 e como Ministro de Relações Exteriores e Ministro da Fazendo durante o governo seguinte, conduzido por Itamar Franco após o impeachment de Fernando Collor.

Vale mencionar que Itamar Franco, nosso 33º Presidente da República, pertenceu ao Partido Trabalhista Brasileiro na juventude, filiando-se ao PMDB, ao Partido Liberal (PL) e ao Partido Popular Socialista (PPS) a partir da meia idade.

O PTB foi fundado em 1945 sob a inspiração de Getúlio Vargas, tendo como ideologia o castilhismo gaúcho (“cabe ao Estado comandar, regenerar, transformar e modernizar a sociedade”), o positivismo político (Gramscismo na prática), alguns traços de social-democracia, e o pensamento de Alberto Pasqualini – considerado o maior ideólogo do PTB e um defensor ferrenho do monopólio estatal na exploração de petróleo. Refundado em 1980, o PTB coligou-se a outros partidos para apoiar as candidaturas à Presidência da República de FHC (1994, 1998), Ciro Gomes (2002), José Serra (2010) e Aécio Neves (2014).

Por sua vez, o PL surgiu da fusão do Partido Geral dos Trabalhadores com o Partido Social Trabalhista em 1985, fundindo-se então ao PRONA em 2006, originando o Partido da República (PR). Segundo um balanço do Tribunal Superior Eleitoral divulgado em outubro de 2007, o PR ocupava então a sétima posição no ranking de partidos com mais parlamentares cassados por corrupção desde 2000, atrás do DEM, PMDB e PSDB, PP, PTB e PDT.

Mais recentemente, o Brasil se viu novamente convulsionando com a “Manifestação dos 20 Centavos” ou “Jornadas de Junho”, em 2013, e os protestos em defesa da Operação Lava Jato e contra o governo da presidente Dilma Rousseff, em 2015. Ambas “revoluções” levaram milhões de pessoas às ruas e a pressão que produziram culminou com o impeachment de Dilma. Com seu afastamento, assumiu o vice, Michel Temer, filiado desde 1981 ao mesmo PMDB de Sarney, Itamar e FHC.

Apesar dos nomes diferentes – Itamar, Sarney, FHC, Lula, Dilma... – e de siglas diferentes - PMDB, PSDB, PTB, PT, DEM... - as ideologias em comando sempre apresentaram um fortíssimo viés de Esquerda. Para vencer esse bloqueio cognitivo, uma parcela considerável dos brasileiros agora nutre esperanças em um deputado federal eleito em 2014 pelo Partido Progressista (PP), uma legenda que surgiu de uma costura estilo Frankenstein juntando pedações da ARENA / PDS, do PDC / PPR, e do PST, entre outras influências, e tem Paulo Maluf como liderança mais conhecida.

Talvez para fugir do estigma Maluf, Jair Bolsonaro anunciou sua filiação ao Partido Social Liberal em 2014 – o oitavo partido político de sua carreira, desde que foi eleito vereador em 1989. Além do PSL, Bolsonaro já foi filiado ao PDC (extinto), PPR (extinto), PPB (extinto), PP (descrito acima), PFL (extinto e ressuscitado como DEM), PTB (viés de esquerda, como descrito acima), e PSC. Este último, curiosamente, ostenta a denominação Social Cristão por acreditar que o cristianismo, mais do que uma religião, é um estado de espírito que “não segrega e não exclui”, mas declara-se contrário ao casamento entre pessoas do mesmo sexo...  Coisas de Pindorama.

Com enorme tristeza, não é difícil perceber nesta longa dança de letrinhas uma enorme similaridade com a novela romena e o líder comunista Iliescu, ou com a revolução Egípcia e a Irmandade Muçulmana, além de tantos outros movimentos populares que buscavam justiça, segurança, educação e prosperidade.

Quando repetimos a pergunta revolucionária de Harari: “Entre os que me apoiam, quantos são capazes de prestar uma colaboração eficaz?”, a resposta da política brasileira parece ser: “Nós, os mesmos de sempre”.

CHEGOU A HORA DE SUPERAR O LULOPETISMO?

Nas sociedades que têm mais recordações do que sonhos, muita gente passa muito tempo olhando para trás. Veem dignidade, segurança, afirmação e valor não por procurar essas coisas no presente, e sim no passado. E mesmo assim, muitas vezes não é um passado real, mas um passado imaginado e embelezado. Com efeito, essas sociedades concentram toda sua imaginação em tornar esse passado imaginado ainda mais belo do que foi, e em seguida se aferram a ele como um bote salva-vidas ou um terço ungido por forças sobrenaturais.

A história deixa perfeitamente claro como o ex-presidente Lula explorou sem escrúpulos - e com óbvios objetivos políticos - as emoções despertadas por um Estado paternalista, capaz de cuidar de todas as esperanças do povo, prometendo-lhes ao mesmo tempo ônus algum por suas benesses. Ao fazer isso, o Lulismo não somente dividiu os brasileiros entre si, mas também separou o país de sua própria identidade. Seu governo transformou o Brasil no país que luta contra a fome e a desigualdade social não por meio do empoderamento de seus cidadãos, mas através da intervenção direta do Estado ao custo da autonomia do povo. Dizendo-se portador de uma nova esperança, Lula patrocinou a disseminação da indústria da indolência e tornou o país um campo de extrativismo da autocomiseração.

Para prosperar, um país, assim como seus lideres e seu povo, tem de ser sincero consigo mesmo e enxergar claramente qual o seu lugar em relação às forças que o movem e aos demais países. Nenhuma nação se desenvolve sem passar por esse raio X sobre onde está e quais são seus limites, e aqueles que perdem o bonde do desenvolvimento são um pouco como os bêbados: para voltar a existir, têm de aprender a ver-se como na verdade são. É preciso tomar uma decisão positiva de dar os passos certos - o desenvolvimento não é um acaso, mas um processo voluntário de ordem e progresso. E tudo começa por uma introspecção brutalmente sincera antes, durante e após o encontro com a urna. Somente nós podemos nos derrotar se esquecermos dos princípios que deram certo durante muito tempo em muitos lugares diferentes.

Nestas eleições, ou agarramos novamente o colar de contas fantasiosas da esquerda e retomamos o caminho para a Venezuela, ou assumimos a responsabilidade de imaginar um futuro melhor e agir para consegui-lo. Qualquer que seja o resultado, ele certamente será o definidor da mentalidade de toda uma geração.

CAPITALISMO VERSUS ESQUERDISMO*

Uma das consequências involuntárias da globalização do capitalismo é que ela coloca diferentes culturas e sociedades em contato direto muito mais amplo umas com as outras. Liga as pessoas entre si muito mais rapidamente do que estas e suas culturas possam estar preparadas para isso. Algumas culturas prosperam devido às repentinas oportunidades de colaboração que essa intimidade torna possível. Outras se sentam ameaçadas, frustradas e até mesmo humilhadas por esse contato estreito, o qual, entre outras coisas, facilita muito a percepção do lugar em que as pessoas se encontram no mundo em relação às demais. Tudo isso ajuda a explicar o surgimento de forças contrárias – como as ideologias de esquerda.

Por exemplo: quando esquerdistas olham para a riqueza de países capitalistas desenvolvidos, veem somente os aspectos que, aos olhos deles, tornam essas sociedades decadentes, promíscuas e “opressoras”. Eles não veem, e não querem ver, a liberdade de pensamento e de expressão, o poder de criatividade, o incentivo meritocrático ao empreendedorismo e o fomento aos avanços tecnológicos que tornaram esses países poderosos. Definem tudo deliberadamente como “luta de classes” e, para destruir o “poder das elites”, tentam atacar justamente aquilo que mantém as sociedades desenvolvidas, inovadoras e abertas: a confiança no capitalismo.

Sem confiança, não existe sociedade aberta, porque não existe polícia suficiente para patrulhar todas as aberturas. Sem confiança, tampouco pode haver livre comércio, porque a confiança permite derrubar muralhas, remover barreiras e eliminar atritos nas fronteiras. A confiança é essencial para o desenvolvimento do capitalismo.

Os esquerdistas estão convencidos de que “as massas” estão profundamente insatisfeitas com suas condições, e que um ou dois atos espetaculares contra os “pilares da opressão” os ajudarão a derrubar o “sistema burguês imoral” que impede o estabelecimento do paraíso proletário. Entretanto, basta consultar as inúmeras evidências históricas do século XX para perceber, com assustadora facilidade, que por onde quer que tenha passado a esquerda jamais desejou estabelecer um “paraíso proletário”, mas uma Tirania imperialista e censuradora aos seus moldes.

O fascismo e o marxismo-leninismo são oriundos da rápida industrialização e modernização da Alemanha e da Europa central, onde as comunidades que viviam em aldeias estreitamente vinculadas entre si e em famílias amplas foram repentinamente despedaçadas quando filhos e pais partiram para as regiões urbanas a fim de trabalhar para grandes firmas industriais. Nesta era de transições, os jovens, especialmente, perderam o senso de identidade, de enraizamento e de dignidade pessoal que as estruturas sociais tradicionais lhes proporcionavam.

Nesse vácuo espiritual e político apareceram Hitler, Lenin e Mussolini, que afirmaram a esses jovens possuírem a resposta a seus sentimentos de deslocamento e humilhação: “Vocês podem não estar mais nas aldeias e pequenos vilarejos, mas ainda são membros orgulhosos e dignos de uma comunidade mais ampla” (os oprimidos da classe trabalhadora ou da nação ariana, conforme o caso). No mundo muçulmano, Bin-Laden e o ISIS oferecem este mesmo tipo de resposta ideológica: “Está se sentindo frustrado? Una-se a nós! Nós lhe daremos um sistema através do qual poderá se vingar!” .

O esquerdismo não é fruto da pobreza material: ele é gerado pela pobreza de dignidade. Quando as pessoas se sentem humilhadas costumam reagir com energia e se entregam a extremismos, e então saem caminhando pelas estradas da vida procurando torres que possam destruir, porque não conseguem por si atingir aquelas alturas. Como a irracionalidade possui maior carga emocional e exige menos conhecimento e esforço, mais pessoas engolem o discurso de esquerda com maior facilidade. O que estes “aliciados” não percebem é que a incapacidade crônica que sofrem é produzida e mantida pelo sistema que defendem e prega a velha inverdade de que os “protege”.

A esquerda não precisa de investidores ou empresário, mas de recrutas, doadores e vítimas. O esquerdismo se alimenta da frustração e da humilhação de suas massas: findos estes sentimentos, a ideologia esquerda deixa de ser um abrigo sedutor. Quem tem um caminho para tornar-se um Homem ou uma Mulher dignos, geralmente se concentra nesse caminho para a realização de seus sonhos – mas quem não tem esse caminho, em geral se concentra em cultivar ira e sentimentos de vingança. Mantendo-se o povo sob uma nuvem de frustração, impedindo-o de crescer social e economicamente, e salientando energicamente, com uma guerra de ideias, a humilhação deste estado de penúria crônica, a esquerda angaria multidões com seu discurso de benefícios e privilégios. O que seria dela se essas emoções fossem substituídas por outras, mais livres, autônomas e objetivistas?

O capitalismo e a direita se nutrem justamente de emoções OPOSTAS àquelas da esquerda. Suas raízes estão no mérito e nas conquistas: quanto mais você busca conquistar o que deseja por meio de seus próprios méritos, mais à direita suas ideias se deslocam. Quem está ganhando dinheiro, sendo produtivo e elevando seu padrão de vida, não fica ocioso pensando: “Quem é o culpado disso que foi feito contra mim?” ou “Por que minha vida está tão ruim?”. As pessoas que vivem com esta mentalidade tendem a passar o tempo concentradas no que vão fazer e não em quem culpar.

Uma vez a favor do capitalismo e do livre mercado, você não mais quer que alguém simplesmente lhe dê a caridade de um abrigo, pois seu senso de “frustração e humilhação” foi substituído por uma profunda convicção de valor próprio. Tudo que você quer agora é advertir que unam-se a você ou saiam do seu caminho, pois irá avançar com toda sua potência. Essa é a mentalidade capitalista, e nada poderia ser mais ameaçador para o discurso auto-vitimista que sempre patrocinou a esquerda.

Como nação, possuímos todos os recursos necessários para a modernização e o crescimento em nossos próprios termos culturais, se estivermos dispostos a utilizá-los. Infelizmente, há uma forte resistência de cunho ideológico trabalhando contra esse avanço, uma resistência que luta para rebaixar todos ao mesmo nível ao invés de ELEVAR todos ao mesmo nível. Temos um povo cujos modelos de liderança são homens cheios de raiva e que agregam em torno de si jovens que passam boa parte do tempo imaginando como extravasar sua frustração e não na realização de seus potenciais.

Sabemos perfeitamente quais são as uvas azedas nesta sociedade de valores deformados. Resta saber agora de que lado você está.

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*Adaptado de Thomas L. Friedman. O Mundo é Plano – uma breve história do século XXI. Ed. Objetiva (2005).

28 junho 2018

POR QUE O BRASILEIRO RESISTE EM RECONHECER O VALOR SISTEMÁTICO DO MÉRITO?

Sou um defensor ferrenho da Meritocracia, mas frequentemente me questionam que "não há lógica em defender Meritocracia em um país desigual como o nosso".

Me pergunto: desigual em que?

1) Talento individual?
2) Esforço individual?
3) Disciplina individual?
4) Resiliência individual?
5) Oportunidades criadas por 1, 2, 3 e 4?
6) Leis específicas que privilegiam minorias sob a alcunha de "direitos contra a opressão"?

Então me informam que "os talentos individuais no Brasil são assassinado pela pobreza e falta de escola e oportunidades".

Bem, é o seguinte: talento sem esforço, disciplina e resiliência é praticamente inútil - exceto para ser utilizado como argumento para legitimar o autovitimismo. E quanto à falta de escolas, isso é uma falácia: anualmente, SOBRAM milhares de vagas nas Universidades Federais (https://www.google.com.br/amp/s/educacao.uol.com.br/noticias/2013/05/29/ate-maio-universidades-federais-ainda-tem-10323-vagas-sem-matriculas.amp.htm).

E o mesmo vale para vagas de ensino médio e fundamental (um exemplo entre vários: https://novaescola.org.br/conteudo/2976/sobram-vagas-em-escolas-publicas-de-areas-nobres).

O fato é que a pobreza auto-perpetua-se ao não reconhecer o valor intrínseco do Conhecimento e da Educação. É muito mais uma questão de Caráter e Escolha pessoal que exatamente um sintoma de "opressão social".

Sim, é um mundo duro e desigual com pessoas desiguais em suas forças e capacidades. Mas as oportunidades existem, se você se dispuser a abandonar o discurso de comiseração socialista pelas dificuldades à sua frente e arregaçar as mangas para lutar por cada uma das vitórias que lhe aguardam. Duvida?

https://www.google.com.br/amp/s/noticias.r7.com/sp-no-ar/fotos/ex-catador-de-lixo-se-torna-empresario-milionario-05042018%3famp

https://g1.globo.com/google/amp/g1.globo.com/ba/bahia/noticia/estudante-de-escola-publica-de-salvador-passa-em-1-lugar-no-curso-de-direito-da-ufba.ghtml

https://g1.globo.com/google/amp/g1.globo.com/educacao/noticia/aluna-de-19-anos-passa-em-1-lugar-em-medicina-na-usp-entre-cotistas-de-escola-publica.ghtml

https://educacao.uol.com.br/noticias/2014/07/25/pegava-livros-no-lixo-ex-catador-de-brasilia-conta-como-virou-medico.amp.htm

http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2017/02/estudante-da-rede-publica-passa-em-1-lugar-em-medicina-na-usp-e-unicamp.amp

https://m.folha.uol.com.br/amp/educacao/2017/02/1856050-negra-pobre-e-da-rede-publica-fica-em-1-em-curso-mais-concorrido-da-fuvest.shtml

http://m.pme.estadao.com.br/noticias/noticias,ex-morador-de-rua-supera-dificuldades-e-hoje-fatura-r-4-bilhoes,4922,0.htm

http://curiosamente.diariodepernambuco.com.br/project/brasileira-supera-pobreza-torna-se-phd-em-harvard-e-ja-acumula-56-premios/

http://g1.globo.com/educacao/noticia/2014/12/morador-do-capao-redondo-aluno-de-sp-e-aprovado-em-stanford-eua.html

https://g1.globo.com/google/amp/g1.globo.com/educacao/noticia/filho-de-diarista-e-de-vendedor-e-aprovado-na-universidade-yale.ghtml

http://g1.globo.com/educacao/noticia/2016/04/harvard-admite-dois-brasileiros-ex-alunos-da-rede-publica.amp

25 junho 2018

SOBRE O INTUICIONISMO*

*(extraído de Sobre a Natureza e a Crise da Moralidade, em edição)

"O Intuicionismo foi uma filosofia dominante na Inglaterra do começo do século XVIII até o final da década de 1930, caindo em desuso a partir dos anos 1940. Nos estertores do século XX, voltou a ganhar alguma notoriedade, principalmente a partir da disseminação das ideias de filósofos como Harold Arthur Prichard, George Edward Moore, William David Ross e Russ Shafer-Landau.

Apesar de seu viés aparentemente Realista e Consequencialista, o Intuicionismo surgiu em contraposição ao Utilitarismo de Bentham e Mill e à Deontologia de Kant. Mais modernamente, tornou-se um refúgio para aqueles que negam o valor do Realismo Moral Naturalista: os intuicionistas pregam que a Moralidade é autônoma e não pode ser completamente explicada em termos de propriedades Naturais. Os fatos Morais – as Verdades substantivas – são auto-evidentes e acompanham-se de uma intuição clara suficiente para justificar a crença. Para acreditar em um fato Moral, basta a ratificação da premonição de que tal arbítrio constitui um fato Moral. Este é o disparate defendido com unhas e dentes pelos mestres do intuicionismo. Duvida? Vejamos:

Prichard argumentou que toda a filosofia Moral repousa em uma sequência de erros, pois o Bom e Correto não depende exatamente do que deduzimos ser Bom e Correto. As obrigações Morais não podem ser alcançadas por meio de argumentos submetidos ao desejo ou à busca pela Virtude, ou mesmo através de raciocínios não-Morais (como a Ciência, por exemplo). Como o conhecimento da Moral é imediato, ele não precisa – nem mesmo deve – ser validado ou aprimorado por conhecimentos adicionais (1).

O britânico Moore também defendeu que o Bom e Correto é apenas uma ideia, assim como a cor amarela é apenas uma ideia. Não é possível explicar o que é a cor amarela para alguém que não a conheça de antemão. Da mesma maneira, para entender o que Bom e Correto, já devemos saber antecipadamente o que Bom e Correto representa – e esta conceituação pode ser apreendida consultando-se a intuição. Em outras palavras: Bom e Correto significa Bom e Correto e isto é tudo que precisa ser dito com respeito a este fato Moral (2).

Moore considerava o Naturalismo uma falácia, pois o Naturalismo propunha que os fatos Morais poderiam ser analisados em termos de propriedades físicas ou psicológicas que existem no mundo Natural. Para ele, Verdades substantivas são Verdades substantivas e pronto. Em caso de dúvida, consulte sua intuição e ela lhe dará a resposta. Moore era um professor universitário e suas ideias sobre o que é Bom e correto eram limitadas à sua tranquila vida acadêmica. Suas teorias nem de perto são úteis quando precisamos lidar com dilemas Morais sérios.

Um pouco mais Deontológico que Moore, o escocês William David Ross postulou que a “ordem Moral é tanto uma parte fundamental da natureza do universo como sua própria estrutura especial e numérica expressa nos axiomas de geometria e aritmética”. Apesar desse início sólido, Ross se uniu ao coro dos intuicionistas ao concordar que todos os fatos Morais podem ser conhecidos sem necessidade de qualquer argumentação, indício ou justificativa além de si mesmos: a dedução do fato Moral é apenas uma sensação que ocorre após sua imediata e automática apreensão pela consciência. Contudo, para Ross, esta intuição difere de uma crença, estando mais para uma percepção convicta: somos dotados de uma enigmática capacidade de perceber a obviedade de uma Verdade substantiva tão logo ela se apresenta diante de nós (3).

Finalmente, temos Shafer-Landau, professor de filosofia na Universidade da Carolina do Norte (EUA), um dos maiores defensores do Intuicionismo na atualidade. Como seus antecessores, Shafer-Landau insiste que os fatos Morais não podem ser reduzidos em termos Naturais: o Bom e correto não pode ser descrito em termos de prazer ou dor, tampouco pela conclusão de qualquer ciência Natural (como física ou biologia) (4). Para discerni-lo, basta-nos a revelação que ocorre por meio do faro hermético da intuição.

Em resumo: o Intuicionismo baseia-se na premissa de que todos os fatos Morais podem ser assimilados por meio da intuição. Intuitivamente, os intuicionistas aparentam estar certos: nossas investigações empíricas podem nos informar muitas coisas sobre o mundo, mas são incapazes de dizer se certos atos são certos ou errados, bons ou ruins. Por exemplo: tudo que a ciência pode nos dizer é que o sistema nervoso das lagostas é desenvolvido o suficiente para que elas sintam dor. O julgamento se é certo ou errado fervê-las vivas não cabe à Ciência. Como isso não pode ser determinado empiricamente, o melhor a fazer seria inquirir a intuição.

O problema é que os princípios Morais dos intuicionistas, por serem considerados auto-evidentes, prescindem de evidências adicionais – pelo menos segundo eles mesmos. Por que você acredita que a parede é branca? Porque ela parece branca. Por que você acredita que o sofrimento é ruim? Porque ele parece ruim. E daí em diante. Todavia, existem muitas verdades óbvias que não são auto-evidentes: a água é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio; o calor corresponde à intensidade de movimento das moléculas em um corpo; nosso sistema Solar é apenas um entre bilhões de outros sistemas estelares em nossa galáxia; etc.

Apesar das intuições oferecem boas justificativas para muitas coisas, elas não são capazes de fazer o mesmo com a Moralidade. Sem a validação por provas concretas, os equívocos intuicionistas tendem a se acumular assustadoramente: o fato de você ter uma tendência intuitiva para acreditar em algo não torna aquele algo verdadeiro. Ademais, em termos de julgamento Moral, a cultura nos levou a considerar intuitivamente algumas coisas como Boas e Corretas, mas isso não ocorre porque elas são Boas e Corretas per se, mas porque fomos influenciados pelo meio a considerá-las dessa forma.

Por exemplo: algumas tribos indígenas sacrificam um bebê gêmeo por considerar que a alma da criança está dividida entre dois corpos. Assassinando um dos irmãos, a alma poderá se reunir por inteiro no sobrevivente. A intuição deles diz que esta “verdade óbvia auto-evidente” é Moralmente correta. Nossa intuição diz o contrário.

Outro exemplo: Hitler e os nazistas podem ter achado óbvio que sufocar crianças e mulheres em câmaras de gás era uma conduta notoriamente justificável per se; e, por ser óbvia, era crível; e por ser crível e óbvia, poderia ser considerada Moralmente aceitável.

Como animais, os humanos vêm “montados de fábrica” com um conjunto de percepções Morais que podem ser, inicialmente, consultadas por meio da intuição. Mas o progresso Moral depende de uma sofisticação nesta configuração inicial. Confiar este progresso à intuição individual - e não a um método específico como o proposto pelo Naturalismo - afasta o Intuicionismo de qualquer possibilidade de Realismo Moral. Ao admitir que o julgamento Moral é um processo cognitivo de sensibilidades e entendimentos subjetivos, o Intuicionismo assemelha-se muito mais a uma conduta Relativista fundamentada em argumentos motivacionais circulares: “porque tal coisa soa óbvia, eu acredito; e porque acredito, então tal coisa é óbvia; e por ser óbvia e crível, então tal coisa é um fato Moral justo e preciso”. Esse tipo de raciocínio torna a Verdade substantiva facilmente moldável ao que parecer mais conveniente no momento e, dada sua excessiva permissividade, a ferramenta demagoga do Intuicionismo pode ser empregada como legitimação para as maiores atrocidades.

Mesmo com estes malogros sobre a mesa, os intuicionistas insistem que os fatos Morais, a despeito de serem inatingíveis pela investigação empírica, seriam acessíveis diretamente através da intuição, sem necessidade de algum processo de raciocínio (5). Como explicitado, isso torna a concepção de Bom e Correto dos intuicionistas motivacional, indefinida e indecifrável.

Ao levantar uma aura de mistério em torno dos fatos Morais, pressupomos a existência de uma faculdade quase mística que nos permite apreender as Verdades substantivas: a intuição seria um sexto sentido capaz de nos conduzir à boa Moralidade. Com efeito, mais que um misticismo, o intuicionismo é insuficiente para explicar a mais simples discordância em ética: se eu penso que comer carne é errado por um instinto Moral, como posso convencer alguém que pensa exatamente o contrário e que também se sente justificado em acreditar nisso baseado em sua própria intuição?

Uma réplica intuicionista é que só deveríamos levar em consideração a intuição de pessoas ponderadas e bem educadas, pois somente essas intuições seriam confiáveis. A disfunção deste argumento é o seu caráter evidentemente circular: afinal, quem deve ser considerado “bem educado”? Somente aquelas pessoas que aprovam minhas intuições? Pode haver uma tendência, se pensarmos assim, de acusar de cegueira moral qualquer um que esteja em desacordo conosco.

Quando um intuicionista pondera sobre um assunto, a única coisa que ele tira de sua caixa de ferramentas intelectivas são seus sentimentos: sua noção de certo e errado corresponde a estados emocionais internos de aprovação ou desaprovação. Como então ele poderia sair de uma dedução subjetiva e chegar a um fato Moral objetivo? Uma intuição é uma inclinação para acreditar – e isso desmonta todo o mérito dela como um filtro irrepreensível para detectar a Verdade substantiva.

Algo é certo porque é certo ou apenas porque lhe parece certo”? Se a balança que será utilizada para averiguar a precisão do que é certo é algo tão etéreo, permissivo e variável quanto a intuição individual, como separar as Verdades substantivas de nossos medos, desejos e vieses culturais? A intuição nem sempre é clara e perfeita. Muitas vezes, é turva e obscura, e pode só tornar-se confiável a partir de um certo ponto de maturidade intelectual e Moral.

O fato de haver tanta discordância entre as pessoas sobre o que é uma Verdade substantiva sugere que a intuição é um método no mínimo falho por sua imensa versatilidade. Ademais, a ideia de que nosso entendimento de uma proposição auto-evidente é suficiente para acreditar pragmaticamente nela é de um Relativismo tão egocentrado que beira um transtorno psiquiátrico.

No final, para os intuicionistas, é a intuição que justifica o fato Moral, não o entendimento, a Ciência, a Lógica ou a Razão. Entretanto, as intuições Morais das pessoas são demasiadamente discrepantes para serem indicadores respeitáveis das Verdades substantivas: emoções, culturas, contextos temporais e outros fatores internos e externos manipulam nossa consciência com enorme facilidade. Sim, o humano é desonesto, manipula a própria consciência; é ingenuamente sentimental, fantasiosamente ébrio, inconstante em suas vontades e sem grandes tendências para a misericórdia. Traz consigo uma mente perturbada que emprega todas as forças e narrativas possíveis para alinhar suas verdades embutidas à realidade percebida – para então reclamar quando as dores do mundo lhe atropelam, mostrando que o que deveria ter sido feito era exatamente o oposto disso. Pois é a Realidade quem contém as Verdades substantivas e o Universo nunca existiu para satisfazer expectativas humanas.

Nossa voracidade imaginativa é uma piada ruim ou uma má poesia, e aceitar o pluralismo do Intuicionismo é uma tentativa hedonista e covarde de tentar blindar os dogmas filosóficos do escrutínio pela ciência. Pelo menos neste sentido o Naturalismo é um caminho mais desprendido e, porque não dizer, mais objetivo, prático, civilizado e honesto".

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Referências e Dicas de Leituras citadas

1. Prichard HA. Does Moral Philosophy Rest on a Mistake? Mind. 1912 Jan; 21(81):21-37.
2. George Edward Moore, Principia Ethica (1902).
3. David Ross, The Right and the Good (1930).
4. Russ Shafer-Landau, Moral Realism: A Defence (2003).
5. Silva MM. Moore e os intuicionistas contra o naturalismo. Ética, 16 de Julho de 2006. https://criticanarede.com/eti_aqa.html . Consultado em 25 de junho de 2018.

24 junho 2018

O ESQUERDISMO E O GRÁFICO DE NOLAN

O argumento que os sistemas políticos podem ser diagramados em dois eixos (um econômico, dividindo esquerda e direita; outro de liberdade pessoal, dividindo autoritarismo e libertarianismo) foi apresentado pela primeira vez pelo psicólogo Hans Eysenck no livro The Psychology of Politics (1954). A proposta de Eysenck levou a uma nova classificação político-econômica baseada em quatro quadrantes.

Em 1970, o gráfico de Eysenck foi aprimorado por Stuart Christie e Albert Meltzer no livro The Floodgates of Anarchy. Finalmente, em 1971, David Nolan publicou uma versão do diagrama em um artigo chamado The Case for a Libertarian Political Party, na edição de agosto da revista The Individualist, um periódico mensal da International Society for Individual Liberty. O diagrama se popularizou e passou a ser conhecido como Gráfico de Nolan.

Basicamente, o gráfico de Nolan divide os sistemas sócio-político-econômicos em dois eixos. O eixo horizontal refere-se ao grau de Liberdade Econômica: quanto mais liberdade econômica, mais para a Direita nos deslocamos no eixo horizontal. Quanto menos liberdade econômica, mais vamos para esquerda.

Em outros termos: quanto MENOR a presença do Estado na economia (ou seja: quanto MENOS impostos, MENOS interferências regulatórias sobre a disposição de mão de obra, MENOS gerência governamental dos meios de produção, MENOS controle público sobre a distribuição da riqueza e do que foi produzido, e MENOS restrições estatais ao livre comércio e à transferência de heranças), MAIS à DIREITA avançamos. Em resumo: no gráfico de Nolan, quanto MENOS estado, mais à DIREITA se desloca o vetor horizontal.

Por outro lado, quanto MAIOR a presença do Estado na economia (ou seja: quanto MAIS impostos, MAIS interferências regulatórias sobre a disposição de mão de obra, MAIS gerência governamental dos meios de produção, MAIS controle público sobre a distribuição da riqueza e do que foi produzido, e MAIS restrições estatais ao livre comércio e à transferência de heranças), MAIS à ESQUERDA avançamos. Em resumo: segundo o gráfico proposto por Nolan, quanto MAIS Estado, mais à ESQUERDA nos movemos no vetor horizontal.

Assim como proposto por Eysenck, o eixo vertical de Nolan relaciona-se à Liberdade Pessoal. Quanto MAIS liberdade pessoal (liberdade de expressão, de comércio e uso de drogas, ausência de serviço militar obrigatório, nenhum controle estatal sobre a vida privada), MAIS Libertário é o sistema político. Quanto MENOS liberdade pessoal (censura, guerra contra o tráfico, obrigatoriedade do serviço militar, regulamentação estatal sobre decisões que deveriam pertencer exclusivamente ao foro íntimo), MAIS Autoritário é o sistema político.

O grande, enorme, inadmissível problema com a popularização do Gráfico de Nolan foi a desonestidade de desvincular o Autoritarismo dos regimes de Esquerda. Observando superficialmente o gráfico, somos levados a acreditar que um governo de Esquerda pode ser compatível com um alto grau de Liberdades Pessoais – mas isso é uma falácia sem tamanho e nem de perto corresponde às evidências fornecidas pela realidade.

Primeiro: quanto mais para a Esquerda nos deslocamos no eixo horizontal, MAIOR deve ser o tamanho do Estado e seu controle sobre a economia. Como poderia ser possível isso ocorrer em um Estado que respeitasse 100% a liberdade pessoal? Como controlar a distribuição de mão-de-obra, por exemplo, e, simultaneamente, respeitar as decisões individuais sobre qual profissão seguir e onde trabalhar? Como um Estado de Esquerda poderia ter controle absoluto da distribuição de riqueza e, ao mesmo tempo, aquiescer com a concentração individual de renda? Como um Estado pode respeitar a Liberdade Econômica sendo ao mesmo tempo despótico sobre cada uma das escolhas pessoais que fazemos? A única maneira de o Estado ser maior – a única maneira de o Estado deslocar-se à ESQUERDA no eixo horizontal – é tornando-se cada vez mais Autoritário.

Segundo: quanto mais para a Direita nos deslocamos no eixo horizontal, MENOR deve ser o tamanho e a influência do Estado sobre a economia. Caminhando cada vez mais para a direita, MENOR é o Estado e mais libertária torna-se a sociedade. Como seria possível, à medida que DIMINUÍMOS a presença do Estado na economia, a extrema Direita ser representada por um Estado imenso? Seria como falar: quanto mais você comer os docinhos na mesa de aniversário, menos docinhos haverá na mesa. Se você finalmente devorar TODOS os docinhos, então a mesa ficará... CHEIA de docinhos! “Quanto mais diminuímos o tamanho do Estado nos deslocando à Direita do eixo econômico, chegará um momento extremo em que esta diminuição resultará em um Estado Absoluto e Autoritário”? Simplesmente não faz sentido.

A única maneira disso fazer sentido é se você observar o Gráfico de Nolan como uma tentativa maquiavélica de dissociar as ideologias de Esquerda de regimes totalitários como Comunismo, Absolutismo, Autoritarismo, Nazismo, Fascismo e outros.

Dentro das definições atualmente aceitas, Direita é MENOS Estado – e o extremo de MENOS Estado jamais será um “Estado Absoluto” que viola a soberania do indivíduo.

Esquerda é MAIS Estado. E o extremo de MAIS Estado simplesmente não tem como ser compatível, em qualquer dimensão imaginável, com um “Estado Libertário” que garante a autodeterminação.

Admitir qualquer conclusão fora disso é incongruência racional, dissonância cognitiva ou desonestidade ostensiva. Nolan estava errado. E seu erro – premeditado ou não –restaurou a convicção absurda de que o Socialismo-Comunismo pode de alguma maneira dar certo: tudo que precisamos é acertar a “dose” no eixo vertical.

Não, não existe um eixo vertical - a não ser que batizemos este eixo de Imbecilidade. Neste caso, sim, é possível admitir um eixo vertical no gráfico de Nolan, e sua extensão assume grandezas infinitas.