30 novembro 2017

AINDA SOBRE EDUCAÇÃO NO BRASIL

No primeiro dia de 2015, a presidente recém empossada Dilma Rousseff definiu o novo lema de governo: Brasil, Pátria Educadora. Curiosamente, em novembro do mesmo ano, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lançou seu relatório Education at a Glance.

O Education at a Glance é uma fonte validada de informações acuradas sobre o estado da educação em todo o mundo. Ele fornece dados sobre o desempenho das instituições de ensino; o impacto do aprendizado nos países; os recursos financeiros e humanos investidos em educação; o acesso, a participação e a progressão na educação; e a organização e o ambiente de ensino dentro das escolas.

No painel de 2015, a OCDE apontou alguns indicadores preocupantes no ensino brasileiro. Por exemplo: o nível de aprendizado médio dos estudantes em Ciência foi péssimo. Entre os avaliados, 82% ficaram entre o nível mais baixo de conhecimento e o nível 2 – o nível básico. A média da OCDE para esses grupos é de 46% no total.

Importante salientar que o nível 2 de aprendizagem em ciências é o mínimo necessário para se tornar um cidadão “crítico e informado”. Nesse nível, os estudantes começam a demonstrar as competências que vão permitir que participem efetivamente e produtivamente nas situações cotidianas relacionadas a ciência e tecnologia. Com 82% dos estudantes com nível baixo de conhecimento científico, não é preciso uma dedução complexa para calcular o naipe de raciocínio crítico que nossa população possui...

Em leitura, o Brasil ficou entre os 12 piores países, com uma média de 407 pontos - bem abaixo da média de 493 da OCDE.

Mas nosso pior desempenho geral foi em Matemática, disciplina em que ficamos entre os cinco piores países avaliados, com uma média de 377 ante uma média de 490 entre os países da OCDE. Basicamente, 70% de nossos estudantes estão abaixo do nível 2 em Matemática – que seria o mínimo necessário para que um aluno possa exercer plenamente sua cidadania. Em países desenvolvidos, como a Finlândia, a taxa de incapazes é de 13%.

“Países como a Colômbia e o México, que tinham resultados similares aos nossos, nos deixaram para trás. Portugal e Polônia, que também estavam próximos, deram um salto de qualidade e superaram a média da OCDE” – e estas não são palavras minhas. São da Secretaria Executiva do MEC.

NÃO É UM PROBLEMA DE QUANTIDADE...

Talvez o problema da qualidade da educação esteja nos investimentos, não? Talvez nós estejamos gastando pouco com isso...

Não, não estamos gastando pouco. O Brasil destina 17% dos seus gastos públicos à educação, do nível de educação básica à educação superior. Somente o México e a Nova Zelândia – ambos com 18% - destinam uma proporção maior dos gastos públicos às instituições de ensino.

Além disso, o gasto público em instituições de educação superior como percentual do gasto público total aumentou 49% entre 2005 e 2012, o que é bem acima do aumento médio da OCDE de 33%. O aumento foi ainda mais acentuado em instituições de ensino fundamental e médio. A proporção de gasto público nesses níveis aumentou 82% no mesmo período, o maior aumento entre todos os países e parceiros da OCDE com dados disponíveis.

Em 2012, o gasto público brasileiro em instituições da educação básica a superior representou 5,6% do PIB. Essa proporção é consideravelmente maior que a média OCDE de 4,7%, e é a quinta mais alta entre todos os países e parceiros da OCDE com dados disponíveis.

Neste ponto, vamos fazer um parêntese e supor o seguinte: eu lhe dei 30 mil reais e pedi que você comprasse um carro para mim. Trinta mil mangos não é uma fortuna, mas também não é de se jogar fora. Contudo, antes que você saísse, eu lhe passei algumas instruções específicas sobre a compra: com esse dinheiro, você deveria retornar trazendo um carro zero quilômetro, com direção hidráulica, automático, trio elétrico, teto solar, 6 air-bags e tração nas quatro rodas - com ABS.

Trinta mil não compram isso. Ainda que seja um dinheiro legal, é pouco para a qualidade definida para o produto. E aqui entra um dos problemas do nosso ensino. Ele não é tanto de quantidade dinheiro, mas de destino do investimento: os salários iniciais dos professores no Brasil são menores do que em outros países latino-americanos como Chile, Colômbia e México para todos os níveis educacionais, desde a pré-escola até o ensino médio.

No Brasil, um professor da rede pública ganha em média R$ 3,3 mil e nós, os hipócritas esquizofrênicos, alucinamos com a suposição de que uma mão de obra desse valor é capaz de ter o mesmo rendimento de um professor da Finlândia. É uma piada. O salário médio de um professor primário finlandês é de  3.132 euros mensais (cerca de R$ 12 mil). Professores do ensino médio recebem 3.832 euros e docentes de universidades ganham em média 4.169 euros por mês (R$ 16 mil).

Se você quer pagar R$ 3,3 mil por um carro, não se surpreenda quando ele não tiver o rendimento de um veículo 5 vezes mais caro. Por R$ 3,3 mil mensais você não compra o direito de possuir uma Ferrari, ainda que os delírios anotados na Constituição Federal e as crenças socialistas-comunistas de banânia tentem lhe convencer do contrário.

Como diz a expressão americana da década de 1930: Não existe essa coisa de almoço grátis. Se você quer qualidade, pague por ela. Ou faça alguém pagar.

... É UM PROBLEMA DE VALORES

Além da montanha de dinheiro investido em educação não ir para o bolso de quem faz a diferença – professores -, há ainda o problema do desinteresse comatoso da população brasileira, que não vê no estudo e no aprendizado um valor intrínseco, mas apenas uma forma para ganhar dinheiro.

Nós não estudamos para aprender. Dizemos o oposto disso apenas como uma maneira dissimulada para ocultar o real motivo pelo qual estudamos: o brasileiro estuda para ganhar mais dinheiro. Transformando o dinheiro - e não a aquisição de cultura e saber – na finalidade do processo escolar, nosso povo deixou de enxergar a educação como algo nobre. Estudar e aprender viraram ferramentas que podem ser indesejadas sem penalidade.

Está tudo bem não estudar caso você esteja satisfeito em levar uma mais simples, certo?

Não, não está.

Em 2013, 54% dos adultos com idade entre 25 e 64 anos não tinham completado o ensino médio no Brasil - o que é consideravelmente maior que a média OCDE de 24% -, e quase dois terços dos jovens de 15 a 29 anos não estavam estudando.

No meio dessa massa de analfabetos funcionais, existe uma multidão absurda que compõe um grupo conhecido como “NEM-NEM”: gentes que nem estudam nem trabalham. Essa multidão - mais de 20% dos indivíduos de 15 a 29 anos - equivale a uma manada de 10,2 milhões de inúteis que a população economicamente ativa deve literalmente carregar nas costas.

A saída para a Educação no Brasil é como a saída para a Saúde, para a Segurança Pública, para o sistema Previdenciário, para a Burocracia e tudo mais que entrava esse país: a saída passa por uma discussão dura, franca, grosseira e com todos os nomes aos bois e palavrões a que se tem direito sobre o que está ocorrendo aqui. Sem espaço para comportamentos de vítima, mecanismos de projeção de culpa, corporativismos cor-de-rosa ou cunhadismos indecentes.

Ou levamos essa joça a sério, ou nos tornamos perpetuamente aquilo que já somos: um bando de sonâmbulos sem competência sequer para limpar o próprio traseiro sem uma ajudinha do Estado.


SOBRE NOSSO SISTEMA EDUCACIONAL

O academicismo preciosista brasileiro matou a Academia. Leia a biografia de Einstein, Leeuwenhoek, Newton, Darwin e Ignaz Philipp Semmelweiss, por exemplo, e veja que títulos eles possuíam quando produziram conhecimentos que mudaram o status quo.

Da mesma forma como o governo é o problema do país, os professores (e sua busca por titulações apenas para aumentar salários e não a eficiência do ensino) são o problema do sistema educacional: 50% dos profissionais da área sofrem de algum transtorno mental comum (aí inclusos síndrome de burnout, transtorno da ansiedade, depressão, bipolaridade e síndrome do pânico). Na população geral, a prevalência é de 20%.

Muito mais que a remuneração, precisamos melhorar a seleção de quem vai para as salas de aula. Depois de 30 anos, é perceptível que filtrar a admissão por credenciais acadêmicas e ideologias socialistas não produziu bons resultados: ostentamos a nada honrosa 60.ª posição no ranking mundial de educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No estudo da OCDE, foram avaliados 76 países - um terço das nações do mundo - por meio do desempenho de alunos de 15 anos em testes de Ciências e Matemática.

A mudança de filosofia deveria começar pela desconstrução da ideia por trás da valorização do ego academicista. Precisamos trocar os silogismos sofistas vitimizantes de nossas escolas por conteúdos técnicos focados em objetivismo, cidadania e responsabilidade resiliente. Apenas assim será possível observar alguma mudança efetiva daqui algumas décadas.

28 novembro 2017

VAMOS FALAR DE ARMAS

Toda vez que ocorre algum tiroteio nos EUA, os acéfalos da elite intelectual brasileira correm em debandada para atacar a personalidade belicista daquele país, contrapondo-a a culturas mais “pacifistas” no mundo: em menos dez minutos, alguém saca um levantamento sobre mortes por armas de fogo no Japão para exemplificar de que maneira o controle de revólveres, pistolas, espingardas e afins é capaz de derrubar os homicídios causados pelo mau uso destas ferramentas.

Contudo, basta apresentar os dados brasileiros para qualquer acadêmico ficar sem argumento. Por aqui, o controle de armas LEGAIS é tão rigoroso quanto o japonês, mas temos quase o dobro de homicídios que os EUA - onde você compra uma 9 mm no Wal Mart.

Se quiséssemos mesmo falar de armas com a intenção de poupar vidas, não estaríamos falando de armas. Mas vamos fingir que este seja o caso:

É FÁCIL TER UMA ARMA NO BRASIL?

Para adquirir uma arma de fogo de uso permitido (são armas de fogo de uso permitido aquelas que se enquadram no disposto no art. 17 do Decreto nº 3.665/2000 – R-105. Ex: Revólver calibre.38 SPL, pistola calibre.380 Auto, espingarda calibre 12.) para defesa pessoal, o cidadão brasileiro deve demonstrar à Polícia Federal que preenche os seguintes requisitos e apresentar os seguintes documentos:

a) idade mínima de 25 anos;

b) cópias autenticadas do RG, CPF e comprovante de residência;

c) elaborar uma declaração por escrito expondo os fatos e circunstâncias que justifiquem o pedido de aquisição de arma de fogo, demonstrando a efetiva necessidade;

d) comprovar idoneidade, apresentando certidões negativas criminais fornecidas pela Justiça Federal, Estadual, Militar e Eleitoral e comprovar, também, não estar respondendo a inquérito policial ou processo criminal;

e) ocupação lícita;

f) aptidão psicológica, que deverá ser atestada por psicólogo credenciado pela Polícia Federal;

g) capacidade técnica, que deverá ser atestada por instrutor de tiro credenciado pela Polícia Federal;

h) fotografia 3x4 recente;

i) entregar o requerimento de autorização para aquisição de arma de fogo preenchido (disponível no site do DPF);

j) pagar a taxa de emissão de certificado de registro de arma de fogo (R$ 60,00 – nos termos do art. 11, I e Anexo da Lei 10.826/2003), caso seja deferido o pedido.

Já em posse da autorização devidamente emitida pelo Departamento de Polícia Federal o cidadão poderá adquirir a arma de fogo em qualquer estabelecimento comercial  autorizado, no prazo de 30 dias.

Após adquirir a arma de fogo, deverá apresentar a nota fiscal emitida pelo estabelecimento comercial e o comprovante de pagamento da taxa de R$ 60,00 para, finalmente, requerer o registro da arma junto ao SINARM e a guia de trânsito para transportá-la até a sua residência ou local de trabalho.

O lojista somente entregará a arma ao novo proprietário se ele já estiver com o registro e com a guia de trânsito em mãos, ambos emitidos pela Polícia Federal.

Importante salientar que o registro de arma de fogo de uso permitido autoriza apenas a posse da arma, que deverá permanecer sempre no local registrado junto ao SINARM (residência ou local de trabalho quando titular ou responsável legal do estabelecimento ou empresa), com validade máxima de 3 anos podendo ser renovado sucessivas vezes desde que demonstre preencher novamente os requisitos supramencionados.

Em alguns debates, ao apresentar essas informações, o sujeito tenta esquivar-se dizendo que nos EUA as mortes por arma de fogo são "principalmente acidentais" ao passo que, no Brasil, são causadas por "guerra contra o tráfico e tals". Sim, eu tenho que ficar ouvindo esse tipo de bobagem...

A cada ano, armas de fogo respondem por 19 homicídios por 100 mil habitantes no Brasil (EUA = 3,5). Entretanto, diferentemente dos norteamericanos, não temos dados confiáveis sobre os agentes executores ou o contexto real do crime uma vez que apenas 5-8% dos nossos homicídios são elucidados.

O buraco sobre as mortes por arma de fogo é simples e raso: estes homicídios estão ligados ao baixíssimo nível de desenvolvimento humano de uma nação. É a pobreza que mata, não a arma.

CURVAS E PONTOS FORA DA CURVA

Como em toda regra, esta possui exceções que podem ser explicados por fatores culturais locais, como, por exemplo, Porto Rico (IDH alto e mesmo assim na lista dos 15 países mais violentos do mundo) e Butão (IDH baixo e mesmo assim na lista dos 15 países mais pacíficos do mundo).



Porto Rico enfrenta uma grave recessão econômica desde 2009, além de contar com uma população aparentemente preguiçosa - apenas 40% das pessoas na faixa economicamente ativa encontram-se economicamente ativas no mercado de trabalho. Junte-se a isso uma dívida pública federal correspondente a 93% do PIB e uma política de segurança pública negligente - protagonizada por uma queda de braço imbecil entre o Departamento de Justiça e a Polícia desde 2011, com o primeiro acusando o segundo de abuso de força em suas ações -, e voilà! temos a concretização de uma tragédia anunciada. O bom é que, como brasileiros, entendemos os anúncios dessa pantomima, pois vivemos o mesmo cenário aqui há décadas.

No caso do Butão, talvez a religião e a geografia guardem a resposta. Butão e Tailândia são os últimos reinos budistas do mundo, e ambos partilham taxas de homicídios por 100 mil habitantes similares às taxas europeias (Butão = 2,75; Tailândia = 3,51; Europa = 3,0) e equivalentes à metade das taxas de homicídio por 100 mil habitantes observadas no restante do sul da Ásia (6,0).

O Butão é um país bem miúdo (pouco mais de 790 mil habitantes), de relevo acidentado, cravejado de montanhas enormes e picos que atingem mais de 7.000 metros de altitude. Grandes aglomerados urbanos não fazem parte da demografia dessa nação que vem apresentando taxas de crescimento impressionantes: em 2007, o Butão teve a segunda economia com maior crescimento no mundo (22,4%). Apesar do índice de desenvolvimento baixo, o Butão se tornou uma micro-potência econômica nos últimos 10 anos.

Descartados estes e outros possíveis pontos fora da curva, terminamos com um rol representativo do argumento da pobreza como fator associado e causador da violência: o conjunto dos países mais violentos possui um IDH 20% menor que o conjunto dos países mais pacíficos.

MISÉRIA, MISÉRIA EM TODA PARTE

Para reduzir os homicídios no Brasil, não adianta falar de armas.

Tire as armas e a miséria coletiva irá trucidar-se com facas, fogo, machados, enxadas, porretes, automóveis, unhas, dentes, pedras, paus, chaves de fenda, palitos de dente, colherezinhas de café e o que mais estiver ao alcance.

Adicione as armas, e a miséria coletiva apenas ganhará um apetrecho adicional para o auto-genocídio em andamento.

Para reduzir os homicídios no Brasil, não adianta falar de armas. Devemos falar em melhorar a valorização da vida, quem sabe fomentando uma religiosidade nacional unificadora e um sentimento patriótico mais construtivo ao invés dessa dicotomização vingativa infantil do “nós contra eles”.

Devemos copiar a ideia de Gramsci e invertê-la, utilizando as mídias de massa como veículos para transmissão de uma moralidade positiva, agregadora, focada em prosperidade pessoal e compromisso coletivo, ao invés dessa relativização indulgente criminosa da ética que estamos vendo.

Devemos melhorar as escolas, adaptando o conteúdo do ensino fundamental para que ele de fato ensine algo de fundamental às crianças, ao invés de ideologias de gênero e técnicas improdutivas de vitimização ricamente ilustradas nas cartilhas do Estado.

E, finalmente, devemos melhorar o respeito à propriedade, com fiscalização eficaz do cumprimento das Leis vigentes e punição exemplar dos criminosos, reclassificando os crimes contra a propriedade como crimes hediondos, posto que a consideração com o espaço do outro vem na exata medida em que o desrespeito a este espaço passa a ser repreendido com veemência paradigmática. Sem a prerrogativa da propriedade, nenhuma sociedade é capaz de estabelecer qualquer bonança baseada em mérito e virtuosidade.

Abolidos o respeito e o direito à propriedade, somos reduzidos - respectivamente - ao comunismo (cujo odor de suas dezenas de milhões de vítimas oferece um discurso bem vigoroso quanto às suas mazelas intrínsecas) ou ao Paleolítico (onde os seres humanos viviam em paz com a natureza e morriam por volta dos 30 anos de idade).

Se quiserem falar de armas com a intenção de poupar vidas, não falem de armas no Brasil. Falem de Inteligência. Esta é a substância que sempre nos faltou.

18 novembro 2017

SOBRE UM DELÍRIO CHAMADO NOVEMBRO AZUL

Após receber toneladas de propaganda sobre as campanhas Novembro Azul, fiquei me perguntando: será que o screening para neoplasia prostática utilizando faixas etárias como linhas de corte produz alguma redução significativa na morbiletalidade da doença?

Não, não produz. E isso é o que dizem as evidências acumuladas a partir de metanálises e revisões sistemáticas da literatura.

Apenas para citar um exemplo de peso: segundo o NIH (Instituto Nacional de Saúde, entidade dos EUA equivalente ao nosso Ministério da Saúde), a dosagem periódica de PSA ou o exame de Toque Retal (TR) não é capaz de reduzir a mortalidade associada ao câncer prostático.

O que o conjunto dos dados embasados DE FATO mostra - e existem dezenas e dezenas de estudos sérios concluindo exatamente esta mesma coisa -  é que o screening populacional com PSA e/ou TR resulta em um exagero nos diagnósticos de câncer na próstata, além da detecção de lesões que, se não diagnosticadas, jamais causariam mal algum.

O excesso de diagnósticos e resultados falso-positivos leva à realização de exames adicionais (p.ex.: biópsia prostática) e tratamentos invasivos em homens que sofrerão, agora, as consequências desses danos desnecessários.

Mas as políticas públicas tupiniquins não são feitas com base em Ciência. Nunca foram. Elas são orquestradas com discursos paternalistas em nome de motivações essencialmente populistas. E, incrivelmente, aqueles que deveriam erguer suas vozes anunciando este descalabro, inacreditavelmente embarcam no delírio para - quem sabe - retirar dele algum brio e prestígio para seus egos.

Não temos um outubro rosa. Tampouco temos um novembro azul. O que temos são meses, anos, décadas do mais puro colorido psicodélico esquizofrênico que o mundo já viu do lado debaixo do Equador. E o surto de Gargamel sob efeito de cogumelos alucinógenos perseguindo Smurfs fantasiosos no bosque segue - com aval do Estado e sua corte de especialistas cegos, surdos e mudos.

SOBRE O MITO DA DOENÇA MENTAL

A partir da Segunda Guera Mundial, a medicina passou a definir a simulação de doença como uma doença em si. Isso equivale a dizer que uma boa imitação de uma obra-prima deveria, segundo aqueles novos conceitos, ser considerada uma obra-prima.

No caso da doença mental, essa redefinição arbitrária significou aceitar compulsoriamente que uma nota de dinheiro falsificada deva valer o mesmo que uma nota verdadeira - e as manifestações diversas de Fraqueza Moral finalmente receberam sua validação como Doença, sem a necessidade de sustentar sequer um substrato anatomo-fisiológico qualquer que lhe justificasse o título.

Nos últimos 60 anos, tudo que fizemos para resolver este problema foi afrouxar nossos conceitos de doença e de obra-prima, forçando a medicina a aceitar e tratar toda histeria - até as falsificadas - como se fosse uma moléstia crônica "ipso facto".

Travestida de "ciência", a condescendência mercantilista patrocinada por laboratórios farmacêuticos, prontamente abraçada por agremiações de "especialistas" e gratamente recebida por manadas de indivíduos masoquistas em busca de aconchego para suas carências e inépcias, rapidamente alastrou-se pelo mundo e produziu, até aqui, duas gerações inteiras de pessoas confortavelmente assentadas em discursos de autovitimização privilegiada.

E esta farsa sem fim segue firme e forte.

10 novembro 2017

A FUGA COTIDIANA DAS RESPONSABILIDADES


Uma adolescente entra no consultório acompanhada da mãe e o que se desenrola é o mesmo de sempre:

- Quero que o senhor peça um check-up dela.

- Algum motivo especial? Ela faz tratamento para alguma doença? Tireoide, asma, diabetes...

- Não, nada. Só quero fazer os exames de rotina.

Segue-se uma conversa sucinta e objetiva sobre antecedentes médicos da paciente, uma consulta ao prontuário e, enquanto preencho os dados dos exames, a mãe continua:

- E daria também para o senhor encaminhá-la para o psicólogo? Ela anda tendo uns problemas...

- Exatamente por que eu deveria encaminhá-la ao psicólogo?

- Porque ela anda difícil, rebelde, desobediente, às vezes chorosa...

- Não acredita que, antes do acompanhamento com um psicólogo, resolver essas situações de comportamento deveria ser um papel do pai e da mãe?

- Sou sozinha com ela, doutor. E já fiz de tudo para ajudar, mas não tá adiantando.

- Entendo. Mas não acha que levar sua filha ao psicólogo para resolver problemas de conduta é uma forma de transferir para o psicólogo a responsabilidade de criá-la, que deveria ser sua?

- Não.

- A senhora tem carta de motorista?

- Tenho, sim.

- Esse documento se materializou na sua carteira como um passe de mágica ou a senhora teve que estudar para consegui-lo?

- Estudei, fiz auto-escola, foi um sufoco!

- E diploma do ensino médio? A senhora tem?

- Tenho. Não fiz faculdade, mas terminei os estudos.

- Hum. Sou formado há 22 anos e ainda não terminei os meus... Mesmo assim: esse diploma também se materializou na sua gaveta de documentos ou a senhora teve que estudar para consegui-lo?

- Estudei, lógico! Não tem como aparecer um diploma de conclusão de curso sem fazer o curso.

- Certo. No último ano, quantos livros a senhora leu sobre como criar filhos?

- Hãn? – ela se surpreendeu, colocando a bolsa a tiracolo na frente do corpo.

- No último ano, quantos livros a senhora leu sobre como criar filhos?

- Nenhum.

- A senhora por acaso já se interessou em ler algum?

- Ah, há alguns anos até comecei um que não lembro o nome agora, mas larguei antes da metade.

- E a senhora acha mesmo que já fez “de tudo” para tentar entender o comportamento de sua filha e ser um exemplo para o desenvolvimento dela?

- Sinceramente, acho que sim. E não sei mais o que fazer.

- Que tal começar a ler sobre o assunto?

- Não sei... não vejo como isso iria ajudar muita coisa. – ela respondeu, cruzando os braços.

- E a senhora acredita que o espírito santo vai baixar na sua mente e por um milagre lhe iluminar sobre como agir para conduzir a formação da personalidade de sua filha?

- Ah, eu vou tentando do jeito que eu sei.

- Entendo. É o velho método de “tentativa e erro”. Mas, se a senhora está se queixando do comportamento dela, isso diz um bocado sobre o que está acontecendo com mais freqüência nas suas tentativas. E o que está acontecendo são erros.

- Não penso que estou errada.

- Então por que se queixa que as coisas não estão dando certo como gostaria?

- É essa geração...

- A senhora tem lido ou estudado alguma coisa sobre como lidar com essa geração?

- Não tenho tempo pra isso, doutor. Trabalho muito, sou sozinha e ainda mais com uma filha...

- Algumas dessas coisas lhe foram impostas? Ou são frutos de escolhas que a senhora fez até aqui?

- Só quero que o senhor encaminhe minha filha para o psicólogo e pronto. É pedir muito? – ela respondeu, visivelmente irritada e contrariada.

Abaixei a cabeça, peguei o formulário de encaminhamento, preenchi, assinei, carimbei e a dupla se foi. Provavelmente, semana que vem vou receber uma carta da Diretoria de Saúde comunicando outra  “sindicância instaurada sobre atendimento a partir de queixa do usuário”. Mais algumas e logo organizo um livro só delas - a coleção vai aumentando forte e saudável.

SOBRE ROSSEAU, O SOCIALISTA-PADRÃO

Em suas andanças, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), o garotão suíço esperto órfão de mãe que fugiu da escola, arrumou como amante uma rica senhora e, sob seus cuidados, desenvolveu o interesse pela música e filosofia. Amou-a durante alguns anos e outros tantos contos de réis e, quando a situação financeira ficou ruim, fugiu para Paris com outra amante cujo saldo bancário era mais compatível com seu apreço pelo ócio.

Instalado na França, Jean teve cinco filhos com sua amada parisiense. Muito diligentemente, tratou de colocá-los todos em um orfanato.

Apesar de seu contra-Iluminismo, Rousseau é tido em grande conta como um pensador de relevância para a modernidade. Mas, analisando seus escritos, é difícil encontrar alguma genialidade que não possa ser classificada como pura maledicência socialista.

Em O Contrato Social, Rousseau prega insistentemente a "liberdade". Entretanto, defende também a presença de um Legislador que possua uma “inteligência superior ”. Tal legislador teria uma das tarefas mais exigentes na sociedade: estipular regras e normas que limitam a liberdade de cada indivíduo em nome do bem desses. Haja incongruência...

Por tudo isso, Voltaire tem no mínimo um mérito incontestável: foi um crítico ferrenho do aproveitador Rousseau - um sujeito esquizofrênico e de atitudes dissociativas que nossa esquerda tupiniquim ama idolatrar.

06 novembro 2017

SOBRE RELIGIÃO E CIÊNCIA

Permita-me apresentar-lhe meu credo. Ele tem milhares de anos de desenvolvimento filosófico, mas só foi oficialmente inaugurado em 1620, por meio de uma obra extraordinária chamada Novo Organum, escrita por Francis Bacon.

Minha religião se chama Ciência. Sua linguagem é o Método. Seu ícone é a Curiosidade; seu único dogma, a Evidência demonstrável e reproduzível; e seu livro é a própria Natureza.

Enquanto a fantasia da fé mística é impulsionada por uma coletânea de elementos sobrenaturais ajuntados em uma procura incessante por conforto e propósitos, a Ciência tem como propulsora a busca pela Realidade, pelo discernimento da Verdade das coisas tal como elas existem - e não como gostaríamos que existissem.

Se você não é capaz de diferenciar entre o Real e o Imaginado, recomendo que experimente olhos científicos por um instante. As ilusões e os engodos fáceis irão se desfazer, e você entrará em contato com um mundo fascinante de transformações e possibilidades.

A Ciência é incrível, fantástica e deslumbrante. E, ao contrário da fé, ela FUNCIONA de fato e é capaz de produzir maravilhas - como o conhecimento honesto do mundo, do universo e do corpo que você habita.

Aceita fazer o teste?

04 novembro 2017

EDUCAR-SE É UM DIREITO OU UMA OBRIGAÇÃO?

Nos tímpanos da geração Mimimi, a palavra “direito” virou um modo eufemístico de designar a obrigação dos outros.

Conforme exposto por Olavo de Carvalho, "há décadas o Estado vem gritando nos ouvidos dos estudantes que a educação é um direito, e isso só os tem impelido a cobrar tudo dos outros — do Estado, da sociedade — e nada de si mesmos".

Cruzadas publicitárias que "enfatizam a educação como um direito a ser cobrado, e não como uma obrigação a ser cumprida pelo próprio destinatário da campanha, têm um efeito corruptor quase tão grave quanto o do tráfico de drogas: elas incitam as pessoas a esperar que o governo lhes dê a ferramenta mágica para subir na vida sem que isto implique, da parte delas, nenhum amor aos estudos, e sim apenas o desejo do diploma", escreveu o autor de O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota.

O resultado disso é fácil de ser aferido: o Brasil ficou na 60.ª posição no ranking mundial de educação em uma lista elaborada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) envolvendo 76 países - um terço das nações do mundo.

Não é de admirar: segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, o brasileiro lê em média 2 livros inteiros por ano. É isso que acontece quando o que deveria ser uma obrigação de cada um vira direito de todos - e dever de ninguém.

E se você se acha tão especial, inteligente e acima da média, que tal comentar citando os 3 (ou mais) livros inteiros que leu nos últimos 12 meses?

QUAL A SAÍDA PARA O BRASIL?

Apenas no PRIMEIRO trimestre de 2017, o Facebook registrou um LUCRO LÍQUIDO de R$ 10 bilhões.

Para efeito de comparação, isso é 3 vezes maior que o LUCRO LÍQUIDO SOMADO de 10 das maiores potências industriais brasileiras durante TODO O ANO de 2016:

1- Grupo Weg (R$ 1,117 bilhão)
2 - Votorantim Cimentos (R$ 600 milhões)
3 - Cristália (R$ 469 milhões)
4 - Mineração Paragominas (R$ 393 milhões)
5 - Natura (R$ 296 milhões)
6 - Rede Ipiranga (R$ 280 milhões)
7 - Mahle Metal Leve (R$ 150 milhões)
8 - Magazine Luíza (R$ 104 milhões)
9 - Furukawa (R$ 76 milhões)
10 - Cometc (R$ 25 milhões)

Enquanto nosso sistema educacional continuar sufocando a criatividade; a burocracia esquerdista, massacrando a capacidade de iniciativa; e os impostos, abortando o empreendedorismo liberal, continuaremos na liderança mundial dos índices de homicídios: nosso país, sozinho, responde anualmente por 10% de todos os assassinatos no planeta.

A fórmula não é mágica, tampouco é nova: o crescimento econômito baseado no desempedimento e valorização do mérito pessoal, com justiça efetiva protegendo a vida e a propriedade, é o único caminho para uma reforma social séria. Todo o resto é fanfarronice eleitoreira.

01 novembro 2017

A CLÁSSICA ANTIGUIDADE DO DELÍRIO

Existe um livro de 1841 chamado Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds (Extraordinários engodos populares e a loucura das multidões). Duvido um pouco que você sequer tenha ouvido falar dele... Há alguns anos, baixei o pdf, devorei a leitura das 499 páginas em um fim de semana, e dexei-o salvo na minha “nuvem”. Desde então, o revisito com uma certa periodicidade, como quem passa na varanda de um velho amigo para rir de alguma bobagem à toa.

Escrito pelo jornalista escocês Charles Mackay, a obra explora o lado ridículo de muitas crenças e convenções tais como alquimia, barbas e sua influência na política e na religião, caça às bruxas, cruzadas e duelos.

Entre os engodos populares, Mackay descreve a Mania das Tulipas (febre que acometeu a Holanda e terminou como uma crise em fevereiro de 1637), a quebra da South Sea Company (uma convulsão de imbecilidade do capitalismo que assolou a Europa em 1720) e a Companhia do Mississippi (mais ou menos uma versão Franco-Americano da South Sea).

Impossível não pensar no livro de Mackay quando você lê a história de Satoshi Nakamoto e sua criatura mais famosa, um certo BitCoin.

Os anos passam, algum conhecimento se eleva, alguma sabedoria nos ilumina, mas certas burrices inacreditáveis insistem em persistir. Se estivesse vivo, Mackay estaria agora mesmo tomando notas sobre Satoshi e preparando uma edição atualizada de seu excelente Madness of Crowds. Modestamente, eu sugeriria como título do novo capítulo: BitBubbleCoin, a virtual opera of the same fucking old mental disorder.


ALFABETIZAÇÃO PARA NEOPOLÍTICOS & VELHAS RAPOSAS NÉSCIAS


Para quem empacou no meio do caminho e ainda não conseguiu entender o que é ESQUERDA e DIREITA - e vive de argumentar contra tudo utilizando apenas retórica oca e jargões bobos -, aqui seguem algumas orientações bem básicas sobre ideologias políticas.

Se você concorda com elas, fico feliz. Que tal agregar mais valor a esse debate complementando as idéias expostas com as suas próprias?

Por outro lado, se você não concorda, fico ainda mais feliz! Mas, ao invés de torcer o nariz, que tal agregar mais valor a este debate colando SUAS DEFINIÇÕES? Mas entenda: definições são idéias que se erguem de pé, dignas, claras, límpidas, translúcidas. Definições não são convulsões de revolta vazia, ou xingamentos e ataques ao mensageiro (sério: atirar no mensageiro que traz uma mensagem que você não gosta é comportar-se feito uma criança que se joga gritando no chão do supermercado porque a mãe não quis comprar um doce. Você provavelmente já é um adulto, então seja mais que uma criança pirracenta).

Tudo pronto? Vamos lá:

COMUNISMO é uma doutrina social segundo a qual se pode e deve "restabelecer" o que se chama "estado natural", em que todos teriam o mesmo direito a tudo, mediante a abolição da propriedade privada.

SOCIALISMO refere-se a qualquer uma das várias teorias de organização econômica que advogam a administração e propriedade pública ou coletiva dos meios de produção e distribuição de bens, propondo-se a construir uma sociedade caracterizada pela igualdade de oportunidades e meios para todos os indivíduos, com um método isonômico de compensação. Atualmente, teorias socialistas são partes de posições da esquerda política, relacionadas com as atuações do Estado de bem-estar social.

Em resumo: COMUNISMO E SOCIALISMO são basicamente a mesma coisa, é a mesma velha ideologia de Esquerda - apenas com nomes diferentes. Ambos defendem um Estado gigantesco (para ser capaz de restabelecer o que chamam de “nosso estado natural”), paternalista (construção da sociedade através de “métodos isonômicos de compensação”), ideologicamente inimigo da propriedade privada e controlador da liberdade, das oportunidades, dos meios de produção e da distribuição de bens.

Estas seriam as bases conceituais de Esquerda. Então o que seria Direita? Simples: o diametralmente oposto à esquerda. Portanto, uma ideologia de DIREITA é aquela em que temos:

- Um Estado que aceita o fato de que nem todos terão o mesmo “direito” a tudo. Você não tem direito a ser rico ou feliz, ou ter um diploma universitário, um emprego ou um corpo sarado. É SEU dever esforçar-se por meio da sua vontade e do seu empenho disciplinado para atingir os objetivos que aspira. Satisfazer seus desejos e ambições não é – tampouco foi um dia - um dever do Estado.

- Um Estado que protege a propriedade privada.

- Um Estado que NÃO SE METE com a administração dos meios de produção e distribuição de bens. Não cabe ao Estado fabricar automóveis ou geladeiras ou microondas ou vender máquinas de lavar roupa ou celulares, do mesmo modo que não cabe ao Estado ser dono de rodovias, ferrovias, refinarias, portos ou aeroportos.

- Um Estado que não interfere na liberdade de mercado utilizando subterfúgios escusos e objetivos pífios escondidos sob a égide bacana de “método isonômico de compensação”.

- Um Estado que preserva a liberdade de idéias e expressão.

Ficou mais fácil entender agora que NUNCA tivemos um Estado de Direita nesse país?