31 maio 2018

O BRASIL DE 2018 E A ARTE DA GUERRA DE SUN TZU

Você acreditaria se eu lhe dissesse que A Arte da Guerra, um pequeno livro escrito há cerca de 2.500 anos, pode lhe ajudar a entender de "cabo a rabo" o Brasil de 2018?

Diz seu autor, o general Sun Tzu:

"Espere tranquilamente enquanto o inimigo está avançando e se esforçando. Esteja bem alimentado quando o inimigo estiver faminto: esta é a arte de poupar forças.

Evite interceptar um inimigo cujas bandeiras estão em perfeita ordem. Não ataque um exército mergulhado na tranquilidade e que exiba confiança: esta é a arte de estudar as circunstâncias.

Se o inimigo estiver tranquilo, ele deve ser atormentado. Se estiver bem provido de víveres, pode-se fazer com que ele fique esfomeado. Se estiver acomodado, force-o a se movimentar.

Mostre suas iscas e coloque o inimigo em marcha. Então, com um grupo de homens escolhidos, fique à espera.

Disciplinada e calmamente, espere surgir a desordem e o tumulto: esta é a arte estratégica do autodomínio.

Pratique o estratagema da dissimulação e será bem sucedido".

Após 2 anos consecutivos de retração do PIB, viramos 2017 com um crescimento de 1% - quase irrisório, mas que certamente nos deu um fôlego e mostrou. Neste mesmo período, tivemos uma queda da inflação de 9,28% para 2,46%; um crescimento da produção industrial de – 9,8% para + 0,8; um crescimento da balança comercial de 19 bilhões para 48 bilhões, e a volta da geração de empregos.

Faça um exercício de raciocínio e considere que você encara os indicadores positivos descritos acima como "soldados de um exército inimigo".

Vista os olhos de Sun Tzu e então observe a divulgação de conversas com empresários; os protestos contra a aprovação do PEC do Teto, da Reforma Trabalhista e da Lei de Terceirizações; e a greve geral de abril e de junho de 2017; e adicione as recentes paralisações dos caminhoneiros e a greve dos petroleiros, e me diga o que você vê.

SEU VOTO E O TAMANHO DO ESTADO BRASILEIRO

O lance é que:

- O funcionalismo público representa 11% dos empregos do Brasil E ISSO ESTÁ DENTRO NA MÉDIA MUNDIAL

- Apesar do Estado gastar uns 40% do orçamento com funcionalismo, isso corresponde a uns 12% do PIB nacional E ISSO TAMBÉM ESTÁ DENTRO DA MÉDIA MUNDIAL.

Então ONDE o Estado é "grande"?

Ele é ineficiente. Não grande. E, dentro de sua ineficiência, nosso Estado nutre:

1) Uma despreocupação quase criminosa com Justiça e Segurança: menos de 10% dos assassinatos são elucidados em um país que ocupa a 9a posição mundial em índice de homicídios, com 30,5 assassinatos/100 mil habitantes/ano. E isso porque nosso Judiciário é o SEGUNDO mais caro do mundo, consumindo anualmente 1,2% do PIB - perdemos apenas para El Salvador.

2) Um desinteresse quase patológico com a performance do Sistema de Ensino: 92% dos brasileiros entre 15 e 64 anos de idade são incapazes de demonstrar domínio sobre português e matemática, e a taxa de 8,7% de analfabetismo pleno na população acima de 15 anos (uma multidão de 13,2 milhões de pessoas!) nos coloca na 8a posição entre os países com maior número de analfabetos adultos.

3) Uma paixão quase sexual por intervenções na Economia: graças às ações do Estado - que, reitero, não é "grande", mas INEFICIENTE -, em uma lista sobre Facilidade de se Fazer Negócios envolvendo 189 países, somos o 116o. Em termos de Liberdade de Mercado, somos o 150o.

Será que nossos candidatos vão apresentar soluções razoáveis para isso durante a campanha OU apenas continuar exibindo os mesmos números?

28 maio 2018

SOBRE CAMINHONEIROS E A NOVA EDIÇÃO DE OUTONO DA PRIMAVERA ÁRABE BRASILEIRA

Nossa Primavera Árabe, pretensamente motivada pela "defesa" da Operação Lava Jato, se iniciou em 15 de março de 2015, convulsionando reentrantemente nas ruas de 337 cidades até julho de 2016, quando arrefeceu ao inferir que bastava-se em si mesma, pois "o recado estava dado". Agora, neste segundo capítulo movido a diesel e eixos suspensos, tentamos colar na tela das TVs e dos smartphones uma série exibida em 1972, no Chile.

Revoluções são assim, compartilham esses começos brandos e recorrentes como qualquer mesoapendicite, para então deflagrar um quadro séptico que só uma cirurgia amputadora resolve.

Foi mais ou menos um quadro inflamatório desses que acometeu a França entre 1789 e 1799, por exemplo, quando a turba liderada por Marat, Danton, Hébert, Saint Just e Robespierre custou literalmente a cabeça de Luís XVI em 1793. O Comitê de Salvação Política, de Robespierre, cobraria o preço de outras 15 mil decapitações (em uma conta mínima).

Curiosamente, Robespierre e Danton terminariam experimentando em 1794 o mesmo método de debate que haviam tornado padrão: a guilhotina. Como consequência da revolução pela abolição e substituição da monarquia, da aristocracia e da igreja por uma república democrática secular radical, os franceses produziram um governo ainda mais autoritário, militarista e baseado na propriedade, resultando na desastrosa ascensão de Napoleão Bonaparte como Imperador e, na sequência, na restauração da Monarquia e na adesão à Primavera dos Povos de 1848.

Dinâmicas similares puderam ser observadas nos desdobramentos do Porfiriato Mexicano instituído em 1876; da Revolução Bolchevique de 1917; da falta de opções que Hindeburg tinha para indicar ao cargo de Chanceler da Alemanha em 1932; da Revolução da República Popular da China de 1949;  da Revolução "popular" cubana de 1952; da libertação "democrática" do Camboja em 1975; do "livramento" do Iraque em 2006 (que substituiu Saddam Hussein por um braço do Califado Islâmico); do Chavo-Madurismo iniciado em 1999, e por aí vai.

Procure um país que tem o IDH em que você gostaria de viver e então me diga: como anda o respeito às Instituições, à Lei, à Democracia, à Liberdade de Mercado e ao CONHECIMENTO por lá? Uma dica: um finlandês - cujo país tem um IDH de meros 0,871 e ocupa a 26a posição em um índice de liberdade econômica envolvendo 180 países - lê em média 16 livros por ano... Agora procure um país onde você NÃO quer viver e me diga o resultado da análise dos mesmos itens.

Para qual país você acha que os "caminhoneiros" estão conduzindo você? Porque se você não está no volante, você não é motorista, brother: você é carga. Ou pista de manobra. E não se iluda sobre quem está ao volante. Como em um número de mágica, nada é o que parece a princípio.

Atente para o que escreveu David Hume, em 1740: "Se queremos governar um homem e induzi-lo a praticar uma ação, geralmente a melhor estratégia é trabalhar as paixões violentas em vez das calmas, dispor os objetos em situações que sejam apropriadas para aumentar a selvageria do arrebatamento, e dominá-lo antes por sua inclinação [à bestialidade] que por aquilo que vulgarmente se chama Razão".

SOBRE TRETAS E LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Estas palavras de Tácito significam: "Rara felicidade de uma época em que se pode pensar o que se quer e dizer o que se pensa".

Públio Cornélio Tácito ou Caio Cornélio Tácito (56–117 d.C.) é considerado um dos maiores historiadores que o mundo romano já produziu, sendo conhecido tanto por sua concisão e pela forma compacta de sua prosa em latim quanto pelos seus penetrantes insights sobre os jogos de poder na política romana de sua época.

Apesar de Tácito contar com apenas 12 anos de idade quando do falecimento de Nero, seus escritos sobre o período são um dos primeiros registros históricos seculares a mencionarem Jesus Cristo, que Tácito cita em relação às perseguições aos cristãos de Nero.

Ainda que você considere nosso país uma coleção de impertinentes vigilâncias da patrulha do politicamente correto, a verdade é que, nos dias correntes, dificilmente alguém irá lhe envenenar mortalmente ou lhe setenciar à fogueira, aos leões, ao suplício da crucificação ou a cometer suicídio em virtude de suas ideias ou palavras.

Não obstante, sua liberdade para opinar é a mesma liberdade exercida por quem discorda de você - e eliminar ou condenar a possibilidade de manifestação do discordante equivale a cercear a mesma liberdade que permitiu que você se pronunciasse inicialmente.

Neste sentido, Tácito certamente teria boas palavras sobre os dias que vivemos agora.

24 maio 2018

SOBRE O CRISTIANISMO

O vídeo é imperdível. Contudo, se você não domina bem o inglês, coloquei abaixo uma tradução livre das palavras de Sam Harris nesta apresentação extraordinária:

“O Cristianismo não oferece uma visão diferente da Moralidade. O ponto central do Cristianismo - ou pelo menos como ele se apresenta imaginariamente - é salvaguardar o eterno bem-estar das almas humanas. Deveríamos, antes, considerar as consequências de acreditar no quadro que a cristandade apresenta: anualmente, 9 milhões de crianças morrem antes dos 5 anos de idade.

Imagine o tsunami no Oceano Índico que devastou parte da Ásia em 2004, matando 250 mil pessoas. Nove milhões de crianças ao ano equivale a um tsunami desses a cada 10 dias, eliminando a vida apenas de crianças com menos de 5 anos de idade. São 24 mil crianças por dia, ou 1.000 por hora ou cerca de 17 a cada minuto. Isso significa que, antes de você terminar de ler este parágrafo, algumas crianças terão morrido em terror e agonia. Pense nos pais dessas crianças. Pense no fato de que a maioria destes homens e mulheres acredita em deus e está rezando, neste exato momento, para que deus poupe seus filhos e filhas. E suas preces não serão atendidas. De acordo com os cristãos, isso é parte do plano de deus.

Qualquer deus que permita que crianças sofram e morram aos milhões dessa maneira, e que seus pais e mães sofram dessa forma, ou não pode fazer coisa alguma para ajudá-los ou simplesmente não se importa com eles – basicamente: ou este deus é incompetente ou mau. E pior que isso: muitas dessas pessoas, talvez a maioria delas, irão para o inferno, pois estão rezando para o deus errado. Pense sobre isso. Não é exatamente culpa delas: elas apenas nasceram na cultura errada, onde receberam a teologia errada, e perderão a chance no Apocalipse.

Existem 1,2 bilhões de pessoas na Índia. A maioria destas pessoas é hindu ou politeísta. No universo cristão, não importa o quão boas sejam estas pessoas, elas estão condenadas. Se você está rezando para Hanuman, o deus macaco, você está condenado. Você será torturado no inferno pela eternidade. Mas existe ao menos alguma mínima evidência disso? Não. Simplesmente está escrito assim em Marcos 9, Mateus 13 e Apocalipse 14. Talvez vocês se recordem do que também está escrito do Senhor dos Aneis: quando os Elfos morrem, eles vão para Valinor, mas podem ressuscitar na Terra Média. Digo isso apenas para efeito de comparação sobre as coisas que podem estar escritas...

Então deus criou o isolamento cultural dos hindus. Ele engendrou as circunstâncias para que todos morressem na ignorância durante o Apocalipse. E então criou uma punição para esta ignorância – que é uma eternidade de sofrimento e agonia no fogo do inferno. Por outro lado, se você é um serial killer que estuprou, torturou e matou crianças a vida inteira, caso aceite Jesus no corredor da morte, você passará a eternidade no paraíso assim que for executado após sua última refeição. Algo que deveria ficar mais do que claro é que esta visão da vida não tem absolutamente coisa alguma a ver com Responsabilidade Moral.

Por favor, observem o padrão ambivalente que o cristianismo emprega para livrar deus de todo o mal. Somos informados que deus é amor, que deus é justo, que deus é intrinsecamente bom, mas quando alguém aponta evidências óbvias de que deus é cruel e injusto pois inflige tamanho sofrimento a pessoas inocentes, em escalas e com requintes de perversidade que embaraçariam qualquer psicopata, os cristãos nos dizem que “deus é misterioso” – e quem pode compreender a vontade de deus?

Ainda assim, é precisamente esta mínima compreensão da vontade de deus aquilo que os crentes empregam para estabelecer a vontade de deus como benevolente acima de tudo. Se algo bom acontece para um cristão, se ele se sente abençoado enquanto reza, ou percebe alguma mudança positiva em sua vida, então nos dizem que “deus é bom”. Todavia, quando crianças, às dezenas de milhares, são arrancadas dos braços de seus pais e morrem afogadas, nos dizem que “deus é misterioso”. É assim que se joga tênis sem a rede.

Digo-lhes que não é apenas cansativo quando pessoas aparentemente inteligentes falam dessa forma. É, acima de tudo, Moralmente repreensível. Este tipo de fé é uma representação perfeita de narcisismo. “Deus me ama, sabe? Ele curou meu enfisema e me faz sentir tão bem quanto estou cantando na igreja! E, no momento certo, deu um jeito do banco renegociar o financiamento da casa da minha avó”. Considerando todo o resto que este seu deus não realizou na vida de outras pessoas, considerando a miséria que ele impôs na vida de alguma criança indefesa neste exato instante, este tipo de fé é obscena. E dar-se o direito de acreditar em algo assim é recusar-se a racionar com honestidade ou importar-se minimamente com o sofrimento de outros seres humanos.

Se deus é bom e poderoso e amável e justo, e deseja guiar-nos moralmente por meio de um livro, por que nos deu um livro que concorda com a escravidão? Por que nos deu um livro que nos exorta a matar pessoas por crimes imaginários, como bruxaria? É óbvio que os cristãos oferecem uma saída para este dilema: eles dizem que deus não está sujeito aos mesmos deveres Morais que nós, portanto qualquer que seja a sua vontade, ela é boa. Qualquer genocídio que ele ordene, qualquer sacrifício, qualquer atrocidade torna-se intrinsecamente boa pois é uma “vontade de deus”.

O que este livro oferece são orientações sobre como desenvolver uma atitude psicótica ou como agir com traços de psicopatia. Atitude psicótica porque ele é completamente delirante: não existem razões para acreditar que vivemos em um universo governado por um monstro invisível que atende pelo nome de “yaveh”. E traços de psicopatia pois promove uma completa desimportância quanto ao bem estar dos seres humanos, racionalizando tão facilmente até mesmo o massacre de crianças.

Pense neste momento sobre os muçulmanos que estão explodindo a si mesmos em nome de deus, convencidos de que estão obedecendo à vontade divina. Em termos Morais, não há um só ponto que os cristãos possam dizer a respeito deste comportamento além do fato de que os muçulmanos estão rezando para o deus errado. Se tivessem o deus certo, então o que eles estão fazendo seria bom, de acordo com a teoria da “vontade de deus”.

Não estou dizendo que todos os cristãos ou todos os religiosos sejam psicopatas ou psicóticos, mas para mim este é o verdadeiro horror da religião: ela permite que bilhões de pessoas mentalmente sãs e perfeitamente decentes acreditem em coisas que apenas lunáticos seriam capazes de acreditar por si.

Se você acordar amanhã de manhã e enxergar algumas palavras escritas em latim sobre suas panquecas e acreditar que, com isso, elas se transformaram no corpo de Elvis Presley, qualquer um dirá que você enlouqueceu. Mas se você pensar mais ou menos a mesma coisa sobre um biscoito e o corpo de cristo, então você é um católico.

Eu não sou a primeira pessoa a perceber que apenas um deus que ama de modo bastante estranho faria a salvação depender de acreditar nele com base em evidências tão ruins. Se você vivesse 2.000 anos atrás, existiam evidências em abundância: deus estava por aí, realizando milagres. Mas, aparentemente, ele se cansou de ser tão solícito e agora temos este fardo enorme da improbabilidade da doutrina cristã. E o esforço para enquadrá-la segundo tudo que passamos a saber a respeito do universo e da origem da espécie humana apenas torna a tarefa de acreditar nisso tudo – em deus-pai, jesus e o espírito santo - ainda mais e mais difícil.

Segundo os cristãos, o cristianismo representa a verdadeira Moralidade deste mundo. Lamento se pareço ostensivo, mas entendam: o cristianismo é um culto que prega o sacrifício humano. Ele não é uma religião que repudia o sacrifício humano, mas que vangloria e celebra um sacrifício humano repetidamente. “Deus amava tanto o mundo que nos deu seu único filho”. A ideia é de que Jesus sofreu a crucificação para que nenhum de nós sofresse o inferno – com exceção daquele 1,3 bilhão de pessoas na Índia e bilhões de outros seres humanos ao longo da história deste planeta.

Esta doutrina é uma montagem de histórias terríveis, de ignorâncias científicas e barbáries religiosas. Viemos de ancestrais que costumavam enterrar crianças na fundação de suas construções novas como oferendas para seus deuses imaginários. Pense sobre isso: em um número considerável de sociedades, pessoas enterravam crianças como oferendas. Pessoas como nós! E elas faziam isso acreditando que este sacrifício evitaria que um ser invisível derrubasse suas construções. Foram pessoas assim que escreveram a bíblia.

Se existe uma religião menos Moral que o cristianismo, eu confesso: jamais ouvi falar a respeito dela”.

SOBRE A FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA

Costuma-se dividir a Filosofia em quatro períodos distintos:
1. Filosofia Antiga (subdividida em Pré-Socrática, Clássica e Helenística)
2. Filosofia Medieval
3. Filosofia Moderna (subdividida em Renascimento, Racionalismo Clássico e Iluminismo) e
4. Filosofia Contemporânea.

Na Filosofia Antiga, dentre os Pré-Socráticos, seis merecem algum destaque histórico:
1 - Tales (624-556 a.C.)
2 - Anaximandro (610-547 a.C.)
3 - Pitágoras (580-497 a.C.)
4 - Heráclito (540-470 a.C.)
5 - Parmênides (530-460 a.C.), e
6 - Protágoras (485-415 a.C.)

Sócrates nasceu em 469 a.C., quando Parmênides tinha 61 anos de idade e Protágoras, 16 anos. Portanto, Parmênides e Protágoras não são exatamente “pré-socráticos”, mas por conveniência considera-se assim.

O problema com os filósofos deste período é a absoluta falta de registros escritos relevantes de sua própria autoria. Por exemplo:

Nenhum dos escritos de Tales de Mileto sobreviveu até nossos dias. Ainda assim, existem fatos geométricos cujas demonstrações são atribuídas a ele, bem como a dedução de que “o mundo evoluiu da água por processos naturais”, a previsão de eclipses solares e experiências com magnetismo.

Anaximandro, discípulo de Tales, escreveu um livro (intitulado “Sobre a Natureza”), contudo esta obra se perdeu. Ainda assim, a ele são atribuídos a confecção de um mapa do mundo habitado, a introdução na Grécia do uso do Gnômon (relógio solar) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude. Também diz-se que Anaximandro acreditava que o princípio de tudo era o ápeiron - uma matéria infinita da qual todas as outras se cindem -, e que o mundo é constituído de contrários que se auto-excluem o tempo todo.

Tudo que sabemos de Pitágoras também se deve à tradição oral, pois ele nada deixou escrito. Ainda assim, atribui-se a ele a criação do nome Matemática e o argumento de que “a essência, que é o princípio fundamental que forma todas as coisas, é o número”.

Heráclito, que morreu após tentar se tratar de uma possível insuficiência renal ou insuficiência cardíaca congestiva mergulhando em um monte de esterco por orientação de um curandeiro, é creditado pelo aforismo “Panta Rei” (tudo flui) – que não é atestado nos fragmentos conhecidos da obra dele mesmo, podendo mais razoavelmente ser atribuído ao seu discípulo Crátilo. No final das contas, dos escritos de Heráclito sobraram apenas fragmentos, que geraram uma infinidade de obras explicativas.

O único trabalho conhecido de Parmênides é um poema, também chamado Sobre a Natureza (como o livro perdido de Anaximandro), que sobreviveu aos pedaços. Dos fragmentos, concluiu-se que Parmênides defendia três coisas: (1) a Unidade e a imobilidade do Ser (o Ser é uno, eterno, não-gerado e imutável); (2) que o mundo sensível é uma ilusão e não se deve confiar no que se vê; (3) e que a essência das coisas não muda.

Finalmente, sabemos de Protágoras mais pelo que Platão disse e de algumas referências de Aristóteles aos seus ensinamentos que dele mesmo. Existem notícias de que que deixou escritos dois livros: As Antilogias e A Verdade, dos quais é possível encontrar apenas citações e longas discussões a respeito.

Todos estes filósofos receberam os créditos de suas ideias através de registros Doxográficos. Doxografia consiste basicamente na opinião de terceiros e um terceiro pode creditar a você a opinião que bem entender, algo que é bastante prático: caso a opinião não tenha qualquer valia, o descrédito não é do outro, mas seu.

Observando com um viés de saudável ceticismo científico, a filosofia pré-socrática se assemelha a uma coletânea de mitologias. Algumas com fundamentos aproveitáveis, mas a maioria com valor apenas de registro histórico de que alguém - cuja identidade real deve ser considerada obscura por uma questão de honestidade intelectual - pensou certas coisas. Acreditar em Doxografia como referência autoral sugere uma ingenuidade quase religiosa.

Por tudo isso, estudar os pré-socráticos não significa estudá-los per se, mas simplesmente conjecturar a respeito do que foi conjecturado a respeito deles por terceiras ou quartas partes. Algo como fofocar a respeito da fofoca que você ouviu fofocarem algum dia, em algum lugar.

Em não sendo ideias com autores indubitavelmente identificáveis, caso você tenha algum interesse pelas percepções do período Pré-Socrático, me parece mais apropriado debatê-las como conceitos gerais e não especificamente como pareceres emitidos por um ou outro autor, visto que considerar cada um destes como instituidor legítimo dos entendimentos que lhes são atribuídos está mais para um ato de credulidade espiritual que qualquer outra coisa.

Acreditar que Parmênides ou Pitágoras disse isso ou aquilo é como debater sobre a análise sintática das frases ditas pela cobra que conversou com Adão no paraíso. Não é um exercício de filosofia como ciência, mas de filosofia como uma procissão de fé.

19 maio 2018

A ARROGÂNCIA É UMA VIRTUDE

Considero a Arrogância uma virtude por dois motivos: primeiro, ela exige que o Arrogante estude para evitar o constrangimento de ser rebaixado a um mero imbecil, algo que em geral ele teme mais que a própria morte.

Segundo, a Arrogância exige que quem se sinta incomodado pela soberba alheia estude ainda mais para destronar o arrogante original, tornando-se automaticamente mais arrogante que ele, pois não é possível arranhar um Arrogante atacando apenas sua pessoa. O Arrogante provavelmente sabe o que é uma Falácia do Espantalho - do contrário não seria um Arrogante de fato, mas apenas um idiota vítima de enfatuamento frívolo. O verdadeiro e bom Arrogante teme o apontamento de erros crassos em suas convicções, e por isso ele investiga, pesquisa, fundamenta-se solidamente.

No final, seja por um lado ou pelo outro, a Arrogância estimula a busca por conhecimento de um modo que a humildade e a modéstia (duas "virtudes" medíocres) jamais serão capazes.

Todavia e infelizmente, vivemos em uma sociedade que ama a preguiça e o autovitimismo, de modo que "humildade" e "modéstia" ocupam um lugar de destaque nas preferências coletivas. Exatamente por isso, na mesma intensidade em que aprecio a arrogância, desprezo a Humildade e a Modéstia.

A Humildade, um conceito bastante vendido pela subserviência cristã, não passa de uma aposta hipócrita na condescendência: demonstro ser "humilde" com os outros para que, no meu momento de fraqueza (sim, eventualmente um momento de fraqueza irá puxar seu tapete...), as pessoas sejam indulgentes comigo. Não piso nas cabeças alheias pelo simples motivo que espero que alheios não pisem na minha cabeça quando tiverem oportunidade. A humildade não nasce da bondade, mas do Medo - ainda que as pessoas tentem disfarçá-la com um chantilly de nobreza, confundindo-a com Respeito. Seja RESPEITOSO, HONRADO, mas não humilde.

A Modéstia é outra bobagem sem tamanho. Por exemplo: você recebe uma vista em casa e oferece uma xícara dizendo "Fiz esse café. Espero que goste...".

Se fosse eu, devolveria a xícara sem qualquer pudor.

A modéstia escancara seu descaso, sua apatia. Se você tivesse estudado sobre café, pesquisado o melhor grão, a proporção exata entre pó e água, a temperatura ideal para infusão, você teria oferecdo a xícara anunciando sem vacilar: "Tome, prove o melhor café da sua vida!". E, se acaso o outro fizesse cara feia, o problema seria o mau gosto do paladar dele, não de sua técnica apurada.

Ser modesto não passa de um pedido de desculpas pela falta de empenho ou pela sua incompetência mesmo, uma solicitação antecipada de clemência em vista de uma indesculpável ausência de zelo.

Modéstia e Humildade são sofás confortáveis dentro da sua zona de conforto. Apenas os inexpressivos aceitam repousar ali. Não deite nessa espuma.

Não seja Humilde. Não seja Modesto. Estude para ser Arrogante.

17 maio 2018

SOBRE OS ADULTOS-CRIANÇAS DE HOJE


Sabe o que o caso do médico que quebrou o posto de saúde; do assaltante que executou uma moça de 17 anos com um tiro na cabeça por não conseguir desbloquear seu celular; e do morador de rua que atirou uma barra de ferro contra um veículo, matando sua ocupante, têm em comum? Eu respondo:

A absoluta incapacidade dos adultos infantilizados de hoje em conseguir lidar com a Frustração.

Todas estas situações possuem o mesmo Leitmotiv, são todas sintomas da mesma doença mental: a de que você tem A OBRIGAÇÃO E O DIREITO de ser feliz.

Não, você não tem essa obrigação. Menos ainda este direito.

Vivendo em sociedade, sua obrigação é BUSCAR SER UMA PESSOA VIRTUOSA, demonstrando Força de vontade, Honra nos seus contratos e compromissos, Coragem ante à adversidade, Disciplina com suas metas, e Sabedoria com suas escolhas.

A felicidade, se houver, deve ser uma consequência da prática de suas Virtudes - e jamais a finalidade de suas ações.

10 maio 2018

DE UMA CONVERSA SOBRE OS CAMINHOS DA MEDICINA

Um conhecido Facebookeano me escreve sobre um post abordando Algoritmos Diagnósticos em Medicina:

“Claro que as tecnologias vão invadir cada vez mais nossa profissão e devemos estar sempre atualizados quanto ao seu uso, facilidade e praticidade para nós e para os pacientes. Mas reitero o poder do exame físico e do olhar clínico, da prática da conversa com o paciente. (Não acredito que) isso sejam dogmas a serem suplantados pelas tecnologias.”

Seguinte: barões do status quo também achavam que motores a combustão jamais substituíram cavalos e remos, que a iluminação por meio de velas era mais romântica e saudável, que vacinas eram venenos, que epilepsia era possessão demoníaca, que os alertas de William McBride sobre a Talidomida eram pânico, que a teoria dos germes de Pasteur e a Seleção Natural de Darwin eram balela, etc.

A medicina que praticamos não é intuitiva ou humanizada: ela é Medieval. Aceitamos Homeopatia e Acupuntura como “ciência”, acreditamos que 90% dos transtornos psicológicos são “doenças” e não problemas de comportamento ou falhas de caráter, e prescrevemos ansiolíticos fundamentados em uma hipótese há muito profundamente pesquisada – e jamais comprovada – de um mitológico “desequilíbrio da química cerebral”.

Aos colegas que realmente conjecturam que os dogmas mais caros da medicina irão resistir incólumes ao tsunami pós-moderno da Terceira Onda de Toffler, recomendo que estudem mais para além do campo restrito que a faculdade lhes doutrinou. Façam isso ou percam o bonde da história. E ele vem com tudo – e rápido.

CUBA, A FOME E AS NARRATIVAS DISSOCIADAS DA REALIDADE

Se o socialismo Cubano funcionou, por que ainda há tanta fome por lá?

Um estudo publicado em 2015 (Nutr Hosp. 2015;31(5):1900-1909) mostrou que, dos 1.905 pacientes admitidos em 12 hospitais nacionais entre os anos de 1999 e 2001, 41% sofriam de desnutrição. Um novo levantamento avaliando 1.664 pacientes entre 2012 e 2014 mostrou algo similar: cerca de 37% das pessoas internadas em Cuba apresentam desnutrição como um problema de saúde associado à causa primária de sua hospitalização.

É um tanto complicado encontrar dados sobre o estado nutricional dos cubanos sob a cortina de ferro de seus lares. Contudo, no momento em que são admitidos nos hospitais, o escrutínio científico permite vislumbrar um pouco da realidade por trás da utopia que a propaganda típica da debilmentalidade socialista-comunista insiste em alardear.

Para efeito de comparação, vale mencionar que, no Brasil, 48% dos pacientes hospitalizados apresentam desnutrição como co-morbidade (Nutrition. 2001 Jul-Aug;17(7-8):573-80.). Nos EUA, a desnutrição está presente em apenas 3,2% dos pacientes internados (JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2014 Feb;38(2):186-95.) – ou seja: o capitalismo malvado americano produz quase 10 vezes menos desnutridos que o paraíso justo e igualitário de Cuba.

Realmente, Cuba é um grande exemplo de filosofia de vida - um grande exemplo a ser evitado.

02 maio 2018

UM PRÉDIO QUE CAI: A REFORMA AGRÁRIA E A DESAPROPRIAÇÃO

Um prédio cai no centro da maior cidade do Hemisfério Sul e o assunto da reforma fundiária submerge do lodo. Somos o quinto país do mundo em extensão territorial, o sexto mais populoso e nono PIB do planeta. Por que não desapropriar logo os imóveis necessários e garantir teto para quem não tem teto?, perguntam as pessoas assombradas com os cadáveres soterrados pelos entulhos de 24 andares em chamas.

Vamos lá.

A primeira etapa para a desapropriação de um imóvel é a edição de um decreto do Poder Executivo, publicado no Diário Oficial, declarando a área de utilidade ou necessidade pública para fins de desapropriação. Na sequência, o representante do Poder Público encaminha uma carta convocando o proprietário do imóvel para tentativa de acordo ou entra em juízo com ação de desapropriação. Ocorrem então idas e vindas em busca de um valor satisfatório para a aquisição. Entretanto, caso o proprietário recuse a oferta do Estado, a desapropriação passa a ser judicial, ficando a cargo do Poder Judiciário determinar o valor justo pelo imóvel.

Durante todo o processo de desapropriação, não cabe discussão sobre o decreto expropriatório – ou seja, não se pode discutir a legalidade do decreto. Havendo embargos por parte do expropriado, o processo pode se desenrolar durante anos na Justiça. Obviamente, os custos do litígio e os valores pagos pela desapropriação são subvencionados pelo sujeito de sempre: o pagador de impostos.

Existem 400 milhões de hectares titulados como propriedade privada. Um dos maiores latifundiários que se tem notícia no Brasil, Falb Saraiva de Farias, alcançou a marca de 7 milhões de hectares de terra – um volume alarmante, sem dúvida alguma, porém 50 vezes menor que as extensões sob comando do Estado.

As Terras Públicas (propriedades da União) incluem áreas militares, terras indígenas e unidades de conservação e terras não destinadas, que são áreas ainda sem destino dado pelo governo. As Terras públicas não destinadas correspondem a 10% da área do Brasil (mais que as áreas de São Paulo e Minas Gerais somadas).

Se o território brasileiro consistisse apenas em suas Terras Públicas, ele teria 47% de sua área original - o equivalente a 3,9 milhões de quilômetros quadrados ou 350 milhões de hectares. Praticamente uma Índia.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, a União possui prontamente disponíveis algo como 4 milhões de hectares de terra - uma área quase igual à do Estado do Rio de Janeiro -, suficientes para assentar com folga todas as 60 mil famílias atualmente cadastradas no MST.

A União é a maior proprietária de terras do país. Se o Estado pretende algum tipo de reforma agrária, que tal começar cortando na própria carne ao invés de desviar dinheiro dos impostos para comprar ainda mais terras e imóveis? A resposta é simples: ele cultiva abertamente essas pretensões porque pode. Porque a mentalidade socialista-comunista entranhada no consciente do brasileiro médio não vê coisa alguma errada com isso.

O brasileiro médio contempla esse absurdo e batiza o estupro da propriedade privada como sendo alguma forma de “justiça social”. Do alto de sua tradicional iliteralidade  e do fundo de sua visão romântica e fantasiosa do mundo real, o brasileiro médio é um comunista geneticamente programado. Nasce com mentalidade comunista e morrerá com mentalidade comunista – sem perceber a dissonância cognitiva que existe entre o Estado mínimo que ele solicita na epiderme de sua ideologia hipócrita e o Estado imenso que ele defende com as unhas e os dentes de sua alma.

Sugerir reforma agrária por meio de desapropriações – sejam elas de prédios, terras ou banheiros - é apenas mais uma manifestação dessa incongruência míope que nos condena ao subdesenvolvimento há gerações. Para felicidade da maioria cega e voluntariamente semianalfabeta, ainda temos muitos edifícios para queimar.