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10 novembro 2014

Outubros são rosas?

© Alessandro Loiola

Depois de estudos e pesquisas e reuniões de grupos de especialistas e mesas redondas com desfiles de MsScs e PhDs e outros egos, vários governos – e o nosso incluído - concluíram que mamografias são úteis para evitar câncer na mama. E milhões de milhões de impostos passaram a ser investidos anualmente nessas campanhas.

Entretanto, o debate sobre a verdadeira utilidade das mamografias está longe de uma conclusão sumária. Inúmeros estudos (e foram muitos mesmo, pesquise e você verá) vêm mostrando que as mamografias anuais ou bienais não produzem qualquer benefício com relação ao Câncer na Mama – nem previnem, nem ajudam, nem melhoram o prognóstico. Na verdade, as mamografias só parecem produzir mais problemas.

Em um dos maiores e mais meticulosos estudos sobre mamografias, 90.000 mulheres canadenses foram acompanhadas por 25 anos e descobriu-se que os números de mortes por câncer na mama era o mesmo entre as mulheres que haviam feito mamografias em comparação àquelas que não haviam feito o exame.

Mas os exames preventivos cobraram seu preço: 1 de cada 5 tumores encontrados e tratados não representava risco para a vida daquela paciente, significando que elas receberam quimioterapia, cirurgia e / ou radioterapia sem necessidade.

A pesquisa foi publicada na edição de novembro (2014) do British Medical Journal:



Apesar das dúvidas, nenhuma nação teve ainda a coragem de suspender as mamografias periódicas. Nenhuma com exceção talvez da Suíça. Nos EUA, são realizados cerca de 37 milhões de exames anualmente, atingido ¾ das mulheres com 40 anos de idade ou mais. O custo? A bagatela 100 dólares por mamografia – agora multiplica isso por 37 milhões e me conta se esse dinheiro cabe na sua carteira. Mais de 90% das mulheres europeias com idade entre 50 e 69 anos de idade já realizaram pelo menos 1 mamografia em suas vidas. 
 
O fato é que a indicação de mamografia deveria ser discutida paciente por paciente, e não empurrada goela abaixo em escala populacional. O exame não reduz a mortalidade específica associada ao câncer na mama e não se mostrou superior ao velho exame físico de palpação.   
 
A política da mamografia precisa urgentemente ser revista. Os outubros não são rosas – mas deveriam ser.

07 outubro 2014

O ATAQUE DA URSA

© Dr. Alessandro Loiola


Uma das coisas que sempre tornavam o trabalho mais divertido no interior eram os vocábulos. Nada do estresse gratuito ou da neurose idiopática das grandes cidades. Nada disso. A rotina consistia em saber o nome do vizinho, comer um bolo de chocolate na praça aos domingos e chegar no posto de saúde bem cedo, no frio da manhã de segunda-feira, para descobrir um bule café cheiroso recém-passado brotando da copa.

- Pois não, seu Josemar, o que está havendo com o senhor hoje?
- Ah, doutor, eu tô tomando direitim os remédio da pressão. – Pega a sacola de plástico surrada e bem atada com um nó caprichoso e dela vai tirando e colocando sobre a mesa uma coleção de cartelas amassadas.
- Esse piquininim aqui ó, o Aécio (AAS, anticoagulante), esse outro Lazico (Lasix, um diurético) e o Colorama (Clorana, outro diurético) pra módi forçar a urina, mas vou falar pro sinhô, num ando me sentino muito bem não.

Sigo o exame enquanto ele desenvolve a história. Pressão ok, ausculta cardíaca ok, mas pulso com frequência levemente aumentada. Pulmões jóia. Bem hidratado, talvez um pouco pálido.
- O pobrema é que já tem uns dias que ando sem apetite e obrando (evacuando) escuro. Acho que a ursa tá atacada.
- Como?
- A ursa, médico.
- ?
E ele aponta para a boca do estômago.
- A ursa.
- Ah.... a úlcera!

A endoscopia mostrou realmente uma ursa atacada. Mordida, até. Uma ulceração havia se formado no começo do duodeno. Provavelmente desencadeada pelo Aécio. Não o político mineiro, mas o comprimidinho amarelo.

O AAS é um dos pequenos milagres da medicina. Diminui a incidência de complicações cardiovasculares em diabéticos, corta em até 50% o risco de morte em pessoas infartadas, além de reduzir a possibilidade de vários tumores (segundo alguns estudos atuais). Apesar disso tudo, o AAS é meio venenoso para os estômagos mais sensíveis. E esse era o caso da ursa do seu Josemar.

As úlceras podem se formar na mucosa do estômago, do intestino delgado ou do esôfago. O sintoma mais comum - uma dor tipo queimação na região do estômago – é causado pelo contato dos ácidos gástricos com a área ulcerada. A dor também pode ser percebida na parte de trás do osso esterno, durar de alguns minutos a várias horas, piorando com o estômago vazio e à noite, aparecendo e desaparecendo espontaneamente.

Outras manifestações das úlceras gastroduodenais incluem vômitos com sangue, fezes escurecidas, náuseas, diminuição do apetite e perda de peso.

Anos atrás, acreditava-se que o estresse e os alimentos muito temperados eram a principal causa das úlceras pépticas. Atualmente, sabe-se que a maioria das úlceras é causada por uma bactéria chamada Helicobacter pylori (H. pylori).

Diversos fatores podem desencadear ou colaborar para a formação das úlceras, tais como: uso regular de medicamentos antiinflamatórios (p.ex.: diclofenaco, aspirina, cetoprofeno, naproxeno e outros), cigarro (a nicotina aumenta o volume e a concentração do suco gástrico), bebidas alcoólicas (o álcool é um irritante para o estômago) e estresse (apesar do estresse por si só não causar úlceras, ele certamente contribui para o seu desenvolvimento).

O diagnóstico da úlcera é bem fácil (lógico, não sou quem vai ser submetido à endoscopia...) e, felizmente, o terapia é bem sucedido em mais de 95% dos casos.

A imensa maioria das úlceras é benigna, mas elas podem complicar com sangramento, perfuração ou obstrução intestinal. Se você sofre de úlcera péptica, procure atendimento médico com mais urgência caso apresente:
  • Fezes com sangue ou muito escurecidas e com odor fétido.
  • Vômitos insistentes ou com sangue.
  • Calafrios ou vertigens.
  • Perda inexplicável de peso.
  • Dor que não melhora com o uso dos remédios habituais.

Além disso, você pode ajudar no tratamento seguindo algumas orientações simples:
  • Não fume e limite o consumo de bebidas alcoólicas, chocolate e café. 
  • Não utilize antiinflamatórios sem a orientação de seu médico de confiança. 
  • Evite alimentos muito temperados, apimentados ou gordurosos, e faça refeições menores porém mais freqüentes. 
  • Se for descansar após uma refeição, repouse em uma posição recostada. Evite deitar de barriga para cima logo após comer.  
  • E retorne ao seu médico de confiança se a ursa voltar a rugir.

25 setembro 2014

Andropausa e Reposição de Testosterona: é seguro?

© Dr. Alessandro Loiola


Os níveis de testosterona reduzem progressivamente com o tempo, e uma porcentagem significativa de homens com mais de 60 anos de idade apresentam níveis sanguíneos de testosterona bem abaixo dos limites inferiores recomendados para homens entre 20-30 anos.

A Síndrome de Hipogonadismo Tardio – popularmente chamada de Andropausa - é uma síndrome clínica e bioquímica associada ao processo de envelhecimento e caracterizada por uma diminuição importante nos níveis de testosterona, além de muitas outras manifestações – incluindo uma grande perda de qualidade de vida.

Ao longo da última década, vários especialistas avaliaram os benefícios da Terapia de Reposição de Testosterona (TRT) em homens na Andropausa, incluindo seus efeitos sobre a libido, a performance sexual, o humor, a massa e a força muscular, a concentração de gordura corporal e a densidade mineral óssea. Permeando todos esses anos de estudos, houve sempre a preocupação de que a TRT pudesse aumentar o risco de crescimento exagerado ou mesmo câncer na próstata.

Pensando nisso, alguns pesquisadores realizaram uma extensa revisão da literatura identificando todos os estudos controlados e randomizados (ECR) envolvendo testosterona no tratamento do hipogonadismo. Foram encontrados 22 ECR, totalizando 2.351 pacientes que utilizaram TRT por meio de injeções, comprimidos ou adesivos transdérmicos. O resultado: menos da metade dos ECR relatou aumento da incidência de câncer prostático.

A despeito do método de administração, no curto prazo (menos de 12 meses), a TRT parece ser segura e não aumenta o risco de hipertrofia prostática ou desenvolvimento ou progressão de tumores na próstata, desde que o paciente seja cuidadosamente monitorizado para manter os níveis de testosterona dentro dos limites fisiológicos recomendados e faça dosagens periódicas dos níveis de PSA.

09 setembro 2014

SOJA PARA SUA SAÚDE

© Dr. Alessandro Loiola


Quando a primeira filha nasceu, minha esposa não teve leite suficiente para alimentá-la e fui encaminhado pelo pediatra à farmácia mais próxima para comprar uma lata de leite de vaca em pó. Voltei praguejando aos sete ventos pelo preço da lata – que, depois de aberta, mostrou ser ainda mais cara, pois metade era cheia de vento. Apenas a outra metade continha o famigerado pó.

Para provar que nada está tão ruim que não possa piorar um pouquinho, a pequena cria que colocamos no mundo teve alergia também ao leite de vaca em pó. Mais uma vez, o pediatra me encaminhou à farmácia mais próxima, mas dessa vez pelo menos ele foi camarada e avisou:
- Você vai comprar esse aqui, de soja. É muito bom, praticamente não dá alergia, mas é um pouco mais caro que o leite que você estava comprando antes.

Um pouco mais caro? Pura modéstia dele. Cada lata do leite de soja para bebês valia umas 5 latas do leite em pó comum. Naqueles tempos de inflação galopante, investir em latas de leite de soja quase superava a especulação com dólares, aproximando-se com vantagens do overnight.

Apesar de todo meu investimento nas latas terminar se transformando em fraldas e mais fraldas contendo subprodutos do metabolismo do bebê, o gasto valeu à pena. A soja mostrou-se uma excelente opção de suplemento alimentar e a pequena criança indefesa cresceu para se tornar uma típica adolescente inteligente, emburrada e com crises de TPM assustadoras.

O contato mais aprofundado com a soja naqueles anos despertou em mim um sincero respeito por este alimento excepcional. Leguminosa pertencente à mesma família do feijão, da lentilha e da ervilha, a soja é altamente nutritiva e riquíssima em proteínas.

Originário da China, o grão adaptou-se bem ao clima brasileiro. Atualmente, sua área de plantio no país é quase duas vezes maior que o tamanho da Inglaterra. Para você ter uma idéia melhor do que é isso: uma fila de caminhões, contendo a produção brasileira de soja de todo um ano, seria suficiente para dar mais de uma volta e meia em torno do planeta.

Nas últimas décadas, as pesquisas vêm mostrando que a soja pode fazer pequenas maravilhas à sua saúde. Quer exemplos?

Uma pesquisa publicada em 1995 na prestigiada revista cientifica New England Journal of Medicine mostrou que o consumo de produtos derivados da soja é capaz de reduzir os níveis sangüíneos de gorduras. Estudos subseqüentes realizados na Itália e no Canadá comprovaram este efeito protetor da soja: pessoas com concentrações muito elevadas de colesterol LDL (o colesterol “ruim”) podem reduzir estes níveis em até 24% apenas diminuindo o consumo de carnes vermelhas e consumindo pelo menos 50 gramas proteínas de soja por dia.

Os cientistas descobriram ainda que fitoquímicos presentes na soja, especialmente um chamado Genisteína, parecem ser capazes de reduzir o risco para osteoporose e doenças cardiovasculares.
Um modo bem simples de incorporar a soja à sua dieta habitual consiste em tomar um ou mais copos de leite de soja por dia: cada copo contém cerca de 4-10 gramas de proteína de soja. Cem gramas de Tofu, um queijo elaborado a partir do leite de soja, possuem cerca de 12 gramas de proteína de soja, e representa outro modo saboroso de consumir o grão.

A soja pode ser consumida ainda na forma de farinhas, pasta (Missô), molho (Shoyu), torrada (como amendoim) ou em cápsulas contendo extratos padronizados.

Mas lembre-se: o equilíbrio é fundamental. O consumo excessivo de soja (p.ex.: mais de 500 mL de leite de soja, ou 200 gramas de Tofu ou 50 gramas do grão torrado) pode resultar em problemas na glândula tireóide (Hipotireoidismo) e dificuldade de absorção de alguns sais minerais importantes para sua saúde. Ao introduzir a soja na sua dieta, faça-o de modo sensato e balanceado, de preferência após aconselhamento de um médico ou nutricionista.

06 setembro 2014

SEIS REGRAS DE OURO PARA MEDICINA ALTERNATIVA

© Dr. Alessandro Loiola
Médico – CRMSP 142.346
dralessandroloiola.blogspot.com/
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Vou admitir antes que me acusem: sou fã de medicina alternativa e natural. Mas nem sempre foi assim. Houve época em que acreditava que ervas e plantinhas deveriam ficar no jardim de onde vieram. Tinha certeza mais que absoluta de que a Medicina era coisa para gente grande, antibióticos potentes, procedimentos invasivos e tudo mais quanto parecesse sofisticado e distante do conhecimento popular.

Felizmente, ser alfabetizado ajuda. Então há algum tempo dei um “pause” nos meus preconceitos e fui à luta. Ou melhor: aos estudos. E descobri um universo fantástico de novas possibilidades que ainda não fazem parte da realidade da maioria dos médicos – pelo menos, não até que algum grande laboratório “descubra” aquela substância bioativa, patenteando-a e vendendo-a de volta para nós.

Discussões sobre royalties à parte, hoje me sinto bastante à vontade para afirmar que a Medicina Alternativa funciona, sim, e tem muito a oferecer. Mas alguns cuidados devem ser tomados. Para facilitar seu trabalho e aumentar sua segurança, preparei uma lista com 6 Regras de Ouro que merecem ser seguidas caso você esteja pensando em optar por tratamentos alternativos. Espero que elas lhe sejam úteis!

AS SEIS REGRAS DE OURO

Atualmente, “Medicina Alternativa” parece englobar abordagens tão diversas quanto Acupuntura, Homeopatia, Fitoterapia, Macrobiótica, técnicas de relaxamento e meditação, etc. Independente do tipo de “medicina alternativa” que estamos falando, ela não vem para substituir a medicina tradicional, mas para ser somada a ela, aumentando a eficácia ou reduzindo os efeitos colaterais dos remédios e tratamentos convencionais.

Muita gente costuma defender a medicina alternativa com a famosa frase “se é natural, não faz mal”. Eu costumo responder que veneno de cobra é uma substância completamente natural – e pode fazer um estrago danado. Para não comprar gato por lebre e ser capaz de escolher um tratamento alternativo que funcione, verifique sempre estas 6 regras de ouro:


REGRA NÚMERO 01: TENHA UM DIAGNÓSTICO

Você deve ter um diagnóstico médico antes de iniciar um tratamento alternativo. Afinal, você tem que saber O QUÊ pretende tratar. Não confie em tratamentos alternativos que propõem curar, com uma só ‘garrafada’, desde unha encravada a espinhela caída, queda de cabelo, inchaços, dores, ansiedade e etc. Remédios naturais ainda são remédios, não milagres. E possuem indicações, limitações e efeitos colaterais.


REGRA NÚMERO 02: NÃO SE AUTO-MEDIQUE

Nunca, em hipótese alguma, abandone por conta própria um tratamento tradicional por uma terapia complementar. E não caia na armadilha de que, se um tratamento alternativo foi bom para uma determinada pessoa, ele certamente será para você também. Não sei se você sabe, mas as pessoas não foram feitas em formas: somos diferentes uns dos outros. E a solução para o seu problema pode não ser exatamente a mesma do seu vizinho.


REGRA NÚMERO 03: ANTES DE INICIAR O TRATAMENTO ALTERNATIVO, CONVERSE COM SEU MÉDICO

Não custa tanto assim, confesse. Além disso, se ele tiver uma mente aberta e estiver disposto a ampliar seus conhecimentos, será uma ajuda bem vinda. Porém... (existe sempre um porém!), a maioria dos médicos prefere perder o paciente e arder no mármore da ignorância a se envolver com práticas pouco convencionais. Ele poderá dizer que você está perdendo o seu tempo ou tentará assustá-lo(a) com possíveis (e em geral terríveis) efeitos colaterais.

Se for este o caso, procure saber até onde a posição do seu médico se baseia em uma compreensão detalhada da terapia que você escolheu, ou se ele está apenas refletindo posições conservadoras que foram impregnadas durante a sua formação profissional.

Em outras palavras: se for puro preconceito, bom... paciência, ninguém é perfeito. Vá para a regra número 04.


REGRA NÚMERO 04: DIFERENCIE “PROFISSIONAL ALTERNATIVO” DE “AVENTUREIRO ALTERNATIVO”

Então você saiu à caça de alguém que saiba lhe oferecer um tratamento alternativo. Cuidado: não se deixe seduzir pela aparente simplicidade de alguns medicamentos e técnicas alternativos, pois as interações com outros remédios podem causar problemas.

É sempre recomendável que seu terapeuta alternativo tenha uma boa formação biomédica para saber o que fazer se alguma coisa correr errado. E lembre-se: a recomendação de um amigo pode ser a melhor referência, mas não deixe que seja a única.


REGRA NÚMERO 05: ATENÇÃO COM A QUALIDADE DO QUE VOCÊ COMPRA E CONSOME

Ao comprar ingredientes naturais embalados, avalie se a embalagem está em boas condições e se o vendedor é digno de confiança. Se você mesmo estiver cultivando ou colhendo ervas medicinais, não colete plantas em locais onde se usa agrotóxico, à beira de rios poluídos ou junto a estradas. Plantas medicinais devem ser cultivadas com cuidado e em locais limpos, e os chás e infusões devem ser preparados preferencialmente em utensílios de louça, esmalte, porcelana ou vidro.

Evite usar panelas e chaleiras de alumínio ou cobre. Faça o chá na quantidade certa que irá utilizar no momento: ele perde boa parte do seu valor medicinal nas primeiras 24h dia após o preparo, mesmo se conservado na geladeira.


REGRA NÚMERO 06: AO BUSCAR INFORMAÇÕES, TOME CUIDADO COM A INTERNET

Você não está proibido(a) de procurar informações sobre o que é melhor para sua saúde, mas só porque algo apareceu na Internet não quer dizer que é verdade.

A Internet tem de tudo um pouco. Sites com informações sobre Medicina Alternativa e que oferecem um determinado produto para venda devem ser colocados imediatamente na categoria “sob suspeita”.

Lembre-se: em geral, eles não querem lhe informar. Querem apenas lhe convencer a gastar algum dinheiro.

01 setembro 2014

DEZ DICAS PARA EVITAR O CÂNCER

© Dr. Alessandro Loiola
Médico – CRMSP 142.346
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Dia desses recebi um boletim do National Cancer Institute dizendo que, apesar de todos os avanços para detecção e tratamento, os tumores malignos ainda ceifam mais de 01 vida por minuto em todo o Mundo. Imediatamente lembrei de um outro e-mail bem mais antigo, recebido há uns 15, 20... minutos (em Internet, minutos são anos!).

Como quem fuça uma gaveta de brinquedos, esvaziei o disco rígido do computador na mesa e ahá! lá estava ele: o encarte anual da American Cancer Society, ou Sociedade Americana do “Deus-que-me-livre-não-quero-fazer-parte-disso-não”. O encarte dizia que metade das mortes causadas por tumores malignos poderiam ter sido evitadas através dos métodos preventivos que nós JÁ conhecemos.

Muito bonito. Somando as duas notícias, significa que as pessoas continuam morrendo por minuto mesmo quando o conhecimento atual já torna possível evitar mais de 50% dessas mortes.

O problema, do meu ponto de vista, é que as recomendações sobre como proceder para evitar o câncer nem sempre são passadas de um modo prático e compreensível. Os cientistas dizem coisas como “diminuir o consumo de aminas heterocíclicas”, “orientações profiláticas para reduzir a exposição a carcinógenos ambientais” e “estimular a atividade das células NK através de abordagens dietoterápicas”, entre outros xingamentos que nem mesmo a ferramenta de tradução do Google é capaz de desdobrar.

Uma vez que ajudar alguém não é fazer o que você quer, mas o que o outro precisa, decidi sair para um passeio na base de dados científicos Entrez-PUBMED (www.pubmed.com), para fazer a lista que você verá na crônica de hoje. Com ela, espero ser claro e objetivo o suficiente para conseguir que você implemente pelo menos uma meia dúzia de 3 ou 4 mudanças importantes nos seus hábitos de vida.

Então borá lá conferir as famigeradas...

... DEZ DICAS PARA EVITAR O CÂNCER:

Quem nunca teve medo do Bicho-Papão ou da Cuca quando era criança? Crescemos e passamos a acreditar que estas criaturas assustadoras eram frutos da imaginação... mas estávamos errados. O Bicho-Papão da idade adulta é bem palpável e atende pelo nome de... Câncer.

Você pensou ‘Imposto de Renda’? Não, não, é Câncer mesmo.

Estimativas feitas na década de 1980 pelos respeitados epidemiologistas ingleses, os Drs. Richard Doll e Richard Peto, mostraram que o fumo e a dieta respondem cada um por 30 a 35% do risco de uma pessoa ter câncer. Isso significa que simplesmente escolher hábitos de vida mais saudáveis pode reduzir em até 70% suas chances de desenvolver um tumor maligno. Partindo desta premissa e com base nas evidências científicas mais recentes, relacionei as 10 dicas mais comprovadamente eficazes para evitar o Câncer:


1. FAÇA EXAMES MÉDICOS PERIÓDICOS

O Câncer no testículo é mais comum em homens entre os 15-35 anos de idade. Após os 40 anos, o problema pode ir para a próstata, os pulmões e o intestino grosso. Mulheres em idade fértil devem fazer o preventivo ginecológico a cada 12 meses, e, a partir dos 50 anos de idade, devem incluir mamografias também e...

Em resumo: facilite sua vida e não fique tentando descobrir sozinho(a) o que pode dar errado. Conte com seu médico para saber os tipos de exames preventivos que devem ser feitos. Estes exames podem variar de acordo com a presença de alguns fatores de risco específicos da sua família.

A avaliação médica periódica também é importante para checar a presença de infecção pelo HPV, ou Papilomavírus Humano. Este micróbio, transmitido pelo contato sexual, pode levar ao desenvolvimento de câncer no útero ou no pênis.


2. CUIDADO COM SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS POTENCIALMENTE DANOSAS

Produtos químicos contidos em alguns pesticidas e sprays podem aumentar o risco para câncer. Alimentos industrializados ou muito processados também podem ser perigosos.

O próprio ambiente de trabalho pode oferecer risco: a exposição repetida e prolongada a gasolina, diesel, arsênico, berílio, cloreto de vinil, cromados, gás mostarda e certos éteres pode resultar em vários tipos de câncer.


3. NÃO FUME

E por falar em substâncias químicas perigosas... Fumar é a causa número 1 de várias doenças evitáveis, tais como câncer nos pulmões, infecções das vias respiratórias, problemas cardíacos, desentendimentos na praça de alimentação do shopping, e 342.112 outros distúrbios.

Eu sei que você não vai fumar para sempre, porém, quanto mais fumar, mais vai estar perto do “para sempre”. Faça todo esforço possível para largar o cigarro – e passe esta iniciativa adiante.


4. NÃO CONSUMA BEBIDAS ALCOÓLICAS EM EXCESSO

O consumo regular de bebidas alcoólicas (mais de duas doses por dia, todos os dias) aumenta o risco para cânceres na cavidade oral, na garganta e no esôfago. Acredita-se isto esteja relacionado à deficiência de vários nutrientes.


5. MANTENHA-SE NA FAIXA DE PESO IDEAL

A Obesidade aumenta o risco para câncer nas mamas, no intestino grosso e na próstata – isso se a pessoa não sofrer um infarto ou derrame antes. A Obesidade é uma doença e deve ser tratada não com descaso ou preguiça, mas com força de vontade e amor próprio. Você foi o espermatozóide mais rápido e esperto daquela noite! Faça valer a diferença!


6. LEVE UMA ALIMENTAÇAO RICA EM NUTRIENTES E POBRE EM CALORIAS

Vários estudos indicam que dietas pobres em fibras e ricas em gorduras aumentam o risco para câncer no intestino grosso, na próstata, nas mamas, nos ovários e no útero. Defumados e picles também aumentam seu risco. Dê preferência para frutas, legumes, cereais integrais e peixes.

Eu adoro um churrasco e confesso que fiquei um pouco (‘um pouco’ é mentira, mas me dê algum crédito, ok?) assustado quando pesquisas realizadas pelo National Cancer Institute mostraram que o cozimento de carne vermelha é capaz de produzir mais de 17 tipos diferentes de Aminas Heterocíclicas – todas elas potencialmente causadoras de câncer. Pessoas que comem carne vermelha bem-passada mais de 4 vezes por semana possuem um risco até 3 vezes maior para câncer no estômago.

Para meu alívio, os cientistas também descobriram que pré-cozinhar as carnes no forno microondas por 2 minutos, antes de levá-las ao fogo, é capaz de reduzir em 90% o conteúdo de Aminas Heterocíclicas. Esta é uma boa maneira de manter as carnes na sua dieta (pois elas são uma fonte importante de nutrientes), ao mesmo tempo em que você reduz a concentração de substâncias nocivas.


7. USE SUPLEMENTOS NUTRICIONAIS

Frutas, vegetais e cereais integrais ricos em carotenóides, vitamina A e vitamina C ajudam a proteger contra cânceres nos pulmões, no intestino grosso, nas mamas, na cavidade oral, no esôfago, no estômago, no pâncreas, no colo do útero e nos ovários.

Os Carotenóides são encontrados em vegetais e frutas de cor amarela ou alaranjada (p.ex.: cenouras e batata doce) e vegetais folhosos de cor verde escura (p.ex.: brócolis e espinafre). Os cientistas descobriram que os Carotenóides são capazes de reduzir a incidência de câncer no pulmão até mesmo em pessoas fumantes.

É óbvio que parar de fumar é a principal medida para evitar o câncer no pulmão, mas mesmo entre os fumantes, aqueles que apresentam baixas concentrações de carotenóides no organismo possuem um risco maior.


8. PRATIQUE EXERCÍCIOS REGULARMENTE

Os exercícios melhoram a oxigenação dos órgãos e tecidos, removem radicais livres e ajudam a manter o peso ideal, além de promoverem um bem estar tremendo, graças à liberação de endorfinas e outros neurotransmissores ‘do bem’.


9. APRENDA A LIDAR COM O ESTRESSE

“Será que não tem nada fácil nessa lista?”, você deve estar pensando. Passar pelo médico periodicamente, não comer, não fumar, não beber, fazer exercícios e ainda aprender a lidar com o estresse!!?? Como !!!!!!!?????? @@$%)E*&/#]+!

Calma, calma. A fúria e a ansiedade diminuem a eficácia do Sistema Imune, o guarda-costas do seu organismo. Entre outras coisas, ele gerencia uma célula chamada Natural Killer, responsável pela eliminação de qualquer foco potencialmente canceroso. O Estresse contínuo diminui o nível dessa proteção e abre caminho para uma série de doenças, inclusive o câncer.

Para reduzir o estresse, não tenha vergonha de experimentar uma massagem de verdade, uma sessão revigorante de ioga, meditação, tai-chi, etc. E faça sexo pelo menos algumas vezes por semana.


10. TENHA UMA ATITUDE POSITIVA

Ei, diga a verdade: com essa dica do sexo, você já começou a ter uma atitude positiva! Tente mantê-la pelo resto do dia – mas guarde o sorrisinho quando estiver naquela reunião com seu chefe.

“Uma atitude positiva” significa amar a vida que existe em você. Ela é um tesouro ÚNICO e lhe pertence acima de todas as coisas. Assim que você tomar consciência disso, verá como é simples seguir o que foi dito até aqui.

29 agosto 2014

Vai uma aspirina aí?

© Dr. Alessandro Loiola
Médico – CRMSP 142.346
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Há algum tempo sou fã da aspirina. Substância danada de versátil. Na época da residência já tinha notícias de que ela, além de proteger contra doenças cardiovasculares e suas complicações, talvez oferecesse também proteção contra o câncer.

Demorou, mas finalmente os especialistas declararam sem meias palavras que os benefícios da aspirina na prevenção de certos tumores malignos existem e são maiores que os riscos de tomar o remédio. Esta conclusão fui publicada online no Annals of Oncology no começo de Agosto/2014.

O estudo mostrou que se todas as pessoas entre 50 e 65 anos de idade começassem a tomar uma aspirina diariamente durante pelo menos 10 anos, veríamos uma redução de 9% no número de neoplasias, derrames e infartos entre os homensm, e de cerca de 7% entre as mulheres. O número total de mortes também seria reduzido em 4% durante um periodo de 20 anos.

Os tumores mais afetados são os cânceres no intestino grosso, no esôfago, no estômago, nas mamas, na próstata e nos pulmões. Os benefícios começam a aparecer após 3 anos de uso, e o risco de morte começa a cair após 5 anos. Doses de 75 a 100 mg diárias já são suficientes para provocar esse efeito.

Depois da cessação do tabagismo e do controle da obesidade, tomar uma dose de ácido acetil salicílico diariamente é a coisa mais importante que você pode fazer para diminuir suas chances de ter um câncer.

Vai uma aspirina aí?

25 agosto 2014

Obesidade e câncer: cara ou coroa?

© Dr. Alessandro Loiola
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Um trabalho publicado dia desses na Lancet (Agosto/2014) jogou mais lenha na fogueira da obesidade.

Há muito se sabe, a partir de pequenos levantamentos estatísticos, que o peso corporal está relacionado ao desenvolvimento de certos tipos de cânceres. Mas os ingleses levaram isso um (graaande) passo adiante: utilizando registros clínicos do Clinical Practice Research Datalink, eles identificaram mais de 5 milhões de pessoas com idade igual ou superior a 16 anos e que não apresentavam diagnóstico de câncer no momento da avaliação. O IMC médio calculado para o grupo foi 25,5 kg/m².

Durante 7 anos e meio, esse coorte foi acompanhado e aproximadamente 170 mil indivíduos desenvolveram pelo menos uma das 22 neoplasias de interesse do estudo. Os 22 tipos escolhidos respondiam por 90% de todos os tipos de tumores malignos diagnosticados na Grã-Bretanha, e o aumento no IMC mostrou estar associado a nada menos que 17 deles.

O aumento no peso foi determinante para aumentar o risco de câncer na mama (em mulheres na pós-menopausa), na vesicular biliar, nos rins, no fígado, no intestino grosso, na tireóide, nos ovários, na região cervical e para leucemia. Por outro lado, algumas evidências sugeriram que o IMC aumentado exercia um certo efeito protetor para câncer de mama na pré-menopausa e para câncer na próstata.

Cada aumento de 5 kg/m² no IMC (equivalente a 15,5 kg) associou-se a um aumento de 62% no risco de câncer no útero, 25% para câncer renal e 10% para câncer no intestino grosso.

A temporada de caça à obesidade está aberta há muito tempo, graças à sua associação com hipertensão arterial e diabetes – e todas as consequências e custos daí decorrentes. Mas agora este estudo confirma, sem a menor sombra de dúvida, que o papel desempenhado pela obesidade representa um fator de risco de verdade, sólido, progressivo e definitivo.

O excesso de peso é certamente uma causa evitável de câncer. Ponto.

Agora resta saber se a moeda vai cair.

20 agosto 2014

Celulares podem colocar a saúde da criança em risco?

© Dr. Alessandro Loiola
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O risco da radiação de micro-ondas (RDM) emitida por equipamentos eletrônicos, especialmente com relação às crianças e bebês em gestação, tem sido objeto de especulação há várias décadas. Apesar dos dados até o momento serem bastante conflitantes, existem de fato evidências científicas associando RDM e câncer.

Partindo desta premissa, recentemente foi publicada uma excelente revisão do assunto no Journal of Microscopy and Ultrastructure. Os pesquisadores fizeram um garimpo na literatura médica e avaliaram dados epidemiológicos de exposição a aparelhos de telefone celular entre 2009 e 2014. O que descobriram? Que crianças e bebês em gestação apresentam um risco considerável de danos neurológicos e biológicos decorrente da RDM emitida por estes equipamentos.

A velocidade de absorção da RDM é maior em crianças que em adultos pois seus cérebros absorvem mais, seus crânios são mais finos, e seu tamanho relativo é menor. O feto é particularmente vulnerável: a exposição à RDM pode resultar em degeneração da bainha de mielina que protege os neurônios.

É irrealista (e quase psicótico) achar que por causa disso os telefones celulares (e outros aparelhos emissores de RDM) serão banidos. Aparelhos que emitem RDM não podem ser considerados 100% seguros – mas automóveis também não.

O que os dados desta revisão sugerem é que deveria haver uma preocupação maior dos organismos governamentais com relação a este tópico, promovendo debates e estudos para assegurar os limites reais de segurança.

Até que estas pesquisas sejam realizadas, os autores do estudo fizeram algumas recomendações práticas:
  • A distância é sua amiga: manter o telefone celular a uma distância de 15 cm do seu ouvido reduz em 10.000 vezes o risco de exposição à RDM.
  • A menos que esteja completamente desligado, seu celular está sempre emitindo radiação. Se não o estiver utilizando, mantenha-o distante do seu corpo (p.ex.: em uma bolsa, sacola, mochila ou gaveta).
  • Mulheres gestantes devem manter distante da barriga todo e qualquer equipamento eletrônico.
  • Não coloque aparelhos eletrônicos dentro do berço do bebê.
  • Crianças e adolescentes devem ser ensinados a utilizar equipamentos emissores de RDM de um modo seguro. Por exemplo: um estudo do Pew Research Center mostrou que 75% dos adolescentes e pré-adolescentes americanos dormem a noite inteira com o celular debaixo do travesseiro. Fala sério...
  • Uma vez que o risco é cumulativa, as crianças deveriam minimizar o tempo que passam utilizando telefones celulares e sem fio. Por outro lado, serviços de telefonia que utilizam o computador (quando a conexão com a Internet é feita por meio de cabo) não emitem radiação e seu uso deveria ser encorajado.
  • Finalmente, em casa, os aparelhos roteadores Wi-Fi devem ser colocados longe dos lugares onde as crianças passam a maior parte do dia.
É isso aí. O recado tá dado.