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28 setembro 2014

Qual a Pressão Arterial Ideal?

© Dr. Alessandro Loiola


Pacientes hipertensos que mantém sua pressão arterial (PA) acima ou abaixo dos níveis considerados ideais apresentam um risco maior de morte precoce ou de desenvolver insuficiência renal.

O estudo, envolvendo mais de 390 mil pacientes acompanhados por 4 anos e publicado em agosto de 2014 no Journal of the American College of Cardiology, foi importante por ter enfatizado o risco do tratamento excessivo em pessoas hipertensas.

Os pesquisadores observaram uma curva mostrando prognósticos piores para pessoas com PA sistólica acima de 139 e abaixo de 130 mmHg e diastólica acima de 79 e abaixo de 60. Uma PA de 137/71 mmHg foi a que apresentou o menor risco de morte precoce ou insuficiência renal.

Para pacientes diabéticos, a PA com o menor risco foi de 131/69 mmHg; e para pacientes com idade igual ou acima de 70 anos, a PA de menor risco foi de 140/70 mmHg.

E você, já verificou sua pressão arterial essa semana?

04 setembro 2014

POR UM CONGRESSO BRASILEIRO DE TAUTOLOGIA MÉDICA

© Alessandro Loiola


"Tautologia" é o termo empregado para definir vícios de linguagem caracterizados pela repetição de uma idéia, porém com palavras diferentes. Se quiser, também pode chamar de pleonasmo ou redundância.

“Subir para cima” e “descer para baixo” são exemplos bem conhecidos de tautologia, mas existem outros que, de tão comuns, podem passar despercebidos: elo de ligação, acabamento final, certeza absoluta, quantia exata, livre escolha, multidão de pessoas, surpresa inesperada, outra alternativa, retornar de novo, planejar antecipadamente, empréstimo temporário, seu critério pessoal, gritar bem alto, encarar de frente, dividir em duas metades iguais... e por aí vai.

Em medicina, a detecção da tautologia se transformou em uma arte, especialmente nos pronto-socorros. Por exemplo: obeso sedentário, diabético teimoso, hipertenso ansioso... Nenhuma dessas figurinhas estaria ali se não fosse pela repetição da mesma idéia, com palavras diferentes.

O obeso não malha porque está gordo e está gordo porque não malha. O diabético insiste em não seguir a dieta porque a glicose está sempre descontrolada – e adivinhe por que ela vive assim? O hipertenso se preocupa tanto com medo de morrer de pressão alta que termina enfartando de qualquer forma. E a fila anda.

De todos os seres tautólogos que freqüentam as salas de espera e pronto-atendimentos da cidade, os Poliqueixosos Carentes são certamente os mais numerosos. Os representantes do gênero chegam cheios de dores, palpitações que não aparecem nos eletrocardiogramas, cansaço com insônia, falta de ar com bolo na garganta, coceira nos dentes, cãibras nas unhas, formigamento nos cabelos e toda espécie de queixa surrealista capaz de virar uma consulta.

Não que não estejam sofrendo de algum mal – a bem da verdade, não existe sofrimento mais honesto que aquele que aflige a alma. Mas os pelotões de poliqueixosos que se aglutinam querendo vários tratamentos para o mesmo diagnóstico fazem pensar: que diabos está acontecendo com o mundo de hoje? Parte da resposta pode estar do outro lado do mundo, na China.

Uma pesquisa realizada há alguns meses mostrou que o número de divórcios nunca foi tão grande entre os chineses. Mais surpreendente que a quantidade de separações foi a constatação do motivo: durante muitas décadas, os chineses foram estimulados a terem apenas 1 filho. Isso criou legiões acostumadas desde a infância a terem toda a atenção somente para si, sem necessidade de estabelecer e dividir vínculos com irmãos, tios, tias ou primos – simplesmente porque eles não existem.

A falta de um amadurecimento emocional na tenra infância, compartilhando as agruras e alegrias do núcleo familiar, resultou em levas de chineses-únicos com um lastro emocional muito volátil. Ao menor sinal de problema com amigos, colegas de trabalho, maridos ou esposas, eles simplesmente tendem a abandonar o barco - e bau-bau casamento.

Diferentemente das gerações de filhos únicos chineses, a maioria de nós não é tão órfã de famílias. A amputação de valores, contudo, é a mesma. Estamos perdendo a noção do que realmente importa nesta vida.

Os poliqueixosos carentes e suas sacolas de antidepressivos, ansiolíticos, sedativos, lamentações e perturbações do sistema nervoso, são como pelotões de cegos, surdos e mudos incapazes de cultivar um olhar de contemplação e agradecimento pela oportunidade de estar neste mundo, errar, aprender, ensinar e ajudar seus semelhantes.

Os poliqueixosos são fissurados por pequenos fungos de angústia que crescem em seus próprios umbigos. Estes seres pleonásticos vagam não à procura de tratamento ou cura, mas de uma platéia disponível para ter pena do seu sofrimento. Eles chegam conversando, andando com as próprias pernas, respirando pelos próprios pulmões, fazendo todas as necessidades fisiológicas pelos orifícios apropriados, e ainda assim se sentem capazes de colocar uma sacola de autopiedade sobre a mesa.

Lamentavelmente, não existe uma matéria chamada Tautologia no curso médico. Mas bem que poderiam organizar um congresso sobre o tema. Seria um bom lugar para discutir melhor sobre como diagnosticar e tratar os sintomas do egoísmo generalizado. Minha inscrição está garantida.