10 novembro 2014

Outubros são rosas?

© Alessandro Loiola

Depois de estudos e pesquisas e reuniões de grupos de especialistas e mesas redondas com desfiles de MsScs e PhDs e outros egos, vários governos – e o nosso incluído - concluíram que mamografias são úteis para evitar câncer na mama. E milhões de milhões de impostos passaram a ser investidos anualmente nessas campanhas.

Entretanto, o debate sobre a verdadeira utilidade das mamografias está longe de uma conclusão sumária. Inúmeros estudos (e foram muitos mesmo, pesquise e você verá) vêm mostrando que as mamografias anuais ou bienais não produzem qualquer benefício com relação ao Câncer na Mama – nem previnem, nem ajudam, nem melhoram o prognóstico. Na verdade, as mamografias só parecem produzir mais problemas.

Em um dos maiores e mais meticulosos estudos sobre mamografias, 90.000 mulheres canadenses foram acompanhadas por 25 anos e descobriu-se que os números de mortes por câncer na mama era o mesmo entre as mulheres que haviam feito mamografias em comparação àquelas que não haviam feito o exame.

Mas os exames preventivos cobraram seu preço: 1 de cada 5 tumores encontrados e tratados não representava risco para a vida daquela paciente, significando que elas receberam quimioterapia, cirurgia e / ou radioterapia sem necessidade.

A pesquisa foi publicada na edição de novembro (2014) do British Medical Journal:



Apesar das dúvidas, nenhuma nação teve ainda a coragem de suspender as mamografias periódicas. Nenhuma com exceção talvez da Suíça. Nos EUA, são realizados cerca de 37 milhões de exames anualmente, atingido ¾ das mulheres com 40 anos de idade ou mais. O custo? A bagatela 100 dólares por mamografia – agora multiplica isso por 37 milhões e me conta se esse dinheiro cabe na sua carteira. Mais de 90% das mulheres europeias com idade entre 50 e 69 anos de idade já realizaram pelo menos 1 mamografia em suas vidas. 
 
O fato é que a indicação de mamografia deveria ser discutida paciente por paciente, e não empurrada goela abaixo em escala populacional. O exame não reduz a mortalidade específica associada ao câncer na mama e não se mostrou superior ao velho exame físico de palpação.   
 
A política da mamografia precisa urgentemente ser revista. Os outubros não são rosas – mas deveriam ser.

10 outubro 2014

Você sabe quem é Abraham Verguese?

Leitura Recomendada: Abraham Verghese.

(Cutting for Stone's Verghese Talks Prose, Patients With Topol. Medscape. Oct 09, 2014.)

07 outubro 2014

O ATAQUE DA URSA

© Dr. Alessandro Loiola


Uma das coisas que sempre tornavam o trabalho mais divertido no interior eram os vocábulos. Nada do estresse gratuito ou da neurose idiopática das grandes cidades. Nada disso. A rotina consistia em saber o nome do vizinho, comer um bolo de chocolate na praça aos domingos e chegar no posto de saúde bem cedo, no frio da manhã de segunda-feira, para descobrir um bule café cheiroso recém-passado brotando da copa.

- Pois não, seu Josemar, o que está havendo com o senhor hoje?
- Ah, doutor, eu tô tomando direitim os remédio da pressão. – Pega a sacola de plástico surrada e bem atada com um nó caprichoso e dela vai tirando e colocando sobre a mesa uma coleção de cartelas amassadas.
- Esse piquininim aqui ó, o Aécio (AAS, anticoagulante), esse outro Lazico (Lasix, um diurético) e o Colorama (Clorana, outro diurético) pra módi forçar a urina, mas vou falar pro sinhô, num ando me sentino muito bem não.

Sigo o exame enquanto ele desenvolve a história. Pressão ok, ausculta cardíaca ok, mas pulso com frequência levemente aumentada. Pulmões jóia. Bem hidratado, talvez um pouco pálido.
- O pobrema é que já tem uns dias que ando sem apetite e obrando (evacuando) escuro. Acho que a ursa tá atacada.
- Como?
- A ursa, médico.
- ?
E ele aponta para a boca do estômago.
- A ursa.
- Ah.... a úlcera!

A endoscopia mostrou realmente uma ursa atacada. Mordida, até. Uma ulceração havia se formado no começo do duodeno. Provavelmente desencadeada pelo Aécio. Não o político mineiro, mas o comprimidinho amarelo.

O AAS é um dos pequenos milagres da medicina. Diminui a incidência de complicações cardiovasculares em diabéticos, corta em até 50% o risco de morte em pessoas infartadas, além de reduzir a possibilidade de vários tumores (segundo alguns estudos atuais). Apesar disso tudo, o AAS é meio venenoso para os estômagos mais sensíveis. E esse era o caso da ursa do seu Josemar.

As úlceras podem se formar na mucosa do estômago, do intestino delgado ou do esôfago. O sintoma mais comum - uma dor tipo queimação na região do estômago – é causado pelo contato dos ácidos gástricos com a área ulcerada. A dor também pode ser percebida na parte de trás do osso esterno, durar de alguns minutos a várias horas, piorando com o estômago vazio e à noite, aparecendo e desaparecendo espontaneamente.

Outras manifestações das úlceras gastroduodenais incluem vômitos com sangue, fezes escurecidas, náuseas, diminuição do apetite e perda de peso.

Anos atrás, acreditava-se que o estresse e os alimentos muito temperados eram a principal causa das úlceras pépticas. Atualmente, sabe-se que a maioria das úlceras é causada por uma bactéria chamada Helicobacter pylori (H. pylori).

Diversos fatores podem desencadear ou colaborar para a formação das úlceras, tais como: uso regular de medicamentos antiinflamatórios (p.ex.: diclofenaco, aspirina, cetoprofeno, naproxeno e outros), cigarro (a nicotina aumenta o volume e a concentração do suco gástrico), bebidas alcoólicas (o álcool é um irritante para o estômago) e estresse (apesar do estresse por si só não causar úlceras, ele certamente contribui para o seu desenvolvimento).

O diagnóstico da úlcera é bem fácil (lógico, não sou quem vai ser submetido à endoscopia...) e, felizmente, o terapia é bem sucedido em mais de 95% dos casos.

A imensa maioria das úlceras é benigna, mas elas podem complicar com sangramento, perfuração ou obstrução intestinal. Se você sofre de úlcera péptica, procure atendimento médico com mais urgência caso apresente:
  • Fezes com sangue ou muito escurecidas e com odor fétido.
  • Vômitos insistentes ou com sangue.
  • Calafrios ou vertigens.
  • Perda inexplicável de peso.
  • Dor que não melhora com o uso dos remédios habituais.

Além disso, você pode ajudar no tratamento seguindo algumas orientações simples:
  • Não fume e limite o consumo de bebidas alcoólicas, chocolate e café. 
  • Não utilize antiinflamatórios sem a orientação de seu médico de confiança. 
  • Evite alimentos muito temperados, apimentados ou gordurosos, e faça refeições menores porém mais freqüentes. 
  • Se for descansar após uma refeição, repouse em uma posição recostada. Evite deitar de barriga para cima logo após comer.  
  • E retorne ao seu médico de confiança se a ursa voltar a rugir.

06 outubro 2014

Bacteriúria assintomática

© Dr. Alessandro Loiola


Quando um médico pronuncia “bacteriúria assintomática”, está querendo dizer: “não vou receitar antibióticos para você”. Infelizmente, muitos colegas tem um dedo nervoso segurando uma caneta inquieta, e, quando confrontados com resultados mostrando presença de bactérias na urina, não pensam duas vezes antes de lascar antibióticos no pobre coitado.

Apesar de inúmeras diretrizes não recomendarem o tratamento desses casos, dados estatísticos apontam que até 80% das pessoas com bacteriúria assintomática recebem receitas de antibióticos. Isso representa um abuso de prescrição.

A bacteriúria assintomática deve ser tratada apenas em gestantes ou em pacientes que serão submetidos a algum tipo de procedimento genitourinário onde se acredita que ocorrerá um sangramento significativo. Concorde comigo: esse é um grupo bem pequeno de pessoas – estudos mostram que menos de 2% dos pacientes com bacteriúria assintomática necessitam tratamento.

Nos EUA, este problema já suscitou debates acalorados, a ponto de existir uma campanha chamada Choosing Wisely, que sugere não solicitar qualquer tipo de urocultura, mas tratar sindromicamente. A Sociedade Americana de Geriatria colocou entre as suas “5 principais recomendações” NÃO SOLICITAR exames de urina ou uroculturas em pacientes idosos assintomáticos.

Usar antibióticos em quem não precisa é uma maneira excelente de produzir efeitos colaterais desnecessários e cepas de bactérias multirresistentes. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas quem sabe um post em um blog pode um dia mudar uma pessoa – e esse já seria um bom começo para mim.

03 outubro 2014

A alimentação e o cérebro do bebê

© Dr. Alessandro Loiola


Será que a saúde mental de um bebê pode ser afetada pela qualidade da alimentação materna durante a gravidez e sua própria alimentação nos primeiros anos de vida?

Para responder a essa pergunta, mais de 20 mil gestantes norueguesas foram acompanhadas entre 1999 e 2008. Os resultados foram surpreendentes.

As causas dos transtornos comportamentais e emocionais em adultos jovens são muitas e variadas. Identificar os fatores de risco para essas anormalidades tem ocupado a cabeça dos cientistas há um bom tempo. Quase sempre, as pesquisas enfatizavam fatores psicossociais, tais como a qualidade da atenção dos pais, o nível de estresse no núcleo familiar e a presença de transtornos mentais na família. Finalmente, alguém fez uma pergunta diferente e partiu em busca de novas respostas.

O estudo norueguês mostrou, sem muita sombra para dúvidas, que uma dieta não-saudável durante a gravidez e na tenra infância aumenta o risco de produzir crianças com problemas de conduta oposicional e desatenção. Os resultados poderiam ser explicados pelo impacto da falta de nutrientes estratégicos durante a fase de crescimento e maturação do cérebro, mas para provar quais nutrientes e de que modo isto ocorre ainda serão necessárias mais pesquisas.

Atualmente, existe um movimento para explicar os transtornos mentais e somáticos utilizando os mesmos mecanismos que determinam a boa saúde de um modo geral. Ao sugerir que a alimentação tem um papel tão crucial no desenvolvimento do cérebro, este estudo reforçou esta tendência, abrindo uma enorme janela para intervenções profiláticas e a própria compreensão de bem-estar.

02 outubro 2014

O valor da atenção

© Alessandro Loiola



Existe um adágio popular que diz: “O olho do dono é o que engorda o boi”. Interessante e verdadeiro. Basicamente ele está dizendo que atenção gera prosperidade. Tudo aquilo a que dedicamos nossa atenção tende a crescer.

Cuide das plantas de sua casa e elas vicejarão. Preste atenção especial a um determinado desafio no trabalho e logo você aumentará seu conhecimento a respeito e, como consequência, aumentará também a possibilidade de resolver aquilo com sucesso. A atenção tem esse efeito: para onde quer que você a aponte, o objeto da atenção cresce e evolui.

Quando for rever para onde anda mirando sua vida e se está obtendo o progresso que acha que merece, preste bastante atenção também nos resultados, e não para os esforços que anda fazendo para obtê-los. Não espere uma recompensa se você “pelo menos tentou”.

“Vou tentar diminuir meu orgulho”. “Vou tentar ser mais atencioso(a) ou compreensivo(a) ou resiliente”. “Vou tentar ser menos ciumento(a)”. Sério, você acha que tentar basta?

Um rottweiler raivoso está correndo ao seu encalço e você pensa em escapar pulando o muro. Tentar não é o bastante, não vai lhe colocar em uma faixa de segurança. E também não deve ser o foco. Você tem que pular o muro e escapar, não existe meio termo. Se começar a valorizar o tentar, logo estará acomodado em apenas fazer algum esforço (por mais frouxo e medíocre que ele se torne com o tempo) e nunca irá obter qualquer avanço prático.

Lembre-se: onde quer que você preste atenção, é lá que a coisa irá terminar. É a lei da lavoura - o que você planta, você colhe. A atenção é uma arma poderosa, mas muitas pessoas permitem que ela seja jogada de um lado para o outro pelos outros, o dia inteiro, pelos motivos mais banais.

Se você investir sua atenção nas coisas que realmente quer E IMPORTAM (confiança, afeto, alegria, respeito, diálogo, serenidade, paz), as chances são de cada vez receber mais e mais disso.

29 setembro 2014

Pessoas Problemáticas x Pessoas Solucionáticas

© Alessandro Loiola




Pessoas problemáticas teimam em atormentar os amigos se queixando da vida dizendo coisas como “Não sei o que está acontecendo com ela/ele/meu trabalho/minha vida/tudo”.

Além de inútil, esse tipo de questionamento causa grande sofrimento, porque as pessoas estão sempre se perguntando “o que está acontecendo” ao invés de se preocuparem com “o que estão causando”.

Quando você atua como uma CAUSA ao invés de um EFEITO, você estabelece um exemplo fácil de ser seguido: você não é mais um crítico, mas um produtor. É extraordinário como somos capazes de crescer a partir do milésimo de segundo em que decidimos viver para além das histórias sobre nós mesmos (fraquezas) e dos outros (ameaças).

Cada decisão que você toma, cada pequena decisão, não é uma decisão sobre o que fazer. É uma decisão sobre QUEM VOCÊ É. Perceber isso muda tudo. Todos os eventos, situações e experiências de sua vida se transformam em oportunidades para fazer aquilo que você nasceu para fazer: ser você mesmo/mesma. Decidir torna-se um fator permanente de mudança.

Procurar fazer as coisas como todo mundo faz é desperdiçar a chance de descobrir quem você realmente é – como disse Arthur Schopenhauer, “investimos três quartos de nossas vidas para sermos como as outras pessoas”. Não caia nessa armadilha. Supere-se e tome a frente para causar a mudança que você deseja. Nada é mais inspirador que isso. Todo mundo prefere ser inspirado, estimulado, motivado, ao invés de punido ou corrigido. O impacto do exemplo é mais profundo e dura mais tempo que qualquer outra tática. Por isso: SEJA o que você DESEJA ver.

Se você quer uma vida mais positiva ou pessoas mais atenciosas ao seu redor, tome a dianteira e seja VOCÊ a causa da positividade e da atenção. Mostre como fazer, transforme-se em uma pessoa solucionática. E então surpreenda-se com os resultados.

28 setembro 2014

Qual a Pressão Arterial Ideal?

© Dr. Alessandro Loiola


Pacientes hipertensos que mantém sua pressão arterial (PA) acima ou abaixo dos níveis considerados ideais apresentam um risco maior de morte precoce ou de desenvolver insuficiência renal.

O estudo, envolvendo mais de 390 mil pacientes acompanhados por 4 anos e publicado em agosto de 2014 no Journal of the American College of Cardiology, foi importante por ter enfatizado o risco do tratamento excessivo em pessoas hipertensas.

Os pesquisadores observaram uma curva mostrando prognósticos piores para pessoas com PA sistólica acima de 139 e abaixo de 130 mmHg e diastólica acima de 79 e abaixo de 60. Uma PA de 137/71 mmHg foi a que apresentou o menor risco de morte precoce ou insuficiência renal.

Para pacientes diabéticos, a PA com o menor risco foi de 131/69 mmHg; e para pacientes com idade igual ou acima de 70 anos, a PA de menor risco foi de 140/70 mmHg.

E você, já verificou sua pressão arterial essa semana?

27 setembro 2014

Deficiência de Vitamina D está associada a Esquizofrenia

© Dr. Alessandro Loiola


Uma pesquisa publicada online em julho de 2014 no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism mostrou que a deficiência de vitamina D está ligada ao aumento do risco para esquizofrenia.

A revisão de 19 estudos científicos, totalizando mais de 2800 participantes, mostrou que aqueles com deficiência de vitamina D apresentavam uma chance duas vezes maior de serem diagnosticados com esquizofrenia em comparação às pessoas sem deficiência. Além disso, 65% dos pacientes sabidamente portadores de esquizofrenia também apresentavam baixos níveis de vitamina D no organismo.

A deficiência de vitamina D é um problema relativamente prevalente no mundo todo, e está associada a várias consequências deletérias. Por exemplo: pesquisas mostram que esta hipovitaminose está intimamente associada à depressão e outros transtornos psiquiátricos. E é assustador quando pensamos nesse dado associado às estatísticas que apontam que 30% das pessoas (adultos e crianças) apresentam deficiência – e outros 30% apresentam níveis insuficientes da vitamina no organismo.

A Sociedade Americana de Endocrinologia recomenda a suplementação de vitamina D nas seguintes doses:
- crianças com mais de 1 ano de idade: 600 a 1000 unidades por dia.
- adultos dentro do peso ideal: 800 a 2000 unidades por dia.
- obesos e pessoas com sobrepeso: 2 a 3 vezes a dose recomendada para adultos dentro do peso.

Ainda não existem especificações desse tipo para gestantes e crianças com idade inferior a 1 ano. Contudo, muitos especialistas concordam que, no caso das gestantes, seria prudente recomendar a suplementação com 2000 a 4000 unidades de vitamina D diariamente, além de estimular o consumo de outras fontes dietéticas ricas em vitamina D, como leite, e o uso das vitaminas habituais do pré-natal.

26 setembro 2014

Frutas e vegetais aumentam a vida útil do coração

© Dr. Alessandro Loiola


Uma meta-análise realizada por pesquisadores chineses esclareceu a quantidade de frutas e vegetais que uma pessoa deve ingerir diariamente para diminuir seu risco de morte precoce por doenças cardiovasculares: o número mágico é 5.

O consumo diário de pelo menos uma porção de frutas ou legumes por dia (em comparação ao não-consumo) associou-se a uma redução de 8% no número de mortes precoces. O consumo de 5 ou mais porções associou-se a uma redução de 26%. Para além de 5 porções, não foi observada diminuição adicional no risco.

Leve esta ideia na cesta quando for fazer a próxima feira.

25 setembro 2014

Peixe na cabeça

© Dr. Alessandro Loiola


Confirmado: o consumo regular de peixe cozido ou assado ajuda a evitar o envelhecimento cerebral. Frito não vale.

Mais de 250 adultos idosos e cognitivamente saudáveis foram acompanhados por 2 anos, e o consumo semanal de peixe associou-se a um aumento no volume de massa cinzenta no hipocampo e no córtex frontal, entre outras regiões do cérebro.

No estudo, publicado online em julho no American Journal of Preventive Medicine, os cientistas observaram que pessoas que comiam peixe cozido ou assado pelo menos uma vez por semana apresentavam um volume de massa cinzenta respectivamente 4% e 14% maior em áreas do cérebro associadas à memória e cognição.

A alimentação rica em peixe aumenta os níveis sanguíneos dos ácidos docosahexaenoico (DHA) e eicosapentaenoico (EPA), duas substâncias que atuam aumentando a fluidez da membrana plasmática no nível sináptico, otimizando sua permeabilidade, potencializando a ação de fatores neurotróficos e promovendo o metabolismo e o crescimento neuronal. Em resumo: fazem um bem danado para sua cabeça.

Então que tal aproveitar e pesquisar agora mesmo uma receita de peixe para sua próxima refeição ?

O cérebro - SEU cérebro - agradece.

Andropausa e Reposição de Testosterona: é seguro?

© Dr. Alessandro Loiola


Os níveis de testosterona reduzem progressivamente com o tempo, e uma porcentagem significativa de homens com mais de 60 anos de idade apresentam níveis sanguíneos de testosterona bem abaixo dos limites inferiores recomendados para homens entre 20-30 anos.

A Síndrome de Hipogonadismo Tardio – popularmente chamada de Andropausa - é uma síndrome clínica e bioquímica associada ao processo de envelhecimento e caracterizada por uma diminuição importante nos níveis de testosterona, além de muitas outras manifestações – incluindo uma grande perda de qualidade de vida.

Ao longo da última década, vários especialistas avaliaram os benefícios da Terapia de Reposição de Testosterona (TRT) em homens na Andropausa, incluindo seus efeitos sobre a libido, a performance sexual, o humor, a massa e a força muscular, a concentração de gordura corporal e a densidade mineral óssea. Permeando todos esses anos de estudos, houve sempre a preocupação de que a TRT pudesse aumentar o risco de crescimento exagerado ou mesmo câncer na próstata.

Pensando nisso, alguns pesquisadores realizaram uma extensa revisão da literatura identificando todos os estudos controlados e randomizados (ECR) envolvendo testosterona no tratamento do hipogonadismo. Foram encontrados 22 ECR, totalizando 2.351 pacientes que utilizaram TRT por meio de injeções, comprimidos ou adesivos transdérmicos. O resultado: menos da metade dos ECR relatou aumento da incidência de câncer prostático.

A despeito do método de administração, no curto prazo (menos de 12 meses), a TRT parece ser segura e não aumenta o risco de hipertrofia prostática ou desenvolvimento ou progressão de tumores na próstata, desde que o paciente seja cuidadosamente monitorizado para manter os níveis de testosterona dentro dos limites fisiológicos recomendados e faça dosagens periódicas dos níveis de PSA.

24 setembro 2014

Vacina contra Parkinson

© Dr. Alessandro Loiola

A primeira vacina para evitar a Doença de Parkinson parece estar a caminho.

Um estudo clínico de fase 1 avaliando uma vacina subcutânea deste tipo – chamada PD01A – foi concluído este ano na Áustria e mostrou que (1) a vacina foi bem tolerada e segura, (2) produziu uma resposta imune e (3) esta resposta imune resultou em melhora dos sintomas da doença.

A vacina é direcionada contra a alfa-sinucleína, uma proteína que tende a se acumular de modo anormal no cérebro de pacientes com Parkinson. A PD01A estimula o corpo a formar anticorpos que se ligam e eliminam o excesso de alfa-sinucleína.

Os cientistas calculam que ainda serão necessários cerca de 6 anos de estudos, em uma previsão bastante otimista, para que a vacina passe por todos os testes clínicos necessários para avaliar sua segurança e eficácia.

Vamos aguardar. Essa é uma espera que pode valer muito a pena.

23 setembro 2014

Adolescentes, Maconha e Psicose

© Dr. Alessandro Loiola

A disponibilidade da maconha vem crescendo a cada dia: apenas nos EUA, mais de 24 estados permitem seu uso medicinal e 2 (Colorado e Washington) já descriminalizaram o uso pessoal - e esta tendência vem aumentando no mundo todo. Com estas mudanças, algumas preocupações de saúde pública também surgiram, especialmente aquelas relacionadas aos efeitos neurocognitivos e neuropsiquiátricos da maconha sobre os jovens.

Um estudo publicado em agosto de 2010 na revista Drug and Alcohol Dependence avaliou o impacto da maconha no desempenho escolar de 6000 adolescentes na Austrália e na Ásia. Os pesquisadores descobriram que os usuários de maconha apresentavam um risco até 5 vezes maior de largar a escola até os 15 anos de idade quando comparados aos não-usuários.

Além de uma geração com péssimo rendimento escolar, o uso em larga escala da maconha pode levar a uma outra epidemia. Podemos estar observando o nascimento de uma geração de psicóticos.

O uso pesado de maconha entre os 15 e 17 anos, um período crítico para o desenvolvimento cerebral, pode resultar em crises precoces de psicose em pessoas com fatores de risco para transtornos mentais.

Dados preliminares do projeto ACES II (Allied Cohort on the Early course of Schizophrenia) mostrou que jovens nesta faixa etária que utilizaram maconha apresentaram seu primeiro surto de psicose em média 4 anos antes em relação às contrapartes sem história de uso do entorpecente. Quanto mais cedo ocorre a primeira crise, piores o prognóstico, a severidade dos sintomas e a intensidade da incapacitação funcional.

Aproximadamente 4% da população mundial usa maconha. O uso é mais prevalente entre homens adultos jovens, solteiros ou divorciados, e brancos. De 1990 a 2006, houve um incremento de 10% no consumo mundial de cannabis.

Terceira Idade e Sexo

© Dr. Alessandro Loiola


Um estudo da revista médica New England Journal of Medicine revelou que 73% das pessoas entre 57-64 anos, 53% entre 65-74, e 26% daqueles entre 75-84 de idade encontram-se sexualmente ativos.

Até aí, nada demais. O problema surgiu em outro trabalho, publicado no Annals of Internal Medicine, mostrando aumento na incidência de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) na população acima dos 65 anos de idade. Mais especificamente, um aumento de 31% nos diagnósticos de clamídia e de 52% de casos documentados de sífilis.

Homens com mais de 50 anos de idade em uso de medicamentos para disfunção erétil apresentam uma probabilidade 6 vezes menor de usar camisinhas quando comparados a homens de 20 e poucos anos.

O lance é que a Terceira Idade está fazendo mais sexo, mas de um modo inseguro. 

Compreensão e dedicação não são as únicas coisas que nossos pacientes na Melhor Idade precisam. Educação sexual, incluindo um papo bastante franco sobre DSTs, é um tópico que também merece ser colocado na ordem do dia.

22 setembro 2014

Ansiedade & Tímpanos

© Alessandro Loiola




Depois de atender como médico praticamente 7 dias na semana nos últimos 20 anos, aceitei o fato de que você não pode alcançar uma pessoa que não lhe dá atenção. Se o que você está dizendo causa desconforto demais, não adianta ser gentil ou falar de mansinho. Você não será ouvido/ouvida. O outro tem que lhe escutar para entender.

Agora, o pulo do gato: para que alguém lhe escute, primeiro a pessoa tem que ser ouvida. Não funciona ao contrário. Nunca funciona quando você toma a frente: a outra parte tem que perceber primeiro que você está na mesma sintonia e que você a compreende completamente.

Um paciente – vamos chamá-lo de Flávio – veio fazer um check up e conversa vai, conversa vem, reclamou de ansiedade aguda. A causa? Estava tendo problemas no noivado, justamente agora que estava a poucas semanas do casamento. Discutiam o tempo todo e ele não sabia mais o que fazer.

- Eu simplesmente não sei onde está o problema. O que você sugere?
- Comece preparando um jantar em casa.
- Tá, e daí? O que eu digo pra ela?
- Nada. Apenas ouça.
- Ouvir o quê?
- A pessoa do outro lado da mesa.
- E sobre o que deve ser a conversa?
- Sobre nada específico. Apenas pergunte como anda a vida dela. Se está tudo bem, o que ela acha que está acontecendo e o que poderia ser mudado para melhorar as coisas, por exemplo.
- Hum, entendi. E daí?
- Daí nada. Apenas ouça.
- Olha, não sei se eu vou conseguir fazer isso...
- Ótimo. Então você acabou de encontrar a fonte do problema. A partir daí é com você, campeão.

19 setembro 2014

Como mudar o outro?

© Alessandro Loiola




Uma ocasião, batendo papo na varanda de casa com um casal de amigos que estava atravessando um período de turbulência, caí na asneira de comentar no meio da conversa que eles poderiam mudar em um estalo de volta ao mar de rosas. E que isso era absurdamente fácil.

   - Fácil é dizer, você que está de fora... – ele disse.
   - Além do mais, se é tão fácil assim, então por que você separou e casou de novo e separou e... – ela completou, virando os olhos para cima, já demonstrando impaciência.
   - Fiz escolhas erradas, muitas, e me comportei mal várias vezes. É verdade. Mas tive a sorte de conseguir aprender algumas coisas valiosas no caminho, e hoje vivo em paz comigo mesmo, que é o mais importante.
   - Então tá – ele falou. - Vamos dizer que todo nosso problema está no fato de que um determinado comportamento dela me irrita profundamente e que isto é o motivo de 99% das nossas brigas.
   - Hum.
   - Como eu faço para mudá-la?
   - E isso é tudo que você deseja saber?
   - Sim, saber isso praticamente resolveria a situação.
   - Rapaz, então vou te poupar um bocado de tempo e terapia de casal! Vou lhe dizer em três palavras como você pode mudar o comportamento dela.
Ele colocou o copo sobre a mesa e inclinou-se em minha direção, enquanto ela o olhava apreensiva.
   - Diga! – ele pediu, esperando pelas três palavras mágicas.
   - Digo. É o seguinte: Você Não Pode.
   - Como?
   - É isso aí. Você não pode. Ninguém pode mudar ninguém.
   - Que diabos de resposta é essa, homem? Como assim ninguém muda ninguém?
   - Ao longo da minha carreira de médico, posso dizer com uma boa dose de certeza que devo ter atendido mais de 250 mil pessoas. Uma conclusão a que eu cheguei depois de passar pela vida dessa multidão toda é que ninguém, ninguém!, é capaz de mudar outra pessoa. A mudança tem que vir de dentro. Do contrário, não é mudança: é controle por condicionamento, coerção ou fingimento.

Não sei se eles entenderam, mas a verdade é indiscutível.

Tentar gerenciar o comportamento e as consequências emocionais de outra pessoa, quem quer que seja ela, é uma receita pronta para o desapontamento. Mas você pode criar um ambiente favorável que ESSTIMULE a mudança dentro do outro - e ESSA é a grande aposta que faz o resto do truque dar certo.

16 setembro 2014

Você está na equação?

© Alessandro Loiola




Reflexão para começar a manhã: levar os dias como uma sequência de escolhas e oportunidades ao invés de tentar se passar por vítima de todas as circunstâncias aumenta suas chances de sucesso. Isso parece óbvio, mas esse cenário de dissimulação infantil pode se infiltrar de modo bastante sutil na sua vida.

Quando você vive nesse nível e compreende que as coisas que você faz são escolhas que você tomou (ou consequências dessas escolhas), a vida assume uma nova dimensão. Seja planejar um passeio, ir trabalhar, fechar um contrato, cuidar das crianças, preparar o almoço ou arrumar a casa, tudo se torna mais divertido.

Se deseja que as coisas dêem certo, precisa se incluir na equação das suas escolhas 100% das vezes.

“Pode contar comigo” é uma frase típica do sujeito que encara a vida de modo consciente, adulto e comprometido com suas decisões. 

Pessoas não comprometidas, ansiosas por assumir o papel de vítimas, em geral se saem com “Resolva aí do seu jeito e vamos ver como fica” ou “Faça como você achar melhor”. E na primeira situação de dificuldade, atacam com o velho “Não aguento mais fazer só o que os outros querem!”.

O espírito de colaboração com a sua vida não tem coisa alguma a ver com quem merece o quê. Ele tem, sim, a ver com o seu comprometimento pessoal em ter uma grande experiência de existência. O hábito de personalizar negativamente as consequências, retirando sua parcela de responsabilidade da equação, deveria ser considerado uma forma de doença mental.

Se você tem hábito de fazer isso, mude agora. Ou marque uma consulta.

12 setembro 2014

Você tem força de vontade?

© Dr. Alessandro Loiola


Praticamente todas as pessoas acreditam que “força de vontade” seja algo embutido dentro de nós, um presente genético, e que alguns nascem com uma boa dose de força de vontade enquanto outros, menos favorecidos, simplesmente não foram abençoados com essa faculdade.

A verdade é que todos nós podemos “ter” força de vontade. A pergunta é se você irá aprender a desenvolver e usar essa qualidade, ou não.

Lendo alguns bons livros, entendi que força de vontade é como um idioma. Qualquer criança pode aprender um idioma (a bem da verdade, todas as crianças aprendem um idioma). Uma pessoa de 90 anos de idade também pode aprender um novo idioma. Se você tem 9 ou 90 anos de idade e está perdido em Londres, saber um pouco de inglês ajuda bastante para conseguir comida e abrigo.

Se você não sabe inglês, você pode aprender a língua, o quanto quiser. E quanto mais você utilizá-la, maior será seu domínio e mais coisas estarão ao seu alcance. Mesmo que você jamais tenha tido contato com inglês antes, é perfeitamente possível reconhecer, aprender e utilizar o idioma como quem usa uma ferramenta qualquer: carregue seu pequeno dicionário inglês-português para cima e para baixo, anote suas dúvidas, pergunte, converse, ouça músicas, leia jornais e revistas, escreva bilhetes, envie e-mails, assista TV, tente se virar do jeito que for. Convenhamos: você não precisa nascer com uma habilidade especial para isso. É só querer.

O mesmo vale para força de vontade, ainda que muitas pessoas não acreditem nisso e considerem a tenacidade no caráter como um aspecto intrínseco da personalidade. Isto é um grande equívoco. Pensar assim é um erro que pode arruinar sua vida e a vida a dois.

Mas a boa notícia é que nunca é tarde demais para corrigir o rumo.

Você nunca ouviu alguém dizer ou disse para si mesmo: “Eu sei que isso está atrapalhando meu relacionamento e até queria mudar, mas não tenho força de vontade suficiente”?

Nada mais distante da verdade: você tem tanta força de vontade quanto qualquer outra pessoa. Pode ter acontecido apenas que você até agora não decidiu utilizá-la plenamente.

Quanto mais você consulta seu dicionário de inglês-português e utiliza as palavras que encontra, mais fácil vai se tornando se comunicar na língua. Se você fizer seu dever de casa direito, treinar e praticar suas frases no espelho, logo falar inglês se tornará algo natural, como se aquilo fizesse parte de você desde o princípio. A força de vontade funciona da mesma maneira.

Se você compreender lá dentro do seu coração que força de vontade é algo que se usa, não algo que se possui, então você pode utilizar essa ferramenta para realizar praticamente qualquer coisa que queira, sempre que quiser.

Lamentavelmente, vejo pessoas preocupadas se elas “tem” força de vontade ou não para empreender uma determinada mudança. Esqueça esse conceito e aceite: força de vontade não é um dom, uma benção ou uma dádiva. É uma ferramenta, como um martelo. Como um dicionário.

Esqueça as desculpas, sabotagens e fatalismos melancólicos que seu subconsciente pode insistir em vender como se fosse a verdade derradeira. Não engula isso. Mude sua história agora. Desenvolva com coragem e utilize sua força de vontade disciplinadamente a seu favor.