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02 outubro 2014

O valor da atenção

© Alessandro Loiola



Existe um adágio popular que diz: “O olho do dono é o que engorda o boi”. Interessante e verdadeiro. Basicamente ele está dizendo que atenção gera prosperidade. Tudo aquilo a que dedicamos nossa atenção tende a crescer.

Cuide das plantas de sua casa e elas vicejarão. Preste atenção especial a um determinado desafio no trabalho e logo você aumentará seu conhecimento a respeito e, como consequência, aumentará também a possibilidade de resolver aquilo com sucesso. A atenção tem esse efeito: para onde quer que você a aponte, o objeto da atenção cresce e evolui.

Quando for rever para onde anda mirando sua vida e se está obtendo o progresso que acha que merece, preste bastante atenção também nos resultados, e não para os esforços que anda fazendo para obtê-los. Não espere uma recompensa se você “pelo menos tentou”.

“Vou tentar diminuir meu orgulho”. “Vou tentar ser mais atencioso(a) ou compreensivo(a) ou resiliente”. “Vou tentar ser menos ciumento(a)”. Sério, você acha que tentar basta?

Um rottweiler raivoso está correndo ao seu encalço e você pensa em escapar pulando o muro. Tentar não é o bastante, não vai lhe colocar em uma faixa de segurança. E também não deve ser o foco. Você tem que pular o muro e escapar, não existe meio termo. Se começar a valorizar o tentar, logo estará acomodado em apenas fazer algum esforço (por mais frouxo e medíocre que ele se torne com o tempo) e nunca irá obter qualquer avanço prático.

Lembre-se: onde quer que você preste atenção, é lá que a coisa irá terminar. É a lei da lavoura - o que você planta, você colhe. A atenção é uma arma poderosa, mas muitas pessoas permitem que ela seja jogada de um lado para o outro pelos outros, o dia inteiro, pelos motivos mais banais.

Se você investir sua atenção nas coisas que realmente quer E IMPORTAM (confiança, afeto, alegria, respeito, diálogo, serenidade, paz), as chances são de cada vez receber mais e mais disso.

22 setembro 2014

Ansiedade & Tímpanos

© Alessandro Loiola




Depois de atender como médico praticamente 7 dias na semana nos últimos 20 anos, aceitei o fato de que você não pode alcançar uma pessoa que não lhe dá atenção. Se o que você está dizendo causa desconforto demais, não adianta ser gentil ou falar de mansinho. Você não será ouvido/ouvida. O outro tem que lhe escutar para entender.

Agora, o pulo do gato: para que alguém lhe escute, primeiro a pessoa tem que ser ouvida. Não funciona ao contrário. Nunca funciona quando você toma a frente: a outra parte tem que perceber primeiro que você está na mesma sintonia e que você a compreende completamente.

Um paciente – vamos chamá-lo de Flávio – veio fazer um check up e conversa vai, conversa vem, reclamou de ansiedade aguda. A causa? Estava tendo problemas no noivado, justamente agora que estava a poucas semanas do casamento. Discutiam o tempo todo e ele não sabia mais o que fazer.

- Eu simplesmente não sei onde está o problema. O que você sugere?
- Comece preparando um jantar em casa.
- Tá, e daí? O que eu digo pra ela?
- Nada. Apenas ouça.
- Ouvir o quê?
- A pessoa do outro lado da mesa.
- E sobre o que deve ser a conversa?
- Sobre nada específico. Apenas pergunte como anda a vida dela. Se está tudo bem, o que ela acha que está acontecendo e o que poderia ser mudado para melhorar as coisas, por exemplo.
- Hum, entendi. E daí?
- Daí nada. Apenas ouça.
- Olha, não sei se eu vou conseguir fazer isso...
- Ótimo. Então você acabou de encontrar a fonte do problema. A partir daí é com você, campeão.

19 setembro 2014

Como mudar o outro?

© Alessandro Loiola




Uma ocasião, batendo papo na varanda de casa com um casal de amigos que estava atravessando um período de turbulência, caí na asneira de comentar no meio da conversa que eles poderiam mudar em um estalo de volta ao mar de rosas. E que isso era absurdamente fácil.

   - Fácil é dizer, você que está de fora... – ele disse.
   - Além do mais, se é tão fácil assim, então por que você separou e casou de novo e separou e... – ela completou, virando os olhos para cima, já demonstrando impaciência.
   - Fiz escolhas erradas, muitas, e me comportei mal várias vezes. É verdade. Mas tive a sorte de conseguir aprender algumas coisas valiosas no caminho, e hoje vivo em paz comigo mesmo, que é o mais importante.
   - Então tá – ele falou. - Vamos dizer que todo nosso problema está no fato de que um determinado comportamento dela me irrita profundamente e que isto é o motivo de 99% das nossas brigas.
   - Hum.
   - Como eu faço para mudá-la?
   - E isso é tudo que você deseja saber?
   - Sim, saber isso praticamente resolveria a situação.
   - Rapaz, então vou te poupar um bocado de tempo e terapia de casal! Vou lhe dizer em três palavras como você pode mudar o comportamento dela.
Ele colocou o copo sobre a mesa e inclinou-se em minha direção, enquanto ela o olhava apreensiva.
   - Diga! – ele pediu, esperando pelas três palavras mágicas.
   - Digo. É o seguinte: Você Não Pode.
   - Como?
   - É isso aí. Você não pode. Ninguém pode mudar ninguém.
   - Que diabos de resposta é essa, homem? Como assim ninguém muda ninguém?
   - Ao longo da minha carreira de médico, posso dizer com uma boa dose de certeza que devo ter atendido mais de 250 mil pessoas. Uma conclusão a que eu cheguei depois de passar pela vida dessa multidão toda é que ninguém, ninguém!, é capaz de mudar outra pessoa. A mudança tem que vir de dentro. Do contrário, não é mudança: é controle por condicionamento, coerção ou fingimento.

Não sei se eles entenderam, mas a verdade é indiscutível.

Tentar gerenciar o comportamento e as consequências emocionais de outra pessoa, quem quer que seja ela, é uma receita pronta para o desapontamento. Mas você pode criar um ambiente favorável que ESSTIMULE a mudança dentro do outro - e ESSA é a grande aposta que faz o resto do truque dar certo.

09 setembro 2014

Sobre relacionamentos: a escolha é sua.

© Alessandro Loiola




Alguns relacionamentos dão tão certo que chegamos a acreditar que amor à primeira vista e almas gêmeas realmente existem. Sinceramente, isso é o tipo de esperança fútil que tira todo o mérito do esforço que casais que deram certo tiveram para que o relacionamento deles vicejasse.

Um relacionamento não é um jogo de dados. Ele é uma construção diária. E conservá-lo é uma habilidade que pode ser adquirida, como andar de bicicleta ou jogar xadrez – desde que o nível adequado de comprometimento, coragem e disciplina estejam presentes dos dois lados.

Se preservar um relacionamento é algo que pode ser ensinado e aprendido em qualquer idade, por que todas as pessoas não trabalham nesse sentido? A resposta é simples: porque as pessoas não sabem o que é um relacionamento ou o que deveriam esperar dele – como poderiam então aprender a conservá-lo?

A maioria não lê artigos, revistas ou livros sobre relacionamento, não participa de seminários e discussões sobre o tema, então não sabe definir o que é uma relação. Essas pessoas confiam em seus instintos e fecham-se para qualquer aprendizado. Quando as coisas dão errado, se escondem sob o edredon confortável do Orgulho e do Ego e consolam-se com a ideia de que um dia, ah um dia hão de finalmente encontrar a outra metade da laranja que merecem e apaixonar-se à primeira vista.

O remédio para esse tipo de cegueira é revisar a imagem que você tem do que seria um relacionamento de verdade e quais as ferramentas comportamentais necessárias para mantê-lo vivo por muitos e muitos anos.

Ou nos tornamos miseráveis, ou nos tornamos fortes. Para qualquer lado, o esforço é o mesmo (Carlos Castaneda).

Comprometa-se com essa ideia e parta em busca do que falta - e importa.

25 maio 2011

PEGAÇÃO EVOLUCIONISTA

© Dr. Alessandro Loiola


Após uma seqüência alienígena de plantões ininterruptos, daquele tipo que visa provar que seres humanos podem, sim, sobreviver tranqüilamente dormindo menos de 4h por semana, sentei na frente do computador em crise criativa. Sobre o que escrever?

Por sorte, ao checar a caixa de email, havia a solicitação de uma repórter para um artigo sobre... sedução. Pronto, bingo!

Este sempre foi um excelente tema. Até porque, quem nos batizou de Homo sapiens não sabia de nada. Somos Homo carenttis, isso sim. Homens e mulheres. Passamos a existência nos sentindo misteriosamente sós em um planeta com mais de 6 bilhões de indivíduos da mesma espécie.

A explicação para este perene e suave sentimento de solidão pode estar na parte da medicina que estuda o desenvolvimento dos embriões, a embriologia.

Sem querer soar freudiano, temos uma vida generosa no útero materno. Nada de fome, indigestão, calor, frio, cartão de ponto, mensalidade da escola das crianças, louças do final de semana criando um crocodilo na pia da cozinha... nada disso. Um eterno feriado em um spa 6 estrelas, onde recebemos tudo na mão.

Quer dizer, não exatamente na mão, mas na barriga, pelo cordão umbilical, depois de uma checagem rápida das malas na alfândega da placenta. Mas você captou o conceito.

Pois então, como satisfazemos nossa saudade do conforto recebido no útero materno? Fácil: utilizando uma ferramenta chamada sedução.

Você irá encontrar um monte de definições frias e calculistas para o verbo “seduzir” no dicionário, mas o que ele significa mesmo é algo muito simples. Seduzir é a arte de manipular analiticamente os outros para obter atenção. E esta atenção, como uma massa de pizza pronta para ser levada ao forno, pode se transmutar em uma amizade, um namoro, um casamento, uma promoção, uma gentileza, um lugar mais na frente da fila – o que você quiser.

Estamos a (e precisamos) seduzir o tempo todo. A sedução foi a chave de fenda que apertou os parafusos entre os óvulos e os espermatozóides de nossos pais e mães. Ela está impregnada em seu DNA, é quem mantém nosso tecido social vivo. A sedução está na base do mundo que construímos – e é absolutamente necessária.

Recentemente, tem havido um retorno da mídia para este tema. Desde o filme “Hitch – conselheiro amoroso”, com Will Smith (se não assistiu, alugue ainda hoje!) até a febre em formato de reality-show chamada VH1 – The Pickup Artist, que promete transformar bobalhões tímidos em super-Don Juans, a sedução está novamente na crista da onda.

Boa parte destes filmes, sites e revistas que pretendem ensinar a arte da conquista sedutora se apóiam em sólidos conceitos de psicologia evolucionista, que podem ser resumidos em 3 pontos universais:

1. Selecione quem você vai seduzir. Para diminuir o risco de receber um fora 0,01 segundo após abrir a boca para falar qualquer coisa, jogue sua rede através do contato olho-no-olho. Uma boa troca de olhares é o primeiro sinal de receptividade.

2. Não perca tempo: obedeça a “regra dos 3 segundos”. Já experimentou ficar parado com o carro no meio do trânsito após um sinal verde? Em 3 segundos vem uma buzinada. Na arte da sedução, vale o mesmo princípio: a troca de olhares significa que o sinal abriu? Sorria, utilize toda sua linguagem corporal e mova-se imediatamente!

3. Fuja do protocolo: mostre que você tem algo de diferente, que seus genes podem oferecer uma variedade de novas qualidades superiores à média ao seu redor.

Um bom exemplo de protocolo que dá sono: as famigeradas perguntas “você vem sempre aqui?” (Não, na verdade neste exato momento estou dormindo na minha casa...), “você trabalha com quê?” (sou um traficante internacional de órgãos e vim nesta festa me esconder da Interpol), e “acho que te conheço de algum lugar”... essa... sem comentários.

Uma tática para fugir do protocolo e adicionar pontos à sua técnica de sedução é fazer algo quase extraordinário em um encontro: peça a opinião da outra pessoa em algum assunto, trivial ou relevante.

Controle-se, não interrompa dizendo o que você acha sobre o que você mesmo acabou de perguntar – se fosse este o caso, bastaria sentar-se com seu Ego na mesa mais próxima para um longo monólogo.

Ouça a outra pessoa com interesse genuíno e engate uma conversa a partir daí. Esta é uma estratégia mágica, de sucesso quase garantido. Afinal, alguém que deseja saber a opinião de uma pessoa tão extraordinária quanto você só pode ser uma pessoa extraordinária também, certo? É assim que nós, Homo sapiens carenttis, funcionamos.

E a vida segue.