17 março 2018

NÃO APRENDA A PERDOAR A SI MESMO

Nosso medo de parecermos severos e censuradores é acompanhado do desejo de parecermos compreensivos. Compreender tudo é perdoar tudo. Consequentemente, se perdoamos tudo, compreendemos tudo – e nos colocamos na posição de uma deidade misericordiosa.

Se todos devem ser perdoados, não há mérito em julgar. Se ninguém será julgado, então ninguém deve julgar – nem a si mesmo. Isso implica efetivamente em uma carta branca para fazer o que se quer: bastaria a compreensão de outrens e estaríamos instantaneamente absolvidos de nossos erros.

Por isso não é incomum hoje em dia ouvir dizer “estou aprendendo a me perdoar” (geralmente com a orientação de um terapeuta ou coaching), como se esse aprendizado fosse um trabalho duro e de grande valor para a humanidade, equivalente a descobrir a cura para o câncer ou construir uma máquina de teletransporte.

De acordo com os modos mais tradicionais de pensamento, aprender a se perdoar é aprender a agir sem escrúpulos, seguindo no próprio rumo sem se importar com as outras pessoas – basicamente, aprender a perdoar-se é um excelente caminho para transformar-se em um genuíno psicopata.

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Adaptado de Evasivas Admiráveis, de Theodore Dalrymple

SOBRE A DESCULPA DA DEPRESSÃO

Se alguém admite ser infeliz, pode ter sido sua má conduta, tola ou imoral, que contribuiu para isso. Mas se ele se diz “deprimido”, torna-se então vítima de uma doença que, metafisicamente falando, caiu do céu sobre sua cabeça. Isso faz com que a pessoa deixe de ser um sujeito competente e capaz de agir e se torne um objeto frágil à deriva sob as “forças do mundo”.

Então essa pessoa, esmagada pelas circunstâncias e pelas suas escolhas ruins, dotada de pouca habilidade ou perspectivas econômicas - e igualmente poucos interesses intelectuais -, passa a encontrar nas crises acarretadas por sua “patologia psicológica” um sentido para o desalento de sua existência. Durante uma consulta, seu médico, tão desesperado quanto ela, prescreve comprimidos por falta de opções.

Sorte de ambos: os rumores de que a infelicidade é um estado patológico – e não uma consequência da falta de Racionalidade, Caráter, Honra ou Coragem – sempre ofereceu um abrigo aconchegante, até mesmo nas situações mais precárias.

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Adaptado de Evasivas Admiráveis, de Theodore Dalrymple

11 março 2018

BANCANDO O CICERONE LITERÁRIO

Em conversa com um bom amigo que está retomando o hábito da leitura, fui "solicitado" (na verdade, me intrometi a aconselhá-lo) a fornecer um roteiro de leitura.

Para quem quer começar a pensar para além da Matrix cotidiana, aqui vai uma sugestão de caminho:

1) Para iniciar, O Imbecil Coletivo e Tudo que você precisa para não ser um idiota, de Olavo de Carvalho. Não é 100% aproveitável, mas é uma boa sacudida e certamente é um tapa merecido na mesmice.

2) Na sequência, Yuval Harari: Sapiens, Uma Breve História da Humanidade.

3) Emende com Eu, Primata, de Frans de Waal.

4) E então A Arte de Pensar Claramente, de Rolf Dobelli, e A Revolta de Atlas, de Ayn Rand.

5) Para fechar o ciclo, a cereja do bolo: Ética a Nicômaco, de Aristóteles.

Eu sei que provavelmente você indicaria alguma outra sequência - e adoraria saber qual. Manda sua lista aí 😉😊📚

UMA REFLEXÃO COMPLEMENTANDO O CAIXETA

Recentemente, através da fanpage Semiologia Médica, recebi uma reflexão até sensata creditada ao psiquiatra Marcelo Caixeta.

É o seguinte:

Como seria bacana se todos assumíssemos a Verdade! Teríamos um país mais eficiente, justo e próspero. Mas optamos por viver confortavelmente nessa fantasia agradável da mentira, fingindo que o óbvio não existe.

Quer um exemplo do mundo real? Vamos lá: na minha área profissional, a OS que gerencia o PSF estabeleceu contratualmemte uma meta de atendimento junto aos gestores municipais: 720 consultas / médico, dentro se uma carga horária de 160 horas mensais.

Se nós, médicos, passássemos todo o tempo consultando, teríamos exatamente 15 minutos para dedicar a cada paciente - entre receber na porta, dar bom dia, estabelecer um vínculo de confiança, ouvir queixas, conferir exames, solicitar exames e avaliações para especialistas (ah, se não pedir exame de sangue, fezes e urina e não encaminhar para Ortopedia, Cardiologia, Reumatologia, Ginecologia e Oftalmologia, você é um Ogro), revisar medicamentos, refazer a receita e explicar item por item (a maioria é de analfabetos funcionais e um número impressionantemente elevado é dependente de antidepressivos e benzodiazepínicos), fazer relatório para atividade física ou "para ver se encosta no INSS", anotar tudo (queixas, exame clínico, resultados de exames complementares, comorbidades, hipóteses diagnósticas e plano terapêutico) legivelmente no prontuário, cadastrar atendimento no e-SUS, perguntar se tem dúvidas, despedir e levar até a porta. Quinze minutos para esta rotina. Sem levar em conta as visitas domiciliares...

Ao final da maratona desse teatro, somos "convidados" para reuniões com os gestores, que querem que você responda a alguns questionamentos da ouvidoria: por que você demora no atendimento? Por que você atende rápido demais? Por que encaminhou a paciente que utiliza 4 medicamentos controlados para passar com o Psiquiatra? Ela se sentiu ofendida. E por que disse que as dores articulares daquela senhora com 1.58m de altura e 98 kg eram decorrentes de obesidade? Ela TAMBÉM se sentiu ofendida. E outra coisa: você não está atingindo a meta de atendimentos mensais...

Quer saber? Esse país não está indo para o buraco. Ele É o PRÓPRIO buraco.

10 março 2018

FEMINISMO, HONRA E CONQUISTAS

Não se vê um homem, ao ganhar um prêmio, dizer que tem orgulho de ser um Homem ou atribuir, com frequência, o alcance de uma meta a uma expressão superadora de sua masculinidade. Entretanto, regularmente, vemos mulheres celebrando seus títulos dizendo "estou orgulhosa por ser MULHER!".

Como você pode dizer-se orgulhoso por ser algo que foi-lhe simplesmente dado, não conquistado a duras penas?

As lutas pelo sufrágio e pela educação universal, pelo fim da escravidão e pelo término da Segunda Guerra Mundial não foram suas ou minhas, mas de outras gerações. Não há dignidade alguma em usurpar-lhes a vitória e dizer "tenho orgulho de ser um homem brasileiro por termos combatido na Europa". Se você tem menos de 80 anos, você não lutou essa guerra. Reconheça humildemente que os louros desses combates não lhe pertencem. Não pegue-os para si.

Quando VOCÊ vencer algo, orgulhe-se de seu esforço, de sua garra, de sua disciplina, de sua consistência, e da ajuda de TODOS aqueles que participaram de seu progresso rumo ao objetivo - porque NINGUÉM VENCE SOZINHO.

Mas orgulhar-se de sua nacionalidade, cor da pele, sexo, verrugas, preferências na cama ou dedos do pé - especialmente em nome de batalhas travadas POR OUTROS, há muito tempo - é como um sapo, enquanto dá seus pulos anfíbicos, orgulhar-se de ser um sapo descendente direto de peixes ósseos.

Não quero saber se você tem orgulho de ser um sapo. Ou uma sapa. Ou um descendente de eucariotas. Quero saber de sua história - e da Honra que lhe pertence unicamente e encontra-se de maneira genuína embutida nela.

09 março 2018

A MERITOCRACIA E O PEDIGREE BRASILEIRO

Durante o período de colonização dos EUA, a comunidade foi organizada antes do condado, o condado antes do Estado, e o Estado antes da União. No Brasil, tão cedo quanto em 1504, já éramos submetidos a um sistema de Capitanias Hereditárias – uma ordenação colonizadora completamente invertida à dos EUA.

Segundo Alexis-Charles-Henri Clérel, visconde de Tocqueville, diplomata, historiador e cientista político francês do século XIX, “os povos sempre se ressentem de sua origem. As circunstâncias que acompanharam seu nascimento e serviram para seu desenvolvimento influem sobre todo o resto de sua carreira”.

Para Tocqueville, “se nos fosse possível remontar até os elementos das sociedades e examinar os primeiros monumentos de sua história, descobriríamos ai a causa primeira dos preconceitos, dos hábitos, das paixões dominantes, enfim de tudo o que compõe o que se chama caráter nacional. 

Poderíamos encontrar a explicação de usos que, hoje em dia, parecem contrários aos costumes reinantes; de leis que parecem em oposição aos princípios reconhecidos; de opiniões incoerentes que aparecem aqui e ali na sociedade, como esses fragmentos de correntes rompidas que às vezes ainda vemos pender nas abobadas de um velho edifício e que não sustentam mais nada.

Assim, por meio da análise de suas origens, poderíamos explicar o destino de certos povos, "que uma força desconhecida parece arrastar para um fim que eles mesmos ignoram”, finaliza o visconde.

Tocqueville escreveu essas palavras em 1835, no maravilhoso A Democracia na América, mas o modo como elas podem ser aplicadas à nossa própria história brasileira, profetizando a atual proliferação de caracteres fracos e discursos disseminados de vitimização e auto-piedade, me causa arrepio toda vez que as leio.


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“A inferioridade de nossa natureza, incapaz de apreender com firmeza o verdadeiro e o justo, frequentemente reduz-se a optar apenas entre dois excessos”. (Tocqueville, in A Democracia da América).

08 março 2018

O HOMEM DE NEGÓCIOS

Cada produto que melhorou a vida humana resultou de criadores e produtores de idéias: temos abundância de alimentos graças aos métodos mais eficientes de agricultura desenvolvidos pela ciência. Vivemos hoje o dobro de nossos antepassados da era pré-industrial devido aos avanços na tecnologia médica, nas noções de sanitarismo, de imunização e antibioticoterapia – todos frutos de pesquisas e trabalho duro. Se desfrutamos de ar condicionado, transporte aéreo, smartphones, TV a cabo e acesso rápido à informação, isso ocorreu porque inventores tiveram liberdade para fazer as perguntas e conexões necessárias.

Contudo, a maioria das pessoas ignora uma figura essencial nesta escada de progresso: o Homem de Negócios. Os comerciantes, os vendedores, os empresários, foram eles que extraíram as descobertas do anonimato dos laboratórios e do submundo academicista e as colocaram nas prateleiras do Mercado – muitas vezes, financiando previamente as pesquisas necessárias para o seu desenvolvimento.

Por trás das atividades do Homem de Negócios oculta-se um processo racional tão importante quanto aquele dos cientistas e inventores: ele deve descobrir como encontrar e treinar trabalhadores que irão montar um produto de qualidade. Ele deve calcular os custos envolvidos para tornar o produto “vendável”. Ele deve determinar como apresentar seu artigo para alcançar os potenciais consumidores. E ele deve maquinar uma maneira para financiar todo o empreendimento, persuadindo investidores, fornecedores e distribuidores, retroalimentando o circuito de crescimento. Todas estas etapas – e muitas outras – dependem da mente do Homem de Negócios. Se ele não tiver liberdade para pensar, sua iniciativa resultará em prejuízo e seu produto será extinto.

A dedicação, a persuasão e a racionalidade do Homem de Negócios são virtudes das quais nossas vidas - e nossa prosperidade - dependem profundamente. A única maneira de respeitar esta virtude é permitir que o Homem de Negócios tenha liberdade de ação – e é exatamente isto que o Capitalismo faz.

Infelizmente, na maioria dos casos, a regulamentação do Estado atua como um obstáculo para o Homem de Negócios. O Estado raramente contabiliza os resultados no longo prazo: interessa-lhe apenas o que é politicamente vantajoso para o momento. O Estado não joga com o próprio dinheiro: ele negocia com as vidas, as propriedades e os bolsos de terceiros. E mais importante: o Estado não precisa persuadir suas vítimas. Ele simplesmente impõe suas normas – não por meio da Razão, mas da força física.

Um Estado que sacrifica ideias em nome da obediência cega ao seu Realismo Moral, não opera sob um sistema Capitalista: ele é uma doutrina de brutalidades e escravidão – seja ele comunista ou fascista. E qualquer sistema “misto”, como as propostas atuais de “bem estar social”, representa apenas uma maneira mais gradual de liberar as mesmas moléstias regulamentadoras e improdutivas que desflorestam o Livre Mercado - o único habitat propício ao verdadeiro Homem de Negócios.

03 março 2018

SOBRE MERITOCRACIA E ASSISTENCIALISMO

Atualmente, 4.510 famílias de Caraguatatuba são beneficiadas com o programa Bolsa Familia do Governo Federal.

Em média, essas pessoas tem 2 filhos - ou seja, são núcleos familiares compostos por no mínimo 3 indivíduos. Isso totalizaria 13.530 pessoas sob o programa de auxílio em uma cidade com 113.000 habitantes. A grosso modo, 1 de cada 10 caraguatatubenses depende de alguma maneira do repasse fornecido pelo governo - e o número sobe a cada ano.

Trabalhei durante quase 3 anos em uma UBS que tinha um bom Centro Universitário (IGC de 3 pelo MEC!) a menos de 500m de distância do bairro. Rotineiramente, perguntava aos atendidos com faixa etária compativel com o perfil da População Economicamente Ativa se alguma vez haviam atravessado a rua para se informar sobre como cursar uma disciplina ou buscar uma graduação lá. Nunca obtive uma resposta positiva.

O PAT de Caraguatatuba oferece periodicamente uma lista razoável de postos de trabalho disponíveis. A esmagadora maioria dos "desempregados" que atendi jamais relatou ter procurado recolocação junto ao órgão. Alguns, nascidos e criados na cidade, alegavam sequer saber que tal coisa existia.

Andando de bicicleta pelo centro, vários - mas vários comércios mesmo - exibem placas de "precisa-se". Conheço muitos proprietários de lojas e restaurantes e, quando perguntava "qual a sua maior dificuldade em tocar o negócio por aqui?", a maioria respondia: encontrar pessoas "ponta-firme", empenhadas em trabalhar com seriedade e disciplina.

Graças a essa tão festejada "cultura caiçara", a cidade ocupa a 169a posição estadual no ranking de IDH e é o terceiro município mais violento de São Paulo.

As oportunidades existem. Acreditar que o Estado tem a obrigação de cuidar do cidadão que é molenga e desinteressado, que não estuda, não lê, não se capacita e não procura trabalho porque às três horas da tarde de uma quarta feira vai cozinhar mexilhão na Praia Brava e à noite sai para fumar erva na praça de skate, é apenas mais do mesmo paternalismo socialista de sempre.

Infelizmente, a maldição do assistencialismo se infiltrou de tal maneira no espírito do brasileiro que ele se transformou em uma espécie de zumbi infantilizado, que reclama e espera "pelos seus direitos" enquanto tenta escapar de todas as maneiras de qualquer "dever". Mas quem tem coragem de olhar a verdade de perto e colocar honestamente o dedo na ferida? É mais fácil continuar culpando o "sistema" e seu representante oficial - o malvado papai Estado.

UMA VERDADE INCONVENIENTE SOBRE NOSSA EDUCAÇÃO PÚBLICA

Imagine o seguinte: eu lhe dei 30.000 reais e pedi para você comprar um veículo para mim, dizendo "Traga aqui um carro com esse dinheiro e lhe darei outros 30 mil de prêmio. Mas com uma condição: eu quero um automóvel com 6 air bags, trio elétrico, painel de LCD, suspensão inteligente, hidramático e com direção eletrohidráulica".

Você conseguiria comprar um carro assim por 30 mil?

Talvez você conseguisse um carro, mas certamente ele não atenderia às minhas exigências de qualidade, certo?

Para colocar um cérebro EXCELENTE dentro de sala aula, com contrato de exclusividade, 160h por mês, motivado, animado, orientando e iluminando caminhos e vidas muito mais que apenas passando matéria para 40 alunos, isso sairia por quanto? Uns 40-50 reais a hora?

Lembre-se: assim como quero um carro top, procuro um professor TOP - não um Fiat 147 com juntas gastas e motor sem fôlego. Estamos falando de um professor-ferrari aqui! Então fechamos esse orçamento em 50 mangos a hora, pode ser? Ótimo.

O fato é que cérebros EXCELENTES têm um preço, eles custam dinheiros. Talvez eu até consiga um por 40-50 reais a hora, mas provavelmente não conseguiria pagando 10-11 reais a hora. Ninguém adquire uma Ferrari por 11 reais a hora...

Pois 11 reais por hora de trabalho é o preço médio dos neurônios que aceitamos comprar para colocar nas salas de aula dos municípios brasileiros. Qual a qualidade do raciocínio, o nivel de sagacidade, a noção de meritocracia, objetivismo, empreendedorismo e autonomia que você acredita que esses cérebros têm?

Não se compra uma Ferrari com praças, parques, lousa eletrônica, tablets, refeitorios bonitos ou ginásios poliesportivos.

Quando você aceita comprar um Fiat 147, está adquirindo um automóvel com raízes italianas, sem dúvida, mas é absolutamente insensato esperar que ele ande como uma 335 S Spider. Uma Spider anda muito, é uma Ferrari!, e justamente por isso custa bem caro.

E essa é a realidade de nossos sistema público de educação: pagamos por Fiats 147 usados e  vivemos o delírio de vê-los disparando eficiências e resultados como um bólido do comendador Enzo. Sabe quando esse milagre irá acontecer?

01 março 2018

TEMOS DISCERNIMENTO PARA SUSTENTAR UMA DEMOCRACIA?

Com a proximidade das eleições, esta deveria estar sendo uma das discussões prioritárias por aqui. Um Livre Mercado competitivo com crescimento econômico sólido não necessariamente exige Democracia - e vice-versa. Amarrar uma coisa na outra contamina o debate sobre o mérito de ambas simultaneamente, gerando nada além de desperdício de tempo.

Temos mesmo condições sócio-econômico-culturais para um sufrágio universal como o atual? Argumentar isso virou uma espécie de "blasfêmia", mas, por uma questão de maturidade e análise da série histórica nacional, deveríamos ter coragem para levar o debate ideológico para além do "sagrado dogma democrático".

Talvez um modelo "ideal" para nossa latinidade passe por um misto de Sistema de Westminster Inglês com a Democracia Meritocrática Vertical da China, quem sabe. O fato é que, do modo como estamos indo, persistindo em uma ditadura da mediocridade majoritária, o futuro é inegavelmente sombrio.

Resta saber se haverá algum dia equilíbrio Moral - e lucidez emocional - para uma troca saudável de ideias nesse sentido. Provavelmente, não.

15 fevereiro 2018

O EMBOTAMENTO E O DESTINO DE UM PAÍS

Você sabe o que é Embotamento?

Em termos médicos: "um tipo de comportamento em que o indivíduo apresenta-se com dificuldades em expressar emoções e sentimentos. É comum ocorrer na esquizofrenia e em outras doenças psiquiátricas".

A faixa de QI de pessoas com Embotamento vai de 80 a 89.

Registre-se que o QI médio do brasileiro é 87 e ele lê (voluntariamente e talvez por isso mesmo) menos de 2 livros não-acadêmicos por ano.

Deixo as conclusões sobre o futuro de nossa nação por sua conta.

07 fevereiro 2018

A MEDICINA PÓS-MODERNA


Seguramente, 85% dos pacientes que atendo não estão doentes: eles SE ACHAM doentes. Não tenho saída para eles. (Se você acredita que “achar-se doente” é uma forma de doença, recomendo que leia O Mito da Doença Mental, de Thomas Szasz).

Outros 10% estão de fato doentes, mas querem ter 0% de responsabilidade sobre o curso de suas moléstias, transferindo todo ônus de sua melhora para remédios, consultas de especialistas, exames, fé, sorte ou destino, migrando de um consultório para outro, de um pronto atendimento para outro ou de um templo para o templo seguinte. Não tenho solução para esses casos idem.

Finalmente, 5% dos atendidos necessitam de fato de cuidados - mas muitos terminam não tendo o correto acesso a estes recursos devido às filas e confusões que o representantes dos dois grupos anteriores causam no sistema.

Se algum dia a Medicina foi uma arte, isto se perdeu miseravelmente por pressão de tecnicismos (qualquer dor de cabeça chega ao consultório trazendo uma pesquisa no Google que recomenda três ressonâncias para tirar a dúvida), legalidades (medicina anti-processo) e ideologias imorais de transferência de responsabilidade (recentemente, tive que chamar a polícia para ajudar a conter os ânimos dos familiares de uma paciente que se sentiu ofendida por eu ter informado que seu peso, com IMC de 39, era a causa de suas dores articulares). A Arte, hoje, é terminar o dia de trabalho sem atritos diagnósticos e ir para casa para começar o dia de Vida sem o risco deles.

O paciente anseia pela "medicina de antigamente" ao mesmo tempo em que insiste em ser "o paciente de hoje em dia". Nessa incongruência, todos perdem: o médico, o paciente e, principalmente, o emprego racional dos recursos limitados disponíveis.

E alguém vem me perguntar se escolhi fazer medicina como um modo de ajudar os outros...

Sinceramente, depois de 20 anos atuando e com um rastro de dezenas de milhares de pacientes atendidos, descarto por absoluto a possibilidade de realmente ajudar alguém. Nos atrapalhamos ou nos ajudamos sozinhos na mesma proporção. NADA, absolutamente NADA, vem de fora. TUDO - toda mudança, todo progresso, toda evolução pessoal - vem de dentro.

Você recebe os estímulos bons e ruins do meio e é você, apenas VOCÊ - e não sua mãe, pai, cônjuge, médico, psicólogo, pastor, horóscopo, cartomante ou o unicórnio de sua preferência -, quem irá decidir o que fazer com eles. Se irá perseverar com força e honra e evoluir, ou se irá se desfazer em lamúrias de autopiedade e vitimização.

No final, a Medicina é só uma de várias maneiras interessantes de ir descobrindo a Verdade do mundo - como se fosse apenas uma versão de muitas da pílula vermelha de Morpheus. Acordar para a vida sempre foi e sempre será uma decisão individual, jamais médica.

25 janeiro 2018

ESQUERDA E DIREITA: NÚMEROS COMO ARGUMENTOS

Uma pesquisa rápida na Internet é capaz de oferecer uma boa lista de mais de 20 países que enveredaram por regimes socialistas-comunistas ao longo do século XX. Comparando estes países com aqueles melhores colocados em termos de liberdade econômica, duas ponderações saltam aos olhos:

Primeiro, é curioso perceber como a Romênia conseguiu estar sob um regime comunista por 42 anos e, em menos de 30 anos, foi capaz de desenvolver um livre mercado a ponto de colocá-la entre os 20 países mais competitivos do mundo. Se temos qualquer intenção de resolver nosso país, a Romênia é um caso a ser estudado.

Segundo: excetuando-se a terra de Vlad Tepes - um verdadeiro ponto fora da curva -, a média de IDH nos países com histórico recente de regimes socialistas-comunistas é significativamente MENOR que o IDH médio de países cujos regimes são fortemente baseados em fundamentos de Livre Mercado.

Países socialistas-comunistas apresentam um IDH médio de 0,659, ao passo que países capitalistas com livre mercado apresentam IDH médio de 0,874 - uma diferença é de 0,215 pontos! 

Colocando esses números em perspectiva: considere que o IDH do Brasil é de 0,754 e o da Noruega, 0,949. Se, em uma situação hipotética, abandonássemos nosso inconsciente marxista recheado de direitos individuais que cobramos do Pai-Estado, e aderíssemos a um regime abertamente capitalista, e se com isso fosse possível adicionar esta diferença média ao nosso IDH, ultrapassaríamos a qualidade de vida da Noruega, atingindo a inacreditável potuação de 0,969 – e seríamos, de fato e por mérito, uma potência mundial como nunca houve.

Para que tal milagre acontecesse, seria necessário ver cada brasileiro abandonar a mentalidade de incompetências que marca nossa auto-indulgência coletiva; abominar qualquer interferência viciosa do Estado sobre a economia; assumir o Objetivismo e a Meritocracia como padrões absolutos de Moralidade; e desistir de uma vez por todas do discurso vitimizante que nos mantém na lama há séculos. 

Lamentavelmente, a possibilidade disso acontecer é mais remota que as chances de alguém ensinar um peixe de aquário a tocar clarinete. Que bom que ainda temos os aeroportos como saída...


LEITURA E DESENVOLVIMENTO

A média de leitura do brasileiro é de 2,1 livros por ano – sendo que, em 50% dos casos, a taxa de leitura não é voluntária: ela se deve a livros exigidos pelas escolas.

Quando deixado à vontade, é possível ver com clareza como o brasileiro faz suas escolhas: 44% da população brasileira não lê coisa alguma e 30% nunca comprou um livro. Aqueles que lêem, consomem parcos 1,3 livros não-acadêmicos por ano.

Na Finlândia – país cujo sistema educacional vive sendo motivo de louvores por aqui -, cada cidadão lê em média 16 livros não-acadêmicos por ano. Na França, são cerca de 20 títulos.

Há 60 anos, a Coreia do Sul tinha altos índices de analfabetismo e quase metade das crianças e jovens fora da escola. Na década de 1970, instauraram uma reforma educacional apostando na leitura como base. Em 2006, a Coreia tomou da Finlândia o primeiro lugar em leitura no PISA (o Programa Internacional de Avaliação de Alunos).

Uma pesquisa realizada pelo Instituo Pró-Livro mostrou que o consumo médio de livros em 2007 era de 4,7 livros/habitante /ano. Em 2011, este índice caiu para 4,0 livros/habitante /ano. Não estamos progredindo: estamos nos tornando uma nação mais iletrada e mais burra a cada dia.

Mas você acha que depois de 3 votos no TRF-4 condenando um sociopata que jamais cumprirá 1 ano sequer de cadeia, e elegendo o candidato fanfarrão da vez - o protagonista pseudo-militar de uma ópera bufa chamada Mitolândia -, estamos no caminho certo.

Seu problema não é excesso de esperança: seu problema é falta de leitura. Quando começar a ler, verá que ter otimismo sem manter um contato lúcido com a realidade é nada além de nutrir uma tolice ingênua ante a vida. E foi exatamente assim, de tolice em tolice, que construímos uma nação infantil e mentalmente doente.

ESTUDOS E RENDAS

A taxa de analfabetismo nos domicílios cujo rendimento é superior a dez salários mínimos é de apenas 1,4%, enquanto que naqueles cujo rendimento é inferior a um salário mínimo é de quase 29%*.  Mais do que relacionar estes porcentuais como causas ou conseqüências, é impossível negar que se existe algum fator primário capaz de eliminar sua miséria, este fator é o Estudo.

O ensino fundamental no Brasil é praticamente universalizado, as escolas possuem bibliotecas, o acesso à informação via Internet oferece um montante infinito de gigabites de informação, excelentes livros clássicos de domínio público e uma miríade incrível de bons cursos online – muitos deles sem qualquer custo. As vagas em universidades e cursos técnicos são ampliadas a cada dia, assim como os mecanismos de acesso a estas oportunidades.

Mas o brasileiro prefere colocar a culpa no Estado, na política, no sistema, na sociedade e no professor: é mais fácil isso que empenhar-se em fazer A SUA PARTE e ESTUDAR COM AFINCO tudo que lhe vier à mão.

POR QUE NÃO VAMOS DAR CERTO?

Segundo dados do INAF (Instituto Nacional de Alfabetismo Funcional), mesmo o Estado tendo praticamente universalizado o acesso ao ensino fundamental (98%) de jovens entre 7 e 14 anos na última década, apenas 27% da população brasileira entre 15 e 64 anos é plenamente alfabetizada, e o analfabetismo funcional atinge por volta de 68% da população economicamente ativa.

Entre os alunos do ensino médio, apenas 41% apresentam nível pleno de alfabetização, e 1 de cada 3 estudantes que ingressam no ensino superior não dominam leitura e escrita.

O governo federal tem comemorado o ingresso de 96,4% das crianças com idades entre 07 e 14 anos no Ensino Fundamental e 83% dos adolescentes entre 15 e 17 anos no Ensino Médio. Essa estatística poderia ser motivo de alegria se não fosse a realidade que entre os alunos que cursam a 4ª série do ensino público, 55% não sabem ler nem escrever. Ou seja, 33 milhões de crianças são analfabetas funcionais.

15 janeiro 2018

PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) E A IMPORTÂNCIA DAS COISAS QUE FAZEM A VIDA VALE A PENA*

“Nosso PIB considera em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Ele registra os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em que trancafiamos os que conseguem burlá-los.

Ele leva em conta a destruição de nossas florestas e sua substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Ele inclui a produção de armas e dos veículos usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. E ele registra programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças.

Por outro lado, o PIB não observa a saúde de nossos filhos, a qualidade de nossa educação ou a alegria de nossos jogos. Não mede a beleza de nossa poesia e a solidez de nossos matrimônios. Não se preocupa em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade de nossos representantes. Não considera nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre nossa compaixão e dedicação a nosso país.

Em resumo, o PIB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena”.


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*Robert Kennedy, Senador por Nova Iorque, pré-candidato à presidência dos EUA pelo Partido Democrata, assassinado aos 42 anos de idade em 05 de junho de 1968, poucas semanas após publicar sua intenção de restaurar a importância das coisas que fazem a vida valer a pena.

10 janeiro 2018

MORALIDADE E (in)JUSTIÇA

Kant defendia que as Verdades substantivas poderiam ser encontradas apenas no reino dos abstratos universais, e não no reino da realidade ou do particular. O agente moral se torna moral apenas na medida em que seus motivos estão desvinculados de toda contingência: o imperativo categórico – a mola mestra da moral e da filosofia legal de Kant – deve ser formulado em sintonia ao Realismo Moral e às Verdades substantivas.

Por outro lado, na visão Aristotélica e Tomista, a Verdade substantiva deve ser encontrada no mundo real, não em algum reino abstrato desconhecido. Enquanto, para Kant, o julgamento moral consiste em decidir como funcionar dentro de regras abstratas e universais, a tradição Aristotélica diz que o mundo real constitui a matriz sobre a qual devemos julgar o valor de nossos atos.

Para Aristóteles e São Tomás de Aquino, o que é certo é certo, e a Lei representa a distribuição proporcional do que é certo. A Justiça, como instrumentalização da Lei, não é ideal, mas é real e baseia-se em uma noção transcendetal de equidade. Contudo, uma vez que um direito é a defesa do que é considerado individualmente certo, é evidente que os direitos humanos irão colidir entre si – e, em conjunto, atropelarão nossas percepções de Lei e Justiça.

Na prática, isso significa que é quase uma insensatez tentar definir uma carta de direitos humanos universais. Ninguém discorda que genocídio e estupro sejam errados. A questão é determinar se certos atos individuais podem ou devem ser colocados em categorias especiais – e o que fazer a respeito disso. Por este motivo, a Lei será sempre política: ainda que afirme levitar dentro do Realismo Moral universal, a Lei estará sempre tentando regular a sociedade para o melhor funcionamento possível – e não da maneira mais ética possível.

Uma excelente demonstração disso pode ser vista no sistema carcerário brasileiro: o Brasil possui 1478 estabelecimentos penais públicos de diversos tipos que contabilizavam, em 2016, 726.712 presos – uma média de 491 presos por estabelecimento.

Segundo relatórios do Mapa da Violência, do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias e do Ministério da Justiça, temos cerca de 61 mil mortes violentas por ano. Vamos descontar o fato de que apenas 6% dos assassinatos são investigados e resultam em identificação do criminoso. Vamos supor que vivemos em um país onde 100% dos crimes são solucionados e que a imensa maioria dos assassinatos não foi cometida por assassinos seriais ou recorrentes: considere que existe 1 assassino para cada assassinato ocorrido. Isso significa que, anualmente, a lista de assassinos aguardando condenação é acrescida de 61 mil indivíduos. Agora faça uma matemática simples:

Se cada estabelecimento penitenciário abriga em média 500 criminosos, e temos uma superlotação nas vagas já disponibilizadas, quantos novos presídios precisaríamos construir a cada ano para abrigar apenas os assassinos condenados? Simples: 122. Cento e vinte e dois presídios novos a cada ano.

Segundo cálculos elaborados pela 1ª Vara das Execuções Criminais de São Paulo, a criação (construção) de uma vaga gira em torno de R$40 mil e o gasto médio por preso é de R$ 750/mês. Para produzir 61 mil novas vagas por ano, o Estado brasileiro precisaria investir anualmente R$2,5 bilhões na construção de novos estabelecimentos penais e mais R$550 milhões por ano para manter os condenados por lá. Três bilhões de reais por ano, todos os anos, apenas para retirar assassinos de circulação - e ainda nem falamos de sequestradores, estelionatários, ladrões, corruptos e afins.

É óbvio que esta montanha de dinheiro não é aplicada neste sentido. A polícia não funciona e a justiça penal é lenta porque é assim que o Estado precisa que elas sejam: se ambas fossem eficientes, a (pouca) credibilidade gestora (que ainda resta) do Estado iria pelo ralo com a extensão das filas de camburões nas portas dos presídios ganhando em muito das filas de caminhões com grãos aguardando embarque em nossos portos a cada safra.

A Moralidade política da justiça brasileira, portanto, exemplifica bem como funciona a balança entre as demandas dos cidadãos e a visão de preservação da ordem social promovida pelo Estado. Na impossibilidade do ideal de Justiça, vai-se dobrando a Moral quantas vezes forem necessárias até que ela caiba na pequena caixa de nossa realidade ordinária.


09 janeiro 2018

REFLEXÃO DE UM FINAL DE TARDE

Cerca de 15% das gestações terminam em aborto espontâneo. Se existe algo como um design inteligente, onde tudo foi criado por um motivo e com um propósito, então deus é o maior abortista serial de todos os tempos.


MORALIDADE E CONSERVADORISMO POLÍTICO

Nos estertores de seus últimos anos, o século XX testemunhou uma súbita institucionalização da visão de que a Moralidade Niilista deveria agora ser incorporada ao mundo da soberania nacional, e os direitos humanos passaram a exercer sua prerrogativa irrestrita sob o bordão “onde quer que a Lei limite a sagrada liberdade narcisista do indivíduo, limite-se a Lei!”.

Por isso não foi surpresa quando, menos de duas décadas depois do começo do novo milênio, a sofreguidão por um vigoroso idealismo Moral - recheado de normas universais bem estabelecidas e dogmas inexpugnáveis - começou a colonizar o imaginário de muitos órfãos que perambulavam nas ruas babélicas da pós-modernidade.

Aproveitando-se desse ambiente, o Conservadorismo ressuscitou para surfar na onda da indignação popular com as atrocidades veiculadas várias vezes por dia na mídia. Seus argumentos emblemáticos apelam para a revolta coletiva contra o estado de pretensa impunidade, aplicando um discurso cativante que promete ocupar o vácuo deixado pela crise da Moralidade. Mas será que o Conservadorismo é mesmo capaz de entregar o produto que diz estar vendendo?

A defesa da legitimidade de suas intenções repousa na suposta exclusividade de seu sistema Moral. Mas tanto os Conservadores quanto seus opositores dizem portar as novas tábuas da salvação contendo a codificação para um Universalismo vanguardista. Entre tantas pessoas diferentes falando a mesma coisa, como discernir qual delas tem a capacidade de exercer a autenticidade que esperamos?

É irreal presumir que a expansão do Conservadorismo necessariamente levará a um mundo mais ético, intelectual e meritocrático – assim como é irreal presumir que a Justiça é necessariamente objetiva e apolítica. Talvez o que ocorra seja algo diametralmente oposto a isso. O Conservadorismo traz consigo o risco de agravar exatamente aquilo que afirma pretender eliminar: o poder exercido em nome de interesses próprios e desvinculado dos valores de um estado democrático. Infelizmente, no desespero de nos agarramos a uma Moralidade qualquer, estamos adotando qualquer uma que se apresente.

Enquanto continuarmos confiando na encantadora criatividade populista dos outros para arquitetar nossa salvação, o desajuste Moral seguirá sendo a norma do dia – e qualquer fantasia de mudança será apenas mais uma miragem nesse deserto de ingenuidades áridas que nos engole desde 1500.

14 dezembro 2017

SOBRE UM NOVO SISTEMA DE ENSINO


Os professores são os responsáveis por difundir modos de pensar a alunos que já tem seus próprios métodos de raciocínio – métodos estes que serão empregados para processar as informações apresentadas.

Muitos dos pontos de vista explicados na frente do quadro negro são edições intelectualmente refinadas de opiniões que os estudantes já possuíam, porém em versões mais rudimentares. Por este motivo, as aulas deveriam levar em conta as competências cognitivas presentes nos alunos, e, idealmente, procurar ampliar e desafiar essas competências, ao invés de simplesmente tentar ocupar espaços vazios ou reorganizar os espaços já existentes colonizando-os com algo que o Estado considere essencial, novo ou melhor.

Qualquer professor que tente apresentar um material que não esteja alinhado às competências cognitivas prévias de seus pupilos estará enxugando gelo. Sua instrução será rejeitada como sendo incompreensível ou radicalmente discordante do bom senso, ou será absorvida de modo distorcido. Uma boa aula expõe informações que desalojam as compreensões anteriores do aluno, obrigando-o a construir novos entendimentos. Afinal, o Saber não é uma flor que se observa, mas uma montanha que se escala.

Quando o Conhecimento é divulgado desta forma, muitos estudantes metabolizam os dados de modo convencional e, por conseguinte, deturpado. Eles não estão confundindo tudo: estão apenas tentando entender em seus próprios termos. Este problema é bem perceptível quando lidamos com parcelas menos educadas da população e tentamos expressar noções de tolerância, honra, coragem, força, disciplina, igualdade, secularismo e meritocracia.

É de se esperar que, enquanto estes conceitos são apresentados em um embrulho questionador, a classe comece a se dividir em grupos com argumentos opostos. O desentendimento mútuo – e não o entendimento compartilhado - é a regra nesses cenários. A mesma dinâmica pode ser observada quando cidadãos discutem política.

Em geral, o grupo que demonstra o maior nível de confusão, desacordo e insatisfação pode ser o mais produtivo educacionalmente. E isto não corre apenas porque a agitação fornece carvão para a fornalha do pensamento reflexivo: na verdade, os insatisfeitos barulhentos ajudam a iniciar ou exacerbar o desequilíbrio cognitivo pré-existente, que de outro modo permaneceria constrangido em seu mutismo conveniente. Esta sacudida leva os estudantes – e os cidadãos – na direção de uma reintegração de crenças alicerçada em ideias com um nível bem maior de discernimento.

Assim como um hospital tende a ser uma instituição de cuidados, uma escola também deveria conceber sua missão desta forma. Não apenas transmitindo conteúdo ou desenvolvendo habilidades tayloristas específicas, mas apoiando, nutrindo, fomentando, complementando e participando ativamente do crescimento intelectual global do estudante.

O fato de muitos professores acreditarem já estar agindo dessa forma – quando não estão nem um pouco - mostra como é essencial e urgente conceber uma nova forma de ensino. Infelizmente, enquanto a Base Nacional Comum Curricular tramita em um universo paralelo, longe da atenção merecida, a nação segue desperdiçando vários minutos por ano com os muitos escândalos do dia. Nesse ritmo, deixaremos de ser o país do futuro e continuaremos a ser, com pompa e circunstância midiáticas, o país sem futuro de sempre.

11 dezembro 2017

PERTO DE MAIS UM GIRO NA RODA DA VIDA

 
Último mês de 2017. Hora de olhar para frente, planejar o próximo ano e tentar enxergar o que aguarda um pouco além da curva. Mas é hora também de olhar para trás e ver o rastro das pegadas deixadas no caminho dos últimos 12 meses. E que 12 meses...!

Conheci cidades, praias, rios, cachoeiras, matas, estradas e lugares espetaculares; andei mais de 2000 km de moto, carimbei o asfalto com minhas costelas, esmaguei um pulmão e fiz um estágio de imersão de alguns dias, como paciente, na realidade do sistema público de saúde de nosso país. Uma experiência que me modificou profundamente, pode acreditar.

De uma ideia surgida em uma conversa de mesa de bar com dois amigos muito queridos (Juliano e João Ricardo), o projeto ManhoodBrasil se desdobrou em um website versátil, informativo, vibrante, contabilizando mais de 1.500 páginas publicadas em um ano (são 309 matérias em 5 categorias de interesse até aqui) e quase 20.000 views/mês.

Hoje, a marca reúne mais de 1.000 seguidores no Instagram, mais de 7.000 no Linkedin e superou o teto de 4.000 no Facebook, alcançando mais de 55.000 pessoas e rendendo feedbacks recompensadores. Simplesmente não tenho como agradecer a cada um de vocês que fizeram – e continuam fazendo - parte dessa transformação.

Entre idas e vindas no consultório, concentrando 100% dos meus atendimentos no SUS, pude compartilhar das queixas e das agruras de cerca de 6.500 pessoas: de cada 3 pacientes tomando remédios psiquiátricos, 2 não precisavam de remédio algum, mas apenas de uma luz para aceitar a responsabilidade embutida em suas próprias escolhas e a chance de mudança que a vida oferece a cada dia. O mesmo valia para os obesos (60% da população atendida), os ansiosos e os deprimidos.

Em muitos casos, não acho que minhas orientações fizeram grande diferença, mas tive o prazer de ver pessoas iluminadas conseguindo se livrar de seus tarjas-preta de estimação, perdendo 8 kg em 2 meses ou até 23 kg ao longo do ano. Assisti relacionamentos renascerem, crises de choros e tempestades de catarse. Testemunhei alguns corajosos se engajando e decidindo finalmente participar ativamente de seu tratamento, virando corredores, atletas, remando caiaques no mar, florescendo novamente. A honra e a alegria de participar de suas vitórias não cabem em palavras.

Para fechar 2017 com um brinde especial, recebi a companhia de uma mulher magnífica, inteligente, esforçada, cujos planos em comum me fazem respirar fundo com um sorriso quando penso em como 2018 poderá ser ainda mais recheado de riscos, descobertas e conquistas gratificantes.

Espero que você tenha maturidade para reconhecer os milagres que lhe acompanharam neste ano – até mesmo nas vicissitudes que ele pode ter trazido. Que você deixe as picuinhas políticas de lado, que tire essas roupas pirracentas de moralidade que teima em ostentar, e faça uma viagem para dentro de si e para fora de sua zona de conforto. De todas as opções possíveis, seguir vivendo é certamente a mais extraordinária delas! Curta cada minuto.

Boas festas :)

30 novembro 2017

AINDA SOBRE EDUCAÇÃO NO BRASIL

No primeiro dia de 2015, a presidente recém empossada Dilma Rousseff definiu o novo lema de governo: Brasil, Pátria Educadora. Curiosamente, em novembro do mesmo ano, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lançou seu relatório Education at a Glance.

O Education at a Glance é uma fonte validada de informações acuradas sobre o estado da educação em todo o mundo. Ele fornece dados sobre o desempenho das instituições de ensino; o impacto do aprendizado nos países; os recursos financeiros e humanos investidos em educação; o acesso, a participação e a progressão na educação; e a organização e o ambiente de ensino dentro das escolas.

No painel de 2015, a OCDE apontou alguns indicadores preocupantes no ensino brasileiro. Por exemplo: o nível de aprendizado médio dos estudantes em Ciência foi péssimo. Entre os avaliados, 82% ficaram entre o nível mais baixo de conhecimento e o nível 2 – o nível básico. A média da OCDE para esses grupos é de 46% no total.

Importante salientar que o nível 2 de aprendizagem em ciências é o mínimo necessário para se tornar um cidadão “crítico e informado”. Nesse nível, os estudantes começam a demonstrar as competências que vão permitir que participem efetivamente e produtivamente nas situações cotidianas relacionadas a ciência e tecnologia. Com 82% dos estudantes com nível baixo de conhecimento científico, não é preciso uma dedução complexa para calcular o naipe de raciocínio crítico que nossa população possui...

Em leitura, o Brasil ficou entre os 12 piores países, com uma média de 407 pontos - bem abaixo da média de 493 da OCDE.

Mas nosso pior desempenho geral foi em Matemática, disciplina em que ficamos entre os cinco piores países avaliados, com uma média de 377 ante uma média de 490 entre os países da OCDE. Basicamente, 70% de nossos estudantes estão abaixo do nível 2 em Matemática – que seria o mínimo necessário para que um aluno possa exercer plenamente sua cidadania. Em países desenvolvidos, como a Finlândia, a taxa de incapazes é de 13%.

“Países como a Colômbia e o México, que tinham resultados similares aos nossos, nos deixaram para trás. Portugal e Polônia, que também estavam próximos, deram um salto de qualidade e superaram a média da OCDE” – e estas não são palavras minhas. São da Secretaria Executiva do MEC.

NÃO É UM PROBLEMA DE QUANTIDADE...

Talvez o problema da qualidade da educação esteja nos investimentos, não? Talvez nós estejamos gastando pouco com isso...

Não, não estamos gastando pouco. O Brasil destina 17% dos seus gastos públicos à educação, do nível de educação básica à educação superior. Somente o México e a Nova Zelândia – ambos com 18% - destinam uma proporção maior dos gastos públicos às instituições de ensino.

Além disso, o gasto público em instituições de educação superior como percentual do gasto público total aumentou 49% entre 2005 e 2012, o que é bem acima do aumento médio da OCDE de 33%. O aumento foi ainda mais acentuado em instituições de ensino fundamental e médio. A proporção de gasto público nesses níveis aumentou 82% no mesmo período, o maior aumento entre todos os países e parceiros da OCDE com dados disponíveis.

Em 2012, o gasto público brasileiro em instituições da educação básica a superior representou 5,6% do PIB. Essa proporção é consideravelmente maior que a média OCDE de 4,7%, e é a quinta mais alta entre todos os países e parceiros da OCDE com dados disponíveis.

Neste ponto, vamos fazer um parêntese e supor o seguinte: eu lhe dei 30 mil reais e pedi que você comprasse um carro para mim. Trinta mil mangos não é uma fortuna, mas também não é de se jogar fora. Contudo, antes que você saísse, eu lhe passei algumas instruções específicas sobre a compra: com esse dinheiro, você deveria retornar trazendo um carro zero quilômetro, com direção hidráulica, automático, trio elétrico, teto solar, 6 air-bags e tração nas quatro rodas - com ABS.

Trinta mil não compram isso. Ainda que seja um dinheiro legal, é pouco para a qualidade definida para o produto. E aqui entra um dos problemas do nosso ensino. Ele não é tanto de quantidade dinheiro, mas de destino do investimento: os salários iniciais dos professores no Brasil são menores do que em outros países latino-americanos como Chile, Colômbia e México para todos os níveis educacionais, desde a pré-escola até o ensino médio.

No Brasil, um professor da rede pública ganha em média R$ 3,3 mil e nós, os hipócritas esquizofrênicos, alucinamos com a suposição de que uma mão de obra desse valor é capaz de ter o mesmo rendimento de um professor da Finlândia. É uma piada. O salário médio de um professor primário finlandês é de  3.132 euros mensais (cerca de R$ 12 mil). Professores do ensino médio recebem 3.832 euros e docentes de universidades ganham em média 4.169 euros por mês (R$ 16 mil).

Se você quer pagar R$ 3,3 mil por um carro, não se surpreenda quando ele não tiver o rendimento de um veículo 5 vezes mais caro. Por R$ 3,3 mil mensais você não compra o direito de possuir uma Ferrari, ainda que os delírios anotados na Constituição Federal e as crenças socialistas-comunistas de banânia tentem lhe convencer do contrário.

Como diz a expressão americana da década de 1930: Não existe essa coisa de almoço grátis. Se você quer qualidade, pague por ela. Ou faça alguém pagar.

... É UM PROBLEMA DE VALORES

Além da montanha de dinheiro investido em educação não ir para o bolso de quem faz a diferença – professores -, há ainda o problema do desinteresse comatoso da população brasileira, que não vê no estudo e no aprendizado um valor intrínseco, mas apenas uma forma para ganhar dinheiro.

Nós não estudamos para aprender. Dizemos o oposto disso apenas como uma maneira dissimulada para ocultar o real motivo pelo qual estudamos: o brasileiro estuda para ganhar mais dinheiro. Transformando o dinheiro - e não a aquisição de cultura e saber – na finalidade do processo escolar, nosso povo deixou de enxergar a educação como algo nobre. Estudar e aprender viraram ferramentas que podem ser indesejadas sem penalidade.

Está tudo bem não estudar caso você esteja satisfeito em levar uma mais simples, certo?

Não, não está.

Em 2013, 54% dos adultos com idade entre 25 e 64 anos não tinham completado o ensino médio no Brasil - o que é consideravelmente maior que a média OCDE de 24% -, e quase dois terços dos jovens de 15 a 29 anos não estavam estudando.

No meio dessa massa de analfabetos funcionais, existe uma multidão absurda que compõe um grupo conhecido como “NEM-NEM”: gentes que nem estudam nem trabalham. Essa multidão - mais de 20% dos indivíduos de 15 a 29 anos - equivale a uma manada de 10,2 milhões de inúteis que a população economicamente ativa deve literalmente carregar nas costas.

A saída para a Educação no Brasil é como a saída para a Saúde, para a Segurança Pública, para o sistema Previdenciário, para a Burocracia e tudo mais que entrava esse país: a saída passa por uma discussão dura, franca, grosseira e com todos os nomes aos bois e palavrões a que se tem direito sobre o que está ocorrendo aqui. Sem espaço para comportamentos de vítima, mecanismos de projeção de culpa, corporativismos cor-de-rosa ou cunhadismos indecentes.

Ou levamos essa joça a sério, ou nos tornamos perpetuamente aquilo que já somos: um bando de sonâmbulos sem competência sequer para limpar o próprio traseiro sem uma ajudinha do Estado.


SOBRE NOSSO SISTEMA EDUCACIONAL

O academicismo preciosista brasileiro matou a Academia. Leia a biografia de Einstein, Leeuwenhoek, Newton, Darwin e Ignaz Philipp Semmelweiss, por exemplo, e veja que títulos eles possuíam quando produziram conhecimentos que mudaram o status quo.

Da mesma forma como o governo é o problema do país, os professores (e sua busca por titulações apenas para aumentar salários e não a eficiência do ensino) são o problema do sistema educacional: 50% dos profissionais da área sofrem de algum transtorno mental comum (aí inclusos síndrome de burnout, transtorno da ansiedade, depressão, bipolaridade e síndrome do pânico). Na população geral, a prevalência é de 20%.

Muito mais que a remuneração, precisamos melhorar a seleção de quem vai para as salas de aula. Depois de 30 anos, é perceptível que filtrar a admissão por credenciais acadêmicas e ideologias socialistas não produziu bons resultados: ostentamos a nada honrosa 60.ª posição no ranking mundial de educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No estudo da OCDE, foram avaliados 76 países - um terço das nações do mundo - por meio do desempenho de alunos de 15 anos em testes de Ciências e Matemática.

A mudança de filosofia deveria começar pela desconstrução da ideia por trás da valorização do ego academicista. Precisamos trocar os silogismos sofistas vitimizantes de nossas escolas por conteúdos técnicos focados em objetivismo, cidadania e responsabilidade resiliente. Apenas assim será possível observar alguma mudança efetiva daqui algumas décadas.

18 novembro 2017

SOBRE UM DELÍRIO CHAMADO NOVEMBRO AZUL

Após receber toneladas de propaganda sobre as campanhas Novembro Azul, fiquei me perguntando: será que o screening para neoplasia prostática utilizando faixas etárias como linhas de corte produz alguma redução significativa na morbiletalidade da doença?

Não, não produz. E isso é o que dizem as evidências acumuladas a partir de metanálises e revisões sistemáticas da literatura.

Apenas para citar um exemplo de peso: segundo o NIH (Instituto Nacional de Saúde, entidade dos EUA equivalente ao nosso Ministério da Saúde), a dosagem periódica de PSA ou o exame de Toque Retal (TR) não é capaz de reduzir a mortalidade associada ao câncer prostático.

O que o conjunto dos dados embasados DE FATO mostra - e existem dezenas e dezenas de estudos sérios concluindo exatamente esta mesma coisa -  é que o screening populacional com PSA e/ou TR resulta em um exagero nos diagnósticos de câncer na próstata, além da detecção de lesões que, se não diagnosticadas, jamais causariam mal algum.

O excesso de diagnósticos e resultados falso-positivos leva à realização de exames adicionais (p.ex.: biópsia prostática) e tratamentos invasivos em homens que sofrerão, agora, as consequências desses danos desnecessários.

Mas as políticas públicas tupiniquins não são feitas com base em Ciência. Nunca foram. Elas são orquestradas com discursos paternalistas em nome de motivações essencialmente populistas. E, incrivelmente, aqueles que deveriam erguer suas vozes anunciando este descalabro, inacreditavelmente embarcam no delírio para - quem sabe - retirar dele algum brio e prestígio para seus egos.

Não temos um outubro rosa. Tampouco temos um novembro azul. O que temos são meses, anos, décadas do mais puro colorido psicodélico esquizofrênico que o mundo já viu do lado debaixo do Equador. E o surto de Gargamel sob efeito de cogumelos alucinógenos perseguindo Smurfs fantasiosos no bosque segue - com aval do Estado e sua corte de especialistas cegos, surdos e mudos.

SOBRE O MITO DA DOENÇA MENTAL

A partir da Segunda Guera Mundial, a medicina passou a definir a simulação de doença como uma doença em si. Isso equivale a dizer que uma boa imitação de uma obra-prima deveria, segundo aqueles novos conceitos, ser considerada uma obra-prima.

No caso da doença mental, essa redefinição arbitrária significou aceitar compulsoriamente que uma nota de dinheiro falsificada deva valer o mesmo que uma nota verdadeira - e as manifestações diversas de Fraqueza Moral finalmente receberam sua validação como Doença, sem a necessidade de sustentar sequer um substrato anatomo-fisiológico qualquer que lhe justificasse o título.

Nos últimos 60 anos, tudo que fizemos para resolver este problema foi afrouxar nossos conceitos de doença e de obra-prima, forçando a medicina a aceitar e tratar toda histeria - até as falsificadas - como se fosse uma moléstia crônica "ipso facto".

Travestida de "ciência", a condescendência mercantilista patrocinada por laboratórios farmacêuticos, prontamente abraçada por agremiações de "especialistas" e gratamente recebida por manadas de indivíduos masoquistas em busca de aconchego para suas carências e inépcias, rapidamente alastrou-se pelo mundo e produziu, até aqui, duas gerações inteiras de pessoas confortavelmente assentadas em discursos de autovitimização privilegiada.

E esta farsa sem fim segue firme e forte.

10 novembro 2017

A FUGA COTIDIANA DAS RESPONSABILIDADES


Uma adolescente entra no consultório acompanhada da mãe e o que se desenrola é o mesmo de sempre:

- Quero que o senhor peça um check-up dela.

- Algum motivo especial? Ela faz tratamento para alguma doença? Tireoide, asma, diabetes...

- Não, nada. Só quero fazer os exames de rotina.

Segue-se uma conversa sucinta e objetiva sobre antecedentes médicos da paciente, uma consulta ao prontuário e, enquanto preencho os dados dos exames, a mãe continua:

- E daria também para o senhor encaminhá-la para o psicólogo? Ela anda tendo uns problemas...

- Exatamente por que eu deveria encaminhá-la ao psicólogo?

- Porque ela anda difícil, rebelde, desobediente, às vezes chorosa...

- Não acredita que, antes do acompanhamento com um psicólogo, resolver essas situações de comportamento deveria ser um papel do pai e da mãe?

- Sou sozinha com ela, doutor. E já fiz de tudo para ajudar, mas não tá adiantando.

- Entendo. Mas não acha que levar sua filha ao psicólogo para resolver problemas de conduta é uma forma de transferir para o psicólogo a responsabilidade de criá-la, que deveria ser sua?

- Não.

- A senhora tem carta de motorista?

- Tenho, sim.

- Esse documento se materializou na sua carteira como um passe de mágica ou a senhora teve que estudar para consegui-lo?

- Estudei, fiz auto-escola, foi um sufoco!

- E diploma do ensino médio? A senhora tem?

- Tenho. Não fiz faculdade, mas terminei os estudos.

- Hum. Sou formado há 22 anos e ainda não terminei os meus... Mesmo assim: esse diploma também se materializou na sua gaveta de documentos ou a senhora teve que estudar para consegui-lo?

- Estudei, lógico! Não tem como aparecer um diploma de conclusão de curso sem fazer o curso.

- Certo. No último ano, quantos livros a senhora leu sobre como criar filhos?

- Hãn? – ela se surpreendeu, colocando a bolsa a tiracolo na frente do corpo.

- No último ano, quantos livros a senhora leu sobre como criar filhos?

- Nenhum.

- A senhora por acaso já se interessou em ler algum?

- Ah, há alguns anos até comecei um que não lembro o nome agora, mas larguei antes da metade.

- E a senhora acha mesmo que já fez “de tudo” para tentar entender o comportamento de sua filha e ser um exemplo para o desenvolvimento dela?

- Sinceramente, acho que sim. E não sei mais o que fazer.

- Que tal começar a ler sobre o assunto?

- Não sei... não vejo como isso iria ajudar muita coisa. – ela respondeu, cruzando os braços.

- E a senhora acredita que o espírito santo vai baixar na sua mente e por um milagre lhe iluminar sobre como agir para conduzir a formação da personalidade de sua filha?

- Ah, eu vou tentando do jeito que eu sei.

- Entendo. É o velho método de “tentativa e erro”. Mas, se a senhora está se queixando do comportamento dela, isso diz um bocado sobre o que está acontecendo com mais freqüência nas suas tentativas. E o que está acontecendo são erros.

- Não penso que estou errada.

- Então por que se queixa que as coisas não estão dando certo como gostaria?

- É essa geração...

- A senhora tem lido ou estudado alguma coisa sobre como lidar com essa geração?

- Não tenho tempo pra isso, doutor. Trabalho muito, sou sozinha e ainda mais com uma filha...

- Algumas dessas coisas lhe foram impostas? Ou são frutos de escolhas que a senhora fez até aqui?

- Só quero que o senhor encaminhe minha filha para o psicólogo e pronto. É pedir muito? – ela respondeu, visivelmente irritada e contrariada.

Abaixei a cabeça, peguei o formulário de encaminhamento, preenchi, assinei, carimbei e a dupla se foi. Provavelmente, semana que vem vou receber uma carta da Diretoria de Saúde comunicando outra  “sindicância instaurada sobre atendimento a partir de queixa do usuário”. Mais algumas e logo organizo um livro só delas - a coleção vai aumentando forte e saudável.

SOBRE ROSSEAU, O SOCIALISTA-PADRÃO

Em suas andanças, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), o garotão suíço esperto órfão de mãe que fugiu da escola, arrumou como amante uma rica senhora e, sob seus cuidados, desenvolveu o interesse pela música e filosofia. Amou-a durante alguns anos e outros tantos contos de réis e, quando a situação financeira ficou ruim, fugiu para Paris com outra amante cujo saldo bancário era mais compatível com seu apreço pelo ócio.

Instalado na França, Jean teve cinco filhos com sua amada parisiense. Muito diligentemente, tratou de colocá-los todos em um orfanato.

Apesar de seu contra-Iluminismo, Rousseau é tido em grande conta como um pensador de relevância para a modernidade. Mas, analisando seus escritos, é difícil encontrar alguma genialidade que não possa ser classificada como pura maledicência socialista.

Em O Contrato Social, Rousseau prega insistentemente a "liberdade". Entretanto, defende também a presença de um Legislador que possua uma “inteligência superior ”. Tal legislador teria uma das tarefas mais exigentes na sociedade: estipular regras e normas que limitam a liberdade de cada indivíduo em nome do bem desses. Haja incongruência...

Por tudo isso, Voltaire tem no mínimo um mérito incontestável: foi um crítico ferrenho do aproveitador Rousseau - um sujeito esquizofrênico e de atitudes dissociativas que nossa esquerda tupiniquim ama idolatrar.

04 novembro 2017

EDUCAR-SE É UM DIREITO OU UMA OBRIGAÇÃO?

Nos tímpanos da geração Mimimi, a palavra “direito” virou um modo eufemístico de designar a obrigação dos outros.

Conforme exposto por Olavo de Carvalho, "há décadas o Estado vem gritando nos ouvidos dos estudantes que a educação é um direito, e isso só os tem impelido a cobrar tudo dos outros — do Estado, da sociedade — e nada de si mesmos".

Cruzadas publicitárias que "enfatizam a educação como um direito a ser cobrado, e não como uma obrigação a ser cumprida pelo próprio destinatário da campanha, têm um efeito corruptor quase tão grave quanto o do tráfico de drogas: elas incitam as pessoas a esperar que o governo lhes dê a ferramenta mágica para subir na vida sem que isto implique, da parte delas, nenhum amor aos estudos, e sim apenas o desejo do diploma", escreveu o autor de O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota.

O resultado disso é fácil de ser aferido: o Brasil ficou na 60.ª posição no ranking mundial de educação em uma lista elaborada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) envolvendo 76 países - um terço das nações do mundo.

Não é de admirar: segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, o brasileiro lê em média 2 livros inteiros por ano. É isso que acontece quando o que deveria ser uma obrigação de cada um vira direito de todos - e dever de ninguém.

E se você se acha tão especial, inteligente e acima da média, que tal comentar citando os 3 (ou mais) livros inteiros que leu nos últimos 12 meses?

QUAL A SAÍDA PARA O BRASIL?

Apenas no PRIMEIRO trimestre de 2017, o Facebook registrou um LUCRO LÍQUIDO de R$ 10 bilhões.

Para efeito de comparação, isso é 3 vezes maior que o LUCRO LÍQUIDO SOMADO de 10 das maiores potências industriais brasileiras durante TODO O ANO de 2016:

1- Grupo Weg (R$ 1,117 bilhão)
2 - Votorantim Cimentos (R$ 600 milhões)
3 - Cristália (R$ 469 milhões)
4 - Mineração Paragominas (R$ 393 milhões)
5 - Natura (R$ 296 milhões)
6 - Rede Ipiranga (R$ 280 milhões)
7 - Mahle Metal Leve (R$ 150 milhões)
8 - Magazine Luíza (R$ 104 milhões)
9 - Furukawa (R$ 76 milhões)
10 - Cometc (R$ 25 milhões)

Enquanto nosso sistema educacional continuar sufocando a criatividade; a burocracia esquerdista, massacrando a capacidade de iniciativa; e os impostos, abortando o empreendedorismo liberal, continuaremos na liderança mundial dos índices de homicídios: nosso país, sozinho, responde anualmente por 10% de todos os assassinatos no planeta.

A fórmula não é mágica, tampouco é nova: o crescimento econômito baseado no desempedimento e valorização do mérito pessoal, com justiça efetiva protegendo a vida e a propriedade, é o único caminho para uma reforma social séria. Todo o resto é fanfarronice eleitoreira.