19 março 2016

O Fazendeiro, a Política, o Galo Novo e o Galo Velho


© Alessandro Loiola


Um conhecido muito querido (mora de verdade no meu coração), escreve: "Não vejo a hora dessa crise política e econômica passar. Não aguento mais lidar com esse monte de cientista político que atua como papagaio de pirata do William Bonner. Eu quero voltar a fazer a oposição que sempre fiz ao Governo Federal. Uma oposição de esquerda e que respeita a Democracia!"

Certo. Mas daí um dia você cresce, amadurece, pára de fazer Oposição de Esquerda e decide que é hora de propor Soluções de Prosperidade, não importa de que lado elas estejam.

Mas há de se perdoar a juventude. Estão aqui há menos tempo que nós e ainda não aprenderam quantas casas existem no tabuleiro do mundo.  E uma história ilustra bem isso:

Diz-se que um fazendeiro, preocupado com suas galinhas, resolveu comprar um galo novo - o outro estava velho e parecia não estar dando muito conta do recado. Quem sabe a juventude de um bom galo macho daria um ânimo novo à granja, aumentando a produção.

Chegando ao galinheiro, o galo novo desfilou com pompa e glória, um galo jovem altivo, esporões novos, penas viçosas. O galo velho, acabrunhado, propôs-lhe um acordo:

- Veja só, estou aqui há anos e me sentiria péssimo em simplesmente deixar meu posto de galo-chefe assim, sem eira nem beira.
- Seu tempo acabou, velhote. - disse o jovem, sorrindo e acenando para a plateia de galinhas suspirosas.
- Eu sei, eu sei, meu filho. Nem me fale... mas, pelo menos, em respeito às minhas penas brancas e até para inspirar as galinhas com seu espírito de justiça e liderança, poderíamos disputar uma corrida em torno da casa do fazendeiro. Quem ganhar, torna-se o novo líder.
- Você jamais conseguiria ganhar de mim.
- Exatamente. Eu sei disso e você sabe disso, mas elas veriam tudo como uma competição justa em que o vencedor leva tudo e o perdedor se retira com honra. Todos ganham, entende?

E os dois galos marcaram a corrida para o dia seguinte. As galinhas se alinharam animadas ao longo da cerca para assistir o embate.

Dada a largada, o galo novo disparou e logo tomou uma dianteira. O galo velho conseguiu acompanhá-lo ombro a ombro por quase meia volta, mas quando contornavam a casa, na reta da linha de chegada, o galo novo estava já umas "duas galinhas" a frente, correndo empedernido, sorriso nos lábios, e o galo velho atrás dele, expressão esbugalhada para cima do concorrente, asas abertas, meio palmo de língua de fora. As galinhas gritavam "cocorico cocorico!". E o galo novo na frente todo animado e frondoso em sua pujança e o galo velho perseguindo-o resfolegante, os olhos vidrados na traseira do outro.

Súbito um estampido "BUUM!" e penas do galo novo voam para toda parte.

De sua varanda, sentado na cadeira de balanço e soprando desanimado o cano fumegante de seu bacamarte, o fazendeiro lamentou-se:

- Benzamedeus... já é o terceiro galo veado que eu compro esse mês...

A juventude pavoneia-se, mas são os outros que se banqueteiam. E não me venha com comentários de homofobia - se lhe ofende, vá reclamar com Esopo.

18 março 2016

Sobre Adultos que ainda são Crianças


© Alessandro Loiola


Um amigo querido me pede para conferir no Face o depoimento de uma conhecida que vem enfrentando dificuldades "por causa do lulopetismo".

- É disso que eu falo - ele alerta. - Histórias assim estão se repetindo em toda parte!

Hum... sei.

Me formei em medicina em 1997 e de lá pra cá já morei em 12 cidades diferentes - quantos presidentes passaram desde então mesmo?

Nessas décadas, ciganeei em busca de novos campos, novas oportunidades, novos melhores lugares na sombra e água fresca. Algumas vezes consegui, outras nem tanto. Fiz 4 anos de residência em cirurgia geral e hoje trabalho com PSF - nada a ver com a minha área de origem. Aprendi com Darwin no balanço do Beagle: a adaptação resiliente é o segredo da sobrevivência. Lamentar-se exaure forças e facilita a extinção.

Assumir dívidas, estabelecer seu padrão de vida em patamares escravizantes de renda, optar por vínculos trabalhistas ruins, acomodar-se e não elaborar planos alternativos, não fazer um fundo reserva para a época de vacas magras, isso tem nada a ver com prefeitos, vereadores,  deputados,  senadores, governadores ou presidentes.

Assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas é EXATAMENTE o que esperamos dos governos - e DEVERIA ser uma filosofia íntima inegociável para absolutamente cada um de nós.

A hora em que pararmos de reproduzir no plano micro de nossas vidas os erros que apontamos no plano macro da nossa sociedade,  é NESSA hora que o milagre irá acontecer. Qualquer coisa antes disso é pura comiseração infantil.

17 março 2016

Carta para mim mesmo - e meus filhos e os filhos de meus filhos

© Alessandro Loiola



 
Espero que quando você decidir voar, voe sem medo de cair. Que você viaje, que corra e ria até perder o fôlego, que ganhe calos, que desligue a TV e gaste seus tênis caminhando pelas estradas retas e as tortuosas com o mesmo encantamento. Que quando a maré subir, você esteja lá, remando nas correntes. Que veja o céu, que encontre amigos e paz em toda parte - e principalmente dentro de si.

Espero que você ame tanto, tanto, tanto!, até doer. E que receba a dor sem sofrimento. Que esprema até o último segundo de cada minuto que o mundo lhe oferecer, e que para cada arranhão, machucado e cicatriz você adicione algo de valor aos seus dias.

Espero que você leia bons livros, que escreva um diário e curta suas músicas todas as vezes que quiser. Que você explore, confie, apaixone-se e se decepcione. Que insista, que erre muito - e acerte pelo menos na mesma quantidade -, que faça tudo intenso ao seu modo, mas apenas um pouco melhor na vez seguinte.

Espero que cada manhã seja um presente. Que você saiba que escolheu estar ali - e tem muita sorte por isso! -, e que dê tudo de si, sempre. Espero que você compreenda sua natureza, que encontre seus propósitos, e quando chegar a hora de o Sol se por no seu horizonte, espero que você erga sua taça em um brinde e descubra que tudo, absolutamente tudo, sempre valeu à pena.

Lições de Mais de Meio Século

© Alessandro Loiola
 
 
 
Os paralelos entre o momento atual e o momento pré-1964 são inevitáveis. O populismo parcialmente eficaz e parcialmente incompetente do PT avançou até este ponto de paralisia decisória do segundo mandato da presidente Dilma.
 
As boas reformas do governo Lula (sim, elas houveram!) que deveriam ter sido ampliadas com afinco, não o foram. E a política econômica, contaminada por uma combinação de inépcia e corrupção em progressão geométrica, minou o potencial de crescimento do país, a despeito do relativo bom momento mundial - a China continua puxando o mundo como um buraco negro de consumo de commodities e serviços, que pode ter arrefecido, mas ainda é surpreendentemente alto.
 
Diferentemente de 1964, não temos uma Elite Intelectual politizada - em nenhum dos lados. Os anos pós-Vargas desaguaram em uma brasilidade sem precedentes, que se manifestou desde a Bossa Nova até o Cinema Novo, mas nenhum elemento vanguardista intelectual está presente agora. Mais de uma década de governo de esquerda produziram uma massa de "inteligência" imediatista e instantaneidades amorfas. Temos passeatas e selfies, mas não temos uma agenda específica. Menos ainda um projeto.
 
Entretanto, assim como em 1964, a ideia de retirar do poder um presidente democraticamente eleito e chacinar o cenário político-partidário em busca de uma "normalidade institucional" foi ressuscitada. Diria até que esta ideia nunca morreu - ela apenas hibernou, acordando pontualmente no suicídio de Getúlio, na queda do governo Jango e com os caras-pintadas anti-Collor. Agora a ideia retorna novamente de sua tumba, tão desmemoriada quanto antes.
 
Cinquenta e dois anos depois de 1964, chegamos a mais um março tempestuoso. Será no mínimo interessante ver qual monstro brotará dele.

16 março 2016

O Homem Infinito

© Alessandro Loiola

 
 
 
 
E se houvesse um modo de viver para sempre? E se um homem um dia realmente conseguisse viver para sempre, milênios de séculos intermináveis, o que ele veria? Veria a beleza em tudo ou a tragédia em tudo? Veria o desperdício, as intenções imbecis todas - da violência à hipocrisia da paz? E ele sorriria? Ou deixaria-se soterrar em consternação pela burrice que nos permeia e preenche?

Veria ele valor no amor ou desejaria que as pessoas lhe retirassem os louvores? Identificaria algum pecado? Veria justiça no ódio? Tempero na vingança? Sentido nas vaidades? Perceberia deuses e demônios ou enxergaria as intenções como um vácuo de nadas? Quantos poentes ele levaria até cansar-se de contemplar o Sol sendo engolido detrás do horizonte? Quantas noites até achar toda aquela escuridão imensa apenas um meio giro sobre o eixo?

O Homem Infinito veria outra utilidade na humildade exceto a de proteger-nos de nossa mediocridade para quando tropeçarmos, evitando que alguém apareça e chute-nos a cabeça enquanto soluçamos prostrados de quatro? Para inspirar compaixão e misericórdia quando não formos mais fortes o suficiente e estivermos à mercê de outros poderes - pois é para isso que nos fazemos de humildes. A humildade é uma barganha de subserviência e desejo de admiração e maldições que não ousamos enunciar. Não existe humildade verdadeira na humildade que aspiramos.

O Homem Infinito veria utilidade nos governos? "Irão todos desaparecer", ele decretaria de seu asteróide errante. As guerras e seus motivos, os hinos, as tropas marchando com suas bandeiras, as opiniões polarizadas, as leis, os impostos, as estradas, os templos, a escravidão e o bem-estar social irão desaparecer. Os eleitores, os eleitos, os corruptos e os honestos (se os houve um dia), as notícias, as coroas, as pratas da casa, os acordos, as intrigas, os contratos do que é certo e do que é errado, irão todos desaparecer também. E o que sobrará, acaso sobre algo, serão histórias distantes e alguns tesouros enterrados. Do resto, nem os cães se recordarão.

Para o Homem Infinito, o que teria sabor? O que seria arte? O que seria belo e sincero? Posto que, até hoje, todas as descrições do homem eterno partiram de homens mortais que o criaram, dos conceitos às ideias, o que seria de fato próprio dele e que escapa ao nosso escrutínio?

Se houvesse um modo de vivermos para sempre, se um dia realmente conseguíssemos viver para sempre, o que veríamos para além de nós?

15 março 2016

A natureza das coisas


© Alessandro Loiola

 

Um ônibus pára todo dia de manhã na frente do meu consultório e dele descem levas de pessoas sofrendo de insatisfação, raiva, frustração, angústia, ansiedade, autocomiseração. Elas se acham diferentes, mas suas queixas são absolutamente as mesmas:

- Não consigo mais dormir direito, doutor.
- Certo.
- Sinto umas palpitações de vez em quando. E ouvi dizer que um tio-avô do vizinho do cunhado do meu primo teve angina e quase morreu. Me preocupei.
- Algo mais?
- O meu corpo. Meu corpo todo dói o tempo inteiro.
- Hum.
- A verdade é que ando sem paciência.
- Humrum.
- …E agora dei pra chorar por qualquer coisa.
- Tendi.

O que essas pessoas têm? Onde elas vivem? De onde vêm? Para onde migram? Como se reproduzem? Gostaria de ouvir a voz do Sérgio "Chapolin" com essas respostas todas no Bobo Repórter da próxima sexta-feira, mas é pouco provável que elas estejam por lá.

Os bandos civilizados navegam de médico em médico, de pronto atendimento em pronto atendimento, procurando respostas para perguntas que nunca souberam fazer, desfilando seu rol de sintomas que significam nada, mas já dizem o suficiente.

Se esses surdos fossem capazes de ouvir, eu lhes diria 3 coisas:

Primeiro, a Saúde não vem do Sistema de Saúde. Médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, farmacêuticos, dentistas, clínicas, hospitais, NENHUM destes lhe trará saúde. Sua saúde vem de coisas tão simples quanto boa alimentação, boa atividade física, bom sono, boas atitudes, boas amizades e boa sorte. Ninguém poderá fazer essas coisas para você além de você mesmo.

Profissionais da área podem lhe dar conselhos, informações e apoio, mas eu não vou ficar plantado ao lado da sua geladeira a noite toda, todas as noites, para evitar que você coma aquele brigadeiro às 3 da manhã. Eu não sou sua mãe. Ninguém é – com exceção da sua mãe mesmo, coitada. E nem ela deveria ter uma obrigação imbecil dessas. E quando você aceita que remédios e exames sejam substitutos para escolhas e hábitos de vida mais saudáveis, acredite: você não está sendo teimoso ou prático, apenas menos inteligente.

Em segundo lugar: aprenda a ter medo das coisas certas. Não tenha medo da doença mais rara ou daquela que está na moda: tenha, sim, medo de procurar assistência médica. Quem nunca vai ao médico está isento de erros médicos. Se você está se sentindo bem, continue bem, continue fazendo suas boas escolhas e evite salas de espera de especialistas.

Procure seu médico quando você tiver um problema de fato ou quiser tirar uma dúvida importante. Não entre no consultório a cada seis meses exigindo um check-up completo: admita, você nem sabe pra quê serve isso. Não perca seu tempo com fantasmas. Viva sua vida e deixe de hipocondria.

Finalmente, eu diria aos surdos: COMPREENDAM A CONDIÇÃO HUMANA. E este seria o conselho mais difícil de todos. Nós somos feitos em variedades de tamanhos e formatos quase infinitos. Admita as diferenças, conheça suas limitações e exija o máximo do seu autocontrole e da sua força de vontade. Não vá na onda daquelas pessoas que são apaixonadas por um problema e querem ter sempre um sintoma pra dividir com os amigos na hora do café.

Reconheça quem você é e alcance o que você quer. As coisas são como são, mas elas também podem ser como você determinar que elas sejam.





Notícias do front

© Alessandro Loiola  

Estudos apontam:

"Ingestão de água está associada a hiponatremia fatal"
"Antibióticos aminoglicosideos causam lesões nos rins"
"Remédio para febre Paracetamol é responsável por insuficiência hepática fulminante"
"Reposição de hormônios tireoideanos causa infarto"
"Antiarritmico Digoxina desencadeia arritmia cardíaca"

E o povo se alarma em polvorosa. Valhei-me Santo Jovem Padawan de Tatooine do Norte...

Seguinte: TODO remédio é um veneno e TODO veneno tem um potencial para ser um remédio - e isso vale da farmacologia aos castigos que os pais aplicam e até para a situação política arual.

Interpretar corretamente o peso e as consequências de um estudo é tarefa braba - porque as respostas que ele encontra tendem a ser tão boas (ou ruins) quanto as perguntas que o precedem e justificam.

A ciência não é Conhecimento, mas um método de raciocínio. Metade da mídia / jornalistas não sabe lhufas de ciência. A outra metade acha que sabe, mas não entende. E as notícias do que é reto saem tortas como a estrada Taubate-Ubatuba.

Se soubesse rezar, eu rezaria para ver o dia em que nossa imprensa se tornaria enfim uma ferramenta social positivamente crítica e criativamente alienante.

Mas eu não rezo.

12 março 2016

Refletindo sobre A Arte de Pensar Claramente

© Alessandro Loiola


Um sujeito entrou em uma loja de acessórios de pesca. De repente, parou diante de uma estante e pegou uma isca de plástico brilhante que chamou sua atenção e perguntou ao atendente:

   - Me diga uma coisa: os peixes realmente fisgam esse negócio?

O atendente riu:

   - Senhor, não vendemos para os peixes.

Não preparamos iscas para o Destino. Ele simplesmente acontece. O que compramos é a ILUSÃO de que temos algum controle sobre qualquer coisa. Jogue suas iscas fora.

Qual a hora certa?

© Alessandro Loiola




No meio da correria do plantão,  alguém precisa registrar um horário na prescrição e pergunta:

- Que horas são?
- 11:10, responde uma.
- No meu relógio são 11:15, diz outra.
- No meu celular tá marcando 11:13, diz uma terceira.

Qual das 3 opções oferece a hora certa, afinal?

O Paradoxo da Escolha já foi tema de livro - tem um muito bom sob esse nome, escrito por Barry Schwartz.

O fato é que a Escolha  é o termômetro do progresso. Enxergar escolhas é um sinal quase inefável de raciocínio.

Mas existe um limite a partir do qual o excesso de possibilidades acaba com a qualidade de vida e produz insatisfação, não crescimento.

Jamais existirá uma escolha 100% perfeita,  mas você DEVE APRENDER a escolher as escolhas das quais vale a pena participar - e deixar resignadamente o resto para lá.

De Passagem

© Alessandro Loiola




Um homem muito muito rico partiu em uma viagem de auto descobrimento. Pessoas insanamente ricas mas minimamente inteligentes gostam de coisas assim. Pra falar a verdade,  você não precisa nem ser insanamente rico para apreciar algo desse naipe.

Enfim, ele traçou metodicamente sua viagem no mapa e seguiu seu plano em um país distante. Lá chegando, após poucos dias de caminhada, ficou sabendo de um eremita considerado o Homem Mais Sábio da Terra pela população local. A cabana do eremita não fugia muito do traçado original de sua viagem, então ele decidiu dar um pulo e fazer-lhe uma visita rápida.

   - Olá, disse o homem.
   - Olá, disse o eremita.
   - Você provavelmente não sabe quem eu sou, mas vim de muito longe para encontrá-lo.
   - Verdade? E quem é você?
   - Eu sou um homem insanamente rico. Tenho empresas, indústrias, iates, casas, motos, carros esportivos,  quadros caríssimos...
   - Oh, que da hora! E você os trouxe todos consigo?
   - Não mesmo. Vim até ao seu país em uma aventura, mas estou por aqui só de passagem.
   - Hum...

"Só de passagem". Isso resumiria a viagem.

Economize seu tempo: Não se apegue demais às coisas. Veja o que você tem como algo que lhe foi transferido provisoriamente pelo "universo" - sabendo que tudo pode ser tomado de você a qualquer momento. E será, um dia.

"Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo, ririamos sem dúvida de nos julgarmos vivos". Faça sua mochila leve. Ame. Viaje o mais longe. Sorria. E viva sempre o máximo desse jeito.

10 março 2016

Carta para a Mulher de Olhos Fechados


© Alessandro Loiola
 


Vejo a mulher de olhos fechados e não me contenho. Digo para ela: sinceramente, gostaria que você percebesse como tudo é raro e precioso, e como as forças dentro de nós rugem com fomes e sedes. De como existe nenhuma razão em coisa alguma, apenas as experiências que vivemos, e nenhum destino para onde estamos indo, ainda que estejamos indo mais depressa a cada dia.
Gostaria que você visse pelos meus olhos e tivesse a voracidade do meu espírito. Gostaria de transpor isso e fazê-la livre das amarras que a seguram antes dos instintos. Você deveria abrir os olhos e ver como o tempo se desfaz, como tudo é fútil exceto os prazeres e os aprendizados.
Você deveria alegrar-se pela alegria sem motivo e tagarelar risadas soltas o dia inteiro. E fazer planos encantados, transgredir-se despida de expectativas, abandonada de conceitos, ser quem quer que seja que não essa pessoa que se queixa da coluna, dos saltos, das cólicas, da enxaqueca, tão resumida em cansaços, sempre e sempre esgotada por tantas responsabilidades e regras igualmente transitórias.
Não, você deveria ir além. Bem além. Deveria abrir os olhos e o coração, florescer apaixonada para a vida em uma agitação de chamas e volúpia, em ganância pelas emoções espalhadas no mundo, e desejar juntar essas emoções dentro de si em uma coleção de júbilos para onde pudesse voltar-se a cada segundo, esfuziante por haver descoberto tanto, tanto.
Você deveria ser quem você nasceu para ser. Ser a imensidão que nascemos e então esquecemos. Porque eu lembrei, você também poderia. Deixar enfeitiçar-se pela música, nenhum maestro acima das estrelas, nenhum condutor abaixo delas, nenhuma busca nessa descoberta de espontaneidades livres e selvagens.
Você deveria abrir os olhos e ver tudo isso. Mas você não abre. Por que não?

Para quê servem os Relacionamentos?

© Alessandro Loiola


 
Responda com a primeira frase que lhe vier à cabeça: para quê os relacionamentos servem, afinal? Para perpetuação da espécie? E no caso de relacionamentos sem a intenção de reproduzir? O que há em nós que nos faz gravitar na direção desse evento, insistindo algumas vezes uma vez atrás da outra, as esperanças todas em frangalhos?
 
Alguns dizem que talvez seja a preguiça ou a incapacidade de sentirmo-nos completos sozinhos que nos faça procurar no outro a tampa da laranja que nos falta. Ou a metade da laranja. Ou quiçá a laranja inteira. Ou um abacate - deixo você escolher a fruta de sua preferência, se quiser.

A despeito de laranjas e abacates, a resposta definitiva para essa questão pode não estar na seção de hortifruti, mas nas aulas de embriologia: não nascemos como uma pessoa completa. Somos concebidos parasiticamente como uma pessoa dentro de outra pessoa. A anfimixia nos funde a partir de dois conjuntos de 23 cromossomos e logo nos tornamos dois corações que passam a bater assincrônicos porém juntos.
 
A gestação é isso: uma simbiose de duas almas um só espaço. Ou mais almas, dependendo da animação dos óvulos, dos espermatozóides e dos genes.

O término da gravidez nos divide e pelo resto da vida buscamos um útero que nos complete enfim, mas nenhum útero será como aquele útero original, confortável, protetor, sereno. E a busca que nasce conosco está fadada ao desespero ou à infelicidade, a menos que lhe desvendemos a natureza - e sua natureza é o retorno tranquilo ao par, aos dois seres coabitando um no outro, pagando o roubo de nutrientes com promessas de encontro.

Um relacionamento é a quitanda onde fazemos nosso escambo de expectativas tendo a Paciência como placenta e a Tolerância como cordão umbilical. Enquanto negociamos intenções, o preço e o bônus do amor acumulam-se e nos aguardam na vida que se segue a ele.
 
Qual seria a MINHA resposta sobre "para quê servem os relacionamentos"? Eu lhe diria que a construção do romance é esse trabalho de parto onde sabemos, de alguma forma instintivamente sabemos, que apaixonar-se de verdade é nascer de novo para si e para o outro. Simples e leve assim.
 

09 março 2016

Círculos Instantâneos

© Alessandro Loiola
  
 


Acordo cedo, encho a xícara com café requentado, visto a roupa para ir trabalhar e aproveito um cigarro na meia hora que sobra. Gosto de me presentear com essa meia hora de nadas pela manhã. A casa vazia, dia nascendo, a vida que floresce novamente com suas rotinas. 
 
As pessoas reclamam da rotina. Eu mesmo já reclamei bastante. Felizmente, o tempo me ensinou a admirar sua beleza oculta. Como em Groundhog Day ou em About Time, existe uma harmonia fantástica na rotina que olhos daltônicos não são capazes de identificar. 
 
Os olhos do mundo enxergam apenas a fila do ônibus, as ruas alagadas pela chuva, o trânsito, o jormal com as tragédias mais frescas, aquelas notícias inúteis todas, o horário de entrar nas engrenagens de Chaplin, o pagamento atrasado, o serviço que se repete como um buraco que insistimos em cavar na água. Mas cada uma dessas coisas e outras tantas encerram o fantástico em si. Cada detalhe traz consigo um tempero do extraordinário.  
 
A cada dia, estamos vivos para saborear a vida novamente, para conversar com os universos nas pessoas, para respirar a cidade, para digerir as horas e o espetáculo impossível do presente. E tudo que o universo nos pede é que estejamos à altura de sua relevância. "Estar à altura", tal é o desafio dos círculos instantâneos que nunca se repetem.

07 março 2016

Sobre o dia de hoje e o de amanhã e depois

© Alessandro Loiola



Viva como se viver fosse uma sentença de morte e você não tivesse opções, mas apenas poucos segundos e nenhum anjo para lhe salvar do destino que se aproxima trazendo consigo a extinção inclemente. Como se seu sangue estivesse se esvaindo em horas, como se o amor fosse uma sentença furiosa, como se cada pessoa fosse um encontro dourado e cada dia, uma descoberta que nunca, nunca, irá se repetir.

Viva com ganâncias abstratas e sonhos realizáveis, construa dias vertiginosos, derrube muros, ponha abaixo as paredes, cante as músicas, dance, perca-se, abandone-se. Entenda: somos feitos de "carpe diem" e "memento mori", este aviso está escrito em suas células, nos telômeros dos seus genes.

Fuja da rotina com os olhos de quem nunca viu o mundo antes, nade para o horizonte, levante-se e escale a porra da montanha, respire o ar da tempestade e misture-se sem medo com a chuva e os ventos e os trovões. Vá fundo e transpire cada emoção - TODAS elas. E então de novo e de novo.

Viva a aventura de viver até que não sobre uma mísera gota sequer, pois essa deveria ser a única filosofia, o único regime político, a única lição das escolas, a única religião moralmente aceita em qualquer parte. Ainda há tempo.

03 março 2016

Um Rápido Perfil da Espécie para Alienígenas Visitantes



© Alessandro Loiola


Aproveitando que vocês estão de passagem, esticando o pescoço pela janelinha da nave pra ver lá embaixo, quero adiantar umas coisas. Seguinte: nos fazemos de santos cheios de intenções altruístas, mas no fundo é só disfarce, ok? Não se enganem quando desembarcarem. O comportamento humanitário é um salva-telas, uma salpicada de manjericão em uma imensa tigela de pimentas beligerantes, traiçoeiras e vingativas.  

Uma contenda de animais que chamamos de "Irracionais" raramente termina na morte de um deles. Em geral, trata-se de uma tomada de forças por território ou fêmeas em que os concorrentes se medem. Terminada a batalha, o perdedor não retorna na calada da noite para invadir a casa do vencedor e trucidar sua família. Existe um pacto de honra silencioso, um tipo de respeito instintivo pelo resultado. Por outro lado, desavenças entre humanos costumam levar a desfechos bem diferentes.

E não guerreamos apenas por fêmeas, alimentos ou territórios: cometemos genocídios baseados em ideias. Ideias de riqueza, de conforto, de lucro, de sucesso, de status, de domínio por prazer, pela supremacia de crenças abstratas. É assim que extinguimos nossos recursos: porque são lucrativos, ou ameaçadores, ou desejáveis, ou belos, ou por nada.

Não estranhem: assassinamos por nada. De verdade. Vejam um documentário no Discovery e lá estará um leão espantando uma mosca zunindo em sua orelha; ele não a persegue ensandecido numa fúria homicida savana afora, armado de pesticidas e inseticidas de alta tecnologia. Ele espanta a mosca e só. Nós, os Burros Sapiens, liquidamos a esmo.  

As evidências de violência gratuita aleatória em nossa série histórica são contundentes. Mas vocês não precisarão ir longe e decifrar vestígios arqueológicos pra enxergar isso: basta sintonizar um canal de TV num noticiário qualquer e perceberão como somos eficientes em matarmos até a nós mesmos por nada - mas esta peculiaridade, do ponto de vista da Natureza, poderia inclusive ser considerada uma forma de controle de pragas. 

De resto, espero que tomem um bom café e curtam o planeta, viu? Apesar do elenco de primatas com enredo repetitivo, as paisagens valem mesmo à pena.

 

02 março 2016

Transtorno do Narcisismo Facebookeano


© Alessandro Loiola

Dei aquela parada pro almoço e um café esfumaçante e bora abrir o aplicativo no smartphone pra uma conferida rápida no Jornal Nacional do Zuckerberg. Facebook de sobremesa. Quem nunca? Eu idem. 
Rolando os posts até onde a paciência permitiu, fiquei intrigado com uma coisa: a quantidade absurda de Mimimi. Voltei ao começo e contei: de 50 posts, praticamente 80% poderiam ser classificados como puro, cristalino, Mimimi.
Uma ou outra publicação com bons vídeos de música, documentários e surfe (Thanx Leco Leandro Korolkovas!), outros com links para excelentes notícias e artigos (Thanx Cleber Assis!), alguns com correntes genuínas de ajuda (Parabéns Gabriel Augusto Rocha de Ilhabela! É assim que se faz!), uma meia dúzia de 2 ou 3 com reflexões e questionamentos bacanas, mas sério: a maioria era Mimimi mesmo.
Depois de milhares de anos lutando contra as intempéries da natureza, sobrevivendo a predadores, à fome, às guerras, como Darwin explicaria a espécie chorona que nos tornamos e que se lamuria com tanta obstinação no Face?
Nas últimas décadas, os níveis de Narcisismo de fato aumentaram consideravelmente, em especial dentro na cultura ocidental. E isso não é uma opinião isolada minha 1, 2, 3, 4.
Nos anos pré-Século XXI, estimava-se que o transtorno narcisista afetava cerca de 1-2% da população, entretanto estudos mais atuais apontam uma incidência de 16%, podendo atingir percentuais ainda maiores em certas populações, tais como adultos jovens, estudantes de medicina (Ouch! Doeu aqui...), adolescentes, militares, etc.

Por Que as Pessoas Acessam o Face?
Segundo Nadkarni & Hofmann5, o uso do Facebook é motivado por dois impulsos primários: a necessidade de sentir-se parte de algo (fuga da perceção de isolamento e solidão) e a necessidade de validação (busca por popularidade e expressão social). 
A possibilidade de compartilhar construtivamente ideias e pontos de vista, a habilidade de identificar e acompanhar amigos com interesses em comum, a chance de ampliar o networking, todas essas são explicações plausíveis e bastante positivas para uso do Face, mas convenhamos: não é com isso que você depara diariamente no seu feed, é? Não, não é.
Estudos independentes conduzidos por Ross6 e Mehdizadeh7 produziram conclusões em comum: pessoas extrovertidas tendem a ter muitos amigos e utilizam o Facebook como uma ferramenta para garimpo de contatos e eventos, mas nunca como uma alternativa às atividades "ao vivo e em cores". Em contrapartida, pessoas com transtornos neuróticos narcisistas e/ou com baixa autoestima tendem a publicar mais fotos autopromocionais (em geral editadas), compartilham mais informações de caráter estritamente pessoal e têm baixo rendimento em atividades acadêmicas, além de passarem mais de 1h por dia penduradas na rede social.
Seres humanos são profundamente dependentes do suporte de outros seres humanos. É assim que cuidamos de bebês e construímos civilizações. Está na nossa natureza. Lembra de John Donne? "Nenhum homem é uma ilha". O discernimento de valor-próprio e de autoestima é tanto causa como consequência dessa dependência. Qualquer queda no nível dessa percepção aciona um alarme de Risco de Exclusão Social.
Seria algo como um "Sociômetro", um termômetro que usamos para medir nosso grau de aceitação pelo grupo. O Sociômetro apita e lá vamos nós correndo atrás de autovalorização antes que a manada nos esqueça e deixe para trás.
Aspectos culturais e temporais influenciam a calibragem desse termômetro. Em sociedades Coletivistas, a inter-relação entre os membros enfatiza a interdependência e prioriza a harmonia acima dos ganhos individuais. Por outro lado, em sociedades Individualistas, demonstrações de conquistas, vivências e sucessos individuais recebem a maior parte das recompensas e dos olhares de admiração - ainda que essas manifestações sejam de compaixão por si ou tentativas infantis de reverter a baixa autoestima.

Ouvindo o Lado Ogro da Força
Tudo bem. Você vai dizer que reclamar do Mimimi alheio é uma forma de Mimimi particular. Aceito a crítica, ela procede. Mas considerando especificamente as demonstrações de narcisismo magoado, por que eu teria que prestar atenção em você? Por que alguém nesse mundo deveria ter a obrigação de prestar atenção se as ideias que você expressa não vêm embutidas de qualquer valor exceto autocomiseração?
Existem 7 bilhões de pessoas nesse planeta e cada uma delas se acha única e especial ao seu modo. Se fosse necessário dedicar uma década inteira para atenciosamente aplaudir e acariciar os 80% de egos carentes - “puxa, você realmente é uma pessoa tão especial! e lamentamos muito caso a vida não esteja correspondendo às suas expectativas!” -, os 20% restantes da população teriam que passar 1,5 milhão de anos dedicando-se exclusivamente a esta tarefa hercúlea. 
Um milhão e meio de anos aplaudindo a autocomiseração de outrens... putz!... no mínimo um atestado por tendinite ou orquiepididimite teria que rolar depois disso.
Círculos de amizades - e redes sociais - deveriam prestar-se tanto a propósitos Coletivos quanto Individualistas em igual medida. Infelizmente, a quantidade de Mimimi online sugere que essa balança anda meio - para ser discreto e parcimonioso ao extremo - desregulada.
Que tal então começar a fazer sua parte, desligar o Sociômetro um pouco, mandar o Narcisismo ir dar uma volta na praça, e colocar mais pesos honestos no lado do Coletivismo a partir de hoje?
Isso sim seria algo interessante de ver no feed amanhã.







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Referências:

1. Tudomanyegyetem S. Narcissism in the world of Facebook. An evolutionary psychopathological interpretation. Psychiatr 2013;28(4):440-53.
2. Malik S, Khan M. Impact of Facebook addiction on narcissistic behavior and self-esteem among students. J Pak Med Assoc. 2015 Mar;65(3):260-3.
3. Pincus AL, Lukowitsky MR. Pathological narcissism and narcissistic personality disorder. Annu Clin Psychol. 2010;6:421-46.
4. Kapidzic S. Narcissism as a predictor of motivations behind Facebook profile picture selection. Cyberpsychol Behav Soc Netw 2013 Jan;16(1):14-9.
5. Nadkarni A, Hofmann SG. Why Do People Use Facebook? Pers Dif. 2012 Feb 1;52(3):243-249.
6. Ross C, Orr S, Sisic J, Simmering M, Orr R. Personality and motivations associated with Facebook use. Computers in Human Behavior. 2009;25:578–586.
7. Mehdizadeh S. Self-presentation 2.0: narcissism and self-esteem on Facebook. Cyberpsychol Behav Soc Netw. 2010 Aug;13(4):357-64.

01 março 2016

Dos Machos Alfa aos Homens Homem

© Alessandro Loiola


O papo é sempre o mesmo: dizem que existem 2 tipos de homens. De um lado, os Alfas, cheios de poderes, dinheiro e mulheres, dominando e intimidando a tudo e a todos através de sua força física, os caras “foda”, no alto da montanha, os mandachuvas, os “homens de verdade”. E do outro lado, os Betas, fracos, submissos, subordinados, sensíveis, sentimentais, que as mulheres carinhosa e maternalmente se referem como “uma boa pessoa”, o “Mr. Nice Guy”, os "Do Bem", etc.

A diferenciação entre Alfas e Betas vem da observação de outros animais sociais como chimpanzés e lobos. Apesar de divertida, ela pinta a psique masculina de preto ou branco, sem direito a tons intermediários. Isso não apenas é um reducionismo da multi-dimensionalidade da masculinidade como também turva completamente o foco DO QUE REALMENTE nos torna atraentes para as mulheres.

Se aceitarmos que existem apenas estas duas categorias de homem, estaremos conduzindo uma imensa manada de palermas para um caminho tortuoso de frustração e insucesso, transformando o relacionamento Homem x Mulher em uma contenda de crianças.

Que tal você se perguntar: será que essa merda de Alfa tem alguma coisa mesmo a ver com ser desejável para o sexo feminino?



A Complexa Psicologia da Dominância

Utilizando estudos comportamentais – e principalmente a partir do trabalho de Sadalla EK et al, Dominance and Heterosexual Attraction, Journal of Personality and Social Psychology,1987;52(4):730-738 -, os pesquisadores observaram que, em comparação às descrições de atitudes passivas, homens com características dominantes provocavam uma resposta de atração sexual de maior intensidade nas mulheres. Fato.

Entretanto, em estudos subsequentes, os cientistas notaram também que era necessário um determinado conjunto de adjetivos (ou qualidades) para produzir essa resposta. Ainda que ser “Dominante” fosse algo positivo, a mesma resposta de atração não ocorria quando as mulheres eram confrontadas com percepções como “agressivo” e “dominador”.

Do ponto de vista feminino, a característica Dominante como fator de atração sexual perde de goleada para duas outras: em uma entrevista com mulheres universitárias sobre “qual característica seria a mais importante para formar um par romântico com você?”, o traço Dominante foi apontado como relevante por apenas 2% delas. As qualidades vencedoras foram Autoconfiança (74%) e Assertividade (48%) - que basicamente significam a mesma coisa, para economizar uma ida sua ao dicionário de sinônimos.

Quando a pergunta foi repetida com relação às qualidades não-dominantes, aquelas consideradas mais atraentes pelas mulheres foram “Descontração” (68%) e “Sensibilidade” (76%). É, ser sensível é uma merda mas tem lá suas vantagens... De um modo até óbvio, simplesmente NENHUMA das entrevistadas citou “Submissão” ou “Subserviência” como qualidades ideais para seu par romântico. “Calado” ganhou 4% dos votos e “Tímido” ficou com tímidos 2% das preferências - então eu não investiria nisso, ok?

Os estudos também revelaram que a atitude Dominante pode se manifestar de várias formas: um sujeito Dominante mas exigente, solicitante, violento e egocêntrico NÃO é nem de longe um partido atraente. Traços de Dominante manifestados como qualidades de liderança segura são os mais desejáveis. Isso significa que Sensibilidade e Assertividade, ao contrário do que meus testículos me informaram por décadas, não são coisas opostas. Na verdade, a combinação de Sensibilidade e Assertividade formam o sanduíche mais apreciado por elas.

Não basta você treinar aquelas poses e caras ridículas de Dominante Alfa, porque essa atitude isoladamente não produzirá o efeito que você espera. Para funcionar, é preciso que o pacote venha embrulhado em comportamentos proativos pró-sociais, tais como Agradabilidade, Generosidade e Altruísmo.

Do ponto de vista feminino, a Dominância só se torna atraente em competições exclusivamente masculinas. Fora destas situações bem específicas, demonstrações de agressividade sugerem que o sujeito a qualquer momento poderá explodir com sua ira violenta contra ela também - e esse não é exatamente o ninho de aconchego que elas querem.

Em outras palavras: você pode até chutar a cabeça do zagueiro do time adversário para fora do corpo no domingo, mas na segunda-feira você deve ser genuinamente amigável e divertido com seus colegas de trabalho. E não adianta fingir forçando-se parecer sensível: elas percebem, amigo. Mesmo quando você não percebe que elas percebem, elas estão percebendo. Percebe?


As Melhores preferem os Maus: verdade?

Distinguir os diferentes tons de Dominância, e como eles interagem com a Sensibilidade, não é importante apenas para compreender a atração sexual, mas também apresenta profundas implicações no entendimento do status social na nossa espécie.

Ainda que os perfis psicológicos afirmem que mulheres são mais atraídas por Homens Dominantes ao invés de Homens Dominadores - tanto para casos curtos quanto para relacionamentos de longo prazo -, é verdade que algumas delas preferem sempre o idiota desgraçado coração de gelo dominador insensível "uma-metida-e-fui-embora". Em geral, mulheres com gosto por homens assim cresceram em lares instáveis com pouco ou nenhum suporte familiar, tendem a se sentir inseguras para estabelecer vínculos e apresentam atitudes sexistas hostis para com suas companheiras de gênero.

Legal né? Agora você pode saber em que tipo de lar ela cresceu apenas lendo as postagens dela no Facebook.

Ainda que seja possível pegar algumas mulheres tendo uma atitude 100% Alfa-feladaputa, o tipo de presa que essa isca atrairá quase certamente irá lhe causar mais dor de cabeça que alívio nos bagos. E, não por outro motivo, os homens que utilizam essa ideologia costumam ter uma amostragem bem ruim do universo feminino: não são elas que não prestam, mas seu método de seleção que é uma bosta. A fantasia de Alfa irá atrair mulheres mais promíscuas e instáveis, e o sujeito vai terminar achando que todas as mulheres são malucas daquele jeito. (O que elas são ao seu modo, mas não espalhe isso).

Técnicas de flerte com a fantasia narcisista de Super-Alfa espantam as mulheres que são centradas e bem resolvidas. A rejeição dos "bons partidos femininos" faz com que esses caras achem que ainda não são "maus o suficiente", e eles então injetam ainda mais testosterona no seu comportamento, piorando o índice de rejeição entre as que valem à pena e se aproximando daquelas que não valem tanto - e o ciclo vicioso se inicia novamente.


Chegando na real

Como bons macaquinhos que somos, nosso status social - e os bônus sexuais daí oriundos - pode ser melhorado por meio de Compaixão e Cooperação tanto quanto por meio de Agressão e Intimidação. Se bobear, a primeira opção é tão mais fácil quanto a segunda, e mais bem sucedido.

Isso significa que existem duas rotas básicas para melhorar seu jogo: Dominância ou Prestígio. Essas rotas não estão aí à toa. Elas nos foram presenteadas por centenas de milênios de propósitos evolucionários.

Como você percebeu no começo, a rota da Dominância é pavimentada com blocos de intimidação, ameaças, manipulação, coerção orgulhosa, arrogância, neurose, narcisismo... Enfim, Chatice mesmo.

Por outro lado, a rota do Prestígio é calçada na satisfação do dever cumprido, na confiança enérgica e no sucesso empático, e coberta por camadas honradas de orgulho autêntico. Quem caminha por essa estrada apresenta um comportamento agradável focado em objetivos, com boas doses de auto-conhecimento, satisfação nos relacionamentos interpessoais e uma atitude mental positiva. Em resumo: é um cara que confia no próprio taco sem ter que ficar brandindo o maldito por aí na cara de todo mundo.

Daí você conclui: Ah, saquei! Dominância é "ruim" e Prestígio é "bom"...

Calma lá. Eu disse isso? Não venha simplificando as coisas com raciocínios de primatas. O buraco é mais embaixo e somos mais do que isso, meu bom camarada. Sempre que alguém discute sobre Alfas e Betas, essa pessoa invariavelmente se esquece de contabilizar uma coisa chamada Cenário.

Em um ambiente difícil e perigoso, o Alfa Dominante tem seu valor pois ele consegue o que quer e ainda é capaz de fornecer recursos para aqueles que aceitam submeterem-se ao seu comando. Em um contexto assim, não é preciso muito mais que força e intimidação para fazer as coisas funcionarem. Contudo, para além dos limites das sociedades bárbaras, é o cara de Prestígio quem manda. É ele quem alcança o sucesso na vasta maioria de suas empreitadas. Tudo tem a ver com o cenário.

Dominância e Prestígio são estratégias bem diferentes de obter e manter o status social, e não raramente as duas coexistem e se alternam dentro de nós. Somos animais predadores no final das contas, não anjos e menos ainda santos.

Dominância é uma boa estratégia para o sucesso no curto prazo, mas será necessário empregar Prestígio para se manter no degrau conquistado. A Dominância pode ser uma excelente conquistadora, mas é uma péssima governante.

Mexendo nessa salada toda, posso dizer sem qualquer medo de errar que o homem idealizado pelas mulheres é assertivo, descontraído, sensível, gentil, generoso e autoconfiante, e tem nada de agressivo, exigente, quieto, tímido ou submisso. Em outras palavras, o homem idealizado por elas é um Homem de Prestígio, não um Homem de Dominância.

Ao invés de preocupar-se com padrões de comportamento, linguagem corporal e emissão de sinais de domínio, por que não tornar sua experiência neste planeta mais ampla e plena? Engajar-se na missão de tornar-se verdadeiramente mais atraente para elas trará um profundo senso de valor para a sua própria vida.

Alfas caçam e matam na floresta selvagem. Betas cozinham e servem a mesa.

Homens de Prestígio, ah meu caro.. esses degustam o mundo.

O Animal Humano





© Alessandro Loiola




Durante a cirurgia, entre a cauterização de um vaso e outro: 
- Como assim, você vai mudar de novo?
- Sim, vou pra São José dos Campos. Pinça.
- Fica em São Paulo não é?
- Humrum. Uns 100 km da capital. Corta aqui. Isso. Pinça de novo. Beleza.
- Mas de onde diabos você tirou essa ideia? Parece que tem rodinhas nos pés, meu Deus...
- Vou te contar... 

Estava em Belo Horizonte há 8 anos, mas esse sangue nômade corria na família há muito mais tempo. Até onde me lembro, Vô Antônio foi meu ancestral mais próximo dessa linhagem de homens-de-rodinhas. Certamente havia outros. E outras. Ter rodinhas é apenas uma de tantas características de nossa espécie que insistimos em sufocar. 

Calcula-se que o Homo sapiens venha caminhando por este pequeno planeta esquecido nos subúrbios da Via Láctea há pouco mais de 300 mil anos. Faça aí suas contas. Três mil séculos. Quase nada. Os Dinos comandaram a festa por um milhão e meio de séculos e ainda tem muita tartaruga e jacaré por aí. Somos calouros nesse papo de “dominar o mundo”.
 
Destes 300 mil anos, fomos nômades até o Neolítico (10.000 a.C.). E então descobrimos a agricultura, e pudemos sentar nossas nádegas em um pedaço de terra e chamar aquilo de “casa”. Quando isso aconteceu, nossos genes já traziam um imprint nômade de 290 mil giros em torno do sol.

Finalmente, 300 anos atrás, inventamos uma tal de Revolução Industrial. E isso deu ao pai do avô do avô do avô do avô do seu avô um emprego, essa herança maravilhosa que perseguimos até hoje com cursinhos pré-vestibulares e apostilas de concursos públicos.

 
Máquina 

Imagine o que você é de verdade. Você é uma máquina, saca? Simplesmente uma das máquinas predadoras mais eficazes e extraordinárias que a natureza foi capaz de produzir. Duvida? Então olha só: 

Considere o conflito: homem versus leão faminto. Para a briga, permita que o Panthera leo de 2,5 m de comprimento e pesando modestos 250 kg de músculos e fúria utilize todas as armas que a natureza lhe deu. A consequência? Um homem fatiado feito 400 gramas de acém moído. 

Agora permita a mesma liberdade de ação ao mamífero bípede. Dessa vez, deixe que o Humano utilize todas as armas que a natureza lhe deu. A consequência? O leão vira uma espécie ameaçada de extinção. Uma bombinha de nada e matamos o leão, uma manada de elefantes, mil zebras e de quebra fechamos a reserva inteira por 50 anos devido contaminação radioativa.

Isso é eficácia ou o quê, hein? Hein? Toca aqui. 

Pois você teria coragem de, ao final do seu looongo e exaustivo dia de trabalho, trancar a porta, sentar em casa em frente à TV e colocar ao seu lado um leão faminto? Se você acha isso loucura, como tem coragem de sentar-se dentro de um ser humano enfastiado? O que você acha que esse animal irá fazer com você? O que você acha que seu corpo insatisfeito irá fazer com você? Preparar um toddy?

Eu te respondo: vira e mexe, o animal humano que vive dentro de você irá lhe dar uma lanhada. Ele irá se arremessar contra você em um rompante de unhas, dentes, angústia, depressão, arritmia, hipertensão arterial, insônia, compulsão alimentar, obesidade, diabetes, etc. É o animal lhe devorando. Afinal, você não cuida dele, chega em casa lamuriando que “hoje o dia acabou comigo!” e fecha a porta... O coitado não tem alternativa exceto abrir a boca e morder seu tornozelo com toda força. 


Vida sedentária? 

Lembre-se: se nossa evolução neste planeta pudesse ser contada no período das 24h de um dia, cada minuto corresponderia a cerca de 200 anos. Durante as primeiras 23 horas, o corpo que você tá usando aí agora foi sendo selecionado e polido para perambular uma vida nômade. Somente nos últimos 60 segundos esse mesmo corpo passou a ser obrigado a usar uma cadeira e uma mesa 8h por dia, 40h por semana.
  
Seu corpo não foi programado para isso, seu habitat não é o ambiente laboral. Ele não foi criado para esse modo civilizatório. A sociedade que criamos está adiante da natureza do corpo que ocupamos, e essa dissonância está acabando conosco. 

Como não tem como desfazer a Revolução Industrial ou criar uma máquina do tempo para destruir as enxadinhas de todas as tribos do Neolítico, o jeito é aprender a lidar com o corpo. Treiná-lo, condicioná-lo, agradá-lo com passeios, natureza, esportes, música, sexo, para que ele se torne um cachorro manso e obediente, ao invés de uma fera esperando para lhe engolir. 

Tenho lidado com exemplares de nossa espécie há algum tempo. Depois do espécime número 275.000, acho que consegui aprender alguma coisa: cada pessoa tem uma história, uma realidade, mas basicamente ocupamos corpos que funcionam do mesmo modo há milênios.

É possível extrair mais do seu corpo do que jamais imaginou – tudo que você precisa é ter a mente aberta, um pouco de inteligência e alguns gramas de disciplina. Não é tão difícil. Mas se não quiser, faça um favor: não venha aparecer no meu plantão para reclamar das mordidas.

Do começo ao fim, a responsabilidade pelo animal é sua. E sempre será.