28 novembro 2010

A SEMPRE BOA E CONFIÁVEL PANELA DE FERRO

© Dr. Alessandro Loiola


Em um acesso de sinceridade, confesso: tenho um caso mal resolvido na cozinha. Mas calma lá com a interpretação, porque pensão alimentícia anda cara esses dias (né, Romário?). O fato é que na hora de preparar uma refeição, o utensílio que mais uso é o telefone. Nem sei mais a cor da geladeira, soterrada há anos sob várias camadas de ímãs de “disk-tudo”.

Entendo nada de cozinha.

Para evitar que me xinguem de porco chauvinista logo no início da crônica (sei que inevitavelmente farão isso a partir do meio do texto), pensei em colocar em meu histórico culinário as competências “sabe preparar miojo, fazer pipocas no microondas e encher a forma de gelo”. Mas decidi esperar o final do ano para acrescentar “capacitado para cortar ingredientes do salpicão”. É sempre recomendável adicionar um certo nível de sofisticação no currículo.

Então, sendo eu este completo analfabeto de garfo e faca, me vi como um camundongo encurralado pela vassoura no cantinho do gás quando recebi um email perguntando: qual a melhor panela para preparar as refeições?

Pensei em responder “cheia”, mas até o cinismo precisa de tempero. Pesquisando, descobri que assim como existem vários tipos de mulheres, existem vários tipos de panela – cada uma com indicações e efeitos adversos específicos.

Use “porco chauvinista!” à vontade a partir de agora.

Por exemplo: as panelas de alumínio e aço inox são como namoricos de verão - baratas e fáceis de encontrar. Apesar de excelentes para o preparo de carnes, elas podem absorver metais pesados durante o cozimento e afetar sua saúde.

Panelas de vidro são como namoradas de 20 e poucos anos: transparentes, bonitas e decorativas, esquentam muito rapidamente e devem ser desligadas com certa antecedência, ou comprometerão o resultado da refeição. Ao contrário das panelas de inox, elas não produzem só barulho quando derrubadas.

Panelas de cobre são mulheres independentes depois dos 30: mais caras e condutoras, porém menos práticas e potencialmente tóxicas. Causam uma boa impressão se você quiser passar um ar de alquimista e disfarçar seu péssimo molho culpando a limitada versatilidade gustativa dos convidados.

Panelas de teflon costumam ser utilizadas por executivos infiéis em busca de frituras rápidas, com pouco óleo. Estas panelas possuem um revestimento interno de politetrafluoretileno que as torna antiaderentes. Mas atenção: o politetrafluoretileno solta-se com alguma facilidade e jamais deve ser ingerido.

Panelas de porcelana são mulheres em plena TPM: cheias de personalidade, possuem um toque intimista (ou seria intimidador?), mancham fácil e ao menor estresse ameaçam soltar o esmalte.

Uma panela de pressão é uma mulher na pré-menopausa. Experiente, tecnologicamente pensada, não é recomendada para iniciantes. Apesar de cozinhar bem em temperaturas acima de 100 graus, todo cuidado com a válvula de pressão é pouco. Sem manutenção, ela pode explodir na sua cara quando você menos esperar.

Finalmente, a boa e velha panela de ferro é como aquela mulher que escolhemos para casar. Podem ser levadas à mesa, são versáteis e concentram mais o calor, cozinhando tudo ao mesmo tempo.

Além de manterem o sabor e as propriedades do alimento, as panelas de ferro adicionam nutrientes valiosos. Pesquisas mostram que o preparo de alimentos nesse tipo de panela chega a suprir cerca de 20% das necessidades diárias de ferro do organismo, tornando-as especialmente indicadas para quem adota uma alimentação vegetariana.

Para manter uma panela de ferro sempre em ordem, você deve tomar alguns cuidados básicos. Elas devem ser limpas com delicadeza e se possível secadas no forno quente e aconchegante. Uma vez resfriadas ao natural, aplique uma leve camada de óleo e guarde-as em um local apropriado. Com a dose certa de atenção e carinho, elas devem durar bastante. Afinal de contas, panela velha é que faz... você sabe.

17 novembro 2010

EM BUSCA DA BÚSSOLA PERDIDA


Uma amiga desabafa: “sabe, ando passando uma fase estranha, um sentimento de como se estivesse perdida, como em um daqueles pesadelos que você não sabe onde está. Anda, anda e não sabe pra onde ir, entende? Travei. Passei a fazer tudo mecanicamente e precisei dar um tempo em um monte de coisas pra tentar voltar ao normal. Ainda não consegui. Existe algum caminho mais fácil para sair daqui?”

Me identifiquei imediatamente com o bairro dela, ali perto de Perdidos No Espaço. Na última contagem, o rapaz responsável pelo censo da região também se extraviou e não temos estatísticas confiáveis até o momento sobre a população que habita o local. Mas ela parece grande. Muito grande.

No começo dos anos 2000, quando mudei com (ex-)esposa e casal de filhos de uma pequena localidade (33.000 habitantes) para uma enorme região metropolitana (mais de 5 milhões de viventes), nos perdemos em um passeio para conhecer a capital. Estávamos nos informando sobre o caminho de volta para casa quando o de 6 anos perguntou:
- Papai, qual o significado dos nomes nessas placas?
- São os nomes dos bairros, filho, e as saídas que você tem que pegar para ir a cada um deles.
- Ahhhnn... Então aqui é o bairro da Savassi e ali é a saída para o Belvedere?
- Isso.
Andamos mais um pouco.
- E aqui é Lourdes e por ali a gente vai para o Barro Preto?
- É isso aí.
Andamos mais um pouco.
- Pai, olha só, tem um bairro enooorme! Na cidade inteira tem entrada para ele!
- Filho, cada bairro fica em um lugar só. Não tem como um bairro estar para todo lado. – E fiz um “tsc tsc” de desdém.
- Então porque tem tantas placas apontando para esse bairro chamado Retorno?

Crianças. O poço mais profundo da filosofia mais magnânima pelo preço de um picolé.

Todo lugar tem um Retorno. Todo lugar tem uma volta. Sempre é possível recomeçar, reconquistar, refazer, reconstruir, reviver. E foi a partir da vivência de uma criança de 6 anos que desenvolvi uma teoria bem simples, a teoria da Bússola do Crescimento Pessoal, composta por 5 diretrizes gerais de navegação que gostaria de compartilhar com você agora:

1 - Quando você acordou hoje, foram depositados 86.400 segundos em sua conta de vida. Eles são todos seus e, apesar de auto-renováveis a cada meia noite, não podem ser transferidos, doados ou vendidos. Contudo, o fato de não poder negociar com o relógio não significa que você não possa se aproveitar dele. Leve o tempo que for necessário para iniciar seu recomeço – só não leve tempo demais.

2 - Rasgue imediatamente seu bilhete de entrada para o metrô dos zumbis: dentro do possível e do impossível, desfrute e participe da paisagem que passa pela sua janela. Aprendizado sem mudança é desilusão. Mudança sem crescimento é frustração. Contemple a vista, aprenda, mude e se aprimore a cada dia.

3 - No final das contas, tudo isso de ruim e de bom é viver, e a viagem só acaba quando termina. Nunca desanime antes do fim. A única rua que leva ao seu fracasso é a Desistência e, enquanto estiver persistindo, você estará no caminho para o sucesso. Peça carona, empurre seu carro, vá a pé. Siga em frente, siga para os lados, siga para trás. Mas siga.

4 - Agir de modo independente não significa negligenciar as informações a cada esquina. Pergunte, peça ajuda. Alguns bons (e insuspeitos) amigos podem conhecer bons atalhos, bons restaurantes, boas atrações, boas oportunidades, e você tem 2 ouvidos, 2 olhos e apenas uma boca. Observe e ouça o dobro do que fala.

5 - Não tente fazer todas as coisas perfeitas. O caminho de volta pode não ser exatamente aquele que você fez na ida, mas ele existe e irá lhe proporcionar uma série de novas experiências e conhecimentos antes de lhe colocar confortavelmente em casa. Tentar percorrer sempre o mesmo caminho perfeito pode tornar o passeio monótono e paralisante. Então destrave. Pegue o primeiro ônibus que passa pelo bairro Perdidos No Espaço, vá viver a sua aventura da vida e tenha mais um dia extraordinário!

12 outubro 2010

UM BRINDE AO DIA DEPOIS DO OUTRO

© Dr. Alessandro Loiola


Por gerações a perder de vista, os incontáveis povos que já passaram pela superfície no nosso planeta-grão-de-poeira adoravam eleger datas festivas para comemorar o que quer que fosse. Isso é uma coisa tão prevalente que me atrevo a dizer que somos o produto de milênios de seleção natural de ancestrais baladeiros e festeiras.

Por exemplo: os hindus têm um tal de Festival das Cores, para celebrar a germinação das sementes e a nova colheita que virá com a primavera. Tudo muito bonito, sincronizado com as fases da Lua, os primeiros dois dias todo mundo comportado, rezas, ladainhas, adorações, coisetal. E então, no terceiro dia… “loucura, loucura, loucura!”, como diria o Sr. Luciano “o Incrível” Huck. O festival vira festival mesmo e o bicho pega.

Um pouco pra cima da Índia, os chineses não fazem por menos. A partir da metade de setembro e até por volta da primeira semana de outubro, eles comemoram o Festival do Bolo Lunar, uma tradição com mais de 3.000 anos que celebra a derrota dos invasores mongóis. E segue-se um troca-troca sem fim de pequenos bolinhos adocicados em formato de Lua cheia. Quer dizer, eles dizem que tem formado de Lua cheia. Pra mim, é formato de bolo mesmo.

Os chineses são mestres em celebrações. Quem manda? Com 1,3 bilhões de pessoas, eles têm o próprio planeta deles por lá. Tanto é que o Ano Novo Chinês é comemorado entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro. Ouvi falar que a tradição é soltar fogos de artifício, limpar a casa, sujar a rua com pequenos pedaços de papel vermelho e fazer muita comida, especialmente os Yau Gowk, bolinhos que simbolizam prosperidade.

Bolinhos chineses novamente. Fico imaginando o que esse povo tem com bolinhos. Deve ser algum fetiche. Sei lá.

Os muçulmanos comemoram o ano novo no meio do nosso ano. O ano novo judaico, chamado Rosh Hasanah ou a “festa das trombetas” (imagine a alegria dos vizinhos...), acontece um pouco mais tarde, em setembro. Os coreanos, mais animados, comemoram 2 anos novos: um baseado no calendário ocidental e o Seol Lal, baseado no calendário lunar chinês.

A primeira notícia que se tem de comemoração do Ano Novo no dia 1º de janeiro vem dos idos do imperador Julio Cesar, em 46 a.C, mas a data seria adotada pela cristandade apenas em 1582, com a oficialização do calendário gregoriano – que nos rege até hoje.

A celebração do Ano Novo marca um evento bastante simples e pouco altruísta: como nas demais festividades de todos os povos em todos os tempos, estamos celebrando nada mais, nada menos, que nossa própria sobrevivência.

Sobrevivemos a mais um giro, você completou mais uma volta. Ainda estamos aqui. Bata no peito, grite bem alto, levante sua taça – afinal, o ano se foi e você ficou! Agora, graças ao renascimento do calendário grudado na porta da geladeira, você poderá fazer novamente todas suas velhas promessas.

Celebrar a sobrevivência, apesar de previsível, não deixa de ser louvável. Nossos ancestrais miúdos, as amebas, vivem apenas dois dias. Uma miséria. Um glóbulo vermelho do seu sangue vive no máximo 120 dias: uma hemácia nascida no verão, provavelmente irá desaparecer antes do cair da primeira folha de outono. Pouquíssimas terão a oportunidade de conhecer o barulho de uma rolha de espumante.

Mesmo quando comparados a outros mamíferos, somos uma espécie longeva: um coelho vive apenas 10 anos. Gatos e cachorros, no máximo uns 18 anos. Gorilas e chimpanzés, cerca de duas reles décadas. Nós? Vivemos uma média de 75-80 anos. Faz sentido comemorarmos coletivamente cada um deles.

Mas eu iria além. Se estas festas de todos os dezembros marcam nossa sobrevivência ao longo do velório do ano velho e o trabalho de parto do próximo, porque não celebrar mais frequentemente a sobrevivência? Celebrar a imensa felicidade de acordar e desfrutar mais uma vez o mundo e as pessoas. Quer dizer, nem todas as pessoas, apenas algumas pessoas. Bem poucas, pra falar a verdade. Mas elas estão por aí e merecem um alô.

Será que temos essa inteligência suficiente para comemorar o cotidiano? Festejar a beleza elegante da evolução, a serenidade da sabedoria e o milagre absurdo que se esconde no simples fato de estarmos aqui, prestes a declarar o imposto de renda outra vez?

Considerando que o ano novo é a simples realização de que estamos vivos, porque não exaltar cada novo dia? Sim! Cada raiar do sol esconde um novo ano particular, uma oportunidade única para você refazer os cacos e juntar o todo. Que feliz ano novo que nada! Apesar da paganice, da receita federal e dos argentinos, desejo mesmo a você e toda sua família um Feliz Dia Depois do Outro! E outro. E outro. E outro. E sempre. Saúde!

23 abril 2010

PROBLEMAS EMBARAÇOSOS DO ANIMAL HUMANO

© Dr. Alessandro Loiola


Alguns problemas simples do animal humano podem ser extremamente embaraçosos. Dependendo do caso, pode ser constrangedor até mesmo marcar uma consulta para tentar resolver o assunto: você corre o risco de ser recebido pelo médico com uma daquelas caras de “...mas o que esse sujeito veio fazer aqui, afinal de contas?”.

Para facilitar sua vida, listei 6 problemas teoricamente irrelevantes que podem lhe interessar – ou a alguém que você conhece.

CHULÉ

Dos vários odores típicos da sociedade moderna, poucos se igualam ao bom e velho chulé. Se você ainda duvida, respire fundo e sinta todo o frescor e suave aroma do tênis All Star de seu sobrinho adolescente. Mas, antes de conduzir este experimento, certifique-se de que a pessoa ao seu lado sabe realizar manobras de ressuscitação cardiorrespiratória. Jamais subestime o potencial letal de um bom tênis de lona.

Os odores que exalam dos pés estão relacionados ao ambiente quente e úmido que se forma dentro do sapato. Para controlar o chulé, use meias de algodão e sapatos feitos de materiais que facilitem a transpiração. Periodicamente, coloque sua palmilha e os tênis em um carrinho de bebê e leve-os para um agradável banho de sol - isso ajuda a eliminar alguns inquilinos indesejáveis, como fungos e bactérias. Se quiser optar pelo supra-sumo da sofisticação, compre um talco próprio para calçados e aplique à noite.

MAU HÁLITO

Se você se acha um conquistador nato, saiba que o que as mulheres observam mesmo é seu estado geral de higiene – e suas nádegas. Nada de bíceps de 50 cm ou abdome tanquinho: sapatos asseados, barba feita, uma roupa que pareça limpa e bons dentes são suas principais ferramentas de sedução. Mas bons dentes com mau hálito podem comprometer todo o pacote.

Apesar de escovar corretamente os dentes ajudar a prevenir cáries, a escovação pode no máximo disfarçar um pouco o mau hálito. O problema, na verdade, costuma estar escondido na língua, na garganta ou no estômago – não nos dentes. As bactérias presentes nessas regiões produzem compostos sulfurosos e, quando em excesso, podem dar ao seu bafo um toque acebolado com pitadas de alho. Escovar sua língua não irá eliminar estes compostos sulfurosos, mas beber bastante água durante o dia e utilizar soluções apropriadas para enxaguar a boca sim.

SUOR EXCESSIVO

Algumas pessoas suam aos menores esforços como tivessem saído de um dilúvio. Na maioria dos casos, o suor excessivo é traço genético hereditário, mas eliminar seus pais ou a família inteira não resolverá o problema. Converse com seu médico de confiança para excluir a possibilidade de problemas na tireóide, nos níveis sangüíneos de açúcar, alterações cardíacas e outros transtornos com manifestações parecidas.

Nos casos extremos, podem ser indicados procedimentos cirúrgicos para diminuir o suor nas palmas das mãos ou mesmo injeções periódicas de botox – essas injeções são capazes de paralisar as glândulas sudoríparas da região tratada por 6 a 12 meses.

BOLINHAS VERMELHAS

Aquelas pequenas bolinhas vermelhas que surgem nas nádegas, nas coxas e nos braços podem ser um problema denominado ceratose folicular. A ceratose é causada pela formação de pequenas rolhas endurecidas nas aberturas dos poros. As rolhas causam a retenção da secreção sebácea podendo formar lesões semelhantes a espinhas que, algumas vezes, podem inflamar e deixar manchas residuais.

Apesar de não existir um tratamento definitivo, uma boa loção ou creme pode ajudar a controlar o problema. Também é recomendável evitar roupas apertadas, tecidos sintéticos e aplicação de produtos cosméticos gordurosos nas áreas afetadas.

PELE OLEOSA

O excesso de oleosidade da pele pode estar relacionado à dieta, hereditariedade, níveis hormonais, gravidez, uso de contraceptivos orais, cosméticos, calor e umidade. Apesar daquela aparência permanente de atendente de lanchonete, existe uma vantagem: a pele oleosa envelhece mais lentamente que outros tipos de pele.

Um cuidado extra com a higiene, lavando os locais mais afetados com água morna e sabonetes neutros, duas ou três vezes ao dia, será suficiente para manter sua pele saudável. Mas atenção: evite produtos químicos muito fortes ou lavar com frequência exagerada. Isso irá apenas estimular a pele a produzir mais óleo.

DENTES AMARELOS

Fumar e consumir bebidas escuras em excesso (p.ex.: café, chá, refrigerantes a base de cola e vinho vermelho) podem alterar a coloração do esmalte dentário. E quanto mais tempo as manchas permanecerem nos seus dentes, mais difícil será retirá-las de lá. Pastas de dente contendo peróxido de carbamida ou sílica hidratada podem ajudar, mas os resultados mais dramáticos são obtidos através de tratamentos odontológicos especializados.


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Formado em Medicina pela Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, com especialização em Cirurgia Geral pela Fundação Educacional Lucas Machado (Belo Horizonte/MG), o médico capixaba Alessandro Loiola vem atuando há mais de 10 anos como desenvolvedor de conteúdo científico para jornais, revistas, canais de televisão e Internet. Palestrante, autor de vários livros sobre saúde e centenas de artigos publicados no Brasil e no exterior, Dr. Alessandro pode ser encontrado como colunista e colaborador em milhares de páginas na Web. Atualmente, reside e clinica em São José dos Campos, São Paulo.

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10 abril 2010

A VACINA CONTRA H1N1: NOTÍCIAS DIRETO DO ÚBERE DE BLOSSOM

© Dr. Alessandro Loiola


Era uma fresca manhã de 14 de maio de 1796 quando o médico inglês Edward Jenner pegou o menino James Phipps e arranhou e bezuntou seus braços com secreções purulentas colhidas das mãos de uma ordenhadeira chamada Sarah. Sarah havia recentemente contraído uma forma de varíola bovina das tetas de sua vaquinha predileta, Blossom. E Blossom, ruminando serena, nem sabia o que eram varíola ou tetas, tampouco que ela própria era um bovino.

E então James, de apenas 8 anos de idade, adoeceu, teve febre, sentiu-se mal por alguns dias e recuperou-se. Mas isso não foi suficiente para Jenner. Após alguns dias, ele investiu novamente sobre o menino (cientificamente falando, claro), sentando-lhe uma dolorosa injeção de material fresco de varíola humana. Afora a picada, o menino nada sentiu ou desenvolveu. Ele havia se tornado imune à varíola – o equivalente atual a ser imune ao HIV.

A experiência bizarra de Jenner poderia ser classificada como algo entre o desumano e o neonazista – ou ambos -, mas sua audácia resultou em um avanço que salvaria mais vidas que qualquer outra descoberta médica na assombrosa história da humanidade. Utilizando camponeses como porquinhos da Índia, Jenner havia descoberto a vacinação.

Quase 3 séculos mais tarde, somos assolados por uma nova epidemia. Desta vez, uma mutação do banal vírus da Gripe. Sim, banal. Perto de uma garrafa de cerveja, o influenza H1N1 é um iniciante: calcula-se que o H1N1 tenha ceifado cerca de 15 mil vidas no ano passado, em todo o mundo. No mesmo período e local, pelo menos 2,3 milhões de pessoas morreram devido a problemas relacionados ao consumo de álcool - e você não tem um ataque de pânico ao ver uma garrafa de Chivas, tem?

Ah, sim: segundo dados da OMS, a cada ano o trânsito causa mais de 1 milhão e duzentas mil mortes e o Fumo, cerca de 5.000.000 de óbitos. Se você conhece algum tabagista que dirige, providencie agora mesmo uma coroa de flores para ele. Quem sabe comprando adiantando você consegue um bom desconto.

Por causa da burrice generalizada... perdão, deixe-me corrigir: por causa das agendas equivocadas, da incapacidade institucionalizada e da corrupção hereditária, nosso governo vai investir uma senhora grana na aquisição e distribuição de mais de 100 milhões de doses da vacina contra H1N1. Pilhas e pilhas e pilhas de notas de reais investidos em uma campanha nacional de seringa-marketing. Tsc, tsc.

Quer melhorar a saúde da população? Então que tal não deixar faltar remédio para hipertensão no posto saúde e acompanhar de perto todo e qualquer hipertenso? Afinal de contas, a hipertensão arterial é responsável por mais de 7 milhões de mortes prematuras a cada ano.

Mas tudo bem. Isso combina como uma luva com a estratégia de saúde de um (des)Governo que criou com pompas e circunstâncias o Fome Zero, destinado a aplacar a desnutrição de 18 milhões de brasileiros – e pouco fez para controlar o excesso de peso que atinge outros 70 milhões de patrícios. Temos 3 gordos para cada 1 desnutrido e querem distribuir mais comida. Tá certo. Nada contra. O faturamento do meu consultório agradece.

Minha pirraça com esta campanha de imunização contra o H1N1 reside na sinistra rapidez com que uma vacina de massa foi desenvolvida e prontamente disponibilizada à população. Os primeiros casos de H1N1 foram detectados em abril de 2009 e menos de um ano depois já temos uma vacina “absolutamente segura e eficaz”? Hum... sei não... vou perguntar pro Papai Noel, pode?

Em 1999, uma vacina infantil “altamente eficiente” contra rotavírus foi rapidamente retirada do mercado nos EUA: após 14 meses de vacinações, as estatísticas mostraram que a RotaShield aumentava de modo significativo o risco de intussuscepção – um tipo de obstrução intestinal potencialmente fatal.

Até hoje, corre solta a discussão se o aumento nos casos de autismo observado nas últimas décadas não estaria relacionado ao timerosal, um conservante presente em muitas vacinas. A pressa é inimiga da perfeição – e vizinha do superfaturamento.

Uma (excelente) revisão recente da Cochrane Collaboration, envolvendo mais de 70 estudos científicos de qualidade, concluiu que nem mesmo a vacina contra gripe comum possui evidências concretas sobre sua eficácia em pessoas com mais de 65 anos de idade. Que dirá a vacina para o H1N1.

A princípio, espera-se que uma vacina cause menos efeitos que a doença contra a qual ela oferece proteção. Mas esses dados ainda não estão disponíveis para a vacina contra o H1N1. Os próprios especialistas americanos, do CDC, do FDA e do Departamento de Defesa estão vigilantes para identificar quaisquer eventuais efeitos colaterais. “Podem ocorrer alguns efeitos adversos, algo poderia acontecer, mas nós acreditamos que isto é altamente improvável”, disse o especialista Dr. Mark Mulligan, diretor executivo do Emory Vaccine Center, em Atlanta (EUA).

Como é que é? Eles “acreditam” que um efeito colateral é altamente improvável? É alguma procissão de fé? Chama o Papai Noel aí de novo.

Eu muito modestamente creio que um programa direcionado para a melhoria das condições sanitárias e nutricionais da população possuiria uma relação de custo-benefício bem superior a certas campanhas de vacinação. Por exemplo: por que não substituir a campanha anual de vacinação contra gripe por um programa sazonal orientando a população a utilizar suplementos de vitamina D3?

Ao contrário da vacina, a vitamina D3 oferece uma proteção quase universal contra o Influenza. Além disso, em doses maiores, a D3 pode ser capaz de curar a gripe.

Lamentavelmente, a mentalidade feudal de Edward Jenner prevalece. Seu legado intelectual pode ser insubstituível, mas não tenho vocação para cobaia. Entre as injeções contra H1N1 e o estábulo, ainda prefiro o úbere de Blossom.

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Se a curiosidade lhe mordeu, recomendo então mais alguns links para artigos sensatos sobre H1N1 e a milagrosa vacina:

- Pandemia de gripe ou pandemia de pânico? - http://www.channel4.com/news/articles/science_technology/pandemic+flu+or+pandemic+panic/3279557

- Uma gigantesca indústria aguarda pela pandemia - http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,637119,00.html

- O que nós realmente sabemos sobre a vacina?
http://www.theglobeandmail.com/news/opinions/what-do-we-know-about-the-vaccines-safety-not-enough/article1242422/

- Estudo de Vigilância Epidemiológica na Austrália conclui: não existem evidências mostrando proteção significativa da vacina contra gripe em qualquer faixa etária. http://pesquisa.bvsalud.org/h1n1/resources/mdl-19660248

- Entrevista com Dr. Tom Jefferson, renomado epidemiologista do Cochrane Collaboration Group - http://blogs.ft.com/healthblog/2009/09/11/interview-dr-tom-jefferson-and-pandemic-flu-vaccines/

30 março 2010

A MAIOR INVENÇÃO DE TODOS OS TEMPOS

© Dr. Alessandro Loiola


Existe uma frase marcante creditada a Albert Einstein que diz mais ou menos assim: “Toda a nossa ciência, quando comparada à natureza, é absolutamente medíocre – e ainda assim, esta mesma ciência é a coisa mais preciosa que temos”.

Construímos prédios majestosos e computadores poderosíssimos, enviamos sondas para outros planetas e prolongamos a vida com vacinas e antibióticos, mas realmente nada se compara a uma das invenções mais extraordinárias da natureza: o cérebro humano.

Enquanto fiscaliza e organiza incontáveis funções do corpo, essa massa esponjosa que você tem bem aí entre suas orelhas analisa informações do meio externo, processa memórias, elabora raciocínios, cria pensamentos abstratos, descobre soluções e, nas horas de descanso, sonha. Ele nunca pára.

Ao nascer, o cérebro de um bebê tem por volta de 350g e, apesar do número de células cerebrais permanecer relativamente estável ao longo de nossas vidas, estas células aumentam de volume e passam a fazer mais conexões entre si com o passar do tempo. O cérebro de um humano adulto médio pesa cerca de 1,3 a 1,4 Kg, sendo 80% deste peso constituído por água pura.

Existem 2 tipos principais de células no cérebro: as células gliais e os neurônios. Ao contrário dos neurônios, que não se dividem, as células gliais se multiplicam acompanhando o crescimento do corpo, oferecendo sustentação, nutrientes e oxigênio para os neurônios.

As estimativas mais conservadoras dizem que temos entre 80 e 90 bilhões de neurônios dentro do crânio, e cada um desses neurônios estabelece cerca de 1.000 a 10.000 conexões com neurônios vizinhos. Em termos eletrônicos, se considerarmos que cada conexão neuronal corresponde a 1 bit, o resultado da capacidade de processamento de dados do cérebro totaliza impressionantes 100 trilhões de bites.

Indo mais além, imagine que cada “bit” cerebral, cada ligação entre os neurônios, corresponda a dois estados mentais diferentes. Por exemplo: quando ligada, uma determinada conexão neuronal seria igual a “acordado”, e quando desligada, igual a “dormindo”.

Para cada conexão (cada bit), teríamos 2 estados mentais diferentes: ligado e desligado, certo? Certo. Então, o número de estados mentais possíveis para um cérebro humano saudável seria igual a 2 (correspondendo às duas configurações possíveis para cada bit) elevado a potência de 100 trilhões (equivalente ao número de bites cerebrais). Este número inimaginavelmente enorme é bem maior, por exemplo, que o número total de átomos no universo. E os impulsos bioelétricos que passam por essas conexões transitam a mais de 300 km/h!

Sem dúvida alguma, existem estados mentais que jamais foram experimentados ao longo de toda nossa história evolucionária, idéias incríveis esperando por um relance, idéias que poderiam mudar o curso de nossa espécie neste planeta. A partir desta perspectiva, cada ser humano passa a ser único e raro, e considerar a vida como algo verdadeiramente sagrado começa a fazer algum sentido.

Considerando todo este potencial, não admira que o cérebro, representando apenas 2% do peso corporal, utilize 20% de todo o suprimento de sangue e oxigênio do organismo. Para manter seu prodígio neuronal sempre afiado é preciso exercitá-lo com freqüência, e um modo bem divertido de fazer isso é aprendendo coisas novas o tempo todo e utilizando a curiosidade para aguçar o raciocínio.

E por que deixar para depois? Comece agora mesmo a exercitar sua mente com uma brincadeira bem simples: descubra por si só ou com a ajuda de amigos as respostas para as perguntas a seguir. A solução está no final, mas não vale trapacear!

1. Você tem dois jarros cheios de água. Como poderia passar toda esta água para um só barril sem utilizar os jarros ou qualquer outro recipiente, e ainda assim ser capaz de dizer qual água veio de qual jarro?

2. O que é preto quando você compra, vermelho quando usa, e cinza quando joga fora?

3. Você é capaz de dizer o nome de 3 dias consecutivos da semana sem utilizar números ou as palavras segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado ou domingo?

4. O que é mais inusitado no seguinte o texto: “Cultivemos nosso polifônico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, escrínio de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores. Honremos o que é nosso, ó moços estudiosos, escritores e professores! Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos, berço de heróis e de nobres descobridores de mundos novos”.



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Funções das partes do cérebro

Lobo Frontal - Comportamento, pensamentos abstratos, solução de problemas, atenção, criatividade, algumas emoções, intelecto, reflexão, julgamento, iniciativa, inibição, coordenação de movimentos, alguns movimentos dos olhos, olfato, algumas habilidades motoras, reações físicas e libido.

Lobo Occipital - Visão e leitura.

Lobo Parietal - Tato, capacidade de identificar objetos segundo sua forma (estereognosia), resposta a estímulos internos (propriocepção), combinação entre estímulos sensoriais e compreensão, algumas funções da linguagem, da leitura e da visão.

Lobo Temporal - Audição, memórias (auditivas e visuais), música, medo, fala, linguagem, comportamento e emoções, sentimento de identidade.

Hemisfério direito - Controla o lado esquerdo do corpo, responsável pela relação temporal e especial, análise de informações não-verbais, comunica as emoções.

Hemisfério esquerdo - Controla do lado direito do corpo, produção e compreensão da linguagem.

Cerebelo - Equilíbrio, postura; possui centros de controle para funções cardíacas, respiratórias e vasomotoras.

Tronco cerebral - Centro motor e sensorial para o corpo e a face; possui centros de controle para funções cardíacas, respiratórias e vasomotoras.

Hipotálamo - Estado de humor, motivação, maturação sexual, regula temperatura corporal e vários processos de produção hormonal.

Hipófise - Regula processos de produção hormonal, crescimento e maturação física e sexual.

***

Respostas para o Quiz



1. Congelando a água primeiro.
2. O carvão.
3. Ontem, hoje e amanhã.
4. Este texto não possui uma única letra A, que é a letra mais comum no Português. A ordem de freqüência de ocorrência das letras em português é a seguinte: A E O S I R N D T C M U P L V G B F Q H J X Z K W Y. No inglês, a letra E é a mais comum.

11 março 2010

UM BRINDE AO DIA DEPOIS DO OUTRO

© Dr. Alessandro Loiola


Por gerações a perder de vista, os incontáveis povos que já passaram pela superfície no nosso planeta-grão-de-poeira adoravam eleger datas festivas para comemorar o que quer que fosse. Isso é uma coisa tão prevalente que me atrevo a dizer que somos o produto de milênios de seleção natural de ancestrais baladeiros e festeiras.

Por exemplo: os hindus têm um tal de Festival das Cores, para celebrar a germinação das sementes e a nova colheita que virá com a primavera. Tudo muito bonito, sincronizado com as fases da Lua, os primeiros dois dias todo mundo comportado, rezas, ladainhas, adorações, coisetal. E então, no terceiro dia… “loucura, loucura, loucura!”, como diria o Sr. Luciano “o Incrível” Huck. O festival vira festival mesmo e o bicho pega.

Um pouco pra cima da Índia, os chineses não fazem por menos. A partir da metade de setembro e até por volta da primeira semana de outubro, eles comemoram o Festival do Bolo Lunar, uma tradição com mais de 3.000 anos que celebra a derrota dos invasores mongóis. E segue-se um troca-troca sem fim de pequenos bolinhos adocicados em formato de Lua cheia. Quer dizer, eles dizem que tem formado de Lua cheia. Pra mim, é formato de bolo mesmo.

Os chineses são mestres em celebrações. Quem manda? Com 1,3 bilhões de pessoas, eles têm o próprio planeta deles por lá. Tanto é que o Ano Novo Chinês é comemorado entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro. Ouvi falar que a tradição é soltar fogos de artifício, limpar a casa, sujar a rua com pequenos pedaços de papel vermelho e fazer muita comida, especialmente os Yau Gowk, bolinhos que simbolizam prosperidade.

Bolinhos chineses novamente. Fico imaginando o que esse povo tem com bolinhos. Deve ser algum fetiche. Sei lá.

Os muçulmanos comemoram o ano novo no meio do nosso ano. O ano novo judaico, chamado Rosh Hasanah ou a “festa das trombetas” (imagine a alegria dos vizinhos...), acontece um pouco mais tarde, em setembro. Os coreanos, mais animados, comemoram 2 anos novos: um baseado no calendário ocidental e o Seol Lal, baseado no calendário lunar chinês.

A primeira notícia que se tem de comemoração do Ano Novo no dia 1º de janeiro vem dos idos do imperador Julio Cesar, em 46 a.C, mas a data seria adotada pela cristandade apenas em 1582, com a oficialização do calendário gregoriano – que nos rege até hoje.

A celebração do Ano Novo marca um evento bastante simples e pouco altruísta: como nas demais festividades de todos os povos em todos os tempos, estamos celebrando nada mais, nada menos, que nossa própria sobrevivência.

Sobrevivemos a mais um giro, você completou mais uma volta. Ainda estamos aqui. Bata no peito, grite bem alto, levante sua taça – afinal, o ano se foi e você ficou! Agora, graças ao renascimento do calendário grudado na porta da geladeira, você poderá fazer novamente todas suas velhas promessas.

Celebrar a sobrevivência, apesar de previsível, não deixa de ser louvável. Nossos ancestrais miúdos, as amebas, vivem apenas dois dias. Uma miséria. Um glóbulo vermelho do seu sangue vive no máximo 120 dias: uma hemácia nascida no verão, provavelmente irá desaparecer antes do cair da primeira folha de outono. Pouquíssimas terão a oportunidade de conhecer o barulho de uma rolha de espumante.

Mesmo quando comparados a outros mamíferos, somos uma espécie longeva: um coelho vive apenas 10 anos. Gatos e cachorros, no máximo uns 18 anos. Gorilas e chimpanzés, cerca de duas reles décadas. Nós? Vivemos uma média de 75-80 anos. Faz sentido comemorarmos coletivamente cada um deles.

Mas eu iria além. Se estas festas de todos os dezembros marcam nossa sobrevivência ao longo do velório do ano velho e o trabalho de parto do próximo, porque não celebrar mais frequentemente a sobrevivência? Celebrar a imensa felicidade de acordar e desfrutar mais uma vez o mundo e as pessoas. Quer dizer, nem todas as pessoas, apenas algumas pessoas. Bem poucas, pra falar a verdade. Mas elas estão por aí e merecem um alô.

Será que temos essa inteligência suficiente para comemorar o cotidiano? Festejar a beleza elegante da evolução, a serenidade da sabedoria e o milagre absurdo que se esconde no simples fato de estarmos aqui, prestes a declarar o imposto de renda outra vez?

Considerando que o ano novo é a simples realização de que estamos vivos, porque não exaltar cada novo dia? Sim! Cada raiar do sol esconde um novo ano particular, uma oportunidade única para você refazer os cacos e juntar o todo. Que feliz ano novo que nada! Apesar da paganice, da receita federal e dos argentinos, desejo mesmo a você e toda sua família um Feliz Dia Depois do Outro! E outro. E outro. E outro. E sempre. Saúde!

12 fevereiro 2010

CORAÇÃO DE MULHER

Dr. Alessandro Loiola


- O negócio é o seguinte: mulher é um bicho complicado. Um bicho muito complicado!... - estava começando meu almoço e o amigo/conhecido, recentemente moído por uma experiência sentimental mal-sucedida, sentou-se descascando sua laranja:
- ... Pra você ter uma idéia, concluí que mulher não gosta de homem. Mulher gosta de dinheiro, sapatos de salto alto, cartão de crédito sem limite... nem de falar de homem, mulher gosta. Elas gostam mesmo é de falar de outras mulheres.
- Hum... ?
- É isso aí. Vá até uma banca, procure revistas para homens. O que você espera ver? Fotos de mulheres. Mulheres com roupa, mulheres sem roupa, mulheres com carros, mulheres na praia, mulheres em todo canto... e uma ou outra foto de um sujeito com cara de Zé fazendo alguma coisa pouco interessante. Agora, procure por revistas voltadas para mulheres. O que você verá?
- Nem imagino... – respondi lacônico, enquanto tentava decifrar porque o arroz tinha gosto idêntico ao da batata cozida. Esse sabor unânime da comida de hospital sempre foi um mistério para mim.
- Pois eu lhe digo: você verá a mesmíssima coisa ! Algumas vezes a revista traz “dez técnicas para acabar com a celulite”, “20 maneiras para vencer suas rugas”, ou “30 dicas quentes para estar na moda neste inverno”, mas no bojo, é tudo igual. Só tem mulher em revista de mulher.
- Olha, de repente se você trocar de revistas...
- Não adianta. Nós só pensamos em mulheres. Elas, idem. Mulheres... ô bicho complicado !

Realmente, entender as mulheres é tarefa para poucos profissionais. No meu caso, me considero no máximo um amador genuinamente interessado. Ainda assim, fui pesquisar para ver se o amigo de cotovelo quebrado possuía alguma razão. Terminei deparando com um outro fato interessante: a absoluta escassez de textos sobre problemas cardiovasculares nas publicações que se dizem voltadas para o ex-sexo frágil.

Páginas, entrevistas e testemunhos sobre AIDS, câncer, menopausa e infidelidade sobram para todo lado, mas pouco se fala sobre a saúde do coração feminino. Saúde orgânica, entenda-se. Apenas nos EUA, mais de 260.000 mulheres morrem anualmente vítimas de ataques cardíacos, um número 5 vezes maior que as mortes causadas pelo câncer de mama.

As mulheres possuem um risco de complicações mais de duas vezes maior que os homens quando se trata de doenças do coração. O motivo? Os sintomas raramente são típicos, provocando atrasos graves na detecção e tratamento do problema.

Dormências no pescoço, dores no meio das costas ou na região do queixo, fôlego
curto, vertigens, náuseas e vômitos podem sinalizar distúrbios cardíacos nas mulheres. Entretanto, como estas manifestações não costumam ser associadas imediatamente a problemas no coração, o diagnóstico correto demora a ser feito, aumentando a incidência de fatalidades.

Para cuidar melhor do seu coração, toda mulher deveria ter na ponta da língua 3 recomendações simples:

1. CONHEÇA SEUS RISCOS. O uso simultâneo de cigarro e pílulas anticoncepcionais aumenta consideravelmente o risco de ataques cardíacos e derrame. A terapia de reposição hormonal, indicada em alguns casos de menopausa, também pode aumentar suas chances de infarto. Converse com seu médico.

2. ATENÇÃO PARA SINTOMAS POUCO SUSPEITOS. Ao invés da clássica dor tipo aperto no lado esquerdo do peito, mulheres que sofrem de doenças do coração tendem a se queixar de dores nos braços, pescoço, costas ou boca do estômago, associadas a palpitações, suores e vertigens. É lógico que estes sintomas podem ocorrer em inúmeras outras situações, mas não deixe de pensar que eles também podem significar problemas no coração. Aja rápido.

3. FAÇA SEU DEVER DE CASA. pratique regularmente uma atividade física para manter a pressão arterial em 120/70. Trinta minutos de caminhada rápida pelo menos 3-4 vezes por semana, se possível temperados com exercícios de alongamento, meditação e controle da respiração, são uma boa ajuda neste sentido.

Siga uma dieta saudável capaz de elevar o colesterol bom (HDL) acima de 50 mg/dL e segurar os níveis de triglicerídios abaixo de 150 mg/dL.

E, finalmente, se quiser voltar ao seu peso ideal perdendo de uma só vez 80 Kg de gordura inútil, despache seu marido ou namorado para tirar uma foto de um iaque no Tibet. Porque, olha: homem é um bicho complicado. Um bicho muito complicado.

16 dezembro 2009

ENGORDANDO SEM COMER

© Dr. Alessandro Loiola


Das dezenas de e-mails com dúvidas que recebo diariamente, alguns assuntos se sobressaem. Problemas de relacionamento e “será que estou grávida?” são campeões de bilheteria. Perguntas sobre estética também chegam em montes cada vez maiores.

Por ser um ardoroso defensor do raciocínio, não consigo me dar ao luxo de ser conivente com essa Ditadura da Beleza que estipulou quanto você deve medir e pesar, número máximo da sua calça, o volume mínimo do seu silicone, a periodicidade do botox, etc.

Qual o objetivo de toda essa esquizofrenia? Partir deste mundo com toda saúde e elegância?
- Nossa, ele estava um defunto lindo de morrer! – dirão no seu enterro.
No meu velório, o único comentário que espero ouvir será
- Ih, olha lá, acho que ele está se mexendo! - e só.

Para preservar sua saúde e garantir alguma qualidade de vida na vida que lhe resta, alguns limites devem ser respeitados, mas sem psicoses. Acredite: os corpinhos da São Paulo Fashion Week não irão durar até o retorno do cometa Halley, por melhor que seja o corte do terno ou o tecido do vestido. Contudo, nesse dia, alguns daqueles cérebros sofisticados (?) talvez ainda estejam por aqui. Fazendo o quê, são outros 500.

Na categoria de e-mails sobre estética, existe uma fila de cartas relatando o fatídico “estou engordando sem comer”. Algumas dessas pessoas realmente parecem estar ganhando alguns quilos sem motivo aparente. Se elas estão sendo sinceras, então o que pode estar acontecendo? É possível ganhar peso sem comer muito? Não é muito comum, mas pode acontecer. Por exemplo:

1. VOCÊ ESTÁ ENGORDANDO PORQUE NÃO ESTÁ DORMINDO DIREITO.

O sono inadequado aumenta o estresse sobre o corpo. Como resultado, no nível das enzimas e moléculas, o organismo aumentará suas reservas de gordura como alguém que guarda um dinheiro para uma eventual emergência.

Além das alterações bioquímicas, pessoas com um sono irregular tendem a comer porcarias como uma forma de compensar o desgaste adicional. Os principais sintomas que sono insuficiente incluem sensação de desânimo ao longo do dia, dores de cabeça persistentes, irritabilidade e pavio curto por conta de nada.

2. VOCÊ ESTÁ ENGORDANDO POR CAUSA DO ESTRESSE.

Se o sono está de bom tamanho, o mesmo mecanismo de ganho de peso pode estar sendo desencadeado pelos altos níveis de estresse a que você se submete no dia a dia. O estresse altera os hormônios que regulam o modo como seu corpo lida com as calorias ingeridas e os depósitos de gordura, facilitando o desenvolvimento da obesidade.

3. QUEM SABE, OS REMÉDIOS.

Algumas medicações utilizadas para tratar depressão, distúrbios do humor, epilepsia, enxaqueca, pressão alta e diabetes podem resultar em ganho de peso. Se esta é a sua suspeita, converse com seu médico sobre alternativas viáveis antes de ter alguma idéia pouco inteligente como, por exemplo, parar com os remédios por conta própria.

4. A CULPA PODE ESTAR NO HIPOTIREOIDISMO.

Esta doença caracteriza-se pela diminuição ou interrupção completa da produção de hormônios na glândula tireóide. Felizmente, o diagnóstico e o tratamento do hipotireoidismo são relativamente fáceis, e todo o excesso de peso ganho com a doença tende a ir gradativamente embora com a reposição hormonal.

5. A BENDITA DA MENOPAUSA.

As alterações hormonais que ocorrem durante a menopausa mudam o formato do corpo da mulher: os quadris diminuem e o tecido gorduroso tende a se depositar na região do tronco e do abdome, conferindo aquele gracioso formato em barril também observável em muitos homens após a meia-idade.

A saída: mantenha a estabilidade do seu peso com uma dieta saudável e pratique regularmente atividades físicas.

6. OU ENTÃO É FALTA DE VERGONHA MESMO.

A maioria das pessoas que engordam diz que não come demais. Concordo. Não é preciso comer demais para engordar. Tudo que você precisa fazer é comer errado, e isso é bem fácil.

Portanto, antes de sair culpando emprego, colchão ou ovários, faça um diário detalhado de tudo que você anda comendo. Tomou café? Anote no diário. Colocou tantas colheres de arroz e outras tantas de feijão no prato? Anote. Beliscou um biscoito? Anote. Estava andando na rua e engoliu um inseto? Anote também.

Tenha disciplina e sinceridade ao fazer suas anotações. Com exceção da saliva, tudo mais que passar pelo esôfago deve constar neste caderno. Ao final do dia, não se surpreenda com o imenso valor calórico depositado no seu estômago. Sorria, receba as boas-vindas ao clube e trate de fazer as modificações necessárias em sua dieta.

20 novembro 2009

EM BUSCA DA ESTABILIDADE

© Alessandro Loiola




Vem se tornando mais comum a cada dia no consultório: pessoas infelizes e angustiadas porque não conseguem atingir a estabilidade. Querem casar, querem descasar. Querem um emprego, não querem mais o emprego. Querem tudo, não querem coisa alguma. Enveredam em uma cruzada de matéria e anti-matéria e terminam se perdendo em um mundo de ansiedade cega e, porque não dizer, completamente burra.

Desabam em um penhasco de desânimo porque queriam finalmente chegar em um porto de estabilidade, um mar sereno de coisas tranquilas, mas este destino é como o fim do arco-íris: quanto mais você persegue, mais ele se distancia.

- Por que nada parece dar certo, doutor? – e chora.

Fico pensando. Ofereço um lenço ou um daqueles chapéus bicudos dos filmes americanos escrito “donkey”?

Tsc tsc. Nada dá certo? Um brinde a todas as outras oportunidades que podem dar certo! A estabilidade nunca chega? Um brinde enorme ao fato de que tudo muda! Até porque, se você é daqueles que acha que só será feliz quando atingir a estabilidade, deixe-me lhe dizer algumas coisas:

A cada 3 meses, 10% do seu esqueleto se renova. Isso significa que, daqui a uns 3 anos, esses ossos que você tem aí não estarão mais aí. Serão outros ossos. Esses que sustentam seu corpo enquanto você lê este texto, bom, esses ossos serão um esqueleto do passado, urinado pelo seus rins e excretado em outros sais minerais nas suas fezes. Uma instabilidade contínua que se transforma em estabilidade cálcica e voilá!, você está andando. Andando e carregando uma pele que se renova a cada 30 dias, nutrida pelo sangue instável, que é trocado a cada 120 dias, mais ou menos.

Estabilidade?

Você está em um planeta que gira sobre seu próprio eixo mais rápido que a velocidade do som (1.669 km/h versus 1.200 km/h), enquanto brinca de pique correndo em torno do sol a inacreditáveis 100.000 km/h!

A matéria que constitui os planetas e estrelas responde por menos de 5% de toda a matéria no universo. Esta mesma matéria foi configurada para formar você, um aglomerado de moléculas baseadas em carbono que irá durar (estatisticamente) menos de 1 século.

Dentro deste século, você experimentará a tristeza, a fome, o ódio, a inveja e a arrogância, mas também tocará e será tocado pela alegria, pela satisfação, pelo amor, pelo conhecimento e pela generosidade. O animal que nós somos, não durará muito. Dentro de 150 anos, quem ainda recordava de nossa passagem por aqui também terá desaparecido, e a imensa maioria voltará para o limbo de esquecimento onde sempre esteve. Onde está a estabilidade?

Você não gosta de seu emprego desgastante mas prefere continuar nele porque lhe dá estabilidade? Ótimo. Assim você vai poder contar com uma renda fixa quando precisar cuidar daqueles problemas de saúde causados pelo desgaste no serviço estável. O mesmo vale para alguns casamentos.

Afinal de contas, quem disse que você tem que ser apenas uma única coisa a vida inteira? Se um dia não puder exercer sua profissão ou tiver que colocar uma pedra sobre aquele relacionamento, encare como um conselho de que seu papel neste filme acabou e é hora de viver um novo papel em uma nova película, quiçá mais divertida, engrandecedora e construtiva.

Acima de tudo, jamais venda sua consciência e motivação em troca de estabilidade. Não permita que a busca pela felicidade ideal deixe seus olhos cegos para toda a beleza que existe à sua volta.

Viva apenas com o mínimo (saudável) de medo, aproveite cada fração de cada segundo respeitando alguns princípios da Lei, encante-se!, e seja tudo que você puder ser considerando as limitações de sua carne - não adianta querer virar profissional da NBA tendo 1.60m de altura, mas existem bilhões e bilhões de coisas que você pode fazer neste mundo. Faça-as ontem! Faça-as todas.

08 novembro 2009

A PARÁBOLA DO SISTEMA ÚNICO DE STUPIDEZ

Olá,

Houve uma época, há coisa de uns 10 anos, em que eu dedicava domingos inteiros (e muitas vezes outros dias da semana, até de madrugada) para operar completamente de graça pacientes do SUS. De graça mesmo, não recebia produtividade, “por fora”, nadica de nada. Acredite se quiser.

Por amizade de meu pai, pediatra, possuía um acordo de cavalheiros com Dr. Zaganelli, Diretor de um hospital público de Vitória (ES), que muito humanamente permitia que eu levasse para o hospital de sua instituição pacientes atendidos por mim no Centro de Especialidades. Me condoia atender aqueles pacientes com indicação cirúrgica e simplesmente retorná-los com o diagnóstico, porém sem uma saída. Muitos eram do interior do estado, pobres, quase miseráveis, e apenas com muito custo entendiam o que eu lhes explicava acerca da moléstia que os afligia.

A equipe de apoio era espetacular e permanentemente prestativa - que o diga o Cléber, então técnico de enfermagem, sempre um grande filósofo e hoje catedrático de respeito, que inúmeras vezes me honrou com seu auxilio no campo cirúrgico. Assim como eles, muitos, muitos outros.

Bons tempos. Mas hoje, me sinto vencido pelo SUS. Logo eu, fico pensado, que imaginava ter dois tumores no cérebro: um secretor de idéias, outro produtor de otimismo... Prefiro acreditar que os dois ainda estão lá, funcionantes. Apenas não querem mais perder seu tempo com algo tão imenso.

Imenso na burocracia, na estupidez. Inacabável na burrice. O SUS faz muito com tão poucos recursos. Mas poderia fazer mais. E poderia ser o que gostaríamos que fosse, se apenas o tratássemos (nós médicos, os governantes, gestores, cidadãos) com o valor e a inteligência apropriada.

Mas, ao invés disso, queremos financiar o SUS com migalhas e receber em troca manjares e pudins de leite condensado. Manuseamos o sistema com hipocrisia, como colher humanidade e desenvolvimento?

E se canto minha parábola, os que não me conhecem me acusam. Não os culpo. Eu deveria voltar com meus tumores àquela época, coisa de uns 10, 15 anos atrás, onde trabalhava tanto com os braços que os olhos não tinham tempo para enxergar à sua volta.

Envelhecer torna a gente mais consciente ou só mais rabugento? Qualquer que seja o caso, espero que seja uma boa leitura.

Um abraço,

Alessandro.


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A PARÁBOLA DO SISTEMA ÚNICO DE STUPIDEZ

© Dr. Alessandro Loiola


Era uma vez uma moça muito inteligente chamada Verdade. Toda vez que a Verdade chegava perto das pessoas, elas fugiam. Algumas até diziam preferi-la sempre à sua prima biscateira, a Mentira, comentavam como a Verdade era magnífica e necessária, mas ficar por perto? Não, não.

Então, certa noite, a Verdade sentou-se sozinha e desanimada na beira da calçada. E antes que algum passante mais atrevido sugerisse um programa (quem não gosta de apertar, torcer e fornicar com a Verdade?), uma senhora corcundamente idosa aproximou-se.
- Por que você está tão triste? – perguntou Dona Sabedoria.
- Ninguém gosta de mim. – chorou a Verdade.
A velha mediu a Verdade dos pés à cabeça, fez uma pausa e cravou:
- Mas também, olhe para você, veja só o seu estado...! Lastimável!

A bem da verdade, a Verdade não estava lá essas coisas. Talvez por acreditar que apenas sua luz interior fosse suficiente, ela nunca havia se preocupado muito com a parte de fora. O vestido sujo maltrapilho, o penteado dreadlock e aquele perfume estilo Moscas Ardentes do Boticário não eram realmente sedutores.

- Vamos fazer uma coisa: vou lhe apresentar uma amiga – aconselhou Dona Sabedoria. - Tenho certeza de que ela poderá lhe dar umas dicas.

E Dona Sabedoria e a Verdade foram até uma casa de massagem gerenciada por uma cafetina chamada Riqueza. A Riqueza era, por assim dizer, o bicho: por mais que ela se escondesse e esquivasse, os homens sempre estavam atrás dela – e algumas vezes por cima e por baixo também. A Riqueza sem dúvida alguma sabia das coisas.

- Eu não entendo... – questionou a Verdade, olhando com desdém para a Riqueza.- Você é fútil, volátil, passa de mão em mão sem criar laços, não cultiva respeito ou sentimentos. Afinal, o que os homens vêem em você?
- O que eles vêem em mim, querida? – disse a Riqueza, colocando o indicador com 3 cm de unha postiça vermelha no canto da boca. - O que eles não vêem em você, eu lhe digo. Mal acabada desse jeito, nem o inquilino do viaduto vai lhe dar uma cantada. Mas eu já sei o que fazer: vou lhe emprestar um vestido meu que é fatal. Tiro e queda, meu amor. Ele se chama Parábola.

E desde então, a Verdade tem conseguido se aproximar dos homens travestida de Parábola. A parábola não assusta, é engraçadinha e permite que a Verdade dê sua opinião. Entretanto, é só marcar aquela esticada no motel e tudo recomeça: ainda não existe um remédio para evitar o terror na frente da verdade nua e crua. A resposta para isso, nem mesmo a Sabedoria ou a Riqueza parecem ter.

E é com esse espírito altruísta em busca da Verdade que abrimos o champanhe para comemorar os 20 anos do SUS – ou Sistema Único de Stupidez, como costumo chamar, pedindo perdão pela transgressão da língua no último verbete, mas imprescindível para sustentar a sigla. O SUS é fruto daqueles surtos psicóticos que nossos governantes tem quando acham que vivem em um planeta com recursos ilimitados.

No papel, o SUS é belíssimo. Na prática, é de uma patetice sem tamanho. Em teoria, o SUS é um plano de saúde com cobertura em 100% do território nacional, oferecendo resgate e assistência clínico-cirúrgica em todas as especialidades 24h por dia, 7 dias na semana, além de pré-natal, puerilcultura, vacinas, tratamento oncológico e assistência odontológica sem glosas por pré-existência. Um plano assim, particular, se fosse Unimed ou Saúde Bradesco por exemplo, sairia em média a uns R$200 por cabeça, por mês. No mínimo.

Vamos fazer a contabilidade. Duzentos reais por cabeça por mês. Somos 200 milhões de brasileiros. Se o governo fosse de fato oferecer o que reza a Constituição (um plano de saúde top de linha com acesso universal), seria necessário um investimento de cerca de R$40 bilhões/mês (R$200 x 200 milhões de pessoas), ou R$480 bilhões/ano. E de quanto é o orçamento anual do SUS? R$35 bilhões/ano. Isso lá em casa dava até pra fazer uma festa, mas no universo do SUS... tsc tsc...

Se formos temperar a conversa com os desvios, os superfaturamentos, as prefeituras que instalam manilhas, compram lanche de escola e inauguram praças com verba da saúde, então é melhor nem pensar em colocar na ponta do lápis.

E se o governo fala em aumentar impostos para financiar o embuste, ops, perdão, financiar o SUS, a gritaria é geral. Melhor fazer reuniões e encontros e workshops e conferências intermináveis para saber como humanizar o inabitável, como pagar com um sorriso nos lábios e uma explicação estapafúrdia a conta que nunca fecha.

Para fazer o SUS engrenar, não precisamos de mais parábolas. Muito menos desse cordel de faz de contas. Para fazer o SUS engrenar, é preciso algo acima. É preciso muuiiito dinheiro e uma nação de homens (e mulheres) de Verdade, de preferência guiados pelas mãos da Sabedoria. Aí sim, teremos saúde. E qualidade de vida. E um país de Verdade, ao invés de futebol com carnaval para inglês ver.

Apesar dessa ser uma idéia boa e linda, acho que não vai rolar. Todo brasileiro sempre adia o encontro com a velha corcunda para passar antes no bordel da Riqueza, “pra dar aquela saideira, sacumé?”. Sei. Quem sabe depois, né? Quem sabe depois.

Eu vou estar esperando sentado na beira da calçada.

30 agosto 2009

A DOENÇA DO ESPORTE

© Dr. Alessandro Loiola


Se cada povo recebe o governo que merece, cada sociedade (e época) também tem as esquisitices que merece.

Por exemplo: nas cortes européias da Idade Média, camponeses, brutos, miseráveis e escravos trabalhavam ao ar livre. A aristocracia preferia a mordomia reclusa de seus palácios e roupas de muitas rendas. Por isso, naqueles tempos, os nobres possuíam a pele tão branca que era possível ver o desenho azulado das veias sob a cútis. Ter a pele alva e o “sangue azul” era sinal de riqueza. Hoje, brancura excessiva chega a significar doença, e mostrar um certo bronzeado dá status: se você tem tempo para passar à toa sob o Sol, então leva uma vida mansa e, provavelmente, tem mais dinheiro que a maioria...

No Século XVI, na Itália, as mulheres pintavam não apenas os lábios, mas também os dentes. No Século XIX, a última moda eram cílios postiços feitos de pele de rato e espartilhos tão apertados que chegavam a fraturar costelas. Na mesma época, na França, os homens casados usavam mais perucas e cosméticos que suas esposas.

Passa o tempo, algumas bizarrices se vão, mas outras logo assumem o posto. Como disse: se cada época caracteriza-se por certos critérios de excentricidade, por que haveríamos de fazer diferente com a nossa?

O Século XX testemunhou o avanço tecnológico virar prosperidade na mesa. Apesar da fome continuar assolando os países que sempre passaram fome, de um modo geral, onde havia comida, esta passou a estar disponível em um volume maior do que jamais seríamos capazes de ingerir. O resultado? Uma epidemia de obesidade e mortes por doenças cardiovasculares que assolou os 1900.

A resposta dos cientistas não tardaria, e eles logo encontraram uma saída: a prática de esportes. Exercícios físicos regulares melhoram o condicionamento cardiopulmonar e facilitam o controle dos quilos em excesso. Como não seria de surpreender, este conceito foi extrapolado exageradamente para as massas e presenciamos uma explosão de vida nas academias de ginástica e pistas de Cooper como não se via desde o período Cambriano. Todo mundo quer entrar em forma. Se não por vaidade, então por medo.

Mas até que ponto esporte é saúde? Temos tenistas jovens com quadris de senhoras osteoporóticas, jogadores de futebol com infartos fulminantes no início da carreira, triatletas que morrem afogados após colapsos, e um número infinito de lesões musculares, articulares e ligamentares em esportistas amadores e atletas de final de semana. Toda uma manada de gente catequizada sob o lema de que esporte é saúde.

Ver televisão não distende meu ombro. Caminhar pelo parque com minhas crianças não provoca desgaste coxo-femoral. Não tenho bursite por ler um livro ou desloco a coluna ao dormir até um pouco depois do horário.

A atividade física regular, moderada, entendida como uma caminhada de 40 minutos, 4 vezes na semana, é todo esporte que seu corpo precisa como remédio. Não gosta de caminhar? Então saia para dançar, pedalar ou nadar. E adicione um pouco de musculação e alongamento a partir dos 50 anos de idade: isso ajuda a manter ossos e articulações fortes e saudáveis. Para além destes limites, converse com seu médico ou preparador físico e vá pela diversão, pelo entretenimento não-competitivo.

É Um equívoco propagar o esporte como uma ferramenta para saúde. Sua saúde depende de muito mais compromisso que jogar bola duas vezes por semana ou ir na academia de 8 às 9. Aprender a lidar com o estresse, ter um bom padrão de sono e seguir uma alimentação saudável são tão ou mais importantes que uma corrida ensandecida de 10 Km sobre a esteira.

Procurar a atividade física como um modo de manter o corpo dentro da beleza-padrão estampada nas revistas é outro erro comum e, porque não dizer, cômico. As modelos de capa parecem saídas de campos de concentração nazistas de tão caquéticas e não devem pesar mais que a própria revista. A beleza é sentir-se bem aos 30, 40, 50, 60 anos ou mais, e não buscar de modo esquizofrênico a aparência de uma anoréxica de 20 anos de idade quando você já passou da metade da ladeira.

Lembre-se que as grandes descobertas vieram de pessoas com tempo ocioso - vide Aristóteles, Newton e tantos outros citados pelo oceanógrafo Kendall Haven em “As 100 maiores descobertas científicas de todos os tempos” (320 páginas, Ediouro, 1ª Edição). Use seu tempo e energia de modo inteligente e produtivo. Ter um glúteo mais firme não fará seu futuro mais brilhante.

E se quer uma última dica, que tal investir suas energias procurando por uma preciosidade: o extraordinário livro do médico mineiro José Róiz, “Esporte Mata!” (178 páginas, Editora Casa Amarela, 1ª Edição).

Não, não estou ganhando comissão pela venda de livros. Mas uma boa leitura já vale por uma longa caminhada.

26 julho 2009

SUS DOMESTICUS, O TERMINADOR

No começo de maio deste ano, escrevi um texto para o Yahoo!Notícias / BrPress falando sobre a gripe suína. Estávamos ainda no começo dessa histeria burra que vez ou outra ameaça turvar as mentes mais sãs com notícias do Apocalipse.

Depois de muitas idas e vindas, o Ministério da Saúde finalmente fez um movimento em direção a uma condução mais racional do problema. Apenas um movimento tênue, tímido, quase introspectivo, cheio de medo de ser massacrado pela imprensa que vê no novo vírus a velha ameaça de sempre.

Desde Abraão e provavelmente muito antes, gerações e gerações de Homo sapiens vêm pregando o final dos tempos. A cada geração, ameaçamo-nos e aos nossos filhos com um final diferente para o mundo, que teoricamente terminaria antes do fim de nossas vidas. Como você pode comprovar, o mundo ainda não acabou. Mas as ameaças e promessas desvairadas continuam chegando.

Contando a partir dos primeiros alertas, lá se vão uns 90 dias da Pandemia de Gripe Suína. Nesse intervalo, 29 brasileiros morreram vítimas da doença. Neste exato mesmo período, cerca de 8.600 conterrâneos morreram vítimas de acidentes automobilísticos, outros 8.200 foram assassinados por armas de fogo, 2.400 mulheres perderam a vida para o câncer na mama e 1.200 homens foram vitimados pelo câncer na próstata.

Onde está a epidemia mesmo?

Talvez, na (falta de) cabeça dos outros.

Um abraço e boa leitura,

Alessandro.

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SUS DOMESTICUS, O TERMINADOR

© Dr. Alessandro Loiola


Acho que uma das profissões com menor índice de depressão atualmente é a de jornalista. Para quem ganha o pão vendendo manchetes, os dias de hoje são um oásis. Porque, em se falando de notícias, nada tem mais apelo que o apocalipse – e para alegria dos vendedores de planos funerários em suaves parcelas, o mundo vem acabando de modos diferentes a cada semana.

A guerra nuclear iria dizimar a humanidade. A crise do petróleo iria dizimar a humanidade. O HIV, o retorno da tuberculose, o Bill Gates, a gripe da galinha que mora na Tailândia... todos iriam dizimar a humanidade. E nada da humanidade ser varrida.

Então vieram filmes com terremotos, tempestades de cometas aniquiladores, propagandas imperialistas de alterações climáticas catastróficas, e ainda nada. Quem sabe, se o John Doe não pagar a hipoteca de sua casa suburbana no Kentucky, será que dessa vez isso poderia desencadear uma crise econômica capaz de dizimar a humanidade? Hum... difícil saber. Este experimento ainda está em fase de desenvolvimento. Mas, para dar um toque de classe, que tal uma outra promessa de extermínio saída novinha do forno? E chegamos à Gripe do Porco.

Gripe do Porco. Se fosse no Canadá, seria batizada de algo como Wild Kodiak Flu. Nos EUA, Gripe Furious Hawk. Mas o diacho do vírus teve o azar de ressurgir no México. Com a mídia ocidental aos seus pés, os ianques não perderam tempo e lascaram um apelido suíno na moléstia identificada ao sul do Rio Grande. Gripe do Porco. Será que tomando banho dá pra evitar? Na dúvida, melhor colocar na lista do supermercado algumas caixas extras de cotonete e fio dental.

O vírus influenza suíno – concorde comigo: “gripe do porco” é bem mais legal... – causa uma infecção respiratória aguda em nossos amigos da pocilga. Todavia, apesar de bastante contagioso e desconfortável, possui um baixo índice de mortalidade geral (1-4%).

Acredita-se que os responsáveis pela introdução deste vírus entre os descendentes do javali selvagem fomos nós mesmos, os humanos de sempre. O seguinte: os porcos podem se infectar com mais de 1 tipo de influenza de uma só vez, permitindo que estes vírus se misturem à vontade. O resultado é um vírus influenza com genes de várias fontes diferentes. Por isso, apesar do influenza suíno ser normalmente específico para porcos, a combinação bacanalística de genes permitiu que ele cruzasse a barreira das espécies e atingisse também o homem. Ah... nada como o sexo selvagem entre as partículas.

A gripe do porco não é nova. O vírus é considerado endêmico nos EUA. Os sintomas são bastante semelhantes aos da gripe comum, porém, naqueles de menor sorte, a doença pode se manifestar como pneumonia grave ou mesmo morte.

Teoricamente, a gripe do porco é transmitida a partir do porco infectado, mas alguns estudos sugerem que o vírus pode ser passado de um humano para outro, especialmente através do contato íntimo ou em aglomerados de pessoas em ambientes fechados.

Para os vegetarianos, lamento informar que comer a carne do porco não transmite o vírus – desde que a carne tenha sido preparada a pelo menos 70 graus Celsius. Por isso, provavelmente nós carnívoros continuaremos com esse hábito fastidioso.

Os cientistas acreditam que as pessoas que tem contato regular com suínos podem possuir uma resistência natural contra o vírus, dificultando o desenvolvimento da infecção. E você que chegou até a pensar que aquele seu cunhado gordo e de péssimos hábitos higiênicos não tinha qualquer utilidade, hein? Pois é. A vida dá voltas e voltas. Olha ele aí, garantido sua sobrevivência.

Para os alarmistas de plantão, preocupados com o risco de uma nova Peste Negra, deixo outro alerta: nada causa mais mortes que engolir pequenas quantidades de saliva por um longo período de tempo. Todo mundo que pratica este esporte está com os dias contados. A imensa maioria não irá durar mais de 11 décadas fazendo isso, acredite.

Nós não seremos dizimanos pela gripe do porco. Nossa espécie tão soberbamente inteligente continuará por aqui, fazendo todo tipo de asneiras e se entretendo com as pregações do fim do mundo. Eu, pessoalmente, prefiro não me arriscar tanto. Não sei profetizar qual exterminador do futuro irá dizimar a humanidade, mas posso lhe dar a previsão do tempo para esta noite: escuro. Muito escuro.

Hasta la vista, baby.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

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P A R T I C I P E !
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VIVER É A MAIOR AVENTURA. VIVA COM SAÚDE!

22 abril 2009

A INDÚSTRIA DA PERDA

© Dr. Alessandro Loiola




Aprendi há algum tempo que, depois de um sopro, vem sempre uma mordida. Por isso, quando ela me escreveu dizendo “sou fã dos seus textos, leio todos e sempre encaminho para amigos”, sabia que tinha mais. E tinha mesmo: “Gostaria muito que escrevesse sobre medicamentos para redução de peso, como sibutramina, anfepramona, femproporex, etc. Com admiração, Srta. X”.

Como o pedido de uma leitora em apuros é uma ordem, fiz meu dever de casa, convoquei algumas sinapses e saí fuçando sites e bibliotecas médicas especializados. Minha primeira parada: a NAASO, Associação Norte Americana para Estudo da Obesidade, fonte de incontáveis estatísticas terroristas sobre o assunto.

De cima de um reluzente pedestal científico, a NAASO brande seus números: a obesidade afeta quase 60 milhões de americanos e está relacionada a 80% dos casos de diabetes, 70% das doenças cardiovasculares, 30% das pedras na vesícula, 40% dos cânceres na mama, 42% dos tumores malignos no intestino grosso, e por aí vai.

Durante a pesquisa para a Srta. X, constatei que os quilos a mais definitivamente deixaram de ser uma preocupação com a saúde. Viraram uma indústria. A indústria da perda de peso.

Este riquíssimo ramo empresarial envolve companhias que engordam e outras que emagrecem. Enquanto você decora a casa com adesivos herbalifeanos, ímãs de geladeira para refeições supercalóricas e esteiras de última geração, os espertalhões vão acumulando dezenas de bilhões de dólares a cada ano em suas contas bancárias.

Concordo 100% com os especialistas que abordam o excesso de peso como uma doença crônica. A obesidade é uma doença, sim. Uma verdadeira epidemia. Apenas nos últimos 20 anos, a porcentagem de obesos mórbidos cresceu 400%. Essa gordurada toda resulta em graves complicações e faz pensar: até que ponto a busca pelo controle obsessivo do sobrepeso passou a representar por si só uma doença?

A corrida permanente atrás de uma imagem a ser mantida para os olhos dos outros produz níveis elevados de estresse. Nesta ditadura, todos querem ser magros. Todos devem ser magros. Entretanto, das fotos de top-models em processo de caquexia brotam índices significativos de depressão, transtornos de comportamento, compulsões alimentares, abuso de remédios e drogas ilícitas.

Não quero lhe assustar, mas anote aí: estar vivo e comendo aumenta consideravelmente o seu risco para obesidade (e milhares de outras moléstias). Pelo simples fato de que estar vivo é um pré-requisito absoluto para adoecer.

Uma dieta saudável, rica em frutas e verduras, associada à prática de exercícios físicos regulares, certamente irá lhe colocar no rumo certo. Para entrar na forma ideal, recomenda-se perder cerca de meio quilo por semana. Um ritmo mais acelerado que este pode resultar em diminuição indesejada da massa óssea e muscular. Vá sem pressa.

A Indústria continuará lhe bombardeando dia após dia com imagens de pessoas magras cheias de sorrisos comendo doces maravilhosos, e modelos adolescentes ditando padrões de beleza em revistas de moda para senhoras de meia idade. O segredo está em não permitir que o número da sua calça jeans seja a luz que guiará toda sua existência.

O controle do excesso de peso deve ser feito com o objetivo de promoção do bem-estar, da qualidade de vida e do crescimento pessoal, não para satisfazer demandas da vaidade. Lembre-se da frase célebre do saudoso Tim Maia: “fiz uma dieta rigorosa, cortei tudo. Em duas semanas, consegui perder 14 dias!”.

Longe da apologia ao conformismo ou da vista grossa para o excesso de gordura, fica o alerta: a Indústria da Perda não tem muito mais do que isto para lhe oferecer. Por mais fundo que seu umbigo possa estar, existe um universo infinito para além dele. Feche a boca para as calorias se preciso for, mas não se esqueça de abrir os olhos para enxergar o que realmente vale alguma coisa neste mundo. Os ganhos serão todos seus.

01 abril 2009

NÓS OS ALIENÍGENAS E A FEBRE AMARELA

© Dr. Alessandro Loiola


Segundo as teorias atualmente quase aceitas, há várias centenas de zilhões de anos, em algum ponto dos vastos oceanos que cobriam a Terra, algo aconteceu. Enormes quantidades de monômeros e polímeros começaram a formar agregados colóides cada vez mais cheios de curvas e nuances. Em um processo evolucionário inacreditável, desta sopa da vida primitiva resultariam coisas tão distintas quanto um ácaro, uma esponja marinha e a Cléo Pires.

Infelizmente, a teoria evolucionista não explica exatamente qual o papel destas três entidades no crescimento espiritual da raça humana. Mas tendo a Cléo Pires como uma das conseqüências do processo evolutivo, bem, o restante até que dá para perdoar.

O fato é que antes de aparecermos por aqui, a Terra possuía outros donos. Bem antes dos índios botocudos e dos dinossauros, mas alguns milhões de anos logo após a sopa, vírus e bactérias começaram seu domínio sobre o mundo.

Apenas nas frações de segundo mais recentes da história desta partícula de poeira que chamamos de casa, nós aparecemos. Quando aportamos por essas bandas, os bisavôs bacterianos e tataravôs virais devem ter estranhado um bocado. “Como assim, planeta deles? Planeta nosso!! Chegamos aqui primeiro!”.

Até tentamos pedir desculpas. “Olhaí, a gente deixa uma meia dúzia de meninos catarrentos pra vocês irem se ocupando enquanto isso, tipo comemoração no Dia do Índio, sá’comé?”. Mas não adiantou. Refugiados em matas, micos e mosquitos, microorganismos letais aguardam sua chance de dar o bote. Vez ou outra, fazem um contato imediato do terceiro grau conosco, os alienígenas recém-chegados. As conseqüências costumam ser dramáticas.

Os historiadores creditam o declínio do Império Romano às repetidas epidemias do vírus que fez tombar Beethoven: o mortífero Orthopoxvirus, agente da varíola. No Século XIV, a Yersinia, uma bactéria transmitida pela pulga do rato, ceifou a vida de 75 milhões de pessoas – ou cerca de um terço da população da época. Uma pandemia tão devastadora que passou à história como a Peste Negra. Entre 1918 e 1919, a gripe espanhola dizimou mais 40 milhões de pessoas nos 5 continentes.

Nas últimas décadas, outras velhas doenças vêm mostrando suas garras e fazendo novas vítimas. A tuberculose, uma vez tida como em vias de extinção, vem aumentando sua incidência em cerca de 1,7% a cada ano - no Brasil, são notificados 200 novos casos diariamente. De modo emblemático, há alguns meses vem sendo ensaiada a ressurreição da moribunda Febre Amarela.

Esta doença, causada por um vírus transmitido pelo mesmo mosquito da dengue, infecta principalmente seres humanos e macacos. Os sintomas variam de acordo com a fase da doença:

FASE DE INCUBAÇÀO: corresponde aos 3-6 primeiros dias após a contaminação pelo vírus. A pessoa não sente qualquer sintoma.

FASE AGUDA: inicia-se após a fase de incubação, com febre, dor de cabeça, náuseas, vômitos, fortes dores musculares, perda do apetite, vertigens, e vermelhidão acentuada nos olhos, na face ou na língua. Os sintomas em geral melhoram após 3-4 dias.

FASE TÓXICA: cerca de 15% das pessoas com febre amarela aguda desenvolvem uma fase tóxica da doença, caracterizada por icterícia, dores abdominais, vômitos sanguinolentos, diminuição do volume urinário, sangramentos pelo nariz e pela boca, delírio, convulsões, problemas cardíacos, e disfunção nos rins e no fígado. Até metade daquelas com a forma tóxica falecem em decorrência da doença. O restante se recupera sem maiores problemas.

Não existe tratamento específico. As medidas são apenas sintomáticas, com o emprego de analgésicos, repouso e hidratação adequada. Nas formas graves, o tratamento e a observação devem ser feitos com a pessoa internada, de preferência em uma Unidade de Terapia Intensiva.

O único modo seguro de evitar a febre amarela é através da vacinação: uma única dose da vacina oferece mais de 95% de imunidade contra a doença por 10 anos.
Na infinita escala da sobrevivência, nosso jovem time de alienígenas vai defendendo a duras penas o campeonato contra levas de vírus e bactérias nonagenários. Considerando-se o tamanho da concorrência por parte dos antigos detentores do título, é de se perguntar por quanto ainda tempo seremos capazes de segurar o troféu em casa...

13 fevereiro 2009

ATEROSCLEROSE

© Dr. Alessandro Loiola


Existem vários contos e livros que mostram como o verdadeiro poder não se encontra no trono, mas por trás dele. Desde poderosos imperadores até generais, presidentes e pensadores importantes na história da humanidade, todos sofreram influências de pessoas que terminaram não aparecendo nos livros, mas foram fundamentais para que aquela determinada conquista se tornasse possível.

No caso das notícias de celebridades fulminadas por ataques cardíacos ou derrames, a verdadeira manchete encontra-se escondida por trás dos holofotes e atende pelo nome de Aterosclerose. Apesar de avessa à mídia, a Aterosclerose segue como a causa número 1 de morte em todo mundo. Para compreender do que se trata, é preciso entender como funciona o fluxo sangüíneo dentro das suas artérias.

As artérias são os vasos que levam o sangue do coração para todas as partes do seu corpo. Elas são revestidas por uma fina camada de células, chamada endotélio. A pressão alta, o cigarro ou os altos níveis de colesterol podem danificar o endotélio, desencadeando um processo que leva à formação de placas de colesterol. Estas placas endurecidas (chamadas placas ateromatosas) impedem o fluxo sangüíneo adequado. Nos estágios mais avançados, as placas ateromatosas podem obstruir completamente o fluxo em uma determinada artéria.

Os sintomas da aterosclerose variam de acordo com o local de acúmulo e desenvolvimento das placas ateromatosas. Por exemplo, nas artérias coronárias, a aterosclerose pode se manifestar com dores no peito (angina) e diminuição da tolerância aos exercícios (cansaço fácil). Na circulação cerebral, as manifestações
incluem problemas de raciocínio e de memória, dormências, fraquezas musculares localizadas e até mesmo derrame. Nas pernas, podem ser observados dores nos músculos da panturrilha, cicatrização difícil, diminuição dos pulsos e alteração na coloração do local afetado.

A aterosclerose é sorrateira e quando estes sintomas chegam a ocorrer, significa que a doença pode já se encontrar em estágios avançados.

Se você deu um suspiro de alívio porque não vem apresentando qualquer destes sintomas, pegue o suspiro de volta: metade das pessoas sem problemas cardíacos apresenta algum grau de aterosclerose, e o porcentual de pessoas assintomáticas afetadas sobe para 85% na faixa acima dos 50 anos de idade. Conclusão: nunca é cedo ou tarde demais para mudar seus hábitos de vida e começar a prevenir a aterosclerose !

O primeiro passo deve começar pela boca: seu corpo não merece ser tratado como uma caixa de gordura. Siga uma dieta saudável baseada em frutas e verduras, e pobre em produtos industrializados e açúcar.

Alimentos ricos em substâncias chamadas Bioflavonóides exercem um bom efeito protetor contra a Aterosclerose. As principais fontes de bioflavonóides incluem abricó, frutas cítricas, cebola, legumes, chá verde e vinho tinto. Fontes de vitamina C e E (p.ex.: acerola, alface, couve, espinafre, etc) também produzem benefícios, retardando o desenvolvimento das placas ateroscleróticas.

Os níveis sangüíneos elevados de colesterol estão diretamente associados à aterosclerose, mas podem ser reduzidos aumentando-se o consumo de alcachofra, alho, aveia, cebola, linhaça e soja.


  • Pratique uma atividade física regularmente. A meta deve ser exercitar-se por 40 minutos a 1 hora, quatro ou mais vezes por semana.
  • Mantenha-se dentro da faixa de peso considerada ideal para sua altura.
  • Consuma bebidas alcoólicas com moderação. Isso significa 1 drinque por dia para mulheres e no máximo 2 drinques por dia para homens.
  • Não fume e evite ser um fumante passivo.
  • Faça consultas periódicas, dosando os níveis sangüíneos de colesterol pelo menos uma vez ao ano e meça sua pressão arterial regularmente. Veja com seu médico se você pode tomar uma aspirina diariamente.
  • Leve a vida com mais humor e aprenda a controlar melhor o estresse. Por exemplo, se o excesso de trabalho está tirando sua paz de espírito, fique sabendo que quem trabalha muito, erra muito. Quem trabalha pouco, erra pouco. Quem não trabalha, não erra. E quem não erra é promovido. Pense nisso.

18 janeiro 2009

AS LEIS DO COMBATE

© Dr. Alessandro Loiola



Esta semana, atendi uma paciente típica. Jovem, sem filhos, veio queixando palpitações, insônia, dores musculares e um profundo desânimo. A fonte de tudo, segundo a querelante, era o bendito casamento. O namoro e o noivado haviam sido 99% e ela esperava que o 1% restante viesse com a troca de alianças. O que aconteceu foi exatamente o inverso, e ambos entraram em uma rotina de troca de tiros sem fim.

O que ela foi fazer no consultório? Queria alguns remédios para acabar com o estresse. Pensei em dizer “cicuta, para seu marido, um copo cheio à noite”, mas me segurei. Tratar o marido seria manter o foco nos sintomas, não na causa. E a causa não era o casamento. Eram as expectativas que tinha da vida.

Como toda mulher com menos de 30 anos e relativo sucesso no começo de sua carreira profissional, ela trazia um roteiro detalhadamente resolvido do seu futuro. Neste roteiro, o marido constava como um personagem, não como uma pessoa. Poderia-se dizer que a diferença entre ele e o boneco sobre o bolo era de apenas alguns quilos de cera. A instituição do casamento em si tinha menos importância que a geladeira frost free de última geração vazia decorando a cozinha.

Terminei liberando-a com a receita de sedativos e antidepressivos que tanto queria - ela estava a caminho de uma reunião urgente e não podia se atrasar nem mais um minuto. Uma pena. Se tivesse mais tempo, teria apresentado algumas diretrizes que todo jovem cônjuge deveria conhecer, e que eu chamo de As Sete Leis do Combate:

1. “O quartel general só vem em dois tamanhos: grande demais e pequeno demais”. Acostume-se. Ninguém chegará perfeito e acabado para suas necessidades. O príncipe encantando precisará sempre de alguma reforma. Ele deverá ser medido, esticado, cortado, remendado, adubado, podado, etc. Boa parte das pessoas que sofrem com seus relacionamentos – e com a própria vida - sofre porque não querem fazer o que sabem que têm que fazer. Ponha mãos à obra.

2. “Se tudo está bem, atenção! O inimigo invariavelmente ataca em duas situações: quando você está preparado e quando você não está preparado”. Assim também ocorrem as crises. Elas virão quando você estiver em pé de guerra, de TPM ou após uma noite inteira de choro do bebê, mas também e surpreendentemente quando o casamento estiver em um mar de rosas. Manter as antenas ligadas para o menor sinal de crise significa metade da solução do problema.

3. “Se você estiver em dúvida, atire. Se continuar em dúvida, atire até ficar sem balas. Qualquer coisa que você fizer - inclusive nada - poderá tornar você mais uma vítima do fogo inimigo”. Calma, isso não quer dizer que você terá razão absoluta todas as vezes que o bicho estiver pegando. Significa que, se você perceber que o relacionamento não está sendo uma fonte de alegria para ambos, algo deve ser feito ainda hoje. Uma boa conversa costuma ser um bom começo.

4. “Se as ordens puderem ser confundidas, elas serão”. A sensibilidade masculina estagnou logo após o Pleistoceno superior, tornando nosso córtex cerebral pouco especializado para a compreensão de indiretas. Por isso, seja clara e específica ao expor o que está lhe incomodando. Lembre-se: quando existe afeto, lágrimas femininas são a maior força hidromotriz deste mundo. O mesmo vale para algumas lingeries.

5. “O alcance de uma granada é sempre maior que a distância que você é capaz de pular”. Muito cuidado ao jogar ultimatos sobre a mesa. Pessoas são como navios: elas podem até mudar de curso, mas costumam fazer isso bem devagar. Assim, se você estiver sem paciência e pensando em explodir o relacionamento, pense duas vezes: será que você estará longe o suficiente para escapar ilesa dos estilhaços? Algumas cicatrizes emocionais podem durar tempo demais.

6. “Se o inimigo tiver muita dificuldade para entrar, provavelmente você também terá dificuldade para fugir”. Construir seu casamento apenas para sustentar um padrão de comportamento para seus pais ou para a sociedade, é como viver em uma prisão de tijolos de ouro. Faça com que sua felicidade – e a de quem você ama - seja como uma porta aberta para o mundo. Nada de falsas amarras ou grilhões de chantagens.

7. “Existe sempre um caminho, mas lembre-se: o caminho mais fácil quase sempre está minado”. Cuidado extra com as soluções práticas. Em alguns casos, elas podem estar apenas escondendo sua própria imaturidade disfarçada de conveniência, não levando a crescimento pessoal algum. Vocês não nasceram juntos e não precisam morrer juntos, mas não permita que algumas pequenas diferenças no princípio inviabilizem as infinitas possibilidades do futuro.

30 outubro 2008

CORAÇÃO DE MULHER

© Dr. Alessandro Loiola


- O negócio é o seguinte: mulher é um bicho complicado. Um bicho muito complicado!... - estava começando meu almoço e o amigo/conhecido, recentemente moído por uma experiência sentimental mal-sucedida, sentou-se descascando sua laranja:
- ... Pra você ter uma idéia, concluí que mulher não gosta de homem. Mulher gosta de dinheiro, sapatos de salto alto, cartão de crédito sem limite... nem de falar de homem, mulher gosta. Elas gostam mesmo é de falar de outras mulheres.
- Hum... ?
- É isso aí. Vá até uma banca, procure revistas para homens. O que você espera ver? Fotos de mulheres. Mulheres com roupa, mulheres sem roupa, mulheres com carros, mulheres na praia, mulheres em todo canto... e uma ou outra foto de um sujeito com cara de Zé fazendo alguma coisa pouco interessante. Agora, procure por revistas voltadas para mulheres. O que você verá?
- Nem imagino... – respondi lacônico, enquanto tentava decifrar porque o arroz tinha gosto idêntico ao da batata cozida. Esse sabor unânime da comida de hospital sempre foi um mistério para mim.
- Pois eu lhe digo: você verá a mesmíssima coisa ! Algumas vezes a revista traz “dez técnicas para acabar com a celulite”, “20 maneiras para vencer suas rugas”, ou “30 dicas quentes para estar na moda neste inverno”, mas no bojo, é tudo igual. Só tem mulher em revista de mulher.
- Olha, de repente se você trocar de revistas...
- Não adianta. Nós só pensamos em mulheres. Elas, idem. Mulheres... ô bicho complicado !

Realmente, entender as mulheres é tarefa para poucos profissionais. No meu caso, me considero no máximo um amador genuinamente interessado. Ainda assim, fui pesquisar para ver se o amigo de cotovelo quebrado possuía alguma razão. Terminei deparando com um outro fato interessante: a absoluta escassez de textos sobre problemas cardiovasculares nas publicações que se dizem voltadas para o ex-sexo frágil.

Páginas, entrevistas e testemunhos sobre AIDS, câncer, menopausa e infidelidade sobram para todo lado, mas pouco se fala sobre a saúde do coração feminino. Saúde orgânica, entenda-se. Apenas nos EUA, mais de 260.000 mulheres morrem anualmente vítimas de ataques cardíacos, um número 5 vezes maior que as mortes causadas pelo câncer de mama.

As mulheres possuem um risco de complicações mais de duas vezes maior que os homens quando se trata de doenças do coração. O motivo? Os sintomas raramente são típicos, provocando atrasos graves na detecção e tratamento do problema.

Dormências no pescoço, dores no meio das costas ou na região do queixo, fôlego
curto, vertigens, náuseas e vômitos podem sinalizar distúrbios cardíacos nas mulheres. Entretanto, como estas manifestações não costumam ser associadas imediatamente a problemas no coração, o diagnóstico correto demora a ser feito, aumentando a incidência de fatalidades.

Para cuidar melhor do seu coração, toda mulher deveria ter na ponta da língua 3 recomendações simples:

1. CONHEÇA SEUS RISCOS. O uso simultâneo de cigarro e pílulas anticoncepcionais aumenta consideravelmente o risco de ataques cardíacos e derrame. A terapia de reposição hormonal, indicada em alguns casos de menopausa, também pode aumentar suas chances de infarto. Converse com seu médico.

2. ATENÇÃO PARA SINTOMAS POUCO SUSPEITOS. Ao invés da clássica dor tipo aperto no lado esquerdo do peito, mulheres que sofrem de doenças do coração tendem a se queixar de dores nos braços, pescoço, costas ou boca do estômago, associadas a palpitações, suores e vertigens. É lógico que estes sintomas podem ocorrer em inúmeras outras situações, mas não deixe de pensar que eles também podem significar problemas no coração. Aja rápido.

3. FAÇA SEU DEVER DE CASA. pratique regularmente uma atividade física para manter a pressão arterial em 120/70. Trinta minutos de caminhada rápida pelo menos 3-4 vezes por semana, se possível temperados com exercícios de alongamento, meditação e controle da respiração, são uma boa ajuda neste sentido.

Siga uma dieta saudável capaz de elevar o colesterol bom (HDL) acima de 50 mg/dL e segurar os níveis de triglicerídios abaixo de 150 mg/dL.

E, finalmente, se quiser voltar ao seu peso ideal perdendo de uma só vez 80 Kg de gordura inútil, despache seu marido ou namorado para tirar uma foto de um iaque no Tibet. Porque, olha: homem é um bicho complicado. Um bicho muito complicado.