26 julho 2009

SUS DOMESTICUS, O TERMINADOR

No começo de maio deste ano, escrevi um texto para o Yahoo!Notícias / BrPress falando sobre a gripe suína. Estávamos ainda no começo dessa histeria burra que vez ou outra ameaça turvar as mentes mais sãs com notícias do Apocalipse.

Depois de muitas idas e vindas, o Ministério da Saúde finalmente fez um movimento em direção a uma condução mais racional do problema. Apenas um movimento tênue, tímido, quase introspectivo, cheio de medo de ser massacrado pela imprensa que vê no novo vírus a velha ameaça de sempre.

Desde Abraão e provavelmente muito antes, gerações e gerações de Homo sapiens vêm pregando o final dos tempos. A cada geração, ameaçamo-nos e aos nossos filhos com um final diferente para o mundo, que teoricamente terminaria antes do fim de nossas vidas. Como você pode comprovar, o mundo ainda não acabou. Mas as ameaças e promessas desvairadas continuam chegando.

Contando a partir dos primeiros alertas, lá se vão uns 90 dias da Pandemia de Gripe Suína. Nesse intervalo, 29 brasileiros morreram vítimas da doença. Neste exato mesmo período, cerca de 8.600 conterrâneos morreram vítimas de acidentes automobilísticos, outros 8.200 foram assassinados por armas de fogo, 2.400 mulheres perderam a vida para o câncer na mama e 1.200 homens foram vitimados pelo câncer na próstata.

Onde está a epidemia mesmo?

Talvez, na (falta de) cabeça dos outros.

Um abraço e boa leitura,

Alessandro.

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SUS DOMESTICUS, O TERMINADOR

© Dr. Alessandro Loiola


Acho que uma das profissões com menor índice de depressão atualmente é a de jornalista. Para quem ganha o pão vendendo manchetes, os dias de hoje são um oásis. Porque, em se falando de notícias, nada tem mais apelo que o apocalipse – e para alegria dos vendedores de planos funerários em suaves parcelas, o mundo vem acabando de modos diferentes a cada semana.

A guerra nuclear iria dizimar a humanidade. A crise do petróleo iria dizimar a humanidade. O HIV, o retorno da tuberculose, o Bill Gates, a gripe da galinha que mora na Tailândia... todos iriam dizimar a humanidade. E nada da humanidade ser varrida.

Então vieram filmes com terremotos, tempestades de cometas aniquiladores, propagandas imperialistas de alterações climáticas catastróficas, e ainda nada. Quem sabe, se o John Doe não pagar a hipoteca de sua casa suburbana no Kentucky, será que dessa vez isso poderia desencadear uma crise econômica capaz de dizimar a humanidade? Hum... difícil saber. Este experimento ainda está em fase de desenvolvimento. Mas, para dar um toque de classe, que tal uma outra promessa de extermínio saída novinha do forno? E chegamos à Gripe do Porco.

Gripe do Porco. Se fosse no Canadá, seria batizada de algo como Wild Kodiak Flu. Nos EUA, Gripe Furious Hawk. Mas o diacho do vírus teve o azar de ressurgir no México. Com a mídia ocidental aos seus pés, os ianques não perderam tempo e lascaram um apelido suíno na moléstia identificada ao sul do Rio Grande. Gripe do Porco. Será que tomando banho dá pra evitar? Na dúvida, melhor colocar na lista do supermercado algumas caixas extras de cotonete e fio dental.

O vírus influenza suíno – concorde comigo: “gripe do porco” é bem mais legal... – causa uma infecção respiratória aguda em nossos amigos da pocilga. Todavia, apesar de bastante contagioso e desconfortável, possui um baixo índice de mortalidade geral (1-4%).

Acredita-se que os responsáveis pela introdução deste vírus entre os descendentes do javali selvagem fomos nós mesmos, os humanos de sempre. O seguinte: os porcos podem se infectar com mais de 1 tipo de influenza de uma só vez, permitindo que estes vírus se misturem à vontade. O resultado é um vírus influenza com genes de várias fontes diferentes. Por isso, apesar do influenza suíno ser normalmente específico para porcos, a combinação bacanalística de genes permitiu que ele cruzasse a barreira das espécies e atingisse também o homem. Ah... nada como o sexo selvagem entre as partículas.

A gripe do porco não é nova. O vírus é considerado endêmico nos EUA. Os sintomas são bastante semelhantes aos da gripe comum, porém, naqueles de menor sorte, a doença pode se manifestar como pneumonia grave ou mesmo morte.

Teoricamente, a gripe do porco é transmitida a partir do porco infectado, mas alguns estudos sugerem que o vírus pode ser passado de um humano para outro, especialmente através do contato íntimo ou em aglomerados de pessoas em ambientes fechados.

Para os vegetarianos, lamento informar que comer a carne do porco não transmite o vírus – desde que a carne tenha sido preparada a pelo menos 70 graus Celsius. Por isso, provavelmente nós carnívoros continuaremos com esse hábito fastidioso.

Os cientistas acreditam que as pessoas que tem contato regular com suínos podem possuir uma resistência natural contra o vírus, dificultando o desenvolvimento da infecção. E você que chegou até a pensar que aquele seu cunhado gordo e de péssimos hábitos higiênicos não tinha qualquer utilidade, hein? Pois é. A vida dá voltas e voltas. Olha ele aí, garantido sua sobrevivência.

Para os alarmistas de plantão, preocupados com o risco de uma nova Peste Negra, deixo outro alerta: nada causa mais mortes que engolir pequenas quantidades de saliva por um longo período de tempo. Todo mundo que pratica este esporte está com os dias contados. A imensa maioria não irá durar mais de 11 décadas fazendo isso, acredite.

Nós não seremos dizimanos pela gripe do porco. Nossa espécie tão soberbamente inteligente continuará por aqui, fazendo todo tipo de asneiras e se entretendo com as pregações do fim do mundo. Eu, pessoalmente, prefiro não me arriscar tanto. Não sei profetizar qual exterminador do futuro irá dizimar a humanidade, mas posso lhe dar a previsão do tempo para esta noite: escuro. Muito escuro.

Hasta la vista, baby.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

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P A R T I C I P E !
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VIVER É A MAIOR AVENTURA. VIVA COM SAÚDE!

5 comentários:

Anônimo disse...

Alessandro. gostei de sua reflexão.
Penso que a midia só vive de sensacionalismo.
Vivemos num processo de terrorismo psiquico, e quanto mais ...mais...
Não me abalo com estas paranóias.
O cancer tá aí matando...assim como o coração, sabemos que nos dois casos , o agente principal é o stress a que somos submetidos a todo dia...
Corremos o risco de somatizarmos, e morrermos movidos pelo fenesi neurótico e maçiço de informações
Viver é um risco...antes e depois de qualquer gripe...aids..cancer...dengue... portanto nos cuidemos...e vivamos...
---Amei a expressão "histeria burra".
Ass.: Margarida.

Anônimo disse...

Olá Dr. Alessandro,
Ótimo esse seu artigo, vc só esqueceu de mencionar a DENGUE que também,
continua matando, e muito, pelo menos aqui na Bahia.
Um abrç.
Luzia

Luiza Brunoro disse...

Olá Dr. Alessandro,

Parabéns novamente pelas suas colocações... Tb há que se lembrar das mortes por fome no Nordeste e nestes interiores desta nossa sofrida Terra Brazilis...

Essa midia sensacionalista faz com que o povo corra para os ambulatórios e com isso acabam se contaminando mais ainda até de cárie no dente!

Abração e muuuuuita paciência!
Luiza Brunóro (de S. Paulo), tb membro do seu YahooGroups

PS.: Com certeza vou copiar alguns trechos de sua matéria e espalhar para meus amigos, colocando a fonte, obviamente!

Revista Cidade do Sol disse...

Oi, Dr. Alessandro, aqui em casa sempre lemos vc e rimos muito.

Vc está sendo debatido no meu blog...confira lá para vc ver.

Abraços do Lúcio Jr.

Boni Nova Era disse...

Gostei da sua reflexão sobre a Influenza. Nós, pobres mortais ficamos a mercê da mídia.
Enquanto isto, o Lula empresta 300 milhões para Bolivia construir rodovia e a nossa 381, continua matando mais que a gripe.

Ah! Obrigado pela indicação médica.