26 maio 2008

A TRIBO DOS RONCADORES

© Dr. Alessandro Loiola


Volte seu relógio alguns milhares de anos até a pré-história. Até aquela época em que habitávamos um mundo selvagem, bestializado e extremamente violento. Eu sei, não é preciso voltar no tempo para viver em um lugar assim. Basta ir até a esquina. Mas seja paciente.

Pegue seu tacape. Você está de guarda numa daquelas noites frias e chuvosas, com uivos ao fundo. O resto da tribo dorme na caverna enquanto corre a madrugada. Você pisca. A roda ainda não foi inventada, mas o plantão noturno sim. Chuva, frio, aquele pernil de preguiça gigante feito na brasa ameaçando avançar para o duodeno, e você ali. O protótipo neandertal do vigia sonâmbulo.

Fatalmente, você cai no sono. Aproveitando a deixa, os uivos se esgueiram pela sombra, aproximando-se da caverna. São lobos. E estão famintos. Mas antes que o treinador arme o ataque 4x4x2 lançando um coiote por sobre a barreira, um som gutural assustador, como o urro de bestas terríveis e possessas, irrompe pela caverna. E logo outro. E ao ressoar o terceiro, a matilha se dispersa, rabos entre as pernas, desaparecendo apressada na floresta.

Sem que soubessem, você e sua tribo foram salvos por uma adaptação maravilhosa da natureza: o ronco.

Não somos os animais mais rápidos ou os mais fortes ou aqueles com a mordida mais devastadora. Apesar de predadores, somos mamíferos terrestres relativamente frágeis. Então como poderíamos nos manter protegidos durante o descanso? Fácil: o som de dezenas de homens da caverna roncando juntos seria suficiente para manter qualquer ameaça a uma distância segura.

Levando o raciocínio adiante, seria possível deduzir que tribos de não-roncadores permaneceriam mais expostas durante as horas de sono, complicando suas chances de perpetuação, resultando em uma conclusão bastante simples: seguindo a linha nua e crua da seleção natural, somos todos descendentes de roncadores instintivos. Pois apenas os roncadores sobreviviam às noites de sono.

O ronco é o ruído que a respiração produz ao passar pelas vias aéreas parcialmente obstruídas durante o sono. Estima-se que mais de 1/3 dos adultos ronquem pelo menos algumas noites por semana. De cada 10 roncadores crônicos, 9 são homens – a maioria com 40 anos de idade ou mais.

Apesar da teoria da tribo dos roncadores explicar porque seu marido imita um urso com cólica intestinal durante o sono, os especialistas defendem que o ronco está intimamente relacionado a distúrbios tais como obesidade, aumento das amídalas e das adenóides, e deformidades no nariz. Fumar, consumir bebidas alcoólicas em excesso, fazer alimentações pesadas antes de ir para cama, dormir de barriga para cima e sofrer de alergias nasais facilitam a ocorrência de roncos.

Você talvez não ligue para o seu ronco, mas tenha certeza que qualquer pessoa que esteja por perto tem uma opinião um pouco diferente. Em todos os casos, procurar seu médico de confiança é uma boa recomendação. O ronco pode sinalizar a presença ou o início de outros problemas mais sérios, como apnéia do sono, obstrução nasal e separações litigiosas. Além disso, o ronco pode resultar em sonolência excessiva durante o dia e aumentar o risco para hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e derrame.

Para resolver a situação, o primeiro passo é cortar os fatores de risco. Elimine o excesso de peso; evite refeições pesadas, bebidas alcoólicas ou cafeína no horário de dormir (o ideal é manter o jejum nas duas horas anteriores ao seu horário habitual de ir para a cama); mude a posição em que você dorme (p.ex.: levante um pouco a cabeceira da cama, coloque um travesseiro para ficar de lado, etc), e mantenha o quarto limpo e arejado para evitar rinite e congestão nasal.

Outros recursos para controlar o ronco incluem o uso de próteses orais que evitam a queda da língua, e máscaras especiais que mantém uma pressão contínua sobre as vias aéreas, evitando a obstrução (este tratamento com máscaras de pressão, conhecido como CPAP, é eficaz e razoavelmente desconfortável).

Casos mais graves podem necessitar tratamento cirúrgico. O procedimento mais comumente realizado é uma espécie de cirurgia plástica da garganta que aumenta o diâmetro das vias aéreas e reduz a vibração. Vale lembrar que a intervenção cirúrgica não está indicada nos casos de ronco ocasional ou leve.

No final das contas, se o seu ronco estiver incomodando as pessoas da sua vizinhança e nenhuma das medidas descritas anteriormente resolver o problema, eu recomendo que você junte suas trouxas e mude para uma caverna. De preferência, longe da minha.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

20 maio 2008

COMO LIDAR COM UMA CRIANÇA PIRRACENTA?

© Dr. Alessandro Loiola


Dia desses foi comemorado o Dia Mundial Sem Carro. Quando vi a propaganda, achei que todos os automóveis seriam enviados para Netuno e só voltariam ao planeta no dia seguinte. Uma maravilha. Mas, para minha decepção, não foi nada disso. Enfim, por causa das celebrações, fui zapear na Internet e descobri que existem cerca de 500 milhões de automóveis no mundo. Para cada um destes automóveis, existe um adulto responsável, devidamente treinado e habilitado para sua condução. E então veio o estalo.

Existem 1,82 bilhões de crianças no mundo. Quase 4 crianças para cada automóvel. Responda rápido: qual você acredita ser a proporção de adultos responsáveis, devidamente treinados e habilitados para conduzir estas crianças?

Não conheço escolas ou faculdades que formem pais responsáveis. Também não existem cursos rápidos sobre como criar filhos. Isto continua sendo uma experiência individual na maioria dos casos, baseada na velhíssima fórmula de tentativa e erro.

Uma das queixas mais freqüentes dos pais despreparados é que “a criança que faz pirraça demais”. Ora, no começo da infância, tudo que o bebê quer é chamar sua atenção. Para isso, ele irá falar, chorar, bater, jogar coisas no chão e perturbar todo mundo. Ele não se importa muito se está sendo agradável ou chato, desde que você olhe para ele. Isso não tem coisa alguma a ver com pirraça.

Além disso, a pirraça ou birra não deve ser confundida com desobediência. O conceito de pirraça começa no momento em que a criança sabe a diferença entre certo e errado, mas ainda não tem maturidade suficiente para se controlar e fazer a coisa certa. Esta fase começa por volta dos 2 anos de idade. Raramente, a criança pirracenta quer um confronto. Ela quer apenas atenção e descobrir seus limites.

Por outro lado, a desobediência significa que a criança faz questão de se impor firmemente contra a sua autoridade. Nestes casos, ela quer de toda forma um confronto.

Para enfrentar uma crise de pirraça com garbo e estilo, recomendo que você faça o seguinte:

- Inicialmente, mantenha um comportamento sereno. Tente ignorar a birra, falando com a criança de modo calmo e pausado, porém firme. Procure entender e explicar a situação. Se isto não funcionar, a criança deve ser castigada.

- Quando digo “castigada” não estou falando “surrada até a morte exsanguinante”. Punir a criança com tapas e beliscões pode ser uma solução rápida, mas certamente é pouco duradoura. Além disso, você estabelece um ciclo de agressões e truculências que não leva a nada. Um excelente exemplo de castigo é proibir a criança de brincar com os coleguinhas ou de assistir ao programa preferido de TV durante uma semana.

- Se a criança não ceder, ela deve ser subordinada. Novamente, isso pode ser feito sem violência. Como? Mostre-se fora de controle, faça a criança perceber que, se é para perder a cabeça, você pode ser mais perigosa que ela. Mas nunca subordine fazendo ameaças ou gritando em público: a audiência só faz a criança aumentar o teatro. No final da subordinação, aplique um castigo.

- Se a pirraça estiver relacionada a uma situação onde não existe possibilidade de negociação (p.ex.: a criança não quer tomar banho, ou se joga no chão para não atravessar a rua, etc), pegue a criança com firmeza pelos braços, sempre dizendo o que você está fazendo e porquê. Não bata nem discuta. Quando terminar de fazer o que precisava ser feito, avalie se é ainda necessário aplicar alguma forma de castigo.

- É óbvio que para tudo existe um limite. Desde a quantidade de carros em circulação até o número de crises de pirraça que uma criança pode ter em um dia. Se a criança começar a machucar a si própria ou a outras, tiver mais de 5 crises de pirraça por dia, ou se as birras estiverem associadas a outros problemas de comportamento (p.ex.: dificuldade para se expressar, para fazer amigos, para aprender na escola, etc), é recomendável visitar o médico para uma avaliação mais específica.

E lembre-se sempre: a obediência da criança depende da sua capacidade de mostrar autoridade com inteligência. Ouça e converse com seu filho. Explique o que você acredita que ele fez de errado, escute os motivos dele e deixe-o de castigo se for preciso, mas jamais apele para surras. A violência é o argumento da ignorância. E a ignorância é o caminho mais curto para o fracasso.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

19 maio 2008

ATLETISMO SEXUAL

© Dr. Alessandro Loiola


A atividade sexual é um dos muitos parâmetros utilizados para aferir o nível global de saúde de um adulto. Em teoria - e respeitados os devidos limites de carga, velocidade e decibéis do seu bairro -, quanto maior a quantidade e a qualidade do sexo que você pratica, mais saudável você está. Entenda isto como uma conseqüência fisiológica das coisas: o objetivo de sua programação genética é que você procrie, principalmente se estiver com saúde. E para tanto você deve se envolver em relações sexuais.

A importância da atividade sexual em nossas vidas é inquestionável (não estaríamos aqui se não fosse por ela), tornando o tema um verdadeiro campeão de bilheterias do lado de cá da Via Láctea. Por isso, não me surpreendi quando, recentemente, recebi um e-mail com algumas dúvidas sobre o assunto. A mais curiosa era a seguinte: será que o sexo pode lhe ajudar a ficar em forma? Em outras palavras: a atividade sexual, como forma de esporte, pode ser útil para queimar calorias? Afinal de contas, nada como otimizar seu tempo unindo o útil ao agradável...

Pensei em simplesmente apagar a bendita mensagem, mas a mesma curiosidade que matou o gato terminou me obrigando a comprar um bilhete da Helman’s Airlines – aquela em que você viaja na maionese -, e fui pesquisar durante alguns dias. Antes que você fique imaginando coisas impróprias para o horário (pesquisar? Como assim, “pesquisar”?), vamos aos resultados.

Dez minutos de relação sexual consomem cerca de 45 calorias, quase a mesma quantidade de energia que você gasta para ficar de pé, dormir, estudar ou falar ao telefone por meia hora. Mas os especialistas afirmam que o prazer destas atividades pode não ser tão intenso, justificando tranqüilamente sua escolha pela primeira alternativa.

Se extrapolarmos a contabilidade para a fase de aquecimento dos motores, e considerarmos que seus 10 minutos de sexo foram precedidos por 10 minutos de preliminares, o gasto mal atinge 70 calorias – menos do que o necessário para arrumar os móveis da sala.

Fazer compras, buscar as crianças na escola, preparar a janta e colocá-las para dormir é uma rotina capaz de consumir mais de 200 calorias. Em valores totais, seria algo como manter 5 relações sexuais completas no intervalo de poucas horas. Não surpreende que ao final do dia você sinta toda aquela fadiga – e nem pense em culpar o trânsito!

Deixando de lado a vida doméstica e partindo para a academia, para uma pessoa média atingir um estágio “sarado” será necessária pelo menos uma hora de malhação, 4 vezes por semana, durante 1 ano. Isso significa um investimento de 70.000 calorias, o equivalente a 1.600 relações sexuais ou cerca de 260 horas de sexo ininterrupto. Fique à vontade para tentar e relatar aos amigos sua experiência. Ah, sim: e não se esqueça de comunicar o feito inédito ao Guinness.

Equacionadas as variáveis pertinentes, ficou fácil perceber que o Atletismo Sexual não deveria sequer constar na lista das 100 melhores práticas desportivas de todos os tempos, pelo menos não do ponto de vista de gasto energético ou de condicionamento cardiopulmonar.

A explicação para o resultado desta pesquisa é bem simples: quando lidamos com Sexo, não estamos falando de controle da obesidade, queima de calorias ou reengenharia de músculos, mas da celebração máxima da cumplicidade afetuosa entre dois seres humanos. Isso, sim, é o que verdadeiramente importa. O resto não passa de conversa calórica para boi dormir.

13 maio 2008

COMO DEIXAR A CASA LIMPA

© Dr. Alessandro Loiola


Apesar da raça humana estar fazendo um excelente trabalho no quesito “poluição ao nível do auto-extermínio”, ainda nos resta esperança. Estudos recentes apontam para o surgimento de uma ramificação do Homo sapiens, o Homo limpadorus compulsivum, que poderá significar a salvação do planeta.

As pesquisas mostram outro fato alarmante: toda família terrestre já possui pelo menos um (ou uma) representante desta subespécie entre os seus. O que caracteriza este nosso primo mais evoluído é o desejo irrefreável de ver não apenas as coisas limpas, mas ver as coisas limpas por ele mesmo.

Para detectar o Homo Limpadorus compulsivum é muito simples: em uma dessas tardes insossas no final de semana, logo depois do almoço, dirija-se para a cozinha dizendo que está na hora da limpeza. Imediatamente, o Limpadorus irá estacionar na porta, puxando conversa como quem não quer nada e então, com um movimento insuspeito, irá surrupiar um pano de prato na gaveta da esquerda e começará a passá-lo com requintes de detalhes naquilo que você jurava ter acabado de limpar.

- Nossa, olha só – mostrando o pano tão limpo quanto antes -, ninguém merece! Faz o seguinte, vai lá ver televisão com o pessoal que eu termino aqui.

Você pode até aproveitar a deixa para esticar as pernas. Contudo, assim que ouvir algo como “o que essa casa está precisando é de uma boa faxina!”, recomendo que assuma rapidamente o controle, tome o pano de prato do Homo Limpadorus e peça alguns sedativos hipnóticos na farmácia mais próxima. Ou coloque-o para assistir um programa de auditório. O efeito é idêntico.

Manter uma boa higiene é imprescindível para sua saúde, mas o mutante tende a transformar isso em uma cruzada épica contra a própria existência das bactérias. Infelizmente, cerca de 60% das partículas de poeira em suspensão na sua casa são compostas por fragmentos de pele morta. O restante são fungos, ácaros e demais extraterrestres minúsculos. Você irá respirar isso umas 10 milhões de vezes por ano, por mais que as paredes sejam alvejadas. Não há escapatória.

Todo Limpadorus que se preza também preocupa de modo exagerado com a preparação dos alimentos. Eles adoram deixar as alfaces afogadas a noite inteira em um caldo antibacteriano de composição alquimista. Pobre coitado... para cada ser humano neste planeta existem 200 milhões de insetos. Ao longo de nossas vidas, engolimos mais de 70 deles durante o sono. Além disso, anualmente, centenas de pessoas morrem engasgadas com partes de canetas esferográficas. Conclusão: o perigo pode estar onde você menos espera. É melhor ficar mais atento.

Se você quiser ajudar seu ilustre representante de Homo Limpadorus compulsivum, passe à frente estas informações realmente úteis para a limpeza do lar doce lar:

- O chão da cozinha é considerado a área mais suja da casa. Os restos microscópicos de comida embutidos ali são o ambiente ideal para proliferação de vírus, fungos e bactérias. O chão deve ser varrido diariamente e lavado com produtos químicos específicos duas ou quatro vezes por semana.

- A pia da cozinha também deve ser lavada diariamente com detergentes fortes. Ao final do dia, é uma boa idéia enxaguá-la com uma panela de água aquecida. Mantenha as crianças longe neste momento.

- Por falar em pia: pelo menos duas vezes por semana, faça o mesmo com a pia do banheiro. Para facilitar, utilize um pouco de água sanitária no lugar da água aquecida. Logo você irá perceber que alguns detalhes da pia são difíceis de alcançar. Não esquente a cabeça: espere pela próxima crise no casamento e utilize a escova de dente do seu cônjuge para limpar estas reentrâncias. Depois guarde a escova de volta.

- A bucha que você utilizou para lavar os pratos e talheres antes da refeição contém mais micróbios nocivos que o assento do seu vaso sanitário. Tudo bem, pode vomitar o almoço agora. A parte boa da notícia é que a bucha pode ser esterilizada no microondas: bastam 30 segundos (quando seca) ou 60 segundos (quando molhada), em potência máxima, para eliminar todas as bactérias.

- E uma última dica: todo mundo adora a sensação de limpeza de um bom banho, mas há quanto tempo você não dá uma geral no próprio chuveiro? Assim que retornar ao banheiro, veja se não tem uma samambaia carnívora crescendo lá de dentro. Se for seguro, limpe o chuveiro antes que ele fagocite alguém da família.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

05 maio 2008

PALESTRANDO EM RITMO DE AVENTURA

© Dr. Alessandro Loiola


A ida até Uberlândia foi uma tranqüilidade. Uma pena não ter conseguido tempo hábil para uma parada no meio do caminho e visitar Araxá, mas não se tratava de um passeio. Era uma viagem estilo caixeiro viajante para tratar de negócios. Mais precisamente, palestras. Depois de uma merecida noite de descanso na bela cidade do triângulo mineiro, partimos para o destino final: Caldas Novas.

Com cerca de 60.000 habitantes, este pequeno município goiano é considerado o maior sítio de fontes hidrotermais do planeta. Conhecia Caldas Novas de anos passados. Não vou dizer exatamente quando ou você irá me achar Jurássico. Basta falar que, na primeira vez em que estive em Caldas, as águas quentes ainda estavam mornando.

O motivo da viagem foi uma participação no 4º Encontro Nacional Dedo de Prosa da Melhor Idade, a convite do grande amigo Juarez Eliziário. O encontro foi excepcional. Centenas de pessoas simpáticas, esbanjando após os 60 anos uma vitalidade que não se vê em muitos meninos de 20 ou 30. Oficinas, bailes, lançamento do livro Para Além da Juventude e, entre outros eventos, uma palestra muito divertida sobre a aventura de envelhecer com saúde ministrada por um médico de Beozonte. Um rapaz de óculos, meio careca e muito simpático que escreve uma coluna aos domingos no Jornal Estado de Minas... o nome me fugiu agora, mas você deve saber quem é.

Ótimas pessoas, ótima estrutura, ótimos temas. Um abraço enorme à ajuda inestimável de Juarez, Rita, Adelson, Polyana & Poliana e todos os envolvidos na organização do Encontro. Espero comparecer novamente, no próximo ano.

Terminado o evento, saímos de Caldas Novas de volta à Uberlândia e então Belo Horizonte para, no mesmo dia, pegar um vôo para Governador Valadares e de lá, seguir por estrada até Teófilo Otoni. Praticamente o estado de Minas de ponta a ponta em um dia.

Não conhecia Governador Valadares e vou lhe contar uma coisa: é quente. Muito quente. Quase tanto quanto as águas de Caldas Novas. Mas ainda assim menos quente que Teófilo Otoni, onde estive para mais duas palestras, desta vez sobre Doenças Emergentes no Século XXI.

Durante a apresentação na capital das pedras preciosas, apenas uma coisa era mais abrasadora que o sol na calçada do lado de fora: a recepção teofilotonense no auditório do SESC-MG, com direito a presença do Secretário de Saúde Walter da Silva Gonçalves, da Diretora Luciene, do Frederico, do locutor Alan, grupos da Terceira Idade e acadêmicos de várias faculdades próximas. Foi uma apresentação recompensadora e um bate-papo interessante.

Na volta para casa, após dias de muita estrada e muita gente boa, restaram excelentes lembranças e a satisfação da troca de conhecimentos. Alguns podem afirmar que conversar com um auditório em Caldas Novas e outro em Teófilo Otoni não é suficiente para mudar o Mundo. Concordo e também tenho certeza absoluta disso. Todavia, o sentimento de dever cumprido pode ser compreendido através da história da Menina e as Estrelas do Mar:

Em uma distante cidade litorânea, após uma violenta tempestade, milhares e milhares de pequenas estrelas do mar foram jogadas pelas fortes correntezas, abandonadas à própria sorte para morrerem na praia. Curiosas, as pessoas da cidade foram até o local para presenciar o estranho fenômeno.

Um casal que caminhava de mãos dadas admirando a paisagem inusitada, deteve-se diante de uma menina que parecia não prestar atenção a mais nada, exceto ao que estava fazendo: cuidadosamente, ela pegava uma estrela e a devolvia às águas do mar. Certificava-se de que ela estava bem posicionada em seu habitat, acenava tchau, pegava outra estrela e repetia tudo de novo e de novo.

O casal trocou um entreolhar rápido e disse para a menina com ar condescendente:
- O que você está fazendo?
- Devolvendo as estrelinhas para casa, ora essa.
- Mas olhe à sua volta. Deve ter mais de um milhão de estrelas espalhadas pela areia!
- Eu sei.
- E você acha que jogar uma ou outra de volta ao mar irá fazer alguma diferença?
A menina abaixou-se, devolvendo mais uma estrela e dizendo:
- Para esta, faz.... – pegando a seguinte, disse: – e para esta faz... e para esta aqui também...

Após todas as andanças, a verdadeira recompensa vem do fato de ter encontrado em Caldas Novas e Teófilo Otoni centenas de pequenas estrelas. Com alguma sorte, posso ter feito alguma diferença na vida de algumas delas. E isto basta. Por enquanto.
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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

16 abril 2008

GRAN PRIX DE FÓRMULA SEXO

© Dr. Alessandro Loiola


Toca o celular. Segue uma voz feminina querendo mais informações sobre Viagra mastigável.

- ... Para uma matéria que estou escrevendo, doutor – fez questão de explicar a repórter do jornal de um estado vizinho. Pedi que ligasse mais tarde. Para emitir uma opinião embasada, precisava pesquisar melhor o assunto.

O Sildenafil, composto ativo do Viagra, foi descoberto nos anos 90 pelos laboratórios Pfizer. Inicialmente, a Pfizer estudava o papel da droga no tratamento de doenças cardíacas, mas um curioso efeito colateral fez com que as pesquisas tomassem outro rumo: durante os testes clínicos, o sildenafil mostrou ser capaz de induzir fortemente ereções penianas.

Em março de 1998, o sildenafil tornou-se o primeiro remédio aprovado nos Estados Unidos para tratamento da impotência sexual masculina. Desde então, as vendas mundiais do remédio vêm rendendo mais de 1 bilhão de dólares ao laboratório a cada ano.

Como a patente mundial da Pfizer para fabricação do citrato de sildenafil só expira em 2011 (ou seja: apenas a Pfizer está autorizada a sintetizar o composto até lá), a saída da concorrência foi modificar a estrutura do sildenafil e produzir substâncias pouco diferentes, porém com efeitos idênticos.

Adicione um carbono e dois hidrogênios à molécula do sildenafil, leve ao forno por 10 minutos e você terá a vardenafila. Com alguns hidrogênios e nitrogênios a menos, sem o molho de enxofre, cozinha-se a tadalafila. E, em pleno raiar do século XXI, estava alinhado o gride de largada para o Grand Prix de Fórmula Sexo.

Não tardou e alguns países Latindo Americanos observaram nesta corrida boas chances de lucros. No Uruguai, por exemplo, não há produção de genéricos. Para baratear os custos de alguns remédios, foi aprovada em 1998 uma Lei que permite que laboratórios locais sintetizem princípios ativos de outras companhias, desde que a empresa recolha 5% do valor das vendas à detentora da patente original. Uma forma bacana de pirataria oficializada para o bem de todos e felicidade geral da nação.

Apesar de bem mais baratos, os medicamentos uruguaios não possuem registro na ANVISA, agência reguladora vinculada ao Ministério da Saúde responsável pelo monitoramento da qualidade de todos os remédios vendidos no Brasil. Sem esta forma de controle, os genéricos uruguaios importados irregularmente correm o risco de não conter a quantidade correta do princípio ativo, ou – pior – possuírem contaminantes potencialmente nocivos à saúde. Desde setembro de 2006, o sildenafil uruguaio tem estado na mira da ANVISA e da Policia Federal, para desespero de donos de motéis e agremiações de homens de meia idade.

Pensa que acabou aí? Pois em 2003 uma mega-indústria americana de goma de mascar conseguiu sintetizar uma forma mastigável do sildenafil. Devido aos problemas de reserva de patente, o “chiclete de viagra” deve aguardar ainda alguns anos até ser colocado no mercado. Obviamente, isto não impediu que versões similares surgissem (adivinhe onde?) no Paraguai.

E aqui chegamos finalmente ao viagra mastigável “made in Paraguai”, que vem sendo vendido com grande alarde e propaganda através da Internet e anúncios em classificados. Mas não existem estudos clínicos mostrando que estes comprimidos possuem efeito superior às apresentações de sildenafil registradas na ANVISA. Além disso, pairam sobre os genéricos paraguaios as mesmas preocupações com relação à bioequivalência e segurança dos seus primos uruguaios.

Toda essa fuzarca em torno dos medicamentos para disfunção erétil baseia-se na idéia visceral de que, se um homem é capaz de levantar, entrar e sair, ele é um sujeito másculo e realizado. Infelizmente, esta é de fato a noção limitada que a maioria dos homens tem sobre o sexo.

Incontáveis pesquisas realizadas nos últimos 30 anos mostraram que uma experiência sexual completa e verdadeiramente satisfatória – tanto do ponto de vista masculino como feminino – deve vir acompanhada de um profundo envolvimento emocional. E este nível de percepção não é vendido em caixinhas com comprimidos azuis.

Por isso, apesar dos avanços tecnológicos, os seres sensíveis que são os homens deverão continuar deslumbrando suas mulheres com ereções incríveis e comentários desanimadores, como a conversa do casal logo após aquele fantástico sexo selvagem:

- Querido, o que você prefere? Uma mulher bonita ou inteligente?
- Nem uma, nem outra, meu amor. Você sabe que eu gosto só de você!

Mais macho, impossível.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

05 abril 2008

O QUE VOCÊ SABE DE VERDADE SOBRE A ACNE?

© Dr. Alessandro Loiola


A acne é uma das doenças mais comuns da pele: cerca de 80% das pessoas sofrem com esta praga em algum momento de suas vidas.

Felizmente, o que antes era um suplício sem fim, se tornou um problema absolutamente tratável e curável. Por exemplo: você sabia que nas últimas duas décadas, graças aos estudos de uma substância derivada da vitamina A, chamada Isotretinoína, foi possível chegar à cura da acne?

Quando bem indicado e acompanhado por um profissional capacitado, o tratamento com Isotretinoína é capaz de resolver a imensa maioria dos casos em 6-8 meses. O principal risco relacionado a este medicamento é a possibilidade de má-formação fetal, motivo pelo qual deve ser utilizado com cuidados redobrados em mulheres em idade fértil. Outros possíveis efeitos colaterais, como dores de cabeça e ressecamento labial, são reversíveis e desaparecem com a interrupção do tratamento.

Apesar das pesquisas, avanços e conquistas sobre o assunto, alguns mitos sobre a Acne parecem ter 7 vidas, e vez ou outra ressurgem em um bate-papo no consultório ou durante um encontro casual com os amigos.

Em uma situação dessas, será que você conseguiria separar o joio do trigo? Faça o teste com as perguntas a seguir e veja quantas você é capaz de acertar:

A acne é pior na adolescência.
Verdadeiro. A relação exata entre acne e adolescência ainda é desconhecida. Acredita-se que o problema esteja relacionado às variações hormonais típicas do período, que fazem com que as glândulas sebáceas aumentem seu tamanho em até três vezes, facilitando o desenvolvimento das espinhas.

O sol melhora a acne.
Falso. A princípio, o sol mascara a acne, desidratando as glândulas da pele, e parece melhorar o quadro geral. Contudo, o sol também danifica os folículos e causa entupimento dos poros, resultando em mais acne – este efeito em geral surge 3-4 semanas após exposição à luz solar.

Quanto mais sexo, mais acne.
Falso. Um dos mitos mais famosos relaciona atividade sexual ao agravamento da acne. Isto, obviamente, não possui qualquer fundamento. Na verdade, o sexo pode reduzir os níveis de estresse e com isto diminuir a acne. Não conte isso para o seu filho adolescente.

Pizza, chocolate e outras “guloseimas” causam acne.
Falso. Na maioria das pessoas, não existe uma associação específica entre determinados alimentos e acne. O que existe é uma relação entre a acne e a quantidade de calorias ingeridas: dietas com excesso de calorias aumentam os níveis de testosterona, e a testosterona aumenta a produção de secreção nas glândulas da pele - que posteriormente se transformarão em lesões da acne.

Pasta de dente ajuda.

Falso. Além de você ficar com aquela cara de quem acabou de ser atacado por um tubo de dentifrício raivoso, o flúor presente nos cremes dentais podem irritar ainda mais o local da aplicação, piorando a acne.

É bom manter o rosto sempre limpo.
Verdadeiro. Mas tome cuidado com a intensidade da limpeza, pois a pele precisa de um nível específico de pH para manter-se saudável.

Se você quiser ajudar ao invés de atrapalhar, é suficiente lavar o rosto duas ou três vezes por dia, no máximo, desde o queixo até a linha de cabelos na parte superior da testa, com movimentos circulares e delicados. Enxágüe com bastante água morna e utilize uma toalha macia para secar a pele. Não utilize buchas ou esponjas.

A escolha adequada do sabonete é crucial. Sabonetes detergentes ajudam a diminuir a produção de sebo, mas em alguns casos podem piorar a doença. Prefira sabonetes leves (p.ex., desses indicados para bebês).

Espremer melhora.

Falso. Em hipótese alguma esprema suas espinhas – isto só aumenta o risco de cicatrizes e infecções.

Cosméticos não pioram a acne
Falso. Cosméticos oleosos (p.ex.: batons) podem facilitar o desenvolvimento da acne. Produtos capilares como laquês, quando em contato com a pele, podem causar queimação ou irritação na pele de pessoas com acne, acentuando o problema.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

09 março 2008

TPM - GUIA PARA SOBREVIVENTES

© Dr. Alessandro Loiola



Muitos pesquisadores consideram a Tensão Pré-Menstrual, ou TPM, um evento fisiológico absolutamente normal. Do mesmo nível que acessos de riso, flatulências em público e homens que não cortam as unhas dos pés. É óbvio que estes pesquisadores devem ser solteiros, moram em gaiolas e não tem a menor idéia do que estão falando.

A TPM afeta até 80% as mulheres em algum momento de suas vidas, sendo mais comum entre os 20 e 30 anos de idade. Em cerca de 5% dos casos, os sintomas são graves o suficiente para incapacitar completamente a pobre durante a crise. E isso não tem nada de fisiológico.

A lista de sintomas da TPM possui mais de 150 itens, sendo os principais: cólicas abdominais (causadas pela contração do útero), fadiga, urticária, irritabilidade, isolamento social, depressão, ansiedade, insônia, baixa auto-estima, dores para todo lado, diminuição do desejo sexual, hiperreatividade emocional (briga com filhos, marido, cabelo, geladeira, esmalte, meia-calça...), problemas de memória, dificuldade de concentração, incapacidade para terminar tarefas, náuseas e alterações do apetite.

Não se sabe a causa exata da TPM. Alguns sugerem que a síndrome esteja relacionada a uma sensibilidade anormal aos níveis de progesterona liberados durante a segunda metade do ciclo menstrual. Um dos efeitos desta supersensibilidade seria a redução dos níveis serotonina, um neurotransmissor envolvido no controle do humor.

De fato, boa parte das manifestações da TPM está relacionada às alterações nos níveis de estrogênio e progesterona, que começam a ocorrer uma ou duas semanas antes de chegada da menstruação. Outros fatores hormonais, nutricionais e afetivos também participam da entorna do caldo.

Algumas mulheres sofrem de TPM a vida inteira, outras nunca, algumas nem percebem. Se você acha que tem sorte e a TPM ainda não lhe pegou, tenho uma notícia: lembra aquele dia em que você percebeu no almoço que havia saído cedo de casa com a blusa virada de frente para trás? E apenas no final da tarde se deu conta que havia consertado colocando do lado avesso? Era ela. A bendita. A TPM.

E quando você começou a pensar que o homem perfeito não era alto, moreno e sexy, mas qualquer um que viesse cego, amordaçado e de preferência em chamas ou com alguma doença terminal? Pois olha aí. Ela de novo.

Dizem que principal diferença entre um grupo de terroristas e um grupo de mulheres com TPM é que você pode negociar com o primeiro. Pessoalmente, eu não acredito nisso. Alguns terroristas não são perigosos desse jeito. Em todo caso, para ajudar a controlar a TPM e evitar acidentes com armas biológicas no futuro, recomendo que você considere as seguintes dicas:

- Siga uma alimentação saudável. Uma dieta balanceada, pobre em sal e rica em nutrientes naturais, oferece ao corpo os elementos certos para reduzir os sintomas, a retenção de líquidos, a fadiga e as cólicas. Mas nada de extremos: permita-se um mimo e compre 2 ou 3 bombons.

- Faça exercícios ! Atividades aeróbicas aliviam o estresse e aumentam os níveis de endorfinas e outros hormônios com propriedades relaxantes. O efeito é melhor quando os exercícios são realizados regularmente, e não apenas quando aquele espírito homicida ameaça tomar conta do seu corpo.

- Largue esta praga chamada cigarro. Além de aumentar seu risco para uma infinidade de desgraças, o cigarro também acentua os sintomas da TPM.

- Converse com seu médico a respeito de suplementos naturais. O cálcio é capaz de reduzir os gases, a depressão e as dores em algumas mulheres. O magnésio é útil nos casos de TPM associada à enxaqueca, mas não deve ser utilizado por pessoas com problemas renais. A associação de magnésio com piridoxina (vitamina B6) pode ser empregada para reduzir a ansiedade associada a TPM. O Vitex (Vitex agnus castus) é um fitoterápico muito popular que reduz as dores nas mamas, as alterações de humor e a constipação intestinal na TPM.

- Mantenha um bom padrão de sono, diminuindo a quantidade de café e açúcar à noite. E nada de bebidas alcoólicas durante o período.

- Se você estiver no pequeno grupo de mulheres que se tornam inválidas durante a TPM, verifique com seu médico a possibilidade de utilizar medicamentos mais específicos para o problema. Eles existem e incluem antidepressivos, diuréticos e antiinflamatórios não-hormonais.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

25 fevereiro 2008

KING KONG TEEN

© Dr. Alessandro Loiola
br.groups.yahoo.com/group/saudeparatodos/



Estava exercitando o ócio à tarde, durante os preparativos para a virada de ano, quando alguém apareceu com uma sacola de DVDs.

- Depois de uma praia e um bom almoço, nada como assistir um filme para relaxar antes dos festejos, hein?

Escolha vai, escolha vem, ficamos com uma refilmagem de King Kong. No elenco, um gorila virtual e manadas de computação gráfica. No roteiro, a velha expedição a uma terra desconhecida, o confronto com nossos medos mais primitivos e aquela incrível capacidade de espalhar a barbárie que só o homem civilizado tem.

Com o correr do filme, não foi preciso fazer muito esforço para perceber que King Kong é uma grande analogia com um período muito especial de nossas vidas: a adolescência.

Assim como na saga do gigante Kong, o término da infância – e de toda a inocência acumulada no período - quase sempre ocorre como um novo parto, com festas de ganhos e dores perdas. E apesar da turbulência, a ternura e a compreensão da família são capazes, sim, de controlar os impulsos da fera dentro de nós.

Muitas pessoas dizem que, se a vida fosse uma viagem, os aborrecentes seriam aqueles sujeitos que acabaram de descer do navio. Mesmo em terra firme, continuam enjoados. Mas o rótulo aborrecido que ronda a geração teen é extremamente tendencioso. Ele parte de levas de gentes que há muito não se deslumbram com o mundo. De adultos que não vivem mais, apenas sobrevivem, indo de uma conta à outra.

A aborrecência é um período mágico de crescimento e desenvolvimento físico e emocional. Ela se estende dos 11 aos 16 anos nas meninas e dos 13 aos 18 anos nos meninos, aproximadamente. Neste curto intervalo, assistimos ao corpo mudar em ritmo frenético. Pêlos, saliências e protuberâncias surgem por toda parte. A voz muda. As atitudes mais ainda.

Vivendo nos extremos há muito esquecidos por nós, o aborrecente começa sua aventura por uma dimensão até então oculta: o mundo governado pelos hormônios. Neste universo paralelo, o ajuste à realidade não é mole. A proliferação de incertezas pode resultar em comportamentos rebeldes ou introspectivos, roupas estranhas, desânimo e depressão. Em contrapartida, existem ocasiões onde a disposição excessiva do aborrecente causa surtos de entusiasmo, obrigando os pais a levá-lo à sessões de musicoterapia baiana na festa de axé mais próxima.

Reações contra a autoridade são comuns. O jovem neste período freqüentemente experimenta o desejo de expressar sua própria personalidade, formar um caráter definido e provar o máximo de sensações possíveis. Atritos com valores e padrões preestabelecidos pelo mundo adulto são inevitáveis.

A maioria dos aborrecentes gosta da oportunidade de assumir responsabilidades e tornar-se mais independente. Contudo, eles podem ter dificuldades em lidar com os desafios. Em alguns momentos, podem agir de maneira independente. Em outros, têm o desejo de serem dependentes. Esta alternância enervante é absolutamente natural.

Como em qualquer expedição aventureira a uma terra distante, a adolescência marca o momento de preparar as malas para a longa viagem do mundo adulto. É importante incluir na bagagem tudo aquilo que será útil mais adiante. Esteja sempre à disposição para conversar com o exemplar que você tem em casa, fale abertamente sobre os riscos do uso de cigarro, a segurança ao dirigir automóveis, o alcoolismo, o uso de drogas ilícitas, a sexualidade e a gravidez.

Mas atenção: o vínculo de confiança com o aborrecente não deve ser confundindo com ser “amigo do seu filho”. Seja pai e mãe do seu filho, não amigo. Amigo ele tem e terá aos montes. Pai e mãe, ele só terá 1 de cada. Um aborrecente que pegou o carro escondido ou chegou em casa embriagado deve receber medidas iguais de disciplina e compreensão.

Informe-se e ofereça tolerância, simpatia, equilíbrio, conselhos e discussões sobre todos os problemas fisiológicos e psicológicos que acompanham este período da vida. Os aborrecentes podem levar tempo para amadurecer, especialmente os meninos. Felizmente, com uma orientação bem temperada, seu King Kong Teen estará pronto para conquistar o mundo assim que deixar a ilha. Faça acontecer.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde apresenta o quadro BEM VIVER na TV Alterosa / SBT.

21 fevereiro 2008

Como controlar o estresse?


Clique sobre a imagem para assistir ao quadro Bem Viver da TV Alterosa / SBT.

PAIS SUPERPROTETORES

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Nestes tempos de violência gratuita e justiça cega, o instinto natural de proteção da cria vem ganhando contornos dramáticos. Não é raro encontrar pais que tentam vigiar seus filhos armando os pimpolhos de telefones celulares, pagers e localizadores GPS.

Eu acredito até que se o pessoal do telescópio Hubble vendesse um serviço de localização permanente de crianças com imagens on-line em tempo real, ia ter uma fila de pais e mães angustiados querendo fazer uma assinatura. O que antes era um mero comportamento de elites, virou uma pandemia, e os Pais Superprotetores se espalharam pelo mundo feito um vídeo qualquer do YouTube.

É natural querer proteger seus filhos, mas interferir constantemente para amaciar o mundo para a criança é uma forma garantida de diminuir a sua autoconfiança. Um pai superprotetor está enviando a seguinte mensagem para seu filho: “Tenha medo, muito medo!, de qualquer coisa ou situações nova, porque você é incapaz de resolver as coisas por si só”.

Em crianças mais velhas, o fato de ter um pai ou uma mãe superprotetores não é compreendido como uma demonstração de amor e preocupação. Elas entendem isso como uma falta de confiança na sua própria capacidade – e este ‘rótulo’ pode ter sérias conseqüências na idade adulta.

Você pode ser considerado superprotetor(a) quando:

- Acredita que qualquer tipo de atividade física pode machucar seriamente seu filho (até mesmo atravessar uma rua tranqüila).

- Em situações do dia-a-dia (p.ex.: uma excursão supervisionada da escola) fica mais ansioso que seu filho, com medo de que algo dê errado ou de que a criança vá ser seqüestrada.

- Gruda no seu filho durante qualquer brincadeira, dando orientações para que ele não se machuque.

- Não permite que a criança se envolva em atividades que possuam até mesmo um risco mínimo de acidentes (p.ex.: brincar de pique esconde).


Se você acredita que está sendo um pai ou mãe superprotetor, não se aflija nem corra para o consultório psiquiátrico mais próximo. Antes, tente implementar algumas dicas simples para lidar com o problema:

- Primeiro passo: confirme sua suspeita. Pergunte a alguns amigos ou parentes se eles acham você superprotetor. Se a resposta for positiva, não vá discutir tentando convencer o contrário.

- Segundo passo: OUÇA seu filho. Converse com ele. Explique que toda sua preocupação vem do amor que você sente por ele, e que você confia na capacidade dele para vencer certos desafios. Mostre os perigos envolvidos em determinadas atividades e entre em um acordo sobre o que deve ser feito se algo der errado.

- Proibir seu filho de fazer uma certa atividade é um direito seu. Não menospreze o peso da sua experiência. É óbvio que a capacidade de julgamento dos pais é superior a dos filhos, e o que é seguro para uma criança, pode não ser para outra. Desde que você explique isso para seu filho – e sem exageros -, não haverá problema.

- Tudo bem, supervisionar seu filho é o melhor remédio para mantê-lo a salvo. Concordo com isso. Mas saiba que mantê-lo sob sua vigilância 100% do tempo também é a receita para produzir um adulto inseguro. Use sua inteligência para encontrar o equilíbrio.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde apresenta o quadro BEM VIVER na TV Alterosa / SBT.

10 fevereiro 2008

VIAJANDO PELOS DOMÍNIOS DA VONTADE

© Dr. Alessandro Loiola
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Um leitor manda seu pedido de socorro: como se não bastasse a dor de cabeça crônica, no último ano terminou desenvolvendo excesso de peso e hipertensão arterial. Para completar, sentia-se absolutamente sem energia para mudar, como se a vontade para vencer tivesse desaparecido no vento. Após vários exames, nada mais estava errado, exceto pelos problemas citados. Qual a saída?

Qualquer roteiro para solução de problemas que se preze deve começar pelo início que é o princípio de tudo: elimine primeiro o que mais incomoda. Como ninguém consegue fazer coisa alguma direito com dor – especialmente dor de cabeça -, seu controle se torna essencial para os passos seguintes.

A dor de cabeça - cefaléia, no jargão dos médicos - não constitui uma doença em si mesma, mas pode representar várias doenças potencialmente graves. O tipo mais comum, chamada cefaléia tensional, é causada pela contração persistente da musculatura do pescoço e ombros. Nada de aneurismas ou tumores no cérebro: a cefaléia tensional quase sempre decorre da incapacidade em lidar de modo adequado com o estresse do dia a dia. A carapuça coube?

Assim como outras dores, a cefaléia pode ser o sinal de alerta para distúrbios mais sérios. Nosso amigo garantiu que, no caso dele, a dor não estava relacionada a crises de pressão elevada, febre, problemas visuais ou quaisquer outros sintomas.

Para se livrar da cefaléia tensional, devem ser empregados antiinflamatórios, técnicas de relaxamento mental e revisão dos hábitos alimentares. Mas atenção: algumas pessoas podem achar que descontando na comida e entupindo o cérebro com açúcar estão fazendo um grande negócio. Consumir muitas calorias pode aliviar temporariamente a dor de cabeça, mas não resolve a questão, além de nutrir problemas diferentes como aterosclerose, obesidade e diabetes.

Superado o obstáculo número 1, passamos ao seguinte: a falta de vontade. “E a hipertensão ?”, você poderia perguntar. “Não é importante manter a pressão sob controle, corrigir logo o excesso de peso, os triglicerídios, o colesterol...?”. Ah, certo, mais um discípulo da Medicina Espetacularmente Reducionista Da Atualidade ! Não vou abreviar porque senão fica feio.

Esta nem tão nova escola médica funciona da seguinte maneira: o sujeito chega sedentário, fumante, se queixando de angina, arritmia, disfunção sexual e outras 7 pragas do Egito, e qual ação o médico toma? A mesma que o paciente espera receber: um carrinho de supermercado com vários quilos de pílulas, frascos e comprimidos. Um para cada sintoma. É mais fácil tratar várias conseqüências que descobrir uma causa.

Parece óbvio, mas vale a pena ouvir de novo: a raiz da imensa maioria dos seus problemas não está no reino das bactérias, vírus, gorduras trans e frangos contaminados por hormônios. Não raramente, esta raiz está fincada nos domínios da sua vontade. Para entender melhor o que isso significa, é preciso dar uma guinada no caminho para visitar a sociedade perfeita de Platão.

Platão, filósofo Grego, acreditava que a sociedade perfeita só seria alcançada quando Reis Filósofos governassem o Povo por meio de Soldados. Apesar da idéia de soldados e regimes totalitários não trazer boas lembranças, ela serve para uma analogia.

Para governar e progredir com seu corpo, essa máquina de 1 trilhão de células que acompanha a consciência, você deve trocar Reis Filósofos por “razão”, Povo por “desejo” e Soldados por “vontade”: o organismo humano realmente saudável é aquele onde a Razão governa o Desejo por meio da Vontade.

Sofrer de hipertensão, obesidade, diabetes, ansiedade ou depressão não é o fim do mundo - caixas de remédios oferecem bons paliativos para isso. Perder-se do raciocínio ou ver extinta a motivação para continuar lutando, sim, é o fim da picada. É por aí que qualquer tratamento de verdade deve começar.

A solução para muitos problemas de saúde aguarda sua visita nos domínios da vontade. Pegue seu passaporte de inteligência e comece ainda hoje essa viagem! Lembre-se: pode não haver cura para o nascer e o morrer, mas você é livre para ir saboreando o intervalo.

Feliz Ano Novo !

20 janeiro 2008

SEGURANÇA EM CASA: VOCÊ LEMBROU DAS CRIANÇAS?


© Dr. Alessandro Loiola


Conheço muitas crianças precoces, mas nenhum arquiteto ou engenheiro com 5 anos de idade. Talvez por isso as casas continuem sendo projetadas por adultos para adultos, deixando as crianças em segundo plano. Não, pensando bem, é a sala que vem em segundo plano. A cozinha está em primeiro. Depois vêm os banheiros, os quartos, os armários embutidos, o rebaixamento em gesso... hum, não vi “crianças” escrito na planta, não.

Este enfoque arquitetônico exclusivamente adultofílico pode fazer com que o lar-doce-lar se torne um verdadeiro parque de acidentes para os seus filhos. Escadas, tomadas, banheiros, portas e tantas outras coisas tão corriqueiras para nós podem representar um enorme risco para os pequeninos.

Você vive ouvindo que a melhor coisa que você pode gastar com suas crianças se chama tempo, porém nem sempre é possível (ou aconselhável) mantê-las sob sua supervisão constante. Para diminuir o risco de dores de cabeça na sua ausência, recomendo conferir o nível de segurança da sua casa de acordo com os seguintes itens:

ESTRANGULAMENTO
Cuidado com fios telefônicos, cordões de cortina, portas sanfonadas e portas que fecham sob pressão.

SUFOCAÇÃO
A sufocação costuma ser causada por alimentos, brinquedos e outros objetos pequenos que obstruem as vias respiratórias da criança. É fácil deixar passar desapercebidos objetos perigosos espalhados pelo chão, tais como pequenas partes de brinquedos, moedas, alfinetes, clipes de papel, bolas, borrachas, baterias, pilhas, anéis, brincos, ímãs de geladeira e tampinhas, especialmente quando o piso é escuro ou manchado. Se puder escolher, opte por pisos mais claros.

ENVENENAMENTO
Armários contendo maquiagens, bebidas alcoólicas e materiais de limpeza devem ser posicionados fora do alcance ou contar com trancas que impeçam o acesso das crianças. Cuidado com as plantas que você escolhe para a decoração.

AFOGAMENTO

O afogamento pode ocorrer em locais com níveis mínimos de água: sem supervisão, um bebê pode ser afogar em uma banheira contendo menos de 5 cm de água. Se você tiver uma piscina em casa, instale uma cerca com no mínimo 1 metro de altura em volta dela. Deixe o portão de acesso à piscina sempre fechado. Se for uma daquelas piscinas infláveis ou de montar, esvazie-a quando as crianças terminarem de brincar. E mantenha a porta do banheiro sempre fechada: por mais nojento que possa parecer, o vaso sanitário deve ser considerado um local de risco de afogamento para o bebê.

CORTES

Arranhões e pequenos cortes são um fardo da infância, mas isso não significa que você deva deixar a criança à vontade com um jogo de reluzentes facas estilo Rambo. Mantenha tesouras, copos de vidro, latas, barbeadores, chaves-de-fenda e todo e qualquer tipo de instrumento pontiagudo ou cortante fora do alcance das crianças.

QUEIMADURAS E CHOQUES

Não passe fios elétricos sob tapetes, e não sobrecarregue tomadas e disjuntores. Tampe as tomadas que não estão sendo utilizadas com protetores específicos. Coloque a televisão, aparelhos de som e outros equipamentos elétricos bem próximos à parede - isto ajuda a evitar que a criança coloque a mão atrás deles.

QUEDAS

Os filhos nos ensinam muito. Por exemplo, com eles, você aprende em pouco tempo quanto vale uma noite de sono e até onde vai o limite da sua paciência. Com o passar dos meses - e a sistemática revisão deste limite -, você irá perceber que o bebê tende a se aventurar pelos recantos mais inóspitos da casa, subindo, pulando e escalando o que estiver pela frente. As quedas são inevitáveis. Se você mora em andares altos, coloque grades ou redes em todas as janelas, retirando cadeiras, sofás e camas de perto.

Finalmente, as mesas, a TV e os armários de chão devem estar firmes e fortes. Se for necessário, compre e instale braçadeiras em “L”, prendendo os móveis à parede para evitar que eles caiam sobre o bebê alpinista. De resto, é só sentar e relaxar para contemplar esta fase tão mágica e relaxante que é a infância. Do ponto de vista das crianças, lógico.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

15 janeiro 2008

A MARAVILHOSA MÁQUINA HUMANA

© Dr. Alessandro Loiola


Recebo tantos e-mails com alertas de pseudociência que estou pensando em ir até a escola dos meus filhos e reclamar. Nos livros deles, vejo escrito por toda parte que o “ser humano é a espécie mais inteligente do planeta”. Deve ter alguma coisa errada nesse raciocínio.

Exemplo: recebi um alerta de uma profissional de saúde sobre uma droga diabólica. Administrada na forma de trote, ela seria capaz de causar infertilidade permanente em jovens donzelas incautas... Tentei esclarecer a digníssima emissária sobre o boato esdrúxulo disfarçado de notícia, mas fui impedido pela surdez e a cegueira de sempre. Terminei recebendo uma resposta mal criada. É possível que em breve ela envie outra versão dos seqüestradores de órgãos no shopping, e terei que ouvir alguém comentando no celular: “Filho, cuidado, hein? Deu na Internet que eles estão roubando córneas no banheiro e rins no estacionamento!”.

Triste, muito triste. A ciência de verdade é tão mais interessante que a fantasia, mas ainda assim menosprezada nas manchetes. Acompanhe-me em um rápido passeio. Vamos para a rua, em uma noite qualquer. Olhe para cima. Fora a placa de Dona Judith jogadora de búzios pregada no poste, o que você vê? A Criação. É espantoso, não é? E absolutamente real.

Continue olhando para cima e conseguirá identificar Júpiter, o maior planeta do nosso pequeno sistema solar e um dos corpos celestes mais brilhantes do céu noturno. Ao seu lado, Antares, uma estrela imensa. Que parece nada próxima de Cephei, um dos mais gigantescos astros conhecidos.

Cephei, localizada a 3.000 anos luz da Terra, é 288 mil vezes maior que o nosso planeta. Divagando dentro da lei da proporcionalidade, um ser humano vivendo em um planeta orbitando Cephei teria mais de 500 Km de altura, e o monte Everest caberia na palma da sua mão.

Agora tire os olhos do céu antes que fique com torcicolo ou seja vítima de um assalto. Entre em casa. Sente-se e vamos explorar um outro megauniverso espantoso um pouco mais próximo: seu próprio corpo.

Ao nascer, todo seu sangue caberia em uma xícara de café. Na fase adulta, ele ultrapassa os 5 litros de volume, circulando pelo corpo inteiro mais de 1.000 vezes a cada dia. Esta movimentação toda é patrocinada por um músculo incansável: o coração. Uma única batida produz pressão suficiente para bombear o sangue a mais de 10 metros de distância. Por volta dos 40 anos de idade, seu amigo do peito já terá feito isso mais de 1 bilhão de vezes.

Apesar do esforço, o coração não é seu músculo mais forte. De todos os cerca de 600 músculos que habitam o corpo, o título de Mister Olympia pertence à língua. Que está na boca, onde são produzidos mais de meio litro de saliva diariamente – sem que você seja incomodado com isso.

A boca também inicia o processo de deglutição, que se repete quase 300 vezes durante o almoço, fazendo com que a comida chegue ao estômago em apenas 7 segundos. Ao final do trajeto digestivo, uma nota de extrema relevância: um flato é capaz de se deslocar a mais de 5 metros de distância. Considere isso na próxima vez que for entrar no elevador.

As vias respiratórias, auxiliadas por um músculo da espessura do seu dedo indicador, jogam ar nos seus pulmões mais de 20 mil vezes por dia. Se alguma impureza for aspirada, você poderá eliminá-la com um espirro ou uma tosse, que freqüentemente ultrapassam os 100 Km/h de velocidade.

O esforço de um espirro contido pode ser suficiente para provocar o rompimento de um vaso sangüíneo no cérebro ou fraturar uma costela. Felizmente, poucas pessoas têm mania de engolir espirros. Além disso, todos ossos de uma pessoa jovem e saudável são renovados a cada 3 meses, deixando-os com uma resistência até 4 vezes maior que o concreto.

Esta incrível orquestra de tecidos é mantida em harmonia por uma massa esponjosa de 1,5 Kg de peso e 78% de água contendo mais de 100 bilhões de células especializadas: o cérebro. As células cerebrais nunca descansam. Elas cuidam desde as 25 piscadelas de olhos que você dá a cada minuto até os mais de 1.500 sonhos que temos por ano. Tudo isso enquanto troca informações com o corpo através de uma rede nervosa com mais de 90 Km de comprimento.

Como uma máquina tão complexa e magnífica pode perder tempo chafurdando no lixo da pseudociência, dando atenção para falsos conhecimentos e nutrindo um sem-número de medos irracionais ? A despeito desta absoluta falta de admiração com a realidade que nos cerca, continuamos nos intitulando presunçosamente de “a espécie mais inteligente”. Não vejo a hora dos cupins questionarem isso em um fórum da ONU. Talvez eu receba um e-mail.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

31 dezembro 2007

VIAJANDO PELOS DOMÍNIOS DA VONTADE


© Dr. Alessandro Loiola


Um leitor manda seu pedido de socorro: como se não bastasse a dor de cabeça crônica, no último ano terminou desenvolvendo excesso de peso e hipertensão arterial. Para completar, sentia-se absolutamente sem energia para mudar, como se a vontade para vencer tivesse desaparecido no vento. Após vários exames, nada mais estava errado, exceto pelos problemas citados. Qual a saída?

Qualquer roteiro para solução de problemas que se preze deve começar pelo início que é o princípio de tudo: elimine primeiro o que mais incomoda. Como ninguém consegue fazer coisa alguma direito com dor – especialmente dor de cabeça -, seu controle se torna essencial para os passos seguintes.

A dor de cabeça - cefaléia, no jargão dos médicos - não constitui uma doença em si mesma, mas pode representar várias doenças potencialmente graves. O tipo mais comum, chamada cefaléia tensional, é causada pela contração persistente da musculatura do pescoço e ombros. Nada de aneurismas ou tumores no cérebro: a cefaléia tensional quase sempre decorre da incapacidade em lidar de modo adequado com o estresse do dia a dia. A carapuça coube?

Assim como outras dores, a cefaléia pode ser o sinal de alerta para distúrbios mais sérios. Nosso amigo garantiu que, no caso dele, a dor não estava relacionada a crises de pressão elevada, febre, problemas visuais ou quaisquer outros sintomas.

Para se livrar da cefaléia tensional, devem ser empregados antiinflamatórios, técnicas de relaxamento mental e revisão dos hábitos alimentares. Mas atenção: algumas pessoas podem achar que descontando na comida e entupindo o cérebro com açúcar estão fazendo um grande negócio. Consumir muitas calorias pode aliviar temporariamente a dor de cabeça, mas não resolve a questão, além de nutrir problemas diferentes como aterosclerose, obesidade e diabetes.

Superado o obstáculo número 1, passamos ao seguinte: a falta de vontade. “E a hipertensão ?”, você poderia perguntar. “Não é importante manter a pressão sob controle, corrigir logo o excesso de peso, os triglicerídios, o colesterol...?”. Ah, certo, mais um discípulo da Medicina Espetacularmente Reducionista Da Atualidade ! Não vou abreviar porque senão fica feio.

Esta nem tão nova escola médica funciona da seguinte maneira: o sujeito chega sedentário, fumante, se queixando de angina, arritmia, disfunção sexual e outras 7 pragas do Egito, e qual ação o médico toma? A mesma que o paciente espera receber: um carrinho de supermercado com vários quilos de pílulas, frascos e comprimidos. Um para cada sintoma. É mais fácil tratar várias conseqüências que descobrir uma causa.

Parece óbvio, mas vale a pena ouvir de novo: a raiz da imensa maioria dos seus problemas não está no reino das bactérias, vírus, gorduras trans e frangos contaminados por hormônios. Não raramente, esta raiz está fincada nos domínios da sua vontade. Para entender melhor o que isso significa, é preciso dar uma guinada no caminho para visitar a sociedade perfeita de Platão.

Platão, filósofo Grego, acreditava que a sociedade perfeita só seria alcançada quando Reis Filósofos governassem o Povo por meio de Soldados. Apesar da idéia de soldados e regimes totalitários não trazer boas lembranças, ela serve para uma analogia.

Para governar e progredir com seu corpo, essa máquina de 1 trilhão de células que acompanha a consciência, você deve trocar Reis Filósofos por “razão”, Povo por “desejo” e Soldados por “vontade”: o organismo humano realmente saudável é aquele onde a Razão governa o Desejo por meio da Vontade.

Sofrer de hipertensão, obesidade, diabetes, ansiedade ou depressão não é o fim do mundo - caixas de remédios oferecem bons paliativos para isso. Perder-se do raciocínio ou ver extinta a motivação para continuar lutando, sim, é o fim da picada. É por aí que qualquer tratamento de verdade deve começar.

A solução para muitos problemas de saúde aguarda sua visita nos domínios da vontade. Pegue seu passaporte de inteligência e comece ainda hoje essa viagem! Lembre-se: pode não haver cura para o nascer e o morrer, mas você é livre para ir saboreando o intervalo.

Feliz Ano Novo !


19 dezembro 2007

MITOS SOBRE A PÍLULA

© Dr. Alessandro Loiola

A Pílula é o método de contracepção mais comum no mundo, sendo utilizada atualmente por mais de 90 milhões de mulheres. Ela atua evitando a liberação do óvulo pelos ovários, um evento que normalmente ocorre por volta do 14º dia do ciclo menstrual e que pode resultar em graves crises de ansiedade em namorados adolescentes. Felizmente, sem ovulação, nada de gravidez.

Apesar das extensas pesquisas realizadas desde a década de 1960, alguns mitos sobre a popular Pílula ainda persistem. Para facilitar, selecionei os mais comuns. Quantos você é capaz de responder corretamente?


Pílula engorda?

Não engorda. Ainda que o ganho de peso esteja entre as queixas mais comuns das mulheres que tomam a pílula, mais de 70% das usuárias não sofrem qualquer alteração neste sentido durante todo o tempo de uso do anticoncepcional.


Pílula causa espinhas?

Não necessariamente. Os androgênios têm sido implicados na etiologia da acne vulgar, possivelmente por intensificar a hiperceratose folicular. A pílula reduz os níveis sangüíneos de androgênios, diminuindo a gravidade da acne. Contudo, provando mais uma vez que não existem verdades absolutas na medicina, existem alguns relatos de mulheres onde a acne ocorreu como um efeito colateral da pílula.


Mulheres que tomam Pílula demoram mais para engravidar quando param?
Verdade. O retorno à fertilidade em mulheres que interromperam recentemente o uso da pílula leva mais tempo quando comparado às mulheres que interromperam outros métodos contraceptivos. Felizmente, não parece haver prejuízo da fertilidade como um todo.


Antibióticos podem cortar o efeito do anticoncepcional?
Algumas vezes sim. Sabe-se que a ampicilina, um antibiótico bastante utilizado no tratamento de infecções urinárias, faringites, amigdalites e pneumonias, pode reduzir a eficácia da pílula. Outros remédios, como os anticonvulsivantes, por exemplo, também podem interferir com a ação da pílula. Nesses casos, a mulheres devem se certificar de que o contraceptivo oral escolhido contenha pelo menos 50 microgramas de etinil-estradiol ou mestranol.


A pílula causa varizes?
Parece que sim, mas as pesquisas ainda não produziram conclusivos até o momento.


A pílula pode alterar o humor?
Sim, pode, inclusive com náuseas, dor de cabeça, dor nos seios e depressão. Estes sintomas, mais comuns nos primeiros meses de uso da Pílula, freqüentemente desaparecem após alguns ciclos.


A Pílula alivia as cólicas menstruais?
Nem sempre. A menstruação dolorosa (chamada de dismenorréia pelos médicos) é menos freqüente nas mulheres que não ovulam, tornando a pílula um recurso útil em 70-80% dos casos de dismenorréia. Quando a pílula é suspensa, as mulheres podem voltar a sentir as mesmas cólicas de antes.

Todavia, algumas formulações da pílula podem resultar em menstruações muito volumosas e intensas. Além disso, sangramentos irregulares e menstruações dolorosas podem ocorrer em até 1/3 das mulheres após o início do uso da pílula.


A pílula aumenta o risco de câncer?
Mulheres jovens que tomam pílula possuem um risco maior para tumores benignos do útero (chamados Miomas) durante a pré-menopausa, mas a pílula não parece influenciar o risco de tumores malignos no útero ou na mama.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

11 dezembro 2007

O FUTURO VAI POR AÍ

© Dr. Alessandro Loiola


Por mais incrível que possa parecer – e recomendo que você recoste mais profundamente na poltrona antes de continuar a leitura deste parágrafo – a burocracia brasileira deu um importante passo adiante. Um passo nanométrico, mas ainda assim um passo adiante. Esta semana, entre as pequenas notícias do dia a dia, fiquei sabendo que a 13ª Conferência Nacional de Saúde decidiu incentivar as pesquisas com células-tronco embrionárias no país.

As pesquisas terão que aguardar a regulamentação da Lei de Biossegurança – que anda perdida em alguma gaveta do planalto desde 2005, quando foi aprovada pelo Congresso Nacional -, mas nem por isso a manchete deixa de ser estimulante.

As células-tronco são encontradas em todos os organismos multicelulares (até mesmo em seu cunhado) e possuem a capacidade de se transformar nos mais diversos tipos de células especializadas. Entre os mamíferos, existem 3 variedades principais: células-tronco embrionárias, células-tronco do sangue do cordão umbilical e células-tronco adultas, sendo as primeiras consideradas de melhor qualidade para pesquisa e tratamento.

As células-tronco podem estar na moda, porém representam apenas uma pequena ponta de um imenso iceberg chamado biotecnologia. Esta indústria, que movimenta algo em torno de US$30 bilhões por ano, já produz centenas de medicamentos e vacinas. Suas possibilidades parecem avançar na velocidade do pensamento.

No século XVII, o notável físico Daniel Bernoulli tinha pouco mais de 37 anos de idade quando descreveu a relação inversa entre velocidade e pressão: quanto maior a velocidade entre duas superfícies, menor a pressão entre elas. Apesar desta idéia formar a base do que faz os aviões voarem, entre os experimentos de Bernoulli e a barrinha de cereal que nos servem a 36 mil pés de altura passaram-se mais de dois séculos e meio.

Pois bem. Entre os trabalhos iniciais do cientista canadense James Edgar Till, considerado o pai das células-tronco, e o emprego destas células para rejuvenescer o músculo cardíaco de pessoas com doença de Chagas ou portadoras de seqüelas de infarto agudo do miocárdio, passaram-se menos de 50 anos. E a biotecnologia está só tomando fôlego.

Em 2004, uma empresa nos EUA iniciou o fornecimento de microchips para implantes em seres humanos. Estes dispositivos podem ser utilizados para fornecer informações valiosas sobre o histórico médico da pessoa, presença de alergias, medicamentos atualmente em uso e telefones para contato em caso de acidentes. Em breve, poderão fornecer até a localização e temperatura do corpo - para felicidade da polícia e desespero de maridos infiéis.

A biotecnologia também vem estendendo seus tentáculos no campo dos órgãos artificiais. Desde os conhecidos marcapassos, passando pelas próteses penianas e outros membros robóticos de alta performance, esfíncteres artificiais, implantes cocleares para recuperar a audição, estimuladores cerebrais para tratar epilepsias e sintomas do mal de Parkinson, e um coração capaz de manter seu receptor vivo por mais de 1 ano (tempo necessário para encontrar um doador compatível), a indústria não pára.

Uma das grandes promessas da biotecnologia – e menos conhecida pelo público em geral - atende pelo nome de “interferência de RNA”. Esta tecnologia do arco do Exu é capaz de colocar muito patuá baiano no chinelo. A interferência de RNA consiste na anulação das doenças a partir dos genes que a produzem. Um conceito relativamente simples que poderá representar o controle definitivo de processos alérgicos, tumores malignos e inúmeras outras moléstias.

O potencial da interferência de RNA é tão incrível que o prêmio Nobel de Medicina de 2006 foi entregue aos cientistas descobridores da técnica, os doutores Andrew Fire e Craig Mello. (O Nobel de Medicina de 2007 foi entregue para pesquisas envolvendo... adivinhe? Células-tronco !).

Com a decisão favorável da Conferência Nacional de Saúde, o Brasil acertou novamente o passo rumo ao desenvolvimento biotecnológico e plantou a semente para tornar-se um berço de excelência, especialmente no campo das pesquisas com células-tronco. Existem obstáculos técnicos e éticos a serem superados, sem dúvida alguma. Mas boas noticias merecem ser comentadas. E comemoradas.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

09 dezembro 2007

COMO ENVELHECER COM QUALIDADE - Primeira parte da entrevista para Rádio Senado

Por que envelhecemos? Como se preparar para o processo de envelhecimento? O que vc precisa fazer para manter sua qualidade de vida na maturidade?
Estas e outras perguntas fizeram parte de uma interessante entrevista para a RÁDIO SENADO, feita esta semana. Por praticidade, o programa está separado em 2 módulos. Confira a primeira parte logo abaixo:

03 dezembro 2007

ESTRÉIA DO QUADRO BEM VIVER NA TV ALTEROSA

A convite da produção do Jornal Primeira Página da TV Alterosa, e com uma enorme ajuda da sempre gentil Érika Gimenes, estreou hoje o quadro Bem Viver apresentado por este humilde blogueiro.

Todas as segundas-feiras, a partir das 7h, vc pode conferir temas novos sobre saúde em uma linguagem fácil e prática.

Envie perguntas e selecione a pauta da semana seguinte através da janela Interatividade disponível no link http://www.alterosa.com.br/html/pp_bemviver/pp_bemviver.shtml .

Para assistir à estréia do programa de hoje (03/12/07), basta clicar na url abaixo:




http://www.uaimidia.com.br/html/webs/modulos/streaming/getstreaming?file=200712D0939553961.wmv

02 dezembro 2007

LIGEIRAMENTE GRÁVIDA

© Dr. Alessandro Loiola
http://br.groups.yahoo.com/group/saudeparatodos



Fui até à observação ver como ela estava passando e comunicar os resultados dos exames. Pouco mais de 20 anos, o braço esticado tomando soro, mal contendo as lágrimas.
- E aí, doutor? – perguntou apreensiva. Tentei quebrar o clima tenso abrindo um sorriso e dizendo “meus parabéns”. Ela ameaçou uma nova versão do choro:
- Ai, doutor não faz isso comigo não...!
- Peralá, eu não fiz nada! – interrompi. - Se o seu teste de gravidez deu positivo, garanto que a culpa não é minha. Desse jeito você vai acabar me complicando lá em casa...

Com essa, consegui fazer a mãe e o namorado darem uma risada. Ok, o namorado nem tanto. Seguiram-se mais algumas explicações sobre a natureza daquele mal-estar e liberei o projeto de família para casa. Por alegria, expectativa ou assombro, o diagnóstico de uma gravidez quase sempre causa algum espanto. Mas não deveria.

Segundo dados da ONU, nascem anualmente no Brasil cerca de 16 bebês para cada grupo de 1.000 habitantes - ou 1 novo moleque melequento a cada 12 segundos! Ainda assim, estamos abaixo da média mundial (20 nascimentos por 1.000 habitantes/ano) e bem distantes do campeão reprodutor, o Congo, com a espantosa marca de 49 nascimentos por 1.000 habitantes/ano.

Ao invés de espanto, deveríamos receber a gravidez como uma doença sexualmente transmissível bastante comum e de difícil controle. Nem mesmo a camisinha oferece proteção infalível: em um ano, para cada 100 casais que utilizam a camisinha como único método contraceptivo, 10 a 14 serão surpreendidos por uma gravidez inesperada. A jovem paciente desta crônica, além de saborear essa estatística, experimentava outras manifestações da gestação.

Ao engravidar, a mulher aumenta a utilização de gordura para produzir energia, com uma discreta perda de peso nas primeiras semanas. A produção de proteínas se intensifica, os níveis de glicose diminuem e o corpo começa a reter líquidos - adaptações hormonais fazem com que sejam acumulados mais de 7 litros de água até o final da gravidez!

Nos primeiros 3 meses, a freqüência respiratória e o trabalho do coração aumentam cerca de 40%. A produção de saliva é maior e a velocidade do trânsito intestinal diminui, melhorando a absorção de nutrientes. O crescimento do útero reduz o espaço para o estômago, provocando refluxo e azia. Na tentativa de facilitar as adaptações necessárias para o desenvolvimento do bebê, o sistema nervoso responde a tudo isso com sonolência, distúrbios do humor, diminuição da audição e alterações da gustação e do tato. Uma verdadeira viagem psicodélica.

Para lidar com o turbilhão de mudanças, passo a frente os mesmos conselhos que dei para a jovem chorosa daquela noite:

- A grávida será desafiada diariamente pela barriga. Para contornar essa limitação, mantenha o ganho de peso dentro do recomendado, faça exercícios leves de alongamento, utilize travesseiros adicionais para melhor acomodar o corpo na cama, aplique compressas mornas nas regiões doloridas e invista em massagens relaxantes (acredite: se feitas por um profissional habilitado, elas compensam o gasto).

- Durma o máximo possível. Alguns bebês parecem participar de um estudo científico que visa comprovar que mulheres podem viver vários meses sem uma única gota de sono. Como você não sabe se a sua cria virá com esse tipo de programação, comece agora mesmo o seu estoque de noites bem dormidas.

- O enjôo matinal é mais comum da 6ª até a 12ª-13ª semana de gravidez. A solução: diminua o tamanho e aumente a freqüência das refeições. Antes de sair da cama pela manhã, coma algumas torradas ou biscoitos de água e sal. Fuja de refeições pesadas e gordurosas. Se puder, adicione um pouco de gengibre à sua dieta (ele é um excelente remédio natural contra náuseas).

- O excesso de gases pode ser reduzido mastigando mais devagar e evitando refrigerantes, feijões, brócolis, couve-flor e outros vegetais folhosos.

- Finalmente, a gestação é uma experiência intensa e repercute de modo similar sobre as emoções. A raiva transforma-se em tristeza e então em alegria e então novamente em raiva em questão de minutos. Estas mudanças são mais extremas nas primeiras 12 semanas. Para enfrentar a montanha-russa fisiológica, recomenda-se que a gestante aprenda técnicas de redução do estresse, procure ajuda profissional ao menor sinal de descontrole e mantenha distância de armas de destruição em massa.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

24 novembro 2007

ANEMIA: O QUE VOCÊ PRECISA SABER?

© Dr. Alessandro Loiola


De classe média, magra e muito bem vestida, ela não tinha nem 40 anos e já se queixava de sintomas que dizia ser da menopausa precoce: desânimo, queda de cabelos, baixo desejo sexual, alguma coisa que parecia depressão, etc.

Depois das perguntas e medições de praxe, esvaziou na mesa uma pasta contendo exames de todos os tipos e cores que você puder imaginar. “Por precaução, trouxe de uma vez!”. Quase tudo normal, exceto por um detalhe que guardava o segredo de toda a trama: anemia.
- Mas pra ter anemia tem que ser pobre, doutor!
- Não. Pra ter anemia só precisa ter sangue. Ou melhor: pouco sangue, como você e seus 8 pontos de Hemoglobina.
- É, eu bem olhei e vi que o normal pra isso eram uns 13 ou 14.
- Como o restante está dentro do esperado – disse, folheando novamente as 200 mil páginas de resultados laboratoriais, ultra-som, fotografias Kirlian, densitometria do Chakra... -, a única explicação para essa sua anemia é mesmo a alimentação. Temos que investigar neste sentido.

Mais dois minutos de conversa e ela entregou: havia terminado de fazer um regime bravo passado por uma colega.
- Funcionou que foi uma beleza, doutor. Perdi todos os quilos que precisava em apenas 1 mês!
- Bom, lamentavelmente, junto com os quilos se foram alguns milhares de hemácias ricas em Hemoglobina, que você vai ter que recuperar.

Passei a receita e as recomendações e ela partiu, enquanto eu ficava matutando na fina ironia que faz com que metade da humanidade esteja de regime enquanto a outra metade passa fome.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que um terço da população mundial sofra de anemia secundária à deficiência de ferro na dieta. Dados recentes do Ministério da Saúde e do Fundo das Nações Unidas para a Infância mostram que a anemia carencial atinge, em média, uma de cada 5 crianças brasileiras. Uma verdadeira epidemia.

A anemia possui conseqüências diretas no desempenho de vários órgãos. O sistema imunológico tropeça, o cérebro passa a funcionar em marcha lenta, as crianças podem apresentar problema de aprendizado e redução no ritmo de desenvolvimento, e adultos podem sofrer com sintomas de desinteresse, dificuldade de concentração, cansaço fácil, palpitações após esforços leves, dores de cabeça e vertigens.

A anemia por deficiência de ferro possui várias causas, que vão desde câncer até verminoses e úlceras no estômago, mas a dieta desequilibrada é, de longe, o fator mais comum. Por exemplo: uma mulher com ciclos menstruais normais necessita cerca de 15 mg de ferro diariamente. Contudo, se as menstruações forem particularmente intensas, ou se ela estiver grávida, a necessidade de ferro pode aumentar para até 30 mg por dia – que nem sempre serão compensados na dieta. Por todos estes motivos, cerca de 10% das mulheres em idade fértil apresentam algum nível de deficiência de ferro.

Para evitar ou tratar casos mais leves de anemia por deficiência de ferro, basta aplicar algumas recomendações muito fáceis:

- Procure aumentar o consumo de carnes e miúdos como fígado, moela, rim ou coração. O corpo consegue aproveitar melhor o Ferro encontrado em alimentos de origem animal.

- Se você não gosta muito de carnes, a saída são as folhas verde-escuras como couve, taioba, agrião, ou folhas de cenoura ou beterraba, que na maioria das vezes são jogadas no lixo.

- Outros alimentos ricos em ferro incluem gema de ovo, feijão, ervilha, lentilha, melado de cana, rapadura, açúcar mascavo, grãos integrais, nozes e castanhas. Coloque-os no seu carrinho de compras.

- A vitamina C é capaz de aumentar a absorção de ferro. Por isso, em cada refeição, consuma um alimento rico em vitamina C. Temperar a salada com limão é uma forma simples de fazer isso.

- Finalmente, café, chá preto e chá mate atrapalham a absorção intestinal de Ferro. Evite essas bebidas durante ou logo após as refeições.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

22 novembro 2007

ASSISTA À ENTREVISTA DE LANÇAMENTO DO LIVRO PARA ALÉM DA JUVENTUDE

Asssita à entrevista de lançamento do novo livro PARA ALÉM DA JUVENTUDE no jornal Primeira Página (TV Alterosa).

Conto com sua audiência para desbancarmos a CNN !

21 novembro 2007

ENTREVISTA BR Press

(BR Press) – O médico e colunista da BR Press, Dr. Alessandro Loiola, está lançando o livro Para Além da Juventude (Editora Leitura, 496 págs., R$ 39,00), nesta quarta (21/11), às 19h, no Terraço Leitura, do Shopping Pátio Savassi. Trata-se do resultado de uma ampla pesquisa sobre o processo de envelhecimento. Como envelhecer dignamente e em boas condições físicas? Existe alguma fórmula milagrosa de alcançar a “fonte da juventude”? “A consciência”, diz o médico.

Claro que o processo de envelhecimento pode ser vivido com menos agonia – o que faz um tremendo sentido numa época em que as pessoas tendem a viver mais. O fato, ressalta ele, é fazer por acontecer. Ou seja: tornar rotineiras medidas que vão colaborar, durante toda a vida, para que o indivíduo a desfrute com qualidade. “Ao escrever Para Além da Juventude, a intenção foi auxiliar no parto desta conscientização”, explica Dr. Alessandro. Apontando os principais riscos e mostrando como as soluções podem ser fáceis e práticas, Dr. Alessandro discorre sobre a importância das vacinas e imunização, além do fundamental papel da alimentação e das vitaminas, quase na mesma medida que a vida sexual, na idade madura. São abordadas ainda doenças que podem surgir ou ser agravadas com o passar do tempo, como o diabetes, a hipertensão, a demência, e como tratá-las.

O resultado é o um livro escrito em linguagem leve e acessível, com o humor característico da coluna semanal que Dr. Alessandro assina, publicada nos jornais Estado de Minas e A Tribuna de Vitória, e que tem recebido um retorno impressionante dos leitores. Esse sucesso demonstra a crescente demanda por informações confiáveis sobre saúde nos meios de comunicação, livres de interferências da indústria cosmética, estética e farmacêutica.

Autor dos livros Vida e Saúde da Criança e Crianças em Forma: Saúde na Balança, e especializado em Cirurgia Geral e do Aparelho Digestivo pela Santa Casa de Belo Horizonte, Dr. Alessandro Loiola reside e clinica em Belo Horizonte. Na entrevista a seguir, ele fala sobre livro Para Além da Juventude.

O que pode ser considerado o fator fundamental para um envelhecimento digno e saudável?
Dr. Alessandro Loiola - A consciência. Quando atendo meus pacientes, costumo perguntar: qual a marca do seu veículo? A maioria responde com o nome de algum automóvel. Estão enganados. Seu veículo se chama Homo sapiens. Em boa parte, saúde não é sorte, mas resultado: quanto mais rápido você tomar consciência de que seu corpo é o veículo que irá lhe levar para passear nos quatro cantos deste mundo, mais dignos e saudáveis serão seus anos por aqui.

Podemos acreditar que envelhecer não é sinônimo de "ficar doente"? O que sua pesquisa aponta neste sentido?
Dr. Alessandro Loiola - Sem dúvida alguma! Uma pesquisa realizada com 2.700 adultos, entre 25 e 74 anos de idade, revelou que, quanto maior a idade do entrevistado, maior a freqüência de emoções positivas tais como alegria, otimismo e felicidade. A cada dia, mais pessoas compreendem que a vida é uma maravilhosa viagem por este mundo, e o envelhecimento é apenas uma das várias aventuras que você experimentará no caminho. Envelhecer é um processo fisiológico, não uma doença.

Hoje as pessoas vivem mais. Mas a questão é: como vivem? É possí¬vel chegar aos 100 anos com qualidade de vida?
Dr. Alessandro Loiola - Para ultrapassar o centenário com qualidade de vida amanhã, você precisa conscientizar-se dos cuidados que deve tomar com seu corpo hoje.
Em 1900, expectativa média de vida era de 45 anos. Hoje, vivemos em média mais de 70 anos e, teoricamente, um ser humano está programado para viver até cerca de 120, 140 anos. Será que as pessoas estão aproveitando bem estes anos a mais? Eu acredito que os números falam por si:
- Mais de 75% das pessoas entre 75 e 84 anos de idade não se queixam de qualquer tipo de incapacitação.
- Uma de cada 3 pessoas com mais de 60 anos de idade possui um emprego e mais da metade participa regularmente de atividades em grupo.
- Cerca de 80% das pessoas com mais de 70 anos de idade pratica alguma forma de contato ou atividade sexual pelo menos uma vez por semana. Apesar do apetite sexual ser menos intenso, a maioria das pessoas na Terceira Idade continua encarando o sexo como uma fonte intensa de prazer.

Por que algumas e mais pessoas aparentam menos idade hoje em dia? A que atribui este fenômeno?
Dr. Alessandro Loiola - Este fenômeno pode ser explicado a partir de dois pontos de vista que se complementam.

Primeiro: por volta de 2030, cerca de 20% da população mundial será constituída por pessoas com idade igual ou superior a 65 anos. De um modo geral, vemos mais pessoas idosas nas ruas e nas atividades do dia a dia atualmente do que jamais vimos em décadas passadas. A maior exposição a esta população reduz o nível de estranheza e nos faz rever o que encaramos como alguém “velho” ou com “sintomas de velhice”.

Em segundo lugar: parte do conceito de “idade” está relacionado ao condicionamento e à atitude. Tenho pacientes de 71 anos que aparentam 71 anos, mas possuem uma vitalidade de 55-60 graças à boa alimentação e ao condicionamento físico adequado. Isso sem dúvida alguma os deixa com um “ar” mais jovem.

A prática de exercícios aeróbicos (p.ex., caminhadas) na Terceira Idade é capaz de melhorar em até 30% seu condicionamento físico – a mesma proporção observada em indivíduos jovens. Até mesmo pessoas que iniciaram exercícios de musculação aos 80 ou 90 anos de idade são capazes de duplicar sua força muscular em poucos meses.

Madonna, por exemplo, não aparenta ter 49 anos. Seria o esporte o principal responsável pela boa forma física ou realmente o "conjunto da obra", levando em consideração a quantidade de dinheiro disponível para gastar com a saúde e estética?
Dr. Alessandro Loiola - Por incrível que possa parecer, cuidar bem da saúde sai mais em conta que cuidar mal dela. Fazer a feira recheando sacolas com frutas da estação, legumes e verduras é mais barato que empurrar um carrinho de supermercado cheio de biscoitos e guloseimas calóricas.

Ao invés de ficar em casa gastando energia elétrica assistindo TV, você pode economizar saindo para uma boa caminhada e um bate papo com os amigos, melhorando seu condicionamento cardiopulmonar ao mesmo tempo em que reduz os níveis de estresse.

A diferença, como sempre, recai não sobre a quantidade de dinheiro disponível, mas na capacidade de auto-conscientização.

E psicologicamente? O que recomenda para envelhecer com a cabeça boa? Isso reflete no bem estar físico?
Dr. Alessandro Loiola - A medida em que avançamos em direção à maturidade, a “cabeça boa” se torna um reflexo do condicionamento físico, da alimentação saudável, da qualidade do sono e da capacidade de controlar dos níveis de estresse. O ideal é que o bem-estar mental seja acompanhado de bem-estar físico.

Apesar do número células cerebrais reduzir cerca de 10% entre os 20 e os 65 anos de idade, a diminuição do raciocínio devido ao envelhecimento é bem menos intensa do que imaginamos. Além disso, o declínio da capacidade mental parece ser evitável ou reversível.

Exercitar a mente, assim como exercitar o corpo, é fundamental para manter sua saúde integral. Tente aprender um idioma diferente ou tocar um instrumento musical, jogar baralho, damas ou xadrez – vale qualquer atividade capaz de estimular sua capacidade de raciocínio.

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Fonte - http://br.noticias.yahoo.com/s/20112007/11/saude-envelhecer-dignidade.html