20 maio 2016

Vacina contra H1N1 em pacientes com câncer: é seguro?

© Alessandro Loiola


 


Eu tenho uma pirraça sem tamanho com as campanhas de vacinação contra Influenza – mas não o faço sem embasamento.

Sim, a imunização contra influenza parece ser razoavelmente segura para ser aplicada em pessoas com câncer (1,5,6,8), apesar da soroconversão ocorrer em apenas 17-52% dos pacientes que recebem uma dose única da vacina (2,4,7). Então, no grupo de pacientes com câncer, talvez seja mais prudente uma segunda dose de reforço para conseguir “soroconversão” (leia-se: produção de anticorpos de defesa em níveis considerados seguros e protetores).

Mas a soroconversão não é o problema. O problema da vacina contra H1N1 é sua eficácia: a vacinação contra influenza não parece diminuir os índices de hospitalização ou mortalidade relacionada ao influenza em pessoas com mais de 66 anos de idade, por exemplo (3). A vacina atual pode ser considerada no máximo como “moderadamente eficaz” (9,10,11) e isso, somado à relativa escassez de bons estudos de seguimento abordando efeitos colaterais, incidência de sintomas e hospitalizações relacionados à vacina, me deixa pirracento para indicar essa vacina aos meus pacientes.

Sem a consciência tranquila, não fico confortável em assumir a responsabilidade de indicar um tipo de tratamento que minha pesquisa em revisões sistemáticas e meu bom senso crítico não aprovam. Mas cada um é seu próprio templo. Então tome sua decisão individual e siga feliz - só tome o cuidado de não vir reclamar comigo depois.


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Referências:

1.     Waqar SN1, Boehmer L, Morgensztern D, Wang-Gillam A, Sorscher S, Lawrence S, Gao F, Guebert K, Williams K, Govindan R. Immunogenicity of Influenza Vaccination in Patients With Cancer. Am J Clin Oncol. 2015 Dec 14.
2.     Michael Hahn,1 Paul Schnitzler,2 Brunhilde Schweiger,3 Christina Kunz,4 Anthony D. Ho,1 Hartmut Goldschmidt,1 and Michael Schmitt1. Efficacy of single versus boost vaccination against influenza virus in patients with multiple myeloma. Haematologica. 2015 Jul; 100(7): e285–e288.
3.     Joshi M1, Chandra D2, Mittadodla P1, Bartter T1. The impact of vaccination on influenza-related respiratory failure and mortality in hospitalized elderly patients over the 2013-2014 season. Open Respir Med J. 2015 Feb 23;9:9-14.
4.     Ide Y1, Imamura Y, Ohfuji S, Fukushima W, Ide S, Tsutsumi C, Koga M, Maeda K, Hirota Y. Immunogenicity of a monovalent influenza A(H1N1)pdm09 vaccine in patients with hematological malignancies. Hum Vaccin Immunother. 2014;10(8):2387-94.
5.     Berglund A1, Willén L, Grödeberg L, Skattum L, Hagberg H, Pauksens K. The response to vaccination against influenza A(H1N1) 2009, seasonal influenza and Streptococcus pneumoniae in adult outpatients with ongoing treatment for cancer with and without rituximab. Acta Oncol. 2014 Sep;53(9):1212-20.
6.     Kim DH1, Lee YY2, Shin US3, Moon SM3. Immunogenicity of influenza vaccine in colorectal cancer patients. Cancer Res Treat. 2013 Dec;45(4):303-12.
7.     Chu CS1, Boyer JD, Jawad A, McDonald K, Rogers WT, Luning Prak ET, Sullivan KE. Immunologic consequences of chemotherapy for ovarian cancer: impaired responses to the influenza vaccine. Vaccine. 2013 Nov 4;31(46):5435-42.
8.     Pollyea DA1, Brown JM, Horning SJ. Utility of influenza vaccination for oncology patients. J Clin Oncol. 2010 May 10;28(14):2481-90.
9.     Loubet P1,2, Loulergue P1,2,3, Galtier F3,4, Launay O1,2,3,5. Seasonal influenza vaccination of high-risk adults. Expert Rev Vaccines. 2016 May 12. [Epub ahead of print]

18 maio 2016

Exame médico anual: é necessário?

© Alessandro Loiola

 

Em nome do argumento, vamos considerar que uns 20 milhões de adultos utilizem o SUS para uma consulta de check-up todo ano, como se fossem automóveis na revisão dos 50 mil quilômetros. E imagine que, entre agendamento, consulta com o generalista, exames de laboratório, radiografia, eletrocardiograma e consulta de retorno, o custo final de cada check-up saia pela bagatela de R$100,00.  Estamos falando de uma rotina de 2 bilhões de reais a cada 12 meses.

Do ponto de vista do meu bolso, qualquer coisa que custe 2 bilhões de reais por ano deixou de ser rotina há muito tempo. Virou investimento, passou a ter a obrigação de valer muito à pena. E o lance é que não vale.

Por motivos diversos e muito além da preocupação com custos, poucas sociedades médicas ainda recomendam que pessoas adultas saudáveis passem por exames periódicos anuais, sendo que alguns grupos de especialistas se posicionam ativamente contra essa prática, tais como o US Preventive Services Task Force e o Canadian Task Force on the Periodic Health Examination.

“Ah, mas é importante fazer uma revisão geral periodicamente”. É mesmo? Baseado em que evidências? Exames de rotina podem gerar (e quase sempre geram) outros exames adicionais para detectar alterações incidentais, aumentando a ansiedade e levando a diagnósticos e tratamentos excessivos de "doenças" que, se deixadas em paz e sem detecção, jamais produziriam consequências clinicamente significativas.

Do ponto de vista de promoção da saúde, o exame anual periódico em indivíduos sem sintomas tem ainda menos valor, pois não reduz a morbidade e a mortalidade de doenças agudas ou crônicas, podendo ainda alimentar a complacência de pessoas que deixam de agir “até terem certeza absoluta de que é necessário” – como aquele seu conhecido com sobrepeso que, enquanto não receber o resultado dos níveis de colesterol, não toma atitude alguma para diminuir a própria capa de gordura.

Uma revisão realizada em 2012 pelo prestigiado grupo Cochrane, envolvendo 14 estudos clínicos randomizados e totalizando mais de 180 mil pacientes acompanhados por uma média de nove anos, concluiu que exames de check-up realizados em pessoas sem sintomas não produzem qualquer benefício para a saúde. Não importam os tipos de testes ou métodos de screening: exames periódicos simplesmente não são capazes de reduzir a mortalidade geral ou específica, nem mesmo aquelas relacionadas a câncer e doenças cardíacas.

Uma outra pesquisa, chamada Danish Inter99, também produziu pareceres semelhantes. O estudo comunitário envolveu cerca de 60 mil adultos entre 30 e 60 anos que foram avaliados periodicamente durante cinco anos quanto ao risco de infarto cardíaco, sendo sempre orientados a promover modificações no estilo de vida. Uma década após esta intervenção, não foram observadas quaisquer melhoras na incidência de doença cardíaca, derrame ou mortalidade geral.

Alguns especialistas defendem o check-up periódico dizendo que o custo de tratar as complicações da hipertensão arterial, por exemplo, são muito maiores que aqueles dos exames preventivos. Se o sujeito esperar demais, quando chegar a ser diagnosticado como hipertenso, já estará à beira de uma catástrofe. E as consultas periódicas podem ser um bom terreno para orientar sobre vacinas, tabagismo, alcoolismo, drogas, nutrição, obesidade, atividade física e pesquisar a incidência de depressão e violência doméstica. 

É verdade que talvez o maior benefício do exame de check-up esteja na construção de um vínculo entre o paciente e o seu médico, ao invés do contato apenas em situações de emergências. Mas, em termos de políticas públicas, o papel do check-up de rotina em indivíduos sem sintomas precisa ser revisto. 

Em termos pessoais, eu recomendo que você evite paranoias: procure seu médico se e quando você estiver sentindo alguma coisa. Pronto. E vá descobrir a vida que existe para além da sua hipocondria.

16 maio 2016

Sobre Juízes e Médicos

© Alessandro Loiola



Vez ou outra, sou surpreendido por notícias esdrúxulas de gentes que decidem numa canetada só pela internação de alguém em um leito de UTI (1,2,3, 4, 5, 6,7,8,9,10), sem uma auditoria lúcida sobre a disponibilidade leitos ou um parecer técnico sequer, ameaçando até de cadeia qualquer reles mortal que se oponha à sua determinação suprema.

Sou médico há mais de duas décadas. Perdi a conta do número de vezes em que me vi atendendo com a mínima infraestrutura ou sem QUALQUER  estrutura mesmo, ferindo o próprio Código de Ética da profissão (sim, nós temos um e eu particularmente nutro um grande apreço por ele), que diz que ”é direito do médico recusar-se a exercer sua profissão onde as condições de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar a própria saúde ou a do paciente, bem como a dos demais profissionais” (CEM, Cap II, item IV).

Mas o paciente está ali e você está ali. Seu coração exige que você desdobre-se e dê um jeito. Que seus olhos virem pilhas de laringoscópio, que suas mãos transformem o ambu em um respirador pelo tempo que você aguentar, que você finja não sentir dor por saber que o cateterismo ou o centro de trauma que salvaria aquele paciente encontra-se a uma distância que vai além da capacidade dele manter-se vivo.

Enquanto isso ocorre aqui no subterrâneo do Olimpo, nossos 16,5 mil magistrados da caneta mágica despacham prescrições de internações de seus gabinetes.

Eles parecem não perceber que mantêm o país abarrotado de processos sem julgamento enquanto curtem seus 60 dias de férias anuais com abonos de 50%, recebendo mensalmente auxílio moradia de R$ 4.300, auxílio alimentação de R$ 1.600, auxílio transporte de R$ 1.100, auxílio despesas médicas de R$ 2.000 e uns trocados, custeio de 50% dos cursos de Mestrado e Doutorado, e até um inacreditável vale-livro de R$ 13.000 anuais para compra de materiais didáticos que possam auxiliar o magistrado em sua atividade (16).

Eles parecem não perceber o sangue que respinga em nossos sapatos – não nos deles - enquanto usufruem suas regalias, que podem variar de uma comarca (ou zona?) para outra. A maioria desses intocáveis, entocados nos 27 Tribunais de Justiça e nos 27 MPs estaduais, possuiu contracheques que ultrapassam em muito o teto constitucional (que era de R$ 33.000 quando escrevi esse texto): a média de rendimentos de juízes e desembargadores nos Estados é de R$ 41.802 mensais (algo como 260 reais/hora); a de promotores e procuradores de justiça, R$ 40.853 (255 reais/hora). Os presidentes dos Tribunais de Justiça apresentam média ainda maior: R$ 59.992 (374 reais/hora). Os procuradores-gerais de justiça, chefes dos MPs, recebem, também em média, R$ 53.971 (337 reais/hora).

Mas eu não quero salário. Não quero ganhar mais. Sério. Juro que estou satisfeito com o que me é pago, QUANDO é pago, SE é pago. Eu não pediria mais dinheiro. Ou melhor: pediria, mas não para mim.

Sabe a reforma do Fórum de Cuiabá que recebeu R$ 10 milhões?(11). E do Fórum Trabalhista de Florianópolis, que custou R$ 26,3 milhões?(12). A modernização do Fórum Autran Nunes no Ceará, que saiu pela bagatela de R$ 7 milhões, sem incluir outros serviços que ainda serão licitados, como a aquisição de equipamentos para o setor odontológico e do sistema de som e vídeo?(13). A ampliação e reforma do fórum de São Carlos, que recebeu R$ 7,4 milhões?(14). A construção do Fórum de São José dos Campos que saiu pela miudeza de R$ 30 milhões em uma das áreas mais nobres da cidade?(15).

Então. Eu pediria isso ao super-homem da caneta. Não que colocasse ar condicionado central no hospital inteiro, ou que disponibilizasse cadeiras de couro nos consultórios, ou sedãs pretos com motorista, ou fachadas de granito, etc.

Eu pediria mais leitos. Mais equipamentos. Mais remédios. Mais portas. Mais meios para ajudar: a construção de um posto de saúde de 630 m2 custa cerca de R$ 550 mil (22). Para construir e equipar um UTI de 33 leitos são necessários R$ 8 milhões – cerca de R$ 240.000 por leito (19). A construção e compra de equipamentos para um hospital regional de 150 leitos (sendo 30 de UTI) custa R$ 30 milhões – ou cerca de R$ 200.000 por leito (20,21). Um leito hospitalar tem condição de rodar cerca de 5 pacientes/mês, e um hospital regional de 150 leitos adicionaria 9.000 internações em um ano àquela região, ajudando milhares de pessoas.

Mas, ao invés de pensar no grande, de pensar no macro, de pensar no conjunto da sociedade, o super-homem desce dos céus envolto em sua capa preta e, ante todos os holofotes, com um só movimento da poderosa esferográfica dourada, resfolegado em sua poltrona multi-ajustável e com a temperatura do gabinete assentada em 21 graus, ele salva o gatinho solitário preso na árvore.

Enquanto os flashes disparam e os heróis retornam para casa em seus Ford Fusion pilotados por Egos vestindo gravata e quepe, o Bom Senso se prostra na esquina, observando os carros com placa especial passarem.

E o Bom Senso olha para a poça d´água suja atropelada em velocidade e desprezo pelo cortejo, e se pergunta:

- No meio dessa surrealidade toda, quem vigia os vigilantes?


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Referências:

1. http://cidadeverde.com/noticias/175339/juiz-ordena-prisao-de-medico-para-garantir-vaga-na-uti-para-paciente

2. http://www.portalodia.com/noticias/piaui/medico-do-hut-e-preso-por-nao-transferir-paciente-para-uti-216386.html

3. http://www.tjrn.jus.br/index.php/comunicacao/noticias/4560-desembargador-determina-transferencia-de-idoso-para-uti

4. http://www.redeto.com.br/noticia-16996-saude-juiz-de-palmas-determina-internacao-de-bebes-em-uti-neonatal.html#.VznV64QrLbg

5. http://www.tjce.jus.br/noticias/juiz-determina-internacao-de-paciente-em-leito-de-uti/

6. http://www.denuncio.com.br/noticias/juiz-determina-que-hapvida-interne-em-uti-paciente-com-problema-cardiaco/12481/

7. https://portalnoar.com/justica-determina-uti-medica-para-vitima-de-tentativa-de-homicidio-em-natal/

8. http://camocimimparcial.blogspot.com.br/2011/04/juiz-determina-que-municipio-de-acarau.html

9. http://www.rotajuridica.com.br/justica-manda-que-pedreiro-seja-internado-em-uti-publica-mas-ordem-nao-e-cumprida/

10. http://blog.tribunadonorte.com.br/abelhinha/94600

11. http://www.olhardireto.com.br/juridico/noticias/exibir.asp?noticia=Com_8_anos_de_uso_Forum_sera_reformado_com_custo_de_R_10_mi&id=15269

12. http://trt-12.jusbrasil.com.br/noticias/100316286/novo-forum-trabalhista-de-florianopolis-sera-inaugurado-quarta-feira-30-junto-com-pje-jt

13. http://www.trt7.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2495:folha7-modernizacao-do-forum-autran-nunes-comeca-este-mes&catid=143&Itemid=302

14. http://www.saocarlosagora.com.br/cidade/noticia/2013/01/25/38158/justica-inicia-ampliacao-e-reforma-de-forum-em-sao-carlos/

15. http://www.tjsp.jus.br/Institucional/CanaisComunicacao/Noticias/Noticia.aspx?Id=16674

16. http://justificando.com/2014/12/17/juiz-e-deus-conheca-vantagens-que-os-magistrados-tem/

17. http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/06/juizes-estaduais-e-promotores-eles-ganham-23-vezes-mais-do-que-voce.html

18. https://www.supremecourt.ohio.gov/Judiciary/salary/

19. http://novo.campobom.rs.gov.br/noticia-2627/construcao-de-uti-e-33-novos-leitos-no-hospital-lauro-reus-inicia-dia-3

20. http://www.aen.pr.gov.br/arquivos2/File/Jornal%20Noticias%20do%20Parana/Jornal_Ponta%20Grossa.pdf

21. http://www.rdnews.com.br/executivo/governo-garante-construcao-de-hospital-valor-sera-r-21-9-mi/42456

22. http://www.aen.pr.gov.br/arquivos2/File/Jornal%20Noticias%20do%20Parana/Jornal_Ponta%20Grossa.pdf

11 abril 2016

Por que ler pessoas mortas?

© Alessandro Loiola


 

No filme O Sexto Sentido, o pequeno Haley Joel Osment conversava com pessoas mortas. Simpatizo com seu fardo: eu leio pessoas mortas, o tempo todo, o que dá quase no mesmo. Pessoas mortas escrevem como ninguém.
 
Leia Nelson Gonçalves, por exemplo. Ele poderia bem ser um Charles Bukowski sem a bebida em um dia bom. Ou quase um Voltaire sem a peruca e com liberdade para usar seus palavrões como quisesse. Ou um Carl Sagan, descontando os conhecimentos de astrofísica porém com o mesmo olhar aguçado sobre as coisas. Ou um Hemingway com mais adjetivos e menos depressão.
 
O fato é que essas pessoas mortas oferecem aquilo que escritores e jornalistas vivos têm se recusado a produzir: opiniões que pensam. Os pouquíssimos desse quilate que existem, concorde eu com eles ou não, merecem aplausos, muitos aplausos.
 
Mais que dinheiro, mais que fama, mais que selfies de músculos definidos, ter uma Opinião Inteligente nos dias de hoje é a sofisticação máxima. Prosperidade e corpos vêm e vão; Ideias embasadas só vêm. Elas têm mais massa e resistência que qualquer série de crossfit. Não precisam de ibope: a Verdade é o patrocínio que as mantém. Necessitam nada além disso que as sustente. Mas peneirar opiniões assim tem se tornado uma tarefa mais árdua a cada dia.
 
Abro as manchetes do UOL, da Folha, do Estadão, do Terra, do Yahoo, e tudo que vem à tela são votações do BBB, tabelas de pontos do campeonato brasileiro, informações inúteis de saúde (que sempre falam de doenças, nunca de saúde) e intrigas bestas de novelas, economia e política. Nenhuma opinião capaz de provocar as sinapses, nenhuma crítica apontando caminhos lúcidos, nenhuma manifestação da verdade. Só tolices.
 
E alguém ainda me diz que nossa sociedade está evoluindo, maturando. Devo ser um burro mesmo. Entendo nada de progresso tecnológico e maturidade. E quero menos ainda ter qualquer coisa a ver com esse desenvolvimento vívido da desinteligência. Vou continuar com os mortos. Eles sabem o que dizem.

08 abril 2016

O que você pediria ao gênio da lâmpada?

© Alessandro Loiola





Em um desses lampejos toscos que temos no chuveiro à noite ou enquanto esvaziamos o conteúdo de nossos intestinos pela manhã - independente do horário ou da atividade, o banheiro sem dúvida é um dos lugares mais criativos da casa! -, fui atingido por uma epifania.

E se, e se!, um gênio aparecesse e lhe concedesse um desejo? Um desejo apenas, um único e miserável desejo.

Considere a possibilidade de ser um gênio em pleno ataque de enxaqueca, ou com TPM, ou numa crise de agorafobia depois de tantos milênios dentro da maldita lâmpada. Ele não está de bom humor. Nada de 3 desejos. Um só. "E não venha pedir mais desejos que eu lhe transformo num ornitorrinco!", ele vai avisando enquanto a fumaça se dissipa.

O que você pediria? Curioso com as possibilidades, reproduzi essa pergunta para algumas dúzias de amigos via whats. "Saúde para meus filhos", "Saúde para mim", "Saúde para meus pais", "Saúde para minha família"... De cara, Saúde disparou como campeã de audiência. Mas também vieram "Viver eternamente" (não seria uma variável de "saúde"?), "Ter muito dinheiro", "Ser feliz", "Viver em paz", etc.

Gostaria de ver a reprodução dessa pergunta em outras culturas. Na ausência dessas evidências, fico com as minhas, atuais e tupiniquins. De cara, é possível perceber uma coisa: o Cunhadismo que herdamos dos índios e dos primeiros colonizadores permanece entranhado em nossos genes. Poderia ter também algo a ver com o instinto de sobrevivência, inato em qualquer ser vivo, mas o rabugento que sobrevive em mim iniste em jogar a culpa no Cunhadismo.

Podendo ter um desejo realizado, qualquer que seja ele, as pessoas restringem suas opções ao seu círculo de confiança. Farinha pouca, meu pirão primeiro. E nada de aparecer um pseudo-altruísta preocupado em resolver a fome, as doenças, as guerras, a violência gratuita, a injustiça descarada. Não, nada disso. Tudo que as pessoas querem é uma sombra fresca e verdejante onde possam pendurar suas redes plácidas pelo tempo de suas existências.

Do ponto de vista do meu umbigo egocêntrico, enxergo que a causa maior do sofrimento da humanidade é a Ignorância - e, por ignorância, seguimos causando nosso próprio sofrimento e o sofrimento de outrens. Por isso, se eu encontrasse o desgraçado do gênio, pediria a ele a extinção absoluta de TODA ignorância.

E tenho certeza de que o mundo se acertaria bem, muito bem, a partir daí. Mesmo você e sua família não vivendo eternamente.

Um bicho chamado Gente

© Alessandro Loiola
 


 

Existe um animal dentro de cada um de nós. Ainda que tentemos sufocá-lo com as noções de santidade que nos ensinaram nas aulas de catecismo, e ainda que algumas pessoas insistam por todos os meios subtraí-lo de si, ele resiste. E eu tenho orgulho dele.
 
Sim, tenho um profundo orgulho do animal que sou, de seus instintos todos, sua voracidade pelo mundo, o afiado dos seus dentes com fome de carne. O animal de poucas saciedades, rugindo hormônios não domesticados. Fomento sua sobrevivência em mim, alimento-o com desejos e retiro sua coleira vez ou outra e o assisto correndo satisfeito sacudindo fantasias rudes de seus pelos.
 
Nessas horas, vejo pessoas em suas roupas sofisticadas, os trejeitos civilizatórios, observando assombradas . "De onde veio isso?", se perguntam. Veio de dentro, praga. Veio de dentro! De milhares de translações de inquietação sem juízo, de milhões de anos de bruta seleção natural, bilhões de primaveras de genética amoral. E o animal corre, sem amarras, devorando o mundo que o consome.
 
O animal que somos não é uma escolha, nunca foi. É uma necessidade, bando de pamonhas.

07 abril 2016

Sua existência como um Agronegócio

© Alessandro Loiola


 

A escritora Gail Sheehy disse que "A vida é uma coletânea de 3 ou 4 destinos que se repetem furiosamente". Eu não iria tão longe: três ou quatro são projeções bem otimistas. Penso que cumprimos um único mesmo destino delicadamente arado na superfície deste planeta.
 
Veja: todos começamos pela infância, uma primavera de sonhos germinativos da qual trazemos umas lembranças poucas, turvas, embaralhadas, cheias de barro, água e ventos.
 
As estações se passam e desabrochamos para a invenção da adolescência, uma tempestade de xilemas onde entendemos que nossas folhas se estendem para além daquelas dos nossos pais. Começamos então a arrancar as raízes todas, excisando as certezas plantadas em nós, e brotamos nossas próprias verdades - que são verdes e frágeis, mas enfim são nossas (ou pelo menos assim nos enganamos).
 
Terminada a adolescência, agora distantes das sombras dos galhos da família, adubando os dias com experiências e habilidades, eclodimos dos 20 aos 30 anos para virarmos mudas de fato.
 
Aos 30 anos começa o período onde fazemos questão que a plantação em que nos transformamos produza dinheiro, muito dinheiro. As décadas mudam, as doenças seguem quase as mesmas, eu sei. Queremos, queremos bastante, queremos mais.
 
Entre os 40 e os 50, uma tempestade de granizo grisalho nos atinge e decidimos mudar o terreno. Conhecemos o mercado das plantas, aprendemos a reconhecer as ervas daninhas e somos capazes de ensacar nossos grãos, mas alguma coisa ainda parece incompleta. Então aplainamos todos aqueles alqueires com o trator dos questionamentos "maduros" e, achando que estamos fazendo alguma coisa diferente, começamos o mesmo processo de novo.
 
Por volta da curva dos 60, milionários pelos nossos frutos ou não, contemplamos o conhecimento de agronomia de vida acumulado e sentimos uma urgência em passá-lo adiante. Quiçá, com aquela bagagem, os mais novos sejam capazes de melhorar suas chances... Mas os mais novos estão cegos e surdos em seu frenesi vegetal de arrancar raízes e colher fortunas.
 
Adentrando nos hectares altivos dos 70, os mais tolos se perdem na ilusão obsessiva do legado ou na crítica imbecil do arrependimento. Aqueles abençoados por alguma saúde lúcida, simplesmente dão de ombros e vão viver suas vidas. As décadas de colheitas finalmente lhes ensinaram que não somos plantas. Nem animais. Somos alguma outra coisa que talvez valha à pena descobrir.
 
Finalmente, em algum lugar para além dos 80, o círculo derradeiro do mundo nos alcança com um sonho no qual levamos umas lembranças poucas, turvas, embaralhadas. Confusos ou não, prontos ou não, com ou sem nossa permissão, o outono vem e nos transmuta novamente em barro, água e ventos infinitos.

Qual o melhor amigo do homem?

© Alessandro Loiola


Quando criança, na sala de casa, meus pais construíram uma muralha em forma de estante e espalharam pelas prateleiras um universo eclético de páginas que se estendiam desde a Enciclopédia Barsa à Delta Universal, passando por atlas, mapas, coletâneas de contos, poesias de Olavo Bilac e Cecília Meirelles, romances de Hemingway, novelas de Morris West e Sidney Sheldon, crônicas de Fernando Sabino e Luis Fernando Veríssimo e um muito velho volume de autênticas lendas indígenas brasileiras.

Devorei cada um daqueles livros antes da adolescência - sim, inclusive as enciclopédias. E feito um hobby sádico da infância, sentados à mesa para o almoço, desafiava meu pai com o conhecimento recém-adquirido:

- Pai, você sabe o que significa o "DC" em Washington DC?
- Hum. - ele respondia, o olhar de lado dizendo "lá vem...".
- Distrito de Columbia.
No outro dia:
- Pai, você sabe qual mamífero põe ovos?
- Não tenho notícia de que mamíferos ponham ovos...
- Os ornitorrincos põem.
- Hum. - ele respondia, o olhar de lado dizendo "mais uma...".
E no dia seguinte:
- Pai.
- Fala, Sandro.
- É verdade que TODOS os rios correm para o mar?
- Eu achava que sim, mas pelo visto você tem alguma novidade aí.
- Os rios temporários no outback da Austrália não correm para o mar. Eles vão de lugar algum a lugar nenhum.
- Hum, sei... Come, Sandro.
 
Eram bons almoços e tenho saudades de todos eles. Dia após dia, depois da refeição, do cochilo e das tarefas da escola, se estivesse chovendo ou se nenhum colega me chamasse para jogar bola ou perambular de bicicleta ou travar batalhas de estilingue e mamona, eu me deixava perder de novo nas galáxias da estante.
 
Gosto de ler desde que me lembro de ter aprendido a ler, e os sintomas dessa doença apenas se acentuaram com os anos. Quando pergunto a alguém "Qual seu livro preferido?" ou "O que você anda lendo?" e recebo de resposta algo como "Não sou muito de ler...", não posso deixar de sentir uma certa compaixão por aquela pobre alma.
 
Neste mundo de pequenas pessoas aterrorizadas, guardadas nas miudezas de suas camas convencionais, tão cheias de planos quanto seus planos são vazios de si, só enxergo esta única saída da mediocridade absoluta: a leitura. Pois se a vida é uma mochila, os livros são sua estrada, e ler é viajar em passos rápidos, tão rápidos que cedo chegará o ponto em que nenhuma pessoa ao seu lado, além dos deuses, saberá o que há mais a frente.
 
Felizmente, dependendo do que você anda folheando, quando este momento chegar você poderá contar-lhes um pouco sobre tudo que leu ao longo da jornada. E, nessa hora, até os deuses irão pausar seus ofícios para ouvir o que você tem a dizer.

01 abril 2016

O Lado Bom do Lado Ruim

© Alessandro Loiola


Todo mundo adora histórias de pessoas que foram transformadas por seus problemas. O sujeito tem aquela vida tranqüila e, de repente, é jogado no meio de um furacão, maremoto, enchente, crise de herpes com ciática, é despedido, o cachorro morre atropelado pelo entregador de pizza... E, depois de quase tudo perdido, ele consegue dar a volta por cima. Vencedor no final, sai de peito aberto para enfrentar o mundo dizendo: "Preferia que tal coisa não tivesse acontecido, mas agora que aconteceu, me tornei uma pessoa melhor!"

A capacidade de reagir positivamente a um evento negativo não é uma exclusividade dos bravos e durões do cinema. Esta característica está aí, profundamente incrustada na sua mente, faz parte do seu organismo. Você pertence à espécie humana? Então você possui tudo que é necessário para transformar seus limões em uma bela limonada.

Há algum tempo, os cientistas vêm se debruçando para elucidar o que batizaram de Crescimento Pós-Traumático, que nada mais é senão uma versão sofisticada para o ditado “O que não me mata, me fortalece”. Os especialistas observaram que mais de 50% das pessoas que passaram por problemas sérios dizem que a adversidade as tornou de algum modo melhores, mais fortes, mais esclarecidas – e, por que não dizer, mais felizes.

Mesmo após as mais terríveis experiências, apenas uma pequena proporção das pessoas se torna cronicamente perturbada. A resposta mais comum é a superação. E muitas vezes com um profundo crescimento pessoal.

Esta constatação, de que necessitamos dos problemas para extrair o melhor da vida, é um dos maiores paradoxos da felicidade. Para experimentar uma vida humana completa, não basta levar uma existência tranqüila e imperturbável. É preciso mudar, crescer, confundir-se, tropeçar, sacudir velhas idéias e adquirir novos valores – e, algumas vezes, este processo dói.

Os problemas graves também desafiam a idéia de que “coisas ruins não acontecem para pessoas boas”. Você quer pensar que possui controle sobre tudo, que plantando o Bem apenas o Bem lhe acontecerá. Entretanto, apesar da garantia de dor e desconforto, você deve saber que a maioria dos que enfrentaram grandes adversidades diz que a dificuldade os tornou mais tolerantes, mais capazes de perdoar e de trazer paz para situações problemáticas. Depois da tormenta, estas pessoas se tornaram capazes de identificar claramente a tolice das ambições materiais, e passaram a investir mais no prazer da companhia da família e dos amigos.

Os diplomados em Crescimento Pós-Traumático não dizem que o que passaram foi maravilhoso, mas não esperavam que aquela tribulação pudesse resultar em crescimento interior. E terminaram ganhando muito mais do que jamais poderiam ter imaginado. Pense nisso da próxima vez que um problema estiver batendo à sua porta: sempre existirá um lado bom. Até mesmo no lado ruim.

29 março 2016

Uma dica para escrever o Livro da Sua Vida


© Alessandro Loiola
 
 
 
Escrever é um trabalho árduo e solitário. O que fazer com o personagem?, como aprofundar-se no caráter daquele outro?, a costura do roteiro, os cenários descritos, as intrigas construídas, os dilemas engendrados... e, depois de tudo orgulhosa e alegremente pronto, é hora de passar a tesoura. Sim, passar a tesoura sem dó nem piedade. Porque escrever é, antes de tudo, editar-se.
 
O crítico literário Arthur Quiller-Couch resumiu bem essa tarefa sofrida de edição em um lema que todo escritor deve trazer tatuado em suas retinas: "Murder your darlings". Mate seus queridos. Seja cruel com seu enredo. Apague suas passagens poéticas, assassine as virtudes preferidas, delete parágrafos inteiros. Jogue a polpa fora e mastigue a semente.
 
Excelentes livros saíram de rascunhos de merda. Por isso, não desanime. Dê um tempo ao seu texto, cure-o como um bom queijo ou uma garrafa de Malbec, permita que envelheça um pouco. E então revisite-o com isenção.
 
O mesmo princípio poderia (e deveria) ser aplicado às nossas certezas todas. Que tal maturá-las antes de anunciá-las aos olhos de seus amigos e conhecidos? As verdades que mais lhe agradam podem ser apenas um truque de sua mente para justificar as escolhas imbecis que você andou fazendo por anos a fio.
 
Ao escrever o livro de sua vida, observe regularmente os capítulos de uma distância segura. Questione-se sempre! - e quanto mais crítico você se mostrar em relação à autoridade de suas ideias, mais livre será. E tanto mais poderá confiar na clareza de si mesmo.

28 março 2016

Por que deveríamos visitar cemitérios?

© Alessandro Loiola


 
 
Essa é uma Ideia estranha, não? Visitar cemitérios... por que diabos você se daria ao trabalho de algo assim?

Muitos países não-latinos têm cemitérios amplos, abertos, que convidam à visitação. Nós, latinos sulamericanos, cercamo-los com muros bem altos, talvez por medo que alguma alma pule na calçada e tente arrastar você para o submundo. Não tenho notícia de que algo assim tenha ocorrido, mas prevenir é como caldo de galinha, certo? Que mal faz... Então fazemos muros.

Mas existem outros cemitérios. Muitos. Os cemitérios das ideias que não vingaram, das certezas que abandonamos, dos relacionamentos naufragados, das escolhas que nos foderam, dos empreendimentos que não deram certo. E esses cemitérios jazem no esquecimento, a despeito das enormes lições contidas lá.

Diz a lenda que Thomas Edison tentou 1000 vezes até encontrar uma combinação de componentes para o filamento incandescente capaz de produzir a lâmpada como a conhecemos. Quando lhe pergutaram se havia valido à pena 1000 tentativas para acertar somente uma, ele respondeu: "Mas eu não aprendi apenas COMO FAZER uma lâmpada. Eu agora também sei 999 maneiras de não fazê-la". Edison conhecia o valor dos cemitérios.

Aprendemos por "tentativa e erro", é o que me disseram a vida toda. Se aprendêssemos por "tentativa e acerto", teríamos um mundo mais prático e eficiente, mas certamente bem menos poético. O método "tentativa e erro" preenche o mundo com tumbas de equívocos. Existem sabedorias incríveis enterradas nessas lápides, se você souber avaliá-las. Basta caminhar por entre elas de olhos e ouvidos abertos.

Você tem visitado seus cemitérios?

Filosofia de Vendas BO: Não Seja Mais um Usuário.


© Alessandro Loiola 

 

Entre os profissionais de saúde – e principalmente no meio da indústria farmacêutica - o termo “BO” costuma ser utilizado para se referir a remédios que não fazem qualquer mal tampouco fazem qualquer bem, indicados para acalmar ansiedades, nutrir falsas esperanças e encher um pouco mais os bolsos dos seus fabricantes. 

Pois atenção: o assunto “BO” (que eu confortavelmente traduziria BO para Boa para Otário) vai muito além dos comprimidos no balcão da farmácia. 


A Filosofia de Vendas BO

A maioria das pessoas acredita que informações sem fundamento são fáceis de perceber, mas esta é uma certeza traiçoeira. A Filosofia de Vendas BO se utiliza da ciência – melhor dizendo, de suas próprias versões da ciência – para vender ideias e produtos. Seus promotores são “cientistas à frente de seu tempo”, “pesquisadores de ponta”, que desenvolvem técnicas inovadoras de acupuntura, alimentos orgânicos, análises de cabelo, megavitaminas, fórmulas antiestresse, chás para diminuir o colesterol, palmilhas magnéticas, dietas que curam AIDS, eliminadores de manchas e estrias, ativadores da imunidade, tônicos capilares milagrosos, purificadores ionizantes de água, panelas que aumentam a quantidade de nutrientes da comida, alimentos especiais para equilibrar a química do corpo, etc.

Nestes casos, o que vende não é a qualidade do produto, mas a capacidade de influenciar a “audiência” (leia-se clientes). Campanhas BO´s atingem as pessoas emocionalmente. Boa parte dos produtos e abordagens jamais passou por qualquer experimento científico sério que comprovasse sua eficácia.

Desde a antiguidade, as pessoas vêm perseguindo quatro porções mágicas diferentes: do amor, da fonte da juventude, da cura de todos os males e a superpílula atlética. Os BO´s em geral se encaixam em uma dessas categorias de desejo. O que antes eram chifres de unicórnio, elixires, unguentos e amuletos, viraram vitaminas, pirâmides, extratos de ervas, florais, aromas, cristais, cromoterapia e muitos outros produtos disfarçados de ciência. Atletas vendem cereais que nos transformarão em campeões. Suplementos de vitaminas devem ser utilizados por todo mundo, sem contraindicações. E por aí vai.


Identificando uma abordagem BO

É possível identificar 10 linhas gerais da Filosofia de Vendas BO. Elas podem ocorrer isoladas ou em combinações criativas. Conhecê-las é importante para avaliar até onde determinada informação baseia-se em ciência de verdade ou em falcatruas vazias.

1. Testemunhos: experiências pessoais não são suficientes para comprovar a eficácia de um determinado medicamento ou produto. É perigoso acreditar que, apesar de um remédio para uma determinada doença grave não ter funcionado em diversas outras pessoas, ainda assim – e estranhamente - existe uma boa chance dele funcionar para um indivíduo isolado. A maior parte das pessoas que acredita ter obtido sucesso com o uso de uma terapia não-ortodoxa gosta de divulgar sua história – pessoas amam serem ouvidas. As “testemunhas” em geral são motivadas por um desejo sincero de ajudar terceiros, mas raramente atentam para o fato de como é difícil avaliar um produto com base em experiências pessoais. Tampouco lhes passa pela cabeça a possibilidade da melhora ter sido uma mera coincidência e não resultado do tratamento.

2. Objetivos Fantasmas: muitas campanhas dizem algo como “gostaria de se sentir melhor e ter uma aparência mais saudável? Experimente o produto X e tenha mais saúde, paz de espírito e vida sexual mais ativa! Você verá a diferença em poucas semanas!”. As pessoas normalmente possuem altos e baixos e apenas a consciência de estar tomando uma decisão positiva já pode gerar bem-estar sem que isto tenha qualquer relação direta com o produto. Outros BO´s não prometem curar o problema em si, mas “desintoxicar o corpo” ou “auxiliar o organismo no processo de cura”, ainda que não seja possível avaliar cientificamente os mecanismos envolvidos na obtenção destes incríveis efeitos.

3. Doença Inventada: praticamente todo mundo uma vez ou outra apresenta sintomas como dores leves, reações ao desgaste do dia-a-dia, variações hormonais, efeitos da idade, etc. Rotular estes altos e baixos absolutamente naturais como manifestações de alguma doença permite aos promotores da Filosofia de Vendas BO oferecer um produto diferente para cada situação da vida.

4. Palavras Coringa: nesta variação da abordagem “Doença Inventada”, os vendedores sugerem que a ocorrência de um ou mais itens de uma interminável lista de sinais e sintomas podem ser evidências da necessidade imediata de utilizar determinada vitamina, dieta, calçado magnético, energizador de ambiente e outros.

5. Empurroterapia: muitos balconistas de farmácia são mestres em “empurroterapia”, repassando o remédio que lhes dá a maior porcentagem de participação na venda. E alguns ainda dizem que “se você não usar, várias coisas terríveis podem lhe acontecer” e dão seu testemunho. Alguns dias mais tarde, passando pela mesma farmácia, lhe perguntam se algumas daquelas coisas terríveis – e estatisticamente improváveis de acontecer – ocorreram. Com a negativa, eles comemoram o sucesso com você. “Vê? Agora imagina se você não tivesse feito uso do produto X em tempo...”.

6. Estimulando o Livre-arbítrio: a ideia de tomar decisões satisfaz o ego da maioria das pessoas, tornando comuns BO´s que se autodenominam “alternativos”. Frequentemente, esses produtos recomendam que a pessoa mude de estilo de vida ou associe a terapia “alternativa” a um tratamento tradicional. Quando os benefícios surgem, os BO´s então procuram ficar com todos os créditos. Será que apenas as mudanças no estilo de vida ou o uso isolado do tratamento tradicional teriam surtido o mesmo efeito, sem necessidade do BO? Para os fabricantes, obviamente não: os lucros diminuiriam.

7. Teoria da Culpabilidade: muitos tratamentos alternativos se apoiam na “Teoria da Culpabilidade”. Por exemplo, ao tratarem de pacientes com câncer, se os efeitos não são esperados, isso ocorreu pois o “sistema imune” já estava demasiadamente prejudicado pela radioterapia e/ou quimioterapia, o que impediu a ação do BO.

8. Teoria da Conspiração: nesta sandice, Governo, Associações Médicas, Laboratórios farmacêuticos e outros setores estariam todos envolvidos em uma conspiração monstruosa para perpetuação das doenças. É uma tolice sem tamanho. Entre outras coisas, médicos não prosperam mantendo as pessoas doentes, mas curando-as. Vários BO´s se intitulam vítimas de “conflitos filosóficos” com os padrões médico-científicos vigentes, quando deveriam simplesmente admitir que oferecem métodos não-comprovados ou mesmo fraudulentos no lugar de abordagens tradicionais, eficazes e comprovadas. A Filosofia de Vendas BO é especialista em afirmar que trabalhos científicos mostrando a ineficácia de seus produtos tiveram os resultados “comprados” por grandes companhias farmacêuticas.

9. Associação Cultural: para atingir a população-alvo, associa-se o produto a alguma crença popular. Um bom exemplo são os frascos com água do Rio Jordão, areia do Muro das Lamentações, cristais, joias, imagens ou medalhinhas abençoadas e congêneres.

10.  Inspirando Confiança: uma vez que o foco não são os resultados em si, mas a alimentação de esperanças – ainda que falsas -, a maioria dos BO´s se faz acompanhar de uma publicidade recheada de confiança. São comuns frases do tipo “efeito comprovado em mais de 100 estudos realizados em diversos países”, mas nunca se consegue saber exatamente quais estudos, realizados por quem e em quais países. Além disso, mesmo quando os promotores de vendas de BO´s admitem que determinado método ainda necessita maiores investigações científicas, eles procuram minimizar este dado e maximizar a autoconfiança nos resultados positivos – e se esforçam para que este entusiasmo contagie os consumidores. "A cada dia a ciência está comprovando que...", diz o sujeito de terno e gravata segurando um frasco de qualquer coisa.


Sucesso nas vendas, problemas na Filosofia

No quesito “satisfação do cliente”, a arte ganha da ciência em quase todos os níveis sócio-econômicos. Apesar da Filosofia de Vendas BO oferecer um certo – e muitas vezes valioso - apoio psicológico aos pacientes, elas também favorecem o surgimento de uma confiança supervalorizada no vendedor e em seu produto. E este é um ponto perigoso.

A possibilidade de atrair a vítima com promessas infundadas, afastando-a do tratamento realmente eficaz, é um aspecto cruel. Mesmo quando a morte é inevitável, falsas promessas podem produzir danos importantes. Vários especialistas que analisam o processo de morte mostraram que, apesar da reação inicial de choque e incredulidade, os pacientes terminais se adaptam razoavelmente bem à situação desde que não se sintam abandonados. As pessoas que aceitam a inevitabilidade do seu destino não apenas morrem psicologicamente preparadas mas também podem colocar assuntos práticos em ordem. Por outro lado, aquelas que se apoiam em BO´s, podem se perder em atitudes de negação. Gastam inutilmente não apenas recursos financeiros, mas também o pouco tempo que lhes resta.

Os BO´s gostam de afirmar que “a ciência não possui todas as respostas”. Isto é verdade, mas a ciência jamais se propôs a tê-las. Ciência é um processo racional e responsável que pode responder a várias perguntas, mas não é perfeita e tem sua cota de insucessos. A bem da verdade, estes mesmos insucessos refletem um elemento-chave da Ciência: sua disponibilidade em testar seus próprios métodos e crenças, abandonando o que se mostra ineficaz.

Os verdadeiros cientistas não possuem qualquer comprometimento filosófico com um tratamento em particular, mas apenas com o desenvolvimento e utilização de métodos seguros e eficazes para um determinado propósito. Quando um remédio ou abordagem BO não consegue passar por um teste científico, seus proponentes simplesmente rejeitam os resultados e se comportam de maneira similar aos mágicos no circo, retirando a atenção do público daquilo que realmente interessa. Quando confrontada com críticas fundamentadas, a Filosofia de Vendas BO simplesmente muda de tópico, incapaz de responder perguntas simples, tais como: de que maneira foi comprovada a eficácia do produto? Em que revista foram publicados os resultados dos estudos científicos comprobatórios? Quais as possíveis contraindicações e efeitos adversos daquele tratamento?.


Como evitar a Filosofia de Vendas BO ? 

Infelizmente, as abordagens BO´s não possuem uma tarja de advertência no frasco ou vêm acompanhadas de avisos do Ministério da Saúde. Além disso, alguns produtos realmente eficazes em um determinado tratamento podem ser utilizados como BO´s em outros – p.ex., remédios comprovadamente úteis para controle do tabagismo são vendidos em associação a suplementos vitamínicos suspeitos.


A melhor medida é desconfiar sempre. A Natureza não dá saltos e soluções milagrosas devem ser avaliadas com boa dose de reserva.


Não pretendo desvalorizar experimentos e alternativas honestas direcionadas para a diminuição do sofrimento alheio, mas, antes, ilustrar como os BO´s se promovem e prosseguem iludindo o grande público, algumas vezes com consequências bem ruins.

 

24 março 2016

Reclamadores Crônicos

© Alessandro Loiola


Sabe o tal sujeito que se queixa da falta de chuva no dia ensolarado e da falta de um solzinho no dia chuvoso? Que a comida estava muito quente ou muito fria? Que a esposa ou o marido ou o emprego lhes causa tédio demais ou lhes dá nos nervos demais? Pois bem, ele (ou ela) é um digno representante da famigerada tribo dos Reclamadores Crônicos - uma subespécie do Homo sapiens chatus aporrinhensis.

É difícil concordar com o raciocínio destes seres que reclamam sem parar. Vivemos as conseqüências de nossas próprias opções. Alguém está obrigando você a viver nesta cidade, neste país, naquele emprego, com aquela pessoa ou com este exato estado de humor? Não. Tudo é fruto de suas escolhas. Podem não ser escolhas fáceis, mas ainda assim são escolhas. E acredite: é você quem decide.

Apesar dos dissabores, os Reclamadores Crônicos parecem seguir uma marcha inexorável em direção ao domínio do mundo. Como estão conseguindo esta proeza? Eu acredito que 3 teorias do comportamento podem responder este mistério:


Teoria um: a Lei de Murphy

“Se alguma coisa pode dar errado, dará”. Quase sempre, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. Este raciocínio típico possui muitos adeptos e é como um batismo para os novos candidatos a Reclamadores Crônicos.

Alguns exemplos práticos da Lei de Murphy: as peças que exigem maior manutenção quase sempre estão no local mais inacessível do aparelho. Ao vasculhar uma gaveta, você só encontra aquilo que não está procurando.

Quando o telefone toca, se você tem caneta, não tem papel. Se tem papel, não tem caneta. Quando finalmente pega ambos, o telefone se cala. E se você jogar fora alguma coisa que tem guardada há muito, muito tempo, vai precisar dela logo, logo.

Um Reclamador Crônico que se preze traz em seus genes uma mensagem clara da Lei de Murphy: a Natureza opera a favor da falha. E ele mesmo, o Reclamador Crônico, sente-se uma prova viva disso.


Teoria dois: o código dos metais

Este nobre código de comportamento é constituído por 4 regras consecutivas, encabeçadas pela Regra de Ouro: “Faz aos outros o mesmo que desejas que te façam”.

O risco de falências judiciais associadas à prática da Regra de Ouro resultou em uma adaptação do código mais fácil de ser seguida, chamada Regra de Prata: “Não faça aos outros o que não desejas que te façam”.

Como tudo que foi mudado pode ser melhorado para pior, à Regra de Prata seguiu-se a Regra de Bronze: “Faz aos outros o que te fazem”.

Porém, a versão mais atual do Código de Conduta dos Metais, editada pelos Reclamadores Crônicos, recebeu nome de Regra de Ferro. Este exemplo de puro altruísmo humano prega o seguinte: “Faz aos outros o que quiseres, antes que te façam o mesmo!”. Simplesmente magnânimo.


Teoria três: o princípio dos cegos e o elefante

A Lei de Murphy explica como os Reclamadores Crônicos nascem (negativismo), e o Código dos Metais elucida como eles se multiplicam (por vingança). Mas por que eles não melhoram com o tempo? A explicação pode estar no Princípio dos Cegos e o Elefante, derivado da fábula indiana de mesmo nome.

Na fábula, alguns cegos decidiram aprender o que era um elefante tocando partes diferentes do animal. Um tocou o lado do corpo do elefante e o descreveu como uma parede. Outro tocou a tromba, e ficou convencido de que o animal era como uma serpente. O que tocou o joelho disse tratar-se de uma árvore. O que tocou as nádegas disse que aquilo tudo não passava de uma imensa merd… bem, você captou a idéia.

Mais tarde, ao se reunirem, os cegos se envolveram em uma discussão acalorada. Cada um tinha sua própria versão do bicho, mas nenhuma delas parecia se encaixar com a do outro. Embora estivessem individualmente certos, a intolerância em compreender a verdade do próximo impedia a todos de entender o que era realmente o paquiderme.

Assim como os cegos e o elefante, os Reclamadores Crônicos palpam um fio do cabelo do nariz da vida e aquilo lhes basta para conceber uma sequência infinita de dificuldades e tristezas. Apegados às suas meias-verdades, eles não entendem que nossas opiniões mais fervorosas são apenas construções frágeis que criam a ilusão de que sabemos alguma coisa – quando não sabemos de coisa alguma.

Juntamente com a existência, você recebeu de presente duas possibilidades: desperdiçar primaveras reclamando de cada novo detalhe que a vida lhe oferecer, ou maravilhar-se continuamente com a imprevisibilidade de cada minuto. A escolha é simples – e sua apenas. Faça-a da melhor maneira possível. Só não venha reclamar depois no meu ouvido.

22 março 2016

O Desafio da Lista


(c) Alessandro Loiola



Em um exercício de sintonia conjugal, fui desafiado pela minha esposa para listar seus pontos positivos. Desafio aceito. Vamos lá, riqueza, seguinte:


1. Você é inteligente. E esforça-se de modo genuíno para ampliar sua inteligência. Admiro imensamente isso. Mesmo. E tenho orgulho por saber que escolhi como companheira alguém com uma característica tão notável.


2. Você é lúcida. Sem dúvida quanto a isso. Tem uma boa noção da realidade. É uma noção ainda restrita, mas que se expandirá - apenas uma questão de livros e algumas vivências. O tempo se incumbirá de ambos.


3. Você é responsável. Disciplinadamente responsável, decidida, com objetivos e planos bem definidos. Basta olhar a evolução do currículo de sua vida para perceber isso. E essa peculiaridade faz parte da natureza de cada célula sua. Pelo que já vivi até aqui, posso lhe dizer que Isso é muito, muito raro.


4. Você é capaz de mudar de verdade. Algo absolutamente notável em nossa espécie. Eu invejo isso em você.


5. Você é discreta de um modo elegante e charmoso. Polida, educada, refinada, do modo de pensar ao modo de se vestir.


6. Você é divertida. Gostaria que fosse mais, que se soltasse com mais espontaneidade e deixasse fluir isso de dentro de você. Algumas vezes, você parece se policiar em demasia e penso que isso pode te fazer sofrer um pouco. Talvez você tenha vontade de ser mais livre e mais desprendida, mas âncoras sociais-morais internas te seguram ainda. Também acredito que isso diminuirá com o tempo e você - cedo ou tarde - poderá viver toda a luz dessa alegria que carrega. Gostaria de estar ao seu lado quando esses dias chegarem.


7. Você sabe se articular, espanando as nuvens de problemas enquanto foca nos resultados futuros. Isso exige um nível de abstração sábia que muitas pessoas não adquirem mesmo após várias décadas de vida. E você nem tem tantas décadas assim.


8. Você se preocupa afetuosamente com os outros. Com seus filhos, seus pais, as pessoas que gosta.


9. Você não tem inveja de qualquer coisa ou pessoa. Percebo isso em cada conversa que temos e em como você descreve o mundo à sua volta.


10. Você sabe como controlar sua insegurança ao invés de deixar-se dominar por ela. O medo natural existe, mas você o restringe com ferramentas de lógica (algo impressionante no sexo feminino!) e impede que ele incapacite seu raciocínio.


11. Você é leal, ainda que isso custe seu próprio bem estar algumas vezes.


12. Você é sincera. Quando conversamos, você comunica seus sentimentos com honestidade e transparência desconcertantes. Neste ponto, estou muito atrás do seu nível de percepção das emoções e eficiência em colocá-las na mesa.


13. Você é destemida (apesar de um certo medo inato de aranhas...)


14. Você é persistente de um modo organizado. E isso exige saber bem o que se quer. E só quem sabe QUEM é pode saber O QUE quer.


15. Você é sensível, mas não de um modo afetado. Com frequência, vejo seu lado lúcido lutar contra essa doçura, e lamento um pouco por isso. Sensibilidade não é fraqueza, e torço para que daqui alguns anos você se sinta mais à vontade para exteriorizar isso com mais frequência nos seus círculos de intimidade. Novamente, gostaria de estar ao seu lado quando esses dias chegarem.

21 março 2016

Deixa eu te contar como são os homens...



© Alessandro Loiola



Livros e artigos sobre “o que pensam as mulheres?” ou “o que querem as mulheres?” existem às dezenas de milhares de bilhões em toda parte. É só abrir uma revista ou jornal qualquer e lá estará o famigerado texto.

O que nos leva a uma constatação: não admira que algumas mulheres se queixem que seus relacionamentos hétero não vão bem. Antes de ler páginas sobre “como o cara perfeito deve se portar” ou preencher aquele Quiz “descubra se ele te trai”, que tal descobrir COMO DE FATO OS HOMENS SÃO?

Afinal de contas, talvez a raiz do problema não esteja exatamente em você ou nele, mas na versão feminina do estereótipo masculino que você carrega, mais um Christian Grey preparado pela sua cabeça... – por sinal, um personagem que para nós, homens com padrões de homem, é um puta de um boiola inseguro.

Responda sinceramente: quando foi que você se preocupou em analisar a anatomia emocional do sexo oposto sem colocar seu próprio umbigo no foco? Pra ajudar esta tarefa – que é bem simples, diga-se de passagem, pois sentimentalmente os homens são mesmo bem menos complicados que as mulheres -, eu preparei uma lista de DEZ ITENS sobre como nós homens somos: 


1. Homens falam sobre seus sentimentos. É verdade, nós falamos. Por mais estoica e espartana que tenha sido nossa criação, o território dos sentimentos existe e você pode explorá-lo utilizando alguns subterfúgios.

Em geral, não nos sentimentos confortáveis com investidas diretas nessa área, então que tal tangenciar as emoções perguntando coisas do tipo “o que você faria em uma viagem romântica de uma semana?” ou “o que achou de mim a primeira vez que me viu?”. As respostas irão lhe revelar como ele se sente e talvez vocês se sintam mais conectados e à vontade a partir daí.


2. Homens dizem “Eu Te Amo” com Ações. Sabe aquela torneira que estava pingando? O lixo que precisava ser levado para fora? A louça que ansiava ser lavada? Os pneus do seu carro que precisavam de alinhamento? A compra no supermercado? O buscar e levar das crianças? O abrir portas? O carregar malas? Você pode até se defender dizendo que "não passa de obrigação dele!", mas o fato é qualquer ação que torne o mundo de sua amada mais leve e confortável, na cabeça de um homem, equivale a um enorme, sonoro, estrondoso Eu Te Amo.


3. Homens ouvem. Só porque o cara não fica dizendo “Humrum” ou “Tendi” enquanto você desfila seu longo monólogo de angústias pré-menstruais, isso não significa que ele não está lhe ouvindo. A maioria de nós prefere ouvir e pensar sobre o que está sendo dito em absoluto silêncio. Homens amam silêncio – mas isso não quer dizer que odeiam ouvir você tagarelar.


4. Atividades compartilhadas formam vínculos. Homens estreitam seus laços de amizade e afeto realizando e compartilhando atividades – bem mais do que conversando sobre ideias e sentimentos. Considere isso um traço do genoma Neandertal. Ficamos mais satisfeitos, aumentamos nossa confiança e nos dedicamos mais quando dividimos uma atividade qualquer, podendo ser uma partida de tênis, uma caminhada, uma remada de caiaque ou uma rodada do bom e velho sexo.


5. Homens precisam de um tempo para eles mesmos. “Ué, mas você não acabou de falar que temos que fazer coisas juntos, poha?”. Sim, querida, eu falei. Mas homens precisam de um tempo para eles mesmos. Pode ser fazendo jardinagem, surfando, tocando violão, malhando na academia, andando de moto, o que for. Encoraje-o para que ele tenha momentos assim. Quanto mais espaço ele tiver para desenvolver sua individualidade, mais dela ele terá para entregar a você e ao relacionamento.


6. Homens “deixam pra lá” mais rápido que as mulheres. Mulheres tendem a reviver suas experiências negativas em círculos mais longos e repetitivos. São espirais enooormes de estresse, ansiedade, tristeza, etc, que vêm e vão. Em contrapartida, os homens tendem a seguir em frente com mais rapidez e pragmatismo. Então, quando você for recuperar o fio daquela discussão da semana retrasada, requentando suas mágoas, não ache ruim se ele simplesmente disser “... Mas eu achei que aquilo já tinha sido resolvido...”. Na cabeça dele, tinha sido mesmo.


7. Homens não captam pistas sutis. Já viu algum treinador de futebol solfejando um soneto pro seu beque estraçalhar o atacante do outro time? Ou algum sargento fazendo discretos devaneios com uma luva como forma de instrução para qual lado a tropa deve marchar? Homens não são sutis. Nós não captamos aquela levantada de sobrancelha que você treinou tanto, não percebemos o cabelo cortado e também não interpretamos corretamente sua cara triste. Então, se você quer que seu homem entenda uma mensagem, pelamordedeus, seja direta e diga na lata.


8. Homens respondem ao Apreço. Mostrar apreço por algo que seu homem fez é uma ferramenta quase milagrosa. Homens respondem muito bem a demonstrações de reconhecimento e aprovação.

Uma dica pra você testar isso: segure aquela cara barbuda que ainda não escovou os dentes, olhe nos olhos dele e diga-lhe com doçura como você o acha competente e aprecia o cuidado que ele tem com você / a casa / as crianças, etc, e veja se estou errado. Eu não estou.


9. Homens pensam em sexo. Pra cacete. Graaande segredo, não? A imensa maioria dos homens com menos de 60 anos pensa em sexo pelo menos uma vez ao dia – contra apenas 25% das mulheres. E isso não é tudo: homens constroem fantasias sexuais duas vezes mais que as mulheres, e também pensam muito mais sobre sexo casual e aventuras sexuais. Pra seu alívio, deixa te dizer: “pensam” não significa “fazem”, ok? Ou pelo menos, quase sempre.

O sexo tem um peso muito significativo para um homem. Nós temos ansiedade quanto à performance e nos preocupamos se não estamos lhe dando prazer suficiente. A questão de proporcionar prazer à parceira é justamente uma das peças que tornam os relacionamentos longos mais satisfatórios para nós: tivemos tempo para aprender suas manias e segredos, e agora sabemos quando é cócega e quando é gozo. Um homem sabe que irá sentir-se bem quando você estiver bem.

Ainda que sexo seja importante para nós, fique atenta para dois detalhes: também amamos quando vocês tomam a iniciativa. Ser perseguido por uma fêmea com volúpia nos olhos e fogo nas veias atiça qualquer libido masculina. Não sinta vergonha de dizer para ele “Hoje sou eu quem quer!”. Tomar a iniciativa uma vez ou outra certamente irá aumentar o nível de satisfação de ambos.

Segundo detalhe: apesar da fixação por sexo, algumas vezes não estaremos a fim. Não é o apocalipse, mas acontece. Pressões do trabalho, preocupações financeiras, problemas familiares... o estresse detona a libido. Detona mesmo. Então se ele disser “Hoje não”, não significa que ele perdeu completamente o interesse por você e está prestes a largar tudo para virar um eremita no Tibete. Ele está dizendo apenas “hoje não”. Amanhã é outro dia. Volte ao item 6, se quiser.


10. Homens tendem a mudar o foco quando suas necessidades não são satisfeitas.  Se o cara não se sente amado e confortavelmente acolhido em uma relação, ele irá buscar satisfação em algum outro lugar. Ele pode se enterrar no trabalho, ou desenvolver fixação por esportes, ou videogames, ou pornografia online, ou traições no mundo real. A saída para evitar equívocos assim está, como sempre, no diálogo, que deve ser forte, franco e frequente.