25 agosto 2007

DOUTOR CONSULFONE

© Dr. Alessandro Loiola


É possível que um dos casamentos mais antigos entre a Medicina e a tecnologia de comunicação tenha sido o Consulfone, aquela consultinha rápida que algumas pessoas adoram fazer pelo telefone.

- Desculpa te importunar com isso, mas fiquei preocupado e... – segue um imbróglio de sinais e sintomas que cobre desde a primeira lembrança da tenra infância do sujeito até sua lista de compras na feira do dia.

Em alguns casos, o Consulfone resulta em orientações úteis, mas nem sempre é assim. Algumas edições são verdadeiros testes mediúnicos:

- É minha avó, doutor, ela tá com uma queimação atrás da orelha, o que acha que pode ser?

Como assim, o que eu acho que pode ser ? Uma queimação atrás da orelha??

– Olha, tantos anos depois da faculdade, nem lembro mais onde deixei meu jogo de búzios baianos legítimos... Pode aguardar um minutinho?

Outros ligam para dar um nó no cérebro da gente. Entre o caminho de um hospital a outro, toca o celular. Encosto o carro, atendo e paro para ouvir:

- Ontem assisti uma reportagem sobre câncer e, como tenho sentido um comichão no dedo médio do pé esquerdo, pensei em ligar e perguntar: o que você acha da fitoterapia para queda de cabelos?

Pronto. Vou levar uns 10 minutos até lembrar como engato a primeira marcha. E mais uns 20 até descobrir que rua é essa mesmo...?

O Consulfone mais recente foi de alguém da família querendo tirar dúvidas sobre Cistite. Mulher, meia idade, com mais uma crise de inflamação na bexiga.

- Quero saber porque vivo tendo isso, você pode me explicar?

Como senti que ela estava a um passo de retornar ao médico que a havia consultado para parti-lo ao meio com a caixa de antibióticos, enveredei pela ciência.

As infecções urinárias baixas, particularmente as Cistites, são bastante comuns em mulheres. Cerca de 20% delas sofrerão pelo menos 1 episódio ao longo da vida. Ainda não se sabe ao certo o porquê da preferência das Cistites pelo sexo feminino, mas existem fortes suspeitos. Por exemplo, o canal de saída da urina (a uretra) é duas vezes mais longo nos homens e seu orifício de abertura, mais amplo nas mulheres, facilitando a contaminação da urina por bactérias - e o maior número de Cistites - entre Elas.

As características da uretra feminina também facilitam a contaminação da urina após o intercurso sexual. Este tipo de infecção é tão comum que possui até um apelido: Cistite da Lua de Mel.

Dor ao urinar, mudança na cor e no odor típico da urina são as principais manifestações da Cistite. O diagnóstico pode ser feito através de um exame de urina de rotina. Contudo, qualquer pessoa com relato de mais de duas infecções urinárias em 6 meses ou mais de 3 infecções em 1 ano deve realizar exames especializados para avaliar fatores predisponentes, tais como doenças sexualmente transmissíveis, pedras nos rins ou má-formação nas vias urinárias.

Em homens, a cistite pode significar ainda a presença de obstrução na via de saída da urina, sendo necessário avaliar a possibilidade de alterações na próstata.

A Cistite deve ser tratada com analgésicos, antibióticos específicos e orientações sobre higiene: urinar imediatamente após o ato sexual ajuda a eliminar bactérias que possam ter alcançado a bexiga, diminuindo o risco de cistite. O suco de Cranberry, um tipo de uva muito comum na América do Norte, também provou ser um recurso natural eficaz para reduzir a incidência de Cistite.

- Enfim, converse calmamente com seu médico – disse, terminando o Consulfone familiar convencido de que este recurso pode ser reconfortante para alguns, mas jamais irá substituir o bom e velho exame clínico realizado ao vivo e em cores.

O paciente de um colega médico, que parecia compreender a importância disso e do quão desconfortável é ficar realizando Consulfones à distância, ligou para ele bem no meio da madrugada:
- Alô...
- Doutor, quanto o senhor cobra por uma consulta aqui em casa?
- Hein? Hum... Duzentos reais.
- E por uma consulta no seu consultório?
- Cem reais.
- Tá bem. – o sujeito fez uma rápida pausa e completou, muito solícito – A gente se encontra daqui a 15 minutos lá no seu consultório.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

14 agosto 2007

NADA MENOS QUE MAIS UMA GOTA

© Dr. Alessandro Loiola


Ele entrou no consultório andando torto como deve andar um Curupira. Os pés não estavam para trás, mas precisei dar uma boa olhada para confirmar isso.
- É doutor, dessa vez a pelada me pegou de jeito. O pé direito tá me matando – foi tirando o sapato com aquela cara de sofrimento digna de um Oscar.
- Pisaram em cima? Caiu, torceu...?
- Nada, nada. Joguei bola ontem, tudo certo. Beliscamos uns petiscos, tomamos umas depois, fui para casa em paz e acordei com esse despertador aí latejando – apontou para o dedão vermelho e inchado.

Nenhum sinal de deslocamento, radiografia sem fratura. Passei os remédios de praxe e pedi alguns exames. No dia seguinte ele voltou, menos Curupira que no dia anterior. Entregou os resultados e sentou feito um menino enquanto o pai checa o boletim do semestre.
- Rapaz, sabe aquele bife suculento do almoço?
- Sim.
- Pois ele estava cheio de Purinas.
- Purinoquê?
- Purinas. São substâncias presentes nos alimentos, especialmente carnes. A digestão das purinas resulta na produção de ácido úrico. Normalmente, o corpo é capaz de eliminar o excesso de ácido úrico, mantendo a concentração sangüínea abaixo de 7 miligramas por decilitro.
- Certo.
- Em algumas circunstâncias, o organismo produz uma quantidade muito grande ou perde a capacidade de eliminar o ácido úrico produzido em excesso. Como quando a gente como carnes em excesso, desidrata ou toma umas cervejas além da conta.
- Humm... – ele murmurou. Nada como um bom sentimento de culpa para despertar o compromisso com a própria saúde.
- Na temperatura corporal e em concentrações acima de 7, o ácido úrico se transforma em cristais que se depositam nas articulações, causando dor e inflamação intensa. Essa situação é conhecida como Gota. Você está com Gota.
- Afmaria, meu avô morreu disso!
- É, mas hoje em dia ninguém morre por causa de Gota. Apenas você terá que tomar alguns remédios e cuidados. Na verdade, mais cuidados que remédios.

Ainda assim, o medo dele até que procedia. Nos idos de 1900 e antigamente, toda pessoa portadora de Gota evoluía com dores articulares crônicas e incapacitantes. Após décadas de pesquisa, a Gota deixou de representar uma grande ameaça à saúde, mas continua sendo uma doença com risco de complicações sérias, podendo levar à deformidades, hipertensão arterial, diabetes e problemas renais graves.

Os principais fatores de risco para Gota incluem cigarro, obesidade e consumo excessivo de bebidas alcoólicas. No caso do nosso paciente, ele preenchia todos os critérios de risco, com louvor.

A dor em uma articulação é a manifestação mais comum: cerca de 90% dos pacientes apresentam inflamação aguda em uma única articulação, em geral nos membros inferiores. O dedão é o local mais comum da primeira crise. O diagnóstico é feito através do exame médico e de alguns testes complementares.

Toda pessoa que já sofreu um ataque de Gota deve fazer um tratamento específico para reduzir os níveis de ácido úrico no sangue. Além de prevenir novas crises, o tratamento também diminui o risco de destruição das articulações. A alimentação correta é essencial nesse sentido: uma dieta adequada é capaz de reduzir 1-2 pontos totais nos níveis sangüíneos de ácido úrico. Apesar de parecer insignificante, essa redução pode ser a diferença entre uma vida normal ou dores permanentes.

Quem tem Gota deve evitar carnes, miúdos, peixes, frutos do mar, aves e bebidas alcoólicas de todos os tipos. Os líquidos devem ser ingeridos à vontade, para que a urina esteja sempre clara. Entretanto, o álcool – especialmente a cerveja - deve ser evitado, pois pode precipitar ataques dolorosos.

Leite, chá, café, chocolate, queijos magros, ovos cozidos, manteiga e margarina, pão, macarrão, fubá, mandioca, arroz branco, milho, vegetais, doces e frutas não causam crises.

Finalmente, alguns alimentos naturais, como Abacaxi, Alho, Arnica, Arruda, Camomila, Couve, Inhame, Limão, Mirtilo, Tomilho e Zedoária, podem auxiliar a reduzir os sintomas, mas não devem ser utilizados indiscriminadamente sem recomendação profissional especializada.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

07 agosto 2007

REVISITANDO A LINGUAGEM CORPORAL


Pesquisas realizadas nas últimas décadas mostraram que, quando você está falando, apenas 7% da mensagem está sendo transmitida para os outros através das palavras. Outros 38% estão relacionados à entonação do que é dito.

Um bom exemplo da importância da entonação está no treinamento de cães de guarda: eles não interpretam a gramática das frases, mas o seu tom de voz. Um comando de conteúdo imperativo, emitido em um timbre de voz baixou ou trêmulo, transparece insegurança e dificilmente será obedecido. Porém, se emitido em tom mais alto e firme, transmite o sentimento adequado de liderança e resulta na ação esperada. O mesmo principio pode ser aplicado às crianças em casa e em salas de aula cheias de adolescentes.


Bom, mas 7% de um, somados a 38% de outro, são iguais a 45%. Onde se meteram os outros 55% do que você queria dizer? Fácil: eles estão espalhados pelo seu corpo todo. É a famigerada Linguagem Corporal.

A Linguagem Corporal é um instrumento de comunicação tão antigo e bem sucedido que se incrustou em nossos genes: crianças que nasceram cegas sorriem, ainda que elas jamais tenham visto um sorriso para reconhecer seu significado. Somos todos geneticamente programados para emitir e interpretar esta comunicação silenciosa. E dominar seus sinais pode fazer toda a diferença.

As estatísticas mostram que pessoas que sabem como controlar voluntariamente o tom de voz e a linguagem corporal são consideradas mais atraentes que aquelas que deixam tudo por conta do instinto. Isso ocorre porque a primeira impressão que os outros fazem de você não começa no momento em que você começa a falar. Esta impressão começou a ser construída muito antes, a partir da sua postura, padrão respiratório, aparência e movimentos.

Não existe um conselho universal sobre como utilizar a linguagem corporal, mas algumas recomendações básicas devem ser conhecidas. Procure estar sempre ciente do que seu corpo está dizendo enquanto você se senta, anda, permanece em pé ou gesticula.

Uma boa dica é vencer a timidez e praticar um pouco na frente do espelho. Eu sei, parece tolice, mas quem estará olhando afinal de contas? O espelho lhe dará uma boa idéia de como analisar a linguagem corporal dos outros e o que seu corpo pode estar dizendo enquanto você permanece em silêncio.

Observe seus amigos, artistas, políticos, e qualquer pessoa que você considere possuir uma boa linguagem corporal. Estude como estas pessoas agem e copie um ou outro padrão de linguagem. É provável que você exagere no começo e pareça artificial, mas a prática leva à perfeição – se você não começar um dia, então quando?

Para facilitar seu treinamento, eu selecionei algumas situações rotineiras onde você pode empregar o conhecimento da Linguagem Corporal a seu favor. Veja só:


INSPIRANDO CONFIANÇA

Para transmitir uma imagem de confiança (p.ex.: durante uma reunião de trabalho), mantenha braços e pernas descruzados, e relaxe os ombros. Se estiver sentado, procure uma posição relaxada e confortável, mas não escorregue pela cadeira até o fundo da mesa.

Nada de ficar contemplando o chão ou a tampa da sua esferográfica: faça contato visual com as pessoas. Olhe seus interlocutores nos olhos. Se possível, vire um pouco seu corpo, incline-se na direção da pessoa e balance a cabeça discretamente, de modo afirmativo. Isso irá mostrar que você está prestando total atenção ao que está sendo dito. Quando for sua vez de falar, seja firme porém mantenha a calma.

E cuidado com alguns sinais que podem detonar sua imagem. Tocar seu rosto significa irritabilidade, nervosismo ou indecisão. Dedos tamborilando denotam distração, falta de sintonia com o grupo ou com as idéias outro. Braços cruzados sobre o peito podem indicar defesa, tédio ou reprovação.


DETECTANDO MENTIRAS

Obviamente, o simples fato de alguém exibir alguns dos comportamentos descritos a seguir não significa que está mentido descaradamente. Estes padrões devem ser comparados com o jeito de ser da pessoa e jamais considerados de modo isolado. Certo até aqui? Então vamos lá:

De um modo geral, o primeiro sinal emitido pelo mentiroso é a falta de contato visual – nada de “olhos nos olhos”. Se você observar melhor, verá que antes de responder às suas perguntas, o mentiroso desvia o olhar para a sua esquerda. Isso significa o uso de áreas do cérebro envolvidas com imaginação – ele está “criando” uma lembrança, ao invés de relatar o que realmente aconteceu e está guardado em sua memória. O olhar desviado para a sua direita significa a ativação de áreas cerebrais responsáveis pela memória, e tende a significar que ele está relatando uma lembrança verídica.

Ao contar uma mentira, movimentamos pouco os braços e pernas. Os movimentos são pouco expansivos, evitando chamar ainda mais a atenção. Toques sutis no nariz e na região atrás das orelhas são comuns, assim como colocar inconscientemente objetos (p.ex.: um livro, uma xícara de café) entre você e a outra pessoa.

Os mentirosos costumam repetir o que você disse quando respondem algo. Por exemplo, ao perguntar ao seu filho “você já fez o dever de casa?”, ao mentir ele tende a responder “Já, mãe, eu já fiz o dever de casa”. Uma resposta mais honesta consistiria em um simples “Já”.

Finalmente, pessoas culpadas costumam agir na defensiva, enquanto que os inocentes quase sempre assumem um comportamento agressivo quando acusados. Um modo prático de verificar este comportamento consiste em mudar repentinamente de assunto. O mentiroso irá seguir a mudança, agradecido e relaxado por se ver livre a saia justa. O inocente acusado insistirá no tópico anterior, buscando esclarecer e mostrar sua ausência de culpa.


FLERTANDO

Na arte da conquista, a linguagem corporal pesa mais que as palavras. Quando gostamos de algo que estamos vendo, nossas pupilas se dilatam e piscamos os olhos mais que o habitual. Mas existem outros sinais típicos e de fácil detecção.

Quando estão flertando, os homens tendem a posicionar as mãos sobre a fivela do cinto ou pendurada com os polegares nos bolsos da frente (é a “postura de moldura”, chamando atenção para a região genital). Eles também se esticam, espreguiçam, respiram profundamente e tencionam os músculos – tudo para parecerem maiores e mais fortes do que realmente são.

As mulheres emitem sinais semelhantes: para assumir um flerte, elas mexem nos cabelos, jogando-os de um lado para o outro e expondo o pescoço. Outro gesto bastante utilizado é a posição de pernas cruzadas com uma mão sobre a coxa. Esta atitude dá às pernas uma aparência torneada e é considerada uma indicação clara de interesse.

Alguns sinais funcionam para ambos os sexos. Por exemplo, a Triangulação do olhar. Primeiro, fazemos contato visual com um dos olhos da pessoa que temos interesse, então com o outro olho, e em seguida observamos sua boca enquanto fala. A alternância do olhar entre estes 3 pontos denota admiração e interesse sexual.

A Imagem em Espelho é outro padrão freqüente. Duas pessoas em sintonia costumam manter seus corpos em posições semelhantes enquanto conversam. Se você deseja despertar interesse em alguém, este é um recurso bastante útil, podendo ser utilizado em quase todas as situações. Espelhar o posicionamento do corpo do outro durante um bate-papo cria um sentimento instantâneo de empatia, passando a mensagem de que você compreende e respeita o ponto de vista daquela pessoa.

Se você está em uma festa ou reunião informal e se aproximou de alguém interessante, não segure nada na frente do seu coração. Se estiver com um drinque, coloque-o sobre um apoio ou simplesmente segure-o do seu lado e mantenha uma distância um pouco maior que 1 passo daquela pessoa. Respeitar o espaço individual do outro é sinal de sofisticação e autoconfiança. Se houve receptividade, você pode ir se aproximando, mas sempre aos poucos.

Por último e não menos importante: esqueça aquele olhar sexy entediado que treinou por horas no espelho do banheiro. Pessoas sorridentes são sempre mais atraentes e sedutoras.



02 agosto 2007

QUALIDADE DE VIDA OU VIDA COM QUALIDADE?

© Dr. Alessandro Loiola


Quando se pensa em temas de saúde, é fácil constatar que a Qualidade de Vida é um dos campeões em investimentos e pesquisas. Apenas nas últimas duas décadas, surgiram centenas de institutos nesta área e até mesmo uma (extremamente bem organizada) Associação Brasileira de Qualidade de Vida.

E por que tanta festa em torno da Qualidade de Vida? Ora, porque ela parece dizer respeito à quase tudo! Você não gosta do seu chefe? Alguém pisou na sua unha encravada? Quer mais 50 canais na sua TV por assinatura e 3 meses de férias por ano? Então você está precisando melhorar sua qualidade de vida. Certo?

Errado. Veja só:

Os especialistas definem Qualidade de Vida como uma análise dos fatores que afetam o bem estar e o sentido que damos para nossas vidas. Isto envolve o funcionamento e a busca pelo aprimoramento físico, psicológico e espiritual de cada ser humano, levando em conta as características do meio ambiente em que vive.

Traduzindo para o compreensível: por Qualidade de Vida, entenda “viver com qualidade”. Esqueça o tamanho do seu bolso, seu celular de última geração e outras conquistas incríveis na escada social. Qualidade de vida tem a ver com um sentimento de plenitude. É aquilo que você finge não escutar dia após dia.

Há vários anos, em uma entrevista durante os festejos natalinos, uma atriz milionária e filantropa foi questionada pelo repórter sobre o que pretendia dar de presente aos seus filhos naquele ano. Após titubear um pouco, a atriz respondeu: - Eu gostaria que eles ganhassem o que me foi mais precioso e estimulante ao longo de toda minha vida: uma infância pobre.

Foram as dificuldades dos primeiros anos, vivendo quase na miséria em uma família de muitos irmãos, que moldaram os pontos de vista daquela mulher. A mesma provação que produziu o sofrimento também resultou em um crescimento pessoal capaz de traduzir-se em uma visão engrandecedora da vida. Esta não é uma percepção solitária.

Desde 1986, a organização inglesa New Economics Foundation (ou NEF) vem pesquisando a qualidade de vida em vários países. Em 2006, cruzando informações relacionadas à longevidade, aos recursos naturais disponíveis e ao índice de satisfação das pessoas com as próprias vidas, a NEF organizou uma lista dos países mais felizes. Os resultados foram no mínimo interessantes:

Apesar de ser considerada a nação mais rica do mundo em renda per capta, Luxemburgo ficou com a 74ª posição no ranking de qualidade de vida da NEF. Os Estados Unidos amargaram um 150o lugar, várias esquinas atrás de Vanuatu (1 o colocado), Colômbia (2 o) e Costa Rica (3 o).

Para satisfazer sua curiosidade, a NEF posicionou o Brasil como o número 63 de sua lista. Isso significa que, apesar de todos os nossos problemas, conseguimos experimentar a vida de modo mais pleno e construtivo que irlandeses, suíços, belgas, italianos ou alemães.

O segredo por trás destes resultados está no fato de muitas pessoas mirarem na Qualidade de Vida como crianças que se escondem para se empanturrar de doces na hora do almoço. Neste caso, no lugar do doce, a população economicamente ativa almeja dinheiro, fama, poder, influência, sucesso. É um enorme equívoco. E um desperdício maior ainda.

O memorável astrônomo Carl Sagan uma vez escreveu que somos um mero microorganismo ordinário vivendo na camada mais externa de um pequeno ponto pálido no céu, e não duraremos mais que algumas poucas voltas em torno da estrela local. Que tal pararmos com as brigas e preocupações, e simplesmente relaxarmos para curtir a viagem? Muito mais que qualidade de vida, isso, sim, seria viver com qualidade. Extrema qualidade.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

23 julho 2007

ALÔ PÉCIA

© Dr. Alessandro Loiola



- É só alopécia – eu disse casualmente.
O sujeito havia marcado uma consulta depois de uma brincadeira de seu filho de 5 anos de idade, que disse: “Papai! Papai! Descobri um pedaço do seu cabelo que só tem pele !”. E daí ele correu para o médico.
- Como é doutor?
- Alopécia. Essa área que está ficando sem cabelo é só Alopécia. Ou Calvície, se quiser um termo mais comum.
Senti que havia sido quase como dizer que ele estava com câncer.
- Calvície!? Brinca não, doutor. Calvície?? E eu ainda tão novo... ai ai ai....

Conversamos um pouco mais, passei as orientações necessárias e ele saiu pela rua se escondendo debaixo de um boné escrito “Hug me! I’m your Teddy Bear!”. Quer dizer, entrar na fila do banco se achando um ursinho de pelúcia pronto para ser abraçado, sem problemas. Tirar o boné e mostrar a alopécia para uma desconhecida, nem pensar!
Fiquei me perguntando - eu próprio um calvo muito convicto e orgulhoso da minha área de desmatamento em progresso no couro cabeludo – por que diabos alguém pode dar tanta importância a um topete rarefeito.

Ainda assim, o mercado capilar movimenta números impressionantes: apenas nos EUA, mais de 15.000 transplantes são realizados a cada ano e a soma dos investimentos nestas plantações (ou implantações, como queira) de folículos pilosos supera os 50 milhões de dólares. Isso para não mencionar o mercado também milionário das drogas que prometem fazer o cabelo crescer, sprays milagrosos e as famigeradas perucas – agora alçadas à nobre condição de Próteses.

Mais de 60% dos pacientes que procuram tratamento para Alopécia são homens entre os 30 e 50 anos de idade. Existem aqueles que o fazem por motivos de saúde, mas a imensa maioria está preocupada apenas com a vaidade mesmo.

A verdade é: homens e mulheres perdem cerca de 100 fios de cabelo por dia e o processo se acentua com o envelhecimento. A maioria dos homens apresenta algum grau de calvície por volta dos 60 anos de idade. Isto é normal, sendo que algumas pessoas são mais afetadas que outras – principalmente quando há uma prevalência de calvície na família.

A perda súbita ou excessiva de cabelo também pode resultar do uso de certos medicamentos, dietas muito severas, alterações hormonais, fivelas, rabos de cavalo muito apertados ou utilizados por muito tempo, infecção por fungos e outras doenças. Entretanto, Cerca de 95% dos casos de Alopécia decorrem de um distúrbio hereditário chamado Alopécia Androgenética.

A Alopécia Androgenética está diretamente ligada à produção de uma substância, a diidrotestosterona (ou DHT), que danifica os folículos pilosos. Acontece da seguinte maneira: ao circular pela corrente sanguínea, a testosterona que todos produzimos (homens e mulheres) é convertida em DHT por uma enzima muito específica, chamada 5-alfa redutase. Quanto maior a atividade desta enzima, mais DHT se ligará aos receptores nos folículos pilosos, levando a cabelos cada vez mais finos. Com a evolução do processo, o folículo atrofia e termina desaparecendo – levando consigo os preciosos fios de cabelo.

A Alopécia sempre gerou muitos mitos, mas é bom que você fique sabendo que:

· Chapéus e bonés não causam calvície.

· Plantar bananeira não aumentará o fluxo de sangue para o couro cabeludo, combatendo a queda de cabelo.

· Massagens vigorosas no couro cabeludo ou limpar excessivamente a cabeça (para “desobstruir os folículos) também não irão lhe salvar.

· Esqueça fórmulas mirabolantes e ingredientes super-secretos capazes de evitar a queda de cabelo que aparecem em comerciais durante a madrugada.
O dia em que uma técnica ou substância 100% eficaz contra a calvície surgir no mercado, você não precisará de um “especialista” na TV ou de um encarte em uma revista de cosméticos para lhe dizer o nome desse medicamento: ele simplesmente estará na capa dos principais jornais do mundo todo.

Em todos os casos, não esquente a cabeça pensando na Alopécia. Mantenha a cuca fresca, sempre. Afinal, quem você realmente é não está sobre seu couro cabeludo, mas logo abaixo dele.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor e palestrante, autor dos livros “Vida e Saúde da Criança” e “Crianças em forma: saúde na balança”. Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.
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08 julho 2007

MILAGRES NOS TEMPOS MODERNOS: DO DNA AO BOM SENSO

© Dr. Alessandro Loiola

Uma amiga baiana mandou um email esta semana querendo tirar algumas dúvidas. Pude até imaginar como perguntaria pessoalmente:

- Sabe, tem tanta coisa absurda circulando na Internet que tem vez que fica difícil separar o joio do trigo, né meu rei?

Neste caso, ela queria saber o que era sério e o que não passava de pura crendice depois de receber uma notícia bombástica sobre experimentos científicos realizados com o DNA. Estas pesquisas secretas – pasmem ! - comprovavam uma miraculosa capacidade do DNA para transmitir emoções através de campos de energia. Sim, desse nível. Imediatamente, lembrei-me do maravilhoso filme "A Menina e o Porquinho".

Se você não assistiu, permita-me fazer uma breve introdução: na película, uma aranha tenta evitar que um porquinho de excelente índole vá para a panela. Para tanto, ela começa a escrever palavras com sua teia, tentando comunicar aos humanos o valioso caráter do jovem leitão. Logo uma pequena multidão começa a visitar a fazenda e o celeiro, admirada com o “milagre”.

Na mesma fazendo da aranha escritora moram um casal e sua filha, uma menina apaixonada por todos os bichos do local e, em especial, pelo porco. Preocupada com os recentes acontecimentos, a mãe procura o médico da cidade vizinha: seria sua filha a responsável pelas palavras na teia da aranha?

Abre parênteses:

- Só pode ser ela, Doutor. Pense bem: o senhor não acha impossível uma aranha escrever com sua teia? - pergunta a mãe, entre aflita e incrédula. - É um absurdo, não um milagre!
- A senhora não acredita em milagres? - questiona o doutor. - Veja bem, a senhora tricota, não? – diz o médico, antes que a mãe possa se manifestar novamente.
- Sim.
- Isso porque ALGUÉM - frisou - lhe ensinou a tricotar, correto?
- Sim, é verdade.
- Mas quem ensinou a aranha, com aquele cérebro menor que a metade de uma cabeça de alfinete, a tecer algo tão incrível quanto sua teia?
- Eu entendo, eu entendo. Mas daí a escrever? Sinceramente...
- Minha senhora, a senhora ainda não entendeu. A aranha não precisa escrever com a teia para ser um milagre. A simples existência teia É o milagre.

Fecha parênteses.

A natureza milagrosa do DNA não precisa ser validada com pesquisas fantasiosas. O DNA é o PRÓPRIO milagre. E isto apenas já deveria ser explicação suficiente para uma espécie que se diz chamar Homo sapiens (Sapiens??).

Para compreender a extensão da nossa cegueira, vamos um pouco além, ainda na biologia e distante da metafísica. Na noite em que seus pais lhe conceberam, 250 milhões de espermatozóides viajaram para encontrar 1 dos mais de 500 óvulos de sua mãe. Fosse um outro óvulo, ou o vizinho daquele espermatozóide, você não estaria aqui. Tente fazer uma análise combinatória para ver quantas pessoas diferentes poderiam ter surgido naquela noite ao invés de você...

Pois justamente aquele óvulo e aquele espermatozóide se encontraram e, apesar de todos os riscos inerentes à anfimixia e ao processo de gestação, você está aí, completando suas primaveras. Você é uma improbabilidade estatística ambulante. Cada um de nós é.

E entre uma translação da Terra e outra, encontramos com alguém na rua que sofreu os mesmos riscos para se formar em humano. De todas as bilhões de estrelas e planetas, e quem sabe bilhões de universos, você e essa outra pessoa se encontram justamente naquele lugar, naquele momento, rodeados de outros seres vivos, e podem se comunicar e trocar sentimentos.
Faça novamente as contas: quais seriam as chances disso ocorrer?

Cada encontro com uma pessoa é um evento único. Cada dia de nossas vidas é como se dobrássemos as leis da Física e as probabilidades Matemáticas mais absurdas. Estamos caminhando contra todo e qualquer cálculo baseado na lógica. E ainda assim, viver parece ser a coisa mais corriqueira do mundo. Quando é um milagre.

Você não precisa quantificar campos magnéticos em moléculas de DNA ou presenciar fenômenos paranormais para perceber que existe algo de muito especial neste mundo. Tudo que você precisa é de um espelho.

E, com alguma sorte, de um pouquinho de lucidez.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

24 junho 2007

GRIPES E RESFRIADOS: ANOTE AÍ ENQUANTO É TEMPO

© Dr. Alessandro Loiola

Fui convidado a um programa de rádio para falar sobre Doenças Respiratórias de Inverno. Para não fazer feio e sair disparando estatísticas estapafúrdias, recorri à sempre muito bem informada Internet. E o que encontrei? Estatísticas ainda mais estapafúrdias do que poderia imaginar.

Por exemplo: a cada ano, as infecções respiratórias de inverno acometem uma de cada 10 pessoas no mundo todo. Faça as contas: são quase 20 casos de resfriados por segundo!

Apenas nos EUA, as Gripes e Resfriados custam mais de 4 bilhões de dólares por ano em hospitalizações e consultas médicas, além de uma perda de produtividade por afastamento do trabalho estimada em outros 7 bilhões de dólares anuais. É bilhão de dólar pra tudo quanto é lado. Infelizmente, nenhum desses bilhões chega até meu consultório. Talvez por problemas no CEP, acredito.

Mesmo com todos estes dados alarmantes, é comum o sujeito olhar para a receita de banda e deixar a sala de exame com aquela cara de “eu sabia que ele viria com essa conversa de virose!”. Mas as doenças respiratórias do inverno são, em sua maioria, viroses de fato.

Apesar da gripe ser causada por um único tipo de vírus mutante, o Influenza, os Resfriados podem ser causados por mais de 200 tipos de vírus diferentes. E atenção: Gripe não é igual a Resfriado.

O Resfriado se caracteriza por dores de cabeça, desconforto na garganta, congestão nasal e coriza, raramente causando febre. A Gripe, por outro lado, é uma infecção mais grave, com febre alta, dores musculares intensas e bastante indisposição, mas raramente causa sintomas do tipo coriza ou rinite.

Para ajudar você a lidar melhor com as viroses de inverno, relacionei a seguir 10 dicas valiosas:

- De um modo geral, os sintomas das viroses de inverno se iniciam 2-3 dias após a contaminação pelo vírus maledito e duram cerca de 7-14 dias até a recuperação completa. Tenha paciência.

- O custo elevado e o tempo prolongado para obter os resultados comprometem a utilidade da maioria dos testes de detecção viral. Por isso os médicos não perdem tempo tentando isolar qual o vírus que está lhe cercando. É caro demais e os resultados só estarão prontos quando você não estiver mais doente.

- A maioria dos casos de Gripe e Resfriados pode ser tratada em casa com sintomáticos, repouso, boa hidratação oral e alimentação equilibrada. Lembra aquela canja da sua avó? Então, ela.

- Para diminuir a irritação do nariz e da garganta, aproveite o vapor do banho quente ou faça compressas sobre o rosto por 5-10 minutos com toalhas limpas ensopadas com água morna.

- O gargarejo com soro fisiológico morno ajuda a reduzir o desconforto na garganta. Curiosamente, o mesmo pode ser dito com relação a picolés e bebidas geladas.

- Comprimidos descongestionantes podem oferecer algum alívio, mas atenção para o risco de efeitos colaterais, tais como palpitações, insônia, ansiedade, elevação da pressão arterial e tremores.

- Descongestionantes nasais tópicos podem diminuir o desconforto no nariz, mas também podem causar piora da congestão algumas horas após seu uso. Para evitar esse problema, limite o uso dos descongestionantes nasais a 3-4 aplicações por dia ou substitua-os pelo soro fisiológico puro e simples.

- Durante a noite, elevar um pouco a cabeceira reduz o reflexo de tosse desencadeado pelas secreções na garganta, melhorando a qualidade do sono.

- Quer diminuir seu risco de pegar uma gripe ou resfriado? Lave cuidadosamente suas mãos por 20 segundos com água e sabão comum, várias vezes durante o dia.

- E por último: muitos vírus que causam resfriados podem sobreviver por até 3 horas em corrimões, telefones, maçanetas, etc. A limpeza regular destes locais com desinfetantes pode ajudar a reduzir o risco de infecção, mas isso não substitui a boa higiene das mãos.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

10 junho 2007

DONG ZHI E A ASMA

© Dr. Alessandro Loiola


O Dong Zhi é um dos feriados mais importantes da cultura Chinesa, perdendo apenas para o Ano Novo. Ele marca o momento em que a Terra está no ponto de sua órbita mais afastado do sol, ocorrendo em 21 de dezembro no hemisfério norte e entre 21 e 22 de junho no hemisfério sul. Não por coincidência, o Dong Zhi – ou Solstício do Inverno - marca a chegada da estação mais fria do ano em ambos hemisférios.

Os profissionais da área biomédica também celebram a aproximação do Dong Zhi desde eras ancestrais, mas à sua maneira. Neste período do ano, decoramos os consultórios como Templos de Asclépio e esperamos as levas de peregrinos que chegam entoando um mantra bastante típico: o Sibilus Asmaticus. Afinal, nada como mais um bom e velho inverno para lembrar “Ei, e aquela sua bronquite, hein...?”.

O termo Asma deriva de uma palavra grega que significa “arfante”, denotando a genialidade do anônimo que batizou a doença. Atualmente, a Asma afeta cerca de 10% da população mundial.

A Asma possui causas complexas e variadas. A maioria dos asmáticos é alérgica, mas nem todas as pessoas alérgicas possuem asma. Além disso, para complicar, os processos alérgicos não conseguem explicar todos os casos de asma. Provavelmente, a asma resulta da interação entre susceptibilidade genética e fatores ambientais.

Os principais gatilhos que podem desencadear as crises incluem exposição a alérgenos no ambiente, baixas temperaturas e estresse, mas as crises também podem estar relacionadas a estresse, emoções fortes, exercícios físicos, refluxo gastro-esofágico e certos alimentos e medicamentos.

Para lidar melhor com a Asma, coloque as seguintes orientações bem próximas ao seu calendário antes do Dong Zhi:

- Evite contato com pólen, mofo e animais de pêlo (incluindo bichos de pelúcia e o Tony Ramos).

- Ácaros e baratas são alérgenos comuns que podem causar crises graves de Asma. Limpar a casa com pano úmido, encapar colchões e travesseiros com tecidos impermeáveis, e livrar-se de tapetes e carpetes são medidas simples para diminuir a concentração destes contaminantes.

- Fuja de poluentes ambientais como cigarro, produtos de limpeza com cheiro forte e descargas de automóveis. Uma boa dica neste sentido é mudar de planeta.

- Se possível, diminua o consumo de alimentos contendo glutamato monossódico (encontrado em sopas em lata e certos queijos) e sulfetos (utilizado como conservante em certos vinhos e alimentos industrializados). “Nada de queijos e vinhos??”, você irá perguntar, constatando que eu acabei de detonar seus planos para o restante do inverno.

- Veja com seu médico se a sua asma pode ser causada por exercícios. Mas atenção: não use isso como desculpa para ficar em casa se enchendo de capuccino e biscoitos de chocolate.

- Devido às alterações nos níveis hormonais, 30 a 40% das mulheres apresentam mais crises de asma alguns dias antes e durante a menstruação. Os anticoncepcionais orais podem ajudar nestes casos, nivelando as flutuações hormonais. Curiosamente, a Terapia de Reposição Hormonal na menopausa parece aumentar o risco de asma.

- Na gravidez, um terço das mulheres asmáticas apresentam piora das crises, um terço sofre menos e o outro terço não observa alterações na gravidade dos ataques. Felizmente, as medicações habituais contra asma parecem seguras para uso até mesmo em gestantes.

- Finalmente, uma em cada 3 pessoas asmáticas possui familiares com o mesmo problema. Como os fatores genéticos parecem ser mais importantes que os fatores ambientais nestas famílias, converse anda hoje com seus pais sobre a possibilidade de você trocar todos os seus genes.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

01 junho 2007

ÁLCOOL E ALCOOLISMO: MAIS POLITICAMENTE INCORRETO, IMPOSSÍVEL

© Dr. Alessandro Loiola


O sujeito na cadeira, a irmã ao lado. O homem tem mais cascas de pelagra nas pernas que árvore de praça no meio do outono. A consulta segue.
- O senhor deveria falar com ele para diminuir a bebida, doutor!
Vinte pacientes todos os dias nos últimos 10 anos me ensinaram que a melhor terapia inicial para estes casos é o que chamo de Choque de Honestidade.
- De modo algum.
- Como?
- De modo algum vou falar para ele diminuir a bebida – respondo, para espanto da mulher e repentino entusiasmo do homem.
– Primeiro, tenho certeza de que vários outros médicos fizeram esta mesma recomendação: que ele deveria parar de beber.
- É, já disseram isso várias vezes, mas ele...
- ...Não parou. Então, insistir significa me tornar mais um em uma longa fila de conselheiros inúteis. Em segundo lugar, eu não deveria falar mal da bebida alcoólica. Tampouco do cigarro. Nenhum colega de faculdade, nenhum amigo médico, ninguém – frisei - encaminha mais pacientes para o meu consultório que a dobradinha Álcool e Cigarro.
- Hein?
- Quanto mais seu irmão beber, mais dinheiro eu ganho. Desejo longa vida a ele e ao vício que nos sustenta. Que ambos durem várias décadas para desenvolver hipertensão, infarto, derrame, desnutrição, gastrite e pancreatite, para então morrer de cirrose ou câncer no esôfago após mais alguns anos de sofrimento. Se ele parar de beber agora, estará dando um excelente passo em direção à recuperação da saúde, mas será um péssimo investimento do ponto de vista do meu bolso...

Quando bem conduzida, este tipo de conversa “ao inverso” resulta no efeito necessário, que é fazer o indivíduo enxergar com todas as luzes os tons sinistros com que está pintando seu futuro.

O alcoolismo é um dos maiores (e mais subestimados) problemas de saúde pública no Brasil. Este entorpecente, bastante acessível e com altíssimo potencial de vício, deveria ser tratado com mais sobriedade, não com propagandas festivas na TV. O álcool está envolvido em mais de 40% dos acidentes automobilísticos com mortes e em uma proporção similar de crimes sexuais, para dizer o mínimo.

Quanto mais a embriaguez se torna habitual e começa a interferir com seu ritmo de vida, mais perto você está de cruzar a linha que separa o uso recreacional do álcool do alcoolismo propriamente dito.

As manifestações do abuso alcoólico incluem comportamento agressivo, redução da coordenação motora e da clareza nas decisões, desorientação, perda da memória e desidratação. O consumo crônico de álcool pode causar lesões graves em nervos, fígado, pâncreas e coração, além de levar à hipertensão arterial, derrame cerebral, demência e aumento do risco para câncer na boca, laringe, esôfago, estômago, intestino grosso e mama.

Um dos principais sintomas do alcoolismo, e o que o torna este distúrbio tão difícil de ser tratado, é a Negação. O dependente não admite para si ou para os outros a existência de qualquer problema com o álcool, e a família tende a colaborar fazendo coro e vista grossa para o problema. Infelizmente, empurrar para debaixo do tapete não limpa a sujeira, apenas a acumula.

Havendo disposição voluntária por parte do alcoólatra em parar com o vício, vitaminas e outros remédios podem ser empregados sob supervisão médica para controlar os sintomas da abstinência. Algumas pessoas podem necessitar internação hospitalar durante o período mais crítico de abandono da bebida. Vencida a etapa de desintoxicação, a participação em grupos de apoio como os Alcoólicos Anônimos é recomendável para manter o vício sob controle no longo prazo.

O diagnóstico de alcoolismo não significa falta de vergonha ou fraqueza de caráter, mas uma doença que deve ser abordada sem pudor e com todas as letras. O tratamento pode ser difícil, mas a cura não é impossível - basta fazer a coisa mais incrível e poderosa de todas: Querer.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

26 maio 2007

ADITIVOS ALIMENTARES

© Dr. Alessandro Loiola


Os Aditivos Alimentares são um dos tópicos mais incompreendidos e discutidos em nossa alimentação, mas eles não são uma descoberta da modernidade: os antigos Egípcios e os Romanos utilizavam corantes e conservantes para melhorar o aspecto e o sabor de suas refeições. O problema foi que, nos últimos 50 anos, os avanços tecnológicos resultaram no desenvolvimento de mais de 3.000 aditivos alimentares diferentes. Para os naturalistas de plantão, isso foi o mesmo que entornar o caldo da mandioca.

Infelizmente, estas substâncias desempenham um papel essencial na complexa cadeia logística que coloca a comida em sua mesa. O único modo de lhe oferecer aquele leite enriquecido em cálcio ou uma garrafa de polpa de suco de frutas sem uma deliciosa bola de fungo boiando no meio é acrescentando aditivos. Quer mais? O chocolate que você tanto gosta só tem aquela forma e consistência graças à adição de parafina.

Em uma dieta balanceada, a ingestão diária de aditivos alimentares estará dentro do aceitável e você não precisa se preocupar. Apenas raramente um aditivo causa reações adversas. Mas é preciso manter a atenção.

Muitos agentes flavorizantes, aditivos utilizados para alterar o odor e paladar, são batizados de “naturais” pelos fabricantes para dar um ar mais palatável à coisa. Todavia, muitos “sabores naturais” são produzidos utilizando tanta manipulação química que terminam sendo mais nocivos que seus equivalentes artificiais.

A Tartrazina e a Carmina, dois corantes bastante comuns, podem causar reações alérgicas como urticárias, congestão nasal e asma. O corante Vermelho Número 3 foi banido nos Estados Unidos por causar tumores na glândula tireóide em ratos, mas continua sendo utilizado em certos medicamentos e alimentos processados. O corante Vermelho Número 40 – chamado de vermelho allura e presente em gelatinas, medicamentos e laticínios, entre outros – também mostrou ser capaz de causar câncer em animais.

Os óleos vegetais hidrogenados, que você conhece por aí como gorduras trans, possuem propriedades conservantes e são amplamente utilizados em doces, cereais e biscoitos. Eles podem elevar os níveis sangüíneos de colesterol e o risco de morte por doença coronariana.

O Glutamato Monossódico, utilizado para intensificar o sabor em carnes pré-preparadas, molhos, sopas e alguns pratos da cozinha chinesa, tem sido apontado como causador de dores de cabeça e dores musculares, mas não existem evidências científicas conclusivas neste sentido. A única ressalva fica por conta de pessoas hipertensas: o sódio contido no Glutamato Monossódico pode provocar aumentos na pressão arterial e crises hipertensivas potencialmente perigosas.

Outro aditivo alimentar que pode causar problemas são os Sulfetos, conservantes utilizados há mais de 2.000 anos para controlar o crescimento microbiano em bebidas fermentadas, como vinhos e cervejas. Em pessoas asmáticas, os Sulfetos podem desencadear crises respiratórias, falta de ar e tosse. Se você decidir fugir destes subprodutos malévolos da indústria alimentícia e comprar apenas frutas, verduras e legumes frescos vendidos em feiras confiáveis do seu bairro, ainda assim não estará completamente livre dos aditivos. Alguns conservantes comuns são utilizados até mesmo por pequenos produtores: ácido propiônico para evitar o crescimento de mofo no pão caseiro, nitratos e nitritos para evitar a descoloração da carne, e benzoatos em alimentos ácidos para evitar o crescimento bacteriano.

Tudo isso não significa que você deve encarar seu prato no almoço ou o lanche da tarde como uma sentença de morte: não sei se lhe avisaram, mas você já foi condenado à morte desde o momento em que nasceu. Porém, simultaneamente, também lhe sentenciaram à vida. Recomendo apenas que você viva de modo saudável, procurando basear suas refeições em alimentos mais frescos e naturais o possível.

Se for para passar mais algumas primaveras por aqui, que sejam primaveras repletas de temperos verdadeiros, e não aditivos artificiais.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

24 abril 2007

ABSTINÊNCIA SEXUAL

© Dr. Alessandro Loiola


Passo metade do dia atendendo pacientes, metade do dia escrevendo e metade do dia atendendo pacientes. Quer dizer, uma matemática simples irá mostrar que estão faltando 12h no meu dia.

Antes que passe pela sua cabeça que esse workaholismo todo foi o que motivou o título da crônica de hoje, bom, vá com calma. Deixe-me pelo menos apresentar as preliminares.

Noite dessas, entre um atendimento de emergência e o seguinte, pintou o assunto “sexo”. Sabe como é: sobre o quê um bando de pessoas de plantão pode conversar, às 2:35 da madrugada, para ficar 100% acordado e alerta enquanto a próxima urgência anunciada não chega? Sexo.

A discussão daquela noite surgiu quando uma das enfermeiras relatou para um pequeno grupo uma conversa que havia tido com a mãe. Em um acesso de sinceridade, ela se queixou que há muitos e muitos anos não “aprontava mais nada”. A filha ficou horrorizada. Afinal de contas, é de se esperar que “viúvas de respeito não pensem mais nessas coisas, né doutor?”.

O vigia ao lado de uma maca completou: “depois de uma determinada idade, a gente tem que desistir de certas coisas. É a vida!”.

Tentei argumentar, em vão. Era aquela história: você está completamente certo enquanto estiver concordando comigo. E minha opinião sobre o assunto não parecia concordar em coisa alguma com as idéias que a enfermeira fazia para a vida sexual da mãe, ou as previsões do vigia para o seu próprio e sombrio futuro na cama.

Infelizmente, as pessoas ainda preferem o apego estável dos velhos conceitos ao velório temporário da certeza. Um dos melhores exemplos disso é a noção geral de que o termo “velhice” seja algum tipo de sinônimo para “assexuado”.

A sexualidade não está relacionada à sua capacidade reprodutora ou status marital: ela lhe acompanhará por muitos anos, mesmo quando você não for mais capaz de ter filhos ou estiver viúvo ou viúva. Na Terceira Idade, a maioria das pessoas deseja e continua a ter uma vida sexual ativa e prazerosa. Quando isto não é possível, resigna-se na tangente da abstinência.

Mas até que ponto a abstinência sexual (voluntária ou não) pode fazer mal?

Considere o seguinte: seu corpo é constituído por 5 sistemas - cardiovascular, respiratório, digestivo, urinário e genital. Se, até a hora de morrer, você continuará a ter batimentos cardíacos e movimentos respiratórios, digerindo sua comida e produzindo excretas, porque então deveria abrir mão da função do aparelho genital?

Que me critiquem os puritanos: tenho a consciência tranqüila, não inventei o sexo, sou um mero usuário. Aqueles que tiverem reclamações, que as façam diretamente junto ao Fabricante.

O que se sabe, cientificamente, é que breves períodos de abstinência sexual nos homens resultam em aumento no volume e na potência do sêmen: três dias de abstinência completa são capazes de dobrar o volume do esperma, mas este efeito diminui e até mesmo se inverte após 7-10 dias.

Nas mulheres, a abstinência sexual prolongada pode resultar em ressecamento e perda da elasticidade dos tecidos vaginais. Se a abstinência durar vários anos, o fechamento do canal vaginal pode chegar a um ponto em que a relação sexual se torna praticamente impossível.

Apesar das alterações anatômicas e fisiológicas, o problema maior da Abstinência Sexual está na medida em que isso significa abster-se de um contato mais íntimo com outra pessoa. Este isolamento forçado, além de ser contra a nossa própria natureza humana (quem é uma ilha?), pode resultar em graves conseqüências psíquicas, como baixa auto-estima, melancolia e depressão de difícil tratamento.

O segredo da satisfação (sexual inclusive) estará sempre em algum ponto entre ter demais e não ter coisa alguma - a vida, assim como a felicidade, exige equilíbrio, não extremos.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

17 abril 2007

POR QUE AS DIETAS NÃO FUNCIONAM?

© Dr. Alessandro Loiola

Não sou uma pessoa de muitas manias, mas admito: sou viciado em ler. Leio de tudo. Desde livros com mais de 4 Kg de peso e jornais com nomes tão esquisitos quanto Ned Tijdschr Tandheelkd, até revistas em quadrinhos e embalagens de biscoito.

Com o início da Internet, descobri um novo fornecedor gratuito e inesgotável para o meu vício: as listas de e-mails. Participo de dezenas delas, recebendo toneladas de artigos e textos todos os dias, alguns bizarros, outros bastante úteis.

Um dos mais recentes, da revista eletrônica Doctor’s Guide, informava que jamais na história os Americanos fizeram tanta dieta: nada menos que 24% dos homens e 40% das mulheres atualmente estão fazendo algum tipo de dieta para emagrecer. A psicose anti-gordura nos Estados Unidos atingiu níveis tão astronômicos que a indústria do emagrecimento já movimenta mais de 50 bilhões de dólares a cada ano naquele país.

A parte curiosa do fato é: observe os documentários ou imagens que mostram as grandes cidades dos EUA. Não se fixe no apresentador (que quase sempre é magro e tem dentes perfeitos). Preste atenção nas pessoas que passam ao fundo. Você verá que 1 de cada 3 americanos está beeem acima do peso! No Brasil, mais de 70 milhões de pessoas possuem gordurinhas em excesso e cerca de 1 em cada 10 são consideradas obesas.

Mas ora, com tanta gente obcecada por regimes e pela boa forma, porque as dietas não funcionam?

Inicialmente, você deve entender que as dietas contribuem para a Obesidade, ao invés de combatê-la. Mais de 50% dos pacientes em tratamento para distúrbios alimentares afirmam que o problema foi precipitado por uma dieta muito prolongada. Ademais, está comprovado estatisticamente que as dietas só funcionam de verdade em 5-10% dos casos.

A imensa maioria das pessoas que fizeram regime recupera o peso perdido nos 5 anos seguintes – muitas vezes, com uma boa margem de lucro. Os cientistas acreditam que a explicação para este fato está na atividade de uma enzima chamada Lipase Lipoprotéica, envolvida na formação dos depósitos de gordura. Quando a dieta é interrompida, a Lipase volta a atuar com tanta vontade que, em pouco tempo, seu corpo terá mais gordura que antes da dieta.

Uma dieta muito severa também pode resultar em danos psicológicos e alterações orgânicas potencialmente graves, incluindo depressão, distúrbios da ansiedade, desânimo, anemia, diminuição da capacidade de defesa do organismo, desnutrição e osteoporose, entre outros.

Na base do raciocínio, está a conclusão que as dietas não são bem sucedidas em manter a perda de peso no longo prazo porque atuam na conseqüência do problema (obesidade), e não na sua causa (maus hábitos alimentares). Se você deseja recuperar a boa forma e mantê-la por um tempo indefinido, então você não precisa de dieta. Precisa de Reeducação Alimentar.

De acordo com os especialistas, o termo Reeducação Alimentar se refere à adoção de um padrão alimentar e comportamentos mais saudáveis (p.ex.: prática regular de exercícios), promovendo o bem estar geral do organismo. Este é o segredo para manter-se dentro do peso ideal.

Fazer a dieta da Lua, do Yin-Yang, do abacaxi ou do raio-que-o-parta não irá colocar você no caminho correto. Será apenas mais uma forma de enrolar antes de tomar a decisão mais acertada: procurar seu médico ou nutricionista e fazer um plano definitivo para vencer o vício da comida. Quem sabe, começar trocando-o pelo vício da leitura já seja um bom começo.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

06 abril 2007

A CIÊNCIA DOS OVOS DE PÁSCOA

© Dr. Alessandro Loiola



Durante a época de Páscoa, além da comemoração da Passagem e da Fertilidade e de toda aquela história que aprendemos na escola durante as aulas de Educação Religiosa, também celebra-se o consumismo em cada canto dos supermercados e shoppings com os famigerados ovos de chocolate.

Além de área de nidificação do Coelhinho da Páscoa, as prateleiras destes locais se transformam em centro de peregrinação de outra espécie interessante: com sorrisos de alivio estampados no rosto, os chocólatras de plantão finalmente podem circular impunes pela rua, livres de olhares condenadores. Afinal, todo mundo se torna um chocólatra em potencial no mês do coelhinho...

Acredita-se que os Astecas tenham sido primeiros chocólatras da história. Foram eles que inventaram o “chocolatl”, uma infusão com sementes de cacau que – segundo acreditavam – possuía poderes afrodisíacos. Diz-se que seu imperador, Montezuma, chegava a beber mais de 50 porções de chocolatl por dia – e outras doses extras antes de entrar em seu harém.

Os Astecas podiam até estar errados, mas não custa nada adicionar uma barrinha de chocolate à sua noitada. Só por precaução, sabe como é. E garanto que irá chamar menos atenção que aquela pílula azul.

O chocolate começou a ganhar a Europa em 1528, quando o famoso conquistador Cortez presenteou o Rei Carlos V com algumas sementes de cacau. A partir daí, o chocolate se tornaria tão popular e valioso na Espanha que sua produção seria mantida em segredo por vários séculos.

A primeira “fábrica” de chocolate surgiu na Inglaterra em 1657, mas o chocolate sólido só se tornaria popular mesmo no final do século XIX. Em 1876, na Suíça, Daniel Peter desenvolveu a técnica de adição de leite ao chocolate, dando a forma final ao produto que consumimos até hoje.

Desde que o Chocolate conquistou o mundo, surgiram dezenas de mitos sobre suas propriedades. Vez ou outra, um desses aparece durante uma consulta. Para lhe dar um ar de erudição enquanto você devora mais um ovo de Páscoa tamanho extra-super-gigante, selecionei 3 lendas comuns e suas explicações cientificamente embasadas. Espero que lhe sejam úteis!

Chocolate não contém nutrientes e ainda por cima engorda

O chocolate contém mais de 300 nutrientes e substâncias químicas diferentes, além de apresentar níveis elevados de flavonóides e compostos fenólicos capazes de diminuir o risco para doenças cardíacas.

Apesar de uma barra média de chocolate pode conter mais de 210 calorias, a maioria das pessoas acima do peso não come quantidades excessivas de chocolate. Na verdade, o consumo de açúcar nestas pessoas tende a estar abaixo da média. O problema está no elevado consumo total de calorias e na pouca quantidade de energia gasta em atividades físicas.

Chocolate causa cárie

Todo e qualquer alimento rico em açúcar pode contribuir para a formação de cáries. Entretanto, pesquisas no Forsyth Dental Center (Boston/EUA) e na Escola de Odontologia da Universidade da Pensilvânia, mostraram que o chocolate é capaz de anular o potencial acidificante do seu açúcar e reduzir a desmineralização dos dentes.

O açúcar contido no chocolate não é mais perigoso que o açúcar contido nos demais alimentos. O que importa é a qualidade da sua higiene bucal, não o tamanho da barrinha de chocolate.

Chocolate vicia

Em parte, é verdade. O chocolate possui uma capacidade incomum para interagir com a química cerebral. E essa maior afinidade pode resultar em comedores compulsivos.

Se você acha que possui vício em chocolate, uma boa idéia é comer vegetais folhosos verdes, como brócolis e aspargos: estes alimentos substituem algumas das substâncias que produzem o “vício” e podem ajudar a controlar os sintomas, evitando que você voe na jugular do vendedor de bombons mais próximo.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

25 março 2007

EXISTE ATALHO PARA A BOA FORMA?

© Dr. Alessandro Loiola



A maioria das pessoas que pratica exercícios regularmente o faz por 4 razões: para perder peso, para parecer mais em forma, por recomendações médicas ou para conhecer aquela gata (ou gato) na esteira ao lado. Não é raro ver todos estes motivos misturados como um shake de baunilha com ovo maltine – afinal, nada como unir o útil ao agradável, certo?

E põe agradável nisso: pesquisas mostram que adolescentes que praticam regularmente alguma forma de atividade física dormem melhor, fumam e bebem menos, possuem uma auto-estima mais elevada, e têm mais sexo que seus colegas sedentários.

Periodicamente, toda essa propaganda a favor da boa forma resulta em um dos maiores fenômenos migratórios da humanidade: nos meses mais quentes do ano, manadas de retardatários arrependidos se deslocam rumo às academias em busca de milagres no curto prazo. Quem quer mostrar aquele abdome pneumático no clube no domingo ou ficar com 3 metros de língua para fora após atravessar a piscina no clássico estilo cachorrinho sincronizado? Ninguém. Então tome academia.

Mas quanto tempo você precisa para ter uma aparência mais saudável? Existe algum atalho para isso? Muitas empresas vêm mordiscando esse mercado bilionário – o das pessoas que querem entrar em forma no intervalo de uma pipoca de microondas. Livros, vídeos, revistas, comerciais e DVDs aos montes afirmam que bastam alguns poucos minutos de exercícios leves por dia naquela tábua de ginástica ou no equipamento super sofisticado de última geração para transformar você em um mister ou miss universo.

Qualquer exercício irá lhe deixar mais em forma que exercício nenhum, isso é verdade. O grande benefício da atividade física não está na estética, mas na prevenção de doenças como hipertensão, diabetes e obesidade.

Entretanto, exercícios excessivamente leves não produzem os resultados esperados. Caminhar duas vezes por semana na companhia de tartarugas não irá reduzir seu risco para doenças cardiovasculares. Apesar da intensidade do esforço variar de acordo com a idade, o peso e o estado geral de saúde, uma caminhada de respeito deve apresentar um ritmo entre 5 e 8 Km/h, com duração de 15 a 30 minutos, pelo menos 2-3 vezes na semana.

E o sujeito que diz nunca ter tempo e joga bola no final de semana achando que vai entrar em forma? Para alguns poucos atletas domingueiros, duas horas de pelada uma vez na semana de fato resultam em redução do risco de morte por doenças cardíacas. Porém, esta redução só é observada em indivíduos sem outros fatores de risco cardíaco e quando o gasto calórico total durante a atividade física ultrapassa 1.000 calorias ! Se você fuma ou está acima do peso, por exemplo, aqueles 30 minutos dominicais de bola não irão resultar em grandes benefícios para a saúde, mas poderão aumentar seu risco para lesões ósseas e musculares.

Muitos programas de “Exercícios-Minuto” costumam pular a fase aeróbica para ganhar tempo. O sujeito vai direto para os alteres, sem uma corrida ou caminhada antes. Infelizmente, uma rotina de exercícios que não inclui uma boa quantidade de atividades aeróbicas não pode ser considerada ótima – nem mesmo boa. São os exercícios aeróbicos – e não todos aqueles pesos coloridos - que oferecem os benefícios mais significativos.

Roteiros de malhação que prometem atalhos rápidos para resultados extraordinários freqüentemente são enganosos. Infelizmente, inúmeras pessoas esmagadas pelos padrões vigentes de beleza ainda se deixam levar por esse tipo de propaganda, com resultados desastrosos.

Preste sempre atenção. No comércio da saúde, muitos querem seu dinheiro, mas poucos querem compromisso com seu bem-estar no longo prazo. Informe-se sempre e siga em frente sem afobações: a natureza que resultou no ser humano que você é, levou vários milênios para lhe produzir. Para conquistar e preservar a boa forma, basta manter o mesmo ritmo da evolução. Contínuo e sem pressa.



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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

10 março 2007

FITOTERÁPICOS NO JOGO DOS 7 ERROS

© Dr. Alessandro Loiola


Quando era criança, adorava revistas que traziam aqueles jogos dos 7 erros, onde você devia comparar uma figura com outra, teoricamente igual, e marcar as diferenças entre elas. Nunca soube exatamente porque eram sempre 7 erros e não 6 ou 8 ou 10, etc. Mas a lição ficou: nem sempre o que parece idêntico à primeira vista é realmente uma cópia fiel do original.

Recentemente, a onda dos medicamentos naturais – especialmente os Fitoterápicos - levantou uma série de questionamentos que lembra bastante o jogo dos 7 erros. Alguns remédios naturais dizem possuir os mesmos compostos químicos, propriedades e indicações terapêuticas de remédios industrializados, e deixam para o consumidor a tarefa de descobrir as diferenças escondidas entre uns e outros. Em muitos casos, este tipo de jogo termina minando a confiança nos remédios naturais que são verdadeiramente eficazes.

Uma pesquisa realizada em 1997 no Beth Israel Deaconess Medical Center (Boston, EUA) mostrou que 1 em cada 2 pessoas utiliza alguma forma de medicina alternativa, mas apenas 30% revelam o fato aos seus médicos. Os principais motivos da falta de comunicação incluem preconceito, vergonha e receio de ser criticado ou incompreendido.

Muitos fitoterápicos funcionam de fato e a maioria deles possui interações medicamentosas relevantes. Não comunicar o fato ao seu médico pode resultar em conseqüências que você não será capaz de resolver. Por exemplo: a camomila pode potencializar o efeito de remédios anticoagulantes. Um caso desse tipo, envolvendo alterações hemorrágicas em uma senhora de 70 anos que fazia uso regular de Warfarina (anticoagulante utilizado no tratamento de tromboses), foi descrito recentemente no prestigiado Canadian Medical Association Journal.

Além da camomila, outros alimentos e fitoterápicos também podem aumentar o risco de hemorragia em pessoas que utilizam remédios anticoagulantes. A lista inclui coenzima Q10, gengibre, alho, ginseng, ginkgo, garra do diabo e casca de salgueiro.

Outra interação que freqüentemente passa despercebida é o uso de fitoterápicos e suplementos que estimulam o sistema imunológico (p.ex.: alfafa, astrágalo, equinácea, ginseng e suplementos de zinco). Este equívoco é perigoso no caso de pessoas que sofrem de doenças de fundo auto-imune, tais como Artrite Reumatóide, Lúpus e Diabetes tipo 1, ou pacientes sob tratamento imunossupressor por algum motivo (p.ex., pessoas que receberam órgãos transplantados). Nestes casos, ervas que estimulam o sistema de defesa podem resultar em exacerbação da doença ou rejeição do órgão transplantado, com graves conseqüências.

Uma vez que a interação entre suplementos naturais e medicamentos anestésicos ainda não foi muito bem estudada, a maioria dos cirurgiões recomenda que qualquer suplemento ou fitoterápico seja suspenso pelo menos 2 semanas antes da operação.

Algumas pessoas com queixa de cansaço fácil e “baixos níveis de energia” costumam procurar o auxílio de fitoterápicos antes mesmo de uma avaliação médica. E passam semanas tomando vitaminas naturais na esperança de resolver o problema. Infelizmente, alguns destes incautos na verdade podem estar sofrendo de Anemia, Hipotireoidismo, Apnéia Obstrutiva do Sono, Mononucleose Infecciosa, Insuficiência Cardíaca Congestiva, Diabetes, Insuficiência Renal ou mesmo Depressão, e sua busca por uma solução rápida e prática estaria apenas retardando o tratamento mais adequado.

Substituir medicamentos tradicionais por similares naturais ou confiar que, se um fitoterápico foi eficaz para o seu vizinho também será para você, é um enorme risco. Em caso de dúvida, procure sempre a ajuda do seu médico de confiança. Ao contrário das figuras com 7 erros, sua saúde não merece ser tratada como um jogo.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

26 fevereiro 2007

O BANHO

© Dr. Alessandro Loiola


Não é de surpreender que a idéia de banhar-se para manter a pele limpa esteja intimamente associada ao conceito de saúde: a pele, um casaco semi-impermeável de alta tecnologia, 5 camadas e quase 2 metros quadrados de tamanho, é a principal barreira contra os agentes nocivos presentes no meio ambiente. Mas será que banhar-se com regularidade é realmente importante para manter a pele saudável?

Esta pergunta, enviada por um leitor possivelmente sentado na frente de seu computador encardido e coberto por moscas varejeiras, valeu uma pesquisa que rendeu algumas informações interessantes sobre o Banho. Vamos a elas.

As origens do banho se estendem para muito antes da pré-história. Materiais saponificantes anteriores a 2.800 a.C. foram encontrados em cilindros escavados nas ruínas da antiga Babilônia. As inscrições indicavam que aquele material era utilizado para limpeza dos cabelos e para auxiliar a confecção de penteados. Os antigos egípcios também se banhavam bastante: os Papiros de Ebers, datados de 1.500 a.C., descrevem uma mistura de diversos sais e óleos utilizados para higiene pessoal.

Na civilização Ocidental, coube aos Romanos a difusão do hábito. Os primeiros Banhos Romanos foram construídos 300 anos antes de Cristo. No seu auge, Roma contava com mais de 13 aquedutos para manter seus habitantes sempre limpos. Contudo, com o declínio do Império, os Banhos também perderam gradativamente a popularidade.

Na Idade Média, os médicos desencorajavam o banho, afirmando que ele retirava as camadas mais protetoras da pele, aumentando o risco de doenças. Mas todo mundo sabe bem onde as excelentes idéias de higiene pessoal daquele tempo foram dar: em uma Peste que dizimou quase metade da população da Europa.

O banho se tornaria novamente um hábito no Ocidente apenas no Século XVII, quando os químicos franceses Nicholas Leblanc e Michel Eugene Chevreul aprimoraram as técnicas para fabricação de sabonetes. Mais ou menos no mesmo período, a descoberta dos Micróbios deu um impulso adicional ao conceito de higiene. Por volta de 1880, os chuveiros já eram parecidos com os nossos e o banho havia se tornado uma rotina. Como resposta, a lâmina de barbear descartável surgiria em 1895 e a escova de dente como a conhecemos, em 1938.

Mas a história do banho não termina neste mar de rosas. Da metade do Século XX para cá, alguns cientistas voltaram a questionar a sua validade. Estudos realizados na década de 1960 mostraram que uma boa chuveirada na verdade espalha as bactérias da pele no ambiente à sua volta, podendo aumentar o número de microorganismos nas camadas mais superficiais. Como conseqüência, os cirurgiões passaram a ser orientados a não tomar banho imediatamente antes de entrarem no bloco cirúrgico.

Alguns pesquisadores cascões também observaram que, mesmo após vários dias sem banho, a população bacteriana da pele permanece estável, fornecendo uma excelente desculpa para adolescentes mais preguiçosos.

A verdade é que, exceto pelo hábito de lavar as mãos, não existem muitas evidências científicas associando o banho ou a limpeza geral da pele à prevenção de infecções. O banho freqüente, afirmam vários cientistas, pode possuir vários benefícios estéticos, relaxantes e odoríficos, mas parece servir pouco do ponto de vista microbiológico.

Ainda assim, eu recomendo que você se banhe todos os dias. Se não o fizer por razões microbiológicas, faça-o baseado na premissa de combate ao estresse e descoberta do corpo. Afinal de contas, em que outra situação você se desligaria do mundo, cantando músicas do Cauby Peixoto enquanto explora os dedos dos pés? Só mesmo durante um bom, morno e relaxante banho.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

16 fevereiro 2007

POLUIÇÃO DOMÉSTICA

© Dr. Alessandro Loiola



Na ralação do dia a dia, todo mundo sonha com aquela hora sagrada de juntar as coisas e voltar para casa. Para a calma, a paz e a segurança de casa – é óbvio que isto não vale para quem tem crianças em casa ou vizinhas com TPM, mas você entendeu o conceito...

Sentir-se seguro em casa é uma das maiores armas contra o estresse. Nada como esparramar-se no sofá e deixar a tensão ir embora entre um cochilo despreocupado e outro.

Quem poderia imaginar que, em um cenário desses, o perigo pudesse estar à sua espreita, muito mais próximo do que você jamais imaginaria. O perigo poderia estar no próprio ar que você respira! Nos últimos anos, várias pesquisas vêm indicando que o ar em nossas casas pode estar mais contaminado que o ar da “rua”, mesmo em grandes cidades industrializadas. Muitos poluentes apresentam níveis 2 a 5 vezes maiores dentro de casa do que na rua.

A raiz do problema está nas várias fontes domésticas emissoras de gases e partículas microscópicas. Além disso, uma ventilação inadequada aumenta os níveis de agentes nocivos ao não permitir uma renovação adequada da atmosfera no interior da casa. Temperaturas elevadas e altos níveis de umidade também aumentam as concentrações de certos poluentes. O resultado: chegando em casa para o merecido descanso, eis que seu corpo começa a travar uma nova e estressante luta contra toxinas altamente perigosas.

As fontes mais comuns de poluição doméstica incluem óleos, ceras, produtos de limpeza, gás de cozinha, materiais de construção, tapetes, carpetes, cortinas de tecido, inseticidas, ar condicionado e materiais de construção estocados de maneira inapropriada.

Os efeitos da exposição a esta forma de poluição podem surgir imediatamente ou levar anos até se manifestar. Os mais imediatos incluem irritação dos olhos, nariz e garganta, dor de cabeça, tonteira e fadiga. As manifestações são mais comuns em idosos e crianças, justamente os mais expostos ao ambiente doméstico.

Em muitos casos, é difícil determinar se os sintomas foram causados por exposição à poluição doméstica. Por isso é importante ficar atento ao local e ao período em que as alterações ocorreram: sintomas recorrentes sempre que se tem contato com um determinado ambiente da casa sugerem que a poluição doméstica seja a causa.

As principais medidas que você pode tomar para reduzir a concentração de poluentes em casa incluem:

Corrija infiltrações nas paredes, elas são uma fonte importante de fungos. Tenho vários pacientes cujas crises periódicas de asma estavam relacionadas a paredes com infiltrações escondidas atrás de armários e outros móveis.

Prefira cortinas de PVC ao invés de tecido.

Mantenha seus tapetes e sofás limpos. Contrate firmas especializadas para fazer o serviço, se necessário.

Janelas e portas devem ficar abertas sempre que for possível e seguro.

Cuidado redobrado com a ventilação, principalmente quando estiver realizando pinturas, cozimentos, soldas e reformas em geral.

Ao ligar o ventilador de teto, prefira a função de exaustor. E verifique sempre se as paletas do ventilador estão devidamente limpas.

Faça manutenção periódica no seu ar-condicionado.

Plantas no interior da casa regadas excessivamente podem abrigar fungos na terra que lhes sustenta, afetando pessoas alérgicas.

Troque seu colchão a cada 5 anos e seu travesseiro a cada 1-3 anos. Para você ter uma idéia: calcula-se que, após 5 anos de uso, 10% do peso de um travesseiro seja composto por ácaros e células mortas descamadas da sua pele.

E NUNCA fume dentro de casa.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

08 fevereiro 2007

PRÓSTATA: GUIA DO PROPRIETÁRIO

© Dr. Alessandro Loiola


– A patroa anda apertando tanto o cerco que não tive alternativa... – lamentou o sujeito de meia idade, cabisbaixo enquanto sentava no consultório.

E, se inclinando como quem vai sussurrar um segredo, lançou sua pergunta perturbadora:

- Antes do senhor começar, doutor, me diga uma coisa: além de servir de motivo de piada entre meus amigos, para que diabos eu preciso de uma próstata?

Boa pergunta. Entretanto, se você – homem – acha que o preventivo prostático é ruim, que tal considerar o outro lado? As mulheres têm menstruação, gravidez, amamentação, climatério, menopausa, celulite, varizes, preventivo ginecológico e todos aqueles pêlos que nascem por toda parte e que devem ser dolorosamente retirados periodicamente. Pensando com mais calma, a próstata saiu até barato. Mas isso ainda não responde a pergunta: e para quê você precisa dela?

A próstata é uma glândula que faz parte do sistema reprodutor masculino. Sua secreção auxilia o transporte dos espermatozóides produzidos nos testículos, tornando o homem fértil. É também dentro da próstata que ocorre parte da transformação da testosterona, o hormônio responsável por todas aquelas características de homem com H que você tanto se orgulha.

A próstata cresce pouco até a puberdade, alcançando cerca de 20 gramas por volta dos vinte anos de idade. Durante décadas, ela fica ali, fazendo seu trabalho quieta e esperando feito onça no mato. Os rugidos começam por volta dos 40-50 anos, quando a glândula pode começar a crescer de modo alterado.

As manifestações mais comuns dos problemas na próstata incluem jato urinário mais fraco; dificuldade ou demora para iniciar a micção; necessidade freqüente de urinar (principalmente à noite); presença de sangue na urina; e sensação de esvaziamento incompleto da bexiga ao término da micção. A presença de um ou mais destes sinais sugere que você talvez deva deixar o constrangimento de lado e procurar um consultório médico para seu exame preventivo.

Bons motivos para tanto sobram: 1 em cada 5-10 homens apresentará problemas na próstata ao longo de sua vida. O câncer prostático é considerado o terceiro câncer masculino mais comum, perdendo apenas para o câncer nos pulmões e no intestino grosso.

Nas próximas 24h, mais de 600 brasileiros desenvolverão câncer da próstata e quase 80 morrerão vítimas doença. Na maioria dos casos de morte, o diagnóstico tardio está na raiz da questão: no Brasil, mais da metade dos casos de câncer prostático são diagnosticados quando a doença já está disseminada. Quando o tumor é descoberto cedo, as chances de sobrevivência são enormes.

Existem exames laboratoriais que podem auxiliar a detecção de problemas na próstata. Por exemplo, a dosagem do Antígeno Prostático Específico, ou PSA, é útil, mas não fará você escapar do exame de toque. Cerca de 25% dos homens com câncer prostático possuem níveis de PSA dentro da normalidade, porém o tumor poderia ser detectado através do toque. O ideal é combinar o exame de sangue com o toque prostático, repetindo a avaliação a cada 12 meses.

Além de manter o preventivo em dia, você pode diminuir seu risco através de hábitos alimentares mais saudáveis: uma dieta pobre em gorduras e rica em tomates e derivados parece diminuir em 35% os riscos de câncer da próstata, segundo estudo realizado na Universidade de Harvard. O uso de suplementos de vitamina E e Selênio também pode possuir um efeito protetor contra a doença, de acordo com dados do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, de Nova York.

A partir de hoje, não tenha receio de procurar um médico de confiança para fazer seu exame prostático de rotina. Uma pequena dose de humor e informação são temperos valiosos para uma vida saudável. Abuse sempre de ambos.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

30 janeiro 2007

BEBIDAS ENERGÉTICAS

© Dr. Alessandro Loiola


Plantão de sábado à noite, um calor danado. Estava a caminho do bebedouro mais próximo quando a recepção anuncia a chegada de mais um paciente. Eles (da recepção) devem ter câmeras escondidas pelo hospital, porque é impressionante a freqüência com que chamam exatamente na hora em que vamos almoçar ou ao banheiro. É você lembrar que tem bexiga ou estômago, e pronto!, lá vem o som pelos corredores solicitando sua presença com urgência em algum lugar distante.

Deixei o bebedouro onde estava – pesado demais para carregar –, e voltei à sala de atendimento a tempo de ver dois amigos deitando um terceiro sobre a maca, nariz sangrando que era uma beleza.

- Saindo da festa, bateu com o carro, doutor!

Conforme relato da própria vítima, poucos metros após dar partida ele colidiu com um poste “que estava pra todo lado na rua”. Ótimo. Postes que miram em carros. Os donos de auto-escolas irão adorar a notícia.

Exame neurológico, respiração, pulsos, pressão arterial... tudo estável. Levo o paciente para a radiografia. Fora o hálito pra alambique nenhum botar defeito e um pequeno galo na testa, tudo normal.

- É doutor, a sorte foi que eu tomei umas latinhas energéticas antes de ir para a balada. Se não fosse isso, bau-bau. Tinha sido muito pior, viu.

Latinhas energéticas. Cheguei a imaginar alguma forma extraterrestre de baterias líquidas para consumo humano, mas era mais simples que isso. Como qualquer entretenimento gastronômico da moda, as bebidas energéticas vêm ganhando espaço na mídia, nas prateleiras das lojas de conveniência, nas boates e nos estômagos dos mais sugestionáveis. Na maioria dos casos, não passam de drinques ricos em carboidratos contendo doses generosas de cafeína, vitamina B, aminoácidos e ervas com propriedades estimulantes.

Entre outras coisas, estas pequenas bombas enlatadas se dizem capazes de repor a força, a disposição e até mesmo a potência sexual. Com um apelo desse, as bebidas energéticas movimentam um mercado de 3.5 bilhões de dólares apenas nos Estados Unidos, especialmente entre jovens de 18 a 30 anos de idade.

A raiz do problema não está na propaganda ou no conteúdo, mas no volume: uma lata de bebida energética contém a mesma quantidade de cafeína de uma xícara de café, e os jovens conseguem derrubar não uma ou duas doses, mas várias latas “energéticas” no intervalo de poucos minutos. A ingestão excessiva de cafeína resulta em ansiedade, insônia e agitação. Além disso, a Taurina, um aminoácido presente em algumas bebidas energéticas, aumenta o trabalho cardíaco quando combinada à cafeína, intensificando a sensação de estar cheio de energia.

Não é raro ver pessoas associando bebidas energéticas a drinques alcoólicos. Elas dizem que a associação diminui os efeitos depressivos do álcool - e estão certas. Porém, ao mascarar estas conseqüências, o ilustre beberrão fashion termina ingerindo uma quantidade de álcool muito acima dos limites do próprio corpo. E as conseqüências chegam logo.

As bebidas energéticas não cortam os efeitos do álcool sobre a coordenação motora. Ou seja: apesar dos altíssimos níveis de álcool no sangue, você se encontra estimulado o suficiente para achar que é capaz de dirigir até sua casa. Está alerta e falante, mas sua rapidez de reflexos é de fazer vexame em qualquer concurso de lesmas e tartarugas com cãibras.

O álcool não afeta apenas a coordenação motora, mas também a capacidade de tomar rapidamente decisões. Motoristas alcoolizados são perigosos não apenas devido à sua falta de coordenação, mas porque não são capazes de avaliar corretamente os riscos a que se expõe.

As pessoas precisam compreender que a sensação de bem-estar produzida pelo consumo de bebidas energéticas não significa necessariamente que o corpo não foi afetado pelo álcool. Se você bebeu além do razoável, mesmo com suas latinhas energéticas e tudo mais, você está sob os efeitos do álcool, sim – apenas não se deu conta ainda.

Pelo menos, não até deitar na maca do pronto-socorro mais próximo.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

23 janeiro 2007

TODO MUNDO EM PÂNICO

© Dr. Alessandro Loiola


“Nada de câncer ou HIV: as doenças mentais serão o grande mal do Século XXI”. Estas palavras foram proferidas por um querido professor na Escola de Medicina, nos idos do Século XX, quando eu ainda tinha cabelos e a maioria dos trabalhos científicos envolvia pesquisas direcionadas para a AIDS. Hoje percebo que ele não poderia estar mais certo – e eu, mais careca.

No dia a dia do consultório, mais da metade dos atendimentos são para tratar conseqüências de estados emocionais alterados. Por exemplo: a paciente que se queixa de dores crônicas no pescoço, mas não por artrite ou contusões, e sim por todos aqueles problemas que vencem no dia seguinte e a deixam em um estado de tensão constante. E aí tome hipertensão arterial, obesidade, angina, etc.

Recentemente, vem aumentando o número de pacientes que apresentam um distúrbio emocional em particular, a Síndrome do Pânico, uma alteração caracterizada por várias manifestações inespecíficas que ocorrem em ataques. Durante a crise, podem ser observados palpitações, suores profusos, tremores, falta de ar, náuseas, cólicas abdominais, vertigens, desmaios, medo de perder o controle ou enlouquecer, dormências, calafrios e fogachos.

Tudo bem, sou obrigado a concordar que qualquer pessoa levemente conectada à nossa realidade corre o risco de desenvolver muitos desses sintomas:

A cada dia, no Brasil, ocorrem cerca de 200 assassinatos, 1.000 roubos de carros e mais de 7.500 pessoas são assaltadas - e menos de 5% destes crimes são esclarecidos. Coloque em uma panela estes números da Insegurança Pública e adicione todos os impostos que vencem no começo do ano, o material escolar das crianças e a prefeitura cavando túneis que desabam sob prédios e residências. Tempere com o risco da sua filha adolescente contrair alguma doença sexualmente transmissível que vá lhe chamar de vovó ou vovô, e pronto: temos mais um paciente com Síndrome do Pânico aguardando na recepção.

Calcula-se que cerca de 2-5% da população mundial sofra com a doença. As mulheres são 2-3 vezes mais afetadas que os homens, principalmente no final da adolescência e por volta dos 30 anos de idade.

Como os primeiros casos foram descritos há pouco mais de 20 anos, os cientistas ainda não conseguiram descobrir exatamente os mecanismos que causam a Síndrome. O que se sabe é que os ataques duram cerca de 20-30 minutos (raramente mais de 1 h), podendo ocorrer várias vezes ao dia. O uso de cafeína, álcool, nicotina e outras substâncias com atividade sobre o sistema nervoso central ajudam a desencadear ou potencializar as crises.

A avaliação especializada é essencial. A Síndrome do Pânico deve ser diferenciada de outros problemas potencialmente mais graves, como infarto agudo do miocárdio, doenças pulmonares, epilepsia e alterações na glândula tireóide, entre outros.

Selado o diagnóstico, o tratamento segue o mesmo roteiro de tantos outros distúrbios da ansiedade. Podem ser empregados medicamentos para controlar o estado de nervos (p.ex.: fluoxetina, paroxetina, diazepam, etc), mas é na psicoterapia que reside a cura para o problema.

Sentir medo é uma reação normal. O medo, assim como a dor, cuida da vigilância da sua saúde e bem-estar, mas em hipótese alguma ele deve lhe impedir de curtir plenamente a vida. Se isto estiver ocorrendo, procure auxílio de um profissional capacitado para dominar o estado de pânico - como aquele sujeito no interior que tinha horror a dentistas, mas foi obrigado a fazer uma consulta.

- Não tem jeito, vamos ter que retirar este dente – sentenciou o dentista.
- Mas eu estou com um medo danado, doutor!
- Você está com medo? Então tome um pouco disto aqui, pra ganhar coragem – disse o dentista, entregando ao paciente uma garrafa de cachaça -, e volte dentro de meia hora.
Passados os 30 minutos e meia garrafa depois, o paciente volta.
- E então, ganhou coragem?
- Ô, doutor, e como! *hic* Quero só ver agora qual o filho da mãe que vai encostar o dedo neste dente aqui!


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.