25 março 2007

EXISTE ATALHO PARA A BOA FORMA?

© Dr. Alessandro Loiola



A maioria das pessoas que pratica exercícios regularmente o faz por 4 razões: para perder peso, para parecer mais em forma, por recomendações médicas ou para conhecer aquela gata (ou gato) na esteira ao lado. Não é raro ver todos estes motivos misturados como um shake de baunilha com ovo maltine – afinal, nada como unir o útil ao agradável, certo?

E põe agradável nisso: pesquisas mostram que adolescentes que praticam regularmente alguma forma de atividade física dormem melhor, fumam e bebem menos, possuem uma auto-estima mais elevada, e têm mais sexo que seus colegas sedentários.

Periodicamente, toda essa propaganda a favor da boa forma resulta em um dos maiores fenômenos migratórios da humanidade: nos meses mais quentes do ano, manadas de retardatários arrependidos se deslocam rumo às academias em busca de milagres no curto prazo. Quem quer mostrar aquele abdome pneumático no clube no domingo ou ficar com 3 metros de língua para fora após atravessar a piscina no clássico estilo cachorrinho sincronizado? Ninguém. Então tome academia.

Mas quanto tempo você precisa para ter uma aparência mais saudável? Existe algum atalho para isso? Muitas empresas vêm mordiscando esse mercado bilionário – o das pessoas que querem entrar em forma no intervalo de uma pipoca de microondas. Livros, vídeos, revistas, comerciais e DVDs aos montes afirmam que bastam alguns poucos minutos de exercícios leves por dia naquela tábua de ginástica ou no equipamento super sofisticado de última geração para transformar você em um mister ou miss universo.

Qualquer exercício irá lhe deixar mais em forma que exercício nenhum, isso é verdade. O grande benefício da atividade física não está na estética, mas na prevenção de doenças como hipertensão, diabetes e obesidade.

Entretanto, exercícios excessivamente leves não produzem os resultados esperados. Caminhar duas vezes por semana na companhia de tartarugas não irá reduzir seu risco para doenças cardiovasculares. Apesar da intensidade do esforço variar de acordo com a idade, o peso e o estado geral de saúde, uma caminhada de respeito deve apresentar um ritmo entre 5 e 8 Km/h, com duração de 15 a 30 minutos, pelo menos 2-3 vezes na semana.

E o sujeito que diz nunca ter tempo e joga bola no final de semana achando que vai entrar em forma? Para alguns poucos atletas domingueiros, duas horas de pelada uma vez na semana de fato resultam em redução do risco de morte por doenças cardíacas. Porém, esta redução só é observada em indivíduos sem outros fatores de risco cardíaco e quando o gasto calórico total durante a atividade física ultrapassa 1.000 calorias ! Se você fuma ou está acima do peso, por exemplo, aqueles 30 minutos dominicais de bola não irão resultar em grandes benefícios para a saúde, mas poderão aumentar seu risco para lesões ósseas e musculares.

Muitos programas de “Exercícios-Minuto” costumam pular a fase aeróbica para ganhar tempo. O sujeito vai direto para os alteres, sem uma corrida ou caminhada antes. Infelizmente, uma rotina de exercícios que não inclui uma boa quantidade de atividades aeróbicas não pode ser considerada ótima – nem mesmo boa. São os exercícios aeróbicos – e não todos aqueles pesos coloridos - que oferecem os benefícios mais significativos.

Roteiros de malhação que prometem atalhos rápidos para resultados extraordinários freqüentemente são enganosos. Infelizmente, inúmeras pessoas esmagadas pelos padrões vigentes de beleza ainda se deixam levar por esse tipo de propaganda, com resultados desastrosos.

Preste sempre atenção. No comércio da saúde, muitos querem seu dinheiro, mas poucos querem compromisso com seu bem-estar no longo prazo. Informe-se sempre e siga em frente sem afobações: a natureza que resultou no ser humano que você é, levou vários milênios para lhe produzir. Para conquistar e preservar a boa forma, basta manter o mesmo ritmo da evolução. Contínuo e sem pressa.



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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

10 março 2007

FITOTERÁPICOS NO JOGO DOS 7 ERROS

© Dr. Alessandro Loiola


Quando era criança, adorava revistas que traziam aqueles jogos dos 7 erros, onde você devia comparar uma figura com outra, teoricamente igual, e marcar as diferenças entre elas. Nunca soube exatamente porque eram sempre 7 erros e não 6 ou 8 ou 10, etc. Mas a lição ficou: nem sempre o que parece idêntico à primeira vista é realmente uma cópia fiel do original.

Recentemente, a onda dos medicamentos naturais – especialmente os Fitoterápicos - levantou uma série de questionamentos que lembra bastante o jogo dos 7 erros. Alguns remédios naturais dizem possuir os mesmos compostos químicos, propriedades e indicações terapêuticas de remédios industrializados, e deixam para o consumidor a tarefa de descobrir as diferenças escondidas entre uns e outros. Em muitos casos, este tipo de jogo termina minando a confiança nos remédios naturais que são verdadeiramente eficazes.

Uma pesquisa realizada em 1997 no Beth Israel Deaconess Medical Center (Boston, EUA) mostrou que 1 em cada 2 pessoas utiliza alguma forma de medicina alternativa, mas apenas 30% revelam o fato aos seus médicos. Os principais motivos da falta de comunicação incluem preconceito, vergonha e receio de ser criticado ou incompreendido.

Muitos fitoterápicos funcionam de fato e a maioria deles possui interações medicamentosas relevantes. Não comunicar o fato ao seu médico pode resultar em conseqüências que você não será capaz de resolver. Por exemplo: a camomila pode potencializar o efeito de remédios anticoagulantes. Um caso desse tipo, envolvendo alterações hemorrágicas em uma senhora de 70 anos que fazia uso regular de Warfarina (anticoagulante utilizado no tratamento de tromboses), foi descrito recentemente no prestigiado Canadian Medical Association Journal.

Além da camomila, outros alimentos e fitoterápicos também podem aumentar o risco de hemorragia em pessoas que utilizam remédios anticoagulantes. A lista inclui coenzima Q10, gengibre, alho, ginseng, ginkgo, garra do diabo e casca de salgueiro.

Outra interação que freqüentemente passa despercebida é o uso de fitoterápicos e suplementos que estimulam o sistema imunológico (p.ex.: alfafa, astrágalo, equinácea, ginseng e suplementos de zinco). Este equívoco é perigoso no caso de pessoas que sofrem de doenças de fundo auto-imune, tais como Artrite Reumatóide, Lúpus e Diabetes tipo 1, ou pacientes sob tratamento imunossupressor por algum motivo (p.ex., pessoas que receberam órgãos transplantados). Nestes casos, ervas que estimulam o sistema de defesa podem resultar em exacerbação da doença ou rejeição do órgão transplantado, com graves conseqüências.

Uma vez que a interação entre suplementos naturais e medicamentos anestésicos ainda não foi muito bem estudada, a maioria dos cirurgiões recomenda que qualquer suplemento ou fitoterápico seja suspenso pelo menos 2 semanas antes da operação.

Algumas pessoas com queixa de cansaço fácil e “baixos níveis de energia” costumam procurar o auxílio de fitoterápicos antes mesmo de uma avaliação médica. E passam semanas tomando vitaminas naturais na esperança de resolver o problema. Infelizmente, alguns destes incautos na verdade podem estar sofrendo de Anemia, Hipotireoidismo, Apnéia Obstrutiva do Sono, Mononucleose Infecciosa, Insuficiência Cardíaca Congestiva, Diabetes, Insuficiência Renal ou mesmo Depressão, e sua busca por uma solução rápida e prática estaria apenas retardando o tratamento mais adequado.

Substituir medicamentos tradicionais por similares naturais ou confiar que, se um fitoterápico foi eficaz para o seu vizinho também será para você, é um enorme risco. Em caso de dúvida, procure sempre a ajuda do seu médico de confiança. Ao contrário das figuras com 7 erros, sua saúde não merece ser tratada como um jogo.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

26 fevereiro 2007

O BANHO

© Dr. Alessandro Loiola


Não é de surpreender que a idéia de banhar-se para manter a pele limpa esteja intimamente associada ao conceito de saúde: a pele, um casaco semi-impermeável de alta tecnologia, 5 camadas e quase 2 metros quadrados de tamanho, é a principal barreira contra os agentes nocivos presentes no meio ambiente. Mas será que banhar-se com regularidade é realmente importante para manter a pele saudável?

Esta pergunta, enviada por um leitor possivelmente sentado na frente de seu computador encardido e coberto por moscas varejeiras, valeu uma pesquisa que rendeu algumas informações interessantes sobre o Banho. Vamos a elas.

As origens do banho se estendem para muito antes da pré-história. Materiais saponificantes anteriores a 2.800 a.C. foram encontrados em cilindros escavados nas ruínas da antiga Babilônia. As inscrições indicavam que aquele material era utilizado para limpeza dos cabelos e para auxiliar a confecção de penteados. Os antigos egípcios também se banhavam bastante: os Papiros de Ebers, datados de 1.500 a.C., descrevem uma mistura de diversos sais e óleos utilizados para higiene pessoal.

Na civilização Ocidental, coube aos Romanos a difusão do hábito. Os primeiros Banhos Romanos foram construídos 300 anos antes de Cristo. No seu auge, Roma contava com mais de 13 aquedutos para manter seus habitantes sempre limpos. Contudo, com o declínio do Império, os Banhos também perderam gradativamente a popularidade.

Na Idade Média, os médicos desencorajavam o banho, afirmando que ele retirava as camadas mais protetoras da pele, aumentando o risco de doenças. Mas todo mundo sabe bem onde as excelentes idéias de higiene pessoal daquele tempo foram dar: em uma Peste que dizimou quase metade da população da Europa.

O banho se tornaria novamente um hábito no Ocidente apenas no Século XVII, quando os químicos franceses Nicholas Leblanc e Michel Eugene Chevreul aprimoraram as técnicas para fabricação de sabonetes. Mais ou menos no mesmo período, a descoberta dos Micróbios deu um impulso adicional ao conceito de higiene. Por volta de 1880, os chuveiros já eram parecidos com os nossos e o banho havia se tornado uma rotina. Como resposta, a lâmina de barbear descartável surgiria em 1895 e a escova de dente como a conhecemos, em 1938.

Mas a história do banho não termina neste mar de rosas. Da metade do Século XX para cá, alguns cientistas voltaram a questionar a sua validade. Estudos realizados na década de 1960 mostraram que uma boa chuveirada na verdade espalha as bactérias da pele no ambiente à sua volta, podendo aumentar o número de microorganismos nas camadas mais superficiais. Como conseqüência, os cirurgiões passaram a ser orientados a não tomar banho imediatamente antes de entrarem no bloco cirúrgico.

Alguns pesquisadores cascões também observaram que, mesmo após vários dias sem banho, a população bacteriana da pele permanece estável, fornecendo uma excelente desculpa para adolescentes mais preguiçosos.

A verdade é que, exceto pelo hábito de lavar as mãos, não existem muitas evidências científicas associando o banho ou a limpeza geral da pele à prevenção de infecções. O banho freqüente, afirmam vários cientistas, pode possuir vários benefícios estéticos, relaxantes e odoríficos, mas parece servir pouco do ponto de vista microbiológico.

Ainda assim, eu recomendo que você se banhe todos os dias. Se não o fizer por razões microbiológicas, faça-o baseado na premissa de combate ao estresse e descoberta do corpo. Afinal de contas, em que outra situação você se desligaria do mundo, cantando músicas do Cauby Peixoto enquanto explora os dedos dos pés? Só mesmo durante um bom, morno e relaxante banho.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

16 fevereiro 2007

POLUIÇÃO DOMÉSTICA

© Dr. Alessandro Loiola



Na ralação do dia a dia, todo mundo sonha com aquela hora sagrada de juntar as coisas e voltar para casa. Para a calma, a paz e a segurança de casa – é óbvio que isto não vale para quem tem crianças em casa ou vizinhas com TPM, mas você entendeu o conceito...

Sentir-se seguro em casa é uma das maiores armas contra o estresse. Nada como esparramar-se no sofá e deixar a tensão ir embora entre um cochilo despreocupado e outro.

Quem poderia imaginar que, em um cenário desses, o perigo pudesse estar à sua espreita, muito mais próximo do que você jamais imaginaria. O perigo poderia estar no próprio ar que você respira! Nos últimos anos, várias pesquisas vêm indicando que o ar em nossas casas pode estar mais contaminado que o ar da “rua”, mesmo em grandes cidades industrializadas. Muitos poluentes apresentam níveis 2 a 5 vezes maiores dentro de casa do que na rua.

A raiz do problema está nas várias fontes domésticas emissoras de gases e partículas microscópicas. Além disso, uma ventilação inadequada aumenta os níveis de agentes nocivos ao não permitir uma renovação adequada da atmosfera no interior da casa. Temperaturas elevadas e altos níveis de umidade também aumentam as concentrações de certos poluentes. O resultado: chegando em casa para o merecido descanso, eis que seu corpo começa a travar uma nova e estressante luta contra toxinas altamente perigosas.

As fontes mais comuns de poluição doméstica incluem óleos, ceras, produtos de limpeza, gás de cozinha, materiais de construção, tapetes, carpetes, cortinas de tecido, inseticidas, ar condicionado e materiais de construção estocados de maneira inapropriada.

Os efeitos da exposição a esta forma de poluição podem surgir imediatamente ou levar anos até se manifestar. Os mais imediatos incluem irritação dos olhos, nariz e garganta, dor de cabeça, tonteira e fadiga. As manifestações são mais comuns em idosos e crianças, justamente os mais expostos ao ambiente doméstico.

Em muitos casos, é difícil determinar se os sintomas foram causados por exposição à poluição doméstica. Por isso é importante ficar atento ao local e ao período em que as alterações ocorreram: sintomas recorrentes sempre que se tem contato com um determinado ambiente da casa sugerem que a poluição doméstica seja a causa.

As principais medidas que você pode tomar para reduzir a concentração de poluentes em casa incluem:

Corrija infiltrações nas paredes, elas são uma fonte importante de fungos. Tenho vários pacientes cujas crises periódicas de asma estavam relacionadas a paredes com infiltrações escondidas atrás de armários e outros móveis.

Prefira cortinas de PVC ao invés de tecido.

Mantenha seus tapetes e sofás limpos. Contrate firmas especializadas para fazer o serviço, se necessário.

Janelas e portas devem ficar abertas sempre que for possível e seguro.

Cuidado redobrado com a ventilação, principalmente quando estiver realizando pinturas, cozimentos, soldas e reformas em geral.

Ao ligar o ventilador de teto, prefira a função de exaustor. E verifique sempre se as paletas do ventilador estão devidamente limpas.

Faça manutenção periódica no seu ar-condicionado.

Plantas no interior da casa regadas excessivamente podem abrigar fungos na terra que lhes sustenta, afetando pessoas alérgicas.

Troque seu colchão a cada 5 anos e seu travesseiro a cada 1-3 anos. Para você ter uma idéia: calcula-se que, após 5 anos de uso, 10% do peso de um travesseiro seja composto por ácaros e células mortas descamadas da sua pele.

E NUNCA fume dentro de casa.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

08 fevereiro 2007

PRÓSTATA: GUIA DO PROPRIETÁRIO

© Dr. Alessandro Loiola


– A patroa anda apertando tanto o cerco que não tive alternativa... – lamentou o sujeito de meia idade, cabisbaixo enquanto sentava no consultório.

E, se inclinando como quem vai sussurrar um segredo, lançou sua pergunta perturbadora:

- Antes do senhor começar, doutor, me diga uma coisa: além de servir de motivo de piada entre meus amigos, para que diabos eu preciso de uma próstata?

Boa pergunta. Entretanto, se você – homem – acha que o preventivo prostático é ruim, que tal considerar o outro lado? As mulheres têm menstruação, gravidez, amamentação, climatério, menopausa, celulite, varizes, preventivo ginecológico e todos aqueles pêlos que nascem por toda parte e que devem ser dolorosamente retirados periodicamente. Pensando com mais calma, a próstata saiu até barato. Mas isso ainda não responde a pergunta: e para quê você precisa dela?

A próstata é uma glândula que faz parte do sistema reprodutor masculino. Sua secreção auxilia o transporte dos espermatozóides produzidos nos testículos, tornando o homem fértil. É também dentro da próstata que ocorre parte da transformação da testosterona, o hormônio responsável por todas aquelas características de homem com H que você tanto se orgulha.

A próstata cresce pouco até a puberdade, alcançando cerca de 20 gramas por volta dos vinte anos de idade. Durante décadas, ela fica ali, fazendo seu trabalho quieta e esperando feito onça no mato. Os rugidos começam por volta dos 40-50 anos, quando a glândula pode começar a crescer de modo alterado.

As manifestações mais comuns dos problemas na próstata incluem jato urinário mais fraco; dificuldade ou demora para iniciar a micção; necessidade freqüente de urinar (principalmente à noite); presença de sangue na urina; e sensação de esvaziamento incompleto da bexiga ao término da micção. A presença de um ou mais destes sinais sugere que você talvez deva deixar o constrangimento de lado e procurar um consultório médico para seu exame preventivo.

Bons motivos para tanto sobram: 1 em cada 5-10 homens apresentará problemas na próstata ao longo de sua vida. O câncer prostático é considerado o terceiro câncer masculino mais comum, perdendo apenas para o câncer nos pulmões e no intestino grosso.

Nas próximas 24h, mais de 600 brasileiros desenvolverão câncer da próstata e quase 80 morrerão vítimas doença. Na maioria dos casos de morte, o diagnóstico tardio está na raiz da questão: no Brasil, mais da metade dos casos de câncer prostático são diagnosticados quando a doença já está disseminada. Quando o tumor é descoberto cedo, as chances de sobrevivência são enormes.

Existem exames laboratoriais que podem auxiliar a detecção de problemas na próstata. Por exemplo, a dosagem do Antígeno Prostático Específico, ou PSA, é útil, mas não fará você escapar do exame de toque. Cerca de 25% dos homens com câncer prostático possuem níveis de PSA dentro da normalidade, porém o tumor poderia ser detectado através do toque. O ideal é combinar o exame de sangue com o toque prostático, repetindo a avaliação a cada 12 meses.

Além de manter o preventivo em dia, você pode diminuir seu risco através de hábitos alimentares mais saudáveis: uma dieta pobre em gorduras e rica em tomates e derivados parece diminuir em 35% os riscos de câncer da próstata, segundo estudo realizado na Universidade de Harvard. O uso de suplementos de vitamina E e Selênio também pode possuir um efeito protetor contra a doença, de acordo com dados do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, de Nova York.

A partir de hoje, não tenha receio de procurar um médico de confiança para fazer seu exame prostático de rotina. Uma pequena dose de humor e informação são temperos valiosos para uma vida saudável. Abuse sempre de ambos.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

30 janeiro 2007

BEBIDAS ENERGÉTICAS

© Dr. Alessandro Loiola


Plantão de sábado à noite, um calor danado. Estava a caminho do bebedouro mais próximo quando a recepção anuncia a chegada de mais um paciente. Eles (da recepção) devem ter câmeras escondidas pelo hospital, porque é impressionante a freqüência com que chamam exatamente na hora em que vamos almoçar ou ao banheiro. É você lembrar que tem bexiga ou estômago, e pronto!, lá vem o som pelos corredores solicitando sua presença com urgência em algum lugar distante.

Deixei o bebedouro onde estava – pesado demais para carregar –, e voltei à sala de atendimento a tempo de ver dois amigos deitando um terceiro sobre a maca, nariz sangrando que era uma beleza.

- Saindo da festa, bateu com o carro, doutor!

Conforme relato da própria vítima, poucos metros após dar partida ele colidiu com um poste “que estava pra todo lado na rua”. Ótimo. Postes que miram em carros. Os donos de auto-escolas irão adorar a notícia.

Exame neurológico, respiração, pulsos, pressão arterial... tudo estável. Levo o paciente para a radiografia. Fora o hálito pra alambique nenhum botar defeito e um pequeno galo na testa, tudo normal.

- É doutor, a sorte foi que eu tomei umas latinhas energéticas antes de ir para a balada. Se não fosse isso, bau-bau. Tinha sido muito pior, viu.

Latinhas energéticas. Cheguei a imaginar alguma forma extraterrestre de baterias líquidas para consumo humano, mas era mais simples que isso. Como qualquer entretenimento gastronômico da moda, as bebidas energéticas vêm ganhando espaço na mídia, nas prateleiras das lojas de conveniência, nas boates e nos estômagos dos mais sugestionáveis. Na maioria dos casos, não passam de drinques ricos em carboidratos contendo doses generosas de cafeína, vitamina B, aminoácidos e ervas com propriedades estimulantes.

Entre outras coisas, estas pequenas bombas enlatadas se dizem capazes de repor a força, a disposição e até mesmo a potência sexual. Com um apelo desse, as bebidas energéticas movimentam um mercado de 3.5 bilhões de dólares apenas nos Estados Unidos, especialmente entre jovens de 18 a 30 anos de idade.

A raiz do problema não está na propaganda ou no conteúdo, mas no volume: uma lata de bebida energética contém a mesma quantidade de cafeína de uma xícara de café, e os jovens conseguem derrubar não uma ou duas doses, mas várias latas “energéticas” no intervalo de poucos minutos. A ingestão excessiva de cafeína resulta em ansiedade, insônia e agitação. Além disso, a Taurina, um aminoácido presente em algumas bebidas energéticas, aumenta o trabalho cardíaco quando combinada à cafeína, intensificando a sensação de estar cheio de energia.

Não é raro ver pessoas associando bebidas energéticas a drinques alcoólicos. Elas dizem que a associação diminui os efeitos depressivos do álcool - e estão certas. Porém, ao mascarar estas conseqüências, o ilustre beberrão fashion termina ingerindo uma quantidade de álcool muito acima dos limites do próprio corpo. E as conseqüências chegam logo.

As bebidas energéticas não cortam os efeitos do álcool sobre a coordenação motora. Ou seja: apesar dos altíssimos níveis de álcool no sangue, você se encontra estimulado o suficiente para achar que é capaz de dirigir até sua casa. Está alerta e falante, mas sua rapidez de reflexos é de fazer vexame em qualquer concurso de lesmas e tartarugas com cãibras.

O álcool não afeta apenas a coordenação motora, mas também a capacidade de tomar rapidamente decisões. Motoristas alcoolizados são perigosos não apenas devido à sua falta de coordenação, mas porque não são capazes de avaliar corretamente os riscos a que se expõe.

As pessoas precisam compreender que a sensação de bem-estar produzida pelo consumo de bebidas energéticas não significa necessariamente que o corpo não foi afetado pelo álcool. Se você bebeu além do razoável, mesmo com suas latinhas energéticas e tudo mais, você está sob os efeitos do álcool, sim – apenas não se deu conta ainda.

Pelo menos, não até deitar na maca do pronto-socorro mais próximo.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

23 janeiro 2007

TODO MUNDO EM PÂNICO

© Dr. Alessandro Loiola


“Nada de câncer ou HIV: as doenças mentais serão o grande mal do Século XXI”. Estas palavras foram proferidas por um querido professor na Escola de Medicina, nos idos do Século XX, quando eu ainda tinha cabelos e a maioria dos trabalhos científicos envolvia pesquisas direcionadas para a AIDS. Hoje percebo que ele não poderia estar mais certo – e eu, mais careca.

No dia a dia do consultório, mais da metade dos atendimentos são para tratar conseqüências de estados emocionais alterados. Por exemplo: a paciente que se queixa de dores crônicas no pescoço, mas não por artrite ou contusões, e sim por todos aqueles problemas que vencem no dia seguinte e a deixam em um estado de tensão constante. E aí tome hipertensão arterial, obesidade, angina, etc.

Recentemente, vem aumentando o número de pacientes que apresentam um distúrbio emocional em particular, a Síndrome do Pânico, uma alteração caracterizada por várias manifestações inespecíficas que ocorrem em ataques. Durante a crise, podem ser observados palpitações, suores profusos, tremores, falta de ar, náuseas, cólicas abdominais, vertigens, desmaios, medo de perder o controle ou enlouquecer, dormências, calafrios e fogachos.

Tudo bem, sou obrigado a concordar que qualquer pessoa levemente conectada à nossa realidade corre o risco de desenvolver muitos desses sintomas:

A cada dia, no Brasil, ocorrem cerca de 200 assassinatos, 1.000 roubos de carros e mais de 7.500 pessoas são assaltadas - e menos de 5% destes crimes são esclarecidos. Coloque em uma panela estes números da Insegurança Pública e adicione todos os impostos que vencem no começo do ano, o material escolar das crianças e a prefeitura cavando túneis que desabam sob prédios e residências. Tempere com o risco da sua filha adolescente contrair alguma doença sexualmente transmissível que vá lhe chamar de vovó ou vovô, e pronto: temos mais um paciente com Síndrome do Pânico aguardando na recepção.

Calcula-se que cerca de 2-5% da população mundial sofra com a doença. As mulheres são 2-3 vezes mais afetadas que os homens, principalmente no final da adolescência e por volta dos 30 anos de idade.

Como os primeiros casos foram descritos há pouco mais de 20 anos, os cientistas ainda não conseguiram descobrir exatamente os mecanismos que causam a Síndrome. O que se sabe é que os ataques duram cerca de 20-30 minutos (raramente mais de 1 h), podendo ocorrer várias vezes ao dia. O uso de cafeína, álcool, nicotina e outras substâncias com atividade sobre o sistema nervoso central ajudam a desencadear ou potencializar as crises.

A avaliação especializada é essencial. A Síndrome do Pânico deve ser diferenciada de outros problemas potencialmente mais graves, como infarto agudo do miocárdio, doenças pulmonares, epilepsia e alterações na glândula tireóide, entre outros.

Selado o diagnóstico, o tratamento segue o mesmo roteiro de tantos outros distúrbios da ansiedade. Podem ser empregados medicamentos para controlar o estado de nervos (p.ex.: fluoxetina, paroxetina, diazepam, etc), mas é na psicoterapia que reside a cura para o problema.

Sentir medo é uma reação normal. O medo, assim como a dor, cuida da vigilância da sua saúde e bem-estar, mas em hipótese alguma ele deve lhe impedir de curtir plenamente a vida. Se isto estiver ocorrendo, procure auxílio de um profissional capacitado para dominar o estado de pânico - como aquele sujeito no interior que tinha horror a dentistas, mas foi obrigado a fazer uma consulta.

- Não tem jeito, vamos ter que retirar este dente – sentenciou o dentista.
- Mas eu estou com um medo danado, doutor!
- Você está com medo? Então tome um pouco disto aqui, pra ganhar coragem – disse o dentista, entregando ao paciente uma garrafa de cachaça -, e volte dentro de meia hora.
Passados os 30 minutos e meia garrafa depois, o paciente volta.
- E então, ganhou coragem?
- Ô, doutor, e como! *hic* Quero só ver agora qual o filho da mãe que vai encostar o dedo neste dente aqui!


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

16 janeiro 2007

A CRIANÇA DESAFIADORA

© Dr. Alessandro Loiola


Não acredito que exista situação mais paradoxal nesta vida que os filhos, principalmente quando pequenos. Se você não se recorda, estas criaturinhas cheias de energia são aquelas que sugam todo e qualquer tempo livre do seu dia, preenchendo as horas de descanso com preocupações, e as horas de trabalho com mais trabalho.

Apesar de tudo, uma vez pousados em seu coração, você simplesmente não consegue conceber mais sua vida sem os pequenos por perto. Quer dizer, conceber, você concebe, para quase sempre concluir que seria uma existência muito mais tranqüila– e vazia.

Os filhos dão aquele tempero definitivo à vida. Mesmo que sejam os filhos dos seus irmãos. Ter crianças por perto e ser responsável por elas, pelo seu desenvolvimento, é uma das maiores lições que você poderá encontrar neste mundo. Esqueça os MBAs, os mestrados e doutorados: não existe nada mais difícil que criar pessoas equilibradas. É um processo complexo e não remunerado de gerenciamento de recursos humanos no longo prazo, sem direito a férias ou FGTS, e quase sempre conduzido por amadores sem treinamento adequado – até onde eu sei, para ser pai / mãe não são necessários diplomas ou licenças específicas.

Por isso mesmo, não me surpreendi quando Helena retornou ao consultório para uma avaliação de rotina. Estava utilizando remédios fortes para Hipertensão Arterial e, até poucos meses atrás, ia tudo muito bem, mas agora a pressão estava novamente descontrolada. Na raiz de tudo, descobri uma viagem para Portugal.

- Minha irmã foi tentar a vida lá, doutor. Eu quis ajudar e aceitei ficar com meus sobrinhos por um tempo, mas tenho 2 filhos e agora com os 4 dela, a situação em casa vai de mal a pior. Não estou conseguindo lidar com as pirraças.

Todas as crianças de Helena estavam abaixo dos 10 anos de idade – a mais velha contava com apenas 9 anos. E pelo seu relato, ela estava vivendo um motim infantil que os médicos chamam com todo garbo de Comportamento Desafiador Oposicional – ou CDO.

O CDO é definido como um padrão recorrente de comportamento desafiador, desobediente e hostil direcionado contra a autoridade (p.ex.: pais, cuidadores, professores, etc) por mais de 6 meses consecutivos. As crianças que apresentam CDO costumam se entediar facilmente, perdem o controle ao menor sinal de problema, discutem com adultos, se recusam a cumprir ordens simples e culpam terceiros pelos seus próprios erros. Em outras palavras: uma criança com CDO é a ferramenta de tortura perfeita para qualquer carrasco que se preze.
Os especialistas estimam que cerca de 10% das crianças apresentam um período de CDO ao longo da infância. Alguns sintomas da doença podem ser confundidos com manifestações do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, Distúrbios da Ansiedade e Depressão, daí a necessidade de uma avaliação especializada.

A instabilidade da família, incluindo estresse econômico, comportamentos punitivos, mudanças freqüentes e divórcio, podem contribuir para o surgimento do CDO. No caso da Helena, todos estes fatores combinados provocaram um verdadeiro incêndio no comportamento das crianças – e já estavam avançando sobre sua própria pressão arterial.
A interação de uma criança com temperamento difícil com pais de conduta rígida e punitiva, freqüentemente resulta em castigos que intensificam o comportamento desafiador. E a criança, ao ser castigada, termina agindo de modo ainda mais irritante, fechando um ciclo vicioso.

Por isso, para lidar com o CDO, tão importante quanto disciplinar a criança é treinar os pais: eles devem mudar seus próprios padrões de comportamento para lidar de modo construtivo com o problema – sob o risco de, ao tentarem controlar a situação por conta própria, apenas piorarem as coisas.

O primeiro passo é prestar atenção ao comportamento da criança. Faça festa para atitudes nobres e utilize punições rápidas porém eficazes para as crises de pirraça. É essencial guardar um período do dia para interagir de modo positivo com a criança, sem julgamentos ou castigos. As brincadeiras criam valiosos laços de confiança que você poderá utilizar mais tarde para implementar sua disciplina, sem necessidade de apelar para violência.

Se necessário, um Psicoterapeuta poderá fornecer orientações adicionais, ajudando a identificar atitudes da criança que podem ser utilizadas como ganchos para uma mudança em seu comportamento global. Este tipo de conduta afetuosa é capaz de resolver a maioria dos casos de CDO e, quanto mais cedo for aplicada, maior a chance de sucesso - e menor o risco de seqüelas comportamentais no longo prazo, para todos os envolvidos.


*por motivos éticos óbvios, o nome foi trocado.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

09 janeiro 2007

ANTES DE DAR CORDA NO SEU RELÓGIO

© Dr. Alessandro Loiola



Muito se fala sobre Livre Arbítrio, sobre a capacidade de escolher com liberdade e conscientemente. O Livre Arbítrio é uma das conquistas mais valorizadas em nossa espécie. Por exemplo: em época de férias, é você e você apenas quem escolhe a hora de acordar, conversar, comer e dormir, certo?

Errado.

Para dar corda ao assunto, me deixe explicar por quê.

Imagine seu corpo como um grande relógio. Melhor ainda, como um aglomerado de mais de 100 relógios sincronizados, determinando a hora de sentir sono, fome, ir ao banheiro, etc. Estes relógios internos existem de verdade e determinam um ciclo chamado Ritmo Circadiano (desde já: circadiano significa “ciclo de um dia”). A ciência que os estuda possui até mesmo um nome: Cronobiologia.

O Ritmo Circadiano mantém seu corpo alerta durante as horas de claridade e ajuda a relaxar à noite. É capaz até mesmo de lhe acordar na hora certa pela manhã quando você se esquece de ajustar o alarme na cabeceira. Infelizmente, este mesmo relógio lhe acorda nos dias em que você poderia dormir até um pouco mais tarde...

Nos mamíferos – e você quase certamente é um deles -, o relógio biológico localiza-se numa porção do cérebro chamada Hipotálamo. Mas não perca tempo tentando encontrar o seu. Apenas certifique-se de que ele continue funcionando por mais algumas décadas. Em alguns insetos, o relógio biológico está na retina dos olhos. Nos pássaros, ele pode ser encontrado no hipotálamo ou na glândula pineal.

Em todos os casos, estes relógios estão vinculados a receptores sensíveis que sincronizam o relógio interno com a luz do sol. Funciona da seguinte maneira: ao atingir receptores na retina, a luz solar desencadeia estímulos que viajam por fibras nervosas até o cérebro, dando corda no seu mecanismo de horários. Estas fibras também transmitem sinais que afetam níveis hormonais relacionados ao ajuste do relógio interno.

Por exemplo: os níveis de Cortisol (um hormônio relacionado ao metabolismo e ao sistema de imunológico), são maiores entre 6 e 8 da manhã, diminuindo gradualmente durante o dia. Ao mudar o padrão de sono, os níveis de Cortisol também se alteram. O hormônio do crescimento (GH), por sua vez, aumenta com o sono em crianças – os níveis máximos são atingidos nas primeiras duas horas de sono. Se a criança apresenta distúrbios do sono, a produção de GH cai, prejudicando seu desenvolvimento.

Os derrames e os ataques cardíacos são mais comuns no período da manhã do que em qualquer outro horário do dia. Muitas pessoas podem pensar que não é seguro, então, exercitar-se pela manhã. Todavia, a culpa não está no exercício, mas nas alterações do Ritmo Circadiano: entre outras coisas, os níveis elevados de Cortisol fazem com que o sangue se coagule mais rapidamente por volta das 8 horas da manhã. A pressão também se eleva neste horário, permanecendo assim até o final da tarde, quando começa a cair, atingindo seu ponto mais baixo durante a noite.
Ainda, atletas experimentam picos de temperatura, força e flexibilidade no final da tarde – e este é o melhor período do dia para competirem. À tarde, a sensibilidade à dor também é menor.

O relógio interno pode ser regulado por estímulos não-luminosos, como exercícios, drogas, remédios e hormônios. À medida que envelhecemos, o marcapasso cerebral perde células, alterando os ritmos circadianos – e isto, associado ao uso de vários remédios e à falta de atividade física regular, pode explicar o relógio “desregulado” de pessoas mais idosas.

Dormir uma ou duas horas mais tarde além do horário habitual também pode causar problemas. É mais difícil acordar na manhã seguinte e não raramente passamos o dia irritados e com dor de cabeça. Isto pode não ser simplesmente “falta de uma noite bem dormida”, mas uma alteração no padrão do ritmo circadiano. Neste caso, a pessoa está em um ritmo onde o corpo quer descansar das 4 da manhã até às 5 da tarde. E aí, seu dia de praia foi-se.

Manter um horário regular para o sono e as refeições, praticar exercícios durante o dia (e não à noite, quando você aumenta a carga de adrenalina e prejudica o sono) e relaxar por alguns minutos antes de ir para a cama são táticas que ajudam o bom funcionamento do seu relógio biológico.

Agora sim, dê corda à vontade.



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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

27 dezembro 2006

HIPERTENSÃO ARTERIAL: ANTES TARDE QUE MAIS TARDE

© Dr. Alessandro Loiola


Falta pouco menos de uma semana para terminar o ano, e Seu Antônio chega para sua consulta de retorno, acompanhado da esposa, pacotes de exames e mais pacotes de remédios.

- Pois é, doutor, demorei mas olha nós aqui de volta!

Confiro a ficha. Demorou mesmo. A consulta em que pedi os tais exames foi há tantos meses que parece ter ocorrido um pouco antes do dilúvio bíblico. Mas bem, vá lá: pelo menos ele teve o bom senso de retornar.

Conversamos um pouco, anoto alguns dados mais importantes e pego os aparelhos para examiná-lo. Pressão Arterial: 210/130...

- Seu Antônio, e os remédios??

- Ah, doutor, vou tomando direitinho, do jeito que está na receita. Inclusive, não tenho sentido nada, uma beleza!

A esposa se ajeita na cadeira e ele treme.

- Fala a verdade, Antônio! – e antes que o Antônio possa esboçar a verdade, a esposa entrega o jogo – Ele tem medo de ficar dependente dos remédios, doutor. Então tem dia que toma um e não toma o outro, tem dia que toma o outro, mas rejeita o primeiro. E tem dia que não toma coisa alguma!

- Mas Conceição, você sabe que minha pressão normal é essa aí mesmo: 180/100, 190/100. Quando abaixa muito, me sinto mal...

A esposa dá um suspiro tão profundo que quase esgota o oxigênio no consultório. Penso em acompanhá-la, mas é melhor esclarecer que lamentar. Então vamos lá.

A Organização Mundial de Saúde define a Hipertensão como sendo uma pressão freqüentemente acima de 140 por 90. Se você é um Homo sapiens deste planeta, não tem como escapar dizendo que “sua” pressão normal não é esta. Uma pressão além destes limites cai na definição de Hipertensão Arterial, e pronto. Assuma o problema – antes que o problema suma com você.

A Hipertensão Arterial afeta uma de cada 5 pessoas no Brasil e, em mais de 95% dos casos, a causa não pode ser determinada. Isso faz com que o tratamento seja feito à base de medidas e remédios que apenas controlam, mas não curam o problema.

A Hipertensão é conhecida como um “assassino silencioso”: assim como seu Antonio, cuja pressão – de tão alta - ameaçava colidir a qualquer momento com a Estação Espacial Internacional, metade das pessoas hipertensas não sabe que sofre do problema. Não é raro ver pacientes chegando no consultório se queixando de dores de cabeça, dores musculares, inchaços nos tornozelos ou problemas no sono e, ao medir sua pressão, bingo!, lá está a Hipertensão como causa do mal estar.

Esta doença sorrateira abre as portas do seu corpo para outras doenças, tais como derrame, insuficiência cardíaca e infarto. Felizmente, as medidas para controle da Hipertensão Arterial são suficientes para diminuir ou até mesmo eliminar o risco para estas doenças. Por exemplo: manter a pressão dentro da faixa ideal reduz em mais de 20% sua chance de sofrer um ataque cardíaco.

Agora, vamos supor que você tenha recebido o diagnóstico de Hipertensão Arterial. Não é o fim do mundo, não. Você não terá que deixar de fazer as coisas que tanto gosta. Deverá apenas a aprender a cuidar melhor de si mesmo.

A primeira medida é saber que, mesmo fazendo o uso correto das medicações, sua pressão pode sair dos trilhos vez ou outra. Caso você comece a sentir dores de cabeça, tontura, zumbidos no ouvido ou fraqueza sem motivo, fique alerta. Pode ser a pressão arterial subindo novamente. Procure um lugar onde você possa medi-la com segurança.

É importantíssimo que você se mantenha o mais próximo possível do seu peso adequado. Se necessário, mude alguns hábitos alimentares. Mais da metade das pessoas hipertensas é capaz de normalizar a pressão arterial simplesmente perdendo o excesso de peso. Você pode saber se está mais ou menos em forma medindo a circunferência da sua cintura. Ela deve ser inferior a 102 cm nos homens e 88 cm nas mulheres.

Toda pessoa hipertensa deve passar por uma consulta médica de rotina a cada 4-6 meses, com um check-up completo a cada 12 meses. E jamais abandonar os remédios receitados pelo médico. Se você estiver apresentando sintomas que acredita serem decorrentes da medicação, comunique isso ao seu médico antes de interromper os remédios por conta própria.

Pratique uma atividade física regularmente. Os exercícios melhoram a saúde cardiopulmonar, ajudam a manter o peso e reduzem o ritmo cardíaco e a pressão arterial. Pessoas que praticam exercícios possuem menos da metade do risco de doença cardíaca em comparação às pessoas sedentárias.

E aproveite sempre seus momentos de lazer com as pessoas que você gosta, degustando a vida ao invés de carregar problemas para todo lado. O mundo está aos seus pés. Como sempre.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

09 dezembro 2006

NO CALOR DO VERÃO, É ESTRESSE OU DESIDRATAÇÃO?

© Dr. Alessandro Loiola


Como sempre ocorre desde que foi inventando o movimento de Translação, finda a Primavera, vem o Verão. Ah, o Verão...

Nessa época, o consultório meio que esvazia. Afinal de contas, é a estação do mar, do bronzeado. Daquela cadeira de nylon enferrujada que vai te deixar na mão assim que você a fincar sob o sol escaldante. Das crianças pintadas de picolé dando um colorido todo especial ao estofamento do seu carro. Do sabonete cheio de areia quando chega sua vez de tomar banho.

Ah, o verão. E você na direção do litoral, preso no maior engarrafamento do ano, sonhando alcançar a praia para experimentar tudo isso mais uma vez! Mas mal descarregou o guarda-sol e as bóias dos meninos e já é hora de voltar para o engarrafamento. Que vida, que vida! O Verão.

Como qualquer estação que se preze, o Verão tem lá os seus sintomas particulares. Por exemplo: no Inverno e no Outono, temos as irritações das vias aéreas, as gripes e os resfriados, e uma incidência maior de compulsões alimentares e distúrbios depressivos. Na Primavera, chovem rinites alérgicas e começam as lesões musculares. No Verão, é a época em que eu atendo mais pessoas se queixando de Estresse.

Desde que escapou dos laboratórios e livros de ciência no final da década de 1970, o Estresse caiu no gosto popular. Tudo quanto é tipo de queixa corre o risco de ser rotulada como “pode ser um efeito do Estresse...”. Este diagnóstico parece proliferar mais rápido que o mosquito da dengue nos meses mais quentes do ano.

O insuspeito casamento entre o Verão e o Estresse pode se explicado por uma substância que corresponde a mais de 60% do peso do seu corpo: a água. Assim como o oxigênio, ela é um dos nutrientes mais importantes da natureza. A água possui um papel essencial em quase todas as funções corporais, regulando sua temperatura, levando outros nutrientes e oxigênio até as células, removendo os resíduos do metabolismo, e protegendo vários órgãos e tecidos.

Em um dia normal de verão, o calor extremo e a umidade aumentam a perda de água e sais minerais através da transpiração e da respiração, fazendo com que uma pessoa adulta evapore mais de 2 litros de sua reserva de água em 24 horas. Quando estas perdas não são repostas corretamente, o corpo funciona com dificuldade, manifestando seu descontentamento na forma de irritabilidade, cansaço fácil, dificuldade de concentração, dores de cabeça, vertigens e náuseas - sintomas que podem ser confundidos facilmente com o popular Estresse.

Quanto mais tempo você passar desidratado, maior será seu risco de apresentar alterações na pressão arterial, na circulação sangüínea, na digestão e na função renal. Os riscos de complicações graves são maiores em pessoas acima dos 65 anos de idade, crianças com menos de 4 anos e obesos.

Para não confundir Desidratação com Estresse, e para aproveitar ao máximo os dias de sol, permita que a prevenção seja seu melhor remédio tendo sempre em mente as 7 orientações a seguir:

Pesquisas mostram que apenas uma pessoa em 5 cumpre a recomendação de beber 8 copos de água por dia. O adulto médio toma pouco mais de 4 copos de água, e cerca de 10% das pessoas não tomam um copo sequer o dia inteiro. Não caia nesta armadilha: mantenha uma garrafa de água sempre por perto, bebendo pequenas quantidades várias vezes ao longo do dia.

Não espere sentir sede para tomar um pouco de água. Se você está com sede, provavelmente seu corpo já perdeu 1 ou 2 copos da sua reserva de água. Não deixe a situação chegar a este ponto.

A água pura é o melhor líquido para manter-se hidratado. E se for gelada, ainda melhor: a água gelada é absorvida mais rapidamente, além de possuir um efeito benéfico de “refrigeração”, diminuindo o risco de superaquecimento do corpo durante o verão.

A cafeína e o álcool agem como diuréticos, fazendo com que o organismo perca mais água através da urina. É óbvio, portanto, que a xícara de café e aquela cervejinha não pode ser contabilizadas como “líquidos hidratantes”.

Refrigerantes e sucos industrializados podem conter açúcar e cafeína, que atuam acelerando o processo de desidratação. Evite-os.

Ao praticar atividades físicas, leve um recipiente com água e continue se hidratando durante o exercício. Uma simples corrida pode fazer com que você perca vários litros de água e preciosos sais minerais.

O corpo perde água até mesmo na sombra ou durante o sono, e estas perdas aumentam no verão. Comece e termine seu dia com um copo de água ou suco natural, e alimente-se regularmente, dando preferência para frutas da estação e alimentos não-industrializados.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

26 outubro 2006

APRENDENDO A DIZER NÃO

© Dr. Alessandro Loiola


Tenho inúmeros pacientes cuja pressão elevada, insônia, distúrbio da ansiedade, depressão, compulsão alimentar ou obesidade foram causados pela incapacidade de dizerem NÃO. Eles saem pela rua colocando sobre as costas toda e qualquer carga de responsabilidade que encontram pela frente. No final do dia, estão piores que o último bagaço de laranja do Ceasa, e ainda recebem críticas porque estão deixando o serviço atrasar...

Dizer NÃO é essencial, mas o problema é que não recebemos treinamento específico para isso. As empresas, as universidades, os cursos pré-nupciais, em toda parte onde se ensina a fazer alguma coisa, ninguém ensina como NÃO fazer. Contudo, existem ocasiões em que você simplesmente já tem tarefas demais, e ser capaz de dizer NÃO pode ser a única forma de manter a sanidade física e mental.

Se você vive reclamando de desgaste e sobrecarga de trabalho, e só agora percebeu que é mais uma vítima dos que não sabem dizer NÃO, recomendo o seguinte: faça uma lista das situações em que você gostaria de dizer NÃO, mas não foi capaz de abandonar o SIM. E escolha uma desculpa de acordo com sua personalidade a partir da lista abaixo:

O EXECUTIVO

Ele diz NÃO escapando pelo excesso de coisas por fazer: “O problema é que estou envolvido em outros projetos até 2096...” ou então “No momento (leia-se: até o dia em que você parar de pedir) não acredito que seja possível encaixar mais nada na agenda...”. Alguns ainda fecham com chave de ouro, tirando da pasta todo seu grau de excelência, dizendo “E além de tudo, tenho que manter aquela qualidade que você já conhece.”

O RELAÇÕES-PÚBLICAS

De repente o sujeito é seu amigo, mas ainda assim... “Rapaz, prefiro recusar agora a fazer um serviço ruim e lhe prejudicar”. Ou “Até gostaria, o problema é que estou atolado em outro trabalho, sem tempo para nada”. Porém, um verdadeiro Relações-Públicas sempre dará um jeito de emendar a recusa com algo como: “mas posso indicar alguém para ajudar se você quiser”. E lhe encaminhará para um Executivo. Ou um Pobre-Coitado.

O POBRE-COITADO

Balance a cabeça de modo tristonho enquanto repete “Olha, infelizmente não me acho a pessoa mais indicada para esse serviço”, “Não tenho muita experiência no assunto” ou “Não é o meu forte”. Mas atenção: evite emendar as 3 desculpas em uma mesma frase. Não gaste de uma vez todos os seus trunfos! Dê respostas diferentes para cada vez que o outro insistir.

Se preferir, recuse fazendo uma massagem estilo drenagem linfática no Ego do outro (“Tenho certeza de que você é capaz de fazer isso pelo menos 10.000 vezes melhor do que eu!”) ou chore um lamento hipocondríaco tipo “O médico recomendou que reservasse um tempo livre para cuidar da saúde, dedicar à família, descobrir meu verdadeiro eu, sabe como é...”.

Até eu fiquei com pena.

O PRÁTICO

Algumas vezes, um simples e curto “NÃO” é suficiente. Os especialistas em Recursos Humanos recomendam que você faça isso de modo claro, firme porém cortês, deixando todas as portas abertas para um bom relacionamento no futuro. Depois, monte um curso bem caro para contar como foi que você conseguiu um milagre desses.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.