09 janeiro 2007

ANTES DE DAR CORDA NO SEU RELÓGIO

© Dr. Alessandro Loiola



Muito se fala sobre Livre Arbítrio, sobre a capacidade de escolher com liberdade e conscientemente. O Livre Arbítrio é uma das conquistas mais valorizadas em nossa espécie. Por exemplo: em época de férias, é você e você apenas quem escolhe a hora de acordar, conversar, comer e dormir, certo?

Errado.

Para dar corda ao assunto, me deixe explicar por quê.

Imagine seu corpo como um grande relógio. Melhor ainda, como um aglomerado de mais de 100 relógios sincronizados, determinando a hora de sentir sono, fome, ir ao banheiro, etc. Estes relógios internos existem de verdade e determinam um ciclo chamado Ritmo Circadiano (desde já: circadiano significa “ciclo de um dia”). A ciência que os estuda possui até mesmo um nome: Cronobiologia.

O Ritmo Circadiano mantém seu corpo alerta durante as horas de claridade e ajuda a relaxar à noite. É capaz até mesmo de lhe acordar na hora certa pela manhã quando você se esquece de ajustar o alarme na cabeceira. Infelizmente, este mesmo relógio lhe acorda nos dias em que você poderia dormir até um pouco mais tarde...

Nos mamíferos – e você quase certamente é um deles -, o relógio biológico localiza-se numa porção do cérebro chamada Hipotálamo. Mas não perca tempo tentando encontrar o seu. Apenas certifique-se de que ele continue funcionando por mais algumas décadas. Em alguns insetos, o relógio biológico está na retina dos olhos. Nos pássaros, ele pode ser encontrado no hipotálamo ou na glândula pineal.

Em todos os casos, estes relógios estão vinculados a receptores sensíveis que sincronizam o relógio interno com a luz do sol. Funciona da seguinte maneira: ao atingir receptores na retina, a luz solar desencadeia estímulos que viajam por fibras nervosas até o cérebro, dando corda no seu mecanismo de horários. Estas fibras também transmitem sinais que afetam níveis hormonais relacionados ao ajuste do relógio interno.

Por exemplo: os níveis de Cortisol (um hormônio relacionado ao metabolismo e ao sistema de imunológico), são maiores entre 6 e 8 da manhã, diminuindo gradualmente durante o dia. Ao mudar o padrão de sono, os níveis de Cortisol também se alteram. O hormônio do crescimento (GH), por sua vez, aumenta com o sono em crianças – os níveis máximos são atingidos nas primeiras duas horas de sono. Se a criança apresenta distúrbios do sono, a produção de GH cai, prejudicando seu desenvolvimento.

Os derrames e os ataques cardíacos são mais comuns no período da manhã do que em qualquer outro horário do dia. Muitas pessoas podem pensar que não é seguro, então, exercitar-se pela manhã. Todavia, a culpa não está no exercício, mas nas alterações do Ritmo Circadiano: entre outras coisas, os níveis elevados de Cortisol fazem com que o sangue se coagule mais rapidamente por volta das 8 horas da manhã. A pressão também se eleva neste horário, permanecendo assim até o final da tarde, quando começa a cair, atingindo seu ponto mais baixo durante a noite.
Ainda, atletas experimentam picos de temperatura, força e flexibilidade no final da tarde – e este é o melhor período do dia para competirem. À tarde, a sensibilidade à dor também é menor.

O relógio interno pode ser regulado por estímulos não-luminosos, como exercícios, drogas, remédios e hormônios. À medida que envelhecemos, o marcapasso cerebral perde células, alterando os ritmos circadianos – e isto, associado ao uso de vários remédios e à falta de atividade física regular, pode explicar o relógio “desregulado” de pessoas mais idosas.

Dormir uma ou duas horas mais tarde além do horário habitual também pode causar problemas. É mais difícil acordar na manhã seguinte e não raramente passamos o dia irritados e com dor de cabeça. Isto pode não ser simplesmente “falta de uma noite bem dormida”, mas uma alteração no padrão do ritmo circadiano. Neste caso, a pessoa está em um ritmo onde o corpo quer descansar das 4 da manhã até às 5 da tarde. E aí, seu dia de praia foi-se.

Manter um horário regular para o sono e as refeições, praticar exercícios durante o dia (e não à noite, quando você aumenta a carga de adrenalina e prejudica o sono) e relaxar por alguns minutos antes de ir para a cama são táticas que ajudam o bom funcionamento do seu relógio biológico.

Agora sim, dê corda à vontade.



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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal a matéria Dr.Alessandro, comentava com minha cunhada psicóloga que:
Todo começo de ano qdo tiro alguns dias para ficar no interior de SP com a família tenho algum problema.
Ex.: gripe,tosse e rouquidão, febre e inflamação no ouvido. Observei que qdo saio da rotina sempre "essas coisinhas" entram em ação. E qdo estou em SP no meu dia a dia fico bem sem nenhum incomodo.
O jeito é continuar trabalhando...rs
Adorei ler antes de dormir.
Abraços.
Marta Felipe.

Maira disse...

Muito interessante essa matéria Sandro! Já havia percebido e nessas férias ando meio descontrolada,agora vou me corrigir.Obrigada pelas informações.