16 janeiro 2007

A CRIANÇA DESAFIADORA

© Dr. Alessandro Loiola


Não acredito que exista situação mais paradoxal nesta vida que os filhos, principalmente quando pequenos. Se você não se recorda, estas criaturinhas cheias de energia são aquelas que sugam todo e qualquer tempo livre do seu dia, preenchendo as horas de descanso com preocupações, e as horas de trabalho com mais trabalho.

Apesar de tudo, uma vez pousados em seu coração, você simplesmente não consegue conceber mais sua vida sem os pequenos por perto. Quer dizer, conceber, você concebe, para quase sempre concluir que seria uma existência muito mais tranqüila– e vazia.

Os filhos dão aquele tempero definitivo à vida. Mesmo que sejam os filhos dos seus irmãos. Ter crianças por perto e ser responsável por elas, pelo seu desenvolvimento, é uma das maiores lições que você poderá encontrar neste mundo. Esqueça os MBAs, os mestrados e doutorados: não existe nada mais difícil que criar pessoas equilibradas. É um processo complexo e não remunerado de gerenciamento de recursos humanos no longo prazo, sem direito a férias ou FGTS, e quase sempre conduzido por amadores sem treinamento adequado – até onde eu sei, para ser pai / mãe não são necessários diplomas ou licenças específicas.

Por isso mesmo, não me surpreendi quando Helena retornou ao consultório para uma avaliação de rotina. Estava utilizando remédios fortes para Hipertensão Arterial e, até poucos meses atrás, ia tudo muito bem, mas agora a pressão estava novamente descontrolada. Na raiz de tudo, descobri uma viagem para Portugal.

- Minha irmã foi tentar a vida lá, doutor. Eu quis ajudar e aceitei ficar com meus sobrinhos por um tempo, mas tenho 2 filhos e agora com os 4 dela, a situação em casa vai de mal a pior. Não estou conseguindo lidar com as pirraças.

Todas as crianças de Helena estavam abaixo dos 10 anos de idade – a mais velha contava com apenas 9 anos. E pelo seu relato, ela estava vivendo um motim infantil que os médicos chamam com todo garbo de Comportamento Desafiador Oposicional – ou CDO.

O CDO é definido como um padrão recorrente de comportamento desafiador, desobediente e hostil direcionado contra a autoridade (p.ex.: pais, cuidadores, professores, etc) por mais de 6 meses consecutivos. As crianças que apresentam CDO costumam se entediar facilmente, perdem o controle ao menor sinal de problema, discutem com adultos, se recusam a cumprir ordens simples e culpam terceiros pelos seus próprios erros. Em outras palavras: uma criança com CDO é a ferramenta de tortura perfeita para qualquer carrasco que se preze.
Os especialistas estimam que cerca de 10% das crianças apresentam um período de CDO ao longo da infância. Alguns sintomas da doença podem ser confundidos com manifestações do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, Distúrbios da Ansiedade e Depressão, daí a necessidade de uma avaliação especializada.

A instabilidade da família, incluindo estresse econômico, comportamentos punitivos, mudanças freqüentes e divórcio, podem contribuir para o surgimento do CDO. No caso da Helena, todos estes fatores combinados provocaram um verdadeiro incêndio no comportamento das crianças – e já estavam avançando sobre sua própria pressão arterial.
A interação de uma criança com temperamento difícil com pais de conduta rígida e punitiva, freqüentemente resulta em castigos que intensificam o comportamento desafiador. E a criança, ao ser castigada, termina agindo de modo ainda mais irritante, fechando um ciclo vicioso.

Por isso, para lidar com o CDO, tão importante quanto disciplinar a criança é treinar os pais: eles devem mudar seus próprios padrões de comportamento para lidar de modo construtivo com o problema – sob o risco de, ao tentarem controlar a situação por conta própria, apenas piorarem as coisas.

O primeiro passo é prestar atenção ao comportamento da criança. Faça festa para atitudes nobres e utilize punições rápidas porém eficazes para as crises de pirraça. É essencial guardar um período do dia para interagir de modo positivo com a criança, sem julgamentos ou castigos. As brincadeiras criam valiosos laços de confiança que você poderá utilizar mais tarde para implementar sua disciplina, sem necessidade de apelar para violência.

Se necessário, um Psicoterapeuta poderá fornecer orientações adicionais, ajudando a identificar atitudes da criança que podem ser utilizadas como ganchos para uma mudança em seu comportamento global. Este tipo de conduta afetuosa é capaz de resolver a maioria dos casos de CDO e, quanto mais cedo for aplicada, maior a chance de sucesso - e menor o risco de seqüelas comportamentais no longo prazo, para todos os envolvidos.


*por motivos éticos óbvios, o nome foi trocado.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

3 comentários:

Su disse...

Parabéns pela matéria!
Ainda bem que sou uma felizarda pelo comportamento dos meus.

Marta Felipe disse...

Que graça a sua matéria a maneira simples como vc usou as palavras abordando um tema que para algumas pessoas é uma verdadeira tortura.
Tenho uma facilidade muito grande de comunicar com as crianças e jovens tanto de minha familia qto as que conheço no decorrer da vida...

Parabéns Dr.Alessandro.
Abraços.

maira disse...

Parabéns pelo texto Sandro! Tenho uma dúvida quanto a idade desse tal de CDO. É para todas as idades?