27 dezembro 2006

HIPERTENSÃO ARTERIAL: ANTES TARDE QUE MAIS TARDE

© Dr. Alessandro Loiola


Falta pouco menos de uma semana para terminar o ano, e Seu Antônio chega para sua consulta de retorno, acompanhado da esposa, pacotes de exames e mais pacotes de remédios.

- Pois é, doutor, demorei mas olha nós aqui de volta!

Confiro a ficha. Demorou mesmo. A consulta em que pedi os tais exames foi há tantos meses que parece ter ocorrido um pouco antes do dilúvio bíblico. Mas bem, vá lá: pelo menos ele teve o bom senso de retornar.

Conversamos um pouco, anoto alguns dados mais importantes e pego os aparelhos para examiná-lo. Pressão Arterial: 210/130...

- Seu Antônio, e os remédios??

- Ah, doutor, vou tomando direitinho, do jeito que está na receita. Inclusive, não tenho sentido nada, uma beleza!

A esposa se ajeita na cadeira e ele treme.

- Fala a verdade, Antônio! – e antes que o Antônio possa esboçar a verdade, a esposa entrega o jogo – Ele tem medo de ficar dependente dos remédios, doutor. Então tem dia que toma um e não toma o outro, tem dia que toma o outro, mas rejeita o primeiro. E tem dia que não toma coisa alguma!

- Mas Conceição, você sabe que minha pressão normal é essa aí mesmo: 180/100, 190/100. Quando abaixa muito, me sinto mal...

A esposa dá um suspiro tão profundo que quase esgota o oxigênio no consultório. Penso em acompanhá-la, mas é melhor esclarecer que lamentar. Então vamos lá.

A Organização Mundial de Saúde define a Hipertensão como sendo uma pressão freqüentemente acima de 140 por 90. Se você é um Homo sapiens deste planeta, não tem como escapar dizendo que “sua” pressão normal não é esta. Uma pressão além destes limites cai na definição de Hipertensão Arterial, e pronto. Assuma o problema – antes que o problema suma com você.

A Hipertensão Arterial afeta uma de cada 5 pessoas no Brasil e, em mais de 95% dos casos, a causa não pode ser determinada. Isso faz com que o tratamento seja feito à base de medidas e remédios que apenas controlam, mas não curam o problema.

A Hipertensão é conhecida como um “assassino silencioso”: assim como seu Antonio, cuja pressão – de tão alta - ameaçava colidir a qualquer momento com a Estação Espacial Internacional, metade das pessoas hipertensas não sabe que sofre do problema. Não é raro ver pacientes chegando no consultório se queixando de dores de cabeça, dores musculares, inchaços nos tornozelos ou problemas no sono e, ao medir sua pressão, bingo!, lá está a Hipertensão como causa do mal estar.

Esta doença sorrateira abre as portas do seu corpo para outras doenças, tais como derrame, insuficiência cardíaca e infarto. Felizmente, as medidas para controle da Hipertensão Arterial são suficientes para diminuir ou até mesmo eliminar o risco para estas doenças. Por exemplo: manter a pressão dentro da faixa ideal reduz em mais de 20% sua chance de sofrer um ataque cardíaco.

Agora, vamos supor que você tenha recebido o diagnóstico de Hipertensão Arterial. Não é o fim do mundo, não. Você não terá que deixar de fazer as coisas que tanto gosta. Deverá apenas a aprender a cuidar melhor de si mesmo.

A primeira medida é saber que, mesmo fazendo o uso correto das medicações, sua pressão pode sair dos trilhos vez ou outra. Caso você comece a sentir dores de cabeça, tontura, zumbidos no ouvido ou fraqueza sem motivo, fique alerta. Pode ser a pressão arterial subindo novamente. Procure um lugar onde você possa medi-la com segurança.

É importantíssimo que você se mantenha o mais próximo possível do seu peso adequado. Se necessário, mude alguns hábitos alimentares. Mais da metade das pessoas hipertensas é capaz de normalizar a pressão arterial simplesmente perdendo o excesso de peso. Você pode saber se está mais ou menos em forma medindo a circunferência da sua cintura. Ela deve ser inferior a 102 cm nos homens e 88 cm nas mulheres.

Toda pessoa hipertensa deve passar por uma consulta médica de rotina a cada 4-6 meses, com um check-up completo a cada 12 meses. E jamais abandonar os remédios receitados pelo médico. Se você estiver apresentando sintomas que acredita serem decorrentes da medicação, comunique isso ao seu médico antes de interromper os remédios por conta própria.

Pratique uma atividade física regularmente. Os exercícios melhoram a saúde cardiopulmonar, ajudam a manter o peso e reduzem o ritmo cardíaco e a pressão arterial. Pessoas que praticam exercícios possuem menos da metade do risco de doença cardíaca em comparação às pessoas sedentárias.

E aproveite sempre seus momentos de lazer com as pessoas que você gosta, degustando a vida ao invés de carregar problemas para todo lado. O mundo está aos seus pés. Como sempre.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Um comentário:

Marta Felipe disse...

Olá Dr. Alessandro.
Gostei de ler a matéria,fez lembrar de minha mamãe passou por um problema serissimo mês passado e fez o cateterismo. Parece que depois desse susto vai entrar na linha.
Acho dificil ensinar um idoso como alimentar adequadamente depois de comerem errado a vida inteira. Já em casa oriento meu filho a ser saudável.
PUTZ!!!!!!!
Estou com a circunferencia um pouco acima...rsrs.
Abraços.
Marta