09 novembro 2007

DEPRESSÃO NO TRABALHO

© Alessandro Loiola




O trabalho é uma das grandes contradições da modernidade. Da invenção da roda ao surgimento do cérebro de Bill Gates, passando pela linha de montagem de Henry Ford e a caixa de cotonetes com mais conteúdo pelo mesmo preço, sempre ouvimos falar que os avanços tecnológicos iriam diminuir nossa carga de serviço, aumentando o tempo disponível para cultura, reflexão e atividades sexuais sem cunho reprodutivo. Infelizmente, não foi bem assim que a coisa toda aconteceu.

As conquistas da modernidade não trouxeram mais horas livres. Trouxerem, sim, novas formas de levar o trabalho para toda parte, com Internet, e-mails, celulares, PDAs, smart-phones... O trabalho passou a nos perseguir como um daqueles vira-latas de cidade de interior, correndo atrás da bicicleta dos correios. Mas, neste caso, a bicicleta somos nós. E o sujeito sentado sobre sua cabeça atende pelo nome de Senhor Ganância.

Um dos termômetros mais confiáveis para detectar que existe algo de errado no modo como a maioria das pessoas conduz a bicicleta de suas vidas é a altíssima incidência de depressão na população economicamente ativa. O problema afeta nada menos que 20% das pessoas que trabalham.

A falta de identificação com seu emprego pode resultar em alterações em certos neurotransmissores, principalmente serotonina, acetilcolina, dopamina, epinefrina e norepinefrina, aumentando a susceptibilidade para depressão.

Os principais sintomas de depressão incluem insatisfação com as atividades diárias, desânimo e dificuldade de concentração. Estudos recentes indicam ainda que a depressão pode influenciar o sistema imune, a coagulação sanguínea, a pressão arterial, a saúde dos vasos sanguíneos e o ritmo cardíaco, além de tornar maior o risco para alcoolismo, tabagismo e abuso de drogas.

O tratamento pode incluir medicamentos antidepressivos e psicoterapia. Contudo, se o principal fator desencadeante estiver no próprio trabalho, não vai adiantar ficar se entupindo de remédios. O que você tem de fazer é escolher uma entre duas saídas: mudar de vida (p.ex.: no próximo nascer do sol, vá para Arraial D’Ajuda e passe o resto do século vivendo às custas de brisa, artesanato e água de torneira), ou mudar o modo como encara a vida.

Eu prefiro a segunda alternativa. Afinal, a única pessoa que estará com você até o fim é você mesmo. Sem mudar sua natureza, não será possível viver plenamente onde quer que seja. Por isso, se você acredita que seu serviço está lhe causando depressão, recomendo que encare o próximo dia de trabalho com as seguintes recomendações:

- Está se sentindo sozinho, abandonado? Ninguém liga para você? Atrase um pagamento. Ou simplesmente sente-se e pareça muito confortável. Garanto que em menos de 2 minutos surgirá alguém para encher sua paciência.

- Jamais se isole voluntariamente dos outros: se não puder ajudar, atrapalhe. O importante é participar.

- Algumas pessoas desenvolvem depressão devido ao medo de tentar e errar. Não se preocupe tanto. Todos cometemos equívocos. Numa situação de erro, demonstre toda sua magnanimidade e sabedoria colocando a culpa em um colega.

- Os psiquiatras dizem que uma em cada 4 pessoas sofre de algum nível de deficiência mental. Se o clima no seu serviço estiver pesado, procure outros dois amigos mentalmente sadios e vá até a sala do seu chefe tirar uma dúvida qualquer. Como vocês 3 serão os normais, o papel de retardado estatístico sobrará para ele. Se possível, contenham o riso.

- Se nada disso funcionar, a saída pode ser aliviar a tensão através de uma boa atividade física. Recentemente, recebi um excelente relato de como isso funciona. Um conhecido, contratado por uma empresa altamente competitiva, foi chamado pelo gerente no primeiro dia no novo serviço. O chefe explicou:
- Atrás daquela divisória você irá encontrar um saco macio pendurado no teto. Toda vez que estiver se sentindo deprimido com o seu trabalho, arregace as mangas e alivie a tensão dando quantos socos e pontapés você quiser.
- E isso funciona?
- Ô, e como!
- Que legal! Posso ir qualquer dia?
- Sim, qualquer dia. Quer dizer, menos às quartas-feiras.
- Por quê?
- Porque nas quartas-feiras é o seu dia de ficar dentro do saco.



05 novembro 2007

ENTREVISTA NO JORNAL ESTADO DE MINAS - 04/11/07

Clínico geral e escritor Alessandro Loiola acaba de lançar seu terceiro livro, “Para além da juventude – guia para uma maturidade saudável”, pela Editora Leitura. A obra aborda temas como sexualidade, principais doenças e o processo de envelhecimento, entre outros assuntos.

ELLEN CRISTIE - Como surgiu a idéia de escrever este livro? E a quem se destina?ALESSSANDRO - A idéia surgiu como uma necessidade após uma vivência de mais de 10 anos em hospitais, consultórios e pronto-socorros. Vendo as pessoas se equivocarem repetidamente em decisões importantes para a própria saúde, percebi que era preciso fazer uma ponte entre os avanços do conhecimento científico e uma linguagem mais acessível para todos. Definida a essência do livro, é fácil perceber a quem ele se destina: a toda e qualquer pessoa que tenha intenção de se aventurar pelo processo de envelhecimento com lucidez e muita saúde.

ELLEN CRISTIE - Na obra, você fala que algumas pessoas têm idéias mirabolantes para prolongar a vida. A humanidade ainda acredita em fórmulas mágicas capazes de fazer milagres?ALESSANDRO - O desejo do Homem pela imortalidade é provavelmente mais antigo que a própria História. Desde os egípcios e suas múmias, a ânsia pela imortalidade sempre permeou nosso imaginário. E se não podemos nos tornar imortais neste mundo, então pelo menos vamos tentar garantir a qualidade de vida até a última batida do relógio biológico. Infelizmente, na busca pela Fonte da Juventude, alguns terminam se perdendo nas promessas fáceis da pseudociência. Você não precisa se esforçar muito para encontrar pessoas que fazem dietas absurdamente restritivas, ou sites na Internet que afirmam que bebendo sua própria urina você estará desintoxicando seu organismo. É uma pena, um tremendo desperdício de esforço. A fonte da juventude existe. Ela está escondida entre as suas orelhas e atende pelo nome de bom-senso.

ELLEN CRISTIE - Alguns trechos do livro incluem receitas caseiras, enfim, métodos naturais. Por que alguns médicos e pesquisadores têm tanta dificuldade em aceitar estudos que não envolvem a alopatia?
ALESSANDRO - Vivemos cercados de plásticos, colocamos sondas em outros planetas, desenvolvemos comprimidos sintéticos que matam superbactérias. Não é de surpreender que muitas pessoas dêem preferência por soluções mais tecnológicas para os seus problemas. Até mesmo problemas de saúde. Mas colocar a tecnologia acima da natureza é um erro. Não estamos acima da natureza. Somos parte dela. A resistência de alguns médicos e pesquisadores com relação a muitos tratamentos naturais é um reflexo de décadas de sucessos tecnológicos somadas ao apego a certos hábitos. A alopatia foi uma conseqüência do método científico e disseminou-se patrocinada por uma indústria multibilionária, a tal ponto que prescrever remédios parece ter virado sinônimo de ser médico. Tanto o médico quanto o paciente têm aquela sensação de dever cumprido quanto trocam receitas. Mas ser médico é algo um pouco mais amplo que conhecer nomes de caixinhas com comprimidos. É preciso retornar às raízes, se me permite o trocadilho. Precisamos reaprender a aproveitar o melhor destes dois mundos: tanto as ferramentas da tecnologia farmacêutica quanto os recursos que a natureza oferece gratuitamente são importantes para preservar sua saúde. Espero que o livro seja capaz de mostrar este caminho. Pelo menos para quem estiver disposto a enxergá-lo.

ELLEN CRISTIE - Quais devem ser as maiores preocupações para se ter uma vida saudável e chances de viver mais e melhor?

ALESSANDRO - Primeiro: informe-se. O conhecimento necessário para garantir uma vida longa e saudável já está aí, ao seu alcance. Tenha um interesse construtivo por sua própria saúde, mantendo a mente aberta porém sempre crítica. Segundo: mantenha hábitos saudáveis. Não fume, beba com moderação, pratique exercícios leves regularmente, mantenha um bom padrão de sono, alimente-se bem e tente ficar o mais próximo possível do seu peso ideal. Medidas simples como estas são capazes de operar milagres em sua vida. Por último porém não menos importante: encare a vida com satisfação. Ame sua família, curta seus amigos, aproveite cada segundo. Não paute seus dias pela busca incansável pelo sucesso: esse papo de vencer na vida é pura conversa. Quem é que vence de verdade na vida, se todo mundo morre no final? Que tipo de vitória é essa? A verdadeira vitória está em tornar-se uma pessoa melhor, em fazer o bem e colaborar para a felicidade do seu semelhante. Vivendo dessa maneira, certamente você terá uma vida longa e produtiva.

ELLEN CRISTIE - Com o advento dos estimulantes sexuais, por que ainda é tão difícil conversar sobre sexo com os idosos?ALESSANDRO - Há algum tempo, fui convidado para uma palestra em um encontro nacional da terceira idade. O tema: sexualidade na terceira idade. E vou lhe contar uma coisa: foi uma das palestras mais animadas e recompensadoras que já participei! Não é difícil conversar sobre sexo com os idosos, de modo algum. O problema é que, mesmo após toda a revolução nos hábitos e costumes de vida ocorrida ao longo do Século XX, ainda existe uma imagem generalizada de que pessoas na Terceira Idade não se interessam por sexo ou não possuem qualquer desejo sexual. A própria sociedade mantém uma idéia muito negativa sobre a sexualidade nesta faixa etária e não aceita bem atitudes de cunho sexual em indivíduos idosos. Se alguém com mais de 65 anos de idade insinuar possuir desejo sexual, logo aquela pessoa é rotulada com algum distúrbio de comportamento e orientada a procurar tratamento médico. Uma bobagem. A maioria dos adultos na Terceira Idade se interessa por sexo e muitos levam vidas sexualmente ativas. Pesquisas baseadas em entrevistas mostram que mais de 70% das mulheres e dos homens com idade superior a 60 anos se envolvem em alguma forma de relação sexual pelo menos uma vez por semana.

ELLEN CRISTIE - A curto e médio prazo, quais são os principais avanços que podemos antever com relação à medicina?
ALESSANDRO - Nas próximas décadas, os transplantes, as próteses biomecânicas e as pesquisas com nanotecnologia e células-tronco certamente oferecerão ganhos substanciais em termos de preservação da saúde e da qualidade de vida.

ELLEN CRISTIE - Há várias pesquisas que indicam que as mulheres são muito mais cuidadosas do que os homens quando o assunto é ir ao médico. Isso é um dos motivos que pode explicar a maior longevidade das mulheres?
ALESSANDRO - Certamente. Mas os homens não devem levar a culpa sozinhos: ela deve ser dividida com os órgãos e instituições públicas que cuidam da saúde. Existem inúmeras campanhas maciças de promoção da saúde feitas sob medida para o público feminino, como cuidados com a gestante, orientações contra osteoporose e campanhas de exames preventivos para câncer no colo do útero e nas mamas... O público masculino adulto não aparece ou aparece apenas timidamente nas políticas de saúde pública. No final das contas, a atitude cuidadosa com a saúde obedece a uma relação de causa-efeito: basta estimular por um certo tempo e de forma adequada um determinado grupo, e ele irá agir de modo correspondente.

ELLEN CRISTIE - Com que idade devemos começar a nos preocupar com a questão do envelhecimento e suas conseqüências? O que fazer?
ALESSANDRO - Começamos a envelhecer a partir do momento em que deixamos o útero materno, e o processo segue a uma velocidade constante de 60 minutos por hora, até o fim da vida. O envelhecimento é uma conta que iremos pagar no futuro, então quanto mais cedo você começar a tomar cuidado com as promissórias que anda assinando, melhor.

ELLEN CRISTIE - O câncer ainda é o maior terror da nossa sociedade. Por que?ALESSANDRO - Por medo e ignorância. Temos uma idéia generalizada de que um diagnóstico de câncer seja igual a uma sentença de morte. Não é bem assim: sua certidão de nascimento é igual a uma sentença de morte. O resto são conseqüências. A bem da verdade, estatísticas e pesquisas no mundo todo mostram que estamos vencendo lentamente a guerra contra o câncer: nas últimas duas décadas, a incidência de novos casos vem diminuindo 0,8% por ano, em grande parte graças às campanhas para redução do tabagismo e detecção precoce de novos casos da doença. O segredo para superar o terror do câncer se chama informação. Através da informação, você pode identificar os fatores que aumentam suas chances de desenvolver um tumor maligno e o que pode ser feito para diminuir os riscos. A informação também permite que você participe de um modo mais ativo na escolha dos tratamentos e compreenda como agir para diminuir seus efeitos colaterais.

27 outubro 2007

DONA MARIA ARTRITE E SEUS QUILINHOS INVENCÍVEIS

© Dr. Alessandro Loiola


Passei na enfermaria para dar alta a uma conhecida de longa data que havia sido internada por infecção nos rins. Apesar dos remédios terem funcionando muito bem e a infecção ter sido curada, Dona Maria se recusava a ir para casa.

- Mas como é que eu vou embora assim cheia de dores, doutor?
- Cheia de dores onde, Maria?
- Olhe meus joelhos como estão! E meus tornozelos! – e se esticou sentada e balançando na beirada da cama, alternando uma massagem leve sobre uma perna e então a outra.
- Dona Maria, há quanto tempo a senhora faz acompanhamento comigo?
- Ah, doutor, tem uns anos já, né?
- Tem uns anos realmente. E durante esses anos, qual sempre foi nossa maior briga? Ela ainda tentou desviar os olhos, mas como desviar os ouvidos?
- Maria, você tem o quê... 1,45m de altura... ou um pouco menos. E da última vez estava pesando mais de 80 Kg. Isso somado aos seus 60 anos de idade, só poderia resultar nessa artrite aí. A pergunta, Maria, é: o que você irá escolher? Perder peso e ficar com a perna, ou perder a perna e ficar com o peso?
- Ah, doutor, mas emagrecer é tão difícil... eu já tentei e não consegui. O senhor bem que poderia me dar pelo menos um remédio pra acabar com essas artrites de uma vez por todas...

Como não tenho especialização em Curandeirismo Milagroso, Dona Maria terminou mesmo indo embora com sua artrite parcialmente medicada, mas não resolvida. E sei que logo ela estará chegando no consultório reclamando novamente das pernas e dos quilinhos invencíveis. Afinal, em um mundo que se acostumou a tantos confortos, quase ninguém quer um pouco de esforço.

A Artrite afeta cerca de 1 em cada 5 pessoas por volta dos 60 anos. O problema é mais comum nas mãos, nos joelhos e no quadril, e os sintomas podem variar desde inchaço leve até dor intensa e incapacitante. No início da doença, a dor ocorre apenas durante o esforço, aliviando com o repouso. Contudo, com a evolução do distúrbio, a dor passa a ocorrer até mesmo durante o repouso.

O excesso de peso é um dos fatores de risco mais importantes para algumas formas de artrite. Os quilos a mais colocam um estresse extra sobre as articulações que sustentam o corpo, tais com joelhos e quadris. Pesquisas mostraram que mulheres obesas que emagreceram também experimentaram uma redução substancial no desenvolvimento de osteoartrite nos joelhos. Ainda, na presença de osteoartrite em um joelho, a redução de peso ajuda a diminuir a chance de ocorrência da doença no outro joelho.

Infelizmente, não existe um tratamento único que possa ser aplicado a todas as pessoas com artrite, mas algumas medidas simples parecem funcionar em boa parte dos casos:

- Aplicação de calor e gelo: a decisão de utilizar calor ou gelo depende do tipo de artrite e deve ser discutida com o médico. Compressas de calor no local afetado por cerca de 15 minutos aliviam a dor, mas não o inchaço. Por outro lado, compressas geladas reduzem tanto o inchaço quanto a dor, mas não devem ser utilizadas em pessoas com de problemas de circulação.

- Talas, tipóias, bengalas e andadores são úteis para aliviar a sobrecarga de peso sobre as articulações, mas não eliminam a necessidade de reduzir as gordurinhas em excesso.

- Quando aplicada adequadamente e por pessoa habilitada, uma boa massagem é capaz de aumentar o fluxo sanguíneo e relaxar a área afetada. O mesmo efeito analgésico pode ser obtido com acupuntura, natação, caminhadas e exercícios de alongamento.

- Alguns suplementos naturais, como cobre, zinco, condroitina, glucosamina, metionina, selênio, bromelina, alcaçuz, bardana e cinco-folhas, entre outros, são extremamente úteis para estimular a recuperação das articulações afetadas. Mas vale a lembrança: medicamentos naturais devem ser empregados sempre sob orientação especializada.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

25 outubro 2007

LIVRO E RESILIÊNCIA

Queridos amigos e amigas,

após meses de perseverança, pesquisa e muito trabalho, é com enorme prazer q comunico a vocês o lançamento do livro PARA ALÉM DA JUVENTUDE - GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL, através do site da Editora Leitura.

Mais informações sobre o livro podem ser obtidas através do meu álbum no orkut ou através do próprio site da Editora Leitura.

Acreditem: é uma alegria e uma honra ainda maior poder compartilhar este momento com vcs.

Deixo-os agora com a crônica de hoje, que fala justamente sobre como desenvolver a resistência frente às adversidades.

Um forte abraço,

Dr. Alessandro Loiola.

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DESENVOLVENDO A RESILIÊNCIA

© Dr. Alessandro Loiola


Toda vez que duas áreas da ciência conversam, nasce algo de novo e interessante. Foi assim quando a Engenharia encontrou a Medicina, e ambas produziram ferramentas diagnósticas de enorme utilidade como a ultra-sonografia e a tomografia computadorizada. Recentemente, a Psicologia dialogou com a Física e descobriu um conceito muito versátil: Resiliência.

Para entender o que é Resiliência, é preciso antes compreender os tempos em que vivemos. Segundo Woody Allen, “nunca antes na história da humanidade as pessoas se viram frente a tantas encruzilhadas: alguns caminhos levam ao desespero, outros à desesperança, e outros à extinção completa da raça humana. Vamos rezar para que a sabedoria nos permita fazer a escolha certa”.

Esta sabedoria se chama Resiliência. Na Física, Resiliência é a quantidade de energia que um material é capaz de receber antes de se deformar de maneira irreversível. Na Psicologia, Resiliência virou a capacidade de ter coragem para mudar o que pode ser mudado, serenidade para aceitar o que não podemos resolver, e inteligência para diferenciar uma situação da outra.

Os cientistas calculam que o desenvolvimento da Resiliência é capaz de reduzir em até 75% o risco de problemas cardíacos. Contudo, o maior obstáculo está na resposta instintiva de “luta ou fuga”: pessoas acostumadas a viverem no limite podem achar a idéia de Resiliência um sinal de fraqueza, resistindo (mesmo que inconscientemente) às medidas de controle do estresse.

Se você quiser vencer seu instinto e tornar-se um mestre na arte da Resiliência, basta seguir alguns passos simples. Anote aí:

IDENTIFIQUE A FONTE DE ESTRESSE

Anote em um diário tanto as experiências negativas quanto as positivas. Após uma ou duas semanas, você será capaz de identificar as 3 principais situações estressantes de sua vida. Veja o que pode ser feito para eliminá-las de sua agenda.

REESTRUTURE AS PRIORIDADES

Nem sempre é possível ou prático eliminar todas as situações estressantes. Nestes casos, a saída é aumentar o peso do lado positivo, priorizando as atividades que lhe dão prazer.

Pequenas decisões ao seu favor podem ser o bastante para construir uma existência menos estressante e muito mais produtiva: não abra mão dos seus finais de semana ou férias. Utilize suas horas de folga para planejar passeios (e faça-os !). Guarde alguns minutos todo dia para fazer absolutamente nada. Uma vez por semana, saia do cardápio e coma uma guloseima, etc.

AJUSTE SUA RESPOSTA

As pesquisas mostram que todos podem aprender a dosar o padrão de reação emocional ao estresse.

Por exemplo, no bar beira de praia, ao receber sua porção, não se exalte. Comente para o cozinheiro enquanto cospe para o lado: “rapaz, os caranguejos estão tão frescos que ainda dá pra sentir o gosto da areia neles!”.

UTILIZE TÉCNICAS DE RELAXAMENTO

Tudo bem, você ameaçou perder as estribeiras quando o cozinheiro lhe trouxe uma colher e disse sorrindo, apontando para a casquinha de siri: “é pro senhor comer os grãos mais sossegado”. Não quebre o quiosque todo ainda: tente algumas técnicas de relaxamento antes.

Respirar fundo aumenta a oxigenação do cérebro e reduz os batimentos cardíacos. Inspire e expire lenta e profundamente pelo nariz, enquanto conta até dez. Repita o exercício até que a imagem do cozinheiro sendo estrangulado desapareça de sua mente.

ACEITE AJUDA

Ter uma boa rede de amigos é essencial. Por exemplo: vai que o cozinheiro dá dois de você? Impossível estrangular o cabra sozinho, sob o risco de ser preparado por ele feito um Peroá bem na frente das crianças.

As pesquisas mostram que a maioria das pessoas Resilientes possui muitos amigos. Afinal de contas, se fosse para você resolver todos os problemas do mundo sozinho, para que haveria tanta gente espalhada por aí? Não tenha medo de pedir ajuda – a surpresa conta a seu favor.
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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

15 outubro 2007

EM TERRA DE CEGO

© Dr. Alessandro Loiola


Microempresário, 59 anos de idade, José Antônio chegou trazendo o pacote habitual de obesidade, hipertensão, diabetes e sedentarismo. Com um bônus óbvio: disfunção sexual.

Separado há alguns meses, arrumara uma menina nova, “um filé, doutor”, entretanto...

- Essa semana fomos a um motel e o senhor sabe como é... – disse o José, olhando firme para as próprias mãos cruzadas sobre a mesa, talvez esperando que eu dissesse “sim, eu sei”, mas eu lá sabia de coisa alguma? Não sou de ficar monitorizando pacientes em motéis, não.

– Então... ficamos naquele rala e rola e... nada. Quer dizer, na mente eu até queria e muito, mas o equipamento não correspondia às expectativas, entende?

Agora sim, entendia perfeitamente. E agradeci mais uma vez à natureza por tornar o “equipamento” masculino tão sensível a outras alterações da saúde. Porque, se não fosse o fantasma da impotência sexual, a maioria dos homens não passaria a menos de 60 Km do consultório médico mais próximo.

Após o exame clínico com direito até à furada no dedo para aferição da glicose, tentei explicar ao José que o problema não estava lá embaixo. O problema estava em todo canto.

- Zé, você está pelo menos uns 30 Kg acima do seu peso e sua glicose bateu em 220. Isso para não falar da pressão arterial de 210 por 130. A combinação destes ingredientes pode resultar em várias coisas, desde derrame até infarto fulminante. Felizmente, no seu caso, o sintoma de alarme foi um problema na ereção. Dos males, o menor.

- Mas eu peso isso desde novo, doutor, e nunca sofri com problemas de desempenho. Tudo bem, minha pressão sempre foi um pouco mais para alta mesmo, mas eu mantenho tudo sob controle só com dieta, há muito tempo.

Foi nesse ponto que eu tive que explicar melhor ao José a verdade crua que se esconde por trás do conceito abstrato de Tempo, e das conseqüências das escolhas que fazemos enquanto ele passeia pelo relógio.

Imagine o descaso com seu corpo como uma goteira pingando bem no meio da sala. Ao invés de consertar a bendita goteira, você decide tomar a mesma medida equivocada que 13 de cada 10 pessoas costumam tomar quando o assunto é a própria saúde: você coloca um copo para evitar que o pinga-pinga molhe seu precioso sofá de couro. Mas com o passar das horas, o copo irá encher. Não na primeira ou na segunda gota, mas eventualmente o caldo irá entornar. Acontece exatamente o mesmo com os abusos que você comete contra sua saúde.

O cigarro, os excessos alcoólicos, a gordura e até mesmo o rancor, o remorso e a ansiedade são todos goteiras, notas promissórias que você terá que pagar um dia. Para manter-se na crista da onda você deve evoluir, abrir mão do balde debaixo da goteira, diminuir suas dívidas futuras, evitar a filosofia do “deixar como está para ver como é que fica”. A cada nova década, o Tempo lhe entregará um novo corpo. Adapte-se a ele, aos seus limites, características e exigências.

Tome como exemplo o cérebro. Entre os 20 e os 65 anos de idade, perdemos cerca de 10 bilhões de neurônios. Felizmente, esta redução do número de células cerebrais é compensada pelo aumento no número de conexões que elas fazem entre si. Em outras palavras, a natureza compensa o encolhimento do cérebro com uma coisa chamada Aprendizado, que eventualmente deságua em Sabedoria.

Se você insiste em fazer vista grossa para as promissórias que continua assinando, abrindo mão do seu potencial de evolução em cada batida do relógio, então os anos estão passando em vão e você corre o risco de terminar como aquele marido, resmungando na frente do espelho:

- Estou me achando tão velho e acabado... Ei, você bem que podia dizer alguma coisa pra me alegrar, né?

E sua mulher lhe responderá sem tirar os olhos da novela na TV:

- Ora, sua visão continua ótima, querido!


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

30 setembro 2007

DOS ACELERÔMETROS À SERENDIPIDADE

© Dr. Alessandro Loiola


Não vendo nem represento empresas de eletroeletrônicos, mas sou obrigado a lhe perguntar: você sabe o que é Wii? (Se pronuncia como os franceses dizem sim: uí). Disfarçado de videogame, o Wii é o prenúncio de uma revolução camuflada de brincadeira.

Funciona assim: o controle sem fio do Wii possui sensores especiais chamados Acelerômetros que captam as ações do jogador em 3 dimensões (linear, vertical e de rotação), transferindo-as para o ambiente do jogo na TV. Para arremessar uma bola de boliche durante uma partida, por exemplo, você deve ficar de pé em frente à tela, que exibe uma pista e todos os respectivos pinos, e arremessar sua bola virtual fazendo os movimentos de uma partida de boliche real.

O mesmo princípio vale para jogos de golfe, duelos de espada e lutas de boxe. Em todos eles, você se movimenta de verdade, ao invés de apenas ficar esparramado no sofá apertando botões e ganhando tendinites. Mas o taco de golfe, a espada e a bola de boliche têm o peso de um pequeno controle remoto dotado de acelerômetros. Nada de força física. Apenas habilidade.

A tecnologia que desaguou no Wii não é nova. Desde a década de 1990, a indústria automobilística vinha utilizando acelerômetros para avaliar acidentes e desenvolver airbags mais eficazes. No cinema, técnicas similares são empregadas há vários anos para animar personagens virtuais - vide o extraordinário Tom Hanks digitalizado no filme O Expresso Polar.

Apesar dos jogos utilizando a tecnologia Wii terem sido lançados há cerca de 1 ano, o preço limitou sua popularização do lado de cá da Linha do Equador. Na banda de cima do Globo, contudo, a história é diferente e recentemente a tecnologia Wii começou a conquistar um público no mínimo curioso.

Jornais como o Dailly, um periódico produzido por estudantes da Universidade de Washington (EUA), e o prestigiado Chicago Tribune vêm dedicando páginas ao “fenômeno Wii” entre americanos com mais de 60 anos.

Não é difícil perceber o atrativo dos jogos Wii para a Terceira Idade. Eles reúnem - em um só pacote - entretenimento de fácil aprendizagem, sociabilização em um ambiente alegre e dinâmico, e possibilidade de movimentação ativa sem sobrecarga de peso. Em outras palavras: um prato cheio para festas animadíssimas! Precisa mais? Sim, precisa: o Wii aguarda ansiosamente a chegada da Serendipidade.

O termo Serendipidade é aplicado para designar descobertas acidentais feitas graças à criatividade de pessoas extraordinárias. Por exemplo: a descoberta da penicilina em 1928, pelo bacteriologista Alexander Fleming, ocorreu pela observação cuidadosa de um acidente de laboratório. Outros exemplos de Serendipidade incluem as vacinas, a pílula anticoncepcional, o cateterismo cardíaco e o famoso Viagra.

O Wii é um terreno fértil para a Serendipidade. Ele pode ter começado seus dias com octogenários lutando boxe no meio da sala e netos entusiasmados gritando “vai vovó, dá um direto de esquerda nele!”, mas podemos ir além. Muito além.

Pense em cadeiras de rodas Wii e computadores acionados com discretos meneios de cabeça. Casas Wii onde os moradores regulam desde o canal da televisão à altura do fogo no forno e a temperatura da água no chuveiro com um controle remoto universal capaz de compreender movimentos simples desenhados no ar. Tente imaginar o impacto destes avanços na vida de pessoas portadoras de deficiências.

Hoje, artríticos e cardíacos podem disputar campeonatos de golfe através de consoles Wii, exercitando sem acúmulo de esforço, liberando endorfinas e melhorando sua qualidade de vida. Logo os acelerômetros estarão estimulando obesos sedentários a andar, correr e dançar, reduzindo seu risco cardiovascular. Jogos Wii poderão tornar a reabilitação menos penosa para vítimas de derrame ou acidentes, ou pessoas submetidas a cirurgias articulares, potencializando a recuperação. As aplicações desta tecnologia em saúde tendem ao infinito.

Dizem que o futuro costuma chegar sem aviso. Prefiro acreditar que, algumas vezes, ele manda sim seus sinais. Até mesmo na imagem de um grupo de velhinhos rindo e se divertindo pra valer em uma inocente partida de boliche virtual.
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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

3a semana de Biomedicina - Faculdade Pio XII / ES

Clique sobre a imagem para ver o pôster ampliado.


12 setembro 2007

A ERA DE UM MINUTO

© Dr. Alessandro Loiola


Antibióticos que matam infecções até na casa do seu vizinho, células-tronco que curam o incurável, cirurgias complexas feitas com incisões mínimas. Os avanços médicos seguem em uma progressão alucinante, como se a fonte da juventude estivesse na próxima esquina. E a próxima esquina nunca pareceu estar tão próxima.

Durante uma dessas avalanches de notícias científicas, me dei conta de algo incômodo. Percebi que, para além da Era dos Milagres da Biotecnologia, estamos correndo a toda velocidade na Era de 1 Minuto. Este padrão de conduta – quase uma seita - vem se impregnando profundamente em nosso comportamento.

Por exemplo: sabe o que faz com que os chefes troquem os funcionários que ainda não se adaptaram por funcionários novos que não se adaptaram ainda? Exatamente, ela, a Era de 1 Minuto. A essência está na rapidez: o sujeito deve vir acabado, sem bordas ou arestas, prontinho para ser colocado na engrenagem.

A Era de 1 Minuto também vem estendendo seus tentáculos na vida conjugal. Os casamentos parecem durar menos que a Lua de Mel. Você mal se encontrou nas fotos da festa – “puxa, olha como eu estava mais magro!” - e eles já estão terminando tudo porque ela ronca ou faz barulho quando mastiga, ou ele não corta as unhas do pé ou conversa apontando com o garfo durante as refeições.

Inebriados pela filosofia desta nova Era, os jovens casais querem encontrar no outro uma sandália que não desgasta, não tem cheiro e não solta as tiras. E, de preferência, que esteja (sempre) à disposição para uma massagem relaxante no final do dia. Se não for assim, bom, paciência. A fila anda. Que venha o próximo pretendente a cônjuge-minuto.

A Medicina não poderia passar impune. Na verdade, ela está repleta de queixas e sindicâncias contra médicos que não resolveram o problema do paciente utilizando as fantásticas técnicas da Era de 1 Minuto. Para quem olha de fora, médico bom é o que resolve rápido – nem que seja com altas doses de Charlatanicina associada a Embromanol. Para quem olha de dentro, a impressão que fica é de que a relação médico-paciente está fugindo da construção de um compromisso no longo prazo e se aproximando de um prato instantâneo de Miojo. Sem molho.

As pessoas passam anos empurrando a hipertensão arterial com a barriga empanzinada de sedentarismo, acham que sobrepeso é sinal de prosperidade e acreditam piamente que diabetes é aquela doença que só dá nos outros. Um belo dia, ao receberem uma receita com a conta dos anos de maus tratos ao próprio corpo, a ficha cai. “Toca aí para o consultório rápido, seu motorista, que eu tenho que resolver isso hoje sem falta !”.

O sempre genial Millôr Fernandes uma vez escreveu que o defunto é o produto final da humanidade. Nós, vivos, somos apenas a matéria-prima. Moral da história à parte, é verdade que passamos décadas nos preocupado demais com coisas que jamais acontecerão, e deixamos de prestar a devida atenção às sementes que plantamos no caminho. No derradeiro instante em que tomamos consciência, queremos tudo resolvido de imediato. Pois bem: esqueça as saídas mágicas no último minuto. Ninguém virá lhe resgatar milagrosamente de suas próprias escolhas. Acredite ou não, a isso se chama responsabilidade.

Cuide-se, seja vigilante com sua saúde, ame intensamente sua família, viva sem preguiça, mas também sem pressa de viver. E fuja das promessas da Era de 1 Minuto. Mesmo quando concretizadas, elas não duram muito mais que isso.

A ânsia dos habitantes do mundo moderno, que querem ver todos os seus problemas – desde os financeiros até os de saúde – resolvidos num piscar de olhos, me lembrou uma pequena parábola Oriental. Uma certa tarde, o jovem discípulo foi acometido de uma intensa infecção intestinal e correu ao único banheiro do mosteiro, mas encontrou-o ocupado pelo seu Mestre. Muito respeitoso e segurando a duras penas seus esfíncteres, o discípulo perguntou apressado:
- Mestre, quanto tempo é 1 minuto?
O mestre pensou, pensou, e respondeu lá do trono com toda paciência:
- Meu filho, 1 minuto pode ser a eternidade.
- E o que é a eternidade, mestre?
- Você saberá em 1 minuto...

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

DUAS COLHERES DE SORRISO, VÁRIAS VEZES AO DIA

© Dr. Alessandro Loiola


O médico Thomas Sydenham disse, lá pelo Século XVII, que a chegada de um bom palhaço causa mais influências benéficas à saúde de uma cidade que vinte carroças cheias de medicamentos. O célebre Voltaire tinha idéias semelhantes quando afirmou que a arte da medicina consiste em manter o paciente alegre e sorrindo enquanto a natureza faz a sua parte.

A ciência está começando a confirmar que rir faz um bem danado à saúde. Rindo perante os desafios, você sai do medo paralisante e enxerga mais claramente todas as suas alternativas. Durante o riso, o cérebro libera neurotransmissores que aumentam o nível de alerta, a capacidade de concentração e diminuem a sensibilidade à dor.

Uma boa risada estimula os músculos da face, do abdome e o diafragma. Dependendo da sua animação, a sacudida pode chegar aos músculos dos braços e das pernas. Rir também ajuda no controle da pressão arterial, protege o coração, aumenta a oxigenação do sangue e estimula células estratégicas no sistema de defesa, chamadas Natural Killers, responsáveis pelo combate às células cancerosas. Os cientistas descobriram que assistir vídeos de comédia eleva os níveis de anticorpos na saliva, aumentando a proteção contra infecções como resfriados.

Os bebês começam a rir por volta da 10ª semana de vida. Com 4 meses, eles riem uma vez a cada 1 hora, em média. Aos 4 anos, rimos uma vez a cada 4 minutos – ou 360 vezes por dia. Infelizmente, quando atingimos a idade adulta, passamos a rir menos de 15 vezes por dia. Parte disso é influência da cultura, que estimula o comportamento sóbrio, mas parte é nossa culpa. É preciso mudar. Afinal de contas, risadas não são um remédio difícil de engolir.

Para melhorar seu humor, recomendo incluir as seguintes recomendações no seu dia a dia:

1) Exagere na projeção dos seus anseios. Isso ajuda a ter uma idéia exata do tamanho das nossas tolices. Por exemplo: o vendedor lhe convenceu que, sem aquela maravilhosa TV de plasma de 500 polegadas, sua vida não tem mais propósito algum. Isso apesar do preço da TV ser maior que a venda dos seus dois rins. O que fazer? Saia e dê uma passada na seção de piadas da livraria mais próxima. Folheie alguns exemplares por alguns minutos e então retorne à loja, mais calmo. Procure o vendedor e pergunte: “Você aceitaria uma córnea de entrada e o fígado em suaves parcelas?”

2) Treine seus sentidos para perceber o humor escondido nos lugares mais inesperados: nas coisas que as crianças dizem e escrevem, nas situações constrangedoras que você irá se envolver durante o dia, naquela piada que seu chefe está contando pela quarta vez esta semana, etc.

3) Piadas. Ao ouvir uma boa piada, escreva-a em um pedaço de papel e guarde consigo. Conte-a para cinco pessoas assim que puder. Se forem 5 pessoas que não ouviram a piada junto com você da primeira vez, melhor. E ria bastante das piadas dos seus amigos. Eles se sentirão melhor e você parecerá mais simpático, facilitando quando for pedir dinheiro emprestado.

4) Interaja ! No banheiro, depois de certificar que as visitas e aquele seu parente metido à psiquiatra não estão por perto, posicione-se na frente do espelho e faça caretas pra você mesmo. Com o mesmo cuidado para não ser confundido com um fugitivo do manicômio mais próximo, converse e ria com estranhos no elevador, no ponto de ônibus, na fila da padaria. Brinque com as crianças feito uma criança.

5) Tenha um animal de estimação e divirta-se com ele. Não, trazer sua sogra para dentro de casa e ensiná-la a buscar o jornal na portaria não é um começo, mas mostra que você está perto de entender o conceito.

6) Uma vez, eu disse a um paciente: o senhor continua sentindo suores, aceleração dos batimentos cardíacos ou fadiga durante a noite? “Só quando dou sorte com a patroa, doutor” – ele respondeu. Moral da história: não economize esforços na sua busca pelo lado cômico da vida. Perdeu contato com aquele seu amigo engraçado? Procure no catálogo telefônico, na Internet, freqüente sessões espíritas, se preciso.

7) A morte faz parte da existência desde o surgimento do primeiro ser vivo. Mas você não morreu ainda, certo? Então aproveite!

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

01 setembro 2007

CONDILOMATOSE

© Dr. Alessandro Loiola


Eu já estava queimando os últimos neurônios tentando entender porque aquele sujeito havia marcado uma consulta - afinal, ele negava tudo quanto era sintoma e parecia desfrutar do mais perfeito estado de saúde. Passaram-se vários e vários minutos até que ele criasse coragem, soltando o verbo: estava com “verrugas genitais”. Ah, agora a enrolação fazia sentido.

Um exame rápido e percebi que ele não estava com uma verruga qualquer, mas com uma condilomatose tipo figura de livro, pra estudante de medicina nenhum deixar de fazer o diagnóstico.

A condilomatose é uma doença causada pelo Papiloma Vírus Humano, ou HPV, e se caracteriza por pequenas verrugas indolores na região genital e perianal. Coceira ou irritação local raramente ocorrem, mas em pessoas com alterações no sistema de defesa, a condilomatose pode crescer rapidamente e envolver áreas extensas.

O HPV é altamente contagioso. Aproximadamente 2/3 das pessoas com relato de contato íntimo com alguém infectado pelo HPV desenvolvem condilomatose nos 3 meses seguintes, resultando em milhões de novos casos a cada ano.

As mulheres sexualmente ativas com idade inferior a 25 anos apresentam os maiores índices de infecção pelo HPV, mas o problema também pode acometer crianças e até bebês, devido à exposição durante o parto. Entretanto, a presença de verrugas genitais em uma criança deve levantar sempre a possibilidade de abuso sexual infantil.

Existem vários tratamentos para a Condilomatose e nenhum é considerado superior ao outro. A estratégia é eliminar o máximo de lesões visíveis, até que o sistema imune seja capaz de eliminar definitivamente o vírus (a maioria dos casos de Condilomatose regride espontaneamente após um certo tempo).

A escolha por um ou outro tratamento dependerá da experiência pessoal do médico, do estágio da doença, do comportamento sexual da pessoa e do estado do seu sistema de defesa, entre outros fatores. Em todos os casos, é recomendável fazer uma reavaliação após 3 e 6 meses de tratamento para detectar e tratar precocemente possíveis recidivas.

A principal medida para evitar o HPV continua sendo a prática sexual segura, utilizando corretamente preservativos e evitando a promiscuidade. Em 2006, foi disponibilizada uma vacina que protege contra os principais tipos de HPV, mas o esquema não oferece proteção para quem já se encontra infectado pelo vírus.

Felizmente, apesar de extensa, a doença do nosso amigo do começo da crônica respondeu bem ao tratamento e ele escapou por pouco de repetir a história de um outro que, também acometido por uma baita condilomatose, recebeu a sentença do velho médico generalista em sua cidade natal:

- Infelizmente, nesse estágio não tem mais cura. Vamos ter que cortar!
Sem acreditar, o homem foi em busca de um profissional mais jovem na cidade vizinha, mas o diagnóstico foi o mesmo. Deprimido, decidiu consultar um renomado (e caríssimo) especialista na cidade grande. Depois da consulta paga e algumas horas na sala de espera, o figurão recebe o paciente e olha bem pro rapaz, e olha pro equipamento, e diz tirando as luvas:
- A boa notícia é que você não vai precisar cortar coisa alguma fora.
O sujeito nem acredita: seu pesadelo acabou!- Então existe um tratamento para isso, doutor?
- Não, não. Mas não precisa cortar. Vai cair sozinho.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

25 agosto 2007

DOUTOR CONSULFONE

© Dr. Alessandro Loiola


É possível que um dos casamentos mais antigos entre a Medicina e a tecnologia de comunicação tenha sido o Consulfone, aquela consultinha rápida que algumas pessoas adoram fazer pelo telefone.

- Desculpa te importunar com isso, mas fiquei preocupado e... – segue um imbróglio de sinais e sintomas que cobre desde a primeira lembrança da tenra infância do sujeito até sua lista de compras na feira do dia.

Em alguns casos, o Consulfone resulta em orientações úteis, mas nem sempre é assim. Algumas edições são verdadeiros testes mediúnicos:

- É minha avó, doutor, ela tá com uma queimação atrás da orelha, o que acha que pode ser?

Como assim, o que eu acho que pode ser ? Uma queimação atrás da orelha??

– Olha, tantos anos depois da faculdade, nem lembro mais onde deixei meu jogo de búzios baianos legítimos... Pode aguardar um minutinho?

Outros ligam para dar um nó no cérebro da gente. Entre o caminho de um hospital a outro, toca o celular. Encosto o carro, atendo e paro para ouvir:

- Ontem assisti uma reportagem sobre câncer e, como tenho sentido um comichão no dedo médio do pé esquerdo, pensei em ligar e perguntar: o que você acha da fitoterapia para queda de cabelos?

Pronto. Vou levar uns 10 minutos até lembrar como engato a primeira marcha. E mais uns 20 até descobrir que rua é essa mesmo...?

O Consulfone mais recente foi de alguém da família querendo tirar dúvidas sobre Cistite. Mulher, meia idade, com mais uma crise de inflamação na bexiga.

- Quero saber porque vivo tendo isso, você pode me explicar?

Como senti que ela estava a um passo de retornar ao médico que a havia consultado para parti-lo ao meio com a caixa de antibióticos, enveredei pela ciência.

As infecções urinárias baixas, particularmente as Cistites, são bastante comuns em mulheres. Cerca de 20% delas sofrerão pelo menos 1 episódio ao longo da vida. Ainda não se sabe ao certo o porquê da preferência das Cistites pelo sexo feminino, mas existem fortes suspeitos. Por exemplo, o canal de saída da urina (a uretra) é duas vezes mais longo nos homens e seu orifício de abertura, mais amplo nas mulheres, facilitando a contaminação da urina por bactérias - e o maior número de Cistites - entre Elas.

As características da uretra feminina também facilitam a contaminação da urina após o intercurso sexual. Este tipo de infecção é tão comum que possui até um apelido: Cistite da Lua de Mel.

Dor ao urinar, mudança na cor e no odor típico da urina são as principais manifestações da Cistite. O diagnóstico pode ser feito através de um exame de urina de rotina. Contudo, qualquer pessoa com relato de mais de duas infecções urinárias em 6 meses ou mais de 3 infecções em 1 ano deve realizar exames especializados para avaliar fatores predisponentes, tais como doenças sexualmente transmissíveis, pedras nos rins ou má-formação nas vias urinárias.

Em homens, a cistite pode significar ainda a presença de obstrução na via de saída da urina, sendo necessário avaliar a possibilidade de alterações na próstata.

A Cistite deve ser tratada com analgésicos, antibióticos específicos e orientações sobre higiene: urinar imediatamente após o ato sexual ajuda a eliminar bactérias que possam ter alcançado a bexiga, diminuindo o risco de cistite. O suco de Cranberry, um tipo de uva muito comum na América do Norte, também provou ser um recurso natural eficaz para reduzir a incidência de Cistite.

- Enfim, converse calmamente com seu médico – disse, terminando o Consulfone familiar convencido de que este recurso pode ser reconfortante para alguns, mas jamais irá substituir o bom e velho exame clínico realizado ao vivo e em cores.

O paciente de um colega médico, que parecia compreender a importância disso e do quão desconfortável é ficar realizando Consulfones à distância, ligou para ele bem no meio da madrugada:
- Alô...
- Doutor, quanto o senhor cobra por uma consulta aqui em casa?
- Hein? Hum... Duzentos reais.
- E por uma consulta no seu consultório?
- Cem reais.
- Tá bem. – o sujeito fez uma rápida pausa e completou, muito solícito – A gente se encontra daqui a 15 minutos lá no seu consultório.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

14 agosto 2007

NADA MENOS QUE MAIS UMA GOTA

© Dr. Alessandro Loiola


Ele entrou no consultório andando torto como deve andar um Curupira. Os pés não estavam para trás, mas precisei dar uma boa olhada para confirmar isso.
- É doutor, dessa vez a pelada me pegou de jeito. O pé direito tá me matando – foi tirando o sapato com aquela cara de sofrimento digna de um Oscar.
- Pisaram em cima? Caiu, torceu...?
- Nada, nada. Joguei bola ontem, tudo certo. Beliscamos uns petiscos, tomamos umas depois, fui para casa em paz e acordei com esse despertador aí latejando – apontou para o dedão vermelho e inchado.

Nenhum sinal de deslocamento, radiografia sem fratura. Passei os remédios de praxe e pedi alguns exames. No dia seguinte ele voltou, menos Curupira que no dia anterior. Entregou os resultados e sentou feito um menino enquanto o pai checa o boletim do semestre.
- Rapaz, sabe aquele bife suculento do almoço?
- Sim.
- Pois ele estava cheio de Purinas.
- Purinoquê?
- Purinas. São substâncias presentes nos alimentos, especialmente carnes. A digestão das purinas resulta na produção de ácido úrico. Normalmente, o corpo é capaz de eliminar o excesso de ácido úrico, mantendo a concentração sangüínea abaixo de 7 miligramas por decilitro.
- Certo.
- Em algumas circunstâncias, o organismo produz uma quantidade muito grande ou perde a capacidade de eliminar o ácido úrico produzido em excesso. Como quando a gente como carnes em excesso, desidrata ou toma umas cervejas além da conta.
- Humm... – ele murmurou. Nada como um bom sentimento de culpa para despertar o compromisso com a própria saúde.
- Na temperatura corporal e em concentrações acima de 7, o ácido úrico se transforma em cristais que se depositam nas articulações, causando dor e inflamação intensa. Essa situação é conhecida como Gota. Você está com Gota.
- Afmaria, meu avô morreu disso!
- É, mas hoje em dia ninguém morre por causa de Gota. Apenas você terá que tomar alguns remédios e cuidados. Na verdade, mais cuidados que remédios.

Ainda assim, o medo dele até que procedia. Nos idos de 1900 e antigamente, toda pessoa portadora de Gota evoluía com dores articulares crônicas e incapacitantes. Após décadas de pesquisa, a Gota deixou de representar uma grande ameaça à saúde, mas continua sendo uma doença com risco de complicações sérias, podendo levar à deformidades, hipertensão arterial, diabetes e problemas renais graves.

Os principais fatores de risco para Gota incluem cigarro, obesidade e consumo excessivo de bebidas alcoólicas. No caso do nosso paciente, ele preenchia todos os critérios de risco, com louvor.

A dor em uma articulação é a manifestação mais comum: cerca de 90% dos pacientes apresentam inflamação aguda em uma única articulação, em geral nos membros inferiores. O dedão é o local mais comum da primeira crise. O diagnóstico é feito através do exame médico e de alguns testes complementares.

Toda pessoa que já sofreu um ataque de Gota deve fazer um tratamento específico para reduzir os níveis de ácido úrico no sangue. Além de prevenir novas crises, o tratamento também diminui o risco de destruição das articulações. A alimentação correta é essencial nesse sentido: uma dieta adequada é capaz de reduzir 1-2 pontos totais nos níveis sangüíneos de ácido úrico. Apesar de parecer insignificante, essa redução pode ser a diferença entre uma vida normal ou dores permanentes.

Quem tem Gota deve evitar carnes, miúdos, peixes, frutos do mar, aves e bebidas alcoólicas de todos os tipos. Os líquidos devem ser ingeridos à vontade, para que a urina esteja sempre clara. Entretanto, o álcool – especialmente a cerveja - deve ser evitado, pois pode precipitar ataques dolorosos.

Leite, chá, café, chocolate, queijos magros, ovos cozidos, manteiga e margarina, pão, macarrão, fubá, mandioca, arroz branco, milho, vegetais, doces e frutas não causam crises.

Finalmente, alguns alimentos naturais, como Abacaxi, Alho, Arnica, Arruda, Camomila, Couve, Inhame, Limão, Mirtilo, Tomilho e Zedoária, podem auxiliar a reduzir os sintomas, mas não devem ser utilizados indiscriminadamente sem recomendação profissional especializada.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

07 agosto 2007

REVISITANDO A LINGUAGEM CORPORAL


Pesquisas realizadas nas últimas décadas mostraram que, quando você está falando, apenas 7% da mensagem está sendo transmitida para os outros através das palavras. Outros 38% estão relacionados à entonação do que é dito.

Um bom exemplo da importância da entonação está no treinamento de cães de guarda: eles não interpretam a gramática das frases, mas o seu tom de voz. Um comando de conteúdo imperativo, emitido em um timbre de voz baixou ou trêmulo, transparece insegurança e dificilmente será obedecido. Porém, se emitido em tom mais alto e firme, transmite o sentimento adequado de liderança e resulta na ação esperada. O mesmo principio pode ser aplicado às crianças em casa e em salas de aula cheias de adolescentes.


Bom, mas 7% de um, somados a 38% de outro, são iguais a 45%. Onde se meteram os outros 55% do que você queria dizer? Fácil: eles estão espalhados pelo seu corpo todo. É a famigerada Linguagem Corporal.

A Linguagem Corporal é um instrumento de comunicação tão antigo e bem sucedido que se incrustou em nossos genes: crianças que nasceram cegas sorriem, ainda que elas jamais tenham visto um sorriso para reconhecer seu significado. Somos todos geneticamente programados para emitir e interpretar esta comunicação silenciosa. E dominar seus sinais pode fazer toda a diferença.

As estatísticas mostram que pessoas que sabem como controlar voluntariamente o tom de voz e a linguagem corporal são consideradas mais atraentes que aquelas que deixam tudo por conta do instinto. Isso ocorre porque a primeira impressão que os outros fazem de você não começa no momento em que você começa a falar. Esta impressão começou a ser construída muito antes, a partir da sua postura, padrão respiratório, aparência e movimentos.

Não existe um conselho universal sobre como utilizar a linguagem corporal, mas algumas recomendações básicas devem ser conhecidas. Procure estar sempre ciente do que seu corpo está dizendo enquanto você se senta, anda, permanece em pé ou gesticula.

Uma boa dica é vencer a timidez e praticar um pouco na frente do espelho. Eu sei, parece tolice, mas quem estará olhando afinal de contas? O espelho lhe dará uma boa idéia de como analisar a linguagem corporal dos outros e o que seu corpo pode estar dizendo enquanto você permanece em silêncio.

Observe seus amigos, artistas, políticos, e qualquer pessoa que você considere possuir uma boa linguagem corporal. Estude como estas pessoas agem e copie um ou outro padrão de linguagem. É provável que você exagere no começo e pareça artificial, mas a prática leva à perfeição – se você não começar um dia, então quando?

Para facilitar seu treinamento, eu selecionei algumas situações rotineiras onde você pode empregar o conhecimento da Linguagem Corporal a seu favor. Veja só:


INSPIRANDO CONFIANÇA

Para transmitir uma imagem de confiança (p.ex.: durante uma reunião de trabalho), mantenha braços e pernas descruzados, e relaxe os ombros. Se estiver sentado, procure uma posição relaxada e confortável, mas não escorregue pela cadeira até o fundo da mesa.

Nada de ficar contemplando o chão ou a tampa da sua esferográfica: faça contato visual com as pessoas. Olhe seus interlocutores nos olhos. Se possível, vire um pouco seu corpo, incline-se na direção da pessoa e balance a cabeça discretamente, de modo afirmativo. Isso irá mostrar que você está prestando total atenção ao que está sendo dito. Quando for sua vez de falar, seja firme porém mantenha a calma.

E cuidado com alguns sinais que podem detonar sua imagem. Tocar seu rosto significa irritabilidade, nervosismo ou indecisão. Dedos tamborilando denotam distração, falta de sintonia com o grupo ou com as idéias outro. Braços cruzados sobre o peito podem indicar defesa, tédio ou reprovação.


DETECTANDO MENTIRAS

Obviamente, o simples fato de alguém exibir alguns dos comportamentos descritos a seguir não significa que está mentido descaradamente. Estes padrões devem ser comparados com o jeito de ser da pessoa e jamais considerados de modo isolado. Certo até aqui? Então vamos lá:

De um modo geral, o primeiro sinal emitido pelo mentiroso é a falta de contato visual – nada de “olhos nos olhos”. Se você observar melhor, verá que antes de responder às suas perguntas, o mentiroso desvia o olhar para a sua esquerda. Isso significa o uso de áreas do cérebro envolvidas com imaginação – ele está “criando” uma lembrança, ao invés de relatar o que realmente aconteceu e está guardado em sua memória. O olhar desviado para a sua direita significa a ativação de áreas cerebrais responsáveis pela memória, e tende a significar que ele está relatando uma lembrança verídica.

Ao contar uma mentira, movimentamos pouco os braços e pernas. Os movimentos são pouco expansivos, evitando chamar ainda mais a atenção. Toques sutis no nariz e na região atrás das orelhas são comuns, assim como colocar inconscientemente objetos (p.ex.: um livro, uma xícara de café) entre você e a outra pessoa.

Os mentirosos costumam repetir o que você disse quando respondem algo. Por exemplo, ao perguntar ao seu filho “você já fez o dever de casa?”, ao mentir ele tende a responder “Já, mãe, eu já fiz o dever de casa”. Uma resposta mais honesta consistiria em um simples “Já”.

Finalmente, pessoas culpadas costumam agir na defensiva, enquanto que os inocentes quase sempre assumem um comportamento agressivo quando acusados. Um modo prático de verificar este comportamento consiste em mudar repentinamente de assunto. O mentiroso irá seguir a mudança, agradecido e relaxado por se ver livre a saia justa. O inocente acusado insistirá no tópico anterior, buscando esclarecer e mostrar sua ausência de culpa.


FLERTANDO

Na arte da conquista, a linguagem corporal pesa mais que as palavras. Quando gostamos de algo que estamos vendo, nossas pupilas se dilatam e piscamos os olhos mais que o habitual. Mas existem outros sinais típicos e de fácil detecção.

Quando estão flertando, os homens tendem a posicionar as mãos sobre a fivela do cinto ou pendurada com os polegares nos bolsos da frente (é a “postura de moldura”, chamando atenção para a região genital). Eles também se esticam, espreguiçam, respiram profundamente e tencionam os músculos – tudo para parecerem maiores e mais fortes do que realmente são.

As mulheres emitem sinais semelhantes: para assumir um flerte, elas mexem nos cabelos, jogando-os de um lado para o outro e expondo o pescoço. Outro gesto bastante utilizado é a posição de pernas cruzadas com uma mão sobre a coxa. Esta atitude dá às pernas uma aparência torneada e é considerada uma indicação clara de interesse.

Alguns sinais funcionam para ambos os sexos. Por exemplo, a Triangulação do olhar. Primeiro, fazemos contato visual com um dos olhos da pessoa que temos interesse, então com o outro olho, e em seguida observamos sua boca enquanto fala. A alternância do olhar entre estes 3 pontos denota admiração e interesse sexual.

A Imagem em Espelho é outro padrão freqüente. Duas pessoas em sintonia costumam manter seus corpos em posições semelhantes enquanto conversam. Se você deseja despertar interesse em alguém, este é um recurso bastante útil, podendo ser utilizado em quase todas as situações. Espelhar o posicionamento do corpo do outro durante um bate-papo cria um sentimento instantâneo de empatia, passando a mensagem de que você compreende e respeita o ponto de vista daquela pessoa.

Se você está em uma festa ou reunião informal e se aproximou de alguém interessante, não segure nada na frente do seu coração. Se estiver com um drinque, coloque-o sobre um apoio ou simplesmente segure-o do seu lado e mantenha uma distância um pouco maior que 1 passo daquela pessoa. Respeitar o espaço individual do outro é sinal de sofisticação e autoconfiança. Se houve receptividade, você pode ir se aproximando, mas sempre aos poucos.

Por último e não menos importante: esqueça aquele olhar sexy entediado que treinou por horas no espelho do banheiro. Pessoas sorridentes são sempre mais atraentes e sedutoras.



02 agosto 2007

QUALIDADE DE VIDA OU VIDA COM QUALIDADE?

© Dr. Alessandro Loiola


Quando se pensa em temas de saúde, é fácil constatar que a Qualidade de Vida é um dos campeões em investimentos e pesquisas. Apenas nas últimas duas décadas, surgiram centenas de institutos nesta área e até mesmo uma (extremamente bem organizada) Associação Brasileira de Qualidade de Vida.

E por que tanta festa em torno da Qualidade de Vida? Ora, porque ela parece dizer respeito à quase tudo! Você não gosta do seu chefe? Alguém pisou na sua unha encravada? Quer mais 50 canais na sua TV por assinatura e 3 meses de férias por ano? Então você está precisando melhorar sua qualidade de vida. Certo?

Errado. Veja só:

Os especialistas definem Qualidade de Vida como uma análise dos fatores que afetam o bem estar e o sentido que damos para nossas vidas. Isto envolve o funcionamento e a busca pelo aprimoramento físico, psicológico e espiritual de cada ser humano, levando em conta as características do meio ambiente em que vive.

Traduzindo para o compreensível: por Qualidade de Vida, entenda “viver com qualidade”. Esqueça o tamanho do seu bolso, seu celular de última geração e outras conquistas incríveis na escada social. Qualidade de vida tem a ver com um sentimento de plenitude. É aquilo que você finge não escutar dia após dia.

Há vários anos, em uma entrevista durante os festejos natalinos, uma atriz milionária e filantropa foi questionada pelo repórter sobre o que pretendia dar de presente aos seus filhos naquele ano. Após titubear um pouco, a atriz respondeu: - Eu gostaria que eles ganhassem o que me foi mais precioso e estimulante ao longo de toda minha vida: uma infância pobre.

Foram as dificuldades dos primeiros anos, vivendo quase na miséria em uma família de muitos irmãos, que moldaram os pontos de vista daquela mulher. A mesma provação que produziu o sofrimento também resultou em um crescimento pessoal capaz de traduzir-se em uma visão engrandecedora da vida. Esta não é uma percepção solitária.

Desde 1986, a organização inglesa New Economics Foundation (ou NEF) vem pesquisando a qualidade de vida em vários países. Em 2006, cruzando informações relacionadas à longevidade, aos recursos naturais disponíveis e ao índice de satisfação das pessoas com as próprias vidas, a NEF organizou uma lista dos países mais felizes. Os resultados foram no mínimo interessantes:

Apesar de ser considerada a nação mais rica do mundo em renda per capta, Luxemburgo ficou com a 74ª posição no ranking de qualidade de vida da NEF. Os Estados Unidos amargaram um 150o lugar, várias esquinas atrás de Vanuatu (1 o colocado), Colômbia (2 o) e Costa Rica (3 o).

Para satisfazer sua curiosidade, a NEF posicionou o Brasil como o número 63 de sua lista. Isso significa que, apesar de todos os nossos problemas, conseguimos experimentar a vida de modo mais pleno e construtivo que irlandeses, suíços, belgas, italianos ou alemães.

O segredo por trás destes resultados está no fato de muitas pessoas mirarem na Qualidade de Vida como crianças que se escondem para se empanturrar de doces na hora do almoço. Neste caso, no lugar do doce, a população economicamente ativa almeja dinheiro, fama, poder, influência, sucesso. É um enorme equívoco. E um desperdício maior ainda.

O memorável astrônomo Carl Sagan uma vez escreveu que somos um mero microorganismo ordinário vivendo na camada mais externa de um pequeno ponto pálido no céu, e não duraremos mais que algumas poucas voltas em torno da estrela local. Que tal pararmos com as brigas e preocupações, e simplesmente relaxarmos para curtir a viagem? Muito mais que qualidade de vida, isso, sim, seria viver com qualidade. Extrema qualidade.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

23 julho 2007

ALÔ PÉCIA

© Dr. Alessandro Loiola



- É só alopécia – eu disse casualmente.
O sujeito havia marcado uma consulta depois de uma brincadeira de seu filho de 5 anos de idade, que disse: “Papai! Papai! Descobri um pedaço do seu cabelo que só tem pele !”. E daí ele correu para o médico.
- Como é doutor?
- Alopécia. Essa área que está ficando sem cabelo é só Alopécia. Ou Calvície, se quiser um termo mais comum.
Senti que havia sido quase como dizer que ele estava com câncer.
- Calvície!? Brinca não, doutor. Calvície?? E eu ainda tão novo... ai ai ai....

Conversamos um pouco mais, passei as orientações necessárias e ele saiu pela rua se escondendo debaixo de um boné escrito “Hug me! I’m your Teddy Bear!”. Quer dizer, entrar na fila do banco se achando um ursinho de pelúcia pronto para ser abraçado, sem problemas. Tirar o boné e mostrar a alopécia para uma desconhecida, nem pensar!
Fiquei me perguntando - eu próprio um calvo muito convicto e orgulhoso da minha área de desmatamento em progresso no couro cabeludo – por que diabos alguém pode dar tanta importância a um topete rarefeito.

Ainda assim, o mercado capilar movimenta números impressionantes: apenas nos EUA, mais de 15.000 transplantes são realizados a cada ano e a soma dos investimentos nestas plantações (ou implantações, como queira) de folículos pilosos supera os 50 milhões de dólares. Isso para não mencionar o mercado também milionário das drogas que prometem fazer o cabelo crescer, sprays milagrosos e as famigeradas perucas – agora alçadas à nobre condição de Próteses.

Mais de 60% dos pacientes que procuram tratamento para Alopécia são homens entre os 30 e 50 anos de idade. Existem aqueles que o fazem por motivos de saúde, mas a imensa maioria está preocupada apenas com a vaidade mesmo.

A verdade é: homens e mulheres perdem cerca de 100 fios de cabelo por dia e o processo se acentua com o envelhecimento. A maioria dos homens apresenta algum grau de calvície por volta dos 60 anos de idade. Isto é normal, sendo que algumas pessoas são mais afetadas que outras – principalmente quando há uma prevalência de calvície na família.

A perda súbita ou excessiva de cabelo também pode resultar do uso de certos medicamentos, dietas muito severas, alterações hormonais, fivelas, rabos de cavalo muito apertados ou utilizados por muito tempo, infecção por fungos e outras doenças. Entretanto, Cerca de 95% dos casos de Alopécia decorrem de um distúrbio hereditário chamado Alopécia Androgenética.

A Alopécia Androgenética está diretamente ligada à produção de uma substância, a diidrotestosterona (ou DHT), que danifica os folículos pilosos. Acontece da seguinte maneira: ao circular pela corrente sanguínea, a testosterona que todos produzimos (homens e mulheres) é convertida em DHT por uma enzima muito específica, chamada 5-alfa redutase. Quanto maior a atividade desta enzima, mais DHT se ligará aos receptores nos folículos pilosos, levando a cabelos cada vez mais finos. Com a evolução do processo, o folículo atrofia e termina desaparecendo – levando consigo os preciosos fios de cabelo.

A Alopécia sempre gerou muitos mitos, mas é bom que você fique sabendo que:

· Chapéus e bonés não causam calvície.

· Plantar bananeira não aumentará o fluxo de sangue para o couro cabeludo, combatendo a queda de cabelo.

· Massagens vigorosas no couro cabeludo ou limpar excessivamente a cabeça (para “desobstruir os folículos) também não irão lhe salvar.

· Esqueça fórmulas mirabolantes e ingredientes super-secretos capazes de evitar a queda de cabelo que aparecem em comerciais durante a madrugada.
O dia em que uma técnica ou substância 100% eficaz contra a calvície surgir no mercado, você não precisará de um “especialista” na TV ou de um encarte em uma revista de cosméticos para lhe dizer o nome desse medicamento: ele simplesmente estará na capa dos principais jornais do mundo todo.

Em todos os casos, não esquente a cabeça pensando na Alopécia. Mantenha a cuca fresca, sempre. Afinal, quem você realmente é não está sobre seu couro cabeludo, mas logo abaixo dele.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor e palestrante, autor dos livros “Vida e Saúde da Criança” e “Crianças em forma: saúde na balança”. Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.
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08 julho 2007

MILAGRES NOS TEMPOS MODERNOS: DO DNA AO BOM SENSO

© Dr. Alessandro Loiola

Uma amiga baiana mandou um email esta semana querendo tirar algumas dúvidas. Pude até imaginar como perguntaria pessoalmente:

- Sabe, tem tanta coisa absurda circulando na Internet que tem vez que fica difícil separar o joio do trigo, né meu rei?

Neste caso, ela queria saber o que era sério e o que não passava de pura crendice depois de receber uma notícia bombástica sobre experimentos científicos realizados com o DNA. Estas pesquisas secretas – pasmem ! - comprovavam uma miraculosa capacidade do DNA para transmitir emoções através de campos de energia. Sim, desse nível. Imediatamente, lembrei-me do maravilhoso filme "A Menina e o Porquinho".

Se você não assistiu, permita-me fazer uma breve introdução: na película, uma aranha tenta evitar que um porquinho de excelente índole vá para a panela. Para tanto, ela começa a escrever palavras com sua teia, tentando comunicar aos humanos o valioso caráter do jovem leitão. Logo uma pequena multidão começa a visitar a fazenda e o celeiro, admirada com o “milagre”.

Na mesma fazendo da aranha escritora moram um casal e sua filha, uma menina apaixonada por todos os bichos do local e, em especial, pelo porco. Preocupada com os recentes acontecimentos, a mãe procura o médico da cidade vizinha: seria sua filha a responsável pelas palavras na teia da aranha?

Abre parênteses:

- Só pode ser ela, Doutor. Pense bem: o senhor não acha impossível uma aranha escrever com sua teia? - pergunta a mãe, entre aflita e incrédula. - É um absurdo, não um milagre!
- A senhora não acredita em milagres? - questiona o doutor. - Veja bem, a senhora tricota, não? – diz o médico, antes que a mãe possa se manifestar novamente.
- Sim.
- Isso porque ALGUÉM - frisou - lhe ensinou a tricotar, correto?
- Sim, é verdade.
- Mas quem ensinou a aranha, com aquele cérebro menor que a metade de uma cabeça de alfinete, a tecer algo tão incrível quanto sua teia?
- Eu entendo, eu entendo. Mas daí a escrever? Sinceramente...
- Minha senhora, a senhora ainda não entendeu. A aranha não precisa escrever com a teia para ser um milagre. A simples existência teia É o milagre.

Fecha parênteses.

A natureza milagrosa do DNA não precisa ser validada com pesquisas fantasiosas. O DNA é o PRÓPRIO milagre. E isto apenas já deveria ser explicação suficiente para uma espécie que se diz chamar Homo sapiens (Sapiens??).

Para compreender a extensão da nossa cegueira, vamos um pouco além, ainda na biologia e distante da metafísica. Na noite em que seus pais lhe conceberam, 250 milhões de espermatozóides viajaram para encontrar 1 dos mais de 500 óvulos de sua mãe. Fosse um outro óvulo, ou o vizinho daquele espermatozóide, você não estaria aqui. Tente fazer uma análise combinatória para ver quantas pessoas diferentes poderiam ter surgido naquela noite ao invés de você...

Pois justamente aquele óvulo e aquele espermatozóide se encontraram e, apesar de todos os riscos inerentes à anfimixia e ao processo de gestação, você está aí, completando suas primaveras. Você é uma improbabilidade estatística ambulante. Cada um de nós é.

E entre uma translação da Terra e outra, encontramos com alguém na rua que sofreu os mesmos riscos para se formar em humano. De todas as bilhões de estrelas e planetas, e quem sabe bilhões de universos, você e essa outra pessoa se encontram justamente naquele lugar, naquele momento, rodeados de outros seres vivos, e podem se comunicar e trocar sentimentos.
Faça novamente as contas: quais seriam as chances disso ocorrer?

Cada encontro com uma pessoa é um evento único. Cada dia de nossas vidas é como se dobrássemos as leis da Física e as probabilidades Matemáticas mais absurdas. Estamos caminhando contra todo e qualquer cálculo baseado na lógica. E ainda assim, viver parece ser a coisa mais corriqueira do mundo. Quando é um milagre.

Você não precisa quantificar campos magnéticos em moléculas de DNA ou presenciar fenômenos paranormais para perceber que existe algo de muito especial neste mundo. Tudo que você precisa é de um espelho.

E, com alguma sorte, de um pouquinho de lucidez.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

24 junho 2007

GRIPES E RESFRIADOS: ANOTE AÍ ENQUANTO É TEMPO

© Dr. Alessandro Loiola

Fui convidado a um programa de rádio para falar sobre Doenças Respiratórias de Inverno. Para não fazer feio e sair disparando estatísticas estapafúrdias, recorri à sempre muito bem informada Internet. E o que encontrei? Estatísticas ainda mais estapafúrdias do que poderia imaginar.

Por exemplo: a cada ano, as infecções respiratórias de inverno acometem uma de cada 10 pessoas no mundo todo. Faça as contas: são quase 20 casos de resfriados por segundo!

Apenas nos EUA, as Gripes e Resfriados custam mais de 4 bilhões de dólares por ano em hospitalizações e consultas médicas, além de uma perda de produtividade por afastamento do trabalho estimada em outros 7 bilhões de dólares anuais. É bilhão de dólar pra tudo quanto é lado. Infelizmente, nenhum desses bilhões chega até meu consultório. Talvez por problemas no CEP, acredito.

Mesmo com todos estes dados alarmantes, é comum o sujeito olhar para a receita de banda e deixar a sala de exame com aquela cara de “eu sabia que ele viria com essa conversa de virose!”. Mas as doenças respiratórias do inverno são, em sua maioria, viroses de fato.

Apesar da gripe ser causada por um único tipo de vírus mutante, o Influenza, os Resfriados podem ser causados por mais de 200 tipos de vírus diferentes. E atenção: Gripe não é igual a Resfriado.

O Resfriado se caracteriza por dores de cabeça, desconforto na garganta, congestão nasal e coriza, raramente causando febre. A Gripe, por outro lado, é uma infecção mais grave, com febre alta, dores musculares intensas e bastante indisposição, mas raramente causa sintomas do tipo coriza ou rinite.

Para ajudar você a lidar melhor com as viroses de inverno, relacionei a seguir 10 dicas valiosas:

- De um modo geral, os sintomas das viroses de inverno se iniciam 2-3 dias após a contaminação pelo vírus maledito e duram cerca de 7-14 dias até a recuperação completa. Tenha paciência.

- O custo elevado e o tempo prolongado para obter os resultados comprometem a utilidade da maioria dos testes de detecção viral. Por isso os médicos não perdem tempo tentando isolar qual o vírus que está lhe cercando. É caro demais e os resultados só estarão prontos quando você não estiver mais doente.

- A maioria dos casos de Gripe e Resfriados pode ser tratada em casa com sintomáticos, repouso, boa hidratação oral e alimentação equilibrada. Lembra aquela canja da sua avó? Então, ela.

- Para diminuir a irritação do nariz e da garganta, aproveite o vapor do banho quente ou faça compressas sobre o rosto por 5-10 minutos com toalhas limpas ensopadas com água morna.

- O gargarejo com soro fisiológico morno ajuda a reduzir o desconforto na garganta. Curiosamente, o mesmo pode ser dito com relação a picolés e bebidas geladas.

- Comprimidos descongestionantes podem oferecer algum alívio, mas atenção para o risco de efeitos colaterais, tais como palpitações, insônia, ansiedade, elevação da pressão arterial e tremores.

- Descongestionantes nasais tópicos podem diminuir o desconforto no nariz, mas também podem causar piora da congestão algumas horas após seu uso. Para evitar esse problema, limite o uso dos descongestionantes nasais a 3-4 aplicações por dia ou substitua-os pelo soro fisiológico puro e simples.

- Durante a noite, elevar um pouco a cabeceira reduz o reflexo de tosse desencadeado pelas secreções na garganta, melhorando a qualidade do sono.

- Quer diminuir seu risco de pegar uma gripe ou resfriado? Lave cuidadosamente suas mãos por 20 segundos com água e sabão comum, várias vezes durante o dia.

- E por último: muitos vírus que causam resfriados podem sobreviver por até 3 horas em corrimões, telefones, maçanetas, etc. A limpeza regular destes locais com desinfetantes pode ajudar a reduzir o risco de infecção, mas isso não substitui a boa higiene das mãos.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

10 junho 2007

DONG ZHI E A ASMA

© Dr. Alessandro Loiola


O Dong Zhi é um dos feriados mais importantes da cultura Chinesa, perdendo apenas para o Ano Novo. Ele marca o momento em que a Terra está no ponto de sua órbita mais afastado do sol, ocorrendo em 21 de dezembro no hemisfério norte e entre 21 e 22 de junho no hemisfério sul. Não por coincidência, o Dong Zhi – ou Solstício do Inverno - marca a chegada da estação mais fria do ano em ambos hemisférios.

Os profissionais da área biomédica também celebram a aproximação do Dong Zhi desde eras ancestrais, mas à sua maneira. Neste período do ano, decoramos os consultórios como Templos de Asclépio e esperamos as levas de peregrinos que chegam entoando um mantra bastante típico: o Sibilus Asmaticus. Afinal, nada como mais um bom e velho inverno para lembrar “Ei, e aquela sua bronquite, hein...?”.

O termo Asma deriva de uma palavra grega que significa “arfante”, denotando a genialidade do anônimo que batizou a doença. Atualmente, a Asma afeta cerca de 10% da população mundial.

A Asma possui causas complexas e variadas. A maioria dos asmáticos é alérgica, mas nem todas as pessoas alérgicas possuem asma. Além disso, para complicar, os processos alérgicos não conseguem explicar todos os casos de asma. Provavelmente, a asma resulta da interação entre susceptibilidade genética e fatores ambientais.

Os principais gatilhos que podem desencadear as crises incluem exposição a alérgenos no ambiente, baixas temperaturas e estresse, mas as crises também podem estar relacionadas a estresse, emoções fortes, exercícios físicos, refluxo gastro-esofágico e certos alimentos e medicamentos.

Para lidar melhor com a Asma, coloque as seguintes orientações bem próximas ao seu calendário antes do Dong Zhi:

- Evite contato com pólen, mofo e animais de pêlo (incluindo bichos de pelúcia e o Tony Ramos).

- Ácaros e baratas são alérgenos comuns que podem causar crises graves de Asma. Limpar a casa com pano úmido, encapar colchões e travesseiros com tecidos impermeáveis, e livrar-se de tapetes e carpetes são medidas simples para diminuir a concentração destes contaminantes.

- Fuja de poluentes ambientais como cigarro, produtos de limpeza com cheiro forte e descargas de automóveis. Uma boa dica neste sentido é mudar de planeta.

- Se possível, diminua o consumo de alimentos contendo glutamato monossódico (encontrado em sopas em lata e certos queijos) e sulfetos (utilizado como conservante em certos vinhos e alimentos industrializados). “Nada de queijos e vinhos??”, você irá perguntar, constatando que eu acabei de detonar seus planos para o restante do inverno.

- Veja com seu médico se a sua asma pode ser causada por exercícios. Mas atenção: não use isso como desculpa para ficar em casa se enchendo de capuccino e biscoitos de chocolate.

- Devido às alterações nos níveis hormonais, 30 a 40% das mulheres apresentam mais crises de asma alguns dias antes e durante a menstruação. Os anticoncepcionais orais podem ajudar nestes casos, nivelando as flutuações hormonais. Curiosamente, a Terapia de Reposição Hormonal na menopausa parece aumentar o risco de asma.

- Na gravidez, um terço das mulheres asmáticas apresentam piora das crises, um terço sofre menos e o outro terço não observa alterações na gravidade dos ataques. Felizmente, as medicações habituais contra asma parecem seguras para uso até mesmo em gestantes.

- Finalmente, uma em cada 3 pessoas asmáticas possui familiares com o mesmo problema. Como os fatores genéticos parecem ser mais importantes que os fatores ambientais nestas famílias, converse anda hoje com seus pais sobre a possibilidade de você trocar todos os seus genes.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

01 junho 2007

ÁLCOOL E ALCOOLISMO: MAIS POLITICAMENTE INCORRETO, IMPOSSÍVEL

© Dr. Alessandro Loiola


O sujeito na cadeira, a irmã ao lado. O homem tem mais cascas de pelagra nas pernas que árvore de praça no meio do outono. A consulta segue.
- O senhor deveria falar com ele para diminuir a bebida, doutor!
Vinte pacientes todos os dias nos últimos 10 anos me ensinaram que a melhor terapia inicial para estes casos é o que chamo de Choque de Honestidade.
- De modo algum.
- Como?
- De modo algum vou falar para ele diminuir a bebida – respondo, para espanto da mulher e repentino entusiasmo do homem.
– Primeiro, tenho certeza de que vários outros médicos fizeram esta mesma recomendação: que ele deveria parar de beber.
- É, já disseram isso várias vezes, mas ele...
- ...Não parou. Então, insistir significa me tornar mais um em uma longa fila de conselheiros inúteis. Em segundo lugar, eu não deveria falar mal da bebida alcoólica. Tampouco do cigarro. Nenhum colega de faculdade, nenhum amigo médico, ninguém – frisei - encaminha mais pacientes para o meu consultório que a dobradinha Álcool e Cigarro.
- Hein?
- Quanto mais seu irmão beber, mais dinheiro eu ganho. Desejo longa vida a ele e ao vício que nos sustenta. Que ambos durem várias décadas para desenvolver hipertensão, infarto, derrame, desnutrição, gastrite e pancreatite, para então morrer de cirrose ou câncer no esôfago após mais alguns anos de sofrimento. Se ele parar de beber agora, estará dando um excelente passo em direção à recuperação da saúde, mas será um péssimo investimento do ponto de vista do meu bolso...

Quando bem conduzida, este tipo de conversa “ao inverso” resulta no efeito necessário, que é fazer o indivíduo enxergar com todas as luzes os tons sinistros com que está pintando seu futuro.

O alcoolismo é um dos maiores (e mais subestimados) problemas de saúde pública no Brasil. Este entorpecente, bastante acessível e com altíssimo potencial de vício, deveria ser tratado com mais sobriedade, não com propagandas festivas na TV. O álcool está envolvido em mais de 40% dos acidentes automobilísticos com mortes e em uma proporção similar de crimes sexuais, para dizer o mínimo.

Quanto mais a embriaguez se torna habitual e começa a interferir com seu ritmo de vida, mais perto você está de cruzar a linha que separa o uso recreacional do álcool do alcoolismo propriamente dito.

As manifestações do abuso alcoólico incluem comportamento agressivo, redução da coordenação motora e da clareza nas decisões, desorientação, perda da memória e desidratação. O consumo crônico de álcool pode causar lesões graves em nervos, fígado, pâncreas e coração, além de levar à hipertensão arterial, derrame cerebral, demência e aumento do risco para câncer na boca, laringe, esôfago, estômago, intestino grosso e mama.

Um dos principais sintomas do alcoolismo, e o que o torna este distúrbio tão difícil de ser tratado, é a Negação. O dependente não admite para si ou para os outros a existência de qualquer problema com o álcool, e a família tende a colaborar fazendo coro e vista grossa para o problema. Infelizmente, empurrar para debaixo do tapete não limpa a sujeira, apenas a acumula.

Havendo disposição voluntária por parte do alcoólatra em parar com o vício, vitaminas e outros remédios podem ser empregados sob supervisão médica para controlar os sintomas da abstinência. Algumas pessoas podem necessitar internação hospitalar durante o período mais crítico de abandono da bebida. Vencida a etapa de desintoxicação, a participação em grupos de apoio como os Alcoólicos Anônimos é recomendável para manter o vício sob controle no longo prazo.

O diagnóstico de alcoolismo não significa falta de vergonha ou fraqueza de caráter, mas uma doença que deve ser abordada sem pudor e com todas as letras. O tratamento pode ser difícil, mas a cura não é impossível - basta fazer a coisa mais incrível e poderosa de todas: Querer.

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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.