Temos no Brasil um sistema de saúde com pretensões de oferecer um serviço de nível Canadense ou Australiano, com cobertura universal e amplo acesso.
A OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico -, criada em 1960, possui um banco de dados abrangente, confiável e atualizado reunindo informações de 34 nações. Caso pertencesse à OCDE, o Brasil seria o antepenúltimo nos investimentos públicos em saúde, superando apenas Chile e México. Nos gastos per capita, só ficaria acima da Turquia.
Os investimentos públicos em saúde em nosso país representam 3,6% do PIB, contra 5,9% na Austrália, 7,2% no Canadá, 8,6% da França e incríveis 9,7% na Holanda. Até os EUA, que nem possuem um sistema propriamente público, gastam mais: o Estado americano dedica 7,9% do PIB em investimentos em saúde.
Junte-se a isso o fato de que Austrália,Canadá, França e Holanda possuem todos taxas de analfabetismo iguais ou inferiores a 1%, enquanto que a taxa de brasileiros considerados analfabetos funcionais é de 17,1%, chegando a 26,6% na região Nordeste e alcançando 20% de analfabetismo pleno entre as pessoas com 60 anos de idade ou mais.
Em resumo: em comparação aos países nos quais nos inspiramos para construir nosso sistema de saúde, investimos MENOS dinheiro para um público MAIS incapaz - mais incapaz de ler, mais incapaz de processar criticamente informações, mais incapaz de agregar conhecimento científico e, consequentemente, mais incapaz de compreender suas próprias responsabilidades.
Agora me diz: você acha mesmo que nossas políticas públicas de saúde - confortavelmente assentadas em eternas práticas numéricas de assistencialismo burocrático, populista, contraproducente e ineficaz - algum dia irão produzir avanço, prosperidade, ordem ou progresso nessa república tupiniquim?
17 agosto 2017
13 agosto 2017
LEVE SUA VIDA COMO UM ARTESÃO
No excelente livro The Carpenter, o autor John Gordon escreve: "Enquanto a maioria das pessoas aborda seu trabalho com a intenção de terminá-lo, um Artesão age mais preocupado com O QUÊ está criando do que com a velocidade com que irá finalizar a tarefa".
"Um Artesão", Gordon prossegue, "preenche sua mente com o empenho para mostrar o melhor de si. Quando se tem esse nível de atenção, você se destaca, pois este é um mundo de desatentos. É a Atenção, e não a rapidez, que derradeiramente leva ao sucesso".
Alguém que cuida diligentemente do que vê, diz e faz é alguém destinado a expressar características de qualidade. Pode-se dizer então que Atenção e Qualidade sâo, respectivamente, aspectos internos e externos da mesma "coisa", do mesmo segredo por trás do sucesso de um Artesão.
Mas o que seria esse segredo, essa "coisa"? A resposta é facil: Amor.
O Artesão trabalha com Amor. Existe paixão em sua atividade, um cuidado silencioso e concentrado, um deslumbramento quase místico no modo como ele trabalha. O Artesão encontra-se tão completamente presente quando atua que ele e sua arte tornam-se um só.
O valor de agir em sua vida como um Artesão vai bem além de fazer um bom trabalho. Uma vez que a intenção final de cada um de nós é levar uma vida incrível, a melhor maneira para atingir este objetivo consiste em postar-se plena e intimamente envolvido com cada etapa do processo de Viver.
O que quer que você esteja fazendo agora e vá fazer daqui em diante, certifique-se de fazê-lo como um Artesão. Comprometa-se com a Atenção e a Qualidade. E viva com Amor. Sempre.
11 agosto 2017
RELAÇÕES INTERPESSOAIS E LONGEVIDADE
Você
sabia que o modo como você se relaciona com outras pessoas pode incrementar sua
longevidade?
No
livro Safe People (Relacionamentos
Saudáveis, título brasileiro), os psicólogos Henry Cloud e John Townsend
comentam sobre os resultados da investigação de uma cidade americana que
possuía um dos maiores índices de longevidade dos EUA: nos anos 1960, a cidade
de Roseto (Pensilvânia) apresentava uma incidência de mortes por eventos
cardíacos METADE abaixo a incidência média do restante dos EUA.
Por mais
de cinquenta anos, este fenômeno, conhecido como “Efeito Roseto”, foi
investigado de todas as formas possíveis, com conclusões sempre similares. Excluídas
as variáveis pertinentes e realizadas as análises estatísticas devidas, o motivo
pelo qual a população da cidade de Roseto exibia uma saúde tão incrível mostrou
ser bem simples: elas viviam relacionamentos profundos e duradouros.
Nós
nascemos para nos relacionarmos uns com os outros. Fomos criados para isso.
Quando alguém está em seu leito de morte, raramente pede que coloquem dinheiro
ou prêmios ou títulos à sua volta. Alguém que está morrendo deseja nada disso,
mas apenas seus entes queridos por perto.
Infelizmente,
nos dias atuais, a noção de “entes queridos” está turva. A tecnologia e as
mídias sociais nos enganam com a percepção de que estamos vivendo relacionamentos
interpessoais profundos com dezenas – às vezes centenas ou milhares – de pessoas,
quando na verdade não estamos.
De
repente você chega em casa e navega no seu Facebook ou Whastapp ou Instagram
por 20, 30 ou 40 minutos, e quando coloca o celular de lado (quando coloca...)
fica com aquela sensação de que passou algum tempo com algumas pessoas. Mas não
passou. Talvez, para aquela meia dúzia minguada de pessoas cujos posts você
comentou – e que lhe responderam -, você tenha participado de uma forma de
interação. Para o restante delas, e para o restante esmagador do seu tempo,
tudo que você fez foi abraçar uma frágil e falsa noção de amizade.
Uma vez
que as amizades são tão importantes para o seu bem estar, é essencial saber
como cultivá-las e aprofundá-las.
Se você
deseja fazer amigos ou levar suas amizades atuais para um próximo nível, sugiro
que analise os passos a seguir:
1. VÁ EM BUSCA. Quanto mais você buscar amigos, mais encontrará. Porque a
imensa maioria das pessoas está querendo o mesmo que você. Nascemos para
fazermos amizades, lembra-se? A procura por relacionamentos interpessoais significativos
está embutida no seu código genético após dezenas de milhares de anos de
seleção natural. Então comente posts, envie mensagens de
texto ou voz, faça uma ligação pelo celular. Isso não substitui a interação ao
vivo e em cores, mas é um primeiro passo. Seja a pessoa que toma a iniciativa
de fazer o contato e agende um encontro, um programa, um cinema, um chope, uma
caminhada, um por do sol na praia. Se a sua atitude for rejeitada, tudo bem.
Você não pode forçar quem não quer a deixar o casulo. Sacuda a poeira e vá em
busca da próxima amizade.
2. SEJA UM ESPECIALISTA EM CONVERSAÇÃO. Os americanos, que
amam um protocolo, desenvolveram um método para iniciar um bate papo amigável
com qualquer pessoa. O método, que atende pelo acrônimo FORD, recomenda que
você comece a conversa abordando qualquer um destes tópicos: Família, Ocupação,
Recreação ou Desejos. Por exemplo:
·
Família: você tem filhos? Eles moram com você? Você
tem familiares na cidade?
·
Ocupação: com que você trabalha?
Se você não gosta do seu trabalho, o que gostaria de fazer para ganhar a vida?
·
Recreação: o que gosta de fazer
nas suas horas vagas? Você tem algum hobbie?
·
Desejos: qual a sua viagem
dos sonhos? O que você espera da sua vida?
À
medida que for obtendo as respostas, repita a informação que recebeu para
certificar-se de que entendeu direito, e então aprofunde-se no tema, adicionando
perguntas pertinentes ao contexto que está sendo conversado. Esse jogo de “toma
lá / dá cá”, rápido e fácil, mostrará que você está realmente ouvindo e se
interessa pelo que está sendo dito.
3. APAREÇA. Quando algum amigo lhe
convidar para algum evento, festa, reunião, chope, pizza, café ou bate papo, não
responda “talvez” ou “quem sabe” ou “vou ver”. Apenas vá. Apareça.
Não seja a pessoa que os outros sempre convidam e que nunca aparece – porque assim,
mais cedo do que tarde, você terminará sendo a pessoa que quer aparecer, mas
que ninguém nunca convida. Obviamente, você não precisa dizer “sim” para todo e
qualquer convite: se não puder ir por falta de interesse, simplesmente diga que
não pode, desde o princípio. Se não puder ir por algum aperto na sua agenda,
diga que não poderá comparecer, mas ofereça na mesma hora uma contrapartida – “nessa
quinta feira não vou poder ir, já estou preso em um compromisso, mas que tal
então um chope no bar XYZ na sexta, às 20h?”.
4. EXPONHA-SE. Expor suas
vulnerabilidades pode levar a amizades bastante profundas, mas também pode
assustar caso seja algo feito cedo ou rápido demais. Quando o momento for
oportuno, e se você decidir dar um passo além na construção daquele vínculo,
compartilhe um perrengue seu. Comente sobre suas feridas, seus medos, suas lágrimas
e seus risos. Compartilhe conversando sobre algo que lhe fez profundamente feliz,
ou um sonho ou uma conquista importante para você. Se a amizade estiver no
ponto, e se a pessoa for de valor, ela também irá expor-se para você. Se isto
não acontecer, então aquele laço de confiança não estava pronto como você
julgou – ou talvez seja hora de ir buscar novas amizades.
5. DIGA A VERDADE. Na maioria das vezes,
as pessoas preferem ser educadas a ser verdadeiras. Se a sua intenção é fazer
amizades de qualidade, você precisa largar suas máscaras e agir e falar de modo
honesto. As máscaras (ou “personas”) são ferramentas eficientes e produtivas na
sociedade; são elas que permitem que freqüentemos ambientes públicos, áreas de
trabalho e instituições de ensino. Sem máscaras, a vida em sociedade seria
impossível. Todavia, você pode ser você mesmo, falar a verdade e ser educado ao
mesmo tempo. Ser educado não significa agradar a todos ao seu redor, mas ser respeitoso
ao manifestar suas verdades. É melhor ter alguns poucos amigos verdadeiros que
aceitam quem você é do que viver cercado de uma multidão interessada em
interagir apenas com uma máscara de alguém que você nunca foi.
30 julho 2017
SOBRE CIÊNCIA E PSEUDOCIÊNCIA
Não raramente, deparo com afirmações espantosas sobre alguma descoberta “científica” que irá mudar minha vida: os poderes da água ionizada, os benefícios do sal do Himalaia, palmilhas magnetizadas, dimensões ocultas, graviolas anti-cancerígenas, fluxos mentais capazes de alterar a matéria e por aí vai.
A maldição que acompanha a Ciência atende pelo nome de Ignorância, e a ignorância pode assumir várias formas, sendo a Pseudociência sua versão mais moderna e danosa.
Diferentemente da fé religiosa – que admite seu viés sobrenatural -, a pseudociência se traveste de ciência para tentar convencer que suas afirmações não são falácias e charlatanices, mas grandes sacadas genuínas da Realidade.
Mas a pseudociência é exatamente o que o nome diz: FALSA ciência. É apenas um modo sofisticado e bacana para justificar as velhas crenças absurdas de sempre.
Para se salvar dessa confusão, é preciso manter uma mente crítica. Quando se deparar com algo que pode ser pseudociência, aplique 5 raciocínios rápidos:
1) A afirmação se qualifica como uma teoria? Uma teoria se origina de e é apoiada por um conjunto evidências específicas que podem ser testadas por diferentes instituições em diferentes locais do mundo.
2) A afirmação baseia-se em conhecimentos ancestrais? Esse tipo de conhecimento por si só não se qualifica como evidência científica. Sem testes que validem sua eficácia, consistência e reproducibilidade, um “conhecimento ancestral” é apenas um mito, não Ciência.
3) A afirmação baseia-se na existência de um tipo desconhecido de “energia” ou algum outro fenômeno paranormal? O emprego descontextualizado de termos como “campos de energia”, “forças eletromagnéticas”, “orgânico”, “mecânica quântica” e “múltiplas dimensões” são ferramentas típicas da pseudociência. Utilizar amplamente conceitos popularizados pela ciência é uma artimanha bastante comum – e desonesta - através da qual a pseudociência tentar jogar um véu de confiança sobre si mesma.
4) Os defensores de afirmações pseudocientíficas amam dizer que suas descobertas estão sendo mantidas ocultas pelas autoridades, pelo governo, pela grande mídia, pelas universidades, pelos médicos, pela indústria farmacêutica, pelos templários, pelos iluminati, pelos alienígenas de Júpiter e tal. Deveriam procurar atendimento psiquiátrico e tratar suas paranoias alarmistas de conspiração – ou publicar seus achados extraordinários em periódicos científicos sérios.
5) Existe alguma explicação mais simples e razoável para aquela afirmação? Por exemplo: a afirmação poderia ser melhor explicada apenas considerando-se a possibilidade de um efeito placebo, a capacidade de cura do próprio organismo, um truque de ilusionismo, má fé ou uma ocorrência estatisticamente possível?
A Pseudociência falha miseravelmente ao tentar passar pelos crivos descritos acima, pois suas afirmações em geral fazem parte de algum contexto político, ideológico ou cultural. Elas não são Ciência.
A Ciência verdadeira é feita com método, pesquisa e evidências, e não com marchas de protesto, blogs, reuniões de chá, seitas, templos ou igrejas.
Não encorajo você a abrir mão de suas convicções, mas sim a fazer uma análise bem honesta delas. Seja honesto CONSIGO mesmo. Tenha coragem para tanto. Questione-se com lucidez.
Ou continue a viver em seu mundo de relativismos místicos, tudo bem. Todavia, neste caso, não denomine suas fantasias de fé de “ciência”. Chame-as pelo apelido correto: chame-as de Crenças Populares. Tenha pelo menos essa dignidade.
05 junho 2017
VITAMINA C FUNCIONA PARA TRATAR RESFRIADOS?
Sim, funciona. Mas com ressalvas.
O Resfriado Comum pode ser causado por mais de 200 vírus diferentes. A Gripe, por outro lado, é causada por apenas 1 vírus – o Influenza -, e produz um quadro BEM mais severo que o do resfriado. Infelizmente, as pessoas com frequência confundem um episódio de Resfriado com Gripe. Seria como confundir um cisco no olho com ser atropelado por um trator. Em pleno século XXI, ainda não sei como isso ocorre. Enfim...
Uma vez que o Resfriado Comum é causado por um VÍRUS, antibióticos são ineficazes no seu tratamento. A Vitamina C vem sendo utilizada desde 1930 com o propósito de aliviar os sintomas do resfriado e diminuir o tempo de evolução da doença, e se tornou particularmente popular na década de 1970 a partir dos estudos de Linus Pauling.
Em 2013, após avaliar 29 estudos clínicos placebo-controlados envolvendo um total de 11.306 pacientes, os pesquisadores da Colaboração Cochrane concluíram que a ingestão regular de vitamina C (200 mg ou mais por dia) não afeta a incidência de resfriado na população em geral.
Entretanto, a suplementação regular exerceu um efeito modesto – porém consistente – na redução da duração dos sintomas (31 estudos clínicos avaliados). Em 5 estudos, um total de 598 pacientes foram expostos a períodos curtos de exercícios físicos extenuantes e a vitamina C mostrou-se capaz de reduzir a incidência de episódios de resfriados comuns entre eles, sem efeitos colaterais adversos.
Conclusão:
1. Do ponto de vista da revisão da Colaboração Cochrane, a incapacidade da suplementação com vitamina C em reduzir a incidência de resfriados na população em geral indica que o USO ROTINEIRO dessa vitamina por toda e qualquer pessoa, apesar de seguro, não se justifica.
2. A suplementação com vitamina C pode ser útil para reduzir a incidência de resfriado em pessoas expostas a curtos períodos de atividade física intensa e, neste cenário, ela é bem indicada como profilático.
3. O uso de vitamina C é capaz de reduzir os sintomas e a duração da doença em pacientes com quadros agudos e resfriado, com poucos efeitos colaterais, e é recomendado.
23 maio 2017
QUAL A VERACIDADE DA REALIDADE?
Seu
padrão habitual de crenças forma um ciclo que derradeiramente
formata toda sua experiência de vida. Entenda: suas convicções
se tornam pensamentos e emoções, que então influenciam o comportamento, que por
sua vez define o caráter – e seu caráter determinará seu destino.
O que
você admite sobre o mundo e sobre si mesmo, as coisas positivas e negativas que
sua família e seus amigos lhe contaram sobre você, todo seu condicionamento
ativo e passivo frente à realidade, essas ideias não são abstratas: elas tangem
a realidade por meio de suas ações. E tudo começa lá no fundo, nos dogmas que
você carrega.
REAL, MAS NÃO VERDADEIRO
Você dá
uma topada no pé da mesa e seu pé dói; você martela seu polegar sem querer, e ele
dói; você toma uma canelada na pelada do final de semana, e sua perna dói. A dor
é um fenômeno orgânico e objetivo.
O sofrimento,
por outro lado, baseia-se numa crença. O sofrimento não é real, ele existe apenas
dentro da sua convicção. Sentir dor é compulsório; sofrer é opcional.
O
sofrimento atua como uma lente turva, separando você da realidade. Comece a
observar suas crenças – e o sofrimento derivado delas - como pré-julgamentos
que limitam sua capacidade de experimentar o mundo.
Apesar
dos seus pensamentos serem resultado de uma bioquímica real que está
acontecendo neste exato momento no seu cérebro, todas essas ideias são apenas
representações na sua mente. Elas não são a experiência do aqui, agora – assim
como um mapa não é o território que ele representa. Os pensamentos, por mais reais
que sejam, não são verdadeiros.
Em O
Mundo como Vontade e Representação, o filósofo ateu & pessimista Arthur
Schopenhauer (1788-1860) abordou este assunto com amplitude, introduzindo
alguns conceitos indianos e budistas na metafísica ocidental. Schopenhauer
basicamente afirmava que “não conhecemos a realidade como ela é, pois toda a
realidade que percebemos traz em si as marcas indeléveis das garras de nossa
subjetividade”.
Nossa convicção
na certeza da interpretação da realidade que vivemos é exatamente o que nos
separa da realidade em si. Quando estes territórios não são investigados, eles
nos impedem de alcançar a verdade. Contudo, quando aprofundamos nossa atenção e
ultrapassamos o limite das crenças, somos presenteados com as luzes de bilhões
de estrelas do que é Real.
Existem
duas maneiras de prestar atenção e eliminar do seu horizonte a poluição das
ilusões e das crenças. O primeiro método consiste em perguntar: pergunte a si mesmo, pergunte aos seus amigos, pergunte
às palavras, aos livros, atravesse todas as camadas de suas certezas,
questionando uma a uma. Pergunte, pergunte. E não se ofenda - tampouco se assuste - com as
respostas.
O
segundo método consiste em uma técnica de meditação de exercícios afins que
atende pelo nome de Atenção Plena.
EM QUE VOCÊ ESTÁ ACREDITANDO AGORA?
Que tal
começar a perceber a realidade por meio de uma atividade bem simples?
Pergunte-se: “Em quê eu estou acreditando
agora?”.
Responda
a isso. Na sequência, pergunte-se: “Isto
é real? Será possível que isso é real, mas não verdadeiro?”.
Ainda
que sua resposta seja “sim”, apenas o
fato de questionar expande o espaço que você e sua mente ocupam, e abre a
possibilidade para que você entenda que aquilo que está acreditando é somente uma
representação – e não a realidade em
si. Suas convicções são reais, mas não são verdadeiras.
Indo
mais fundo na toca do coelho, pergunte-se: “Como
é viver com essa crença? Como esta crença afeta minha vida?”. Sustentar um
sistema de crenças que lhe causa sofrimento e nenhuma evolução ou excelência em
termos de sabedoria é um investimento tolo.
Questione-se:
“Como seria minha vida se eu não
estivesse vivendo dentro desse sistema de convicções?”.
À medida que praticar a atenção plena e retirar o poder de suas percepções distorcidas, os pensamentos
e as emoções continuarão vindo, mas você se sentirá menos inclinado a acreditar
piamente neles.
Confortavelmente estabelecido em um lugar bem maior que suas ideias e suas doutrinas, você perceberá como o mundo é vasto e como a realidade é extraordinária – e nunca mais desejará retornar ao sono de ingenuidade onde as ilusões haviam lhe convencido de que elas eram tudo que existia.
Confortavelmente estabelecido em um lugar bem maior que suas ideias e suas doutrinas, você perceberá como o mundo é vasto e como a realidade é extraordinária – e nunca mais desejará retornar ao sono de ingenuidade onde as ilusões haviam lhe convencido de que elas eram tudo que existia.
17 maio 2017
DIÁLOGOS - PARTE II
- Oi, linda!
- Ei, lindo :)
- Comecei a leitura de Chesterton (O Que Há de Errado) e esbarrei nisso: “O sufragismo foi a Primeira Onda do feminismo – para citar a classificação utilizada por alguns estudiosos contemporâneos –, início de um movimento maior, provocador da Segunda Onda, anti-família e anti-maternidade, cuja tarefa foi levar as primeiras reivindicações, de igualdade perante a lei, para o âmbito da vida íntima, chegando, então, à Terceira Onda, experimentada hoje, com a ideologia de gênero e a tentativa de ignorar a ordem biológica, de maneira a transformar masculinidade e feminilidade em meras construções culturais”.
- Assemelha-se a um reducionismo.
- Em parte, sim. Mas o parágrafo segue dizendo: “nas palavras de Francisco José Contreras, as mulheres são as grandes vítimas da revolução sexual. Na sociedade hipersexualizada, a mulher se converte com frequência em objeto de usar e jogar fora. As feministas conseguiram impor à mulher o modelo sexual masculino - e envileceram todas". Gostei demais dessa visão.
- A questão é que isto parece levar em conta apenas um ponto de vista.
- Hum.
- Como mulher, penso que definições assim tendem a diminuir as dimensões da pessoa feminina. Concordo que houve excesso no pêndulo do feminismo e é preciso trazê-lo para o centro. Mas será possível?
- O pêndulo voltará ao centro por si só.
- Será? O movimento todo se tornou um excesso de ideologias e inocências. Se continuar nesse balanço, pode representar a extinção de nossa espécie, com homens e mulheres se recusando a reproduzir... :)
- Ideologias? Eu diria Deslumbramento. A onda feminista do século passado produziu uma multidão de crianças que nunca comeram mel, e que agora estão fazendo uma lambança enorme na liberdade que conquistaram. Quanto à extinção da espécie... Eu não chegaria a este extremo. Não menospreze a pressão dos genes. :)
- Crianças... rsrsrs... Sim, parece um mundo de crianças revoltadas, pessoas que querem cachorros como filhinhos.
- Por isso tenho achado o mundo das pessoas tedioso. Queria adultos para trocar ideias, mas onde encontrá-los? Um brinde aos livros! Livros e Natureza. Foi o que nos sobrou.
- Até nessa questão as pessoas estão cegas. Percebe como elas querem subverter a Natureza?
- Sim - e estão quebrando a cara, o que é bem fácil de perceber. É só contabilizar a enormidade de consumo de antidepressivos e benzodiazepínicos.
- Apoiado. Mas não culpo as mulheres pelo cenário completo.
- Hum.
- Esse problema é do Ser Humano. O Desequilíbrio vem de todos os lados.
- Argumento aceito. Mas não há de se aliviar o papel do feminismo no cenário das últimas décadas. Isso seria uma condescendência excessivamente benevolente e ingênua.
- Você nega que o exagero do patriarcado provocou esse movimento?
- De modo algum. Ação e reação. O patriarcado belicista e controlador povoou o Século XX com guerras, consumindo a mão de obra masculina em conflitos inúteis. A saída para preservação da máquina civilizatória foi a aceitação da força produtora feminina que, uma vez organizada, se voltou contra quem lhe abriu espaço. A modernidade se tornou uma Era Frankenstein Social-Sexista. Mary Shelley adoraria ver isso...
- rsrsrs
- Mas concordo que culpar um não exime o outro. As responsabilidades devem ser divididas.
- Perfeito, e isso nos leva de volta à questão: como recuperar o equilíbrio? É possível? Quem sabe com tempo, estudos e discussões...
- Eu resumiria em Tempo. É um ciclo repetitivo este, mas que funciona sempre: as gerações futuras se ressentem daquilo que as gerações passadas demoliram, e então constroem uma versão mais ponderada do passado - não necessariamente melhor, mas certamente mais adaptada à satisfação dos desejos. Foi assim com a escravatura e a liberdade sexual. Será assim com a balança patriarcado-feminismo.
- Que venha o Tempo então.
- :)
DIÁLOGOS - PARTE I
- As pessoas se preocupam com o que não precisam e esquecem de se preocupar com o que deveriam.
- E com o que elas deveriam se preocupar?
- Você também não sabe?
- Hum... família? Saúde? Dinheiro? Sucesso?
- Não exatamente... Não é um monte de coisas, mas uma coisa só.
- Então "o quê" exatamente?
- As pessoas deveriam ter uma única preocupação: colocar a cabeça no travesseiro à noite com um PUTA orgulho do dia que viveram. Deveriam deitar a cabeça no travesseiro e pensar: "hoje ajudei, aprendi, amei, senti, ri, refleti, demonstrei força, honra e coragem, e pratiquei disciplina, sabedoria e gentileza... hoje eu arrebentei!". E o resto seria consequência. Só consequência.
- E com o que elas deveriam se preocupar?
- Você também não sabe?
- Hum... família? Saúde? Dinheiro? Sucesso?
- Não exatamente... Não é um monte de coisas, mas uma coisa só.
- Então "o quê" exatamente?
- As pessoas deveriam ter uma única preocupação: colocar a cabeça no travesseiro à noite com um PUTA orgulho do dia que viveram. Deveriam deitar a cabeça no travesseiro e pensar: "hoje ajudei, aprendi, amei, senti, ri, refleti, demonstrei força, honra e coragem, e pratiquei disciplina, sabedoria e gentileza... hoje eu arrebentei!". E o resto seria consequência. Só consequência.
16 maio 2017
O TRANSTORNO DOS ADORADORES DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO
Em uma
pesquisa conduzida pelo Pew Research Center, 85% dos
donos de cães e 78% dos donos de gatos diziam considerar seus animais de
estimação parte da família. Como se
isso não fosse suficiente, a tendência mais recente vem sendo dar
um passo além e tratar o animal como se ele fosse uma criança. Uma
criança humana.
Ora essa, mas quem
é capaz de dizer qual o real valor de um animal de estimação? As pessoas
deveriam ser livres para gastar seu dinheiro com o que bem entenderem, até mesmo com mimos para as traças de suas casas. Que mal há em tratar
um gato ou um cão como uma “criança que nunca irá crescer”, certo?
Não. Não está certo. Nada está certo neste discurso.
As implicações desses hábitos são mais grotescas e
possuem consequências mais vastas do que pode parecer à primeira vista. O antropomorfismo vem ultrapassando
os limites da admissibilidade, assemelhando-se ao que poderia ser
facilmente considerado um distúrbio mental pleno.
QUALIDADES APOTEÓTICAS
Os
caninos, com seus instintos de matilha, alta capacidade de treino, amor
incondicional e lealdade sem julgamento, são de longe os animais de estimação
que mais sofrem antropomorfização. Eles se tornam membros da família, melhores
amigos ou bebês de pelo, e são tratados com refeições gourmets, salões de beleza, colchões ortopédicos e festas de aniversário personalizadas,
entre outros disparates.
A
multidão que diz que “meus cães são meus filhos” age movida por essa crença
animista. Essas pessoas compram presentes de natal, compartilham fotos, pagam cirurgias
cosméticas e fazem o que for necessário para garantir tudo do bom e do melhor
para seus bichinhos. Muitas mulheres conversam SERIAMENTE com seus pets e os chamam de “filhos”, referindo-se a si mesmas como “mamães” deles. Há uns 30 anos, isso equivaleria a marcar
uma consulta com um psiquiatra, mas hoje esta prática é recebida com tolerância e normalidade.
Avançamos?
Louvar
cachorros, gatos, periquitos ou papagaios por serem incapazes de agir como
pessoas más não é somente estapafúrdio, mas também torna o animal uma versão
idealizada e endeusada de nós mesmos – que deve então ser tratada com prendas e
afagos sem fim.
Como um
ser humano, comparativamente mais complexo que um cão ou um gato ou um filhote
de ovelha ou uma cacatua, pode competir com criaturas que personificam todas as expectativas mais singelas de fidelidade, perdão, confiança, amor e inocência?
Na visão de seus donos, quando emparelhados às pessoas, os animais de estimação
são considerados sempre mais puros, mais afáveis, mais lícitos e mais
devotados. São reputados como “espiritualmente superiores”, pois não roubam dinheiro,
não começam guerras e tampouco julgam os outros pelas aparências.
Alguns
podem se defender, por exemplo, dizendo que “cães são filhos para pessoas que
não tem filhos”. Casais e pessoas sozinhas (hetero ou homossexuais, não
importa) que não podem ou não desejam ter filhos em geral migram para animais
de estimação como substitutos da prole humana, engendrando uma família
diferente, mas ainda assim uma família. Estas famílias pet-baseadas podem parecer benignas - afinal de contas, pessoas com
uma mentalidade familiar tendem a ser bons vizinhos, estáveis e voltados aos
interesses da comunidade -, mas não são.
É
verdade que pessoas que não desejam filhos podem se beneficiar ao atuarem como
nutridores e protetores de outra criatura viva. Esse comportamento reduz o
egocentrismo e é louvável. Entretanto, do ponto de vista evolucionário, não
faria mais sentido se estivessem cuidando de uma criatura viva de sua própria
espécie em lugar de um schnauzer?
Independente
do motivo da ausência de filhos – crescimento natural, escolha voluntária ou limitação anatomofisiológica -, essas pessoas
sem filhos ou que não desejam mais tê-los poderiam muito bem optar por atuar
como mentores na vida de crianças humanas reais, ao invés de canalizar todas
suas benquerenças para um angorá. Mas eu entendo a covardia implícita neste desequilíbrio.
Os
níveis de planejamento, investimento, responsabilidade e culpabilidade que
envolvem uma criança humana são infinitamente maiores. Se você machucar
seriamente uma criança - de forma intencional ou não -, é quase indubitável que enfrentará um processo junto ao Ministério Público ou Conselho Tutelar de
sua cidade.
Por
outro lado, você estará agindo dentro da lei se oferecer seu cão para adoção ou
entregá-lo para algum desconhecido via OLX porque está indo trabalhar em outra
cidade e seu apartamento não permite cachorros – ou não quer ter o
trabalho adicional de cuidar de um animal de estimação nesta nova etapa de sua
vida. E, quando ele apresentar alguma doença grave, pode levá-lo para ser
sacrificado em uma clínica veterinária, garantindo uma morte “digna e sem
sofrimento” – isso é ser “humano”.
OPÇÃO PELA SENSATEZ
De uma
perspectiva ambiental, podemos considerar que animais-crianças de estimação
fazem sentido: uma vez que a população humana alcançou números alarmantes,
substituir filhotes humanos por filhotes de outras espécies pode ser uma saída
para controlar o surto de Homo sapiens
no planeta. Não obstante, estaríamos trocando uma epidemia por
outra.
Saem as
crianças, entram os animais de estimação – que não possuem qualquer papel no
ecossistema, além de alimentar as misérias afetivas dos humanos. Se todos nós
fizermos essa opção, você consegue quantificar o impacto disso na economia e na
civilização como um todo? Ou acha mesmo que Rex e Totó irão substituir a
mão de obra, os consumidores, os eleitores, os contribuintes e os inovadores do
futuro?
Eu
prefiro surfe a futebol, carne ao invés de legumes, Pearl Jam ao invés de sertanejo, uísque ao invés de cerveja e isso está ok - são apenas predileções. Todavia,
no momento em que decido me empenhar ativa e exclusivamente no zelo e na defesa de bichos ao invés
de crianças humanas, alguma coisa está errada. Alguma coisa está muito errada e extrapolou as fronteiras da coerência.
Pessoas
que colocam cães ou gatos ou qualquer outro bicho em níveis de relevância acima
de sua própria espécie deveriam rever suas carências emocionais. Elas deveriam
crescer, sair dessa infância cheia de fugas egocêntricas e projeções dramáticas, e
procurar tratamento psicológico.
A verdade pode ser amarga, mas ela merece e deve ser evocada. É hora de repensar o culto aos animais de estimação e o fervor que muitos adultos dedicam ao altar desse fanatismo.
E devemos ter um mínimo de honradez para batizar essa doença como a doença que ela se tornou: o Transtorno dos Adoradores de Animais de Estimação. O bom senso, a razoabilidade e o discernimento que permeiam nossa rala inteligência certamente irão agradecer.
E devemos ter um mínimo de honradez para batizar essa doença como a doença que ela se tornou: o Transtorno dos Adoradores de Animais de Estimação. O bom senso, a razoabilidade e o discernimento que permeiam nossa rala inteligência certamente irão agradecer.
A DOENÇA DO MARTELO
Vez ou outra, sou surpreendido por notícias esdrúxulas de gentes que decidem numa canetada só pela internação de alguém em um leito de UTI (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10), sem uma auditoria lúcida sobre a disponibilidade leitos ou um parecer técnico sequer, ameaçando até de cadeia qualquer reles mortal que se oponha à sua determinação suprema.
Sou médico há mais de duas décadas. Perdi a conta do número de vezes em que me vi atendendo com a mínima infraestrutura ou sem QUALQUER estrutura mesmo, ferindo o próprio Código de Ética da profissão (sim, nós temos um e eu particularmente nutro um grande apreço por ele), que diz que ”é direito do médico recusar-se a exercer sua profissão onde as condições de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar a própria saúde ou a do paciente, bem como a dos demais profissionais” (CEM, Cap II, item IV).
Mas o paciente está ali e você está ali. Seu coração exige que você desdobre-se e dê um jeito. Que seus olhos virem pilhas de laringoscópio, que suas mãos transformem o ambu em um respirador pelo tempo que você aguentar, que você finja não sentir dor por saber que o cateterismo ou o centro de trauma que salvaria aquele paciente encontra-se a uma distância que vai além da capacidade dele manter-se vivo.
Enquanto isso ocorre aqui no subterrâneo do Olimpo, nossos 16,5 mil magistrados da caneta mágica despacham prescrições de internações de seus gabinetes.
Eles parecem não perceber que mantêm o país abarrotado de processos sem julgamento enquanto curtem seus 60 dias de férias anuais com abonos de 50%, recebendo mensalmente auxílio moradia de R$ 4.300, auxílio alimentação de R$ 1.600, auxílio transporte de R$ 1.100, auxílio despesas médicas de R$ 2.000 e uns trocados, custeio de 50% dos cursos de Mestrado e Doutorado, e até um inacreditável vale-livro de R$ 13.000 anuais para compra de materiais didáticos que possam auxiliar o magistrado em sua atividade (16).
Eles parecem não perceber o sangue que respinga em nossos sapatos – não nos deles - enquanto usufruem suas regalias, que podem variar de uma comarca (ou zona?) para outra. A maioria desses intocáveis, entocados nos 27 Tribunais de Justiça e nos 27 MPs estaduais, possuiu contracheques que ultrapassam em muito o teto constitucional (que era de R$ 33.000 quando escrevi esse texto): a média de rendimentos de juízes e desembargadores nos Estados é de R$ 41.802 mensais (algo como 260 reais/hora); a de promotores e procuradores de justiça, R$ 40.853 (255 reais/hora). Os presidentes dos Tribunais de Justiça apresentam média ainda maior: R$ 59.992 (374 reais/hora). Os procuradores-gerais de justiça, chefes dos MPs, recebem, também em média, R$ 53.971 (337 reais/hora).
Mas eu não quero salário. Não quero ganhar mais. Sério. Juro que estou satisfeito com o que me é pago, QUANDO é pago, SE é pago. Eu não pediria mais dinheiro. Ou melhor: pediria, mas não para mim.
Sabe a reforma do Fórum de Cuiabá que recebeu R$ 10 milhões?(11). E do Fórum Trabalhista de Florianópolis, que custou R$ 26,3 milhões?(12). A modernização do Fórum Autran Nunes no Ceará, que saiu pela bagatela de R$ 7 milhões, sem incluir outros serviços que ainda serão licitados, como a aquisição de equipamentos para o setor odontológico e do sistema de som e vídeo?(13). A ampliação e reforma do fórum de São Carlos, que recebeu R$ 7,4 milhões?(14). A construção do Fórum de São José dos Campos que saiu pela miudeza de R$ 30 milhões em uma das áreas mais nobres da cidade?(15).
Então. Eu pediria isso ao super-homem da caneta. Não que colocasse ar condicionado central no hospital inteiro, ou que disponibilizasse cadeiras de couro nos consultórios, ou sedãs pretos com motorista, ou fachadas de granito, etc.
Eu pediria mais leitos. Mais equipamentos. Mais remédios. Mais portas, mais sabedoria logística, mais meios para ajudar: a construção de um posto de saúde de 630 m2 custa cerca de R$ 550 mil (22). Para construir e equipar uma UTI de 33 leitos são necessários R$ 8 milhões – cerca de R$ 240.000 por leito (19). A construção e compra de equipamentos para um hospital regional de 150 leitos (sendo 30 de UTI) custa R$ 30 milhões – ou cerca de R$ 200.000 por leito (20, 21). Um leito hospitalar tem condição de rodar cerca de 5 pacientes/mês, e um hospital regional de 150 leitos adicionaria 9.000 internações em um ano àquela região, ajudando milhares de pessoas.
Mas, ao invés de pensar no grande, de pensar no macro, de pensar no conjunto da sociedade, o super-homem desce dos céus envolto em sua capa preta e, ante todos os holofotes, com um só movimento da poderosa esferográfica dourada, resfolegado em sua poltrona multi-ajustável e com a temperatura do gabinete assentada em 21 graus, ele salva o gatinho solitário preso na árvore.
Enquanto os flashes disparam e os heróis retornam para casa em seus Ford Fusion pilotados por Egos vestindo gravata e quepe, o Bom Senso se prostra na esquina, observando os carros com placa especial passarem.
E o Bom Senso olha para a poça d´água suja atropelada em velocidade e desprezo pelo cortejo, e se pergunta:
- No meio dessa surrealidade toda, quem vigia os vigilantes?
11 maio 2017
VOCÊ ACREDITA EM HOMEOPATIA?
Desde meados da década de 1990, a medicina vem empregando uma magnífica ferramenta de bom senso chamada MBE (ou Medicina Baseada em Evidências).
A MBE utiliza coletâneas de estudos randomizados, duplo-cegos, multicêntricos e placebo-controlados, realizando revisões sistemáticas e meta-análises destes dados para produzir um corpo sólido de conclusões com eficácia comprovada.
E o que o acumulado das evidências científicas até aqui dizem em alto em bom som com respeito à Homeopatia? Os dados mostram que a homeopatia não produz qualquer efeito superior ao uso de placebos.
Após décadas de pesquisas, não foi possível provar por A + B, sem a menor sombra de dúvida, de que a Homeopatia é eficaz. Na verdade, ela parece ser feita só de água, expectativas e fé.
Eu não sou fã de crendices. Prefiro Ciência.
10 maio 2017
TOCOLÍTICOS E TRABALHO DE PARTO PREMATURO
1. Os agentes tocolíticos só devem ser utilizados entre 24 e 32 semanas de gestação.
2. DACTIL-OB (piperidolato + hesperidina + ácido ascórbico revestido) e BUSCOPAN: Não existem estudos apoiando o uso destes medicamentos como métodos tocolíticos de curto ou longo prazo. Até que estas evidências surjam, estes medicamentos podem ser considerados placebos.
2. PROGESTERONA ORAL: parece ser eficaz, talvez por um mecanismo combinado de efeitos imunológicos (redução da produção de prostaglandinas) e ação direta sobre a contratilidade do miométrio.
3. PROGESTERONA VAGINAL: tão eficaz quanto cerclagem cervical em mulheres com gestações não-gemelares, antecedente de parto prematuro e cérvice uterina menor que 25 mm.
4. AGONISTAS BETA-ADRENÉRGICOS (BETAMIMÉTICOS): são eficazes, mas devem ser utilizados com cautela devido aos múltiplos efeitos adversos. Não existem dados evidenciando a superioridade de um betamimético específico em relação aos demais.
5. MAGNÉSIO ORAL: tem o mesmo efeito que placebo. Não existem mais evidências que apoiem o uso deste medicamento como tocolítico de primeira linha
6. ANTI-PROSTAGLANDINA: a Indometacina é o agente desta classe mais estudado. Mesmo quando utilizados antes de 32 semanas de gestação e por um ciclo inferior a 48 horas, a incidência de oligodramnia e outras complicações é alta demais para justificar seu uso como tratamento de manutenção após cessação do trabalho de parto prematuro.
7. ANTAGONISTAS DE RECEPTORES DE OXCITOCINA (AROs): o Atosiban é o agente desta classe mais estudado. Ele não parece ser mais eficaz que o uso de placebo, betamiméticos ou bloqueadores de canais de cálcio. Os AROs ainda aguardam mais estudos clínicos para determinar seu verdadeiro papel na terapia tocolítica.
8. BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO: a Nifedipina é o agente desta classe mais estudado. Não existem evidências conclusivas de sua eficácia. Quando associados a drogas anti-prostaglandinas, parecem exibir a maior probabilidade de retardamento do parto e melhora do curso clínico materno-fetal.
CONCLUSÃO
A literatura disponível sobre terapia tocolítica de manutenção é cheia de conflitos. Existem debates óbvios quando às doses, o período de tratamento e as relações de risco-benefício.
Várias meta-análises não mostraram qualquer diferença significativa entre a eficácia dos vários tocolíticos atualmente disponíveis versus placebo no prolongamento da gestação de mulheres com trabalho de parto extremamente prematuro, ou na redução de óbitos perinatais.
Se desejar ler mais sobre o assunto, recomendo a excelente revisão de 2009 sobre Tratamento do trabalho de parto prematuro realizada pelo Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP (Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.31 no.8 Rio de Janeiro Aug. 2009). O texto, em português, está disponível neste link.
06 maio 2017
O SUPRA SUMO HUMANO
Somos o supra sumo da natureza ou apenas gentilmente nos nomeamos assim?
Segundo Michael Shermer ("Cérebro & Crença), "a inteligência é o resultado previsível dos poderes da natureza, por que apenas uma espécie hominídea conseguiu sobreviver por tempo suficiente para fazer a pergunta: O que aconteceu com aqueles australopitecos bípedes e usuários de ferramentas: anamensis, afarensis, africanus, aethiopicos, robustus, boisei e garhi?
O que aconteceu com aqueles homos de grande cérebro produtores de cultura: habilis, rudolfensis, ergaster, erectus, heidelbergensis e neandertalenses? Se os cérebros eram tão grandes, por que todas essas espécies, menos uma, foram extintas?
Historicamente, experimento após experimento encontramos a mesma resposta: somos um feliz acaso da natureza, uma singularidade da evolução, uma gloriosa contingência.
É tentador cair na velha armadilha de todos os animais buscadores de padrões: escrever a própria história como padrão central, para encontrar propósito e significado nesse cosmo gloriosamente contingente. Mas o alarme dos céticos deve soar sempre que alguém afirmar que a ciência descobriu que nossos desejos mais profundos e nossos mitos mais antigos são verdadeiros.
Se existe uma inevitabilidade nessa história, é que o animal que busca um propósito se descobrirá como o propósito da Natureza" - e essa é a ideia egoísta que está no núcleo de todas as crenças em deuses sagrados e toda fé de cunho religioso e antropogeocêntrico.
ACUPUNTURA FUNCIONA?
Não, não funciona. Simples assim - ainda que os fãs da pseudo-medicina baseada em Truques & Mágicas insistam no contrário.
Se você discorda disso e acha que espetar agulhas na pele de alguém serve para alguma coisa nesse mundo além de produzir um efeito placebo, lanço um desafio: ao invés de ficar aí esperneando e bradando sua revolta vazia aos quatro ventos, levante suas próprias evidências científicas irrefutáveis e cole-as aqui.
Mas ATENÇÃO: "opinião pessoal" não é evidência científica, ok? E provas testemunhais puntuais também não - essas últimas são boas apenas para formar júris, seitas e igrejas, mas não sustentam o bom e velho método científico.
Acupuntura não funciona, lamento informar. E papai noel também não existe. Ainda estou sumarizando uma revisão sistemática da literatura especializada sobre o bom velhinho de roupas vermelhas e prometo publicar o resultado dessa metanálise em breve. Mas, com relação à acupuntura, as evidências REAIS estão resumidas no link que acompanha este post. Espero que ilumine as suas ideias.
SOBRE BALEIAS AZUIS E A NAVALHA DE OCCAM
A Intuição pode ser o ponto de partida para o Conhecimento, mas a Natureza é por si mesmo econômica, optando invariavelmente pelo caminho mais simples.
Formulada pelo filósofo medieval Guilherme de Occam (por vezes grafado Ockham), a lex parsimoniae (lei da parcimônia) é um princípio, solucionador de problemas, filosófico e reducionista, que permite distinguir entre teorias equivalentes, guiando a Intuição na navegação entre Crença, Superstições e Verdades.
Em sua formulação mais simples, essa teoria, que ficou conhecida como a Navalha de Occam, dirá que, entre duas teorias com iguais resultados, que explicam ou preveem os mesmos fenômenos, devemos sempre escolher a teoria mais simples.
Nesses tempos de guerras de propaganda, mídias sociais e lendas urbanas auto-realizáveis (vide a paranoia causada pela imbecilidade alucinatória coletiva chamada Baleia Azul, por exemplo), a Navalha de Occam se tornou um farol na tempestade e um método a ser cultivado.
Aprenda o que essa ferramenta pode fazer por você e evolua. Ou continue em suas fraldas descartáveis acreditando em unicórnios cor de rosa, papai noel, renas que voam, pandemias assassinas, abduções alienígenas, forças ocultas, bugs do milênio e baleias azuis psiquiátricas. A escolha é sua.
18 abril 2017
VOCÊ ACREDITA EM MEDICINA ALTERNATIVA?
A Medicina
Baseada em Evidências (MBE) aplica o método científico à prática médica,
permitindo que os profissionais de saúde tomem suas decisões de forma consciente,
explícita e judiciosa, com base nas melhores evidências atuais disponíveis.
Apesar
dos defensores da medicina alternativa reconhecerem que o efeito placebo pode
ter um papel nos benefícios que algumas terapias produzem, eles também salientam
que este “detalhe” não diminui a validade dessas abordagens. Os praticantes
acreditam que a medicina alternativa pode oferecer ganhos no sentido de
permitir um “empoderamento” dos pacientes, ampliando as possibilidades de
escolha do público. Contudo, os pesquisadores que avaliam as abordagens
alternativas utilizando métodos científicos preocupam-se com este ponto de
vista, uma vez que ele é incapaz de avaliar a possível ineficácia dos
tratamentos alternativos.
Desde
que os tratamentos alternativos sejam utilizados concomitantemente aos tratamentos
convencionais, a maioria dos médicos enxerga a medicina complementar como um
recurso aceitável. O risco da medicina alternativa interferir com a medicina
convencional é minimizado quando a prática alternativa é acionada apenas após
exaustão dos recursos terapêuticos convencionais. Muitos pacientes sentem que a
medicina alternativa é útil para lidar com doenças crônicas para as quais a
medicina convencional oferece apenas um suporte, mas nenhuma possibilidade de
cura.
Uma vez
que muitos tratamentos alternativos alcançaram a prática médica, precisamos
determinar uma coisa: não podem existir DUAS formas de medicina – uma convencional
e outra alternativa. Deve existir apenas UMA forma de medicina: aquela que foi
adequadamente testada e que funciona. Uma medicina que não foi submetida a
testes, que se recusa a ser escrutinada pelo método científico e aceitar suas
conclusões, ou que não provou irrefutavelmente sua eficácia, não deve ser
chamada de medicina, ela não merece o rótulo de Ciência, mas de curandeirismo.
Uma vez
que um determinado tratamento foi rigorosamente testado, não interessa mais se
ele era considerado alternativo ou não: se ele se mostrou razoavelmente seguro
e eficaz, terá sua validação científica e poderá ser considerado uma prática ética.
Por este
motivo, muitos dizem que não existe “medicina alternativa”. Existe apenas uma
medicina, aquela cientificamente comprovada, apoiada por evidências sólidas.
Não interessa se um determinado recurso é Ocidental ou Oriental, se é
convencional ou alternativo, se envolve técnicas de mente-corpo ou genética
molecular. Estes aspectos em si são irrelevantes, exceto por propósitos
históricos ou curiosidades culturais. Como um fiel defensor da ciência e das
evidências, acredito que devemos focar no que é realmente importante: o
paciente, a doença, o tratamento proposto, e os dados sobre segurança e eficácia
da abordagem escolhida.
Não
interessa se uma conduta é convencional ou alternativa: o que interessa é se
ela está à altura dos padrões exigidos pelo método científico. Se estiver, esta
conduta será muito bem vinda. Se não estiver, ela deve ser debatida com extrema
cautela. Se provar ser maléfica, deverá ser sumariamente eliminada do rol de recursos terapêuticos.
Muitas
formas de medicina alternativa são rejeitadas pela medicina convencional, pois
a eficácia desses tratamentos não pode ser demonstrada por meio de estudos
clínicos controlados, randomizados e duplo-cego. Em contrapartida, os
medicamentos convencionais que chegam ao mercado só obtém seu registro e
liberação para venda após terem sido submetidos a estes testes, comprovando sua
eficácia.
O alívio
sintomático produzido por uma determinada abordagem alternativa pode decorrer do efeito placebo, ou
da recuperação natural do organismo, ou da natureza cíclica natural da própria
doença (regressão espontânea), ou do fato de que aquela pessoa jamais esteve
verdadeiramente doente. Os defensores da medicina alternativa dizem que esses
raciocínios também podem ser aplicados aos casos onde a medicina convencional foi
utilizada. Todavia, os críticos das práticas alternativas observam que esses
raciocínios não respondem pela eficácia das práticas convencionais validadas quando
submetidas a testes clínicos duplo-cego.
Contra
fatos não há argumentos – e a MBE respalda-se em fatos, em estudos clínicos bem
desenhados, em revisões sistemáticas e meta-análises criteriosas – e não em
pressupostos, crenças, doutrinas ou provas testemunhais isoladas.
As pessoas
devem ser livres para escolher qualquer tratamento que lhes apetecer, mas elas
DEVEM ser expressamente informadas quanto à segurança e eficácia de suas escolhas.
Aquelas que optam por recursos alternativos podem achar que estão optando por
uma forma segura e eficaz de medicina, quando na verdade estão recebendo apenas
remédios de curandeiro.
Algumas
pessoas que obtiveram sucesso ao tratar um problema de menor importância utilizando
recursos alternativos podem se convencer dessa eficácia e extrapolar a
expectativa de sucesso, utilizando mais recursos alternativos, desta vez para
resolver doenças mais sérias, muitas vezes potencialmente letais.
Exatamente
por este motivo, as terapias que se baseiam apenas no efeito placebo para
definir seu sucesso são perigosas: abordagens terapêuticas que não possuem o
suporte de evidências científicas podem levar alguns indivíduos a menosprezar os
tratamentos convencionais sabidamente eficazes.
A
oportunidade de uma abordagem alternativa pode resultar em um custo extra para a
abordagem convencional: o sujeito pode investir grandes somas de tempo e
dinheiro em tratamento ineficazes, apenas para mais tarde flagrar-se sem ambos
(dinheiro e tempo) e fora da janela de oportunidade para empregar um tratamento
validado pela MBE.
Deveríamos
nos preocupar em adicionar mais e melhores pesquisas para provar a eficácia das
terapias complementares antes de incorporá-las formalmente à prática médica –
mas infelizmente, não é isto que vem ocorrendo.
Deveríamos
buscar evidências clínicas e biológicas suficientemente plausíveis para
justificar o investimento de tempo e energia na exploração dos méritos da
medicina alternativa – mas infelizmente, também não é isto que vem ocorrendo.
Para a
medicina tradicional, a vida humana é considerada preciosa, e NENHUM risco se
justifica quando se coloca na balança a chance de prejudicar a saúde de um
indivíduo. Se este é também o mantra das terapias alternativas, elas deveriam
se submeter ao escrutínio de estudos clínicos bem desenhados.
Se as
terapias alternativas funcionam, elas deveriam aceitar e desejar essa
validação. Mas você sabe de alguém disposto a testar sua fé por meio do método
científico?
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