Mostrando postagens com marcador fluoxetina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fluoxetina. Mostrar todas as postagens

20 dezembro 2014

Antidepressivos, Amor e Anamneses

© Alessandro Loiola
 
 
O uso prolongado de antidepressivos tem sido associado a um nível importante de “anestesia emocional”, tanto em homens quanto em mulheres. 
 
Utilizando questionários validados, um grupo de pesquisadores recentemente testou 200 adultos portadores de depressão leve ou moderada (64% mulheres, idade média de 41,2 anos) e descobriu que o uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) resultava em um efeito de “ah, tanto faz...” em relação ao cônjuge, especialmente em homens. Em contrapartida, o uso prolongado de antidepressivos tricíclicos (ATC) associou-se de modo significativo ao comprometimento da função sexual, particularmente em mulheres. Os resultados deste estudo foram apresentados no 27º Congresso do Colégio Europeu de Neuropsicofarmacologia. 
 
Esta foi a primeira pesquisa sistemática demonstrando os efeitos de “anestesia emocional” associados aos antidepressivos. Apesar da amostragem pequena, a grande jogada dos cientistas foi tentar medir aspectos da qualidade de vida que em geral não são abordados de modo tão profundo, como amor e vida sexual.  
 
Quando abordamos nossos pacientes de um modo geral, nos preocupamos apenas se a medicação irá tirá-los ou equilibrá-los naquele problema específico. Mas talvez seja hora de começar a perguntar sobre outras coisas. Não existe um motivo cientificamente sólido para NÃO conversar sobre amor, afeto, vida sexual, sonhos e emoções diversas durante a consulta. Estas esferas da existência afetam tanto o diagnóstico quanto o tratamento, e me parece uma péssima ideia deixá-las voluntariamente de fora da anamnese.

05 setembro 2014

SEM TOALHA E DE PONTA CABEÇA

© Dr. Alessandro Loiola
dralessandroloiola.blogspot.com/
https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/saudeparatodos



A leitora escreve: “Dr. Loiola, o que leva um ser humano sem problemas mentais a tê-lo? Minha mãe nasceu uma pessoa normal, cresceu, casou, mas no primeiro filho digamos que jogou a toalha e virou de ponta cabeça. Já fez vários tratamentos psiquiátricos, tomou diversos medicamentos ao mesmo tempo e agora, justamente o remédio que estava dando certo, foi retirado do mercado. Não sei como ela irá ficar. Talvez tenha novas crises. Queria uma explicação. Porque uma mente sã fica ruim como um computador cheio de vírus precisando ser formatado? Desde já agradecida, Fulana de Tal”.

Lamentavelmente, ela não forneceu outras pistas sobre o mal que estava afetando a mãe, mas após mais de uma década perdendo os fios de cabelo no consultório, é possível compreender a natureza por trás da moléstia.

Com a melhora na qualidade de vida (não ria: ela melhorou sim, até mesmo em países do Quinto Mundo como o Brasil), conseguimos um controle paliativo razoável para boa parte das ameaças oferecidas por vírus, bactérias, diabetes, hipertensão arterial, tumores, etc.

Entretanto, para manter a máquina tecnológica avançando, precisamos de uma sociedade extremamente produtiva e trabalhadora, capaz de suportar pressões inimagináveis em outros tempos. Esse ciclo de pressão-produção-pressão não poderia levar a outro lugar, e atingimos o nível em que a mesma tecnologia que protege a saúde de seu corpo, ameaça agora a saúde de sua mente.

A cada ano, cerca de 40% das pessoas experimentam sentimentos intensos de tristeza, infelicidade e desapontamento. Destas, 20% desenvolverão depressão propriamente dita. Em números tupiniquins, significa o mesmo que 10 milhões de brasileiros deprimidos anualmente.

Os transtornos psiquiátricos possuem várias causas. Por exemplo: gêmeos idênticos possuem uma concordância de 60% para depressão. Alterações bioquímicas no cérebro e problemas hormonais (como redução na produção de cortisol ou melatonina) também possuem sua parcela de culpa. Mas são os eventos estressantes os responsáveis por cerca de 60% dos casos de depressão e distúrbios da ansiedade. A gota d’água de estresse pode ser representada pelo nascimento de novos filhos, por uma demissão esperada ou não, pelo término de um relacionamento ou pelo choque de uma doença crônica.

O diagnóstico clássico de depressão depende da presença de certos sinais e sintomas por um determinado período de tempo. Além da perda de interesse na vida diária, é preciso que 4 das seguintes manifestações estejam presentes de modo contínuo por pelo menos duas semanas:

- Perda do apetite com perda de peso;
- Insônia e/ou sonolência durante o dia;
- Agitação ou lentidão excessiva;
- Diminuição do apetite sexual;
- Evidência de problemas de concentração;
- Sentimento de culpa ou auto-crítica exagerada;
- Pensamentos (ou tentativas) recorrentes de suicídio.

Nem toda pessoa deprimida ou ansiosa necessita de remédios. O acompanhamento psicológico, sem drogas, é capaz de resolver os casos mais simples e certamente deve fazer parte do tratamento dos episódios mais graves de depressão.

Caso os anti-depressivos sejam necessários, existem características e dicas que podem facilitar a escolha entre as dezenas de marcas disponíveis. Por exemplo: muitos antidepressivos causam sono. Pessoas que necessitam manter o nível de atenção para dirigir ou operar máquinas podem se beneficiar do uso de antidepressivos que não causam tanta sonolência, como a Paroxetina.

Na depressão relacionada à menopausa, a terapia de reposição hormonal pode resolver os sintomas, mas este recurso não deve ser empregado em mulheres com alto risco para câncer de mama. Muitos antidepressivos tradicionais não funcionam muito bem em adolescentes. E por aí vai.

27 agosto 2014

A FRASQUEIRA DE PANDORA: A VERDADEIRA VERDADE SOBRE OS ANTIDEPRESSIVOS

© Dr. Alessandro Loiola
dralessandroloiola.blogspot.com/
https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/saudeparatodos

A medicina tem como “patrono” Hipócrates, famoso estudioso do corpo humano na antiga Grécia. Mas na minha opinião, Hipócrates não está com nada. Médicos, dentistas, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, enfermeiros e adjacências, deviam todos agradecer mesmo à Pandora.

Na Mitologia Grega, Prometeus foi um sujeito bacana. Ele entregou aos homens o segredo do fogo, um conhecimento que gerou crises de ciúmes no Olimpo. Afinal, mexer com fogo não era coisa para qualquer um. Em resposta, Zeus arquitetou uma de suas vinganças maquiavélicas: encomendou aos demais deuses uma mulher “perfeita”, dotada de todos os encantos, que obviamente foi batizada de Pandora (Pan = todos, Dora = encantos).

Pandora foi entregue como um presente para Epimeteus, o titã irmão de Prometeus. Apesar dos conselhos do irmão para que não a aceitasse (“Olha, Zeus não é flor que se cheire e tem coelho neste mato...” – dizia o email de Prometeus), Epimeteus se apaixonou perdidamente por Pandora e ambos foram morar juntos em um dois quartos com suíte. Entre os pertences de Pandora estava uma caixa, com recomendações explícitas para que jamais fosse aberta.

Um belo dia enquanto o mundo ainda era um Paraíso e Epimeteus assistia à final do campeonato brasileiro, Pandora foi mordida pela curiosidade e cismou de dar uma espiada na caixa. Bastou abrir uma pequena fresta para que lá de dentro subitamente saíssem a pobreza, o crime, a culpa, a angústia, a tristeza, as doenças, etc. Da Caixa de Pandora foram libertados os males que povoam o mundo até os dias de hoje, mas ela também libertou a Esperança, o fio salvador capaz de nos manter lutando em meio às adversidades.

Em última análise, Pandora e sua Caixa garantiram o mercado de trabalho dos profissionais de saúde, que há milênios correm atrás do prejuízo tentando desvendar os segredos e as respostas para as mais variadas doenças. Nem sempre este é um trabalho recheado de verdades absolutas. Algumas destas respostas podem ser bastante traiçoeiras.

A verdade está lá fora

Ao abrir sua caixa, a mítica Pandora libertou as doenças no mundo. Felizmente, entre os vários males que escaparam, os deuses haviam colocado um consolo, a Esperança. E a Esperança nos fez acreditar que para todo mal existe uma cura: se Pandora tinha as doenças guardadas em uma caixa, ela certamente possuía uma frasqueira para guardar utensílios, cosméticos, duas aspirinas, uma caixa de antibióticos, a cura do câncer, etc.

Nas últimas décadas, as doenças mentais que escaparam da Caixa de Pandora vêm ganhando destaque, a ponto da maioria dos médicos concordar que o século XXI será o século dos transtornos da mente. Estamos relativamente bem aparelhados para lidar com a maioria das infecções, temos recursos paliativos para boa parte dos tumores malignos, mas a mente... ah, a mente... essa ainda dá um baile na gente. Não é de surpreender que a indústria dos antidepressivos movimente várias centenas de milhões de dólares por ano. Estamos vasculhando a frasqueira de Pandora em busca daquela única pílula capaz de sumir com todos os problemas e pintar o mundo novamente de azul e cor de rosa.

Foi neste contexto que, no final da década de 1980, os cientistas acharam ter descoberto algo. Há muito se sabia que a Serotonina, uma substância utilizada para transmitir informações entre os neurônios, estava envolvida com a sensação de bem estar e a percepção de “felicidade”. Quanto mais serotonina no seu cérebro, mais você ri à toa. Quanto menos serotonina, mais segundas-feiras você encontra na sua semana. Em 1987, o lançamento da Fluoxetina inaugurou a era dos Inibidores Seletivos de Recaptação da Serotonina - ou ISRS -, antidepressivos que agem diretamente sobre os níveis cerebrais de Serotonina. Não demorou muito para que a Fluoxetina fosse elevada à categoria de panacéia para toda sorte de tristeza e angústias – e virasse uma máquina de fazer dinheiro.

Entretanto, como qualquer bom casamento é capaz de provar, bastaram alguns anos de lua-de-mel para que os problemas começassem a surgir. Em junho de 2001, um júri nos EUA determinou que um certo antidepressivo da família dos ISRS foi o causador de uma crise psicótica em um homem. Durante o surto, o homem assassinou sua mulher, a filha e a neta, cometendo suicídio logo em seguida. A família processou o laboratório e ganhou a causa e uma indenização de 8 milhões de dólares. Outros casos se seguiram, e a cada dia mais e mais pessoas vêm acionando judicialmente médicos e companhias farmacêuticas por motivos similares: antidepressivos que matam.

Do meu ponto de vista, o problema teve início justamente com a propaganda em torno da expectativa de “felicidade-a-uma-pílula-de-distância”. Isto fez com que os ISRS fossem recomendados para tudo quanto é tipo de queixa. Ah, você não dorme? Tome um antidepressivo. O quê, você dorme demais? Tome mais antidepressivo. Você não dorme nem fica acordado, muito pelo contrário? Tudo bem, tome montes de antidepressivos! Mas ei, os antidepressivos ISRS devem ser empregados dentro de critérios específicos de indicação. E principalmente: se utilizados em excesso, podem provocar acúmulos tóxicos de Serotonina no cérebro.

Quando os níveis de Serotonina superam o tolerável, seu sistema nervoso começa a apresentar sintomas de envenenamento, incluindo tics nervosos, insônia, vertigens, alucinações, náuseas, disfunção sexual, sensações de “choques” pelo corpo, pensamentos e comportamentos auto-mutilantes, suicidas ou homicidas. Infelizmente, a maioria dos médicos e pacientes esquece de prestar atenção para este risco e não se mantém alerta para os sinais de que algo não vai bem – e que este algo pode ser um efeito colateral potencialmente grave do antidepressivo.

Você deve ter consciência de que não somos robôs. Ninguém é. Um pouco de angústia, tristeza e desânimo fazem parte da vida de cada um – lembre-se de agradecer à Pandora, certo? Se os sintomas depressivos que você apresenta sugerem baixos níveis cerebrais de Serotonina, existem vários recursos naturais e dietéticos que você pode empregar para tentar levantar seu humor ANTES de partir para o uso de drogas mais fortes. Além disso, lá no fundo, dependerá de VOCÊ – não de seu médico e certamente não de uma pílula – encontrar o caminho para superar as dificuldades desse mundo.

Sua VONTADE sempre terá mais peso que qualquer receita tirada da frasqueira de Pandora.

19 agosto 2014

Altos níveis de IL-6 em crianças = risco de transtornos psiquiátricos na idade adulta

© Dr. Alessandro Loiola
https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/saudeparatodos


Pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, descobriram que crianças com níveis elevados de Interleucina-6 (IL-6) aos 9 anos de idade apresentam uma probabilidade 55% maior de apresentarem depressão e 81% maior para surtos psicóticos a partir dos 18 anos.

Aos 18 anos, 20,5% dos adolescentes que se encontravam no terço maior dos níveis de IL-6 na infância haviam sido diagnosticados com depressão, contra 18% daqueles no terço médio e 13,6% daqueles no terço inferior. O estudo foi publicado online na edição de agosto/2014 da revista JAMA Psychiatry.

Estes números possuem implicações práticas (e epidemiológicas): a depressão que surge na adolescência pode estar sendo biologicamente preparada na infância. E como a IL-6 é um mediador inflamatório, medidas simples para reduzir seus níveis no organismo como, por exemplo, melhorar a estabilidade do nível familiar (o estresse do relacionamento interfamiliar desequilibrado aumenta os níveis de Il-6), seguir dieta saudável e praticar atividades físicas regularmente, podem e certamente irão repercutir na saúde mental do indivíduo lá na frente.

A associação entre IL-6 e transtornos psiquiátricos pode abrir uma nova frente de recursos farmacológicos para tratar e prevenir estes problemas. Por conta deste pequeno detalhe, pode ter certeza, muitos laboratórios farmacêuticos estão sorrindo neste exato momento.