20 agosto 2014

Problemas mentais em crianças estão aumentando

© Dr. Alessandro Loiola
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Apesar da quantidade de crianças com limitações físicas ter diminuído 12% nos EUA na última década, o número de crianças como limitações relacionadas a problemas de desenvolvimento neurológico ou mental aumentou em 21% no mesmo período. Este dado foi apresentado na nova edição da revista Pediatrics (2014;134:530-538).

Crianças vivendo na linha da pobreza apresentam os maiores índices de limitação (102 casos para cada 1000 pessoas), mas – curiosamente – aquelas vivendo em lares com renda acima de 4 vezes o salário mínimo apresentaram o maior aumento no número de casos notificados (acréscimo de 28% em 10 anos contra 10% em 10 anos para os lares mais pobres).

Ainda que a pesquisa não tenha sido feita para determinar as causas do aumento, os autores do estudo especularam que talvez a diminuição do estigma tenha contribuído para o aumento: os pais agora estão deixando de esconder as crianças com transtornos mentais e passaram a procurar ajuda ativamente.

Os profissionais de saúde também parecem estar mais atentos para o problema, e os diagnósticos de Autismo (em seus vários espectros) e TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade) estão se tornando mais comuns.

Se você convive com crianças, sabe como perceber se o desenvolvimento psico-motor dela está indo de acordo com o esperado? Se não sabe, tá esperando o quê? Google it !

19 agosto 2014

Altos níveis de IL-6 em crianças = risco de transtornos psiquiátricos na idade adulta

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Pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, descobriram que crianças com níveis elevados de Interleucina-6 (IL-6) aos 9 anos de idade apresentam uma probabilidade 55% maior de apresentarem depressão e 81% maior para surtos psicóticos a partir dos 18 anos.

Aos 18 anos, 20,5% dos adolescentes que se encontravam no terço maior dos níveis de IL-6 na infância haviam sido diagnosticados com depressão, contra 18% daqueles no terço médio e 13,6% daqueles no terço inferior. O estudo foi publicado online na edição de agosto/2014 da revista JAMA Psychiatry.

Estes números possuem implicações práticas (e epidemiológicas): a depressão que surge na adolescência pode estar sendo biologicamente preparada na infância. E como a IL-6 é um mediador inflamatório, medidas simples para reduzir seus níveis no organismo como, por exemplo, melhorar a estabilidade do nível familiar (o estresse do relacionamento interfamiliar desequilibrado aumenta os níveis de Il-6), seguir dieta saudável e praticar atividades físicas regularmente, podem e certamente irão repercutir na saúde mental do indivíduo lá na frente.

A associação entre IL-6 e transtornos psiquiátricos pode abrir uma nova frente de recursos farmacológicos para tratar e prevenir estes problemas. Por conta deste pequeno detalhe, pode ter certeza, muitos laboratórios farmacêuticos estão sorrindo neste exato momento.

Gestantes em trabalho de parto prematuro não estão recebendo os remédios que deveriam

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Um estudo realizado pela OMS e publicado na respeitada revista Lancet em agosto/2014 mostrou que metade das mulheres com sintomas de trabalho de parto prematuro (TPP) não recebem as medicações necessárias para o problema.

A pesquisa avaliou mais de 300.000 partos com mais de 22 semanas de gestação  ocorridos entre maio de 2010 e dezembro de 2011, englobando 359 hospitais em 29 países distribuídos na África, Ásia, America Latina e Oriente Médio. Dos partos contabilizados, 6% eram de pré-termos.

Os cientistas procuraram determinar como os médicos assistentes estavam utilizando corticoides e tocolíticos nas gestantes em TPP – estas drogas de baixíssimo custo estimulam a maturação pulmonar dos fetos e inibem as contrações e a progressão do trabalho de parto.

Das mulheres em TPP entre 26-34 semanas, apenas 52% receberam tratamento com corticoides; entre 22-25 semanas, 19%; e entre 35-36 semanas, 24%. Das mulheres que apresentaram parto pré-termo espontâneo e não-complicado, apenas 48% receberam o tratamento. No geral, das mulheres que apresentavam indicação formal de tratamento para evitar o TPP, apenas 18% receberam corticoides E tocolíticos.

Estes dados são assustadores: o não-emprego correto destes medicamentos expõe mães e bebês a riscos tão absurdos quanto desnecessários. Entenda: apesar das mulheres em trabalho de parto prematuro entre 26 e 34 semanas terem indicação formal de tratamento com corticoides, apenas metade recebeu a medicação. Daquelas com indicação de tocolíticos, apenas cerca de duas em cada 10 receberam. E daquelas com indicação de ambos tratamentos, apenas 4 em cada 10 foram tratadas.

Medicina não é um jogo. Ao lidar com pacientes, sempre achei que mais grave do que não ter um determinado recurso terapêutico é tê-lo e ser incapaz de utilizá-lo - ou ignorante demais para tanto, o que dá quase sempre no mesmo.

Medicamento contra insônia dobra o número de atendimentos em unidades de emergência


Um relatório emitido recentemente (2014) nos EUA pela SAMHSA (Substance Abuse and Mental Health Services Administration) mostrou que o número de atendimentos nas unidades de emergência devido uso excessivo de zolpidem, uma droga aprovada pelo FDA para o combate da insônia, praticamente dobrou durante os períodos de 2005-2006 e 2009-2010.

Em 2010, foram atendidas mais de 20.000 pessoas com efeitos colaterais potencialmente graves relacionado a este remédio - 68% eram mulheres. A associação de zolpidem com outras substâncias (como diazepam, analgésicos narcóticos e mesmo bebidas alcoólicas) potencializa absurdamente o efeito sedativo da medicação. Cerca de 26% dos pacientes atendidos terminaram necessitando internação em uma unidade de tratamento intensivo.

Graças à alta incidência de reações adversas, o órgão solicitou aos fabricantes que diminuíssem em 50% a dose recomendada para mulheres. Penso que seria prudente também usar o mesmo parâmetro para os homens.

Vários estudos mostram que 96% dos atendimentos de urgência envolvendo tentativa de suicídio em pacientes entre 45 e 64 anos de idade estão relacionados ao abuso de medicamentos (de venda livre ou controlados). Destes casos, 48% envolvem remédios para ansiedade e/ou para insônia.

Medicações contra insônia, ansiedade e depressão podem ser benéficos, mas devem ser empregados com bastante critério e de forma monitorada. Tanto médicos quanto pacientes devem discutir abertamente sobre os riscos e as reações adversas de qualquer medicação, procurando uma alternativa viável sempre que possível. A resposta para os problemas da vida NUNCA estarão em um comprimido escondido em um blíster ou uma pequena caixa de papel.

18 agosto 2014

O Uso de cocaína pode aumentar o risco de uma pessoa sofrer um derrame?

© Dr. Alessandro Loiola
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Um estudo recente do Centro Nacional de Epidemiologia & Instituto de Saúde Carlos III, da Espanha, mostrou que usuários de cocaína possuem um risco até 20 vezes maior de sofrer um derrame (AVC) em comparação a não-usuários.

Esta foi a primeira revisão sistemática que avaliou e sumarizou as evidências científicas de outros estudos epidemiológicos abordando o uso de cocaína e a incidência de AVC. A pesquisa foi publicada na edição de setembro/2014 da prestigiada revista Drug and Alcohol Dependence.

A cocaína atua aumentando a pressão arterial, a frequência cardíaca e resistência vascular no sistema nervoso central. Estes eventos reduzem o fluxo sanguíneo e o aporte de oxigênio cerebral por várias horas, podendo resultar em AVC isquêmico ou hemorrágico. Além disso, a cocaína intensifica a coagulação sanguínea e pode produzir arritmias cardíacas – ingredientes perfeitos para a formação de êmbolos no coração que são em seguida disparados em direção ao cérebro.

Certamente, a cocaína não é uma escolha segura para “fazer a cabeça”.

PÍLULA SEM MISTÉRIOS

Toda a revolução sexual dos anos 60 e 70 baseou-se na tríade “emancipação feminina + carros mais confortáveis + pílulas anticoncepcionais”. Para extrair o melhor da modernidade, nunca é demais entender exatamente o funcionamento de cada um desses fatores. Como acredito que você encontrará boas informações sobre os 2 primeiros assuntos em alguma outra parte, vou me resignar com o terceiro fator.

A pílula convencional é composta por uma dose pequena de Estrógeno e uma dose moderada de Progestógeno, dois hormônios femininos. O estrógeno mais utilizado é o Etinil-estradiol. O risco de efeitos colaterais está relacionado diretamente ao conteúdo de estrógenos da sua pílula, e não à duração do uso. A maioria das mulheres pode utilizar a pílula até os 50 anos de idade, tranqüilamente.

Todos os progestógenos são derivados da testosterona e, por isso, possuem alguns efeitos masculinizantes. Os progestógenos mais novos, como levonorgestrel (o mais utilizado), gestodeno e acetato de ciproterona, apresentam menos efeitos colaterais neste sentido.

Estudos mostram que a combinação de hormônios na pílula reduz a incidência de vários distúrbios, incluindo problemas menstruais, câncer e cistos ovarianos, doença inflamatória pélvica, tumores no endométrio, doenças benignas da mama e alterações na glândula tireóide. Em contrapartida, a pílula pode aumentar seu risco de trombose venosa, embolia pulmonar e ataque do coração. Mulheres que fumam e tomam pílula são consideradas um grupo de altíssimo risco para morte súbita cardíaca, especialmente a partir dos 35 anos.

Toda mulher anseia pelo controle de sua vida, mas muitas andam por aí tomando pílula sem saber que estes hormônios adicionais podem dar um nó nas rédeas do seu destino. Por isso, anote aí algumas pegadinhas que podem ser úteis na sua próxima visita ao médico:

- Se você nunca tomou pílula, uma boa primeira escolha são os anticoncepcionais monofásicos, aqueles em que você toma um mesmo comprimido ao longo de toda a cartela. Inicie com uma dose diária de 20 a 30 microgramas de etinilestradiol.

- Prefira pílulas com altas doses de estrógeno (p.ex.: 50 microgramas) se você sofre de epilepsia ou apresenta problemas menstruais perturbadores. Se já lhe recomendaram exorcismo durante alguma menstruação, você pode estar neste grupo.

- O seu problema tem a ver com acne, ganho persistente de peso, dores nas mamas, depressão ou crescimento de pelos indesejáveis? Em alguns casos, basta escolher pílulas com baixas doses de progestógenos ou aumentar a dose de etinilestradiol para facilitar o controle destes problemas.

- Muita atenção com remédios que podem diminuir a eficácia da sua pílula, tais como suplementos de vitamina C, antibióticos, antifúngicos (p.ex.: griseofulvina), rifampicina e anticonvulsivantes (com exceção do ácido valpróico).

- Diminuição do desejo sexual e sangramentos no começo ou no meio do ciclo também podem ser contornados com aumentos na dose de estrógeno. Mas cuidado: náuseas, vômitos, ganho periódico de peso, manchas no rosto (chamadas cloasma), e sensação de “engurgitamento” ou “hipersensibilidade” nos seios podem ser sinais de excesso de estrógenos. Daí a importância de garantir o emprego do seu gincolecologista.

- Se você sofre de enxaqueca, procure imediatamente seu médico de confiança para interromper a pílula.

- As pílulas anticoncepcionais contendo apenas progestógenos são uma boa alternativa para mulheres com mais de 45 anos de idade, fumantes, diabéticas, hipertensas, com enxaqueca ou em fase de aleitamento. Apesar de não serem tão eficazes quanto as pílulas combinadas contendo progestógenos + estrógenos, elas podem ser melhor que praticar abstinência sexual ou encher a casa de bocas famintas.

15 agosto 2014

OS MANDAMENTOS DA PESSOA

© Alessandro Loiola



Em 2015, a Assembléia Geral da ONU responsável pela famosa Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 70 anos.

Sete décadas!, e o país mais rico do mundo não possui um sistema de saúde público. Pode falar mal o quanto quiser do nosso SUS, mas pelo menos nós temos um SUS. Pobre, maltrapilho, míope-quase-cego e trôpego das pernas, mas ele está aí, de portas abertas para sua sorte ou azar.

Nos EUA, a sempre-candidata à presidência Hillary Clinton, esposa daquele outro envolvido no teste do bafômetro com uma estagiária, foi eleita senadora de Nova Iorque prometendo nada mais, nada menos, que um SUS para a Grande Maçã.

Promessas de políticos à parte, o SUS americano nunca aconteceu. Apesar do governo de lá investir muito mais que o daqui - o gasto per capta com saúde nos EUA é 10 vezes maior que o brasileiro -, a população americana recebe do Estado bem menos assistência em saúde.

A cada ano a desnutrição ceifa a vida de mais de 300.000 crianças com menos de 5 anos de idade e o continente considerado berço da humanidade ainda é assolado pelas mesmas tragédias de quando descemos das árvores. Epidemias, fome e violência sufocam a África há milênios, e não existem sinais de que estas mazelas irão diminuir tão cedo.

Por todos estes motivos e inspiradas pela ONU, diversas organizações elaboraram longas listas de direitos que deveriam ser democraticamente agraciados a todo e qualquer ser humano vivo.

Pensei oferecer minha modesta colaboração elaborando uma nova proposta dos deveres primordiais de todos nós. Chega de “direitos” e “liberdades” do ser humano, pensei. Precisamos de “obrigações” saudáveis.

Fiz questão de enumerar apenas 7 mandamentos, pois já existe uma outra excelente lista bíblica com 10 itens que pouca gente presta atenção. Quem sabe, reduzindo um pouco o número, alguém finalmente pare para refletir de verdade.

Então vamos lá: toda pessoa deve...

1.... Enfrentar as mudanças e as incertezas da vida sem medo, e enfrentar o medo com espírito prático e alegre. É preciso manter o senso de humor afiado para aceitar o inevitável maior: sua própria transitoriedade e de tudo que lhe cerca. Ou você acha que seu time do coração irá liderar o campeonato brasileiro para sempre? Tudo passa.

2.... Ser capaz de metabolizar os sentimentos negativos, como raiva, angústia e tristeza, transformado-os em motivação, harmonia, esperança e outros antídotos naturais para o negativismo estúpido.

3.... Ter um contato apenas suficiente com a realidade. Nem pouco demais, nem muito demais. Não estamos preparados para lidar com a realidade como ela é, nua e crua. A fantasia é essencial para garantir sua sobrevivência e a da espécie. Mantenha os pés no chão; a cabeça, nas nuvens - e sonhe bastante!

4.... Conhecer-se ao máximo. Só assim seremos capazes de reparar os danos em nós mesmos e nos nossos semelhantes. E você acha que se conhece? Pois então saiba que seu corpo pesa 40 vezes mais que seu cérebro; temos cerca de 3 sonhos por noite; uma criança faz em média mais de 300 perguntas por dia; as unhas das mãos crescem 4 vezes mais rápido que as dos pés; e seus olhos permanecem mais ou menos do mesmo tamanho desde o nascimento. O nariz e as orelhas, por outro lado, nunca param de crescer. Responda novamente: será que você se conhece mesmo ou anda apenas arranhando a superfície?

5.... Ser capaz e livre para compreender e corresponder às necessidades do grupo em que vive. A esta resposta atenciosa ao sofrimento do próximo chamamos de Bondade. Importante: a bondade que não nasce espontânea e desprendida de outros interesses pessoais não é bondade, é escambo.

6.... Ter a coragem de dizer “eu errei” e aprender com a experiência. Afinal, errar é humano. Colocar a culpa nos outros é sábio.

7.... Ser capaz de amar e ser amada. Sem este dever primordial, nós, reles mamíferos medíocres, jamais teríamos prosperado até aqui. Sem esta obrigação de laços, em um futuro cada vez mais próximo, nos tornaremos menos que uma lembrança na poeira deste planeta. Mas lembre-se: o amor mais verdadeiro nasce a partir do deslumbramento com sua própria vida. Encante-se!

14 agosto 2014

OS ADOÇANTES E O FINAL DOS TEMPOS

© Dr. Alessandro Loiola

Existe uma fábula onde um menino muito travesso e entediado, colocado para vigiar algumas ovelhas, divertia-se gritando “Lobo ! Lobo !”. Quando os adultos da aldeia acudiam, armados até os dentes, o menino ria do trote. Assim que todos retornavam para suas casas, ele gritava “lobo !” novamente, e a cena se repetia.

Um belo dia, o socorro parou de vir. As pessoas estavam cansadas de cair sempre na mesma pegadinha. Nesse dia, o lobo apareceu de verdade. E o pobre menino gritou, chamou, cuspiu seus pulmões, “Lobo ! Lobo ! Lobo !!”, mas ninguém acudiu.

Vira e mexe, os especialistas gritam “Lobo !”. Anos atrás, o lobo era a guerra atômica que dizimaria a humanidade em frações de segundo, literalmente entregando o planeta às baratas. E então o lobo se transformou na inflação, no FMI e na dívida externa. E então, no desmatamento do pulmão do planeta e na perda da biodiversidade. Pois agora temos o lobo metamorfoseado em aquecimento global. Com promessa de falta d’água, crise na energia elétrica e catástrofes climáticas.

A cada década, as previsões do Apocalipse ganham um novo fôlego, se atualizando segundo o gosto da moda na última estação. Entretanto, para quem já usou kichute e aprendeu a ler em cartilhas, ouvir alguém gritando “lobo!” perdeu a graça. Banalizado, o anúncio do final do mundo está virando arroz de festa.

Por isso me surpreendi quando deparei com uma das manchetes mais comentadas nas últimas semanas, sobre um estudo publicado no jornal Behavioral Neuroscience concluindo que adoçantes a base de sacarina, ao invés de emagrecerem, engordam. Como pouca gente parou para ler exatamente do que se tratava, sobrou apenas o grito de lobo no ar: adoçante engorda!

Os adoçantes vivem ocupando manchetes estapafúrdias. Era de se esperar que ninguém mais prestasse atenção, mas não foi bem o que aconteceu. E haja saliva para explicar isso no consultório.
Para você ficar por dentro: a bendita pesquisa analisou dois grupos de ratos durante um certo período de tempo. Inicialmente, o primeiro grupo recebia uma dieta com adoçante e outro, com açúcar. Mais tarde, os dois grupos recebiam ração comum à vontade. Observou-se que o grupo do adoçante comia a ração em maior quantidade, tentando compensar a restrição de calorias, e terminou engordando mais que o grupo do açúcar.

A conclusão deveria ser que dietas muito restritivas desequilibram os centros reguladores da fome no cérebro. Estas dietas podem funcionar em um primeiro momento, mas não funcionam para sempre, e o peso perdido termina voltando com juros e correção monetária.

Infelizmente, não foi bem esta manchete que desembarcou na mídia. Chegou uma outra, esdrúxula, dizendo “Cientistas comprovam: adoçante engorda!”, ou alguma coisa do tipo. Foi a gota. A opinião pública começou a apontar seus dedos acusadores com a velha legenda “Tá vendo? Eu disse que essa porcaria fazia mal !”. Segurando suas tochas e bradando palavras de ordem - Queime no inferno, ciclamato, queime! -, algumas pessoas ameaçam ir até o centro da cidade linchar um caminhão de aspartame.

Ah, o que seria da vida sem esses camponeses...

Você quer ter medo da extinção em massa? Tenha medo do cigarro, que está envolvido em 18 dos 20 novos casos de câncer de pulmão diagnosticados no Brasil diariamente. E não precisa ser tabagista ativo não, viu? Fumante passivo também serve. Destes 18 felizes sorteados, 17 irão virar fumaça nos próximos 5 anos, a despeito do tratamento. O câncer pulmonar não é considerado um dos mais letais à toa.

Quer mesmo ter medo? Tenha medo do alcoolismo. O consumo de bebidas alcoólicas está envolvido em 20% dos acidentes automobilísticos, 24% dos assassinatos e 11% dos suicídios. Tudo que você precisa fazer é abrir a próxima latinha.

Quer ter medo? Deixe o vidro de adoçante de lado e preste mais atenção no saleiro e no sofá da sala. O consumo excessivo de sal e o sedentarismo podem resultar em pressão alta e doenças cardiovasculares, responsáveis pela morte de 32 pessoas por hora.

Antes que você me acuse de ser um fiel representante dos profetas do final dos tempos, fique sabendo que, mesmo com os tímpanos fadigados de tanto gritarem “lobo !” por aí, eu não desanimo. No próximo levante dos dândis da histeria coletiva, estou programando pegar minha mochila e sair para um passeio. Vou visitar o buraco na camada de ozônio e algumas ogivas nucleares. Os pobrezinhos andam tão esquecidos...

13 agosto 2014

A RAÇÃO DE EINSTEIN


O plantão não estava corrido quando a pediatra do andar de cima veio para uma visita-desabafo. Ofereci a cadeira, um sorriso e dois ouvidos.

- Você não vai acreditar. Olha só.

E desfiou o causo da menina atendida há pouco com uma senhora crise alérgica. Apesar dos 8 cachorros criados dentro de casa, a mãe fez questão de frisar: “já rodamos todos os testes possíveis e ela não tem alergia aos cachorrinhos, não. Inclusive, todos eles são muito bem tratados, vacinados e alimentados sempre com ração de primeira qualidade”.

O quase-atrito teve início quando a colega preencheu a receita, com uma coletânea de remédios nada em conta:
- Doutora, mas isso vai ficar caro! E eu ando tão apertada de dinheiro...

A pediatra não se conteve e soltou a pérola óbvia:
- Mas... e o dinheiro para comprar a ração de primeira qualidade para todos aqueles cachorrinhos? Esse dinheiro não falta, né?

Hum, golpe baixo não vale. Além do quê, sei muito bem onde essa conversa leva: a lugar algum. Justamente porque este tipo de esclarecimento vai contra a famosa frase de Einstein, proferida lá pelos idos de 1940 e qualquer coisa: “existem apenas duas coisas infinitas - o Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo”.

Naquele dia, a frase do velho Albert foi representada por uma ração para cachorros – ou para crianças, melhor dizendo. Triste, muito triste. Há várias décadas, seguimos alimentando o grosso das gerações futuras com este prato, a ração da estupidez de Einstein. O consumo antes do desenvolvimento, o poder no lugar do afeto, a aparência em prol do conteúdo.

Os ingredientes desta ração estão recheando o futuro com problemas de um gosto bem amargo: 1/3 das crianças e 1 em cada 8 adolescentes sofrem de depressão, tornando o suicídio uma das 10 causas mais comuns de mortes na população abaixo dos 15 anos de idade.

Cerca de 5% das crianças entre 7-11 anos de idade apresentam distúrbios da ansiedade e mais de 10% estão acima do peso. Aproximadamente 15% dos adolescentes fazem uso sistemático de alguma droga (lícita ou ilícita), e os sintomas da síndrome do pânico afetam 1 de cada 20 destes projetos de adultos. Bom, pelo menos para os psiquiatras, as próximas décadas prometem ser divertidíssimas.

Fora das estatísticas, as conseqüências da Ração de Einstein podem ser percebidas em outros sintomas. Por exemplo: o sujeito tem um quintal cheio de lama e limo. Os anos se passam e ele nem para enterrar uma semente de mamão, tomate, abacate, goiaba, cebolinha ou qualquer coisa que valha. Vivemos em um país excepcional, com frutas da época brotando aos montes em todas as épocas do ano. Mas quem tem tempo de plantar uma sementinha? Quase ninguém. Afinal, o pouco tempo que sobra é invariavelmente gasto com latinhas de cerveja, programas de auditório e bordões de incentivo para o futebol nas quartas-feiras. E tome um prato cheio da ração de Einstein.

O mesmo amigo, esse da casa sem frutas ou rede de esgoto, tem 5 filhos e 3 cachorros. Por que não 3 galinhas no lugar dos caninos? Primeiro: cachorro não bota ovo. Segundo: tirando alguns coreanos, não creio que alguém mais curta um delicioso ensopado de Rex com Totó aos domingos. Terceiro: se o bendito não tem tempo de acompanhar sequer o dever de casa das crianças, que diabos está fazendo criando 3 vira-latas? Olha aí, outra tigela da ração.

Felizmente, para os bons gourmets, é possível contornar a indigestão e optar por um prato mais saboroso. Podemos tomar outro caminho, um caminho mais de acordo com nossa capacidade de pensar. Um caminho onde a hipocrisia não é um condimento salpicado no arroz com feijão, e nossas crianças não recebem diariamente uma ração insossa de vícios e idéias empoeiradas.

A cada novo dia, a cada novo encontro com um ser humano, somos presenteados com a incrível oportunidade de criar um universo inédito, muito aquém da panela de estupidez profetizada por Einstein. Para preparar a refeição do futuro, repleta de cordialidade, ternura e altruísmo, só precisamos fazer uma única coisa extraordinária: escolher os ingredientes com inteligência.

Como você anda temperando sua vida?

12 agosto 2014

Fumar durante a gravidez pode afetar o comportamento da criança mais tarde?

© Dr. Alessandro Loiola

O fato do cigarro poder causar má-formações no bebê é um dado bastante conhecido, mas será que a exposição gestacional ao tabagismo poderia afetar também o comportamento da criança mais tarde?

Utilizando imagens de Ressonância Nuclear Magnética (RNM), pesquisadores do Central Institute of Mental Health (Universidade de Heidelberg, Alemanha) descobriram que adultos jovens cujas mães fumavam durante a gestação apresentavam baixa atividade em regiões do cérebro envolvidas com o controle da impulsividade. Estas alterações são semelhantes àquelas observadas em indivíduos com Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

O estudo envolveu 178 mulheres e seus respectivos bebês, que foram acompanhados desde o nascimento. Catorze mulheres gestantes (7,9% do total) relataram fumar 1 a 5 cigarros por dia; 24 (13,5%) fumaram mais que 5 cigarros por dia, e o restante não era tabagista (78,7%). As crianças cresceram e aos 25 anos foram submetidas a uma série de RNM. Em todas elas, a presença de sintomas de TDAH foi avaliada dos 2 aos 15 anos de idade.

Adultos com história de exposição ao tabaco durante a gestação apresentaram mais sintomas de TDAH entre os 2 e 15 anos de idade em comparação às crianças cujas mães não fumaram.
As alterações cerebrais que o cigarro provoca no bebê comprometem o bom funcionamento neural em regiões estratégicas, dificultando o aprendizado e favorecendo o desenvolvimento de comportamentos impulsivos na idade adulta – como o consumo de drogas, por exemplo.

Vale a reflexão.

CEFALEIA TENSIONAL

© Dr. Alessandro Loiola

Se existe uma coisa admirável nos cientistas médicos é a capacidade que eles têm de contabilizar tudo, quase como se cultivassem um fetiche por porcentagens e estatísticas. Por exemplo: estudos recentes calcularam que, dos 6 bilhões de seres humanos neste planeta, 25% apresentam algum transtorno psiquiátrico, 3% são levemente retardados e 1% sofre de esquizofrenia franca. Uma conta dessas só pode ser coisa de doido.

Algumas vezes, as estatísticas se referem a dados que, em última análise, parecem completamente inúteis: uma pesquisa da American Academy of Emergency Medicine calculou que o cidadão médio possui um risco de 30% de morte por infarto fulminante. E daí? Segundo minha modesta matemática, o risco de uma pessoa morrer por qualquer outra causa ao longo da vida é de 100%. No final, o motivo derradeiro não passará de pura burocracia para preencher papéis.

O resultado de uma outra pesquisa que recebi por email revelava que, depois de fazer sexo selvagem, 10% dos homens se viram para o lado direito, 10% se viram para o lado esquerdo e os 80% restantes se viram para chegar em casa antes que a patroa perceba. Esse sim, um dado sociológico chauvinista de extrema relevância.

Mapa da mina

Mas muitas dessas estatísticas possuem aplicações verdadeiramente úteis, como auxiliar na definição de políticas de saúde pública, elaborar orientações para facilitar o diagnóstico e tratamento de certos distúrbios, e – principalmente e acima de tudo – servir de mapa para que a indústria farmacêutica desenvolva novos medicamentos.

Um bom exemplo deste último emprego da ciência: sabendo que, anualmente, cerca de 90% dos homens e 95% das mulheres sofrem de pelo menos um episódio de dor de cabeça (38% dos adultos do mundo apresentarão uma crise ainda nas próximas duas semanas), os laboratórios lançam periodicamente campanhas milionárias para apresentação do analgésico definitivo ou do antiinflamatório mais eficaz de todos os tempos.

Atalhos

Algumas vezes, apertam um pouco o passo e começam a vender um medicamento cujos testes de segurança não foram completamente concluídos, mas qual o problema? Algumas centenas de pessoas cujos rins pararam de funcionar em razão daquela droga mal-sucedida não comprometerão toda a margem de lucro. E ano que vem a gente apresenta uma nova droga e tudo se esquece.

O triste é perceber que as pessoas anseiam por este tipo de atalho para saúde. Não querem compromissos, apenas um atalho. Esse é bem o caso da própria dor de cabeça – chamada de cefaléia no jargão médico. Todo mundo parece adorar um remédio para dor de cabeça, mas o problema pode representar a manifestação de distúrbios graves como sinusite, crise hipertensiva ou disfunção da coluna vertebral, que devem ser tratados com uma seriedade maior que uma simples aspirina.

Tensão excessiva

A cefaléia tensional, o tipo mais comum de dor de cabeça, costuma estar relacionada ao estresse, fadiga, depressão e personalidade perfeccionista. A causa está na tensão excessiva da musculatura da região cervical. Tipicamente, a dor é diária e mais intensa na região frontal ou occipital, podendo durar de algumas horas a vários dias. A dor se inicia logo pela manhã, ao sair da cama, e vai piorando ao longo do dia. O diagnóstico é feito por meio do exame médico.

Se você sofre de crises recorrentes de cefaléia tensional, existem algumas medidas práticas que você pode empregar antes de rechear seu estômago com pílulas de ultima geração: faça compressas mornas nos pontos dolorosos localizados no pescoço e na cabeça.

Exercícios físicos de alongamento para as costas e massagens realizadas por profissionais treinados também ajudam a resolver o problema, assim como não pular refeições, manter um padrão satisfatório de sono, aprender a lidar melhor com o estresse e utilizar antiinflamatórios naturais de eficácia comprovada, como o chá de folhas de algodão.

Efeito colateral

Atenção para o fato de que alguns remédios e substâncias podem causar dores de cabeça como efeito colateral. A lista inclui álcool, codeína, metildopa, beta-bloqueadores (p.ex.: atenolol), hidralazina, reserpina, bloqueadores de canais de cálcio (p.ex.: nifedipina), corticóides, ranitidina, indometacina, anticoncepcionais orais e nitratos sublinguais (muito utilizados para tratamento de crises de angina).

Apesar de mais de 95% dos casos de cefaléia não possuírem uma causa básica grave, alguns sintomas podem indicar a necessidade de uma ida mais rápida ao médico, tais como uma dor muito intensa ou severa (com ou sem rigidez de nuca), dor iniciada após uma pancada forte na cabeça, ou dor associada à febre, convulsão, confusão mental, perda da consciência ou desconforto nos olhos ou ouvidos, e dor capaz de interferir nas atividades do dia a dia.

08 agosto 2014

AS LEIS DA PERSUASÃO

© Dr. Alessandro Loiola

Um dos desafios mais difíceis no dia a dia do consultório se chama “adesão ao tratamento”. Apesar de tudo o que se ensina na faculdade, ninguém informa aos ilustres estudantes que suas receitas não são placas de pedra cravadas com mandamentos divinos. A receita é um simples pedaço de papel rabiscado com uma caligrafia sofrível – ou, nos casos de mais sorte, impressa em fonte arial tamanho 14.

A despeito da formação do doutor ou do tom solene da consulta, calcula-se que somente 1 de cada 5 pacientes siga todas as orientações passadas por escrito. Alguns guardam a receita como um trunfo na manga (“se piorar, eu compro”), outros fazem um copydesk (“vou tomar esses dois aqui e, se piorar, compro o restante”), e muitos partem em busca de uma segunda opinião – que pode ser tanto outro médico, o balconista da farmácia ou um vizinho que sofreu de um mal semelhante, não importa.

Para vencer a maldição da não-adesão ao tratamento é preciso dominar o uso de uma ferramenta capaz de transmutar conhecimento em benefícios palpáveis. Esta ferramenta versátil se chama Persuasão e pode ser dividida em 3 Leis que compartilho agora com você:

Primeira Lei da Persuasão: Lógica

Os objetivos devem expostos de modo racional e articulado. A comunicação deve ser clara. Esse papo do gênio incompreendido é uma balela. Se o sujeito é um gênio, o mínimo que ele precisa fazer é ser compreendido.

Por exemplo: uma abordagem para diminuição do peso ou da pressão arterial deve ter metas bem definidas. “Vamos baixar 2 Kg nas próximas duas semanas” ou “vamos tirar essa pressão de 170/120 e colocá-la em torno de 140/80 até sexta-feira”.

Não adianta entregar a receita e disparar o sujeito pelo mundo afora armado de um papel carimbado. Ele deve compreender profundamente o significado daquilo.

Segunda Lei da Persuasão: Paixão

As pessoas subestimam o valor da paixão. Hoje, mais do que nunca, ela se tornou um elemento estratégico para a persuasão. À medida que avançamos pelo que os sociólogos chamam de Era Pós-Moderna, as pessoas tendem a ser persuadidas cada vez mais pela paixão em detrimento da lógica e da razão. Vide os anúncios publicitários com frases cada vez mais curtas e imagens cada vez mais impactantes. Paixão vende.

Então você deveria jogar a lógica na lata de lixo? Lógico que não. Mas deve, sem sombra de dúvida, compreender a importância de ser apaixonado(a) pelo ponto de vista que você defende. Este estado provavelmente tem mais peso que a razão.

Exemplo: “a senhora vai fazer este regime para reduzir seus riscos cardiovasculares em níveis aceitáveis dentro das diretrizes clínicas mais atuais”. Tem lógica? Tem. Mas que tal: “a senhora vai seguir estas orientações para ficar ainda mais bonita e atraente, e começar extrair da vida tudo aquilo que pode e merece!”.

A paixão faz a diferença.

Terceira Lei da Persuasão: Ética

Sem dúvida alguma a Lei mais importante. Não importa o que você esteja dizendo ou fazendo, as pessoas estarão sempre lhe julgando. Suas habilidades podem ser fenomenais, mas se seus pacientes, colegas, parentes, amigos e conhecidos perceberem indícios suspeitos em sua integridade, eles permanecerão sempre com dois pés e meio atrás. É fácil fazer vista grossa para um equívoco, mas é quase impossível perdoar o mau caráter.

Você pode perguntar: e os políticos? Como eles podem persuadir alguém? Se a visão geral que temos deles é de um bando de corruptos sem escrúpulos, como eles conseguem se eleger?

Bom, a resposta para isso incomoda: isoladamente, as pessoas pensam de uma maneira, mas coletivamente agem de modo completamente diferente. Não somos a portas fechadas as mesmas pessoas que somos em público (grande surpresa...). Este fato singelo, quando elevado à média de uma nação, mostra que acreditamos que as coisas são como são e de repente aquele sujeito nem é tão mau assim. Será que este tipo de falha em seu caráter seria aceitável se fosse percebida?

A solução para a Terceira Lei consiste em ser honesto em seu íntimo, para só então projetar essa imagem para os outros. Nada de exageros ou tentativas infantis de tentar parecer mais do que vale. A sofisticação da ética está na completa ausência de exageros. É assim que funciona.

Se você é um profissional da área de saúde, reflita a respeito - uma vez obedecidas as Leis da Persuasão, as pessoas tenderão a responder melhor a você e às suas idéias. Por outro lado, se você é um paciente, passe a mensagem adiante - quem sabe, um dia, todos os receituários finalmente se tornem bilhetes premiados e não apenas folhas de papel soltas por aí.

07 agosto 2014

Anaximandro e a Fórmula da Pessoa Melhor

© Dr. Alessandro Loiola

Nascido no longínquo ano de 610 a.C., tendo um cérebro sofisticado e aberto a novas idéias como ferramenta de trabalho, o grego Anaximandro foi capaz de conceber teorias que para muitos de sua época soavam como alucinação.

Anaximandro dizia que uma partícula primordial – o ápeiron - havia se expandido para formar tudo que conhecemos (teoria do Big-Bang), que o mundo sustentava-se por um equilíbrio de forças (teoria da Gravidade) e que a vida havia surgido em criaturas simples nos mares, adquirido complexidade e então migrado para a terra (teoria da evolução das espécies). Espetacular.

Imagine você 2.500 anos atrás. Lençol branco enrolado no corpo e botas do filme 300 de Esparta. Um perfeito temente a Zeus levando célere sua oferenda na multidão que se dirige ao oráculo.
 - Ihh... – você diz.
 - O que foi? – pergunta o sujeito ao seu lado na fila do oráculo.
 - Olha aí, lá vem ele de novo. – você vira o rosto como quem procura um conhecido do outro lado da Acrópole, mas o velhinho encurvado que se aproxima rápido não se acanha.
 - Ei! Ei!
 - Ele tá lhe chamando – diz o vizinho da fila, cutucando seu braço. Você ainda tenta fazer cara de paisagem, mas não adianta. O velhinho já grudou na manga da sua túnica.
 - Ei! Ei!
 - Oi, seu Anaximandro. Tudo bem com o senhor?
 - Você sabia... – grita ele, com a vivacidade de um adolescente e os tímpanos de um granito. – Você sabia que existem corpos minúsculos de cargas opostas que atuam trocando energia e anulando-se uns aos outros?
 - Sei, sei. Certo.
 - Você entende?
 - Humrum, humrum.
 - Observe! - ele solta sua manga para desenhar um amplo arco com as mãos espalmadas, cobrindo o horizonte à frente com um olhar perdido. - Toda a matéria que se vê aparece e desaparece continuamente!!


Você aproveita a deixa, segura firme a carijó aninhada no seu colo e segue a fila para dentro da segurança do templo, longe das idéias malucas do velhinho surdo. Mas ainda consegue ouvir alguma coisa sobre o ilimitado, o infinito, o indefinido e o eterno. “Que monte de besteira!”, pensa, fitando a galinha nos olhos.

Anaximandro deve ter sido um cara bem estranho - assim como boa parte das descobertas de hoje. Dezenas de séculos se passaram, e o conhecimento ainda assombra e confunde.

Caminhamos por esta Era da Informação trazendo no colo o ranço de tradições antiqüíssimas. E uma dessas tradições é exatamente o apego à crença íntima de que você, lá no fundo, já nasce sabendo tudo que é preciso para gerenciar sua própria saúde e sua vida. Escolas, faculdades, professores, livros, bibliotecas, orientadores, oráculos e gurus são, no grosso modo, temperos quase dispensáveis. O importante é a SUA interpretação do que é melhor para você e do que não é tanto. Não é isso?

Ledo engano.

Fazendo algumas contas outro dia, percebi que já atendi umas 500.000 pessoas desde que coloquei as mãos no danado do diploma. 500.000 pessoas. Quase Ribeirão Preto inteira ou quatro Itu, ou duas São Carlos, ou meia Campinas. 500.000 viventes.

Imagine que cada pessoa vem ao consultório com cerca de 3 queixas diferentes. Dor no peito, na cabeça e tosse. Ansiedade, insônia e palpitações. Enjôo, febre e urina ardendo. Etc. Pois bem. Depois de levantar e sentar da cadeira, medir pressão, auscultar pulmões, e ouvir mais de 1 milhão e meio queixas, cheguei à conclusão de que ser capaz de aceitar os próprios erros e limitações, pedindo e aceitando ajuda, é talvez a tarefa mais árdua pela qual um ser humano pode passar.

E não digo ajuda no termo paternal. Digo ajuda no sentido “tapa na orelha”.

Nem todo mundo que lhe agrada quer o seu bem. Nem todos que lhe agridem querem o seu mal. Algumas coisas estarão escritas em letras douradas, e estarão completamente erradas. Outras serão deduzidas com a lógica mais tosca do mundo, e estarão profundamente corretas. A solução para o seu problema pode estar escondida em um outro problema, como alguém segurando a sua manga e lhe falando sobre coisas que você não entende - ainda.

Felizmente, para ter discernimento e entender a fórmula de como tornar-se uma pessoa melhor não é preciso uma sabedoria de Anaximandro. Basta um pouco de humildade e uma pitadinha de inteligência. Será que você consegue?

06 agosto 2014

A Velha Senhora

© Dr. Alessandro Loiola

Por volta do terceiro ano de faculdade, quando ainda ensaiava meus passos na direção desta nobre escravidão científica que é fazer plantões para pagar contas, fui surpreendido pela incrível fauna que pode habitar um hospital-escola:

Durante a disciplina de Infectologia, fomos convidados a recolher swabs de locais diversos. Swab é um termo elegante para dizer “cotonete comprido especial”. Os médicos têm essa mania de inventar nomes complicados para coisas simples, talvez um modo elegante de diferenciar a casta dos reles mortais. Arroto vira eructação, excesso de pum vira “meteorismo significativo” e um olho vermelho se transforma em “possível blefaroconjuntivite aguda infecciosa”. Mas no final é tudo a mesma coisa.

Pois bem. De volta ao cotonete no terceiro ano. O trabalho daquele mês consistia em recolher e cultivar alguns swabs para determinar quais bactérias e fungos estavam convivendo conosco nas enfermarias. Alguns passaram o swab no próprio sapato, outros em rodapés, outros no jaleco guardado no armário em casa, etc. No dia da leitura dos resultados, a sala se encheu de “ooohs!” como se fosse uma final de reality show.
- Dr. Fulano, seu sapato está cheio de Escherichia coli! – “Oohs!” e o sujeito era congratulado com tapinhas nas costas e votos de “Parabéns, viu? Escherichia coli! Uma beleza!”.
- Dr. Cicrano, onde diabos o senhor foi descobrir essa Neisseria gonorrhoeae??
- Colhemos o swab passando na orofaringe de uma colaboradora do hospital, professor. Por sinal, uma boa colaborador.
- Olhe o respeito, rapaz! – tentou disfarçar um certo olhar de terror folheando a pasta com os laudos e completou -... Foi na enfermaria de Cirurgia, foi? Bem, hum, não importa... *pigarro*... mas preciso saber o nome dela depois, ok? Hããã... e vamos ao próximo laudo que é o do doutor... Beltrano. Dr. Beltrano, é alguma brincadeira isso?
- Hein?
- Poderia nos dizer onde o senhor foi buscar o seu material? Em algum laboratório de biossegurança?
- Não, professor, peguei com o Placenta.
Havia um sujeito que trabalhava no pátio de estacionamento do hospital. Ele não era só feio. Ele era do avesso. Nada contra ser do avesso, mas no caso dele até o próprio fazia graça e falava:
- Quando eu nasci, minha mãe jogou fora a criança e batizou a placenta.
E ninguém o conhecia pelo nome. Mas o hospital inteiro sabia quem era o Placenta.
- Com o Placenta?
- Isso.

E imediatamente o professor enviou um de seus assistentes para ir buscar o Placenta e providenciar sua internação. O motivo? No swab do Placenta tinha crescido um Mycobacterium tuberculosis tão multirresistente que dava até para ser usado em uma guerra química.

Esse foi meu primeiro contato com um caso grave de Tuberculose - conhecida pelos mais íntimos como "Velha Senhora". O Placenta foi internado e tratado, mas até hoje me pergunto como um sujeito que convivia tão perto de tantos médicos só foi diagnosticado em um trabalho de rotina, e não pelos seus sintomas.

Anos depois, compreendi que justamente este é o grande trunfo da tuberculose: ela pode ser uma doença extremamente dissimulada, ardilosa, sutil. O bacilo que a causa conseguiu se embrenhar em nosso meio e vem convivendo conosco há mais de 4.000 anos: indícios de infecção por tuberculose foram encontrados em múmias egípcias datadas de 2.400 a.C. O bacilo pode ser passado de uma pessoa para outra através de pequenas gotículas liberadas no ar (p.ex.: quando a pessoa infectada tosse, fala, espirra, ri ou canta).

Apesar da TB ser contagiosa, ela não é uma infecção fácil pegar. Em boa parte dos casos, a fonte é alguém da família ou um colega de trabalho – raramente um estranho -, mas alguns fatores podem aumentar seu risco para adquirir a doença, como baixa imunidade (p.ex.: pessoas com HIV, diabetes, insuficiência renal avançada, sob quimioterapia ou em uso de medicamentos que diminuem a atividade do sistema imune), idade avançada, uso excessivo de bebidas alcoólicas e desnutrição.

Os sintomas mais comuns incluem perda de peso inexplicável, fadiga, febre, suores noturnos, calafrios e perda de apetite. Quando localizada nos pulmões, a tuberculose produz tosse persistente (em geral com duração acima de 20 dias ou mais), escarro com raias de sangue e dor no tórax. A infecção também pode afetar outras partes do corpo, incluindo os rins, a coluna vertebral e o cérebro.

O diagnóstico de TB pode ser difícil, necessitando o auxílio de vários exames diferentes. Para felicidade sua e do Placenta, atualmente existem tratamentos eficazes contra a doença. Em todos os casos, a prevenção é a melhor terapia, e algumas medidas simples podem ajudar a proteger você e outras pessoas da tuberculose:

• Cuide de seu sistema imunológico: prefira alimentos naturais e saudáveis como frutas e vegetais, mantenha um padrão de sono regular, e exercite-se pelo menos por 30 minutos na maioria dos dias da semana.

• Mantenha os ambientes que você freqüente bem ventilados e arejados

• No caso de pessoas diagnosticadas com TB: siga o tratamento corretamente e tome todos os medicamentos até o fim; permaneça em casa durante os primeiros 10-14 dias de tratamento; e cubra a boca com um lenço (de preferência, descartável) sempre que for rir, tossir ou espirrar. No começo do tratamento, utilizar uma máscara quando estiver na companhia de outras pessoas também é uma boa dica para reduzir o risco de transmissão.

E lembre-se: a tuberculose é uma infecção grave, mas pode ser curada com o tratamento adequado. Em caso de dúvidas, procure sempre seu médico de confiança! Ou a turma de estudantes de Infectologia mais próxima.

05 agosto 2014

ALIMENTOS ORGÂNICOS

© Dr. Alessandro Loiola

No auge do verão e das epidemias de diarréia que entopem os pronto-atendimentos, não faltam reportagens sobre alimentos saudáveis e orientações sobre cuidados com a alimentação.

Em meio a essa avalanche de comida, vem uma onda de produtos com rótulos animados e coloridos trazendo o emblema “natural” e “orgânico”. Cereais e frutas naturais, carnes e laticínios orgânicos... Valha-me santa revolução agrícola, mas como um alimento pode não ser natural ou orgânico? 

Pode me chamar de pirracento (muito provavelmente eu sou mesmo), mas tudo que você ingere vem da natureza. Até coisas tão artificiais como o alumínio, o papel celofane e os seios de silicone podem ser consideradas consequências da natureza. A bem da verdade, não sei se lhe informaram, mas você veio da natureza e continuará vivendo imerso nela até o dia em que seus dias terminarem e você virar um tipo de vertebrado gasoso. Pelo menos é o que dizem algumas religiões.

O termo “orgânico” foi utilizado pela primeira vez em 1939 pelo Barão de Northbourne, agricultor inglês famoso por uma abordagem mais ecologicamente correta para a produção de alimentos. Desde então, os critérios utilizados para classificar um alimento como “orgânico” vem variando de um país para outro.

Os ortodoxos consideram alimentos orgânicos aqueles cultivados sem qualquer contato com pesticidas, inseticidas, herbicidas ou outros tipos de venenos artificiais. Um tomate colhido por sua sogra poderia perder a classificação de orgânico, por exemplo. Mas os alimentos orgânicos podem ser cultivados utilizando-se fertilizantes não-orgânicos - o capitalismo sempre encontra um jeito de enfiar o dedo na pureza dos conceitos.

No caso de aves, a criação deve ser feita sem o uso rotineiro de antibióticos ou hormônios. Animais produzidos de modo “orgânico” devem ser acomodados em condições que lembrem seus habitats naturais: vacas, ovelhas e outros ruminantes devem ter livre acesso ao pasto.

Vacinas são permitidas e os parasitas devem ser controlados através de medidas preventivas, incluindo dietas balanceadas e boas condições sanitárias. Arrancar diariamente os carrapatos da mimosa utilizando os próprios dentes também vale como modo orgânico natural, mas cuidadores com rotes e próteses odontológicas devem ser mantidos distantes dos fiscais. Só por garantia.

A forma como os alimentos orgânicos (fala sério, não vou dizer “alimento natural” nem que me paguem o dobro) são produzidos resultam em vários benefícios. As fazendas orgânicas não consomem ou liberam pesticidas sintéticos no meio-ambiente, além de serem mais eficientes na sustentação de ecossistemas diversos. Fazendo-se um cálculo de produtividade por unidade plantada, estas fazendas de fato utilizam menos energia e produzem menos lixo.

Alguns estudos mostram que vegetais e frutas produzidos de modo orgânico são mais ricos em nutrientes que alimentos produzidos de modo não-orgânico, chegando a apresentar uma concentração 40% de antioxidantes naturais quando comparados aos seus equivalentes convencionais.

Em contrapartida, uma pesquisa realizado na Austrália em 2004 descobriu que os alimentos orgânicos vendidos em supermercados chegavam a custar 65% mais que seus equivalentes não-orgânicos. Os preços podem ser maiores uma vez que os produtos orgânicos são produzidos em menor escala e, em muitos casos, de modo semi-artesanal.

Orgânico ou não-orgânico, natural ou não-natural, o essencial é escolher seus alimentos de modo equilibrado. Eles constituirão seu corpo futuro, então vá com calma com o que você anda colocando para dentro. Sempre que possível, prefira frutas, legumes e verduras de origem minimamente confiável. Lave bem as mãos e os alimentos antes de consumi-los.

Até onde estudei, higiene e ponderação raramente foram responsáveis por grandes desconfortos digestivos. Tempere seus lanches de verão com doses generosas de ambos.

04 agosto 2014

O Dia da Água

© Dr. Alessandro Loiola

Sessenta por cento do seu corpo e 80% do seu cérebro. É isso que a água corresponde. Dentro do nosso medíocre conhecimento, não somos capazes de conceber a existência de vida onde não há (ou houve) água.

Não é à toa que os repórteres do apocalipse adoram notícias sobre a água. Quando a Globo não tem o que mostrar na sexta-feira à noite, manda algum jornalista se embrenhar no mato para o Sérgio Chapelin anunciar mais tarde: “incríveis árvores verdes, pássaros que voam de verdade e peixes que conseguem respirar até debaixo d´água! Você não pode perder, esta noite, no bobo repórter”. O mesmo vale para a água. Quando faltam novos dados convincentes sobre o fim do mundo, apelam para a água: O fim da água! No futuro, a guerra pela água! E blá blá blá.

Sim, a água vai acabar. Assim como nossa espécie, o Sol e todo este lado da Via Láctea.

Com relação à nossa hospitaleira Terra, digamos que ela passa por fases. Como em uma versão realista de um The Sims planetário, não estamos terminados: estamos sempre evoluindo. O jogo segue. E se um dia fomos uma crosta vulcânica desprovida de vertebrados, muito provavelmente no futuro seremos alguma coisa bastante diferente deste aquário invertido infestado por Homo sapiens.

A despeito desta crua realidade, é extremamente válido dar o devido valor a tudo que nos sustenta. Se você trata seu chefe com respeito (pelo menos na frente dele) e venera aquele aumento no salário, por que faria diferente com a água?

Sem a água, não desapareciam apenas as atividades econômicas: nosso organismo não duraria uma semana sem ingerir o precioso líquido. Durante o curso de medicina, aprendemos que a sobrevivência humana é delimitada por algo chamado Regra dos Três: 3 minutos sem respirar, 3 dias sem beber água, 3 semanas sem comer. Qualquer passo fora disso, vuuussh!, você já era, vai freqüentar uma palestra para vegetais no Ceasa ou virar adubo de samambaia.

A água participa da digestão dos alimentos, da regulação da temperatura corporal e do transporte de oxigênio. Ela lubrifica articulações, promove o bom funcionamento intestinal e serve de meio para milhares de reações químicas essenciais para a manutenção da vida.

Apesar de valiosa, nosso organismo faz questão de perder água: através da respiração, eliminamos quase 2 copos de água diariamente. Através do suor, outros 2 copos ou mais. Os rins eliminam outros 5-6 copos. Para repor estas perdas, é essencial ingerir boas quantidades de líquido por dia – no mínimo 6-8 copos.

Para que você tenha sempre água à sua disposição, respeitando os limites do bom senso e evitando desperdícios, seguem 5 orientações que podem ser tão práticas quanto inúteis:

• Confira periodicamente vazamentos em pias, chuveiros e vasos sanitários. E conserte-os. Porque “verificação” e “nada” significam quase a mesma coisa se você não tomar uma atitude.

• Feche a torneira enquanto estiver se ensaboando, escovando os dentes ou fazendo a barba. Cada minuto a menos de banho equivale a uma economia de 3 a 6 litros de água! Explique isso para sua mãe ou esposa quando ela começar a reclamar do seu cheiro.

• Ao limpar as louças, deixe-as de molho em uma bacia ou na própria pia, para amolecer os resíduos. Então raspe e jogue os resíduos no lixo – ou guarde-os em um recipiente para oferecer ao seu cunhado no almoço de sábado (“você não pode deixar de provar esse risoto!”). Aquela água imunda em que os vasilhames permaneceram de molho pode ser utilizada para preparar uma deliciosa sopa de legumes à noite. Chame seu cunhado de volta.

• Otimize o uso da máquina de lavar louças e da máquina de lavar roupas: coloque-as para rodar apenas quando estiverem cheias. E não ponha a roupa para lavar a todo momento: recicle sua cueca usando dos dois lados. Lamber bem os talheres do almoço ajuda a mantê-los limpos até a janta. E etc. 

• Não lave a calçada: limpe-a com uma vassoura ou lave-a com a água já usada na lavagem das roupas. Se você acha divertido ficar ali feito um debilóide de bermudas, assoviando Tony Bennet enquanto empurra folha por folha até a sarjeta com a mangueira aberta, procure fazer o mesmo utilizando apenas sua saliva. Depois de uma hora, você entenderá mais ou menos como o planeta se sente. Boa sorte!


Gestante Mutante

© Dr. Alessandro Loiola

Quando estávamos na escola, lá naqueles idos quando chamávamos a professora de “tia”, aprendemos que os seres vivos possuem um conjunto bastante peculiar de características. Eles são formados por células, necessitam de alimento, nascem, crescem, morrem, etc. De todas estas estranhezas que nos cercam, o fato de sermos capazes de produzir descendentes é um requinte miraculoso. 

A metamorfose envolvida na geração de nossas pequenas fotocópias devoradoras de fraldas descartáveis seria um bom tema de ficção-científica. A gestante é um mutante e não é preciso ser um cientista para perceber as alterações que ocorrem no organismo feminino durante este período. Entretanto, existe muito mais ocorrendo entre o céu e a placenta do que julga nossa vã filosofia. 

Alguns dias após a fecundação do óvulo, o organismo materno – faminto por energia - inicia uma série de saques nas reservas de gordura, podendo ocorrer uma discreta perda de peso no início da gravidez. A atividade enzimática e a síntese de proteínas aumentam, agregando valores à construção do pequeno novo ser humano. 

Com toda essa movimentação molecular, os níveis de glicose no sangue diminuem e o corpo retém líquido. Alterações renais promovidas por hormônios como a Aldosterona farão com que até o final da gravidez sejam acumulados mais de 7 litros de água! O acúmulo de líquido responde por boa parte das alterações sensoriais, como a diminuição da audição, as alterações do paladar e do tato.

Nos primeiros 3 meses de gravidez, o trabalho do coração aumenta 40%. Para manter níveis adequados de oxigenação para a mãe e o feto, incrementam a necessidade de ferro e a freqüência respiratória materna.  

As adaptações anatômicas também repercutem sobre sistema digestivo: náuseas no período da manhã são comuns. A produção de saliva é maior. O intestino passa a funcionar com mais lentidão e a constipação é freqüente. À medida que o útero ocupa boa parte do espaço na cavidade abdominal, o estômago se torna menos capaz de distender, provocando o refluxo e azia. 

As mudanças hormonais são sentidas literalmente na pele: estrias gravídicas podem surgir nos seios, nos flancos, na parte anterior do abdome, nas nádegas e na raiz dos membros inferiores. É comum o escurecimento da linha que vai do umbigo ao púbis (Linha Nigra) e o rosto pode apresentar áreas de hiperpigmentação (cloasma). O balanço dos hormônios também pode provocar balanços no humor, com extremos de irritabilidade e melancolia. 

Por todos estes motivos, o acompanhamento pré-natal é fundamental. É essencial que a grávida compreenda as modificações e adaptações do seu corpo à presença do parasita, digo, do bebê, pois isso ajudará a diminuir a ansiedade e a insegurança associadas à gestação.  

Para facilitar um pouco sua vida, reuni 7 macetes que podem lhe ajudar a contornar os problemas mais comuns: 

ENJÔOS MATINAIS: as náuseas começam 3-4 semanas após o atraso da menstruação, durando até o final da 12ª semana de gravidez. Prefira alimentos de digestão mais fácil, como batatas amassadas, torradas, arroz e frutas, ingerindo as refeições em porções menores, porém mais freqüentes. 

CÃIBRAS: mais comuns durante a noite. O remédio mais fácil e rápido consiste em ficar de pé e alongar os músculos que estão doendo. Aproveite para chorar uma promoção e conseguir uma massagem alentadora nos pés. 

DORES NAS COSTAS: quanto mais peso, mais trabalho para a coluna vertebral. Procure utilizar sapatos baixos e manter as costas bem apoiadas quando estiver sentada. Cuidado ao curvar-se, levantar pesos ou fazer exercícios. 

AZIA: a barriga está toda ocupada pelo bebê e ele não sabe que você come. Para reduzir o desconforto, evite alimentos muito temperados ou ácidos, frituras e refeições muito volumosas. Para descansar depois de uma refeição, recoste sobre uma pilha de travesseiros ou almofadas ao invés de deitar.  

FALTA DE AR: a pressão progressiva do útero sobre os pulmões pode causar falta de ar. Repouse e aceite os novos limites do seu corpo. Estes limites podem ser temporários, mas existem. 

DORES NOS QUADRIS: nas últimas semanas da gravidez, as cartilagens que unem os ossos da pelve começam a se afastar, preparando para a passagem do alien. Isso faz com que os quadris doam e pareçam “soltos” durante a caminhada. Repouso e compressas mornas ajudam a aliviar o desconforto.  

INCHAÇO NOS PÉS E TORNOZELOS: sempre que possível, mantenha os pés levantados ou apoiados na altura do corpo, evitando permanecer de pé por longos períodos de tempo. Essas mesmas dicas se aplicam para evitar as famigeradas varizes. Mas atenção: se os inchaços começarem a parecer fora de proporção, conte sempre com a ajuda de seu médico de confiança!


30 julho 2014

Correr 10 minutos duas vezes por semana ajuda alguma coisa?

Apenas 5 a 10 minutos de corrida diariamente, ainda que em baixa velocidade, pode reduzir significativamente seu risco de morte por todas as causas e de morte por doenças cardiovasculares.

Em comparação às pessoas que não praticam corrida, os pesquisadores observaram uma redução importante no risco de mortalidade em pessoas que corriam (1) menos de 10 km por semana, (2) a uma velocidade inferior a 10 km/h e (4) apenas uma a duas vezes por semana.

Esta notícia é extremamente relevante porque o TEMPO é uma das principais justificativas utilizadas para não praticar exercícios físicos. Esta descoberta diz que você não precisa fazer corridas extenuantes de 30 a 40 minutos todo santo dia: o benefício para reduzir seu risco de morte por qualquer causa pode ser obtido com corridas diárias de 5 a 15 minutos apenas.

O coordenador do estudo, Dr. Duck-chul Lee, da Universidade Estadual de Iowa, assim como muitos de nós médicos, acreditava que quanto mais você praticasse corrida, maiores seriam os benefícios. Vários manuais e diretrizes de cardiologia e fitness pregam que você deve praticar pelo menos 75 minutos de atividade física vigorosa por semana para reduzir o risco de morte por doenças cardiovasculares. O que os cientistas descobriram foi que menos do que isso (75 minutos) TAMBÉM é útil para diminuir o risco. 

O estudo, publicado em 28/07/14 no Journal of the American College of Cardiology, incluiu 55.137 participantes, que foram acompanhados durante 15 anos. Destes indivíduos, aproximadamente 1 de cada 4 praticava corrida. Mesmo após ajuste das variáveis com potencial de bias, a prática de corrida associava-se a um risco significativamente menor de mortalidade. Não correr, os pesquisadores observaram, era um fator de risco quase tão importante quanto hipertensão arterial, respondendo por 16% da mortalidade global e 25% da mortalidade cardiovascular. 

Os investigadores então separaram os corredores em 5 grupos com base no tempo semanal dedicado à atividade. Os indivíduos que corriam menos de 51 minutos por semana apresentava um risco de mortalidade significativamente menor quando comparados a indivíduos que não praticavam corrida. E mais: entre aqueles que corriam com mais frequência, não pareceu haver qualquer benefício adicional em termos de redução da mortalidade global ou da mortalidade cardiovascular. Quando os não-corredores eram excluídos da análise, praticamente não havia mais qualquer diferença estatisticamente significativa na redução da mortalidade entre os grupos de indivíduos corredores. 

Em termos de distância, o maior benefício em termos de redução da mortalidade global ocorre entre os indivíduos que perfazem menos de 10 km por semana. Para reduzir especificamente a mortalidade cardiovascular, são necessários 8 a 16 km por semana. 

Concluindo: quem pratica corrida regularmente (mesmo uma corridinha básica de 10 minutos, 3 vezes na semana) adiciona 3 anos a mais de vida em relação às pessoas que não praticam, além de possuíram um risco 30% menor de morte por qualquer causa e 45% menor de mortalidade cardiovascular. 

Tá esperando o quê? Bora pra pista ! J

29 julho 2014

Pensamento do Dia

Na longa estrada para a Sabedoria existem inúmeras pousadas de Ignorância com amplos jardins perfumados de meias verdades, e atalhos que levam todos ao mesmo Distrito – o da Plena Estupidez. Porque a estrada para a Sabedoria possui loucura e lucidez e disciplina e um tanto de atrevimento, mas nenhuma parada ou atalho. E só os tolos e seus semelhantes se atrevem a acreditar em contrário.
 

04 outubro 2013

TESTE DE PERSONALIDADE

BRINCADEIRA DO DIA - faça o teste e entenda-se um pouco mais

A escritora Gail Sheehy disse que “só há duas ou três histórias humanas, que se repetem furiosamente, como se nunca tivessem acontecido antes”. Apesar disso parecer um tanto restrito – todo mundo se acha tão especial e diferente -, as colunas de horóscopos que dividem a humanidade em um leque diário de 12 destinos apenas podem dar uma pista. Somos realmente MUITO parecidos.

Existem padrões gerais de comportamento que subdividem-se em padrões gerais de personalidade. A energia elétrica (comportamento) chega à sua casa, e você a utiliza para desenvolver certas atividades (conservar alimentos, iluminar e refrescar ambientes, aquecer a água do banho, etc), mas esse número de atividades é limitado e, até certo ponto, previsível.

Na década de 50, utilizarando os estudos de Carl Jung para auxiliar no esforço de reconstrução dos EUA ndo pós-guerra, as pioneiras Katherine e Isabel Briggs Myers (respectivamente mãe e filha) desenvolveram um indicador capaz de captar os tipos psicológicos das pessoas (Taylorismo para principiantes). Aplicando esse indicador na seleção da mão de obra, elas acreditavam que seria possível aprimorar a compreensão de suas expectativas, comportamentos, anseios e qualidades, aumentando a eficácia, a satisfação e a produtividade no trabalho.

Na prática, o Myers Briggs Type Indicator (ou MBTI), divide a personalidade em 16 tipos, organizados segundo os critérios Extroversão/Introversão, Sensação/Intuição, Pensamento/Sentimento e Julgamento/Percepção.
 
Para ter uma ideia simples de como aplicar isso, faça o seguinte: em cada uma das perguntas abaixo, assinale a letra correspondente à esquerda que mais se encaixa à sua resposta. Lembre-se de escolher APENAS UMA LETRA para cada pergunta. Anote estas letras e memorize a sequência (p.ex.: ESTJ, INFP, ENFJ, etc).

1.         De um modo geral, você:
(E) se acha extrovertido(a) e prefere interagir com pessoas / animais / coisas

OU
(I) se acha introvertido(a) prefere o mundo das ideias e passar seu tempo mais sozinha?


2.         Ao lidar com os desafios do dia a dia, você:

(S) Normalmente se acha uma pessoa mais realista e prática, prestando mais atenção a fatos e detalhes

OU

(N) se acha imaginativo(a) e criativo(a), sempre tentando entender conexões, significados e implicações das coisas?

 
3.         Em uma situação de conflito onde seu posicionamento será crucial para determinar o caminho da solução:

(T) você valoriza a lógica e a justiça (um peso, uma medida) e toma suas decisões mais objetivamente, pesando os prós e contras

OU

(F) procura se basear em como as outras pessoas se sentem acerca do assunto e como os outros serão afetados, valorizando a empatia e a harmonia?

4.         Durante a solução daquele conflito:

(J) você tende a tomar suas decisões rápida e facilmente, se sentindo mais feliz depois que as decisões foram tomadas

OU

(P) prefere deixar as suas opções mais em aberto?

 
Conseguiu sua sequência? Lembre-se de responder as questões o mais sinceramente possível. Ninguém está vendo o resultado mesmo, só você.

Agora abra este link em uma outra janela do seu navegador

http://www.erudito.fea.usp.br/PortalFEA/repositorio/201/documentos/RH1_T2/DescricaoTiposHTML.htm

e clique sobre a sequência que corresponde à sua. O que bate e o que não bate?


Compartilhe a brincadeira com seus colegas e tenha um bom assunto para o happy-hour de hoje :)


Abraço,

 
Alessandro Loiola.