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27 agosto 2014

O Médico, o Monstro e a World Wide Web

© Dr. Alessandro Loiola
dralessandroloiola.blogspot.com/
https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/saudeparatodos


Que a Internet é um meio de expressão sem precedentes, não é novidade alguma. Mas o que tem assombrado até aos internautas mais experientes é a epidemia de websites voltados para a saúde: estima-se que existam hoje mais de 40 mil deles e dezenas surgem a cada dia, manifestando a intensa demanda por este tipo de informação.

Por um lado, a proliferação de páginas sobre saúde marca o processo de democratização do conhecimento médico, mas isto também se traduz em conseqüências menos encantadoras. O médico e o monstro podem estar apenas a um clique de distância, e os websites de saúde podem facilmente transformar o amável Dr. Jekill em um terrível Mr. Hide. Isto porque uma parte considerável da informação disponível está errada ou é enganosa, expondo você a danos perigosos e potencialmente irreparáveis.

Entendendo as regras

Existe um princípio de ouro na Web: qualquer um pode publicar qualquer coisa, bastando para tanto um computador pessoal e acesso à rede. Porém, enquanto que as mídias convencionais (jornais, revistas, programas de rádio ou televisão, etc) deixam um registro físico, o conteúdo da Internet é volátil: ele está aqui hoje e pode simplesmente desaparecer no éter amanhã. O grande problema deixou de ser “encontrar a informação desejada”, e passou a ser como avaliar a credibilidade de um documento obtido via Internet.

Não existe uma legislação específica para as informações disponíveis na rede. A própria dinâmica sem fronteiras da Internet torna as medidas legais sem sentido ou lentas demais. A solução mais eficaz até o momento tem sido a auto-regulamentação: desde os anos 90 existem vários códigos de honra para informação em saúde na Internet. O mais famoso deles foi criado pela Health On Net Fundation em 1996 e se chama HON Code.

Apesar de ser uma iniciativa louvável, o HON Code possui um grande problema: ele não verifica a qualidade da informação. O HON Code determina o nível de confiabilidade através de padrões éticos, tentando garantir um certo rigor científico na elaboração do material publicado. Isso significa que nem todo site com o selo do HON Code possui informações necessariamente corretas ou verídicas. Em contrapartida, nem todo site honesto possui o selo do HON Code.

Então como sobreviver em meio a este caos? Como saber o que é informação confiável ou não? Bom, para evitar enganos, eu recomendo que você aplique por conta própria 04 critérios bem simples para avaliar a qualidade do que está lendo: Autoridade, Transparência, Atualidade e Desconfiança. Cole estes critérios ao lado do seu computador, consultando-os sempre que tiver alguma dúvida sobre se o que está lendo possui alguma validade ou não.

CRITÉRIO 1: AUTORIDADE.
A orientação médica ou de saúde contida no site é dada por um profissional da área ou você está lendo sobre Hipertensão Arterial na visão de um Ufologista de Rondônia? É possível identificar o autor do texto e checar suas credenciais? A informação possui referências claras às fontes consultadas (p.ex.: links para textos científicos, documentos do Ministério da Saúde ou páginas de centros universitários na Internet)?

Quando der de cara com alguma informação de importância para você, procure sempre a fonte daquela informação. Sites criados por grandes centros médicos, organizações científicas, universidades e agências governamentais são os mais seguros. Muito cuidado com sites estritamente comerciais ou baseados em testemunhos de pessoas que procuram empurrar um único ponto de vista ou vendem curas milagrosas. O maior milagre do Universo está entre as suas orelhas e se chama Inteligência, lembre-se sempre disso.

CRITÉRIO 2: TRANSPARÊNCIA.
A informação deve estar publicada de modo claro, oferecendo endereços de contato para quem desejar orientação ou ajuda adicional. O site também deve ser bastante claro quanto à presença de patrocínio: qualquer apoio financeiro, comercial ou não, deve ser identificado.

Por exemplo: se você está lendo sobre Constipação Intestinal em um site patrocinado por um fabricante de laxantes, as informações ali contidas certamente tenderão a favorecer o patrocinador – o que nem sempre corresponderá a toda verdade em si.

CRITÉRIO 3: ATUALIDADE.
O conhecimento científico é extremamente dinâmico: calcula-se que metade do que os médicos defendem agora estará errado daqui a 10 anos – e para desespero geral ninguém ainda é capaz de identificar qual metade é esta. O mais confiável é procurar sempre pela informação mais recente. Veja se o site exibe claramente a data em que determinada informação foi publicada ou revisada.

CRITÉRIO 4: DESCONFIANÇA.
Você encontrou algo que lhe diz respeito e o site parece ter autoridade, transparência e atualidade? Ótimo. Desconfie dele mesmo assim. Desconfie muito, desconfie sempre. Visite outros sites e compare informações. Até mesmo sites que exibem o selo do HON Code não estão isentos de informações imprecisas. Mantenha o espírito aberto, porém crítico em qualquer situação – ou você conhece alguém tenha caído morto, fulminado após tomar uma pequena dose de prudência?

Nem eu.

Boa parte do caminho de descobrir o que se quer é saber exatamente o que se procura.  A Internet pode ser uma grande fonte de informação em saúde, mas não é a única: ela deve representar apenas mais um item em seu cardápio de escolhas.

20 agosto 2014

Celulares podem colocar a saúde da criança em risco?

© Dr. Alessandro Loiola
https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/saudeparatodos


O risco da radiação de micro-ondas (RDM) emitida por equipamentos eletrônicos, especialmente com relação às crianças e bebês em gestação, tem sido objeto de especulação há várias décadas. Apesar dos dados até o momento serem bastante conflitantes, existem de fato evidências científicas associando RDM e câncer.

Partindo desta premissa, recentemente foi publicada uma excelente revisão do assunto no Journal of Microscopy and Ultrastructure. Os pesquisadores fizeram um garimpo na literatura médica e avaliaram dados epidemiológicos de exposição a aparelhos de telefone celular entre 2009 e 2014. O que descobriram? Que crianças e bebês em gestação apresentam um risco considerável de danos neurológicos e biológicos decorrente da RDM emitida por estes equipamentos.

A velocidade de absorção da RDM é maior em crianças que em adultos pois seus cérebros absorvem mais, seus crânios são mais finos, e seu tamanho relativo é menor. O feto é particularmente vulnerável: a exposição à RDM pode resultar em degeneração da bainha de mielina que protege os neurônios.

É irrealista (e quase psicótico) achar que por causa disso os telefones celulares (e outros aparelhos emissores de RDM) serão banidos. Aparelhos que emitem RDM não podem ser considerados 100% seguros – mas automóveis também não.

O que os dados desta revisão sugerem é que deveria haver uma preocupação maior dos organismos governamentais com relação a este tópico, promovendo debates e estudos para assegurar os limites reais de segurança.

Até que estas pesquisas sejam realizadas, os autores do estudo fizeram algumas recomendações práticas:
  • A distância é sua amiga: manter o telefone celular a uma distância de 15 cm do seu ouvido reduz em 10.000 vezes o risco de exposição à RDM.
  • A menos que esteja completamente desligado, seu celular está sempre emitindo radiação. Se não o estiver utilizando, mantenha-o distante do seu corpo (p.ex.: em uma bolsa, sacola, mochila ou gaveta).
  • Mulheres gestantes devem manter distante da barriga todo e qualquer equipamento eletrônico.
  • Não coloque aparelhos eletrônicos dentro do berço do bebê.
  • Crianças e adolescentes devem ser ensinados a utilizar equipamentos emissores de RDM de um modo seguro. Por exemplo: um estudo do Pew Research Center mostrou que 75% dos adolescentes e pré-adolescentes americanos dormem a noite inteira com o celular debaixo do travesseiro. Fala sério...
  • Uma vez que o risco é cumulativa, as crianças deveriam minimizar o tempo que passam utilizando telefones celulares e sem fio. Por outro lado, serviços de telefonia que utilizam o computador (quando a conexão com a Internet é feita por meio de cabo) não emitem radiação e seu uso deveria ser encorajado.
  • Finalmente, em casa, os aparelhos roteadores Wi-Fi devem ser colocados longe dos lugares onde as crianças passam a maior parte do dia.
É isso aí. O recado tá dado.