25 janeiro 2018

ESQUERDA E DIREITA: NÚMEROS COMO ARGUMENTOS

Uma pesquisa rápida na Internet é capaz de oferecer uma boa lista de mais de 20 países que enveredaram por regimes socialistas-comunistas ao longo do século XX. Comparando estes países com aqueles melhores colocados em termos de liberdade econômica, duas ponderações saltam aos olhos:

Primeiro, é curioso perceber como a Romênia conseguiu estar sob um regime comunista por 42 anos e, em menos de 30 anos, foi capaz de desenvolver um livre mercado a ponto de colocá-la entre os 20 países mais competitivos do mundo. Se temos qualquer intenção de resolver nosso país, a Romênia é um caso a ser estudado.

Segundo: excetuando-se a terra de Vlad Tepes - um verdadeiro ponto fora da curva -, a média de IDH nos países com histórico recente de regimes socialistas-comunistas é significativamente MENOR que o IDH médio de países cujos regimes são fortemente baseados em fundamentos de Livre Mercado.

Países socialistas-comunistas apresentam um IDH médio de 0,659, ao passo que países capitalistas com livre mercado apresentam IDH médio de 0,874 - uma diferença é de 0,215 pontos! 

Colocando esses números em perspectiva: considere que o IDH do Brasil é de 0,754 e o da Noruega, 0,949. Se, em uma situação hipotética, abandonássemos nosso inconsciente marxista recheado de direitos individuais que cobramos do Pai-Estado, e aderíssemos a um regime abertamente capitalista, e se com isso fosse possível adicionar esta diferença média ao nosso IDH, ultrapassaríamos a qualidade de vida da Noruega, atingindo a inacreditável potuação de 0,969 – e seríamos, de fato e por mérito, uma potência mundial como nunca houve.

Para que tal milagre acontecesse, seria necessário ver cada brasileiro abandonar a mentalidade de incompetências que marca nossa auto-indulgência coletiva; abominar qualquer interferência viciosa do Estado sobre a economia; assumir o Objetivismo e a Meritocracia como padrões absolutos de Moralidade; e desistir de uma vez por todas do discurso vitimizante que nos mantém na lama há séculos. 

Lamentavelmente, a possibilidade disso acontecer é mais remota que as chances de alguém ensinar um peixe de aquário a tocar clarinete. Que bom que ainda temos os aeroportos como saída...


LEITURA E DESENVOLVIMENTO

A média de leitura do brasileiro é de 2,1 livros por ano – sendo que, em 50% dos casos, a taxa de leitura não é voluntária: ela se deve a livros exigidos pelas escolas.

Quando deixado à vontade, é possível ver com clareza como o brasileiro faz suas escolhas: 44% da população brasileira não lê coisa alguma e 30% nunca comprou um livro. Aqueles que lêem, consomem parcos 1,3 livros não-acadêmicos por ano.

Na Finlândia – país cujo sistema educacional vive sendo motivo de louvores por aqui -, cada cidadão lê em média 16 livros não-acadêmicos por ano. Na França, são cerca de 20 títulos.

Há 60 anos, a Coreia do Sul tinha altos índices de analfabetismo e quase metade das crianças e jovens fora da escola. Na década de 1970, instauraram uma reforma educacional apostando na leitura como base. Em 2006, a Coreia tomou da Finlândia o primeiro lugar em leitura no PISA (o Programa Internacional de Avaliação de Alunos).

Uma pesquisa realizada pelo Instituo Pró-Livro mostrou que o consumo médio de livros em 2007 era de 4,7 livros/habitante /ano. Em 2011, este índice caiu para 4,0 livros/habitante /ano. Não estamos progredindo: estamos nos tornando uma nação mais iletrada e mais burra a cada dia.

Mas você acha que depois de 3 votos no TRF-4 condenando um sociopata que jamais cumprirá 1 ano sequer de cadeia, e elegendo o candidato fanfarrão da vez - o protagonista pseudo-militar de uma ópera bufa chamada Mitolândia -, estamos no caminho certo.

Seu problema não é excesso de esperança: seu problema é falta de leitura. Quando começar a ler, verá que ter otimismo sem manter um contato lúcido com a realidade é nada além de nutrir uma tolice ingênua ante a vida. E foi exatamente assim, de tolice em tolice, que construímos uma nação infantil e mentalmente doente.

ESTUDOS E RENDAS

A taxa de analfabetismo nos domicílios cujo rendimento é superior a dez salários mínimos é de apenas 1,4%, enquanto que naqueles cujo rendimento é inferior a um salário mínimo é de quase 29%*.  Mais do que relacionar estes porcentuais como causas ou conseqüências, é impossível negar que se existe algum fator primário capaz de eliminar sua miséria, este fator é o Estudo.

O ensino fundamental no Brasil é praticamente universalizado, as escolas possuem bibliotecas, o acesso à informação via Internet oferece um montante infinito de gigabites de informação, excelentes livros clássicos de domínio público e uma miríade incrível de bons cursos online – muitos deles sem qualquer custo. As vagas em universidades e cursos técnicos são ampliadas a cada dia, assim como os mecanismos de acesso a estas oportunidades.

Mas o brasileiro prefere colocar a culpa no Estado, na política, no sistema, na sociedade e no professor: é mais fácil isso que empenhar-se em fazer A SUA PARTE e ESTUDAR COM AFINCO tudo que lhe vier à mão.

POR QUE NÃO VAMOS DAR CERTO?

Segundo dados do INAF (Instituto Nacional de Alfabetismo Funcional), mesmo o Estado tendo praticamente universalizado o acesso ao ensino fundamental (98%) de jovens entre 7 e 14 anos na última década, apenas 27% da população brasileira entre 15 e 64 anos é plenamente alfabetizada, e o analfabetismo funcional atinge por volta de 68% da população economicamente ativa.

Entre os alunos do ensino médio, apenas 41% apresentam nível pleno de alfabetização, e 1 de cada 3 estudantes que ingressam no ensino superior não dominam leitura e escrita.

O governo federal tem comemorado o ingresso de 96,4% das crianças com idades entre 07 e 14 anos no Ensino Fundamental e 83% dos adolescentes entre 15 e 17 anos no Ensino Médio. Essa estatística poderia ser motivo de alegria se não fosse a realidade que entre os alunos que cursam a 4ª série do ensino público, 55% não sabem ler nem escrever. Ou seja, 33 milhões de crianças são analfabetas funcionais.

15 janeiro 2018

PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) E A IMPORTÂNCIA DAS COISAS QUE FAZEM A VIDA VALE A PENA*

“Nosso PIB considera em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Ele registra os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em que trancafiamos os que conseguem burlá-los.

Ele leva em conta a destruição de nossas florestas e sua substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Ele inclui a produção de armas e dos veículos usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. E ele registra programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças.

Por outro lado, o PIB não observa a saúde de nossos filhos, a qualidade de nossa educação ou a alegria de nossos jogos. Não mede a beleza de nossa poesia e a solidez de nossos matrimônios. Não se preocupa em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade de nossos representantes. Não considera nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre nossa compaixão e dedicação a nosso país.

Em resumo, o PIB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena”.


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*Robert Kennedy, Senador por Nova Iorque, pré-candidato à presidência dos EUA pelo Partido Democrata, assassinado aos 42 anos de idade em 05 de junho de 1968, poucas semanas após publicar sua intenção de restaurar a importância das coisas que fazem a vida valer a pena.

10 janeiro 2018

MORALIDADE E (in)JUSTIÇA

Kant defendia que as Verdades substantivas poderiam ser encontradas apenas no reino dos abstratos universais, e não no reino da realidade ou do particular. O agente moral se torna moral apenas na medida em que seus motivos estão desvinculados de toda contingência: o imperativo categórico – a mola mestra da moral e da filosofia legal de Kant – deve ser formulado em sintonia ao Realismo Moral e às Verdades substantivas.

Por outro lado, na visão Aristotélica e Tomista, a Verdade substantiva deve ser encontrada no mundo real, não em algum reino abstrato desconhecido. Enquanto, para Kant, o julgamento moral consiste em decidir como funcionar dentro de regras abstratas e universais, a tradição Aristotélica diz que o mundo real constitui a matriz sobre a qual devemos julgar o valor de nossos atos.

Para Aristóteles e São Tomás de Aquino, o que é certo é certo, e a Lei representa a distribuição proporcional do que é certo. A Justiça, como instrumentalização da Lei, não é ideal, mas é real e baseia-se em uma noção transcendetal de equidade. Contudo, uma vez que um direito é a defesa do que é considerado individualmente certo, é evidente que os direitos humanos irão colidir entre si – e, em conjunto, atropelarão nossas percepções de Lei e Justiça.

Na prática, isso significa que é quase uma insensatez tentar definir uma carta de direitos humanos universais. Ninguém discorda que genocídio e estupro sejam errados. A questão é determinar se certos atos individuais podem ou devem ser colocados em categorias especiais – e o que fazer a respeito disso. Por este motivo, a Lei será sempre política: ainda que afirme levitar dentro do Realismo Moral universal, a Lei estará sempre tentando regular a sociedade para o melhor funcionamento possível – e não da maneira mais ética possível.

Uma excelente demonstração disso pode ser vista no sistema carcerário brasileiro: o Brasil possui 1478 estabelecimentos penais públicos de diversos tipos que contabilizavam, em 2016, 726.712 presos – uma média de 491 presos por estabelecimento.

Segundo relatórios do Mapa da Violência, do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias e do Ministério da Justiça, temos cerca de 61 mil mortes violentas por ano. Vamos descontar o fato de que apenas 6% dos assassinatos são investigados e resultam em identificação do criminoso. Vamos supor que vivemos em um país onde 100% dos crimes são solucionados e que a imensa maioria dos assassinatos não foi cometida por assassinos seriais ou recorrentes: considere que existe 1 assassino para cada assassinato ocorrido. Isso significa que, anualmente, a lista de assassinos aguardando condenação é acrescida de 61 mil indivíduos. Agora faça uma matemática simples:

Se cada estabelecimento penitenciário abriga em média 500 criminosos, e temos uma superlotação nas vagas já disponibilizadas, quantos novos presídios precisaríamos construir a cada ano para abrigar apenas os assassinos condenados? Simples: 122. Cento e vinte e dois presídios novos a cada ano.

Segundo cálculos elaborados pela 1ª Vara das Execuções Criminais de São Paulo, a criação (construção) de uma vaga gira em torno de R$40 mil e o gasto médio por preso é de R$ 750/mês. Para produzir 61 mil novas vagas por ano, o Estado brasileiro precisaria investir anualmente R$2,5 bilhões na construção de novos estabelecimentos penais e mais R$550 milhões por ano para manter os condenados por lá. Três bilhões de reais por ano, todos os anos, apenas para retirar assassinos de circulação - e ainda nem falamos de sequestradores, estelionatários, ladrões, corruptos e afins.

É óbvio que esta montanha de dinheiro não é aplicada neste sentido. A polícia não funciona e a justiça penal é lenta porque é assim que o Estado precisa que elas sejam: se ambas fossem eficientes, a (pouca) credibilidade gestora (que ainda resta) do Estado iria pelo ralo com a extensão das filas de camburões nas portas dos presídios ganhando em muito das filas de caminhões com grãos aguardando embarque em nossos portos a cada safra.

A Moralidade política da justiça brasileira, portanto, exemplifica bem como funciona a balança entre as demandas dos cidadãos e a visão de preservação da ordem social promovida pelo Estado. Na impossibilidade do ideal de Justiça, vai-se dobrando a Moral quantas vezes forem necessárias até que ela caiba na pequena caixa de nossa realidade ordinária.


09 janeiro 2018

REFLEXÃO DE UM FINAL DE TARDE

Cerca de 15% das gestações terminam em aborto espontâneo. Se existe algo como um design inteligente, onde tudo foi criado por um motivo e com um propósito, então deus é o maior abortista serial de todos os tempos.


MORALIDADE E CONSERVADORISMO POLÍTICO

Nos estertores de seus últimos anos, o século XX testemunhou uma súbita institucionalização da visão de que a Moralidade Niilista deveria agora ser incorporada ao mundo da soberania nacional, e os direitos humanos passaram a exercer sua prerrogativa irrestrita sob o bordão “onde quer que a Lei limite a sagrada liberdade narcisista do indivíduo, limite-se a Lei!”.

Por isso não foi surpresa quando, menos de duas décadas depois do começo do novo milênio, a sofreguidão por um vigoroso idealismo Moral - recheado de normas universais bem estabelecidas e dogmas inexpugnáveis - começou a colonizar o imaginário de muitos órfãos que perambulavam nas ruas babélicas da pós-modernidade.

Aproveitando-se desse ambiente, o Conservadorismo ressuscitou para surfar na onda da indignação popular com as atrocidades veiculadas várias vezes por dia na mídia. Seus argumentos emblemáticos apelam para a revolta coletiva contra o estado de pretensa impunidade, aplicando um discurso cativante que promete ocupar o vácuo deixado pela crise da Moralidade. Mas será que o Conservadorismo é mesmo capaz de entregar o produto que diz estar vendendo?

A defesa da legitimidade de suas intenções repousa na suposta exclusividade de seu sistema Moral. Mas tanto os Conservadores quanto seus opositores dizem portar as novas tábuas da salvação contendo a codificação para um Universalismo vanguardista. Entre tantas pessoas diferentes falando a mesma coisa, como discernir qual delas tem a capacidade de exercer a autenticidade que esperamos?

É irreal presumir que a expansão do Conservadorismo necessariamente levará a um mundo mais ético, intelectual e meritocrático – assim como é irreal presumir que a Justiça é necessariamente objetiva e apolítica. Talvez o que ocorra seja algo diametralmente oposto a isso. O Conservadorismo traz consigo o risco de agravar exatamente aquilo que afirma pretender eliminar: o poder exercido em nome de interesses próprios e desvinculado dos valores de um estado democrático. Infelizmente, no desespero de nos agarramos a uma Moralidade qualquer, estamos adotando qualquer uma que se apresente.

Enquanto continuarmos confiando na encantadora criatividade populista dos outros para arquitetar nossa salvação, o desajuste Moral seguirá sendo a norma do dia – e qualquer fantasia de mudança será apenas mais uma miragem nesse deserto de ingenuidades áridas que nos engole desde 1500.

14 dezembro 2017

SOBRE UM NOVO SISTEMA DE ENSINO


Os professores são os responsáveis por difundir modos de pensar a alunos que já tem seus próprios métodos de raciocínio – métodos estes que serão empregados para processar as informações apresentadas.

Muitos dos pontos de vista explicados na frente do quadro negro são edições intelectualmente refinadas de opiniões que os estudantes já possuíam, porém em versões mais rudimentares. Por este motivo, as aulas deveriam levar em conta as competências cognitivas presentes nos alunos, e, idealmente, procurar ampliar e desafiar essas competências, ao invés de simplesmente tentar ocupar espaços vazios ou reorganizar os espaços já existentes colonizando-os com algo que o Estado considere essencial, novo ou melhor.

Qualquer professor que tente apresentar um material que não esteja alinhado às competências cognitivas prévias de seus pupilos estará enxugando gelo. Sua instrução será rejeitada como sendo incompreensível ou radicalmente discordante do bom senso, ou será absorvida de modo distorcido. Uma boa aula expõe informações que desalojam as compreensões anteriores do aluno, obrigando-o a construir novos entendimentos. Afinal, o Saber não é uma flor que se observa, mas uma montanha que se escala.

Quando o Conhecimento é divulgado desta forma, muitos estudantes metabolizam os dados de modo convencional e, por conseguinte, deturpado. Eles não estão confundindo tudo: estão apenas tentando entender em seus próprios termos. Este problema é bem perceptível quando lidamos com parcelas menos educadas da população e tentamos expressar noções de tolerância, honra, coragem, força, disciplina, igualdade, secularismo e meritocracia.

É de se esperar que, enquanto estes conceitos são apresentados em um embrulho questionador, a classe comece a se dividir em grupos com argumentos opostos. O desentendimento mútuo – e não o entendimento compartilhado - é a regra nesses cenários. A mesma dinâmica pode ser observada quando cidadãos discutem política.

Em geral, o grupo que demonstra o maior nível de confusão, desacordo e insatisfação pode ser o mais produtivo educacionalmente. E isto não corre apenas porque a agitação fornece carvão para a fornalha do pensamento reflexivo: na verdade, os insatisfeitos barulhentos ajudam a iniciar ou exacerbar o desequilíbrio cognitivo pré-existente, que de outro modo permaneceria constrangido em seu mutismo conveniente. Esta sacudida leva os estudantes – e os cidadãos – na direção de uma reintegração de crenças alicerçada em ideias com um nível bem maior de discernimento.

Assim como um hospital tende a ser uma instituição de cuidados, uma escola também deveria conceber sua missão desta forma. Não apenas transmitindo conteúdo ou desenvolvendo habilidades tayloristas específicas, mas apoiando, nutrindo, fomentando, complementando e participando ativamente do crescimento intelectual global do estudante.

O fato de muitos professores acreditarem já estar agindo dessa forma – quando não estão nem um pouco - mostra como é essencial e urgente conceber uma nova forma de ensino. Infelizmente, enquanto a Base Nacional Comum Curricular tramita em um universo paralelo, longe da atenção merecida, a nação segue desperdiçando vários minutos por ano com os muitos escândalos do dia. Nesse ritmo, deixaremos de ser o país do futuro e continuaremos a ser, com pompa e circunstância midiáticas, o país sem futuro de sempre.

11 dezembro 2017

PERTO DE MAIS UM GIRO NA RODA DA VIDA

 
Último mês de 2017. Hora de olhar para frente, planejar o próximo ano e tentar enxergar o que aguarda um pouco além da curva. Mas é hora também de olhar para trás e ver o rastro das pegadas deixadas no caminho dos últimos 12 meses. E que 12 meses...!

Conheci cidades, praias, rios, cachoeiras, matas, estradas e lugares espetaculares; andei mais de 2000 km de moto, carimbei o asfalto com minhas costelas, esmaguei um pulmão e fiz um estágio de imersão de alguns dias, como paciente, na realidade do sistema público de saúde de nosso país. Uma experiência que me modificou profundamente, pode acreditar.

De uma ideia surgida em uma conversa de mesa de bar com dois amigos muito queridos (Juliano e João Ricardo), o projeto ManhoodBrasil se desdobrou em um website versátil, informativo, vibrante, contabilizando mais de 1.500 páginas publicadas em um ano (são 309 matérias em 5 categorias de interesse até aqui) e quase 20.000 views/mês.

Hoje, a marca reúne mais de 1.000 seguidores no Instagram, mais de 7.000 no Linkedin e superou o teto de 4.000 no Facebook, alcançando mais de 55.000 pessoas e rendendo feedbacks recompensadores. Simplesmente não tenho como agradecer a cada um de vocês que fizeram – e continuam fazendo - parte dessa transformação.

Entre idas e vindas no consultório, concentrando 100% dos meus atendimentos no SUS, pude compartilhar das queixas e das agruras de cerca de 6.500 pessoas: de cada 3 pacientes tomando remédios psiquiátricos, 2 não precisavam de remédio algum, mas apenas de uma luz para aceitar a responsabilidade embutida em suas próprias escolhas e a chance de mudança que a vida oferece a cada dia. O mesmo valia para os obesos (60% da população atendida), os ansiosos e os deprimidos.

Em muitos casos, não acho que minhas orientações fizeram grande diferença, mas tive o prazer de ver pessoas iluminadas conseguindo se livrar de seus tarjas-preta de estimação, perdendo 8 kg em 2 meses ou até 23 kg ao longo do ano. Assisti relacionamentos renascerem, crises de choros e tempestades de catarse. Testemunhei alguns corajosos se engajando e decidindo finalmente participar ativamente de seu tratamento, virando corredores, atletas, remando caiaques no mar, florescendo novamente. A honra e a alegria de participar de suas vitórias não cabem em palavras.

Para fechar 2017 com um brinde especial, recebi a companhia de uma mulher magnífica, inteligente, esforçada, cujos planos em comum me fazem respirar fundo com um sorriso quando penso em como 2018 poderá ser ainda mais recheado de riscos, descobertas e conquistas gratificantes.

Espero que você tenha maturidade para reconhecer os milagres que lhe acompanharam neste ano – até mesmo nas vicissitudes que ele pode ter trazido. Que você deixe as picuinhas políticas de lado, que tire essas roupas pirracentas de moralidade que teima em ostentar, e faça uma viagem para dentro de si e para fora de sua zona de conforto. De todas as opções possíveis, seguir vivendo é certamente a mais extraordinária delas! Curta cada minuto.

Boas festas :)

30 novembro 2017

AINDA SOBRE EDUCAÇÃO NO BRASIL

No primeiro dia de 2015, a presidente recém empossada Dilma Rousseff definiu o novo lema de governo: Brasil, Pátria Educadora. Curiosamente, em novembro do mesmo ano, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lançou seu relatório Education at a Glance.

O Education at a Glance é uma fonte validada de informações acuradas sobre o estado da educação em todo o mundo. Ele fornece dados sobre o desempenho das instituições de ensino; o impacto do aprendizado nos países; os recursos financeiros e humanos investidos em educação; o acesso, a participação e a progressão na educação; e a organização e o ambiente de ensino dentro das escolas.

No painel de 2015, a OCDE apontou alguns indicadores preocupantes no ensino brasileiro. Por exemplo: o nível de aprendizado médio dos estudantes em Ciência foi péssimo. Entre os avaliados, 82% ficaram entre o nível mais baixo de conhecimento e o nível 2 – o nível básico. A média da OCDE para esses grupos é de 46% no total.

Importante salientar que o nível 2 de aprendizagem em ciências é o mínimo necessário para se tornar um cidadão “crítico e informado”. Nesse nível, os estudantes começam a demonstrar as competências que vão permitir que participem efetivamente e produtivamente nas situações cotidianas relacionadas a ciência e tecnologia. Com 82% dos estudantes com nível baixo de conhecimento científico, não é preciso uma dedução complexa para calcular o naipe de raciocínio crítico que nossa população possui...

Em leitura, o Brasil ficou entre os 12 piores países, com uma média de 407 pontos - bem abaixo da média de 493 da OCDE.

Mas nosso pior desempenho geral foi em Matemática, disciplina em que ficamos entre os cinco piores países avaliados, com uma média de 377 ante uma média de 490 entre os países da OCDE. Basicamente, 70% de nossos estudantes estão abaixo do nível 2 em Matemática – que seria o mínimo necessário para que um aluno possa exercer plenamente sua cidadania. Em países desenvolvidos, como a Finlândia, a taxa de incapazes é de 13%.

“Países como a Colômbia e o México, que tinham resultados similares aos nossos, nos deixaram para trás. Portugal e Polônia, que também estavam próximos, deram um salto de qualidade e superaram a média da OCDE” – e estas não são palavras minhas. São da Secretaria Executiva do MEC.

NÃO É UM PROBLEMA DE QUANTIDADE...

Talvez o problema da qualidade da educação esteja nos investimentos, não? Talvez nós estejamos gastando pouco com isso...

Não, não estamos gastando pouco. O Brasil destina 17% dos seus gastos públicos à educação, do nível de educação básica à educação superior. Somente o México e a Nova Zelândia – ambos com 18% - destinam uma proporção maior dos gastos públicos às instituições de ensino.

Além disso, o gasto público em instituições de educação superior como percentual do gasto público total aumentou 49% entre 2005 e 2012, o que é bem acima do aumento médio da OCDE de 33%. O aumento foi ainda mais acentuado em instituições de ensino fundamental e médio. A proporção de gasto público nesses níveis aumentou 82% no mesmo período, o maior aumento entre todos os países e parceiros da OCDE com dados disponíveis.

Em 2012, o gasto público brasileiro em instituições da educação básica a superior representou 5,6% do PIB. Essa proporção é consideravelmente maior que a média OCDE de 4,7%, e é a quinta mais alta entre todos os países e parceiros da OCDE com dados disponíveis.

Neste ponto, vamos fazer um parêntese e supor o seguinte: eu lhe dei 30 mil reais e pedi que você comprasse um carro para mim. Trinta mil mangos não é uma fortuna, mas também não é de se jogar fora. Contudo, antes que você saísse, eu lhe passei algumas instruções específicas sobre a compra: com esse dinheiro, você deveria retornar trazendo um carro zero quilômetro, com direção hidráulica, automático, trio elétrico, teto solar, 6 air-bags e tração nas quatro rodas - com ABS.

Trinta mil não compram isso. Ainda que seja um dinheiro legal, é pouco para a qualidade definida para o produto. E aqui entra um dos problemas do nosso ensino. Ele não é tanto de quantidade dinheiro, mas de destino do investimento: os salários iniciais dos professores no Brasil são menores do que em outros países latino-americanos como Chile, Colômbia e México para todos os níveis educacionais, desde a pré-escola até o ensino médio.

No Brasil, um professor da rede pública ganha em média R$ 3,3 mil e nós, os hipócritas esquizofrênicos, alucinamos com a suposição de que uma mão de obra desse valor é capaz de ter o mesmo rendimento de um professor da Finlândia. É uma piada. O salário médio de um professor primário finlandês é de  3.132 euros mensais (cerca de R$ 12 mil). Professores do ensino médio recebem 3.832 euros e docentes de universidades ganham em média 4.169 euros por mês (R$ 16 mil).

Se você quer pagar R$ 3,3 mil por um carro, não se surpreenda quando ele não tiver o rendimento de um veículo 5 vezes mais caro. Por R$ 3,3 mil mensais você não compra o direito de possuir uma Ferrari, ainda que os delírios anotados na Constituição Federal e as crenças socialistas-comunistas de banânia tentem lhe convencer do contrário.

Como diz a expressão americana da década de 1930: Não existe essa coisa de almoço grátis. Se você quer qualidade, pague por ela. Ou faça alguém pagar.

... É UM PROBLEMA DE VALORES

Além da montanha de dinheiro investido em educação não ir para o bolso de quem faz a diferença – professores -, há ainda o problema do desinteresse comatoso da população brasileira, que não vê no estudo e no aprendizado um valor intrínseco, mas apenas uma forma para ganhar dinheiro.

Nós não estudamos para aprender. Dizemos o oposto disso apenas como uma maneira dissimulada para ocultar o real motivo pelo qual estudamos: o brasileiro estuda para ganhar mais dinheiro. Transformando o dinheiro - e não a aquisição de cultura e saber – na finalidade do processo escolar, nosso povo deixou de enxergar a educação como algo nobre. Estudar e aprender viraram ferramentas que podem ser indesejadas sem penalidade.

Está tudo bem não estudar caso você esteja satisfeito em levar uma mais simples, certo?

Não, não está.

Em 2013, 54% dos adultos com idade entre 25 e 64 anos não tinham completado o ensino médio no Brasil - o que é consideravelmente maior que a média OCDE de 24% -, e quase dois terços dos jovens de 15 a 29 anos não estavam estudando.

No meio dessa massa de analfabetos funcionais, existe uma multidão absurda que compõe um grupo conhecido como “NEM-NEM”: gentes que nem estudam nem trabalham. Essa multidão - mais de 20% dos indivíduos de 15 a 29 anos - equivale a uma manada de 10,2 milhões de inúteis que a população economicamente ativa deve literalmente carregar nas costas.

A saída para a Educação no Brasil é como a saída para a Saúde, para a Segurança Pública, para o sistema Previdenciário, para a Burocracia e tudo mais que entrava esse país: a saída passa por uma discussão dura, franca, grosseira e com todos os nomes aos bois e palavrões a que se tem direito sobre o que está ocorrendo aqui. Sem espaço para comportamentos de vítima, mecanismos de projeção de culpa, corporativismos cor-de-rosa ou cunhadismos indecentes.

Ou levamos essa joça a sério, ou nos tornamos perpetuamente aquilo que já somos: um bando de sonâmbulos sem competência sequer para limpar o próprio traseiro sem uma ajudinha do Estado.


SOBRE NOSSO SISTEMA EDUCACIONAL

O academicismo preciosista brasileiro matou a Academia. Leia a biografia de Einstein, Leeuwenhoek, Newton, Darwin e Ignaz Philipp Semmelweiss, por exemplo, e veja que títulos eles possuíam quando produziram conhecimentos que mudaram o status quo.

Da mesma forma como o governo é o problema do país, os professores (e sua busca por titulações apenas para aumentar salários e não a eficiência do ensino) são o problema do sistema educacional: 50% dos profissionais da área sofrem de algum transtorno mental comum (aí inclusos síndrome de burnout, transtorno da ansiedade, depressão, bipolaridade e síndrome do pânico). Na população geral, a prevalência é de 20%.

Muito mais que a remuneração, precisamos melhorar a seleção de quem vai para as salas de aula. Depois de 30 anos, é perceptível que filtrar a admissão por credenciais acadêmicas e ideologias socialistas não produziu bons resultados: ostentamos a nada honrosa 60.ª posição no ranking mundial de educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No estudo da OCDE, foram avaliados 76 países - um terço das nações do mundo - por meio do desempenho de alunos de 15 anos em testes de Ciências e Matemática.

A mudança de filosofia deveria começar pela desconstrução da ideia por trás da valorização do ego academicista. Precisamos trocar os silogismos sofistas vitimizantes de nossas escolas por conteúdos técnicos focados em objetivismo, cidadania e responsabilidade resiliente. Apenas assim será possível observar alguma mudança efetiva daqui algumas décadas.

18 novembro 2017

SOBRE UM DELÍRIO CHAMADO NOVEMBRO AZUL

Após receber toneladas de propaganda sobre as campanhas Novembro Azul, fiquei me perguntando: será que o screening para neoplasia prostática utilizando faixas etárias como linhas de corte produz alguma redução significativa na morbiletalidade da doença?

Não, não produz. E isso é o que dizem as evidências acumuladas a partir de metanálises e revisões sistemáticas da literatura.

Apenas para citar um exemplo de peso: segundo o NIH (Instituto Nacional de Saúde, entidade dos EUA equivalente ao nosso Ministério da Saúde), a dosagem periódica de PSA ou o exame de Toque Retal (TR) não é capaz de reduzir a mortalidade associada ao câncer prostático.

O que o conjunto dos dados embasados DE FATO mostra - e existem dezenas e dezenas de estudos sérios concluindo exatamente esta mesma coisa -  é que o screening populacional com PSA e/ou TR resulta em um exagero nos diagnósticos de câncer na próstata, além da detecção de lesões que, se não diagnosticadas, jamais causariam mal algum.

O excesso de diagnósticos e resultados falso-positivos leva à realização de exames adicionais (p.ex.: biópsia prostática) e tratamentos invasivos em homens que sofrerão, agora, as consequências desses danos desnecessários.

Mas as políticas públicas tupiniquins não são feitas com base em Ciência. Nunca foram. Elas são orquestradas com discursos paternalistas em nome de motivações essencialmente populistas. E, incrivelmente, aqueles que deveriam erguer suas vozes anunciando este descalabro, inacreditavelmente embarcam no delírio para - quem sabe - retirar dele algum brio e prestígio para seus egos.

Não temos um outubro rosa. Tampouco temos um novembro azul. O que temos são meses, anos, décadas do mais puro colorido psicodélico esquizofrênico que o mundo já viu do lado debaixo do Equador. E o surto de Gargamel sob efeito de cogumelos alucinógenos perseguindo Smurfs fantasiosos no bosque segue - com aval do Estado e sua corte de especialistas cegos, surdos e mudos.

SOBRE O MITO DA DOENÇA MENTAL

A partir da Segunda Guera Mundial, a medicina passou a definir a simulação de doença como uma doença em si. Isso equivale a dizer que uma boa imitação de uma obra-prima deveria, segundo aqueles novos conceitos, ser considerada uma obra-prima.

No caso da doença mental, essa redefinição arbitrária significou aceitar compulsoriamente que uma nota de dinheiro falsificada deva valer o mesmo que uma nota verdadeira - e as manifestações diversas de Fraqueza Moral finalmente receberam sua validação como Doença, sem a necessidade de sustentar sequer um substrato anatomo-fisiológico qualquer que lhe justificasse o título.

Nos últimos 60 anos, tudo que fizemos para resolver este problema foi afrouxar nossos conceitos de doença e de obra-prima, forçando a medicina a aceitar e tratar toda histeria - até as falsificadas - como se fosse uma moléstia crônica "ipso facto".

Travestida de "ciência", a condescendência mercantilista patrocinada por laboratórios farmacêuticos, prontamente abraçada por agremiações de "especialistas" e gratamente recebida por manadas de indivíduos masoquistas em busca de aconchego para suas carências e inépcias, rapidamente alastrou-se pelo mundo e produziu, até aqui, duas gerações inteiras de pessoas confortavelmente assentadas em discursos de autovitimização privilegiada.

E esta farsa sem fim segue firme e forte.

10 novembro 2017

A FUGA COTIDIANA DAS RESPONSABILIDADES


Uma adolescente entra no consultório acompanhada da mãe e o que se desenrola é o mesmo de sempre:

- Quero que o senhor peça um check-up dela.

- Algum motivo especial? Ela faz tratamento para alguma doença? Tireoide, asma, diabetes...

- Não, nada. Só quero fazer os exames de rotina.

Segue-se uma conversa sucinta e objetiva sobre antecedentes médicos da paciente, uma consulta ao prontuário e, enquanto preencho os dados dos exames, a mãe continua:

- E daria também para o senhor encaminhá-la para o psicólogo? Ela anda tendo uns problemas...

- Exatamente por que eu deveria encaminhá-la ao psicólogo?

- Porque ela anda difícil, rebelde, desobediente, às vezes chorosa...

- Não acredita que, antes do acompanhamento com um psicólogo, resolver essas situações de comportamento deveria ser um papel do pai e da mãe?

- Sou sozinha com ela, doutor. E já fiz de tudo para ajudar, mas não tá adiantando.

- Entendo. Mas não acha que levar sua filha ao psicólogo para resolver problemas de conduta é uma forma de transferir para o psicólogo a responsabilidade de criá-la, que deveria ser sua?

- Não.

- A senhora tem carta de motorista?

- Tenho, sim.

- Esse documento se materializou na sua carteira como um passe de mágica ou a senhora teve que estudar para consegui-lo?

- Estudei, fiz auto-escola, foi um sufoco!

- E diploma do ensino médio? A senhora tem?

- Tenho. Não fiz faculdade, mas terminei os estudos.

- Hum. Sou formado há 22 anos e ainda não terminei os meus... Mesmo assim: esse diploma também se materializou na sua gaveta de documentos ou a senhora teve que estudar para consegui-lo?

- Estudei, lógico! Não tem como aparecer um diploma de conclusão de curso sem fazer o curso.

- Certo. No último ano, quantos livros a senhora leu sobre como criar filhos?

- Hãn? – ela se surpreendeu, colocando a bolsa a tiracolo na frente do corpo.

- No último ano, quantos livros a senhora leu sobre como criar filhos?

- Nenhum.

- A senhora por acaso já se interessou em ler algum?

- Ah, há alguns anos até comecei um que não lembro o nome agora, mas larguei antes da metade.

- E a senhora acha mesmo que já fez “de tudo” para tentar entender o comportamento de sua filha e ser um exemplo para o desenvolvimento dela?

- Sinceramente, acho que sim. E não sei mais o que fazer.

- Que tal começar a ler sobre o assunto?

- Não sei... não vejo como isso iria ajudar muita coisa. – ela respondeu, cruzando os braços.

- E a senhora acredita que o espírito santo vai baixar na sua mente e por um milagre lhe iluminar sobre como agir para conduzir a formação da personalidade de sua filha?

- Ah, eu vou tentando do jeito que eu sei.

- Entendo. É o velho método de “tentativa e erro”. Mas, se a senhora está se queixando do comportamento dela, isso diz um bocado sobre o que está acontecendo com mais freqüência nas suas tentativas. E o que está acontecendo são erros.

- Não penso que estou errada.

- Então por que se queixa que as coisas não estão dando certo como gostaria?

- É essa geração...

- A senhora tem lido ou estudado alguma coisa sobre como lidar com essa geração?

- Não tenho tempo pra isso, doutor. Trabalho muito, sou sozinha e ainda mais com uma filha...

- Algumas dessas coisas lhe foram impostas? Ou são frutos de escolhas que a senhora fez até aqui?

- Só quero que o senhor encaminhe minha filha para o psicólogo e pronto. É pedir muito? – ela respondeu, visivelmente irritada e contrariada.

Abaixei a cabeça, peguei o formulário de encaminhamento, preenchi, assinei, carimbei e a dupla se foi. Provavelmente, semana que vem vou receber uma carta da Diretoria de Saúde comunicando outra  “sindicância instaurada sobre atendimento a partir de queixa do usuário”. Mais algumas e logo organizo um livro só delas - a coleção vai aumentando forte e saudável.

SOBRE ROSSEAU, O SOCIALISTA-PADRÃO

Em suas andanças, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), o garotão suíço esperto órfão de mãe que fugiu da escola, arrumou como amante uma rica senhora e, sob seus cuidados, desenvolveu o interesse pela música e filosofia. Amou-a durante alguns anos e outros tantos contos de réis e, quando a situação financeira ficou ruim, fugiu para Paris com outra amante cujo saldo bancário era mais compatível com seu apreço pelo ócio.

Instalado na França, Jean teve cinco filhos com sua amada parisiense. Muito diligentemente, tratou de colocá-los todos em um orfanato.

Apesar de seu contra-Iluminismo, Rousseau é tido em grande conta como um pensador de relevância para a modernidade. Mas, analisando seus escritos, é difícil encontrar alguma genialidade que não possa ser classificada como pura maledicência socialista.

Em O Contrato Social, Rousseau prega insistentemente a "liberdade". Entretanto, defende também a presença de um Legislador que possua uma “inteligência superior ”. Tal legislador teria uma das tarefas mais exigentes na sociedade: estipular regras e normas que limitam a liberdade de cada indivíduo em nome do bem desses. Haja incongruência...

Por tudo isso, Voltaire tem no mínimo um mérito incontestável: foi um crítico ferrenho do aproveitador Rousseau - um sujeito esquizofrênico e de atitudes dissociativas que nossa esquerda tupiniquim ama idolatrar.

04 novembro 2017

EDUCAR-SE É UM DIREITO OU UMA OBRIGAÇÃO?

Nos tímpanos da geração Mimimi, a palavra “direito” virou um modo eufemístico de designar a obrigação dos outros.

Conforme exposto por Olavo de Carvalho, "há décadas o Estado vem gritando nos ouvidos dos estudantes que a educação é um direito, e isso só os tem impelido a cobrar tudo dos outros — do Estado, da sociedade — e nada de si mesmos".

Cruzadas publicitárias que "enfatizam a educação como um direito a ser cobrado, e não como uma obrigação a ser cumprida pelo próprio destinatário da campanha, têm um efeito corruptor quase tão grave quanto o do tráfico de drogas: elas incitam as pessoas a esperar que o governo lhes dê a ferramenta mágica para subir na vida sem que isto implique, da parte delas, nenhum amor aos estudos, e sim apenas o desejo do diploma", escreveu o autor de O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota.

O resultado disso é fácil de ser aferido: o Brasil ficou na 60.ª posição no ranking mundial de educação em uma lista elaborada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) envolvendo 76 países - um terço das nações do mundo.

Não é de admirar: segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, o brasileiro lê em média 2 livros inteiros por ano. É isso que acontece quando o que deveria ser uma obrigação de cada um vira direito de todos - e dever de ninguém.

E se você se acha tão especial, inteligente e acima da média, que tal comentar citando os 3 (ou mais) livros inteiros que leu nos últimos 12 meses?

QUAL A SAÍDA PARA O BRASIL?

Apenas no PRIMEIRO trimestre de 2017, o Facebook registrou um LUCRO LÍQUIDO de R$ 10 bilhões.

Para efeito de comparação, isso é 3 vezes maior que o LUCRO LÍQUIDO SOMADO de 10 das maiores potências industriais brasileiras durante TODO O ANO de 2016:

1- Grupo Weg (R$ 1,117 bilhão)
2 - Votorantim Cimentos (R$ 600 milhões)
3 - Cristália (R$ 469 milhões)
4 - Mineração Paragominas (R$ 393 milhões)
5 - Natura (R$ 296 milhões)
6 - Rede Ipiranga (R$ 280 milhões)
7 - Mahle Metal Leve (R$ 150 milhões)
8 - Magazine Luíza (R$ 104 milhões)
9 - Furukawa (R$ 76 milhões)
10 - Cometc (R$ 25 milhões)

Enquanto nosso sistema educacional continuar sufocando a criatividade; a burocracia esquerdista, massacrando a capacidade de iniciativa; e os impostos, abortando o empreendedorismo liberal, continuaremos na liderança mundial dos índices de homicídios: nosso país, sozinho, responde anualmente por 10% de todos os assassinatos no planeta.

A fórmula não é mágica, tampouco é nova: o crescimento econômito baseado no desempedimento e valorização do mérito pessoal, com justiça efetiva protegendo a vida e a propriedade, é o único caminho para uma reforma social séria. Todo o resto é fanfarronice eleitoreira.

01 novembro 2017

A CLÁSSICA ANTIGUIDADE DO DELÍRIO

Existe um livro de 1841 chamado Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds (Extraordinários engodos populares e a loucura das multidões). Duvido um pouco que você sequer tenha ouvido falar dele... Há alguns anos, baixei o pdf, devorei a leitura das 499 páginas em um fim de semana, e dexei-o salvo na minha “nuvem”. Desde então, o revisito com uma certa periodicidade, como quem passa na varanda de um velho amigo para rir de alguma bobagem à toa.

Escrito pelo jornalista escocês Charles Mackay, a obra explora o lado ridículo de muitas crenças e convenções tais como alquimia, barbas e sua influência na política e na religião, caça às bruxas, cruzadas e duelos.

Entre os engodos populares, Mackay descreve a Mania das Tulipas (febre que acometeu a Holanda e terminou como uma crise em fevereiro de 1637), a quebra da South Sea Company (uma convulsão de imbecilidade do capitalismo que assolou a Europa em 1720) e a Companhia do Mississippi (mais ou menos uma versão Franco-Americano da South Sea).

Impossível não pensar no livro de Mackay quando você lê a história de Satoshi Nakamoto e sua criatura mais famosa, um certo BitCoin.

Os anos passam, algum conhecimento se eleva, alguma sabedoria nos ilumina, mas certas burrices inacreditáveis insistem em persistir. Se estivesse vivo, Mackay estaria agora mesmo tomando notas sobre Satoshi e preparando uma edição atualizada de seu excelente Madness of Crowds. Modestamente, eu sugeriria como título do novo capítulo: BitBubbleCoin, a virtual opera of the same fucking old mental disorder.


ALFABETIZAÇÃO PARA NEOPOLÍTICOS & VELHAS RAPOSAS NÉSCIAS


Para quem empacou no meio do caminho e ainda não conseguiu entender o que é ESQUERDA e DIREITA - e vive de argumentar contra tudo utilizando apenas retórica oca e jargões bobos -, aqui seguem algumas orientações bem básicas sobre ideologias políticas.

Se você concorda com elas, fico feliz. Que tal agregar mais valor a esse debate complementando as idéias expostas com as suas próprias?

Por outro lado, se você não concorda, fico ainda mais feliz! Mas, ao invés de torcer o nariz, que tal agregar mais valor a este debate colando SUAS DEFINIÇÕES? Mas entenda: definições são idéias que se erguem de pé, dignas, claras, límpidas, translúcidas. Definições não são convulsões de revolta vazia, ou xingamentos e ataques ao mensageiro (sério: atirar no mensageiro que traz uma mensagem que você não gosta é comportar-se feito uma criança que se joga gritando no chão do supermercado porque a mãe não quis comprar um doce. Você provavelmente já é um adulto, então seja mais que uma criança pirracenta).

Tudo pronto? Vamos lá:

COMUNISMO é uma doutrina social segundo a qual se pode e deve "restabelecer" o que se chama "estado natural", em que todos teriam o mesmo direito a tudo, mediante a abolição da propriedade privada.

SOCIALISMO refere-se a qualquer uma das várias teorias de organização econômica que advogam a administração e propriedade pública ou coletiva dos meios de produção e distribuição de bens, propondo-se a construir uma sociedade caracterizada pela igualdade de oportunidades e meios para todos os indivíduos, com um método isonômico de compensação. Atualmente, teorias socialistas são partes de posições da esquerda política, relacionadas com as atuações do Estado de bem-estar social.

Em resumo: COMUNISMO E SOCIALISMO são basicamente a mesma coisa, é a mesma velha ideologia de Esquerda - apenas com nomes diferentes. Ambos defendem um Estado gigantesco (para ser capaz de restabelecer o que chamam de “nosso estado natural”), paternalista (construção da sociedade através de “métodos isonômicos de compensação”), ideologicamente inimigo da propriedade privada e controlador da liberdade, das oportunidades, dos meios de produção e da distribuição de bens.

Estas seriam as bases conceituais de Esquerda. Então o que seria Direita? Simples: o diametralmente oposto à esquerda. Portanto, uma ideologia de DIREITA é aquela em que temos:

- Um Estado que aceita o fato de que nem todos terão o mesmo “direito” a tudo. Você não tem direito a ser rico ou feliz, ou ter um diploma universitário, um emprego ou um corpo sarado. É SEU dever esforçar-se por meio da sua vontade e do seu empenho disciplinado para atingir os objetivos que aspira. Satisfazer seus desejos e ambições não é – tampouco foi um dia - um dever do Estado.

- Um Estado que protege a propriedade privada.

- Um Estado que NÃO SE METE com a administração dos meios de produção e distribuição de bens. Não cabe ao Estado fabricar automóveis ou geladeiras ou microondas ou vender máquinas de lavar roupa ou celulares, do mesmo modo que não cabe ao Estado ser dono de rodovias, ferrovias, refinarias, portos ou aeroportos.

- Um Estado que não interfere na liberdade de mercado utilizando subterfúgios escusos e objetivos pífios escondidos sob a égide bacana de “método isonômico de compensação”.

- Um Estado que preserva a liberdade de idéias e expressão.

Ficou mais fácil entender agora que NUNCA tivemos um Estado de Direita nesse país?