08 julho 2016

30 Regras de conversação para Cavalheiros

* Especial para Manhood Brasil


Este texto foi extraído de um livro publicado em 1875 chamado "Guia de Etiquetas de um Cavalheiro", escrito por  Cecil B. Hartley, também conhecido pelo livro "Life and Times of Col. Daniel Boone".

As regras de Hartley podem ter mais de 100 anos, todavia elas seguem mais verdadeiras hoje que nunca. Existem coisas óbvias, sim, mas vou confessar: algumas dessas dicas mexeram comigo. Confira abaixo e deixe sua opinião:

1. Ainda que você esteja convencido de que seu oponente está completamente errado, evite debater ardorosamente ou tentar colonizá-lo com suas próprias ideias de modo obstinado. Muitas pessoas dão sua opinião não como quem sugere algo, mas como se estivessem defendendo uma lei divina. Não perca a calma.

2. Tenha para si uma posição política firme e clara, mas não fique desfilando com ela em toda e qualquer ocasião. Acima de tudo, não procure convencer outras pessoas a concordarem com você. Ouça todas as ideias com parcimônia. Se não estiver de acordo, seja educado. Deixe seu oponente pensar que você é um mau político, mas obrigue-o a admitir que você é, antes de tudo, um cavalheiro.

3. Nunca interrompa a fala de outros, mesmo que a pessoa esteja hesitante em busca de uma palavra mais adequada, uma data ou um nome. Forneça a informação apenas se você for solicitado a fazê-lo. Também é absolutamente grosseiro antecipar a história do outro, ou tomar a narrativa de terceiros para você e finalizá-la ao seu modo.

4. Enquanto alguém estiver falando, não confira o relógio, ou olhe ao redor, ou folheie uma revista, ou tome qualquer atitude que demonstre que você está cansado do interlocutor ou de sua história.

5. Durante um diálogo, nunca fale simultaneamente enquanto outra pessoa estiver falando, tampouco eleve sua voz para calar o outro e tomar as rédeas da conversa. Não pose de arrogante ou fale de modo ditatorial.

6. Nunca, a menos que você seja solicitado a isso, fale de seu negócio ou profissão. Limitar sua conversa inteiramente ao seu campo de atuação é pedantismo. Assegure-se que o teor da conversa esteja alinhado ao lugar onde você se encontra.

7. Em uma disputa, se você não é capaz de reconciliar as partes, retire-se. Ao tomar partido em uma discussão onde os participantes perderam o controle, você poderá estar fazendo um ou mesmo dois inimigos.

8. Nunca, durante uma conversa, esforce-se para concentrar a atenção inteiramente em você. Fale de si mesmo, mas bem pouco. Seus amigos irão identificar suas virtudes sem que você tenha que enumerá-las. E o mesmo vale para seus defeitos.

9. Um homem verdadeiramente inteligente e culto em geral é modesto. Ele não se esforça para mostrar que seus interlocutores são inferiores a ele, nem conta vantagens devido ao seu intelecto superior. O homem culto debate com franqueza e simplicidade os tópicos iniciados por outro e estimula a participação de todos no assunto. Suas palavras são marcadas por polidez e respeito aos sentimentos e opiniões dos demais.

10. Um dos maiores elogios que você pode oferecer a alguém e ser um ouvinte interessado e atencioso.

11. Não fique ouvindo a conversa de duas pessoas que se retiraram do grupo para um diálogo mais pessoal.

12. Torne sua participação na conversa tão breve quanto pertinente com relação ao assunto sendo debatido. Evite sermões e histórias tediosas.

13. Se não estiver conversando entre profissionais, o uso de termos técnicos pode ser considerado de mau gosto.

14. Se você se dispõe a fazer piadas com outros, você está automaticamente autorizando os outros a fazerem piada de você.

15. Quando estiver conversando com seus amigos, não os compare entre si. Fale dos méritos de cada um, mas não eleve as virtudes de um contrastando-as com os defeitos de outro.

16. Desvie de qualquer tópico que possa ser prejudicial a um ausente. Um cavalheiro nunca calunia ou se permite ouvir calúnias.

17. Evite frases feitas e faça citações apenas raramente.

18. Fale corretamente seu idioma,  mas evite firulas e palavras rebuscadas que fujam do contexto social. E jamais corrija erros de pronúncia dos outros.

19. Tome cuidado para não ser excessivamente divertido e animado ou logo você será conhecido como "o palhaço", ou "o cara engraçado", e nenhum outro papel pode ser mais nocivo para sua dignidade de cavalheiro.

20. Não ostente. Não fique exibindo seu dinheiro, sua riqueza, suas conexões ou seus luxos. Não é educado propagandear sua intimidade com pessoas distintas ou famosas.

21. Fazer citações em língua estrangeira é algo extremamente deselegante. Evite isso.

22. Frases de duplo sentido não cabem na conversa de um cavalheiro.

23. Caso esteja se irritando em uma conversa, mude o tópico ou mantenha-se em silêncio.

24. Não futuque feridas.

25. Se você fez uma viagem, não fique falando constantemente sobre ela. Nada é mais entediante que alguém que começa cada frase com "Quando eu estive em Paris" ou "Eu na Itália que...".

26. Quando fizer perguntas sobre alguém que você não conhece, não utilize adjetivos. Caso contrário, você corre o risco de dizer a uma mulher "Quem é aquela criança ridícula?" e ouvir como resposta "Minha filha".

27. Não xingue. Em uma mulher, é uma atitude detestável. Em um homem, um hábito desprezível.

28. Não adule. Um elogio delicado é permitido e desejável, mas a adulação é nojenta.

29. Uma dama se sentirá mais valorizada se você conversar com ela sobre assuntos interessantes, instrutivos e de bom gosto - bem mais do que se você se perder em infinitos elogios à sua beleza.


30. Procure tornar sua conversa amável, franca, educada, pertinente e livre de afetações, e você será visto e tratado sempre como um verdadeiro Cavalheiro.

10 Dicas de como causar uma boa impressão no primeiro encontro

* Especial para Manhood Brasil

  
#1 - Apresente-se bem. Boas roupas, bons perfumes. Limpe os sapatos, corte as unhas e evite cutucar o ouvido com a tampa da caneta bic.

#2 – Seja assertivo. Confie em suas escolhas, tenha um comportamento decidido.

#3 - Cuide de sua personalidade. Leia bons livros para ter bons assuntos, fomente bons princípios e seja cavalheiro.

#4 - Malhe. Bíceps e deltoides são obrigatórios. Eliminar aquela barriga obstétrica de chope também é recomendável. Malhar aumenta sua autoconfiança e, cá entre nós, em um primeiro encontro, a aparência conta tanto quanto seu cartão de crédito. Ou até mais.

#5 - Tenha senso de humor. Mas nada daquelas piadas que você costuma contar na roda de amigos. Guarde-as para a roda de amigos.

#6 - Não force a barra. Cara, isso é péssimo. Vá com calma. Ela não é a melhor nem a última o planeta, mas vai que ela é aquela perfeita para você? Não estrague tudo deixando a cabeça de baixo assumir o controle.

#7 - Arrume um emprego e um bom salário. Não reclame dessa dica: se você acha que "dinheiro não interessa", então doe suas roupas e entre para um mosteiro budista. É LÓGICO que dinheiro conta. Vai dizer que o Ronaldo Fenômeno é lindo?
 
#8 - Cultive o respeito dos outros. Quem não gosta de estar com alguém que respeita e é respeitado? Demonstrar interesse genuíno pelo assunto de quem está à sua frente já é um bom começo.

#9 - Seja autoconfiante. Isso não significa ser arrogante ou grosso. Só um pouco. Basicamente, confie em suas habilidades e não recue se souber que você está certo, mas tome cuidado para não deixá-la desconfortável com demonstrações de testosterona em excesso.

#10 - Tenha postura. De que adianta a calça jeans de 1.000 reais se suas cuecas estão de fora e coroadas por um cofrinho cabeludo? Melhore sua linguagem corporal, mantenha uma postura relaxada porém ereta, fale devagar e sorria.


6 Coisas que você deve SEMPRE exigir de seu relacionamento

Especial para Manhood Brasil



Por mais altruísta que você tente ser, todo relacionamento é um "toma lá, dá cá". Você oferece ideias, apoio, afeto, e espera receber algo em troca. Mas as pessoas são diferentes: alguns oferecem muito, outros retornam com pouco. Alguns esperam receber mais, outros contentam-se com o mínimo que obtém.

Às vezes, o que você está disposto a oferecer e receber encontra-se desalinhado com as cartas que ela coloca na mesa. Quando isso acontece, o relacionamento torna-se cheio de atritos, discussões e emoções frustradas. É um pé no saco.

A solução para afinar a sintonia é a comunicação. É preciso manter um diálogo bem aberto com sua fêmea. Querer e aprender a lê-la. Só assim os ajustes necessários serão possíveis para prosperar na vida a dois que você tanto quer. Eu sei, essa pode ser uma tarefa exaustiva - nós homens não somos exatamente os seres mais pacientes e conversadores do mundo -, mas se você acha que ela vale à pena, o esforço trará recompensas.

Um dos erros mais comuns é esperar que ela seja capaz de adivinhar o que você pensa. Esse papo de alma gêmea é muito bonito, mas a realidade é fria e crua. Assim como você, sua mulher não faz parte da mobília e também tem vontades e preocupações pessoais que cabem a ela decidir. Não é racional esperar que ela esteja permanentemente em sintonia com seus desejos e necessidades. Apesar de ser muitas vezes chato pra carai, conversar torna as coisas mais fáceis para ambos.

Se todos nós aprendêssemos a usar as palavras para manifestar objetivamente o que desejamos da vida, nossa existência nesse mundo seria muito mais suave. Incontáveis situações e relacionamentos terminam com os burros n´água simplesmente porque as pessoas envolvidas são incompetentes na hora de expor o que querem.

Para que as coisas funcionem em um relacionamento, existem 6 pontos que devem ser absolutos em suas exigências de troca. Deixe claro desde o princípio que você OFERECE E ESPERA RECEBER:

1. Consideração. Ok, você pode dividir algumas decisões com ela para deixar o jogo mais justo e eficiente. Entretanto, você DEVE participar ativamente de todas as decisões importantes. Sua opinião deve ser manifestada nessas decisões com uma combinação de bom senso e atitudes firmes.

2. Tempo. Todo mundo tem ganâncias e objetivos. Estamos sempre perseguindo algo. Encontrar o exato equilíbrio entre suas batalhas profissionais e o espaço que você oferece a ela em sua vida é a única maneira de obter paz e felicidade. Se você não enxerga uma possibilidade para criar este espaço para ela, então você não deveria estar em um relacionamento: siga sua vida sozinho e resolva suas necessidades sexuais sem oferecer promessas de vínculos emocionais.

3. Presença. Pior do que estar em um relacionamento onde a pessoa está sempre fisicamente ausente é estar ao lado de alguém que mentalmente nunca está presente. Mas atenção: para exigir presença, você deve oferecer presença.

4. Empatia. No frigir dos ovos, somos todos seres absolutamente egocêntricos. Enxergamos a vida a partir de nossos próprios olhos e de ninguém mais. Todavia, encarar um relacionamento significa que você deve estar disposto a enxergar o mundo também a partir do ponto de vista dela. A empatia é uma manifestação profunda de ternura e consideração. Bem trabalhada, ela utiliza as trivialidades do dia a dia para aprofundar vínculos e tornar a vida a dois uma experiência extraordinária.

5. Novidades. As coisas começam a dar errado a partir do momento em que você passa a se satisfazer com as coisas como estão. Isso não significa estar sempre puto com a situação, mas que uma de suas obrigações é criar novas experiências para ambos. Não se acomode sob a justificativa de que você está mirando nos "grandes objetivos". Crie também pequenos objetivos que podem ser alcançados no curto prazo. Passeios, vinhos, velas, uma decoração nova na casa, um detalhe atencioso no almoço, uma massagem e um filme picante à noite... a paixão que ela sente por você é nutrida também por essas novidades.

6. Esforço. Você é tão cheio de imperfeições quanto ela. Pode ser mais alto, mais forte e mais resiliente e basear suas decisões em lógica e razão, mas isso não lhe torna perfeito. Você comete erros e às vezes perde-se de si mesmo, reencontrando-se mais tarde apenas para perder-se de novo. Nessa montanha russa de reconstruções permanentes, não causa espanto a possibilidade de perder a noção dos elos que uniram você a ela. É necessário um empenho consciente para vencer a neblina do cotidiano e manter o foco nesses laços. Faça isso com sensatez e boa vontade. Ajude-a a compreender que, sem um compromisso maduro com o esforço de permanecer juntos, não existe motivo para que vocês continuem fazendo parte da vida um do outro.



10 junho 2016

Resiliência: como desenvolver em 5 passos?

© Dr. Alessandro Loiola



Toda vez que duas áreas da ciência conversam, nasce algo de novo e interessante. Foi assim quando a Engenharia encontrou a Medicina, e ambas produziram ferramentas diagnósticas de enorme utilidade como a ultra-sonografia e a tomografia computadorizada. Recentemente, a Psicologia dialogou com a Física e descobriu um conceito muito versátil: Resiliência.

Para entender o que é Resiliência, é preciso antes compreender os tempos em que vivemos. Segundo Woody Allen, “nunca antes na história da humanidade as pessoas se viram frente a tantas encruzilhadas: alguns caminhos levam ao desespero, outros à desesperança, e outros à extinção completa da raça humana. Vamos rezar para que a sabedoria nos permita fazer a escolha certa”.

Esta sabedoria se chama Resiliência. Na Física, Resiliência é a quantidade de energia que um material é capaz de receber antes de se deformar de maneira irreversível. Na Psicologia, Resiliência virou a capacidade de ter coragem para mudar o que pode ser mudado, serenidade para aceitar o que não podemos resolver, e inteligência para diferenciar uma situação da outra.

Os cientistas calculam que o desenvolvimento da Resiliência é capaz de reduzir em até 75% o risco de problemas cardíacos. Contudo, o maior obstáculo está na resposta instintiva de “luta ou fuga”: pessoas acostumadas a viverem no limite podem achar a idéia de Resiliência um sinal de fraqueza, resistindo (mesmo que inconscientemente) às medidas de controle do estresse.

Se você quiser vencer seu instinto e tornar-se um mestre na arte da Resiliência, basta seguir 5 passos simples. Anote aí:

1. IDENTIFIQUE A FONTE DE ESTRESSE. Anote em um diário tanto as experiências negativas quanto as positivas. Após uma ou duas semanas, você será capaz de identificar as 3 principais situações estressantes de sua vida. Veja o que pode ser feito para eliminá-las de sua agenda.

2. REESTRUTURE AS PRIORIDADES. Nem sempre é possível ou prático eliminar todas as situações estressantes. Nestes casos, a saída é aumentar o peso do lado positivo, priorizando as atividades que lhe dão prazer.

Pequenas decisões ao seu favor podem ser o bastante para construir uma existência menos estressante e muito mais produtiva: não abra mão dos seus finais de semana ou férias. Utilize suas horas de folga para planejar passeios (e faça-os !). Guarde alguns minutos todo dia para fazer absolutamente nada. Uma vez por semana, saia do cardápio e coma uma guloseima, etc.

3. AJUSTE SUA RESPOSTA. As pesquisas mostram que todos podem aprender a dosar o padrão de reação emocional ao estresse.

Por exemplo, no bar beira de praia, ao receber sua porção, não se exalte. Comente para o cozinheiro enquanto cospe para o lado: “rapaz, os caranguejos estão tão frescos que ainda dá pra sentir o gosto da areia neles!”.

4. UTILIZE TÉCNICAS DE RELAXAMENTO. Tudo bem, você ameaçou perder as estribeiras quando o cozinheiro lhe trouxe uma colher e disse sorrindo, apontando para a casquinha de siri: “é pro senhor comer os grãos mais sossegado”. Não quebre o quiosque todo ainda: tente algumas técnicas de relaxamento antes.

Respirar fundo aumenta a oxigenação do cérebro e reduz os batimentos cardíacos. Inspire e expire lenta e profundamente pelo nariz, enquanto conta até dez. Repita o exercício até que a imagem do cozinheiro sendo estrangulado desapareça de sua mente.

5. ACEITE AJUDA. Ter uma boa rede de amigos é essencial. Por exemplo: vai que o cozinheiro dá dois de você? Impossível estrangular o cabra sozinho, sob o risco de ser preparado por ele feito um Peroá bem na frente das crianças.

As pesquisas mostram que a maioria das pessoas Resilientes possui muitos amigos. Afinal de contas, se fosse para você resolver todos os problemas do mundo sozinho, para que haveria tanta gente espalhada por aí? Não tenha medo de pedir ajuda – a surpresa conta a seu favor.

07 junho 2016

Da Série “Péssimas ideias, bons Negócios”: A Invenção da Adolescência

© Alessandro Loiola


Quando eu era uma criança, 
eu falava como uma criança, 
pensava como uma criança 
e agia como uma criança. 
Quando me tornei Homem, 
deixei de lado meus jeitos infantis. 

(1 Coríntios, 13:11)





A ideia de que crianças levam décadas para tornarem-se adultas, passando por um intervalo de “adolescência” e de “adultos jovens”, é uma concepção caprichosa e relativamente recente na evolução de nossa espécie. 

Antes dessa maluquice ser inventada, esperava-se que as crianças assumissem o papel de adultas assim que fossem capazes de tanto, aprendendo as habilidades necessárias com seus parentes e alcançando a idade adulta assim que chegassem à puberdade. As mudanças nos conceitos sobre “estágios da vida” é um exemplo incrível de como a sociedade e os governos constroem nossas noções de Idade.

A adolescência como a conhecemos era mencionada mal e porcamente antes do final do Século XIX. A análise de materiais escritos entre 1800 e 1875 mostram praticamente nenhuma utilização deste termo e uma preocupação muitíssimo discreta com este estágio da vida (e seus comportamentos característicos). 

A invenção da adolescência decorreu de 3 fatores principais: a aplicação da tecnologia para aumento da produtividade; a afluência de pessoas que este processo gerou, e a transição demográfica que o acompanhou. Graças ao ganho em tecnologia em produção, as famílias puderam se tornar sistemas menores e biologicamente mais estáveis. A população adulta urbana cresceu e os “adolescentes” saíram da força de trabalho, sendo deslocados para as escolas. 

O aumento da dependência dos pais e do tempo livre fez-se acompanhar da criação de um mercado novo para produtos bem direcionados para ele e pronto!, temos essa bizarrice agora aí.

Puberdade precoce

Paradoxalmente, no passado, a puberdade chegava mais tarde, mas a ausência de supervisão dos pais chegava mais cedo. Romeu e Julieta carregavam o peso do mundo em seus ombros – ainda que fosse um mundo bem menor que aquele que os adolescentes habitam hoje. 

Ao longo de todos os séculos que se passaram, uma pessoa sexualmente madura nunca era tratada como “uma criança em crescimento”. Hoje, indivíduos sexualmente maduros passam 6 ou mais anos (digamos, dos 12 aos 18, muitas vezes bem mais que isso) vivendo sob a autoridade de seus pais. Baseado em quê sistema na natureza poderíamos esperar que isso funcionasse?

Desde meados do Século XIX, a puberdade – definida como advento da maturação sexual e início da “adolescência” - tem retrocedido 1 ano a cada intervalo de 25 anos. Hoje, ela ocorre cerca de 6 anos mais cedo que em 1850: por volta dos 11-12 anos entre as meninas, e 12-13 anos para os meninos. 

Ainda não se sabe direito o que desencadeia a puberdade. É possível que o momento em que a puberdade se inicia tenha retrocedido devido à melhora da nutrição durante o período pré-natal e a infância. 

Entre os demais primatas, os indivíduos fisicamente maduros não são bem vindos na família: a competição sexual torna essa convivência impossível. Mas, entre estes e outros animais, a maturidade física coincide com a maturidade mental, então a separação do indivíduo de seu núcleo familiar não constitui exatamente uma rejeição.

O jovem cérebro jovem

Se hoje em dia nossas crianças se parecem com adultos mais cedo do que nunca, isso não significa que elas sejam adultas de fato: na nossa espécie, o cérebro não cresce no mesmo ritmo dos demais órgãos e sistemas. 

A colisão entre a maturidade física e a imaturidade mental do Homo sapiens não apenas confunde os pais, mas também lança o adolescente em situações ridículas. Por exemplo: eles se tornam intensamente interessados em romance, mas suas ideais de romance são absurdamente simples, culminando em bilhetes que são trocados na sala de aula ou posts no Facebook dizendo coisas como “Você gosta de mim? Marque sim ou não”. 

A puberdade não é o único marcador da adolescência. Também observa-se um lento aumento da capacidade de pensamento abstrato e raciocínio relativo. Os adolescentes tornam-se capazes de refletir sobre grandes tópicos – Morte, Destruição, Sentido da Vida -, mas essas reflexões tendem a gerar angústia e depressão. Eles estão sexualmente maduros mas ainda vivem sob a tutela dos pais, como diabos irão mudar o mundo desse jeito?

A descoberta pelo adolescente de que tudo é relativo leva a um debate cansativo de todas as regras que lhe são apresentadas. Eles levarão um tempo se lambuzando com o doce da Contestação Infinita até compreenderem QUAIS brigas valem à pena e quais não valem.

Os adolescentes também procuram a autonomia que lhes falta. Eles querem ficar sozinhos porque têm “coisas demais na cabeça”. Curiosamente, esse desejo de solitude deriva justamente da importância dos relacionamentos sociais. Avaliar as vantagens e desvantagens das diversas situações a que eles são expostos requer um certo tempo sem fazer nada. 

Apesar de não parecer, nesta fase os laços familiares têm mais importância do que você supõe e oferecem valores e parâmetros sólidos de interação sobre os quais os adolescentes construirão suas próprias verdades de adultos.

Não culpe os hormônios

A despeito do que quer que cause o humor tipicamente chato do adolescente, os hormônios têm ganhado um crédito exagerado por isso. 

A produção hormonal que dá forma aos nossos corpos se inicia por volta dos 7-8 anos de idade, e as crises que enchem o saco tipicamente ocorrem entre os 11 e 14 anos – nessa época, os hormônios já andam pela vizinhança há alguns anos, isso elimina deles uma boa carga da culpa. 

O mais provável é que os surtos da adolescência estejam mais relacionados à intensificação dos estados emocionais, ao aumento das cobranças sociais e escolares, e ao fluxo de eventos que são apresentados ao jovem e suas novas responsabilidades frente a este mesmo fluxo. 

Como todo mundo adora um bode expiatório, então descemos a lenha nos hormônios. É mais fácil culpá-los que assumir 100% da responsabilidade pela própria imbecilidade.

Pingos nos is

Nas palavras de Schoen-Ferreira et al: “A sociedade contemporânea ocidental estendeu o período da adolescência, que não é mais encarada apenas como uma preparação para a vida adulta, mas passou a adquirir sentido em si mesma, como um estágio do ciclo vital”. Este é o grande erro. Valorizamos o jovem em grande parte por ser jovem, pelas suas características físicas de jovem, pelas suas ideias libertárias e descompromissadas de jovem, e não pela sua demonstração de vontade, compromisso e domínio das habilidades  necessárias para tornar o mundo um lugar melhor para todos.

Se você não é mais criança, então trate de colocar-se rapidamente à altura das competências do mundo adulto. ESSA deveria ser a mensagem passada em cada ensinamento durante a “adolescência”. E as competências do mundo adulto não dizem respeito apenas à capacitação profissional. Elas vão além. 

Tais competências incluem o imprint de fortes noções de decência, moral, disciplina, generosidade, empatia, estoicismo e altruísmo, e não o deslumbramento ou - pior - a celebração consumista e paternalista com essa invenção inútil que batizaram de “adolescência”.

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Referências Bibliográficas: 
1. Esman AH. G. Stanley Hall and the invention of adolescence. Adolesc Psychiatry. 1993;19:6-20. 
2. Demos J, Demos V. Adolescence in Historical Perspective. Journal of Marriage and Family 1969; 31(4): 632-638.
3. Schoen-Ferreira TH, Aznar-Farias M; Silvares EFM. Adolescência através dos séculos. Psic.: Teor. e Pesq. vol.26 no.2 Brasília Apr./June 2010.

03 junho 2016

A Sociedade Emasculadora

© Alessandro Loiola


Vivemos uma cultura "moderna" que sistematicamente degrada a virilidade. Nossos valores involuíram a um tal ponto em que a sociedade espera que o homem aceite de bom grado o papel de serviçal infantilizado, assistente sensível, subserviente e emasculado. Do outro lado, a mesma sociedade há décadas vem ensinando à mulher que ser "esperta e descolada" significa ser "rude e debochada" em relação à masculinidade. 

Não muito tempo atrás, eu estava na fila do cinema e ouvi duas mulheres conversando:
- Puxa, amiga, tempo que não te vejo!
- Tem mesmo. Terminei ficando mais em casa no final da gravidez. Mas graças a deus correu tudo bem e ela nasceu com saúde.
- Quer dizer que você tinha um filho e agora teve uma filhinha?
- Sim.
- Puxa, que sorte, você ficou com um casal! Apesar de quê, criar uma menina é bem mais difícil que criar um menino, né?

Fiquei pensando com meus botões: em que Século essas mulheres vivem? Porque, de onde eu enxergo, criar um menino é tarefa das mais difíceis nos dias de hoje: tudo que um menino faz e diz e pensa e sente é considerado completamente errado do ponto de vista de nossa sociedade metrossexual. 

Veja: os Homens tem essa inclinação surpreendente para serem e se comportarem como Homens, mas este traço de personalidade vem sendo tratado como uma espécie de maldição pelos padrões de aceitação social atuais. 

O resultado dessa distorção da Masculinidade está produzindo uma geração de homens jovens que serão inuteis como Homens, pois foram ensinados desde a tenra infância a negar e repelir cada um de seus instintos biológicos. Então, depois que tivermos destruído a virilidade desses meninos, nós, como sociedade, nos queixaremos que os homens não têm mais ímpeto, bravura, ambição, resiliência, estoicismo, instinto protetor ou "pegada".

Não há nada engraçado nisso. É, sim, preocupante.

20 maio 2016

Vacina contra H1N1 em pacientes com câncer: é seguro?

© Alessandro Loiola


 


Eu tenho uma pirraça sem tamanho com as campanhas de vacinação contra Influenza – mas não o faço sem embasamento.

Sim, a imunização contra influenza parece ser razoavelmente segura para ser aplicada em pessoas com câncer (1,5,6,8), apesar da soroconversão ocorrer em apenas 17-52% dos pacientes que recebem uma dose única da vacina (2,4,7). Então, no grupo de pacientes com câncer, talvez seja mais prudente uma segunda dose de reforço para conseguir “soroconversão” (leia-se: produção de anticorpos de defesa em níveis considerados seguros e protetores).

Mas a soroconversão não é o problema. O problema da vacina contra H1N1 é sua eficácia: a vacinação contra influenza não parece diminuir os índices de hospitalização ou mortalidade relacionada ao influenza em pessoas com mais de 66 anos de idade, por exemplo (3). A vacina atual pode ser considerada no máximo como “moderadamente eficaz” (9,10,11) e isso, somado à relativa escassez de bons estudos de seguimento abordando efeitos colaterais, incidência de sintomas e hospitalizações relacionados à vacina, me deixa pirracento para indicar essa vacina aos meus pacientes.

Sem a consciência tranquila, não fico confortável em assumir a responsabilidade de indicar um tipo de tratamento que minha pesquisa em revisões sistemáticas e meu bom senso crítico não aprovam. Mas cada um é seu próprio templo. Então tome sua decisão individual e siga feliz - só tome o cuidado de não vir reclamar comigo depois.


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Referências:

1.     Waqar SN1, Boehmer L, Morgensztern D, Wang-Gillam A, Sorscher S, Lawrence S, Gao F, Guebert K, Williams K, Govindan R. Immunogenicity of Influenza Vaccination in Patients With Cancer. Am J Clin Oncol. 2015 Dec 14.
2.     Michael Hahn,1 Paul Schnitzler,2 Brunhilde Schweiger,3 Christina Kunz,4 Anthony D. Ho,1 Hartmut Goldschmidt,1 and Michael Schmitt1. Efficacy of single versus boost vaccination against influenza virus in patients with multiple myeloma. Haematologica. 2015 Jul; 100(7): e285–e288.
3.     Joshi M1, Chandra D2, Mittadodla P1, Bartter T1. The impact of vaccination on influenza-related respiratory failure and mortality in hospitalized elderly patients over the 2013-2014 season. Open Respir Med J. 2015 Feb 23;9:9-14.
4.     Ide Y1, Imamura Y, Ohfuji S, Fukushima W, Ide S, Tsutsumi C, Koga M, Maeda K, Hirota Y. Immunogenicity of a monovalent influenza A(H1N1)pdm09 vaccine in patients with hematological malignancies. Hum Vaccin Immunother. 2014;10(8):2387-94.
5.     Berglund A1, Willén L, Grödeberg L, Skattum L, Hagberg H, Pauksens K. The response to vaccination against influenza A(H1N1) 2009, seasonal influenza and Streptococcus pneumoniae in adult outpatients with ongoing treatment for cancer with and without rituximab. Acta Oncol. 2014 Sep;53(9):1212-20.
6.     Kim DH1, Lee YY2, Shin US3, Moon SM3. Immunogenicity of influenza vaccine in colorectal cancer patients. Cancer Res Treat. 2013 Dec;45(4):303-12.
7.     Chu CS1, Boyer JD, Jawad A, McDonald K, Rogers WT, Luning Prak ET, Sullivan KE. Immunologic consequences of chemotherapy for ovarian cancer: impaired responses to the influenza vaccine. Vaccine. 2013 Nov 4;31(46):5435-42.
8.     Pollyea DA1, Brown JM, Horning SJ. Utility of influenza vaccination for oncology patients. J Clin Oncol. 2010 May 10;28(14):2481-90.
9.     Loubet P1,2, Loulergue P1,2,3, Galtier F3,4, Launay O1,2,3,5. Seasonal influenza vaccination of high-risk adults. Expert Rev Vaccines. 2016 May 12. [Epub ahead of print]

18 maio 2016

Exame médico anual: é necessário?

© Alessandro Loiola

 

Em nome do argumento, vamos considerar que uns 20 milhões de adultos utilizem o SUS para uma consulta de check-up todo ano, como se fossem automóveis na revisão dos 50 mil quilômetros. E imagine que, entre agendamento, consulta com o generalista, exames de laboratório, radiografia, eletrocardiograma e consulta de retorno, o custo final de cada check-up saia pela bagatela de R$100,00.  Estamos falando de uma rotina de 2 bilhões de reais a cada 12 meses.

Do ponto de vista do meu bolso, qualquer coisa que custe 2 bilhões de reais por ano deixou de ser rotina há muito tempo. Virou investimento, passou a ter a obrigação de valer muito à pena. E o lance é que não vale.

Por motivos diversos e muito além da preocupação com custos, poucas sociedades médicas ainda recomendam que pessoas adultas saudáveis passem por exames periódicos anuais, sendo que alguns grupos de especialistas se posicionam ativamente contra essa prática, tais como o US Preventive Services Task Force e o Canadian Task Force on the Periodic Health Examination.

“Ah, mas é importante fazer uma revisão geral periodicamente”. É mesmo? Baseado em que evidências? Exames de rotina podem gerar (e quase sempre geram) outros exames adicionais para detectar alterações incidentais, aumentando a ansiedade e levando a diagnósticos e tratamentos excessivos de "doenças" que, se deixadas em paz e sem detecção, jamais produziriam consequências clinicamente significativas.

Do ponto de vista de promoção da saúde, o exame anual periódico em indivíduos sem sintomas tem ainda menos valor, pois não reduz a morbidade e a mortalidade de doenças agudas ou crônicas, podendo ainda alimentar a complacência de pessoas que deixam de agir “até terem certeza absoluta de que é necessário” – como aquele seu conhecido com sobrepeso que, enquanto não receber o resultado dos níveis de colesterol, não toma atitude alguma para diminuir a própria capa de gordura.

Uma revisão realizada em 2012 pelo prestigiado grupo Cochrane, envolvendo 14 estudos clínicos randomizados e totalizando mais de 180 mil pacientes acompanhados por uma média de nove anos, concluiu que exames de check-up realizados em pessoas sem sintomas não produzem qualquer benefício para a saúde. Não importam os tipos de testes ou métodos de screening: exames periódicos simplesmente não são capazes de reduzir a mortalidade geral ou específica, nem mesmo aquelas relacionadas a câncer e doenças cardíacas.

Uma outra pesquisa, chamada Danish Inter99, também produziu pareceres semelhantes. O estudo comunitário envolveu cerca de 60 mil adultos entre 30 e 60 anos que foram avaliados periodicamente durante cinco anos quanto ao risco de infarto cardíaco, sendo sempre orientados a promover modificações no estilo de vida. Uma década após esta intervenção, não foram observadas quaisquer melhoras na incidência de doença cardíaca, derrame ou mortalidade geral.

Alguns especialistas defendem o check-up periódico dizendo que o custo de tratar as complicações da hipertensão arterial, por exemplo, são muito maiores que aqueles dos exames preventivos. Se o sujeito esperar demais, quando chegar a ser diagnosticado como hipertenso, já estará à beira de uma catástrofe. E as consultas periódicas podem ser um bom terreno para orientar sobre vacinas, tabagismo, alcoolismo, drogas, nutrição, obesidade, atividade física e pesquisar a incidência de depressão e violência doméstica. 

É verdade que talvez o maior benefício do exame de check-up esteja na construção de um vínculo entre o paciente e o seu médico, ao invés do contato apenas em situações de emergências. Mas, em termos de políticas públicas, o papel do check-up de rotina em indivíduos sem sintomas precisa ser revisto. 

Em termos pessoais, eu recomendo que você evite paranoias: procure seu médico se e quando você estiver sentindo alguma coisa. Pronto. E vá descobrir a vida que existe para além da sua hipocondria.

16 maio 2016

Sobre Juízes e Médicos

© Alessandro Loiola



Vez ou outra, sou surpreendido por notícias esdrúxulas de gentes que decidem numa canetada só pela internação de alguém em um leito de UTI (1,2,3, 4, 5, 6,7,8,9,10), sem uma auditoria lúcida sobre a disponibilidade leitos ou um parecer técnico sequer, ameaçando até de cadeia qualquer reles mortal que se oponha à sua determinação suprema.

Sou médico há mais de duas décadas. Perdi a conta do número de vezes em que me vi atendendo com a mínima infraestrutura ou sem QUALQUER  estrutura mesmo, ferindo o próprio Código de Ética da profissão (sim, nós temos um e eu particularmente nutro um grande apreço por ele), que diz que ”é direito do médico recusar-se a exercer sua profissão onde as condições de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar a própria saúde ou a do paciente, bem como a dos demais profissionais” (CEM, Cap II, item IV).

Mas o paciente está ali e você está ali. Seu coração exige que você desdobre-se e dê um jeito. Que seus olhos virem pilhas de laringoscópio, que suas mãos transformem o ambu em um respirador pelo tempo que você aguentar, que você finja não sentir dor por saber que o cateterismo ou o centro de trauma que salvaria aquele paciente encontra-se a uma distância que vai além da capacidade dele manter-se vivo.

Enquanto isso ocorre aqui no subterrâneo do Olimpo, nossos 16,5 mil magistrados da caneta mágica despacham prescrições de internações de seus gabinetes.

Eles parecem não perceber que mantêm o país abarrotado de processos sem julgamento enquanto curtem seus 60 dias de férias anuais com abonos de 50%, recebendo mensalmente auxílio moradia de R$ 4.300, auxílio alimentação de R$ 1.600, auxílio transporte de R$ 1.100, auxílio despesas médicas de R$ 2.000 e uns trocados, custeio de 50% dos cursos de Mestrado e Doutorado, e até um inacreditável vale-livro de R$ 13.000 anuais para compra de materiais didáticos que possam auxiliar o magistrado em sua atividade (16).

Eles parecem não perceber o sangue que respinga em nossos sapatos – não nos deles - enquanto usufruem suas regalias, que podem variar de uma comarca (ou zona?) para outra. A maioria desses intocáveis, entocados nos 27 Tribunais de Justiça e nos 27 MPs estaduais, possuiu contracheques que ultrapassam em muito o teto constitucional (que era de R$ 33.000 quando escrevi esse texto): a média de rendimentos de juízes e desembargadores nos Estados é de R$ 41.802 mensais (algo como 260 reais/hora); a de promotores e procuradores de justiça, R$ 40.853 (255 reais/hora). Os presidentes dos Tribunais de Justiça apresentam média ainda maior: R$ 59.992 (374 reais/hora). Os procuradores-gerais de justiça, chefes dos MPs, recebem, também em média, R$ 53.971 (337 reais/hora).

Mas eu não quero salário. Não quero ganhar mais. Sério. Juro que estou satisfeito com o que me é pago, QUANDO é pago, SE é pago. Eu não pediria mais dinheiro. Ou melhor: pediria, mas não para mim.

Sabe a reforma do Fórum de Cuiabá que recebeu R$ 10 milhões?(11). E do Fórum Trabalhista de Florianópolis, que custou R$ 26,3 milhões?(12). A modernização do Fórum Autran Nunes no Ceará, que saiu pela bagatela de R$ 7 milhões, sem incluir outros serviços que ainda serão licitados, como a aquisição de equipamentos para o setor odontológico e do sistema de som e vídeo?(13). A ampliação e reforma do fórum de São Carlos, que recebeu R$ 7,4 milhões?(14). A construção do Fórum de São José dos Campos que saiu pela miudeza de R$ 30 milhões em uma das áreas mais nobres da cidade?(15).

Então. Eu pediria isso ao super-homem da caneta. Não que colocasse ar condicionado central no hospital inteiro, ou que disponibilizasse cadeiras de couro nos consultórios, ou sedãs pretos com motorista, ou fachadas de granito, etc.

Eu pediria mais leitos. Mais equipamentos. Mais remédios. Mais portas. Mais meios para ajudar: a construção de um posto de saúde de 630 m2 custa cerca de R$ 550 mil (22). Para construir e equipar um UTI de 33 leitos são necessários R$ 8 milhões – cerca de R$ 240.000 por leito (19). A construção e compra de equipamentos para um hospital regional de 150 leitos (sendo 30 de UTI) custa R$ 30 milhões – ou cerca de R$ 200.000 por leito (20,21). Um leito hospitalar tem condição de rodar cerca de 5 pacientes/mês, e um hospital regional de 150 leitos adicionaria 9.000 internações em um ano àquela região, ajudando milhares de pessoas.

Mas, ao invés de pensar no grande, de pensar no macro, de pensar no conjunto da sociedade, o super-homem desce dos céus envolto em sua capa preta e, ante todos os holofotes, com um só movimento da poderosa esferográfica dourada, resfolegado em sua poltrona multi-ajustável e com a temperatura do gabinete assentada em 21 graus, ele salva o gatinho solitário preso na árvore.

Enquanto os flashes disparam e os heróis retornam para casa em seus Ford Fusion pilotados por Egos vestindo gravata e quepe, o Bom Senso se prostra na esquina, observando os carros com placa especial passarem.

E o Bom Senso olha para a poça d´água suja atropelada em velocidade e desprezo pelo cortejo, e se pergunta:

- No meio dessa surrealidade toda, quem vigia os vigilantes?


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Referências:

1. http://cidadeverde.com/noticias/175339/juiz-ordena-prisao-de-medico-para-garantir-vaga-na-uti-para-paciente

2. http://www.portalodia.com/noticias/piaui/medico-do-hut-e-preso-por-nao-transferir-paciente-para-uti-216386.html

3. http://www.tjrn.jus.br/index.php/comunicacao/noticias/4560-desembargador-determina-transferencia-de-idoso-para-uti

4. http://www.redeto.com.br/noticia-16996-saude-juiz-de-palmas-determina-internacao-de-bebes-em-uti-neonatal.html#.VznV64QrLbg

5. http://www.tjce.jus.br/noticias/juiz-determina-internacao-de-paciente-em-leito-de-uti/

6. http://www.denuncio.com.br/noticias/juiz-determina-que-hapvida-interne-em-uti-paciente-com-problema-cardiaco/12481/

7. https://portalnoar.com/justica-determina-uti-medica-para-vitima-de-tentativa-de-homicidio-em-natal/

8. http://camocimimparcial.blogspot.com.br/2011/04/juiz-determina-que-municipio-de-acarau.html

9. http://www.rotajuridica.com.br/justica-manda-que-pedreiro-seja-internado-em-uti-publica-mas-ordem-nao-e-cumprida/

10. http://blog.tribunadonorte.com.br/abelhinha/94600

11. http://www.olhardireto.com.br/juridico/noticias/exibir.asp?noticia=Com_8_anos_de_uso_Forum_sera_reformado_com_custo_de_R_10_mi&id=15269

12. http://trt-12.jusbrasil.com.br/noticias/100316286/novo-forum-trabalhista-de-florianopolis-sera-inaugurado-quarta-feira-30-junto-com-pje-jt

13. http://www.trt7.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2495:folha7-modernizacao-do-forum-autran-nunes-comeca-este-mes&catid=143&Itemid=302

14. http://www.saocarlosagora.com.br/cidade/noticia/2013/01/25/38158/justica-inicia-ampliacao-e-reforma-de-forum-em-sao-carlos/

15. http://www.tjsp.jus.br/Institucional/CanaisComunicacao/Noticias/Noticia.aspx?Id=16674

16. http://justificando.com/2014/12/17/juiz-e-deus-conheca-vantagens-que-os-magistrados-tem/

17. http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/06/juizes-estaduais-e-promotores-eles-ganham-23-vezes-mais-do-que-voce.html

18. https://www.supremecourt.ohio.gov/Judiciary/salary/

19. http://novo.campobom.rs.gov.br/noticia-2627/construcao-de-uti-e-33-novos-leitos-no-hospital-lauro-reus-inicia-dia-3

20. http://www.aen.pr.gov.br/arquivos2/File/Jornal%20Noticias%20do%20Parana/Jornal_Ponta%20Grossa.pdf

21. http://www.rdnews.com.br/executivo/governo-garante-construcao-de-hospital-valor-sera-r-21-9-mi/42456

22. http://www.aen.pr.gov.br/arquivos2/File/Jornal%20Noticias%20do%20Parana/Jornal_Ponta%20Grossa.pdf

11 abril 2016

Por que ler pessoas mortas?

© Alessandro Loiola


 

No filme O Sexto Sentido, o pequeno Haley Joel Osment conversava com pessoas mortas. Simpatizo com seu fardo: eu leio pessoas mortas, o tempo todo, o que dá quase no mesmo. Pessoas mortas escrevem como ninguém.
 
Leia Nelson Gonçalves, por exemplo. Ele poderia bem ser um Charles Bukowski sem a bebida em um dia bom. Ou quase um Voltaire sem a peruca e com liberdade para usar seus palavrões como quisesse. Ou um Carl Sagan, descontando os conhecimentos de astrofísica porém com o mesmo olhar aguçado sobre as coisas. Ou um Hemingway com mais adjetivos e menos depressão.
 
O fato é que essas pessoas mortas oferecem aquilo que escritores e jornalistas vivos têm se recusado a produzir: opiniões que pensam. Os pouquíssimos desse quilate que existem, concorde eu com eles ou não, merecem aplausos, muitos aplausos.
 
Mais que dinheiro, mais que fama, mais que selfies de músculos definidos, ter uma Opinião Inteligente nos dias de hoje é a sofisticação máxima. Prosperidade e corpos vêm e vão; Ideias embasadas só vêm. Elas têm mais massa e resistência que qualquer série de crossfit. Não precisam de ibope: a Verdade é o patrocínio que as mantém. Necessitam nada além disso que as sustente. Mas peneirar opiniões assim tem se tornado uma tarefa mais árdua a cada dia.
 
Abro as manchetes do UOL, da Folha, do Estadão, do Terra, do Yahoo, e tudo que vem à tela são votações do BBB, tabelas de pontos do campeonato brasileiro, informações inúteis de saúde (que sempre falam de doenças, nunca de saúde) e intrigas bestas de novelas, economia e política. Nenhuma opinião capaz de provocar as sinapses, nenhuma crítica apontando caminhos lúcidos, nenhuma manifestação da verdade. Só tolices.
 
E alguém ainda me diz que nossa sociedade está evoluindo, maturando. Devo ser um burro mesmo. Entendo nada de progresso tecnológico e maturidade. E quero menos ainda ter qualquer coisa a ver com esse desenvolvimento vívido da desinteligência. Vou continuar com os mortos. Eles sabem o que dizem.

08 abril 2016

O que você pediria ao gênio da lâmpada?

© Alessandro Loiola





Em um desses lampejos toscos que temos no chuveiro à noite ou enquanto esvaziamos o conteúdo de nossos intestinos pela manhã - independente do horário ou da atividade, o banheiro sem dúvida é um dos lugares mais criativos da casa! -, fui atingido por uma epifania.

E se, e se!, um gênio aparecesse e lhe concedesse um desejo? Um desejo apenas, um único e miserável desejo.

Considere a possibilidade de ser um gênio em pleno ataque de enxaqueca, ou com TPM, ou numa crise de agorafobia depois de tantos milênios dentro da maldita lâmpada. Ele não está de bom humor. Nada de 3 desejos. Um só. "E não venha pedir mais desejos que eu lhe transformo num ornitorrinco!", ele vai avisando enquanto a fumaça se dissipa.

O que você pediria? Curioso com as possibilidades, reproduzi essa pergunta para algumas dúzias de amigos via whats. "Saúde para meus filhos", "Saúde para mim", "Saúde para meus pais", "Saúde para minha família"... De cara, Saúde disparou como campeã de audiência. Mas também vieram "Viver eternamente" (não seria uma variável de "saúde"?), "Ter muito dinheiro", "Ser feliz", "Viver em paz", etc.

Gostaria de ver a reprodução dessa pergunta em outras culturas. Na ausência dessas evidências, fico com as minhas, atuais e tupiniquins. De cara, é possível perceber uma coisa: o Cunhadismo que herdamos dos índios e dos primeiros colonizadores permanece entranhado em nossos genes. Poderia ter também algo a ver com o instinto de sobrevivência, inato em qualquer ser vivo, mas o rabugento que sobrevive em mim iniste em jogar a culpa no Cunhadismo.

Podendo ter um desejo realizado, qualquer que seja ele, as pessoas restringem suas opções ao seu círculo de confiança. Farinha pouca, meu pirão primeiro. E nada de aparecer um pseudo-altruísta preocupado em resolver a fome, as doenças, as guerras, a violência gratuita, a injustiça descarada. Não, nada disso. Tudo que as pessoas querem é uma sombra fresca e verdejante onde possam pendurar suas redes plácidas pelo tempo de suas existências.

Do ponto de vista do meu umbigo egocêntrico, enxergo que a causa maior do sofrimento da humanidade é a Ignorância - e, por ignorância, seguimos causando nosso próprio sofrimento e o sofrimento de outrens. Por isso, se eu encontrasse o desgraçado do gênio, pediria a ele a extinção absoluta de TODA ignorância.

E tenho certeza de que o mundo se acertaria bem, muito bem, a partir daí. Mesmo você e sua família não vivendo eternamente.

Um bicho chamado Gente

© Alessandro Loiola
 


 

Existe um animal dentro de cada um de nós. Ainda que tentemos sufocá-lo com as noções de santidade que nos ensinaram nas aulas de catecismo, e ainda que algumas pessoas insistam por todos os meios subtraí-lo de si, ele resiste. E eu tenho orgulho dele.
 
Sim, tenho um profundo orgulho do animal que sou, de seus instintos todos, sua voracidade pelo mundo, o afiado dos seus dentes com fome de carne. O animal de poucas saciedades, rugindo hormônios não domesticados. Fomento sua sobrevivência em mim, alimento-o com desejos e retiro sua coleira vez ou outra e o assisto correndo satisfeito sacudindo fantasias rudes de seus pelos.
 
Nessas horas, vejo pessoas em suas roupas sofisticadas, os trejeitos civilizatórios, observando assombradas . "De onde veio isso?", se perguntam. Veio de dentro, praga. Veio de dentro! De milhares de translações de inquietação sem juízo, de milhões de anos de bruta seleção natural, bilhões de primaveras de genética amoral. E o animal corre, sem amarras, devorando o mundo que o consome.
 
O animal que somos não é uma escolha, nunca foi. É uma necessidade, bando de pamonhas.

07 abril 2016

Sua existência como um Agronegócio

© Alessandro Loiola


 

A escritora Gail Sheehy disse que "A vida é uma coletânea de 3 ou 4 destinos que se repetem furiosamente". Eu não iria tão longe: três ou quatro são projeções bem otimistas. Penso que cumprimos um único mesmo destino delicadamente arado na superfície deste planeta.
 
Veja: todos começamos pela infância, uma primavera de sonhos germinativos da qual trazemos umas lembranças poucas, turvas, embaralhadas, cheias de barro, água e ventos.
 
As estações se passam e desabrochamos para a invenção da adolescência, uma tempestade de xilemas onde entendemos que nossas folhas se estendem para além daquelas dos nossos pais. Começamos então a arrancar as raízes todas, excisando as certezas plantadas em nós, e brotamos nossas próprias verdades - que são verdes e frágeis, mas enfim são nossas (ou pelo menos assim nos enganamos).
 
Terminada a adolescência, agora distantes das sombras dos galhos da família, adubando os dias com experiências e habilidades, eclodimos dos 20 aos 30 anos para virarmos mudas de fato.
 
Aos 30 anos começa o período onde fazemos questão que a plantação em que nos transformamos produza dinheiro, muito dinheiro. As décadas mudam, as doenças seguem quase as mesmas, eu sei. Queremos, queremos bastante, queremos mais.
 
Entre os 40 e os 50, uma tempestade de granizo grisalho nos atinge e decidimos mudar o terreno. Conhecemos o mercado das plantas, aprendemos a reconhecer as ervas daninhas e somos capazes de ensacar nossos grãos, mas alguma coisa ainda parece incompleta. Então aplainamos todos aqueles alqueires com o trator dos questionamentos "maduros" e, achando que estamos fazendo alguma coisa diferente, começamos o mesmo processo de novo.
 
Por volta da curva dos 60, milionários pelos nossos frutos ou não, contemplamos o conhecimento de agronomia de vida acumulado e sentimos uma urgência em passá-lo adiante. Quiçá, com aquela bagagem, os mais novos sejam capazes de melhorar suas chances... Mas os mais novos estão cegos e surdos em seu frenesi vegetal de arrancar raízes e colher fortunas.
 
Adentrando nos hectares altivos dos 70, os mais tolos se perdem na ilusão obsessiva do legado ou na crítica imbecil do arrependimento. Aqueles abençoados por alguma saúde lúcida, simplesmente dão de ombros e vão viver suas vidas. As décadas de colheitas finalmente lhes ensinaram que não somos plantas. Nem animais. Somos alguma outra coisa que talvez valha à pena descobrir.
 
Finalmente, em algum lugar para além dos 80, o círculo derradeiro do mundo nos alcança com um sonho no qual levamos umas lembranças poucas, turvas, embaralhadas. Confusos ou não, prontos ou não, com ou sem nossa permissão, o outono vem e nos transmuta novamente em barro, água e ventos infinitos.

Qual o melhor amigo do homem?

© Alessandro Loiola


Quando criança, na sala de casa, meus pais construíram uma muralha em forma de estante e espalharam pelas prateleiras um universo eclético de páginas que se estendiam desde a Enciclopédia Barsa à Delta Universal, passando por atlas, mapas, coletâneas de contos, poesias de Olavo Bilac e Cecília Meirelles, romances de Hemingway, novelas de Morris West e Sidney Sheldon, crônicas de Fernando Sabino e Luis Fernando Veríssimo e um muito velho volume de autênticas lendas indígenas brasileiras.

Devorei cada um daqueles livros antes da adolescência - sim, inclusive as enciclopédias. E feito um hobby sádico da infância, sentados à mesa para o almoço, desafiava meu pai com o conhecimento recém-adquirido:

- Pai, você sabe o que significa o "DC" em Washington DC?
- Hum. - ele respondia, o olhar de lado dizendo "lá vem...".
- Distrito de Columbia.
No outro dia:
- Pai, você sabe qual mamífero põe ovos?
- Não tenho notícia de que mamíferos ponham ovos...
- Os ornitorrincos põem.
- Hum. - ele respondia, o olhar de lado dizendo "mais uma...".
E no dia seguinte:
- Pai.
- Fala, Sandro.
- É verdade que TODOS os rios correm para o mar?
- Eu achava que sim, mas pelo visto você tem alguma novidade aí.
- Os rios temporários no outback da Austrália não correm para o mar. Eles vão de lugar algum a lugar nenhum.
- Hum, sei... Come, Sandro.
 
Eram bons almoços e tenho saudades de todos eles. Dia após dia, depois da refeição, do cochilo e das tarefas da escola, se estivesse chovendo ou se nenhum colega me chamasse para jogar bola ou perambular de bicicleta ou travar batalhas de estilingue e mamona, eu me deixava perder de novo nas galáxias da estante.
 
Gosto de ler desde que me lembro de ter aprendido a ler, e os sintomas dessa doença apenas se acentuaram com os anos. Quando pergunto a alguém "Qual seu livro preferido?" ou "O que você anda lendo?" e recebo de resposta algo como "Não sou muito de ler...", não posso deixar de sentir uma certa compaixão por aquela pobre alma.
 
Neste mundo de pequenas pessoas aterrorizadas, guardadas nas miudezas de suas camas convencionais, tão cheias de planos quanto seus planos são vazios de si, só enxergo esta única saída da mediocridade absoluta: a leitura. Pois se a vida é uma mochila, os livros são sua estrada, e ler é viajar em passos rápidos, tão rápidos que cedo chegará o ponto em que nenhuma pessoa ao seu lado, além dos deuses, saberá o que há mais a frente.
 
Felizmente, dependendo do que você anda folheando, quando este momento chegar você poderá contar-lhes um pouco sobre tudo que leu ao longo da jornada. E, nessa hora, até os deuses irão pausar seus ofícios para ouvir o que você tem a dizer.

01 abril 2016

O Lado Bom do Lado Ruim

© Alessandro Loiola


Todo mundo adora histórias de pessoas que foram transformadas por seus problemas. O sujeito tem aquela vida tranqüila e, de repente, é jogado no meio de um furacão, maremoto, enchente, crise de herpes com ciática, é despedido, o cachorro morre atropelado pelo entregador de pizza... E, depois de quase tudo perdido, ele consegue dar a volta por cima. Vencedor no final, sai de peito aberto para enfrentar o mundo dizendo: "Preferia que tal coisa não tivesse acontecido, mas agora que aconteceu, me tornei uma pessoa melhor!"

A capacidade de reagir positivamente a um evento negativo não é uma exclusividade dos bravos e durões do cinema. Esta característica está aí, profundamente incrustada na sua mente, faz parte do seu organismo. Você pertence à espécie humana? Então você possui tudo que é necessário para transformar seus limões em uma bela limonada.

Há algum tempo, os cientistas vêm se debruçando para elucidar o que batizaram de Crescimento Pós-Traumático, que nada mais é senão uma versão sofisticada para o ditado “O que não me mata, me fortalece”. Os especialistas observaram que mais de 50% das pessoas que passaram por problemas sérios dizem que a adversidade as tornou de algum modo melhores, mais fortes, mais esclarecidas – e, por que não dizer, mais felizes.

Mesmo após as mais terríveis experiências, apenas uma pequena proporção das pessoas se torna cronicamente perturbada. A resposta mais comum é a superação. E muitas vezes com um profundo crescimento pessoal.

Esta constatação, de que necessitamos dos problemas para extrair o melhor da vida, é um dos maiores paradoxos da felicidade. Para experimentar uma vida humana completa, não basta levar uma existência tranqüila e imperturbável. É preciso mudar, crescer, confundir-se, tropeçar, sacudir velhas idéias e adquirir novos valores – e, algumas vezes, este processo dói.

Os problemas graves também desafiam a idéia de que “coisas ruins não acontecem para pessoas boas”. Você quer pensar que possui controle sobre tudo, que plantando o Bem apenas o Bem lhe acontecerá. Entretanto, apesar da garantia de dor e desconforto, você deve saber que a maioria dos que enfrentaram grandes adversidades diz que a dificuldade os tornou mais tolerantes, mais capazes de perdoar e de trazer paz para situações problemáticas. Depois da tormenta, estas pessoas se tornaram capazes de identificar claramente a tolice das ambições materiais, e passaram a investir mais no prazer da companhia da família e dos amigos.

Os diplomados em Crescimento Pós-Traumático não dizem que o que passaram foi maravilhoso, mas não esperavam que aquela tribulação pudesse resultar em crescimento interior. E terminaram ganhando muito mais do que jamais poderiam ter imaginado. Pense nisso da próxima vez que um problema estiver batendo à sua porta: sempre existirá um lado bom. Até mesmo no lado ruim.