03 agosto 2011

OS HOMENS E OS FANTASMAS DOS MITOS SEXUAIS

© Alessandro Loiola



Nada de Marilyn Monroe, Cléo Pires ou Angelina Jolie. Não é sobre esses mitos sexuais que nós vamos falar. Vamos conversar um pouco sobre aquelas coisas que você sempre quis perguntar mas tinha vergonha de ouvir alguém respondendo: os famosos mitos sobre o sexo.

Como isso aqui hoje é uma crônica de machos, que venha o primeiro mito: afinal, tamanho é documento? Porque se fosse assim, o elefante seria o rei da selva e sua carteira de identidade mediria pelo menos um metro e meio de altura, certo? Nem tanto, e esta pode ser uma verdade dura para alguns de nós.

Os homens costumam fazer uma tabela de equivalência entre sua masculinidade e o tamanho do órgão copulador. Nessa tabela, o macho top de linha é aquele sujeito com uma tromba capaz de fazer qualquer mamute corar de vergonha no meio da manada.

Pura bobagem. Pesquisas revelaram que o tamanho médio do pênis varia de 6-8 cm (em repouso) a 12-16 cm (pronto para o ataque). Além disso, a vasta maioria dos casais envolvidos em relacionamentos maduros, longos e estáveis, concorda que o tamanho do pênis não importa tanto assim. É o tamanho do contra-cheque que faz a diferença.

Outro mito, bastante freqüente, também diz respeito ao pênis. Mais especificamente, à sua performance. É quase como se houvesse uma tirania do órgão sobre seu possuidor: na cama, o sujeito só vale por aquilo que traz entre as pernas. Errado novamente.

Vários livros, incluindo o best-seller “She Comes First”, de Ian Kerner, mostram que menos de 1/3 das mulheres atinge o orgasmo durante o intercurso sexual. Em comparação, mais de 80% delas é capaz de chegar ao clímax através do sexo oral. Vale o alerta: seja mais carinhoso e criativo, e tome cuidado com cafezinhos muito quentes.

Falando em mulheres, devemos um dos mitos sexuais femininos mais famosos ao médico alemão Dr. Ernst Grafenberg. Na década de 1970, os estudos do Dr. Grafenberg levaram a descoberta de um ponto erótico batizado de Ponto G. Reza o mito que este ponto, localizado logo atrás da pube, seria capaz de catalisar orgasmos femininos espetaculares. Imagino que a popularização desta teoria tenha resultado em tardes bem animadas no consultório de Ernst, mas a real existência do ponto G ainda é motivo de controvérsias.

O fato é que o sexo deve ser encarado como o processo dinâmico de encaixe de várias partes em uma unidade e vice-versa, com intenções mútuas de prazer, e não como a busca por um único ponto específico, seja ele G, H, I ou o raio que o parta. Se você tem tara por pontos, poupe o tempo dela, pegue uma folha de papel e uma caneta e vá divertir-se desenhando reticências em um canto da sala. Na manhã seguinte, marque um psicólogo.

A infinidade de zonas erógenas a serem exploradas no corpo de uma mulher poderia dar origem a vários volumes de uma enciclopédia. Ou a um novo período de grandes navegações ao redor do globo. Exatamente por isso, os homens se preocupam sobre a duração do sexo. O rala e rola tem que durar tempo suficiente para pelo menos uma voltinha no Mediterrâneo ou uma rápida incursão na Polinésia. E aí, como um tsunami desgraçando a nau, surge o fantasma da ejaculação precoce.

A ejaculação precoce afeta 20-30% dos homens em todas as faixas etárias. Todavia, é difícil determinar o que é a ejaculação precoce. Pesquisas em laboratório mostram que até mesmo indivíduos capazes de fazer o intercurso durar mais de 20 minutos acham que sofrem do problema. No final das contas, o pulo do gato está na percepção que cada um tem do próprio desempenho.

Segundo dados publicados no Journal of Sexual Medicine, em 2005, o tempo médio de uma relação sexual é de 5-7 minutos, sendo 2 minutos o parâmetro científico para diagnosticar a ejaculação precoce. Ou seja: se após 2 minutos de aquecimento dos motores o sujeito já está acenando com a bandeirada final, então ele pode estar sofrendo do distúrbio.

Felizmente, a ejaculação precoce é um problema tratável e tem uma interpretação darwinista construtiva: se cada homem deste planeta levasse mais de 1 hora para atingir o orgasmo, seríamos uma raça bem, bem menos numerosa.

As dúvidas e os mitos sobre sexo não caberiam todos em uma crônica apenas, você sabe disso. A lição que deve ficar aqui é a seguinte: o sexo não é algo que ocorre suave e naturalmente como um passeio de mãos dadas durante o entardecer em um filme da Disney. Sexo é uma viagem ao desconhecido, um curso vitalício de educação continuada. Vez ou outra você levará bomba em uma matéria. Mas desde que mantenha o interesse e a dedicação, os créditos estarão a seu favor.

13 julho 2011

O CALENDÁRIO E A PEDRA BRANCA

© Alessandro Loiola




Toca o celular. Número desconhecido. Normalmente não atendo, mas dessa vez...
- Ei, você já embarcou? – diz a voz feminina do outro lado da ligação. Apesar do barulho no saguão e do zumbido da máquina de café expresso na minha frente, a voz é familiar.
- Não, nem entrei no avião. Tô aqui esperando um capuccino.
- Onde?
- Na lanchonete do aeroporto.
- Então espera, tô chegando aí.
E ela chegou. Linda como sempre, o nervosismo discretamente preso na coleira de um sorriso bastante honesto.
- Quanto tempo, hein?
- Pois é, menina. Anos. Passaram voando. Mais um pouco e pousavam aqui.
- Vim porque precisava te pagar uma dívida: ficamos devendo um abraço um ao outro da última vez.
- Não foi por culpa minha.
- É, eu sei. Aprendi isso com você.
- O que? Que nunca é culpa minha?
- Não, bobo. A aproveitar meus abraços quando eles aparecem. Pode demorar tempo demais até conseguir colher a próxima oportunidade. Ah, e isso nos leva ao segundo motivo de estar aqui hoje. Precisava te entregar isso também. – e retirou da bolsa uma pequena pedra branca.
- Mas o quê... ?
- É uma pedra branca, ora. Lembra? Você ficou de me contar essa história...


Pois terminamos trocando mais uma meia dúzia de duas palavras, a moça do alto-falante anunciou meu vôo, paguei a dívida do abraço e embarquei de volta para São Paulo com a pedra branca no bolso. E não contei a história. Puxa vida, esqueci e terminei não contando a história. Por isso, aqui vai o conto do Calendário e a Pedra Branca. Assim, quem sabe, pago minha dívida com ela e você ganha um mimo por tabela:

Tudo começa com as duas explicações possíveis para a origem da palavra Calendário. A primeira versão, mais oficial, afirma que nos tempos antigos os meses romanos se iniciavam em cada lua nova. No primeiro dia da lua nova, chamado dia das calendas (“calendae”), um alto representante da religião vigente informava as celebrações daquele mês. Nessa época, termo “calendarium” surgiu para designar o livro de contas onde eram marcados os dias entre uma calendas e a próxima.

A segunda explicação traz uma boa dose de mito, mas é infinitamente mais poética. Diz a lenda que os romanos possuíam o hábito de marcar o intervalo entre as calendas utilizando carreiras de pedras ou pequenos seixos. Após um determinado número de seixos, era hora de pagar os impostos e executar os ritos religiosos.

Acontece que, eventualmente, no meio daquela carreira de seixos, havia uma data especial a ser celebrada. O nascimento de um filho ou o amor e a união de um casal. Datas especiais como essas deveriam ser diferenciadas dos demais seixos que marcavam a mera sucessão de dias. Essas datas mereciam uma pedra diferente. Uma pedra branca – que, por um detalhe geológico (facilidade de acesso às jazidas na região), costumavam ser de cal.

E por isso, por volta desta mesma época, Plínio, militar e historiador romano, cunhou a célebre frase “Albo lapillo notare diem”. Traduzindo: Marcar cada dia com uma pedra branca. Cada dia. Excelente, não?

Não se deve marcar um dia ou outro com uma pedra branca, mas sim TODOS os dias. Todos os dias são especiais, valiosos e insubstituíveis de uma forma ou de outra. E se você marcar todos os dias com uma pedra branca, em breve formará uma longa sequência de pedras de CAL. Um CALendário.

A verdade por trás dessa pequena parábola é profundamente modificadora. Vivemos assombrados pelo passado e demasiadamente preocupados com planos para o futuro – e nos esquecemos de colher o dia. Não temos tempo para procurar e espalhar nossas pedras brancas pelo presente. E o presente nada mais é que isto mesmo que o nome diz: um presente. Que deve ser colhido e cuidadosamente marcado como uma lembrança especial, um dia após o outro.

Quem ou o que será sua pedra branca hoje?

25 maio 2011

PEGAÇÃO EVOLUCIONISTA

© Dr. Alessandro Loiola


Após uma seqüência alienígena de plantões ininterruptos, daquele tipo que visa provar que seres humanos podem, sim, sobreviver tranqüilamente dormindo menos de 4h por semana, sentei na frente do computador em crise criativa. Sobre o que escrever?

Por sorte, ao checar a caixa de email, havia a solicitação de uma repórter para um artigo sobre... sedução. Pronto, bingo!

Este sempre foi um excelente tema. Até porque, quem nos batizou de Homo sapiens não sabia de nada. Somos Homo carenttis, isso sim. Homens e mulheres. Passamos a existência nos sentindo misteriosamente sós em um planeta com mais de 6 bilhões de indivíduos da mesma espécie.

A explicação para este perene e suave sentimento de solidão pode estar na parte da medicina que estuda o desenvolvimento dos embriões, a embriologia.

Sem querer soar freudiano, temos uma vida generosa no útero materno. Nada de fome, indigestão, calor, frio, cartão de ponto, mensalidade da escola das crianças, louças do final de semana criando um crocodilo na pia da cozinha... nada disso. Um eterno feriado em um spa 6 estrelas, onde recebemos tudo na mão.

Quer dizer, não exatamente na mão, mas na barriga, pelo cordão umbilical, depois de uma checagem rápida das malas na alfândega da placenta. Mas você captou o conceito.

Pois então, como satisfazemos nossa saudade do conforto recebido no útero materno? Fácil: utilizando uma ferramenta chamada sedução.

Você irá encontrar um monte de definições frias e calculistas para o verbo “seduzir” no dicionário, mas o que ele significa mesmo é algo muito simples. Seduzir é a arte de manipular analiticamente os outros para obter atenção. E esta atenção, como uma massa de pizza pronta para ser levada ao forno, pode se transmutar em uma amizade, um namoro, um casamento, uma promoção, uma gentileza, um lugar mais na frente da fila – o que você quiser.

Estamos a (e precisamos) seduzir o tempo todo. A sedução foi a chave de fenda que apertou os parafusos entre os óvulos e os espermatozóides de nossos pais e mães. Ela está impregnada em seu DNA, é quem mantém nosso tecido social vivo. A sedução está na base do mundo que construímos – e é absolutamente necessária.

Recentemente, tem havido um retorno da mídia para este tema. Desde o filme “Hitch – conselheiro amoroso”, com Will Smith (se não assistiu, alugue ainda hoje!) até a febre em formato de reality-show chamada VH1 – The Pickup Artist, que promete transformar bobalhões tímidos em super-Don Juans, a sedução está novamente na crista da onda.

Boa parte destes filmes, sites e revistas que pretendem ensinar a arte da conquista sedutora se apóiam em sólidos conceitos de psicologia evolucionista, que podem ser resumidos em 3 pontos universais:

1. Selecione quem você vai seduzir. Para diminuir o risco de receber um fora 0,01 segundo após abrir a boca para falar qualquer coisa, jogue sua rede através do contato olho-no-olho. Uma boa troca de olhares é o primeiro sinal de receptividade.

2. Não perca tempo: obedeça a “regra dos 3 segundos”. Já experimentou ficar parado com o carro no meio do trânsito após um sinal verde? Em 3 segundos vem uma buzinada. Na arte da sedução, vale o mesmo princípio: a troca de olhares significa que o sinal abriu? Sorria, utilize toda sua linguagem corporal e mova-se imediatamente!

3. Fuja do protocolo: mostre que você tem algo de diferente, que seus genes podem oferecer uma variedade de novas qualidades superiores à média ao seu redor.

Um bom exemplo de protocolo que dá sono: as famigeradas perguntas “você vem sempre aqui?” (Não, na verdade neste exato momento estou dormindo na minha casa...), “você trabalha com quê?” (sou um traficante internacional de órgãos e vim nesta festa me esconder da Interpol), e “acho que te conheço de algum lugar”... essa... sem comentários.

Uma tática para fugir do protocolo e adicionar pontos à sua técnica de sedução é fazer algo quase extraordinário em um encontro: peça a opinião da outra pessoa em algum assunto, trivial ou relevante.

Controle-se, não interrompa dizendo o que você acha sobre o que você mesmo acabou de perguntar – se fosse este o caso, bastaria sentar-se com seu Ego na mesa mais próxima para um longo monólogo.

Ouça a outra pessoa com interesse genuíno e engate uma conversa a partir daí. Esta é uma estratégia mágica, de sucesso quase garantido. Afinal, alguém que deseja saber a opinião de uma pessoa tão extraordinária quanto você só pode ser uma pessoa extraordinária também, certo? É assim que nós, Homo sapiens carenttis, funcionamos.

E a vida segue.

31 janeiro 2011

SAÚDE NO MERCADO

© Dr. Alessandro Loiola


Existe um ditado, oriental eu acredito, que diz que o ser humano é uma espécie estranha: passa metade da vida gastando a saúde para ganhar dinheiro, e então a outra metade gastando o dinheiro para ver se recupera a saúde. Por experiência própria nos ambulatórios da vida, posso lhe dizer que a primeira metade costuma funcionar. Agora, quanto à segunda...

O segredo do sucesso nesta vida não está no que você possui, mas por quanto tempo vai ter aquilo. Afinal de contas, o que todo mundo gostaria mesmo de fazer antes de partir dessa para outra é ficar beeeem velhinho - alguma coisa por volta dos 140 anos, segundo meus modestos cálculos. Mais do que 140 poderia ser interpretado como ganância. Cento e quarenta está de bom tamanho.

Um dos pontos básicos para ter uma caminhada tão longa está na alimentação. E uma alimentação saudável tem início com a escolha de ingredientes saudáveis: se a sua geladeira está recheada de frutas e vegetais frescos, sem dúvida alguma será mais fácil manter aquela dieta em dia e evitar as tentações hipercalóricas.

Para melhorar sua performance na seção de horti-fruti e garantir uma vida longa e produtiva, tente fazer o seguinte:

- As seções de guloseimas são planejadas para sedução. Desde as embalagens até a disposição dos produtos nas prateleiras, todas as iscas estão lá para fisgar sua gula. Se você não tem a força de vontade mais ferrenha deste mundo, um modo de não forrar a sacola de compras com barras de 5 kg de chocolate é simplesmente não aventurar-se fora da seção de frutas, verduras e legumes. Se isso for possível.

- Alimente-se antes de sair para as compras e leve sempre sua lista: corte o estímulo de compras que vem do estômago fazendo um lanche rápido antes mesmo de entrar no supermercado. E ter uma lista previamente elaborada no conforto de casa, de preferência após encher a pança com aquele café da manhã ou almoço, é o complemento ideal para evitar tropeços.

- Sempre lhe disseram que aparência não conta, o que vale é o interior. Mas não leve essa regra ao pé da letra ao escolher vegetais e frutas: prefira aqueles com aparência mais fresca, firme e jovem. Cachos de uvas e caixas de morango podem estar recheados com mofo. Escolha com calma, examine, observe, leve os legumes para tomar um capuccino e converse com eles. E compre apenas a quantidade suficiente para alguns dias ou uma semana.

- Se o supermercado possui uma padaria, aproveite para comprar pães integrais ao invés daqueles feitos apenas com farinhas refinadas.

- As frutas merecem destaque: produzidas pela natureza após milhões de anos de testes, com embalagens biodegradáveis e nutrientes cuidadosamente selecionados, as frutas devem estar no topo da sua lista. Elas possuem a quantidade ideal de calorias em um pacote que inclui vitaminas, sais minerais, antioxidantes e fitoquímicos extremamente benéficos para o seu organismo. Veja a seguir 5 bons exemplos de como as frutas podem ajudar a prolongar seus anos por aqui:

1) MANGA: originária do Sudeste da Ásia, a manga é rica em beta-caroteno, uma fonte indireta de vitamina A, capaz de melhorar a defesa e a saúde da pele, olhos, mucosas, dentes, unhas e cabelos, além de aumentar a resistência para doenças respiratórias (especialmente em crianças). As mangas também são uma excelente fonte de vitamina C, fibras, cálcio, magnésio, fósforo, potássio e empregos para a indústria de fio dental.

2) MELANCIA: pobre em caloria, constituída por 90% de água e rica em licopeno (uma substância capaz de promover a saúde do coração e reduzir o risco de tumores), a melancia também é uma boa fonte de beta-caroteno, vitamina A, B e C, ferro, cálcio e fósforo. Possui propriedades digestivas e auxilia na eliminação de substâncias tóxicas pelos rins.

3) TANGERINA: também conhecida por aí como mexerica, esta fruta cítrica de origem asiática é uma ótima fonte de vitamina A e beta-criptoxantina, capaz de ajudar a reduzir a inflamação da artrite. A tangerina também possui grandes quantidades de luteína (importante para a boa visão) e fibras (que auxiliam o processo digestivo).

4) MAMÃO: originário do sul do México, o mamão é rico em antioxidantes, folato, sais minerais, vitaminas A, B e C. A papaína, uma enzima presente em grandes quantidades no mamão, atua auxiliando na absorção de nutrientes de outros alimentos.

5) UVA: introduzida no Brasil na época da colonização portuguesa, a uva é uma das frutas mais consumidas em todo o mundo. Rica em sais minerais, vitamina B e C, a uva também possui uma elevada concentração de resveratrol, um potente antioxidante natural. Pesquisas mostram que o extrato obtido das sementes possui propriedades antialérgicas e antiinflamatórias.

21 dezembro 2010

SÍNDROME DA BATERIA DESCARREGADA

© Dr. Alessandro Loiola


Você certamente já sofreu deste mal: atingir a metade de um dia de trabalho como se tivesse corrido duas maratonas, o corpo afogado em um esgotamento indescritível. Ou então, ao terminar o serviço, chegar em casa com vontade de escrever “sarcófago” na porta do quarto e submergir em um sono semicomatoso por vários séculos.

Mas os séculos duram pouco mais de 6h. Logo o sol raia, a corrida recomeça e você se flagra com um olhar vazio, conjeturando enquanto contempla o salva-telas do Windows: onde foi parar toda aquela energia que achou ter acumulado no final de semana?

A Síndrome da Bateria Descarregada é mais comum do que se pensa. Além da sensação de fadiga eterna, ela pode incluir dores musculares, dores de cabeça, nervosismo, um certo sentimento de frustração para realizar até mesmo pequenas tarefas e aquela percepção subliminar de inadequação – algo como passar o dia considerando a possibilidade de que um planeta gélido e sem atmosfera poderia ser um ambiente mais favorável para sua sobrevivência do que aqui e agora.

Se você acha que seu dia-a-dia se encaixa na descrição acima, bom, receba minhas boas-vindas ao grupo. Você é outra vítima da síndrome. Mas ter as baterias descarregadas não significa correr para a primeira tomada segurando um par de fios desencapados. Existem maneiras mais simples – e seguras – de repor suas energias até o topo:

1) AUMENTE A INGESTÃO DE MAGNÉSIO: ninguém presta muita atenção nele, mas o magnésio está envolvido em mais de 300 reações bioquímicas essenciais para o bom funcionamento do organismo – incluindo a produção de energia a partir da glicose. Acelga, agrião, alcachofra, alface, alho, avelã, brócolis, cebolinha, centeio, cereais integrais, chicória, coentro, couve, espinafre, farinha de soja, germe de trigo, nozes, repolho, salsa e taioba são excelentes fontes de magnésio.

2) DÊ UMA VOLTA NO QUARTEIRÃO: apesar de parecer um contra-senso, exatamente quando você estiver sentindo a exaustão mais profunda é a melhor hora para dar aquela caminhada. Uma caminhada é algo acessível, fácil de fazer, e não serão precisos treinamentos ou equipamento sofisticados. Pesquisas mostram que o bem-estar produzido por uma caminhada de 10 minutos pode durar várias horas.

3) TIRE UMA SONECA REJUVENESCEDORA: uma inocente soneca de 60 minutos no meio do dia é capaz de reverter o abobamento provocado pelo excesso de informação, facilitando o raciocínio, a memória e o aprendizado. Resultados idênticos valem para boas noites de sono.

4) NÃO PULE REFEIÇÕES: seu cérebro é um consumidor voraz de energia, daí a importância de manter sempre algumas gotas de combustível no tanque. Não saia de casa sem tomar um café da manhã adequado, almoce e jante de modo saudável, e faça pequenos lanches entre as refeições (p.ex.: comendo uma fruta ou uma barrinha de cereais).

5) REDUZA SEU ESTRESSE: o estresse é resultado da ansiedade. Assim como a preocupação e o medo, a ansiedade consume um bocado de energia. Você entrou nesta vida com nada e sairá dela com mais ou menos a mesma coisa. Não dê tanta importância a tudo. Ouça uma música, leia um livro, converse com um amigo pela Internet. Semanalmente, pratique yoga ou meditação ou sexo selvagem ou meditação selvagem durante o sexo com yoga, enfim, o que quer que lhe diminua a tensão. Qualquer atividade sem tendências homicidas, capaz de combater sua ansiedade, repercutirá de modo positivo sobre os níveis de energia.

6) BEBA MAIS ÁGUA E MENOS ÁLCOOL: algumas vezes, uma leve desidratação pode ser suficiente para produzir sintomas de cansaço e letargia. Beba mais água, pelo menos 10 copos todo dia. E evite consumir álcool próximo ao seu horário habitual de dormir.

7) SEJA CAFÉ-COM-LEITE: adicionar um pouquinho de leite desnatado ao seu precioso café é uma dica quente. O leite torna o cafezinho um drinque protéico, oferecendo não apenas uma energia extra, mas também cálcio para os seus ossos.

8) GARANTA O EMPREGO DE SEU CLÍNICO GERAL: confira periodicamente com aquele médico de confiança como anda sua tireóide, seu sangue e seu coração. Você leva seu carro para calibrar os pneus e os cachorros para um banho, não leva? Então tome jeito e dedique pelo menos um décimo desse empenho para cuidar da própria saúde.

28 novembro 2010

A SEMPRE BOA E CONFIÁVEL PANELA DE FERRO

© Dr. Alessandro Loiola


Em um acesso de sinceridade, confesso: tenho um caso mal resolvido na cozinha. Mas calma lá com a interpretação, porque pensão alimentícia anda cara esses dias (né, Romário?). O fato é que na hora de preparar uma refeição, o utensílio que mais uso é o telefone. Nem sei mais a cor da geladeira, soterrada há anos sob várias camadas de ímãs de “disk-tudo”.

Entendo nada de cozinha.

Para evitar que me xinguem de porco chauvinista logo no início da crônica (sei que inevitavelmente farão isso a partir do meio do texto), pensei em colocar em meu histórico culinário as competências “sabe preparar miojo, fazer pipocas no microondas e encher a forma de gelo”. Mas decidi esperar o final do ano para acrescentar “capacitado para cortar ingredientes do salpicão”. É sempre recomendável adicionar um certo nível de sofisticação no currículo.

Então, sendo eu este completo analfabeto de garfo e faca, me vi como um camundongo encurralado pela vassoura no cantinho do gás quando recebi um email perguntando: qual a melhor panela para preparar as refeições?

Pensei em responder “cheia”, mas até o cinismo precisa de tempero. Pesquisando, descobri que assim como existem vários tipos de mulheres, existem vários tipos de panela – cada uma com indicações e efeitos adversos específicos.

Use “porco chauvinista!” à vontade a partir de agora.

Por exemplo: as panelas de alumínio e aço inox são como namoricos de verão - baratas e fáceis de encontrar. Apesar de excelentes para o preparo de carnes, elas podem absorver metais pesados durante o cozimento e afetar sua saúde.

Panelas de vidro são como namoradas de 20 e poucos anos: transparentes, bonitas e decorativas, esquentam muito rapidamente e devem ser desligadas com certa antecedência, ou comprometerão o resultado da refeição. Ao contrário das panelas de inox, elas não produzem só barulho quando derrubadas.

Panelas de cobre são mulheres independentes depois dos 30: mais caras e condutoras, porém menos práticas e potencialmente tóxicas. Causam uma boa impressão se você quiser passar um ar de alquimista e disfarçar seu péssimo molho culpando a limitada versatilidade gustativa dos convidados.

Panelas de teflon costumam ser utilizadas por executivos infiéis em busca de frituras rápidas, com pouco óleo. Estas panelas possuem um revestimento interno de politetrafluoretileno que as torna antiaderentes. Mas atenção: o politetrafluoretileno solta-se com alguma facilidade e jamais deve ser ingerido.

Panelas de porcelana são mulheres em plena TPM: cheias de personalidade, possuem um toque intimista (ou seria intimidador?), mancham fácil e ao menor estresse ameaçam soltar o esmalte.

Uma panela de pressão é uma mulher na pré-menopausa. Experiente, tecnologicamente pensada, não é recomendada para iniciantes. Apesar de cozinhar bem em temperaturas acima de 100 graus, todo cuidado com a válvula de pressão é pouco. Sem manutenção, ela pode explodir na sua cara quando você menos esperar.

Finalmente, a boa e velha panela de ferro é como aquela mulher que escolhemos para casar. Podem ser levadas à mesa, são versáteis e concentram mais o calor, cozinhando tudo ao mesmo tempo.

Além de manterem o sabor e as propriedades do alimento, as panelas de ferro adicionam nutrientes valiosos. Pesquisas mostram que o preparo de alimentos nesse tipo de panela chega a suprir cerca de 20% das necessidades diárias de ferro do organismo, tornando-as especialmente indicadas para quem adota uma alimentação vegetariana.

Para manter uma panela de ferro sempre em ordem, você deve tomar alguns cuidados básicos. Elas devem ser limpas com delicadeza e se possível secadas no forno quente e aconchegante. Uma vez resfriadas ao natural, aplique uma leve camada de óleo e guarde-as em um local apropriado. Com a dose certa de atenção e carinho, elas devem durar bastante. Afinal de contas, panela velha é que faz... você sabe.

17 novembro 2010

EM BUSCA DA BÚSSOLA PERDIDA


Uma amiga desabafa: “sabe, ando passando uma fase estranha, um sentimento de como se estivesse perdida, como em um daqueles pesadelos que você não sabe onde está. Anda, anda e não sabe pra onde ir, entende? Travei. Passei a fazer tudo mecanicamente e precisei dar um tempo em um monte de coisas pra tentar voltar ao normal. Ainda não consegui. Existe algum caminho mais fácil para sair daqui?”

Me identifiquei imediatamente com o bairro dela, ali perto de Perdidos No Espaço. Na última contagem, o rapaz responsável pelo censo da região também se extraviou e não temos estatísticas confiáveis até o momento sobre a população que habita o local. Mas ela parece grande. Muito grande.

No começo dos anos 2000, quando mudei com (ex-)esposa e casal de filhos de uma pequena localidade (33.000 habitantes) para uma enorme região metropolitana (mais de 5 milhões de viventes), nos perdemos em um passeio para conhecer a capital. Estávamos nos informando sobre o caminho de volta para casa quando o de 6 anos perguntou:
- Papai, qual o significado dos nomes nessas placas?
- São os nomes dos bairros, filho, e as saídas que você tem que pegar para ir a cada um deles.
- Ahhhnn... Então aqui é o bairro da Savassi e ali é a saída para o Belvedere?
- Isso.
Andamos mais um pouco.
- E aqui é Lourdes e por ali a gente vai para o Barro Preto?
- É isso aí.
Andamos mais um pouco.
- Pai, olha só, tem um bairro enooorme! Na cidade inteira tem entrada para ele!
- Filho, cada bairro fica em um lugar só. Não tem como um bairro estar para todo lado. – E fiz um “tsc tsc” de desdém.
- Então porque tem tantas placas apontando para esse bairro chamado Retorno?

Crianças. O poço mais profundo da filosofia mais magnânima pelo preço de um picolé.

Todo lugar tem um Retorno. Todo lugar tem uma volta. Sempre é possível recomeçar, reconquistar, refazer, reconstruir, reviver. E foi a partir da vivência de uma criança de 6 anos que desenvolvi uma teoria bem simples, a teoria da Bússola do Crescimento Pessoal, composta por 5 diretrizes gerais de navegação que gostaria de compartilhar com você agora:

1 - Quando você acordou hoje, foram depositados 86.400 segundos em sua conta de vida. Eles são todos seus e, apesar de auto-renováveis a cada meia noite, não podem ser transferidos, doados ou vendidos. Contudo, o fato de não poder negociar com o relógio não significa que você não possa se aproveitar dele. Leve o tempo que for necessário para iniciar seu recomeço – só não leve tempo demais.

2 - Rasgue imediatamente seu bilhete de entrada para o metrô dos zumbis: dentro do possível e do impossível, desfrute e participe da paisagem que passa pela sua janela. Aprendizado sem mudança é desilusão. Mudança sem crescimento é frustração. Contemple a vista, aprenda, mude e se aprimore a cada dia.

3 - No final das contas, tudo isso de ruim e de bom é viver, e a viagem só acaba quando termina. Nunca desanime antes do fim. A única rua que leva ao seu fracasso é a Desistência e, enquanto estiver persistindo, você estará no caminho para o sucesso. Peça carona, empurre seu carro, vá a pé. Siga em frente, siga para os lados, siga para trás. Mas siga.

4 - Agir de modo independente não significa negligenciar as informações a cada esquina. Pergunte, peça ajuda. Alguns bons (e insuspeitos) amigos podem conhecer bons atalhos, bons restaurantes, boas atrações, boas oportunidades, e você tem 2 ouvidos, 2 olhos e apenas uma boca. Observe e ouça o dobro do que fala.

5 - Não tente fazer todas as coisas perfeitas. O caminho de volta pode não ser exatamente aquele que você fez na ida, mas ele existe e irá lhe proporcionar uma série de novas experiências e conhecimentos antes de lhe colocar confortavelmente em casa. Tentar percorrer sempre o mesmo caminho perfeito pode tornar o passeio monótono e paralisante. Então destrave. Pegue o primeiro ônibus que passa pelo bairro Perdidos No Espaço, vá viver a sua aventura da vida e tenha mais um dia extraordinário!

12 outubro 2010

UM BRINDE AO DIA DEPOIS DO OUTRO

© Dr. Alessandro Loiola


Por gerações a perder de vista, os incontáveis povos que já passaram pela superfície no nosso planeta-grão-de-poeira adoravam eleger datas festivas para comemorar o que quer que fosse. Isso é uma coisa tão prevalente que me atrevo a dizer que somos o produto de milênios de seleção natural de ancestrais baladeiros e festeiras.

Por exemplo: os hindus têm um tal de Festival das Cores, para celebrar a germinação das sementes e a nova colheita que virá com a primavera. Tudo muito bonito, sincronizado com as fases da Lua, os primeiros dois dias todo mundo comportado, rezas, ladainhas, adorações, coisetal. E então, no terceiro dia… “loucura, loucura, loucura!”, como diria o Sr. Luciano “o Incrível” Huck. O festival vira festival mesmo e o bicho pega.

Um pouco pra cima da Índia, os chineses não fazem por menos. A partir da metade de setembro e até por volta da primeira semana de outubro, eles comemoram o Festival do Bolo Lunar, uma tradição com mais de 3.000 anos que celebra a derrota dos invasores mongóis. E segue-se um troca-troca sem fim de pequenos bolinhos adocicados em formato de Lua cheia. Quer dizer, eles dizem que tem formado de Lua cheia. Pra mim, é formato de bolo mesmo.

Os chineses são mestres em celebrações. Quem manda? Com 1,3 bilhões de pessoas, eles têm o próprio planeta deles por lá. Tanto é que o Ano Novo Chinês é comemorado entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro. Ouvi falar que a tradição é soltar fogos de artifício, limpar a casa, sujar a rua com pequenos pedaços de papel vermelho e fazer muita comida, especialmente os Yau Gowk, bolinhos que simbolizam prosperidade.

Bolinhos chineses novamente. Fico imaginando o que esse povo tem com bolinhos. Deve ser algum fetiche. Sei lá.

Os muçulmanos comemoram o ano novo no meio do nosso ano. O ano novo judaico, chamado Rosh Hasanah ou a “festa das trombetas” (imagine a alegria dos vizinhos...), acontece um pouco mais tarde, em setembro. Os coreanos, mais animados, comemoram 2 anos novos: um baseado no calendário ocidental e o Seol Lal, baseado no calendário lunar chinês.

A primeira notícia que se tem de comemoração do Ano Novo no dia 1º de janeiro vem dos idos do imperador Julio Cesar, em 46 a.C, mas a data seria adotada pela cristandade apenas em 1582, com a oficialização do calendário gregoriano – que nos rege até hoje.

A celebração do Ano Novo marca um evento bastante simples e pouco altruísta: como nas demais festividades de todos os povos em todos os tempos, estamos celebrando nada mais, nada menos, que nossa própria sobrevivência.

Sobrevivemos a mais um giro, você completou mais uma volta. Ainda estamos aqui. Bata no peito, grite bem alto, levante sua taça – afinal, o ano se foi e você ficou! Agora, graças ao renascimento do calendário grudado na porta da geladeira, você poderá fazer novamente todas suas velhas promessas.

Celebrar a sobrevivência, apesar de previsível, não deixa de ser louvável. Nossos ancestrais miúdos, as amebas, vivem apenas dois dias. Uma miséria. Um glóbulo vermelho do seu sangue vive no máximo 120 dias: uma hemácia nascida no verão, provavelmente irá desaparecer antes do cair da primeira folha de outono. Pouquíssimas terão a oportunidade de conhecer o barulho de uma rolha de espumante.

Mesmo quando comparados a outros mamíferos, somos uma espécie longeva: um coelho vive apenas 10 anos. Gatos e cachorros, no máximo uns 18 anos. Gorilas e chimpanzés, cerca de duas reles décadas. Nós? Vivemos uma média de 75-80 anos. Faz sentido comemorarmos coletivamente cada um deles.

Mas eu iria além. Se estas festas de todos os dezembros marcam nossa sobrevivência ao longo do velório do ano velho e o trabalho de parto do próximo, porque não celebrar mais frequentemente a sobrevivência? Celebrar a imensa felicidade de acordar e desfrutar mais uma vez o mundo e as pessoas. Quer dizer, nem todas as pessoas, apenas algumas pessoas. Bem poucas, pra falar a verdade. Mas elas estão por aí e merecem um alô.

Será que temos essa inteligência suficiente para comemorar o cotidiano? Festejar a beleza elegante da evolução, a serenidade da sabedoria e o milagre absurdo que se esconde no simples fato de estarmos aqui, prestes a declarar o imposto de renda outra vez?

Considerando que o ano novo é a simples realização de que estamos vivos, porque não exaltar cada novo dia? Sim! Cada raiar do sol esconde um novo ano particular, uma oportunidade única para você refazer os cacos e juntar o todo. Que feliz ano novo que nada! Apesar da paganice, da receita federal e dos argentinos, desejo mesmo a você e toda sua família um Feliz Dia Depois do Outro! E outro. E outro. E outro. E sempre. Saúde!

23 abril 2010

PROBLEMAS EMBARAÇOSOS DO ANIMAL HUMANO

© Dr. Alessandro Loiola


Alguns problemas simples do animal humano podem ser extremamente embaraçosos. Dependendo do caso, pode ser constrangedor até mesmo marcar uma consulta para tentar resolver o assunto: você corre o risco de ser recebido pelo médico com uma daquelas caras de “...mas o que esse sujeito veio fazer aqui, afinal de contas?”.

Para facilitar sua vida, listei 6 problemas teoricamente irrelevantes que podem lhe interessar – ou a alguém que você conhece.

CHULÉ

Dos vários odores típicos da sociedade moderna, poucos se igualam ao bom e velho chulé. Se você ainda duvida, respire fundo e sinta todo o frescor e suave aroma do tênis All Star de seu sobrinho adolescente. Mas, antes de conduzir este experimento, certifique-se de que a pessoa ao seu lado sabe realizar manobras de ressuscitação cardiorrespiratória. Jamais subestime o potencial letal de um bom tênis de lona.

Os odores que exalam dos pés estão relacionados ao ambiente quente e úmido que se forma dentro do sapato. Para controlar o chulé, use meias de algodão e sapatos feitos de materiais que facilitem a transpiração. Periodicamente, coloque sua palmilha e os tênis em um carrinho de bebê e leve-os para um agradável banho de sol - isso ajuda a eliminar alguns inquilinos indesejáveis, como fungos e bactérias. Se quiser optar pelo supra-sumo da sofisticação, compre um talco próprio para calçados e aplique à noite.

MAU HÁLITO

Se você se acha um conquistador nato, saiba que o que as mulheres observam mesmo é seu estado geral de higiene – e suas nádegas. Nada de bíceps de 50 cm ou abdome tanquinho: sapatos asseados, barba feita, uma roupa que pareça limpa e bons dentes são suas principais ferramentas de sedução. Mas bons dentes com mau hálito podem comprometer todo o pacote.

Apesar de escovar corretamente os dentes ajudar a prevenir cáries, a escovação pode no máximo disfarçar um pouco o mau hálito. O problema, na verdade, costuma estar escondido na língua, na garganta ou no estômago – não nos dentes. As bactérias presentes nessas regiões produzem compostos sulfurosos e, quando em excesso, podem dar ao seu bafo um toque acebolado com pitadas de alho. Escovar sua língua não irá eliminar estes compostos sulfurosos, mas beber bastante água durante o dia e utilizar soluções apropriadas para enxaguar a boca sim.

SUOR EXCESSIVO

Algumas pessoas suam aos menores esforços como tivessem saído de um dilúvio. Na maioria dos casos, o suor excessivo é traço genético hereditário, mas eliminar seus pais ou a família inteira não resolverá o problema. Converse com seu médico de confiança para excluir a possibilidade de problemas na tireóide, nos níveis sangüíneos de açúcar, alterações cardíacas e outros transtornos com manifestações parecidas.

Nos casos extremos, podem ser indicados procedimentos cirúrgicos para diminuir o suor nas palmas das mãos ou mesmo injeções periódicas de botox – essas injeções são capazes de paralisar as glândulas sudoríparas da região tratada por 6 a 12 meses.

BOLINHAS VERMELHAS

Aquelas pequenas bolinhas vermelhas que surgem nas nádegas, nas coxas e nos braços podem ser um problema denominado ceratose folicular. A ceratose é causada pela formação de pequenas rolhas endurecidas nas aberturas dos poros. As rolhas causam a retenção da secreção sebácea podendo formar lesões semelhantes a espinhas que, algumas vezes, podem inflamar e deixar manchas residuais.

Apesar de não existir um tratamento definitivo, uma boa loção ou creme pode ajudar a controlar o problema. Também é recomendável evitar roupas apertadas, tecidos sintéticos e aplicação de produtos cosméticos gordurosos nas áreas afetadas.

PELE OLEOSA

O excesso de oleosidade da pele pode estar relacionado à dieta, hereditariedade, níveis hormonais, gravidez, uso de contraceptivos orais, cosméticos, calor e umidade. Apesar daquela aparência permanente de atendente de lanchonete, existe uma vantagem: a pele oleosa envelhece mais lentamente que outros tipos de pele.

Um cuidado extra com a higiene, lavando os locais mais afetados com água morna e sabonetes neutros, duas ou três vezes ao dia, será suficiente para manter sua pele saudável. Mas atenção: evite produtos químicos muito fortes ou lavar com frequência exagerada. Isso irá apenas estimular a pele a produzir mais óleo.

DENTES AMARELOS

Fumar e consumir bebidas escuras em excesso (p.ex.: café, chá, refrigerantes a base de cola e vinho vermelho) podem alterar a coloração do esmalte dentário. E quanto mais tempo as manchas permanecerem nos seus dentes, mais difícil será retirá-las de lá. Pastas de dente contendo peróxido de carbamida ou sílica hidratada podem ajudar, mas os resultados mais dramáticos são obtidos através de tratamentos odontológicos especializados.


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Formado em Medicina pela Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, com especialização em Cirurgia Geral pela Fundação Educacional Lucas Machado (Belo Horizonte/MG), o médico capixaba Alessandro Loiola vem atuando há mais de 10 anos como desenvolvedor de conteúdo científico para jornais, revistas, canais de televisão e Internet. Palestrante, autor de vários livros sobre saúde e centenas de artigos publicados no Brasil e no exterior, Dr. Alessandro pode ser encontrado como colunista e colaborador em milhares de páginas na Web. Atualmente, reside e clinica em São José dos Campos, São Paulo.

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10 abril 2010

A VACINA CONTRA H1N1: NOTÍCIAS DIRETO DO ÚBERE DE BLOSSOM

© Dr. Alessandro Loiola


Era uma fresca manhã de 14 de maio de 1796 quando o médico inglês Edward Jenner pegou o menino James Phipps e arranhou e bezuntou seus braços com secreções purulentas colhidas das mãos de uma ordenhadeira chamada Sarah. Sarah havia recentemente contraído uma forma de varíola bovina das tetas de sua vaquinha predileta, Blossom. E Blossom, ruminando serena, nem sabia o que eram varíola ou tetas, tampouco que ela própria era um bovino.

E então James, de apenas 8 anos de idade, adoeceu, teve febre, sentiu-se mal por alguns dias e recuperou-se. Mas isso não foi suficiente para Jenner. Após alguns dias, ele investiu novamente sobre o menino (cientificamente falando, claro), sentando-lhe uma dolorosa injeção de material fresco de varíola humana. Afora a picada, o menino nada sentiu ou desenvolveu. Ele havia se tornado imune à varíola – o equivalente atual a ser imune ao HIV.

A experiência bizarra de Jenner poderia ser classificada como algo entre o desumano e o neonazista – ou ambos -, mas sua audácia resultou em um avanço que salvaria mais vidas que qualquer outra descoberta médica na assombrosa história da humanidade. Utilizando camponeses como porquinhos da Índia, Jenner havia descoberto a vacinação.

Quase 3 séculos mais tarde, somos assolados por uma nova epidemia. Desta vez, uma mutação do banal vírus da Gripe. Sim, banal. Perto de uma garrafa de cerveja, o influenza H1N1 é um iniciante: calcula-se que o H1N1 tenha ceifado cerca de 15 mil vidas no ano passado, em todo o mundo. No mesmo período e local, pelo menos 2,3 milhões de pessoas morreram devido a problemas relacionados ao consumo de álcool - e você não tem um ataque de pânico ao ver uma garrafa de Chivas, tem?

Ah, sim: segundo dados da OMS, a cada ano o trânsito causa mais de 1 milhão e duzentas mil mortes e o Fumo, cerca de 5.000.000 de óbitos. Se você conhece algum tabagista que dirige, providencie agora mesmo uma coroa de flores para ele. Quem sabe comprando adiantando você consegue um bom desconto.

Por causa da burrice generalizada... perdão, deixe-me corrigir: por causa das agendas equivocadas, da incapacidade institucionalizada e da corrupção hereditária, nosso governo vai investir uma senhora grana na aquisição e distribuição de mais de 100 milhões de doses da vacina contra H1N1. Pilhas e pilhas e pilhas de notas de reais investidos em uma campanha nacional de seringa-marketing. Tsc, tsc.

Quer melhorar a saúde da população? Então que tal não deixar faltar remédio para hipertensão no posto saúde e acompanhar de perto todo e qualquer hipertenso? Afinal de contas, a hipertensão arterial é responsável por mais de 7 milhões de mortes prematuras a cada ano.

Mas tudo bem. Isso combina como uma luva com a estratégia de saúde de um (des)Governo que criou com pompas e circunstâncias o Fome Zero, destinado a aplacar a desnutrição de 18 milhões de brasileiros – e pouco fez para controlar o excesso de peso que atinge outros 70 milhões de patrícios. Temos 3 gordos para cada 1 desnutrido e querem distribuir mais comida. Tá certo. Nada contra. O faturamento do meu consultório agradece.

Minha pirraça com esta campanha de imunização contra o H1N1 reside na sinistra rapidez com que uma vacina de massa foi desenvolvida e prontamente disponibilizada à população. Os primeiros casos de H1N1 foram detectados em abril de 2009 e menos de um ano depois já temos uma vacina “absolutamente segura e eficaz”? Hum... sei não... vou perguntar pro Papai Noel, pode?

Em 1999, uma vacina infantil “altamente eficiente” contra rotavírus foi rapidamente retirada do mercado nos EUA: após 14 meses de vacinações, as estatísticas mostraram que a RotaShield aumentava de modo significativo o risco de intussuscepção – um tipo de obstrução intestinal potencialmente fatal.

Até hoje, corre solta a discussão se o aumento nos casos de autismo observado nas últimas décadas não estaria relacionado ao timerosal, um conservante presente em muitas vacinas. A pressa é inimiga da perfeição – e vizinha do superfaturamento.

Uma (excelente) revisão recente da Cochrane Collaboration, envolvendo mais de 70 estudos científicos de qualidade, concluiu que nem mesmo a vacina contra gripe comum possui evidências concretas sobre sua eficácia em pessoas com mais de 65 anos de idade. Que dirá a vacina para o H1N1.

A princípio, espera-se que uma vacina cause menos efeitos que a doença contra a qual ela oferece proteção. Mas esses dados ainda não estão disponíveis para a vacina contra o H1N1. Os próprios especialistas americanos, do CDC, do FDA e do Departamento de Defesa estão vigilantes para identificar quaisquer eventuais efeitos colaterais. “Podem ocorrer alguns efeitos adversos, algo poderia acontecer, mas nós acreditamos que isto é altamente improvável”, disse o especialista Dr. Mark Mulligan, diretor executivo do Emory Vaccine Center, em Atlanta (EUA).

Como é que é? Eles “acreditam” que um efeito colateral é altamente improvável? É alguma procissão de fé? Chama o Papai Noel aí de novo.

Eu muito modestamente creio que um programa direcionado para a melhoria das condições sanitárias e nutricionais da população possuiria uma relação de custo-benefício bem superior a certas campanhas de vacinação. Por exemplo: por que não substituir a campanha anual de vacinação contra gripe por um programa sazonal orientando a população a utilizar suplementos de vitamina D3?

Ao contrário da vacina, a vitamina D3 oferece uma proteção quase universal contra o Influenza. Além disso, em doses maiores, a D3 pode ser capaz de curar a gripe.

Lamentavelmente, a mentalidade feudal de Edward Jenner prevalece. Seu legado intelectual pode ser insubstituível, mas não tenho vocação para cobaia. Entre as injeções contra H1N1 e o estábulo, ainda prefiro o úbere de Blossom.

**********

Se a curiosidade lhe mordeu, recomendo então mais alguns links para artigos sensatos sobre H1N1 e a milagrosa vacina:

- Pandemia de gripe ou pandemia de pânico? - http://www.channel4.com/news/articles/science_technology/pandemic+flu+or+pandemic+panic/3279557

- Uma gigantesca indústria aguarda pela pandemia - http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,637119,00.html

- O que nós realmente sabemos sobre a vacina?
http://www.theglobeandmail.com/news/opinions/what-do-we-know-about-the-vaccines-safety-not-enough/article1242422/

- Estudo de Vigilância Epidemiológica na Austrália conclui: não existem evidências mostrando proteção significativa da vacina contra gripe em qualquer faixa etária. http://pesquisa.bvsalud.org/h1n1/resources/mdl-19660248

- Entrevista com Dr. Tom Jefferson, renomado epidemiologista do Cochrane Collaboration Group - http://blogs.ft.com/healthblog/2009/09/11/interview-dr-tom-jefferson-and-pandemic-flu-vaccines/

30 março 2010

A MAIOR INVENÇÃO DE TODOS OS TEMPOS

© Dr. Alessandro Loiola


Existe uma frase marcante creditada a Albert Einstein que diz mais ou menos assim: “Toda a nossa ciência, quando comparada à natureza, é absolutamente medíocre – e ainda assim, esta mesma ciência é a coisa mais preciosa que temos”.

Construímos prédios majestosos e computadores poderosíssimos, enviamos sondas para outros planetas e prolongamos a vida com vacinas e antibióticos, mas realmente nada se compara a uma das invenções mais extraordinárias da natureza: o cérebro humano.

Enquanto fiscaliza e organiza incontáveis funções do corpo, essa massa esponjosa que você tem bem aí entre suas orelhas analisa informações do meio externo, processa memórias, elabora raciocínios, cria pensamentos abstratos, descobre soluções e, nas horas de descanso, sonha. Ele nunca pára.

Ao nascer, o cérebro de um bebê tem por volta de 350g e, apesar do número de células cerebrais permanecer relativamente estável ao longo de nossas vidas, estas células aumentam de volume e passam a fazer mais conexões entre si com o passar do tempo. O cérebro de um humano adulto médio pesa cerca de 1,3 a 1,4 Kg, sendo 80% deste peso constituído por água pura.

Existem 2 tipos principais de células no cérebro: as células gliais e os neurônios. Ao contrário dos neurônios, que não se dividem, as células gliais se multiplicam acompanhando o crescimento do corpo, oferecendo sustentação, nutrientes e oxigênio para os neurônios.

As estimativas mais conservadoras dizem que temos entre 80 e 90 bilhões de neurônios dentro do crânio, e cada um desses neurônios estabelece cerca de 1.000 a 10.000 conexões com neurônios vizinhos. Em termos eletrônicos, se considerarmos que cada conexão neuronal corresponde a 1 bit, o resultado da capacidade de processamento de dados do cérebro totaliza impressionantes 100 trilhões de bites.

Indo mais além, imagine que cada “bit” cerebral, cada ligação entre os neurônios, corresponda a dois estados mentais diferentes. Por exemplo: quando ligada, uma determinada conexão neuronal seria igual a “acordado”, e quando desligada, igual a “dormindo”.

Para cada conexão (cada bit), teríamos 2 estados mentais diferentes: ligado e desligado, certo? Certo. Então, o número de estados mentais possíveis para um cérebro humano saudável seria igual a 2 (correspondendo às duas configurações possíveis para cada bit) elevado a potência de 100 trilhões (equivalente ao número de bites cerebrais). Este número inimaginavelmente enorme é bem maior, por exemplo, que o número total de átomos no universo. E os impulsos bioelétricos que passam por essas conexões transitam a mais de 300 km/h!

Sem dúvida alguma, existem estados mentais que jamais foram experimentados ao longo de toda nossa história evolucionária, idéias incríveis esperando por um relance, idéias que poderiam mudar o curso de nossa espécie neste planeta. A partir desta perspectiva, cada ser humano passa a ser único e raro, e considerar a vida como algo verdadeiramente sagrado começa a fazer algum sentido.

Considerando todo este potencial, não admira que o cérebro, representando apenas 2% do peso corporal, utilize 20% de todo o suprimento de sangue e oxigênio do organismo. Para manter seu prodígio neuronal sempre afiado é preciso exercitá-lo com freqüência, e um modo bem divertido de fazer isso é aprendendo coisas novas o tempo todo e utilizando a curiosidade para aguçar o raciocínio.

E por que deixar para depois? Comece agora mesmo a exercitar sua mente com uma brincadeira bem simples: descubra por si só ou com a ajuda de amigos as respostas para as perguntas a seguir. A solução está no final, mas não vale trapacear!

1. Você tem dois jarros cheios de água. Como poderia passar toda esta água para um só barril sem utilizar os jarros ou qualquer outro recipiente, e ainda assim ser capaz de dizer qual água veio de qual jarro?

2. O que é preto quando você compra, vermelho quando usa, e cinza quando joga fora?

3. Você é capaz de dizer o nome de 3 dias consecutivos da semana sem utilizar números ou as palavras segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado ou domingo?

4. O que é mais inusitado no seguinte o texto: “Cultivemos nosso polifônico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, escrínio de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores. Honremos o que é nosso, ó moços estudiosos, escritores e professores! Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos, berço de heróis e de nobres descobridores de mundos novos”.



***


Funções das partes do cérebro

Lobo Frontal - Comportamento, pensamentos abstratos, solução de problemas, atenção, criatividade, algumas emoções, intelecto, reflexão, julgamento, iniciativa, inibição, coordenação de movimentos, alguns movimentos dos olhos, olfato, algumas habilidades motoras, reações físicas e libido.

Lobo Occipital - Visão e leitura.

Lobo Parietal - Tato, capacidade de identificar objetos segundo sua forma (estereognosia), resposta a estímulos internos (propriocepção), combinação entre estímulos sensoriais e compreensão, algumas funções da linguagem, da leitura e da visão.

Lobo Temporal - Audição, memórias (auditivas e visuais), música, medo, fala, linguagem, comportamento e emoções, sentimento de identidade.

Hemisfério direito - Controla o lado esquerdo do corpo, responsável pela relação temporal e especial, análise de informações não-verbais, comunica as emoções.

Hemisfério esquerdo - Controla do lado direito do corpo, produção e compreensão da linguagem.

Cerebelo - Equilíbrio, postura; possui centros de controle para funções cardíacas, respiratórias e vasomotoras.

Tronco cerebral - Centro motor e sensorial para o corpo e a face; possui centros de controle para funções cardíacas, respiratórias e vasomotoras.

Hipotálamo - Estado de humor, motivação, maturação sexual, regula temperatura corporal e vários processos de produção hormonal.

Hipófise - Regula processos de produção hormonal, crescimento e maturação física e sexual.

***

Respostas para o Quiz



1. Congelando a água primeiro.
2. O carvão.
3. Ontem, hoje e amanhã.
4. Este texto não possui uma única letra A, que é a letra mais comum no Português. A ordem de freqüência de ocorrência das letras em português é a seguinte: A E O S I R N D T C M U P L V G B F Q H J X Z K W Y. No inglês, a letra E é a mais comum.

11 março 2010

UM BRINDE AO DIA DEPOIS DO OUTRO

© Dr. Alessandro Loiola


Por gerações a perder de vista, os incontáveis povos que já passaram pela superfície no nosso planeta-grão-de-poeira adoravam eleger datas festivas para comemorar o que quer que fosse. Isso é uma coisa tão prevalente que me atrevo a dizer que somos o produto de milênios de seleção natural de ancestrais baladeiros e festeiras.

Por exemplo: os hindus têm um tal de Festival das Cores, para celebrar a germinação das sementes e a nova colheita que virá com a primavera. Tudo muito bonito, sincronizado com as fases da Lua, os primeiros dois dias todo mundo comportado, rezas, ladainhas, adorações, coisetal. E então, no terceiro dia… “loucura, loucura, loucura!”, como diria o Sr. Luciano “o Incrível” Huck. O festival vira festival mesmo e o bicho pega.

Um pouco pra cima da Índia, os chineses não fazem por menos. A partir da metade de setembro e até por volta da primeira semana de outubro, eles comemoram o Festival do Bolo Lunar, uma tradição com mais de 3.000 anos que celebra a derrota dos invasores mongóis. E segue-se um troca-troca sem fim de pequenos bolinhos adocicados em formato de Lua cheia. Quer dizer, eles dizem que tem formado de Lua cheia. Pra mim, é formato de bolo mesmo.

Os chineses são mestres em celebrações. Quem manda? Com 1,3 bilhões de pessoas, eles têm o próprio planeta deles por lá. Tanto é que o Ano Novo Chinês é comemorado entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro. Ouvi falar que a tradição é soltar fogos de artifício, limpar a casa, sujar a rua com pequenos pedaços de papel vermelho e fazer muita comida, especialmente os Yau Gowk, bolinhos que simbolizam prosperidade.

Bolinhos chineses novamente. Fico imaginando o que esse povo tem com bolinhos. Deve ser algum fetiche. Sei lá.

Os muçulmanos comemoram o ano novo no meio do nosso ano. O ano novo judaico, chamado Rosh Hasanah ou a “festa das trombetas” (imagine a alegria dos vizinhos...), acontece um pouco mais tarde, em setembro. Os coreanos, mais animados, comemoram 2 anos novos: um baseado no calendário ocidental e o Seol Lal, baseado no calendário lunar chinês.

A primeira notícia que se tem de comemoração do Ano Novo no dia 1º de janeiro vem dos idos do imperador Julio Cesar, em 46 a.C, mas a data seria adotada pela cristandade apenas em 1582, com a oficialização do calendário gregoriano – que nos rege até hoje.

A celebração do Ano Novo marca um evento bastante simples e pouco altruísta: como nas demais festividades de todos os povos em todos os tempos, estamos celebrando nada mais, nada menos, que nossa própria sobrevivência.

Sobrevivemos a mais um giro, você completou mais uma volta. Ainda estamos aqui. Bata no peito, grite bem alto, levante sua taça – afinal, o ano se foi e você ficou! Agora, graças ao renascimento do calendário grudado na porta da geladeira, você poderá fazer novamente todas suas velhas promessas.

Celebrar a sobrevivência, apesar de previsível, não deixa de ser louvável. Nossos ancestrais miúdos, as amebas, vivem apenas dois dias. Uma miséria. Um glóbulo vermelho do seu sangue vive no máximo 120 dias: uma hemácia nascida no verão, provavelmente irá desaparecer antes do cair da primeira folha de outono. Pouquíssimas terão a oportunidade de conhecer o barulho de uma rolha de espumante.

Mesmo quando comparados a outros mamíferos, somos uma espécie longeva: um coelho vive apenas 10 anos. Gatos e cachorros, no máximo uns 18 anos. Gorilas e chimpanzés, cerca de duas reles décadas. Nós? Vivemos uma média de 75-80 anos. Faz sentido comemorarmos coletivamente cada um deles.

Mas eu iria além. Se estas festas de todos os dezembros marcam nossa sobrevivência ao longo do velório do ano velho e o trabalho de parto do próximo, porque não celebrar mais frequentemente a sobrevivência? Celebrar a imensa felicidade de acordar e desfrutar mais uma vez o mundo e as pessoas. Quer dizer, nem todas as pessoas, apenas algumas pessoas. Bem poucas, pra falar a verdade. Mas elas estão por aí e merecem um alô.

Será que temos essa inteligência suficiente para comemorar o cotidiano? Festejar a beleza elegante da evolução, a serenidade da sabedoria e o milagre absurdo que se esconde no simples fato de estarmos aqui, prestes a declarar o imposto de renda outra vez?

Considerando que o ano novo é a simples realização de que estamos vivos, porque não exaltar cada novo dia? Sim! Cada raiar do sol esconde um novo ano particular, uma oportunidade única para você refazer os cacos e juntar o todo. Que feliz ano novo que nada! Apesar da paganice, da receita federal e dos argentinos, desejo mesmo a você e toda sua família um Feliz Dia Depois do Outro! E outro. E outro. E outro. E sempre. Saúde!

12 fevereiro 2010

CORAÇÃO DE MULHER

Dr. Alessandro Loiola


- O negócio é o seguinte: mulher é um bicho complicado. Um bicho muito complicado!... - estava começando meu almoço e o amigo/conhecido, recentemente moído por uma experiência sentimental mal-sucedida, sentou-se descascando sua laranja:
- ... Pra você ter uma idéia, concluí que mulher não gosta de homem. Mulher gosta de dinheiro, sapatos de salto alto, cartão de crédito sem limite... nem de falar de homem, mulher gosta. Elas gostam mesmo é de falar de outras mulheres.
- Hum... ?
- É isso aí. Vá até uma banca, procure revistas para homens. O que você espera ver? Fotos de mulheres. Mulheres com roupa, mulheres sem roupa, mulheres com carros, mulheres na praia, mulheres em todo canto... e uma ou outra foto de um sujeito com cara de Zé fazendo alguma coisa pouco interessante. Agora, procure por revistas voltadas para mulheres. O que você verá?
- Nem imagino... – respondi lacônico, enquanto tentava decifrar porque o arroz tinha gosto idêntico ao da batata cozida. Esse sabor unânime da comida de hospital sempre foi um mistério para mim.
- Pois eu lhe digo: você verá a mesmíssima coisa ! Algumas vezes a revista traz “dez técnicas para acabar com a celulite”, “20 maneiras para vencer suas rugas”, ou “30 dicas quentes para estar na moda neste inverno”, mas no bojo, é tudo igual. Só tem mulher em revista de mulher.
- Olha, de repente se você trocar de revistas...
- Não adianta. Nós só pensamos em mulheres. Elas, idem. Mulheres... ô bicho complicado !

Realmente, entender as mulheres é tarefa para poucos profissionais. No meu caso, me considero no máximo um amador genuinamente interessado. Ainda assim, fui pesquisar para ver se o amigo de cotovelo quebrado possuía alguma razão. Terminei deparando com um outro fato interessante: a absoluta escassez de textos sobre problemas cardiovasculares nas publicações que se dizem voltadas para o ex-sexo frágil.

Páginas, entrevistas e testemunhos sobre AIDS, câncer, menopausa e infidelidade sobram para todo lado, mas pouco se fala sobre a saúde do coração feminino. Saúde orgânica, entenda-se. Apenas nos EUA, mais de 260.000 mulheres morrem anualmente vítimas de ataques cardíacos, um número 5 vezes maior que as mortes causadas pelo câncer de mama.

As mulheres possuem um risco de complicações mais de duas vezes maior que os homens quando se trata de doenças do coração. O motivo? Os sintomas raramente são típicos, provocando atrasos graves na detecção e tratamento do problema.

Dormências no pescoço, dores no meio das costas ou na região do queixo, fôlego
curto, vertigens, náuseas e vômitos podem sinalizar distúrbios cardíacos nas mulheres. Entretanto, como estas manifestações não costumam ser associadas imediatamente a problemas no coração, o diagnóstico correto demora a ser feito, aumentando a incidência de fatalidades.

Para cuidar melhor do seu coração, toda mulher deveria ter na ponta da língua 3 recomendações simples:

1. CONHEÇA SEUS RISCOS. O uso simultâneo de cigarro e pílulas anticoncepcionais aumenta consideravelmente o risco de ataques cardíacos e derrame. A terapia de reposição hormonal, indicada em alguns casos de menopausa, também pode aumentar suas chances de infarto. Converse com seu médico.

2. ATENÇÃO PARA SINTOMAS POUCO SUSPEITOS. Ao invés da clássica dor tipo aperto no lado esquerdo do peito, mulheres que sofrem de doenças do coração tendem a se queixar de dores nos braços, pescoço, costas ou boca do estômago, associadas a palpitações, suores e vertigens. É lógico que estes sintomas podem ocorrer em inúmeras outras situações, mas não deixe de pensar que eles também podem significar problemas no coração. Aja rápido.

3. FAÇA SEU DEVER DE CASA. pratique regularmente uma atividade física para manter a pressão arterial em 120/70. Trinta minutos de caminhada rápida pelo menos 3-4 vezes por semana, se possível temperados com exercícios de alongamento, meditação e controle da respiração, são uma boa ajuda neste sentido.

Siga uma dieta saudável capaz de elevar o colesterol bom (HDL) acima de 50 mg/dL e segurar os níveis de triglicerídios abaixo de 150 mg/dL.

E, finalmente, se quiser voltar ao seu peso ideal perdendo de uma só vez 80 Kg de gordura inútil, despache seu marido ou namorado para tirar uma foto de um iaque no Tibet. Porque, olha: homem é um bicho complicado. Um bicho muito complicado.

16 dezembro 2009

ENGORDANDO SEM COMER

© Dr. Alessandro Loiola


Das dezenas de e-mails com dúvidas que recebo diariamente, alguns assuntos se sobressaem. Problemas de relacionamento e “será que estou grávida?” são campeões de bilheteria. Perguntas sobre estética também chegam em montes cada vez maiores.

Por ser um ardoroso defensor do raciocínio, não consigo me dar ao luxo de ser conivente com essa Ditadura da Beleza que estipulou quanto você deve medir e pesar, número máximo da sua calça, o volume mínimo do seu silicone, a periodicidade do botox, etc.

Qual o objetivo de toda essa esquizofrenia? Partir deste mundo com toda saúde e elegância?
- Nossa, ele estava um defunto lindo de morrer! – dirão no seu enterro.
No meu velório, o único comentário que espero ouvir será
- Ih, olha lá, acho que ele está se mexendo! - e só.

Para preservar sua saúde e garantir alguma qualidade de vida na vida que lhe resta, alguns limites devem ser respeitados, mas sem psicoses. Acredite: os corpinhos da São Paulo Fashion Week não irão durar até o retorno do cometa Halley, por melhor que seja o corte do terno ou o tecido do vestido. Contudo, nesse dia, alguns daqueles cérebros sofisticados (?) talvez ainda estejam por aqui. Fazendo o quê, são outros 500.

Na categoria de e-mails sobre estética, existe uma fila de cartas relatando o fatídico “estou engordando sem comer”. Algumas dessas pessoas realmente parecem estar ganhando alguns quilos sem motivo aparente. Se elas estão sendo sinceras, então o que pode estar acontecendo? É possível ganhar peso sem comer muito? Não é muito comum, mas pode acontecer. Por exemplo:

1. VOCÊ ESTÁ ENGORDANDO PORQUE NÃO ESTÁ DORMINDO DIREITO.

O sono inadequado aumenta o estresse sobre o corpo. Como resultado, no nível das enzimas e moléculas, o organismo aumentará suas reservas de gordura como alguém que guarda um dinheiro para uma eventual emergência.

Além das alterações bioquímicas, pessoas com um sono irregular tendem a comer porcarias como uma forma de compensar o desgaste adicional. Os principais sintomas que sono insuficiente incluem sensação de desânimo ao longo do dia, dores de cabeça persistentes, irritabilidade e pavio curto por conta de nada.

2. VOCÊ ESTÁ ENGORDANDO POR CAUSA DO ESTRESSE.

Se o sono está de bom tamanho, o mesmo mecanismo de ganho de peso pode estar sendo desencadeado pelos altos níveis de estresse a que você se submete no dia a dia. O estresse altera os hormônios que regulam o modo como seu corpo lida com as calorias ingeridas e os depósitos de gordura, facilitando o desenvolvimento da obesidade.

3. QUEM SABE, OS REMÉDIOS.

Algumas medicações utilizadas para tratar depressão, distúrbios do humor, epilepsia, enxaqueca, pressão alta e diabetes podem resultar em ganho de peso. Se esta é a sua suspeita, converse com seu médico sobre alternativas viáveis antes de ter alguma idéia pouco inteligente como, por exemplo, parar com os remédios por conta própria.

4. A CULPA PODE ESTAR NO HIPOTIREOIDISMO.

Esta doença caracteriza-se pela diminuição ou interrupção completa da produção de hormônios na glândula tireóide. Felizmente, o diagnóstico e o tratamento do hipotireoidismo são relativamente fáceis, e todo o excesso de peso ganho com a doença tende a ir gradativamente embora com a reposição hormonal.

5. A BENDITA DA MENOPAUSA.

As alterações hormonais que ocorrem durante a menopausa mudam o formato do corpo da mulher: os quadris diminuem e o tecido gorduroso tende a se depositar na região do tronco e do abdome, conferindo aquele gracioso formato em barril também observável em muitos homens após a meia-idade.

A saída: mantenha a estabilidade do seu peso com uma dieta saudável e pratique regularmente atividades físicas.

6. OU ENTÃO É FALTA DE VERGONHA MESMO.

A maioria das pessoas que engordam diz que não come demais. Concordo. Não é preciso comer demais para engordar. Tudo que você precisa fazer é comer errado, e isso é bem fácil.

Portanto, antes de sair culpando emprego, colchão ou ovários, faça um diário detalhado de tudo que você anda comendo. Tomou café? Anote no diário. Colocou tantas colheres de arroz e outras tantas de feijão no prato? Anote. Beliscou um biscoito? Anote. Estava andando na rua e engoliu um inseto? Anote também.

Tenha disciplina e sinceridade ao fazer suas anotações. Com exceção da saliva, tudo mais que passar pelo esôfago deve constar neste caderno. Ao final do dia, não se surpreenda com o imenso valor calórico depositado no seu estômago. Sorria, receba as boas-vindas ao clube e trate de fazer as modificações necessárias em sua dieta.

20 novembro 2009

EM BUSCA DA ESTABILIDADE

© Alessandro Loiola




Vem se tornando mais comum a cada dia no consultório: pessoas infelizes e angustiadas porque não conseguem atingir a estabilidade. Querem casar, querem descasar. Querem um emprego, não querem mais o emprego. Querem tudo, não querem coisa alguma. Enveredam em uma cruzada de matéria e anti-matéria e terminam se perdendo em um mundo de ansiedade cega e, porque não dizer, completamente burra.

Desabam em um penhasco de desânimo porque queriam finalmente chegar em um porto de estabilidade, um mar sereno de coisas tranquilas, mas este destino é como o fim do arco-íris: quanto mais você persegue, mais ele se distancia.

- Por que nada parece dar certo, doutor? – e chora.

Fico pensando. Ofereço um lenço ou um daqueles chapéus bicudos dos filmes americanos escrito “donkey”?

Tsc tsc. Nada dá certo? Um brinde a todas as outras oportunidades que podem dar certo! A estabilidade nunca chega? Um brinde enorme ao fato de que tudo muda! Até porque, se você é daqueles que acha que só será feliz quando atingir a estabilidade, deixe-me lhe dizer algumas coisas:

A cada 3 meses, 10% do seu esqueleto se renova. Isso significa que, daqui a uns 3 anos, esses ossos que você tem aí não estarão mais aí. Serão outros ossos. Esses que sustentam seu corpo enquanto você lê este texto, bom, esses ossos serão um esqueleto do passado, urinado pelo seus rins e excretado em outros sais minerais nas suas fezes. Uma instabilidade contínua que se transforma em estabilidade cálcica e voilá!, você está andando. Andando e carregando uma pele que se renova a cada 30 dias, nutrida pelo sangue instável, que é trocado a cada 120 dias, mais ou menos.

Estabilidade?

Você está em um planeta que gira sobre seu próprio eixo mais rápido que a velocidade do som (1.669 km/h versus 1.200 km/h), enquanto brinca de pique correndo em torno do sol a inacreditáveis 100.000 km/h!

A matéria que constitui os planetas e estrelas responde por menos de 5% de toda a matéria no universo. Esta mesma matéria foi configurada para formar você, um aglomerado de moléculas baseadas em carbono que irá durar (estatisticamente) menos de 1 século.

Dentro deste século, você experimentará a tristeza, a fome, o ódio, a inveja e a arrogância, mas também tocará e será tocado pela alegria, pela satisfação, pelo amor, pelo conhecimento e pela generosidade. O animal que nós somos, não durará muito. Dentro de 150 anos, quem ainda recordava de nossa passagem por aqui também terá desaparecido, e a imensa maioria voltará para o limbo de esquecimento onde sempre esteve. Onde está a estabilidade?

Você não gosta de seu emprego desgastante mas prefere continuar nele porque lhe dá estabilidade? Ótimo. Assim você vai poder contar com uma renda fixa quando precisar cuidar daqueles problemas de saúde causados pelo desgaste no serviço estável. O mesmo vale para alguns casamentos.

Afinal de contas, quem disse que você tem que ser apenas uma única coisa a vida inteira? Se um dia não puder exercer sua profissão ou tiver que colocar uma pedra sobre aquele relacionamento, encare como um conselho de que seu papel neste filme acabou e é hora de viver um novo papel em uma nova película, quiçá mais divertida, engrandecedora e construtiva.

Acima de tudo, jamais venda sua consciência e motivação em troca de estabilidade. Não permita que a busca pela felicidade ideal deixe seus olhos cegos para toda a beleza que existe à sua volta.

Viva apenas com o mínimo (saudável) de medo, aproveite cada fração de cada segundo respeitando alguns princípios da Lei, encante-se!, e seja tudo que você puder ser considerando as limitações de sua carne - não adianta querer virar profissional da NBA tendo 1.60m de altura, mas existem bilhões e bilhões de coisas que você pode fazer neste mundo. Faça-as ontem! Faça-as todas.

08 novembro 2009

A PARÁBOLA DO SISTEMA ÚNICO DE STUPIDEZ

Olá,

Houve uma época, há coisa de uns 10 anos, em que eu dedicava domingos inteiros (e muitas vezes outros dias da semana, até de madrugada) para operar completamente de graça pacientes do SUS. De graça mesmo, não recebia produtividade, “por fora”, nadica de nada. Acredite se quiser.

Por amizade de meu pai, pediatra, possuía um acordo de cavalheiros com Dr. Zaganelli, Diretor de um hospital público de Vitória (ES), que muito humanamente permitia que eu levasse para o hospital de sua instituição pacientes atendidos por mim no Centro de Especialidades. Me condoia atender aqueles pacientes com indicação cirúrgica e simplesmente retorná-los com o diagnóstico, porém sem uma saída. Muitos eram do interior do estado, pobres, quase miseráveis, e apenas com muito custo entendiam o que eu lhes explicava acerca da moléstia que os afligia.

A equipe de apoio era espetacular e permanentemente prestativa - que o diga o Cléber, então técnico de enfermagem, sempre um grande filósofo e hoje catedrático de respeito, que inúmeras vezes me honrou com seu auxilio no campo cirúrgico. Assim como eles, muitos, muitos outros.

Bons tempos. Mas hoje, me sinto vencido pelo SUS. Logo eu, fico pensado, que imaginava ter dois tumores no cérebro: um secretor de idéias, outro produtor de otimismo... Prefiro acreditar que os dois ainda estão lá, funcionantes. Apenas não querem mais perder seu tempo com algo tão imenso.

Imenso na burocracia, na estupidez. Inacabável na burrice. O SUS faz muito com tão poucos recursos. Mas poderia fazer mais. E poderia ser o que gostaríamos que fosse, se apenas o tratássemos (nós médicos, os governantes, gestores, cidadãos) com o valor e a inteligência apropriada.

Mas, ao invés disso, queremos financiar o SUS com migalhas e receber em troca manjares e pudins de leite condensado. Manuseamos o sistema com hipocrisia, como colher humanidade e desenvolvimento?

E se canto minha parábola, os que não me conhecem me acusam. Não os culpo. Eu deveria voltar com meus tumores àquela época, coisa de uns 10, 15 anos atrás, onde trabalhava tanto com os braços que os olhos não tinham tempo para enxergar à sua volta.

Envelhecer torna a gente mais consciente ou só mais rabugento? Qualquer que seja o caso, espero que seja uma boa leitura.

Um abraço,

Alessandro.


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A PARÁBOLA DO SISTEMA ÚNICO DE STUPIDEZ

© Dr. Alessandro Loiola


Era uma vez uma moça muito inteligente chamada Verdade. Toda vez que a Verdade chegava perto das pessoas, elas fugiam. Algumas até diziam preferi-la sempre à sua prima biscateira, a Mentira, comentavam como a Verdade era magnífica e necessária, mas ficar por perto? Não, não.

Então, certa noite, a Verdade sentou-se sozinha e desanimada na beira da calçada. E antes que algum passante mais atrevido sugerisse um programa (quem não gosta de apertar, torcer e fornicar com a Verdade?), uma senhora corcundamente idosa aproximou-se.
- Por que você está tão triste? – perguntou Dona Sabedoria.
- Ninguém gosta de mim. – chorou a Verdade.
A velha mediu a Verdade dos pés à cabeça, fez uma pausa e cravou:
- Mas também, olhe para você, veja só o seu estado...! Lastimável!

A bem da verdade, a Verdade não estava lá essas coisas. Talvez por acreditar que apenas sua luz interior fosse suficiente, ela nunca havia se preocupado muito com a parte de fora. O vestido sujo maltrapilho, o penteado dreadlock e aquele perfume estilo Moscas Ardentes do Boticário não eram realmente sedutores.

- Vamos fazer uma coisa: vou lhe apresentar uma amiga – aconselhou Dona Sabedoria. - Tenho certeza de que ela poderá lhe dar umas dicas.

E Dona Sabedoria e a Verdade foram até uma casa de massagem gerenciada por uma cafetina chamada Riqueza. A Riqueza era, por assim dizer, o bicho: por mais que ela se escondesse e esquivasse, os homens sempre estavam atrás dela – e algumas vezes por cima e por baixo também. A Riqueza sem dúvida alguma sabia das coisas.

- Eu não entendo... – questionou a Verdade, olhando com desdém para a Riqueza.- Você é fútil, volátil, passa de mão em mão sem criar laços, não cultiva respeito ou sentimentos. Afinal, o que os homens vêem em você?
- O que eles vêem em mim, querida? – disse a Riqueza, colocando o indicador com 3 cm de unha postiça vermelha no canto da boca. - O que eles não vêem em você, eu lhe digo. Mal acabada desse jeito, nem o inquilino do viaduto vai lhe dar uma cantada. Mas eu já sei o que fazer: vou lhe emprestar um vestido meu que é fatal. Tiro e queda, meu amor. Ele se chama Parábola.

E desde então, a Verdade tem conseguido se aproximar dos homens travestida de Parábola. A parábola não assusta, é engraçadinha e permite que a Verdade dê sua opinião. Entretanto, é só marcar aquela esticada no motel e tudo recomeça: ainda não existe um remédio para evitar o terror na frente da verdade nua e crua. A resposta para isso, nem mesmo a Sabedoria ou a Riqueza parecem ter.

E é com esse espírito altruísta em busca da Verdade que abrimos o champanhe para comemorar os 20 anos do SUS – ou Sistema Único de Stupidez, como costumo chamar, pedindo perdão pela transgressão da língua no último verbete, mas imprescindível para sustentar a sigla. O SUS é fruto daqueles surtos psicóticos que nossos governantes tem quando acham que vivem em um planeta com recursos ilimitados.

No papel, o SUS é belíssimo. Na prática, é de uma patetice sem tamanho. Em teoria, o SUS é um plano de saúde com cobertura em 100% do território nacional, oferecendo resgate e assistência clínico-cirúrgica em todas as especialidades 24h por dia, 7 dias na semana, além de pré-natal, puerilcultura, vacinas, tratamento oncológico e assistência odontológica sem glosas por pré-existência. Um plano assim, particular, se fosse Unimed ou Saúde Bradesco por exemplo, sairia em média a uns R$200 por cabeça, por mês. No mínimo.

Vamos fazer a contabilidade. Duzentos reais por cabeça por mês. Somos 200 milhões de brasileiros. Se o governo fosse de fato oferecer o que reza a Constituição (um plano de saúde top de linha com acesso universal), seria necessário um investimento de cerca de R$40 bilhões/mês (R$200 x 200 milhões de pessoas), ou R$480 bilhões/ano. E de quanto é o orçamento anual do SUS? R$35 bilhões/ano. Isso lá em casa dava até pra fazer uma festa, mas no universo do SUS... tsc tsc...

Se formos temperar a conversa com os desvios, os superfaturamentos, as prefeituras que instalam manilhas, compram lanche de escola e inauguram praças com verba da saúde, então é melhor nem pensar em colocar na ponta do lápis.

E se o governo fala em aumentar impostos para financiar o embuste, ops, perdão, financiar o SUS, a gritaria é geral. Melhor fazer reuniões e encontros e workshops e conferências intermináveis para saber como humanizar o inabitável, como pagar com um sorriso nos lábios e uma explicação estapafúrdia a conta que nunca fecha.

Para fazer o SUS engrenar, não precisamos de mais parábolas. Muito menos desse cordel de faz de contas. Para fazer o SUS engrenar, é preciso algo acima. É preciso muuiiito dinheiro e uma nação de homens (e mulheres) de Verdade, de preferência guiados pelas mãos da Sabedoria. Aí sim, teremos saúde. E qualidade de vida. E um país de Verdade, ao invés de futebol com carnaval para inglês ver.

Apesar dessa ser uma idéia boa e linda, acho que não vai rolar. Todo brasileiro sempre adia o encontro com a velha corcunda para passar antes no bordel da Riqueza, “pra dar aquela saideira, sacumé?”. Sei. Quem sabe depois, né? Quem sabe depois.

Eu vou estar esperando sentado na beira da calçada.

30 agosto 2009

A DOENÇA DO ESPORTE

© Dr. Alessandro Loiola


Se cada povo recebe o governo que merece, cada sociedade (e época) também tem as esquisitices que merece.

Por exemplo: nas cortes européias da Idade Média, camponeses, brutos, miseráveis e escravos trabalhavam ao ar livre. A aristocracia preferia a mordomia reclusa de seus palácios e roupas de muitas rendas. Por isso, naqueles tempos, os nobres possuíam a pele tão branca que era possível ver o desenho azulado das veias sob a cútis. Ter a pele alva e o “sangue azul” era sinal de riqueza. Hoje, brancura excessiva chega a significar doença, e mostrar um certo bronzeado dá status: se você tem tempo para passar à toa sob o Sol, então leva uma vida mansa e, provavelmente, tem mais dinheiro que a maioria...

No Século XVI, na Itália, as mulheres pintavam não apenas os lábios, mas também os dentes. No Século XIX, a última moda eram cílios postiços feitos de pele de rato e espartilhos tão apertados que chegavam a fraturar costelas. Na mesma época, na França, os homens casados usavam mais perucas e cosméticos que suas esposas.

Passa o tempo, algumas bizarrices se vão, mas outras logo assumem o posto. Como disse: se cada época caracteriza-se por certos critérios de excentricidade, por que haveríamos de fazer diferente com a nossa?

O Século XX testemunhou o avanço tecnológico virar prosperidade na mesa. Apesar da fome continuar assolando os países que sempre passaram fome, de um modo geral, onde havia comida, esta passou a estar disponível em um volume maior do que jamais seríamos capazes de ingerir. O resultado? Uma epidemia de obesidade e mortes por doenças cardiovasculares que assolou os 1900.

A resposta dos cientistas não tardaria, e eles logo encontraram uma saída: a prática de esportes. Exercícios físicos regulares melhoram o condicionamento cardiopulmonar e facilitam o controle dos quilos em excesso. Como não seria de surpreender, este conceito foi extrapolado exageradamente para as massas e presenciamos uma explosão de vida nas academias de ginástica e pistas de Cooper como não se via desde o período Cambriano. Todo mundo quer entrar em forma. Se não por vaidade, então por medo.

Mas até que ponto esporte é saúde? Temos tenistas jovens com quadris de senhoras osteoporóticas, jogadores de futebol com infartos fulminantes no início da carreira, triatletas que morrem afogados após colapsos, e um número infinito de lesões musculares, articulares e ligamentares em esportistas amadores e atletas de final de semana. Toda uma manada de gente catequizada sob o lema de que esporte é saúde.

Ver televisão não distende meu ombro. Caminhar pelo parque com minhas crianças não provoca desgaste coxo-femoral. Não tenho bursite por ler um livro ou desloco a coluna ao dormir até um pouco depois do horário.

A atividade física regular, moderada, entendida como uma caminhada de 40 minutos, 4 vezes na semana, é todo esporte que seu corpo precisa como remédio. Não gosta de caminhar? Então saia para dançar, pedalar ou nadar. E adicione um pouco de musculação e alongamento a partir dos 50 anos de idade: isso ajuda a manter ossos e articulações fortes e saudáveis. Para além destes limites, converse com seu médico ou preparador físico e vá pela diversão, pelo entretenimento não-competitivo.

É Um equívoco propagar o esporte como uma ferramenta para saúde. Sua saúde depende de muito mais compromisso que jogar bola duas vezes por semana ou ir na academia de 8 às 9. Aprender a lidar com o estresse, ter um bom padrão de sono e seguir uma alimentação saudável são tão ou mais importantes que uma corrida ensandecida de 10 Km sobre a esteira.

Procurar a atividade física como um modo de manter o corpo dentro da beleza-padrão estampada nas revistas é outro erro comum e, porque não dizer, cômico. As modelos de capa parecem saídas de campos de concentração nazistas de tão caquéticas e não devem pesar mais que a própria revista. A beleza é sentir-se bem aos 30, 40, 50, 60 anos ou mais, e não buscar de modo esquizofrênico a aparência de uma anoréxica de 20 anos de idade quando você já passou da metade da ladeira.

Lembre-se que as grandes descobertas vieram de pessoas com tempo ocioso - vide Aristóteles, Newton e tantos outros citados pelo oceanógrafo Kendall Haven em “As 100 maiores descobertas científicas de todos os tempos” (320 páginas, Ediouro, 1ª Edição). Use seu tempo e energia de modo inteligente e produtivo. Ter um glúteo mais firme não fará seu futuro mais brilhante.

E se quer uma última dica, que tal investir suas energias procurando por uma preciosidade: o extraordinário livro do médico mineiro José Róiz, “Esporte Mata!” (178 páginas, Editora Casa Amarela, 1ª Edição).

Não, não estou ganhando comissão pela venda de livros. Mas uma boa leitura já vale por uma longa caminhada.

26 julho 2009

SUS DOMESTICUS, O TERMINADOR

No começo de maio deste ano, escrevi um texto para o Yahoo!Notícias / BrPress falando sobre a gripe suína. Estávamos ainda no começo dessa histeria burra que vez ou outra ameaça turvar as mentes mais sãs com notícias do Apocalipse.

Depois de muitas idas e vindas, o Ministério da Saúde finalmente fez um movimento em direção a uma condução mais racional do problema. Apenas um movimento tênue, tímido, quase introspectivo, cheio de medo de ser massacrado pela imprensa que vê no novo vírus a velha ameaça de sempre.

Desde Abraão e provavelmente muito antes, gerações e gerações de Homo sapiens vêm pregando o final dos tempos. A cada geração, ameaçamo-nos e aos nossos filhos com um final diferente para o mundo, que teoricamente terminaria antes do fim de nossas vidas. Como você pode comprovar, o mundo ainda não acabou. Mas as ameaças e promessas desvairadas continuam chegando.

Contando a partir dos primeiros alertas, lá se vão uns 90 dias da Pandemia de Gripe Suína. Nesse intervalo, 29 brasileiros morreram vítimas da doença. Neste exato mesmo período, cerca de 8.600 conterrâneos morreram vítimas de acidentes automobilísticos, outros 8.200 foram assassinados por armas de fogo, 2.400 mulheres perderam a vida para o câncer na mama e 1.200 homens foram vitimados pelo câncer na próstata.

Onde está a epidemia mesmo?

Talvez, na (falta de) cabeça dos outros.

Um abraço e boa leitura,

Alessandro.

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SUS DOMESTICUS, O TERMINADOR

© Dr. Alessandro Loiola


Acho que uma das profissões com menor índice de depressão atualmente é a de jornalista. Para quem ganha o pão vendendo manchetes, os dias de hoje são um oásis. Porque, em se falando de notícias, nada tem mais apelo que o apocalipse – e para alegria dos vendedores de planos funerários em suaves parcelas, o mundo vem acabando de modos diferentes a cada semana.

A guerra nuclear iria dizimar a humanidade. A crise do petróleo iria dizimar a humanidade. O HIV, o retorno da tuberculose, o Bill Gates, a gripe da galinha que mora na Tailândia... todos iriam dizimar a humanidade. E nada da humanidade ser varrida.

Então vieram filmes com terremotos, tempestades de cometas aniquiladores, propagandas imperialistas de alterações climáticas catastróficas, e ainda nada. Quem sabe, se o John Doe não pagar a hipoteca de sua casa suburbana no Kentucky, será que dessa vez isso poderia desencadear uma crise econômica capaz de dizimar a humanidade? Hum... difícil saber. Este experimento ainda está em fase de desenvolvimento. Mas, para dar um toque de classe, que tal uma outra promessa de extermínio saída novinha do forno? E chegamos à Gripe do Porco.

Gripe do Porco. Se fosse no Canadá, seria batizada de algo como Wild Kodiak Flu. Nos EUA, Gripe Furious Hawk. Mas o diacho do vírus teve o azar de ressurgir no México. Com a mídia ocidental aos seus pés, os ianques não perderam tempo e lascaram um apelido suíno na moléstia identificada ao sul do Rio Grande. Gripe do Porco. Será que tomando banho dá pra evitar? Na dúvida, melhor colocar na lista do supermercado algumas caixas extras de cotonete e fio dental.

O vírus influenza suíno – concorde comigo: “gripe do porco” é bem mais legal... – causa uma infecção respiratória aguda em nossos amigos da pocilga. Todavia, apesar de bastante contagioso e desconfortável, possui um baixo índice de mortalidade geral (1-4%).

Acredita-se que os responsáveis pela introdução deste vírus entre os descendentes do javali selvagem fomos nós mesmos, os humanos de sempre. O seguinte: os porcos podem se infectar com mais de 1 tipo de influenza de uma só vez, permitindo que estes vírus se misturem à vontade. O resultado é um vírus influenza com genes de várias fontes diferentes. Por isso, apesar do influenza suíno ser normalmente específico para porcos, a combinação bacanalística de genes permitiu que ele cruzasse a barreira das espécies e atingisse também o homem. Ah... nada como o sexo selvagem entre as partículas.

A gripe do porco não é nova. O vírus é considerado endêmico nos EUA. Os sintomas são bastante semelhantes aos da gripe comum, porém, naqueles de menor sorte, a doença pode se manifestar como pneumonia grave ou mesmo morte.

Teoricamente, a gripe do porco é transmitida a partir do porco infectado, mas alguns estudos sugerem que o vírus pode ser passado de um humano para outro, especialmente através do contato íntimo ou em aglomerados de pessoas em ambientes fechados.

Para os vegetarianos, lamento informar que comer a carne do porco não transmite o vírus – desde que a carne tenha sido preparada a pelo menos 70 graus Celsius. Por isso, provavelmente nós carnívoros continuaremos com esse hábito fastidioso.

Os cientistas acreditam que as pessoas que tem contato regular com suínos podem possuir uma resistência natural contra o vírus, dificultando o desenvolvimento da infecção. E você que chegou até a pensar que aquele seu cunhado gordo e de péssimos hábitos higiênicos não tinha qualquer utilidade, hein? Pois é. A vida dá voltas e voltas. Olha ele aí, garantido sua sobrevivência.

Para os alarmistas de plantão, preocupados com o risco de uma nova Peste Negra, deixo outro alerta: nada causa mais mortes que engolir pequenas quantidades de saliva por um longo período de tempo. Todo mundo que pratica este esporte está com os dias contados. A imensa maioria não irá durar mais de 11 décadas fazendo isso, acredite.

Nós não seremos dizimanos pela gripe do porco. Nossa espécie tão soberbamente inteligente continuará por aqui, fazendo todo tipo de asneiras e se entretendo com as pregações do fim do mundo. Eu, pessoalmente, prefiro não me arriscar tanto. Não sei profetizar qual exterminador do futuro irá dizimar a humanidade, mas posso lhe dar a previsão do tempo para esta noite: escuro. Muito escuro.

Hasta la vista, baby.


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Dr. Alessandro Loiola é médico, palestrante e escritor, autor de PARA ALÉM DA JUVENTUDE – GUIA PARA UMA MATURIDADE SAUDÁVEL (Ed. Leitura, 496 pág.) e VIDA E SAÚDE DA CRIANÇA (Ed. Natureza, 430 pág.). Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.

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