15 junho 2018

SOBRE O TEÍSMO*

O teísmo consiste em acreditar na existência de uma entidade absoluta, com a ressalva que teísmo não é somente uma crença psicológica de que exista um deus, mas a certeza inabalável de que algum deus existe e sua existência sequer precisa ser justificada dedutivamente, sendo a fé uma legitimação mais que suficiente desta convicção. Mas será que os argumentos que levam à conclusão de que deus existe são mais válidos e razoáveis que suas negativas?

Para Tomás de Aquino, se classificamos as coisas segundo qualidades como bom, verdadeiro e nobre, é porque reconhecemos diferentes níveis de bondade, verdade e nobreza. Se graduamos as coisas dessa maneira estamos, pelo menos implicitamente, assumindo que existe algum padrão absoluto contra o qual elas podem ser comparadas – um padrão que não pode ser meramente hipotético. O padrão máximo de tudo seria deus, que seria a causa e a explicação da existência de todas as qualidades.

O ponto de vista de Aquino se baseia bastante nas crenças de Platão e Aristóteles, e a ideia de deus como um padrão máximo de qualidades positivas também foi defendida por Kant, cujos argumentos se tornaram populares ao longo do século XIX – como veremos adiante. Mas defender deus como a fonte de toda Moralidade é uma tarefa complexa: primeiro, é preciso defender a realidade e a objetividade da Moralidade para além das críticas subjetivistas e niilistas, e então defender que este Absolutismo Moral só pode ser explicado através da existência de deus. Porém, os sistemas Morais baseiam-se em conceitos humanos de bom e mau, e de certo e errado: batizamos de “bom” tudo que pode prolongar nossa sobrevivência, e de “mau” tudo que pode ameaçá-la. Não precisamos de uma deidade para compreender que assassinar, estuprar, torturar, mentir e roubar são péssimos traços de caráter. Os humanos, assim como outros primatas e muitos outros animais, possuem uma capacidade inata para determinar o que é ser gentil e razoável.

Menos moralizador que Aquino, o polêmico matemático e filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662) ofereceu uma justificativa marota para o teísmo. O desenvolvimento da Teoria da Probabilidade foi a contribuição mais influente de Pascal para a matemática: originalmente aplicada para jogos de azar, ela se tornou extremamente importante no entendimento atual da economia. Aplicando uma peculiar dinâmica de raciocínio probabilístico, Pascal descreveu sua aposta apologética no livro Pensamentos, publicado postumamente em 1670:

"Não se pode provar a existência de deus. Mas, se deus existe, aquele que acredita ganha tudo (inclusive o paraíso), e aquele que não acredita perde tudo (exceto pelo inferno). Se deus não existe, aquele que acredita perde nada, e aquele que não acredita não ganha coisa alguma. Portando, acreditar em deus é uma aposta que permite ganhar tudo e perder nada”.

A Aposta de Pascal demonstra bem a pura intimidação (ou negociata) subliminar no pretexto para a crença divina. Não se trata de comprovar ou não a existência de deus, mas de uma jogada para trapacear nossos pavores irracionais produzindo um resultado esperado. Mas não é exatamente verdadeiro dizer que aquele que acredita perde nada. Ele perde, sim: perde ao diminuir sua vida preferindo o mito de uma vida após a morte, sacrificando a honestidade para sustentar uma mentira. Quando aplicado à religião, o teísmo custa tempo, energia e dinheiro, e drena recursos humanos valiosos que poderiam ser utilizados para melhorar o mundo real. Além disso, a conformidade religiosa é a ferramenta predileta dos tiranos e uma ameaça à liberdade em toda parte. Também não é verdadeiro que aquele que não acredita ganha nada: rejeitar o teísmo pode ser uma experiência libertadora, oferecendo prêmios como ampliação de suas perspectivas e liberdade para questionar – e os Livres Pensadores, não os seguidores de doutrinas, sempre estiveram na vanguarda do progresso social e Moral.

Em contraste ao teísmo oportunista de Pascal, temos o teísmo mais simples e direto de Kant. Para Kant, a pressuposição de uma inteligência suprema como a causa de tudo no Universo sempre beneficia a Razão e jamais a prejudica. “Se desejamos obter um conhecimento sistemático do mundo, temos que considerá-lo como uma criação de uma Razão suprema”, constatou Kant em Primeiros Princípios Metafísicos da Ciência Natural (1786), completando: “Eu, enquanto ser racional e agente moral, tenho que acreditar que deus existe”.

Os humanos possuem fraquezas em seu caráter que parecem difíceis – quiçá impossíveis – de serem superadas por seus próprios meios. Ademais, como criaturas, temos necessidades subjetivas que desejamos satisfazer para alcançar a felicidade, mas poucos motivos para acreditar que estas necessidades serão atendidas através de ações Morais, mesmo que tenhamos sucesso em nos tornarmos virtuosos. Se uma pessoa acredita que o mundo natural não passa de uma máquina sem qualquer propósito, então esta pessoa não tem motivos para acreditar que suas ações Morais poderiam lhe conduzir a qualquer forma sucesso e não tem obrigação alguma de perseguir o que é Bom e Correto. Por isso, Kant defende que um agente Moral deve postular a existência de deus como um pressuposto para uma vida Moral: a Moralidade com selo divino exige que você sacrifique sua própria felicidade pessoal se isso for necessário para fazer o que é certo ante os olhos de deus.

Muitos argumentos teístas se aproximam de possuir a força de evidências, mas, na somatória, estas evidências terminam exigindo uma boa dose de credulidade. Para resolver este dilema, o filósofo analítico americano Alvin Plantinga defendeu que a crença em deus não necessita basear-se em evidências: ela é apenas uma adequação à consciência que deus colocou em nós (o sensus divinitatis do teólogo John Calvin). O argumento de Plantinga pretende remover do teísmo o ônus da prova, mas é uma defesa circular: pensamos porque deus existe e, uma vez que pensamos, isto confirma a existência de deus. Ou, como escreveu Mario Quintana: “A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe”.

Uma linha de raciocínio bastante comum para sustentar a existência de deus e seu papel como fonte de Moralidade consiste em mostrar as similaridades das convicções Morais de diferentes civilizações e tempos. Para os teístas, a única maneira de explicar estas similaridades é o fato delas serem derivadas de uma única autoridade Moral – e o único candidato perpétuo capaz de preencher este papel seria deus. Mas eles parecem relevar que, através da Psicologia Evolucionária, é perfeitamente possível explicar os princípios do Realismo Moral Normativo sem qualquer necessidade de apelar para uma intervenção divina.

No livro The Recalcitrant Imago Dei: Human Persons and the Failure of Naturalism (2009), o filósofo e cristão James Porter Moreland, argumenta que o teísmo tem um poder explanatório incontestável: se o universo começou com o Big Bang, que se seguiu de um arranjo de partículas microscópicas progressivamente mais complexas, então exatamente como os valores Morais surgiram? Segundo: a Moralidade em geral se apresenta de modo imperativo, algo que determina como devemos agir. O sentimento de culpa que nos invade quando violamos este código poderia ser melhor explicado pela existência de um deus que seria a fonte derradeira do que é Bom e correto. Como um ateísta ou um agnóstico explicaria por que devemos agir Moralmente? Finalmente, por que a obediência à Moral parece conduzir os seres humanos ao florescimento, à Eudaimonia de Aristóteles?

De acordo com Moreland, o teísmo tem uma resposta rápida para todas estas três questões: porque a obediência à Moral faz parte das intenções de deus. Ateístas, agnósticos e deístas poderiam responder a estas questões apoiando-se em deduções evolutivas, elencando as consequências de pressões da seleção natural ou citando o peso da Razão. Todavia, a seleção natural das espécies é um fato, mas a seleção natural das Moralidades ainda não. Pelo menos quanto a este último pressuposto, Moreland, por enquanto, está correto.

Quanto ao peso da Razão, ele merece um parêntese. Desde o Iluminismo, tendemos a ver a Razão cada vez mais como a base maior dos valores Morais humanos, e a partir dela determinamos o direito à dignidade que nossa espécie possui. O problema é que estipular a Razão como fiança Moral para a dignidade resulta na exclusão de crianças pequenas e pessoas com lesões cerebrais graves ou outras formas de demência desta lista. Assim como Aquino e Moreland propõem, teístas e panteístas eliminam este dilema Moral dizendo que a vida humana é um dom divino, um bem sagrado criado e pertencente a deus e que jamais pode ser violado. Ateístas, deístas e agnósticos tomam outro caminho e afirmam que os humanos possuem um direito especial à dignidade por serem humanos, um pleonasmo que eliminaria a necessidade de explicações adicionais. Em outras palavras: todos apelam para uma Moral especiesista, resultando na expulsão de todos os demais seres vivos de nosso exclusivíssimo Clube da Dignidade e da Igualdade Humana. E isto não é um emprego honesto da Razão e da Lógica.

O teísmo necessariamente exige a crença em dimensões para além da realidade; uma fé no sobrenatural e em incontáveis histórias que não se sustentam por si; a ratificação de depoimentos como verdadeiros a despeito das comprovações serem insuficientes ou contraditórias. O mistério da fé consiste em aceitar absolutamente dogmas que a Razão e a Lógica classificariam como um completo absurdo, pois a verdadeira fé tem de se opor à Razão – é o credo quia absurdum (creio porque é absurdo). Com efeito, isto automaticamente remove o debate destes dogmas do reino da Razão e da Lógica, pois suas crenças são a periferia onde você termina e o mundo real começa, e o Reino da Razão e da Lógica é delimitado pelos fatos do mundo real e não pelas apreensões e aspirações humanas. Se você se dispõe a ignorar os fatos, então tudo que lhe restam são hipóteses sem fundamento e pensamentos ilusórios.

Por exemplo: apesar dos cenários mencionados na bíblia serem históricos, boa parte do enredo não é, e incontáveis eventos relatados conflitam abertamente com princípios científicos bem estabelecidos. As histórias na bíblia são basicamente isso: histórias, não revelações. Em A Era da Razão (1945), Thomas Paine explica de maneira bem didática como as escrituras não podem ser revelações divinas: uma revelação divina – se tal coisa existe... – é uma mensagem de deus comunicada diretamente a uma pessoa. Assim que esta pessoa a relata, ela se torna um “ouvi dizer”. Ninguém é obrigado a acreditar em algo assim, especialmente quando o “ouvi dizer” é recheado de eventos fantásticos que desafiam qualquer nexo. O mais provável é que os relatos bíblicos sejam decorrentes de erros, mentiras ou interpretações zelosamente teológicas de eventos perfeitamente naturais. Como bem assinalou Carl Sagan, “alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias”, e escrituras sagradas nunca fornecem provas extraordinárias: apenas entoam encantamentos, profecias, símbolos e fábulas e reivindicam que acreditemos devotamente em todos eles.

Numa aplicada diligência para suster a autenticidade de suas alegações extraordinárias, muitos teístas se dizem capazes de alcançar deus através da meditação e das preces, mas estas experiências não podem ser substanciadas por eventos fora de sua mente. Por outro lado, o misticismo pode ser explicado psicologicamente, sem necessidade de complicar nosso entendimento do universo criando vertebrados gasosos oniscientes, onipresentes e onipotentes. Sabemos muito bem da capacidade dos humanos em inventar mitos, ouvir vozes, delirar, alucinar e conversar com amigos imaginários. O fato de existirem bilhões de teístas aponta para uma característica da humanidade, não para uma prova cabal da existência de uma entidade superior. A Verdade não é algo que se obtém por meio de votos da maioria.

Considerando que a crença em uma divindade é um subproduto de nossa arquitetura mental e de algumas capacidades humanas que evoluíram por propósitos não-religiosos, muitos teístas não ousam tentar reconciliar suas crenças com os argumentos filosóficos ou com as evidências científicas mais atuais. Eles apenas submetem-se à crença em deus e, eventualmente, apoiam-se na afirmação de que existem leis na natureza e que estas leis constantes devem ter sido feitas por alguém – a célebre Analogia do Relojoeiro.

Ao extrapolar a logicidade com tamanho despojamento, o teísmo torna-se um tipo de raciocínio defeituoso que confunde Aceitação com Evidência. Apesar de ser fácil encontrar cientistas teístas, por exemplo, nenhum deles é capaz de atestar cientificamente a existência do ser supremo, mostrando o quanto o teísmo pertence à esfera cultural ou pessoal e que ninguém - nem mesmo os cientistas - está livre da sedução antilógica da crença irrestrita em uma divindade. No final, por costume e medo, sempre enxergamos e acreditamos primeiro naquilo que é mais conveniente para diminuir nossa inquietação frente ao desconhecido.

Apesar de tudo, a maioria dos teístas não está nem aí para a Razão ou a Lógica, tampouco para os longos ensaios de Plantinga, John Calvin, Pascal, Kant, Tomás de Aquino ou J.P. Moreland. Não que eles subestimem os apologistas ou desdenhem de modo ostensivo do método científico: a maioria dos teístas acredita em deus simplesmente porque seus pais e seus professores lhe disseram que deus existia. E talvez estes pais e professores acreditem em deus pelo mesmo motivo, algo que os especialistas comportamentais chamam de Dependência Epistêmica Mútua: somos constituídos de tal maneira que fomos dotados de uma necessidade prática para acreditarmos nos testemunhos acerca daquilo que ainda não sabemos sobre o mundo e nos permitimos influenciar profundamente por aqueles entre nós que dizem saber.

O teísmo tem sido parte da história humana nos últimos 40.000 anos e segue como um valor importante em todas as sociedades. É um fenômeno durável demais para que tenhamos alguma expectativa razoável de finalizá-lo. Não obstante, assim como a longevidade de uma teoria que resistiu à comprovação por incontáveis testes não constitui um testemunho de seu equívoco intrínseco, este mesmo fato também não legitima a veracidade de sua premissa: quem quer que acredite em deus, faz isso sem provas irrefutáveis. Quem quer que descarte terminantemente sua existência, também. Do ponto de vista estritamente intelectual e científico, o agnosticismo parece ser uma opção mais honesta que o teísmo.

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*(extraído de Sobre a Natureza e a Crise da Moralidade, em edição)

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