19 abril 2017

AS ORAÇÕES SÃO CAPAZES DE CURAR?


Não, não são. 

Em 2006, Dr. Herbert Benson, cardiologista e diretor do Instituto Médico Corpo e Mente, um órgão ligado ao Departamento de Medicina da Universidade de Harvard, conduziu um estudo monumental envolvendo 6 hospitais para avaliar o efeito da oração intercessória sobre a recuperação de 1802 pacientes submetidos a cirurgia de revascularização miocárdica. Os resultados foram simples: nenhuma melhora foi observada. As orações não produziram qualquer vantagem

Seria muito bom se o trabalho de Herbert tivesse colocado um ponto final nesse delírio de que a fé – ou as orações, seu substrato mais apoteótico – pode produzir efeitos tangíveis. 

Ao longo das últimas décadas, foram conduzidos centenas de trabalhos avaliando se a fé e as orações seriam capazes de interferir nas leis naturais do mundo. Várias testes clínicos bem desenhados estudaram o papel da crença e, em todos os casos, o efeito encontrado foi – quando muito – o de um placebo consolador.

Praticamente todas as religiões estimulam a prática da oração. Orar é um excelente modo de meditação, um expediente cordial para demonstrar empatia por uma pessoa querida e pode representar um caminho sincero para o autoconhecimento. Contudo, não raramente, as religiões apresentam as orações como recursos mágicos capazes clamar pela misericórdia divina, produzindo milagres. E é nessa parte que começam os problemas.

Veja bem: o conforto oferecido pelas orações pode resultar em benefícios para o bem estar do paciente, mas nenhum profissional de saúde sério deve contar com a premissa de que o “criador do universo” poderá ser mecanicamente requisitado para intervir no sofrimento ou na saúde de seu paciente. orar não elimina um câncer ou cura apendicites agudas - é o que as evidências científicas apontam e, se você acredita piamente no contrário a despeito dos fatos, o mais provável é que você esteja sofrendo de algum transtorno de negação da realidade ou outra forma de alucinação psiquiátrica.

Se você acredita que a fé e as orações podem afetar objetivamente a saúde de alguém, que tal dar um passo além do seu silogismo sofista e responder a algumas perguntas simples?

APRENDENDO A FAZER AS 10 PERGUNTAS CERTAS

Para melhor compreender a intensidade do delírio dentro da premissa de que “orações podem curar”, considere seriamente o seguinte:

1. Existem aspectos quantitativos no volume de oração capazes de influenciar a saúde de alguém? Em outras palavras: existe uma quantidade, uma frequência e uma duração correta para que as orações surtam efeito? Se positivo, quais são? E ainda: será que deus, como um executivo de uma multinacional, mantém uma planilha de valor para as preces, atendendo apenas aquelas que atingem patamares quantitativos expressivos?

2. Existem aspectos qualitativos nas orações capazes de influenciar a saúde de alguém? Em outras palavras: existem categorias e contextos de orações mais eficazes que outras? A qual religião elas podem pertencer? As orações podem ser expressas em pensamentos ou devem ser acompanhadas de cânticos, rituais ou sacrifícios? Se o tipo da prece é importante, será que deus age como um burocrata, acatando com mais boa vontade as petições que são apresentadas nos formulários corretos?

3. O conteúdo prático da oração importa? Em outras palavras: dependendo da doença e do nível de razoabilidade do pedido, as orações possuem uma chance maior ou menor de serem atendidas? Se isto é verdade, quais critérios deus utiliza para determinar o que é razoável e o que não é?

4. O nível de efervescência da oração importa? Neste caso, será que deus faz distinções entre “por favor, se puder”, “por favor, mesmo””, “por favor, é sério, de verdade!” e “por favor, pelo amor de deus!”?

5. A intensidade da fé da pessoa importa? Em outras palavras: uma pessoa de convicções mais profundas possui uma chance maior de ser atendida que outra com crenças menos arraigadas? E quem determina qual o nível mínimo suficiente de convicção necessária para ter uma prece atendida? Se a intensidade convicção pessoal é importante, será que deus valoriza mais a crença do crente que o mérito da petição?

6. O número de pessoas importa?  A oração tem uma chance maior de ser atendida quando é feita por uma única pessoa ou quando é feita por número maior de pessoas? E a partir de que número as chances começam a subir? 

7. As características pessoais importam? O atendimento ao pedido depende de características pessoais como idade, sexo, salário, cor da pele, nacionalidade, gentileza, disposição em perdoar, generosidade, altruísmo, tipo de religião, posição na hierarquia religiosa, experiência e habilidades com preces e afins? Se isto for válido, será que algumas pessoas são mais “iguais” perante deus que outras?

8. pessoa para quem se está pedindo importa? Em outras palavras: uma criança tem mais chances de ser abençoada por um milagre que um bandido? Quais características pessoais, sociais e morais seriam determinantes para a ocorrência do milagre?

9. A divindade importa? O atendimento da prece varia de acordo com a deidade para quem se reza? Pessoas que rezam para Alá tem mais preces atendidas que pessoas que rezam para Jesus? Existe alguma figura sagrada cuja capacidade de atendimento seja maior que outra? Será que alguns deuses são mais abordáveis que outros? Se apenas um único deus é responsável por acolher às preces, o que acontece com todos os milhões de pessoas de outras religiões que não rezam para aquele deus específico? Suas orações jamais serão ouvidas e atendidas?

10. A magnitude da resposta importa? A partir de que grau de relevância a resposta a uma oração passa a ser considerada válida? E quem define esse patamar de “validade”? Se a magnitude da resposta fosse 100%, então todas as preces resultariam em benefícios milagrosos. Isto, claramente, não é o que ocorre. Será então que deus trabalha por porcentagens? Se você pedir um elefante, ele pode aprovar apenas parte do orçamento e você termina recebendo um rato- isso estaria ok?


Estas questões podem parecer incômodas para pessoas que rezam em nome de suas convicções teológicas, mas também são incômodas para os cientistas que devem elaborar testes clínicos controlados e randomizados para sancionar abordagens diagnóstico-terapêuticas através do método científico: a fé debate por meio de crenças, ao passo que a ciência debate por meio de provas.

A religião baseia-se na fé, não em provas. A falta de provas contundentes implica que, se deus existe, ele é indiferente à humanidade ou optou por manter sua presença bastante obscura. Será que ele estaria disposto a cooperar em estudos científicos elaborados para testar sua existência?

Se deus existe e as orações têm o poder de curar, me parece que, por alguma razão misteriosa, os testes controlados e randomizados não são capazes de comprovar a eficácia desses recursos. Na verdade, quando bem desenhados e conduzidos de forma íntegra, os estudos clínicos mostram exatamente o oposto: que a fé, as preces e as orações não resultam em qualquer produto explícito ou objetivamente mensurável. 

O objetivo da ciência não é abrir as portas da sabedoria infinita, mas estabelecer um limite para os equívocos infinitos (Galileu). De onde observo, estamos ainda enterrados até o pescoço na era dos equívocos.

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